
Outono de 2.012. Os cunhenses, não só daqui, mas os dispersos por outras paragens, resolveram que era chegada a hora de invadir a rede social do Mark Zuckerberg, deixando juntar mato nas hortas de “colheita feliz” do Orkut. Cingidos com chapéu de palha e armados com enxada na cacunda partiram todos para o “Feice”. E assim que chegaram, trataram logo de colonizar o novo espaço virtual, demarcando o território com café, farinha, pinhão, preocupação com a vida alheia e muito “ar”, “er”, “ir”, “or”, “ur” para todos os lados. Porém, trouxeram consigo muitas postagens interessantes e saudosistas sobre Cunha e seu povo. Já que a Globo não mostra Cunha mesmo (nem quando houve o “L’Étape Brasil”, lembram?), nós mostramos. E do nosso jeito! Com muito sentimento envolvido, porque Cunha é nossa pátria e o nosso bairrismo interiorano “imporrrta, sim, senhorrr”.
E foi no meio de tantas postagens proveitosas e desencontradas que se ocultavam no feed de notícias e que desapareciam nos algoritmos da rede, que a doutora Vânia Zaccaro, “cunhêra raiz” e delegada de Polícia Civil, resolveu pôr ordem na casa. Teve então a ideia de criar um grupo que reunisse todas as postagens sobre Cunha. Para tal empreitada convidou o professor e escritor Victor Amato dos Santos, historiador e maestro da Banda Furiosa, para manter as publicações afinadas com o propósito do grupo. E chamou o Paulo Henrique de Campos Reis, que carrega no sangue a saga dos tropeiros, para transportar para o espaço virtual conteúdos que estivessem perdidos pelos sertões da rede social. E foi assim que, em 22 de junho de 2.012, foi criado o grupo Memória Cunhense com algumas dezenas de membros.
As primeiras postagens e colaborações foram feitas pelos próprios idealizadores, já que tudo aquilo era novidade para muitos e “nóis”, caipiras, somos ressabiados por natureza ante qualquer modernidade. O professor Victor já dispunha e publicara em seu perfil um riquíssimo material de cunhenses inolvidáveis de outrora (Tio Malaquias, Zé Veloso, Zé Varda, Seu Ubirajara, Tia Ção, Victor Amato & Maria Tereza Fornitano, entre outros). Então coube a ele inaugurar e abastecer o grupo nos primeiros dias, trazendo ao público a memória de tanta gente boa desta terra que, quando viva, era indispensável; e mesmo morta, é inesquecível. O Paulo Reis publicou o relato de seu pai, Sr. Roque Inácio, um dos últimos tropeiros de Cunha. E a Vânia resolveu aguçar a nossa memória gustativa, publicando a tradicional receita do bolinho de arroz, que tanto sucesso faz nas alvoradas da Festa do Divino, iguaria cunhense por excelência. A memória compreende várias dimensões do ser humano, passando, inclusive, pelo estômago.
À medida que o grupo ia crescendo e ganhando novos membros, o alcance das postagens se ampliava e novas contribuições foram surgindo. A quantidade de fotos e informações postadas aumentava diariamente. Os baús familiares foram se abrindo, fotografias antigas eram digitalizadas e lembranças diversas eram compartilhadas. A cada nova postagem, uma grata surpresa. Em cada surpresa, uma emoção. Para o cunhense ausente, que migrou, mas que manteve os laços afetivos, familiares e de pertencimento ligados a esta terra, relembrar é reviver. E reviver é sentir de novo. E assim, foto após foto, comentário após comentário, foi-se tecendo a memória coletiva de tanta gente dispersa e desencontrada, trazendo a lume o que foi olvidado, mas que não devia ter sido esquecido nunca. E quantos reencontros não aconteceram nos comentários? Reencontro com o passado, com o esquecido, com os parentes, com os amigos, com os lugares, consigo mesmo e com a comunidade. E quantos desses reencontros não começaram com a peculiar indagação: “Ocê é fio di queim?”. Frase-gatilho para despertar uma boa prosa e tantas reminiscências.
O professor Victor aponta que o sucesso do grupo se deve à seriedade e qualidade dos conteúdos postados, o que tornou o Memória Cunhense uma fonte de pesquisa para estudantes, professores, curiosos e interessados na História local, graças à “riqueza e precisão de informações nas publicações feitas nele quase que diariamente pelos participantes/colaboradores”, arremata.
Sem dúvida que o lançamento do livro “A História de Cunha”, pelo saudoso professor e historiador João Veloso, em setembro de 2.010, despertou o interesse dos cunhenses para com o seu passado e contribuiu para o surgimento de grupos de natureza memorialista e histórica. Sobre essa questão, o professor Victor acredita que o Memória Cunhense é um complemento ao livro do João Veloso, pois dá voz e vez ao povo cunhense para narrar a sua própria História. Esse pensamento converge com o objetivo da Vânia ao criar o grupo, pois conforme relato seu: “achei uma boa ideia reunir essas fotos, a maioria de anônimos ou pessoas que, embora não tivessem grande relevância para História oficial da cidade, estavam presentes no imaginário dos habitantes de Cunha”.
Foi também no Memória Cunhense que a ideia de se retificar a data de fundação do município de Cunha ganhou força e apoiadores, gerando muitos debates e questionamentos. Até que em 2.017, em um movimento encetado pelo professor Victor e respaldado nas pesquisas do historiador João Veloso, três audiências públicas ocorreram na Câmara de Cunha para debater a questão. Concluídas as audiências, um projeto de lei foi aprovado pelos vereadores e sancionado, posteriormente, pelo então prefeito Rolien Guarda Garcia, estabelecendo o dia 19 de março de 1.724 como data oficial de fundação do município de Cunha.
Em 2020, o grupo já contava com um acervo virtual de mais de 4 mil fotos, 50 mil comentários e mais de 7 mil membros que interagiam e colaboravam ativamente nas postagens. E tudo isso está acessível a todos, pois o grupo é público. O Memória Cunhense é único porque foi pioneiro e precursor de outros grupos similares em municípios vizinhos. É único porque tem cumprido à risca a sua missão de matar a saudade e fazer reviver o que foi esquecido. Continua firme e forte em seu propósito inicial de ser uma exposição permanente e aberta para as belezas da Cunha de ontem, de hoje e de sempre, pois, como disse o poeta:
” (…)
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão. “
Carlos Drummond de Andrade, in “Memória”.

Fontes:
Carlos Drummond de Andrade. Memória (poema). Disponível em: < https://www.escritas.org/pt/t/1779/memoria > , acesso em jun. 2020.
Grupo público Memória Cunhense (Facebook). Disponível em: < https://pt-br.facebook.com/groups/memoriacunhense/ > , acesso em jun. 2020
Relato escrito concedido pela Dra. Vânia Idalira Zaccaro de Oliveira, advogada, delegada e criadora do grupo (via Messenger). Guaratinguetá, junho de 2.020.
Relato escrito concedido por Victor Amato dos Santos, professor, historiador e criador do grupo (via Whatsapp). Cunha, junho de 2.020.
Imagens: Banco de imagens do grupo Memória Cunhense (Facebook).
Observações: Agradeço a contribuição e a gentileza da Vânia e do Victor por atender à solicitação da página prontamente, enviando os relatos que embasaram esta postagem.
Texto escrito originalmente para página do Facebook “História de Cunha” (atual Jacuhy), postado em 22 junho de 2.020.