Cunha é uma potência da agricultura familiar do estado de São Paulo, segundo os dados do Censo Agro 2017 e da LUPA 2016-2017, da CATI. Ao lado de Mirante do Paranapanema, município do extremo oeste paulista, Cunha lidera em quase todos os quesitos relacionados à agricultura familiar. Com o maior número de propriedades agropecuárias, Cunha possui a 3ª maior plantação de milho forrageiro (27,3 t), a 9ª maior plantação de cana-de-açúcar forrageira (15,3t), a 4ª maior produção de azeitonas (3t), o 3º maior rebanho de muares (246 cabeças), o 3º maior número de perus (130 cabeças) e o 15º maior número de produtores e trabalhadores agrícolas do estado. Mais de 80% das propriedades rurais de Cunha possuem horta, pomar, galináceos ou suínos, o que caracteriza a nossa produção como familiar e diversificada, embora em pequena escala. Além disso, possui o maior número de propriedades coletoras de pinhão: 91 estabelecimentos praticam esse tipo de extrativismo vegetal.
O Projeto LUPA (Levantamento Censitário de Unidades de Produção Agropecuária) é um projeto da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, que mapeia detalhadamente as áreas rurais do estado. Seu principal objetivo é gerar dados e estatísticas sobre a produção agropecuária paulista para fins de planejamento e pesquisa. O Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017 foi a principal e mais completa investigação estatística e territorial sobre a produção agropecuária do país. Foi a 11ª edição do Censo Agropecuário, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que levantou informações detalhadas sobre todos os estabelecimentos agropecuários, florestais e aquícolas do Brasil. O objetivo foi investigar a estrutura, a produção e a economia do setor. Desse modo, coletou dados sobre a área, os trabalhadores, o tipo de produção e o uso de insumos, como agrotóxicos. São essas pesquisas que apontam Cunha como potência da agricultura familiar paulista.
Cartaz demonstrando algumas das potencialidades agrícolas do município de Cunha. Fonte: IBGE e CATI. Edição, pesquisa e arte: Jacuhy.
Cunha é o maior produtor de leite do estado de São Paulo, conforme mostra a tabela abaixo. Diferente do que é anualmente divulgado nos levantamentos da “Produção da Pecuária Municipal”, que faz um levantamento baseado somente na produção registrada no Ministério da Agricultura, que é divulgada pelos laticínios, o Censo Agropecuário faz o levantamento realizando pesquisa de campo, percorrendo todas as propriedades agrícolas. Como se sabe, boa parte da produção leiteira municipal é artesanal e vem de retireiros familiares, produção essa que não aparece nas estatísticas oficiais. Com a divulgação dos dados colhidos no “Censo Agropecuário 2017”, cuja coleta aconteceu em todas as propriedades agrícolas de Cunha, obtivemos uma outra quantidade da produção leiteira, muito maior do que aquela que é registrada e divulgada anualmente pelo IBGE. O Censo Agropecuário vai além da produção registrada, considera todos os produtores, não importa o tipo ou o tamanho da sua produção e propriedade. Por isso, os dados do “Censo Agropecuário de 2017” são mais fidedignos e expressam melhor a nossa realidade e produção.
Mas tanta riqueza e fartura depende de um recurso natural imprescindível, mas pouco comentado e, às vezes, até esquecido: o solo. É um dos recursos naturais mais valiosos do planeta, essencial para a vida na Terra. Ele desempenha um papel crucial na agricultura, servindo como base para o crescimento das plantas, que são a fonte primária de alimento para humanos e animais. A formação do solo é um processo demorado, influenciado por diversos fatores como clima, topografia e atividade biológica. Estima-se que para formar apenas 1 centímetro de solo, são necessários entre 400 e 1000 anos, dependendo das condições ambientais e do tipo de solo. Esse tempo permite a decomposição de rochas e a acumulação de material orgânico, essenciais para a fertilidade e estrutura do solo. Portanto, a conservação do solo existente é crucial, dada a lentidão de sua renovação natural. A preservação da qualidade e da saúde dos solos é vital para a sustentabilidade ambiental e para a segurança alimentar global, pois a perda de solo é um problema ambiental atual, com estimativas indicando que cerca de 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas anualmente em todo o mundo. No Brasil (e em Cunha também), a erosão é um dos principais problemas, resultando na perda de aproximadamente 500 milhões de toneladas de solo a cada ano. O manejo inadequado, a formação de pastagens extensivas, a retirada de vegetação associada à declividade dos Mares de Morros, ocasionam processos erosivos que levam à perda e degradação do solo em nosso município. Por tudo isso, celebra-se em 5 de dezembro o Dia Mundial do Solo. O objetivo da data é sensibilizar as pessoas a respeito da importância de se preservar esse recurso natural que é a base e sustento da vida.
Principais tipos de solos que ocorrem Cunha. Fonte: IAC | Embrapa. Edição e arte: Jacuhy.
Esperamos que um dia os produtores rurais e os gestores públicos de Cunha possam fazer algum projeto no sentido de preservar o solo cunhense, essa riqueza que, ao longo de 300 anos de história e ocupação deste planalto, tem nos sustentando, mesmo sendo tão maltratado e degradado pela ação humana. Arado e revolvido, gradeado e cavoucado, destocado na enxada, pisoteado e tantas vezes levado pela enxurrada, o solo é um recurso natural local esquecido quando aqui se implantam projetos de conservação ambiental.
Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Fonte: IAC | Embrapa. Data: 1999.
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Referências: OLIVEIRA et al. Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Campinas: IAC/Embrapa, 1999. Mapa, escala 1:500.000. SANTOS, Humberto Gonçalves dos [et al.] Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 5. ed., rev. e ampl. – Brasília, DF : Embrapa, 2018.
Em uma segunda-feira, no dia 23 de outubro de 1944, Cunha era, finalmente, conectada à rede telegráfica nacional. Assim noticiou o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de outubro de 1944: “Inaugurado em Cunha o Serviço Telegrafico Via-Radio. A Diretoria Regional dos Correios e Telégrafos acaba de inaugurar na cidade de Cunha, neste Estado, o serviço telegráfico Via-radio, feito por intermédio da agência postal dessa localidade”. Era uma conquista para o pacato e isolado município serrano, sempre marginal quando o assunto era comunicação e tecnologia. Mas é preciso contextualizar essa benesse, pois como pontua o historiador Giovanni Levi (1992, p. 154), “a abordagem micro-histórica dedica-se ao problema de como obtemos acesso ao conhecimento do passado, através de vários indícios, sinais e sintomas. Esse é um procedimento que toma o particular como seu ponto de partida (um particular que com frequência é altamente específico e individual, e seria impossível descrever como um caso típico) e prossegue, identificando seu significado à luz de seu próprio contexto específico.” E qual era o contexto? Mundial, a Segunda Grande Guerra. E nacional, a ditadura varguista. Durante o Estado Novo (1937–1945), Getúlio Vargas promoveu a expansão das redes telegráficas no Brasil como parte de um projeto mais amplo de centralização do poder, modernização da infraestrutura e controle da comunicação, como pode ser melhor observado, em nossa região, no mapa abaixo. Na época, o telégrafo era uma forma rápida, segura e barata de comunicação, ideal para um país continental e ainda desintegrado, com suas “ilhas regionais”, como o Brasil.
Parte do Mapa das redes postal e telegráfica do departamento dos Correios e Telégrafos, mostrando a distribuição da rede telegráfica de Cunha e seu entorno. Data: 1944. Fonte: Biblioteca Nacional.
Sua implantação em nosso país, entretanto, é mais remota. Nos tempos do Império, a novidade foi rapidamente adotada. Surgida em 1844 nos Estados Unidos, já em maio de 1852 era feita a primeira transmissão telegráfica, no Rio de Janeiro, entre o Quartel-General do Exército e a Quinta da Boa Vista, palácio imperial. A mensagem transmitida teria sido um verso do poeta Gonçalves Dias: “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. Essa modernização era parte do projeto político e econômico D. Pedro II, que teve o seu auge nos anos de 1850, com a implantação de estradas de ferro, iluminação a gás, entre outras inovações, financiadas pelo superávit das exportações de café. O ministro da justiça Eusébio de Queiroz celebrou a novidade: “A comunicação dos pensamentos, das ordens, das notícias já não encontra demora na distância”. Com esta declaração ao imperador, o ministro vislumbrava a nova tecnologia a serviço dos interesses do Estado, da eficiência na administração pública e do cumprimento de suas ordens a tempo. Entre tais interesses, destacava-se a necessidade de agilizar o envio de ordens destinadas à repressão do tráfico de escravos. Mas sua expansão pelo território nacional demoraria ainda e motivou-se por razões menos nobres. Inicialmente circunscrita à província do Rio de Janeiro, a rede telegráfica conhece uma rápida expansão, mas em direção à fronteira meridional, motivada pelas necessidades impostas pela guerra com o Paraguai (1864-1870).
Notícia da instalação do telégrafo em Cunha.
O termo “telégrafo” refere-se a qualquer dispositivo ou sistema destinado à transmissão de informações por meio de sinais codificados a longas distâncias, de maneira confiável e segura entre pontos distantes, superando as limitações impostas pela geografia. Diversos sistemas telegráficos foram empregados ao longo da história; contudo, a designação é mais comumente associada ao telégrafo elétrico. Durante mais de um século, esse sistema constituiu o principal meio de envio de informações impressas, seja por meio de fios condutores ou por ondas de rádio. Concebido antes da invenção do telefone, constituiu um avanço significativo nos sistemas de comunicação. Posteriormente, desenvolveu-se a radiotelegrafia, modalidade de comunicação que utiliza ondas de rádio para transmitir sinais codificados, como o código Morse. Nesse sistema, a portadora de rádio é modulada por meio da variação de sua amplitude, possibilitando a emissão e recepção de informações em tempo real e sem a necessidade de conexões físicas entre os pontos comunicantes. Esta modalidade telegráfica é a que foi implantada na agência postal de Cunha.
Exemplo de telégrafo, no Museu Correios, em Brasília (DF). Foto: Acervo do Museu Correios.
Os sociólogos que estiveram em Cunha em 1945 não deixaram de registrar os meios de comunicação existentes ou não por aqui. Emilio Willems (1947, p. 22) escreveu: “Em 1908 foi construída uma linha telefônica entre Cunha e Guaratinguetá. Explorada por um concessionário privado, ela existiu até 1932. Em toda cidade de Cunha havia dois aparelhos apenas e nenhum na zona rural, circunstâncias essas que provam ter sido bem restrito o uso que se fazia desse meio de comunicação rápido. Na Revolução de 1932, a linha foi destruída. Somente em novembro de 1944, Cunha foi ligada à rede telegráfica do país. Desde então, parte da população urbana está se utilizando, em escala crescente, desse novo meio de comunicação que se integrou rapidamente à cultura local.” Ou seja, Willems relata que no intervalo de apenas um ano, entre a instalação do serviço e o início de sua pesquisa, os telegramas passaram a ser enviados e recebidos por boa parte da nossa população urbana, integrando-se na vida local e a integrando ao restante do país. Não é de se espantar, afinal, toda tecnologia é rapidamente absorvida, pois facilita a vida social e agiliza a transações comerciais de qualquer lugar.
Sobre o telégrafo, um fato anedótico ocorreu nos anos 1950 e foi registrado nas memórias do juiz da comarca de então (Azevedo, 1984, p. 39-41). A luz elétrica de Cunha era péssima. A Usina Hidrelétrica do bairro do Encontro não conseguia suprir a cidade de eletricidade suficiente. Faltava luz quase toda a semana. E, quando tinha, era mortiça. Era a “luz do Zé Saninha”, sinônimo de fraqueza na gíria popular cunhense. Assim, bem precavidos, toda casa da cidade tinha um lampião à querosene, para os dias em que o dínamo da Usina falhasse. E este não decepcionava: falhava dia sim, dia também. O prefeito Antonio Accacio Cursino não sabia mais o que fazer. Vai que falha na véspera da eleição? Seria um desastre… eleitoral. Já tinha, em vão, perdido um dos olhos tentando consertar o motor da Usina. Nesses dias de lida mecânica contava com o apoio técnico do Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense, de saudosa memória, que era, entre outras coisas, mecânico nas horas vagas. Lescar sempre consertava o motor da Usina, mas, certa vez, constatou que não havia mais reparo possível a ser feito. Era um motor do início do século XX. A Usina tinha sido construída em 1923, nos tempos do Coronel João Olympio. E Cunha já estava a 15 dias sem luz elétrica. O único jeito era reparar o motor em São Paulo. Coube ao advogado-mecânico a empreitada de levar o fundido para ser consertado em São Paulo. E ele foi. Pôs o enguiçado na camioneta da Prefeitura e desceu o morro do Facão, rumando para Guaratinguetá e, de lá, para a capital bandeirante. Passaram-se quinze dias e nada. O povo estranhava e indagava: “cadê o motor?”. E reclamava. E o Cursino não sabia mais que desculpa inventar para seus eleitores. Até que, em uma tarde, o carteiro sobe, apressado, as escadas do sobrado do Paço Municipal, no Alto do Cruzeiro, e entrega um telegrama ao prefeito. O remetente era um velho amigo cunhense, residente em São Paulo. A mensagem era esta: “PREFEITO MUNICIPAL DE CUNHA / DOUTOR LESCAR SEGUE HOJE MORTO / PT SAUDAÇOES” A notícia ruim se espalhou rapidamente. “Uma hora depois, a cidade de Cunha se revolucionou consternada e enlutada. Ninguém queria acreditar naquela notícia desalentadora, mesmo porque, aquilo significava o fim de muitas esperanças de luz”. Inacreditável! O Dr. Lescar havia falecido… Mas a tristeza, para felicidade geral, foi curta. Dezesseis horas depois, ouve-se o barulho do arranque da camioneta da Prefeitura vencendo o morro do Facão: nela estava o Dr. Lescar vivo! Trazendo consigo o motor restaurado para alegria de seus patrícios. Festa na comuna. Alívio para familiares e amigos, que não eram poucos. À noite, com Cunha novamente iluminada, se esclarece o mal-entendido. Antes de partir para Cunha, Lescar almoçara com um velho amigo e conterrâneo e solicitou que ele fosse até a agência dos Correios e remetesse um telegrama ao prefeito de Cunha informando sua partida com o motor consertado. E assim o amigo o fez. Acontece que o telegrafista, displicente, trocou o “R” de lugar e, em vez de telegrafar “MOTOR”, telegrafara “MORTO”, causando toda a confusão. Os telegramas precisavam ter uma mensagem curta e direta, sem acentos ou sinais gráficos, o que agilizava o envio, mas abria margem para muitos equívocos e confusões, como foi esse caso. Quanto ao motor, logo voltaria a morrer deixando Cunha às escuras, problema que vai se arrastar até o ano de 1958, quando o Governo Estadual construiu a Usina Hidrelétrica da Cachoeira da Pimenta, sanando a questão da iluminação.
Com relação à chegada do telefone a Cunha, a data apresentada por Willems difere daquelas que nossa pesquisa encontrou nas hemerotecas digitais. As primeiras notícias encontradas sobre o assunto, de um projeto de linha telefônica conectando Guaratinguetá a Cunha são de 1915. Sendo que em 13 de junho de 1916, aparece no jornal “O Estado de S. Paulo” a notícia que que José Florindo Coelho, concessionário da Rede Telefônica Nossa Senhora Aparecida, partindo de Guaratinguetá, deu início à instalação de uma linha telefônica almejando estendê-la até a cidade de Cunha. Essa informação aponta que a instalação ocorreu oito anos depois da referida data apresentada por Willems. Não se sabe qual fonte (oral ou documental) o sociólogo alemão utilizou para cravar a instalação da linha telefônica em 1908. Quanto à sua destruição em 1932, não resta dúvida. O Dr. Pedro Martha, juiz de direito em Cunha nos dias de 1932, relata para Castro Junior (1935, p. 13) o que houve com o telefone: “Os marinheiros estraçalharam o telephone e como temessemos um novo ataque, fui com um rapaz daqui, Geraldo Nascimento que tambem tomára parte na refrega, collocar um apparelho velho, nos muros do Cemiterio. Conseguimos relatar tudo ao delegado de Guará Dr. Venancio Ayres e no dia seguinte chegavam as forças.” Como se extrai do excerto, mesmo atacado, o telefone continuou funcionando. Precariamente, como sempre foi. E durante o conflito que se estendeu em nosso município, entre julho e setembro, as linhas telefônicas foram ampliadas e funcionaram perfeitamente, graças aos serviços dos técnicos do Exército Constitucionalista. Um dos tais, Clementino (1935, p. 98) informa: “Na Delegacia, já havia uma rêde telephonica para Guará, Uzina, Q. G. e Reducto.” E mais (p. 98): “Estendemos o fio telephonico até perto de Apparição a 18 kilometros de Cunha”. E ainda (p. 101): “os fios telephonicos iam até a fazenda do ‘Quim Prudente’ [bairro do Cume].” E conclui (p. 124): “Dias depois da nóssa installação e quando quasi todas as trincheiras tinham telephones e probabilidades de mais promptamente receberem auxilio.” Ou seja, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, Cunha chegou a ter uma ampla rede telefônica, funcionando até mesmo na nossa zona rural. Vicissitudes da guerra. É de se supor que foi arrancada na retirada do Exército Constitucionalista, ocorrida em setembro de 1932, ou foi destruída pelas tropas federais, que ocuparam a cidade logo em seguida. O fato é que não foi mais restabelecida, deixando Cunha sem contato telefônico com outras cidades pelas próximas décadas.
Notícia da instalação da rede telefônica entre Cunha e Guaratinguetá.
Em 1966, segundo Shirley (1977, p. 310), havia 93 telefones em Cunha. Uma quantia razoável, tendo em vista o percentual de moradores da zona urbana. Suprimida desde 1932, a conexão telefônica tinha sido restaurada há pouco tempo, quando Shirley esteve em Cunha fazendo suas pesquisas. Em suas memórias (1984, p. 196), o ex-juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo, escreve indignado: “Na minha Comarca não havia telefone; o telégrafo funcionava precariamente e nesse dia estava interrompido; a estrada, no tempo das chuvas, mais parecia uma trilha de índios.” Havia falecido o desembargador Paulo de Oliveira Costa (que, aliás, é o patrono do Fórum de Cunha) e ele, que estava em Cunha, não ficou sabendo de nada e não pode comparecer ao velório. Era novembro de 1960. O enérgico juiz não deixou barato. Em 30 de junho de 1961, reúne os moradores da cidade no Fórum e, por intermédio seu, traz até Cunha os representantes da Companhia Telefônica Tupi, de Taubaté. É feito um acordo entre os moradores e a empresa. Se pelo menos 50 pessoas comprassem o aparelho e assinassem o contrato com a Tupi, ela proveria a cidade de ligação telefônica. Cada aparelho custava 40 mil cruzeiros. O acordo é fechado: colheram-se mais de 70 assinaturas no dia. As ligações interurbanas seriam realizadas por micro-ondas, através da estação de Paraibuna. Encerrava-se uma das mais antigas reivindicações de Cunha, que levou o prefeito de Cunha, naquela época, Osmar Felipe a apelar até para o poeta Guilherme de Almeida, que solidário ao povo de Cunha, usou, inclusive, a sua coluna no Estadão para transcrever o ofício enviado pelo prefeito (O Estado de S. Paulo, 19 fev. 1960, p. 5), reforçando o pedido endereçado ao Governo Estadual que se restabelecesse a linha telefônica de Cunha. O “príncipe dos poetas” havia lutado em Cunha, em 1932, e tinha um carinho especial pelos “cunheiros”. Amizade nascida nas trincheiras.
Antiga central telefônica de Cunha, na Praça Prudente Guimarães. Atualmente, no prédio está instalado o Conselho Tutelar. Data: década de 1960. Arquivo: Prefeitura Municipal de Cunha.
O impacto dessa tecnologia de comunicação foi modesto em seus primórdios. Além de não haver nenhuma ligação telefônica na imensa zona rural de Cunha, Shirley (1977, p. 196) aponta que apenas uma linha ligava Cunha e Paraty com a cidade de Guaratinguetá e de lá com as outras cidades do país. O serviço interurbano era, portanto, “demorado e irregular”. Uma chamada para a capital, por exemplo, demorava de meia hora até doze horas para ser feita. Um tempo impensável nos dias de hoje, mas que já naquela época limitava muito o uso do telefone em Cunha, a ponto do próprio antropólogo considerar seu impacto sobre a tradição local praticamente nulo, uma vez que seu uso era restrito, limitado e intermitente.
Atualmente, o uso do telefone fixo é cada vez mais raro, devido ao avanço da telefonia móvel e dos aplicativos de mensagens instantâneas, que funcionam via internet e estão nos smartphones de quase todas as pessoas. Por outro lado, os Correios afirmam que no primeiro semestre de 2024, 1,5 milhão de telegramas foram enviados no Brasil, uma média de 8 mil correspondências por dia. Não mais, obviamente, por rádio ou por cabos elétricos, mas pela internet. Atende, assim, os interesses das empresas e órgãos públicos que precisam notificar, cobrar ou comunicar determinada pessoa física ou jurídica por escrito, de forma oficial e confiável.
A comunicação sempre foi um problema histórico de Cunha, nosso gargalo, que múltiplos impactos trouxe sobre a economia e a sociedade. Já em 1945, Willems (1947, p. 164) concluía: “A fundação e história de Cunha ligam-se à existência de uma das grandes estradas imperiais por onde o interior se comunicava com o porto de Parati. Modificada a rede de comunicação pela construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, Cunha entrou numa longa fase de isolamento e estagnação econômica, interrompida somente em tempo muito recente pela construção de uma rede de rodovias intra e intermunicipais”. A estagnação prosseguiu, porque nem toda rede de estradas é capaz de gerar fluxos rápidos o suficiente para atender às demandas do capital. Ainda hoje, fechando o primeiro quartel do século XXI, sofremos em Cunha com a falta de internet nos dias chuvosos ou quando incendeiam a Serra do Quebra-Cangalha. Os cabos de fibra óptica que nos conectam ao mundo são precários e nos fornecem um serviço lento, sofrível e intermitente. Funcionam aos trancos e barrancos. Como foi o telégrafo, o telefone, o rádio e o televisor. Cunha nunca muda. É o que dizem…
Imagem de capa: Meramente ilustrativa, de uma agência postal com serviço telegráfico, gerada por inteligência artificial.
Referências:
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Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:
“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.
Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.
Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.
O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.
As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.
A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.
A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.
Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.
Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.
De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.
A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.
Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.
No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.
Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”
Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.
O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.
Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.
O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.
Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.
Cunha era um mundo à parte. A indiferença dos cunhenses para tudo o que era “de fora” era a regra. Isolada pela geografia, marcada por uma economia autóctone e de subsistência, o município margeou o século XX. Com sua ânsia pelo progresso e por suas agitações várias, o século XX chegou tarde em Cunha. Foi atingida, sim, pelas ideologias do tempo, mas tarde, no último quartel do século passado. Providencial atraso para muitas tradições, que aqui resistiram, mas inútil para os casarões de taipa e pau-a-pique, que sucumbiram em nome do progresso, das “modernas” e insossas casas e prédios de alvenaria. A praça da Matriz atual é outra coisa. Mesmo tombada e centro da vida social, não se iguala a que foi demolida. A praça era sinônimo de cidade.
Alguém pode comentar: “Nossa, Cunha parecia Paraty!” Sim, parecia mesmo. Todos os que aqui passaram – e deixaram suas impressões escritas – foram unânimes em sentenciar sobre o aspecto urbano colonial de Cunha. Cidade colonial sobre o outeiro, compacta, esbranquiçada, avistada de longe. Emilio Willems, que aqui esteve em 1945, observou: “Quase todos os prédios da cidade alta [da praça] são antigos, tendo alguns deles mais de cem anos. Casas térreas na maioria, apresentam elas, na sua arquitetura externa, o aspecto comum das pequenas cidades brasileiras do século XIX (…) na cidade alta não há mais de uma dúzia de prédios construídos nos últimos dez anos. Alguns destoam consideravelmente da arquitetura tradicional, mas, a despeito de todas as diferenças que os distinguem dos prédios vizinhos, a homogeneidade estética da cidade, vista como um todo, não foi quebrada”.
Aquele foi o tempo das jardineiras. Das estradas de terra e barro nos dias de verão. No inverno; de poeira. O sociólogo Emilio Willems no livro “Cunha – Tradição e Transição em uma cultura rural do Brasil” (1947) registrou a seguinte informação: “Até 1932 as famílias locais viajavam em carro de boi levando dois dias para percorrer os 49 quilômetros entre Cunha e Guaratinguetá. Os homens usavam o cavalo, mas fazer a viagem num único dia era considerado um tanto penoso. Atualmente, em tempo seco, a jardineira leva três horas para ir de uma cidade à outra. O automóvel percorre a mesma distância em uma hora e meia, mas em dias chuvosos, a estrada torna-se quase intransitável para veículos motorizados”.
Em 1932, em razão do conflito que se desenrolou nestas paragens, a estrada entre Cunha e Guaratinguetá foi arrumada e tornou-se transitável. Um legado positivo da guerra civil, que tantas desgraças nos trouxe. Ainda que a viagem fosse uma verdadeira saga. Sobretudo quando chovia. Maria de Lourdes Andrade Noronha, que foi professora no bairro do Monjolo, em 1948, relata, em seu romance “Desencontro” (1971), alguns contratempos vividos nesse trajeto: “O céu despejava água quase ininterruptamente. Por toda parte, alagadiços e estragos nas plantações. As professoras de sítio ficaram retidas uns dias em cidades vizinhas, até que as jardineiras de Cunha [chamada de Santo Antônio da Serra no romance] voltassem a circular pelas estradas então, intransitáveis (…). Depois de uns dias de sol, a empresa Rodoviária publicou que seus carros subiriam as serras sem maior perigo para os passageiros. A jardineira foi mal lotada com alguns viajantes de casas comerciais, poucos sitiantes e meia dúzia de professoras. Viagem de interrupções para desatolar daqui, contornar por lá, ou fazer descer os passageiros quando o terreno não oferecesse garantias. Assim mesmo ia tudo relativamente bem, porque isso não era surpresa. Só uma preocupação bailava em cada cabeça: recomeçara a chover. As águas do rio voltariam a subir até o instante em que tivessem de atravessá-lo. (…) Ao chegarmos a Cunha, comentavam as passageiras, nossa jardineira será alvo de desusada curiosidade por estar a cidade alheada do resto do mundo há vários dias. A previsão foi decepcionante. A gente do lugar, os ‘cunheiros’ como eram apelidados por troça, pelos habitantes de cidades vizinhas, não deram a menor importância à complicada viagem daqueles que vinham Ihes trazer algo para suas necessidades materiais e intelectuais: os representantes de firmas comerciais, as professorinhas de roça e o Correio. Na realidade os ‘cunheiros’ que assistiram ao desembarque dos viajantes estremunhados, quiseram apenas constatar, com os próprios olhos, se a empresa Rodoviária havia restabelecido o tráfego com esse punhado de gente e bagagens, que em verdade, conseguira transpor o rio. Com a chuvarada de todos os verões estavam acostumados a isso, e desta vez parece, nem ligaram aos jornais e à correspondência, amarrados com cuidado nas cabeças das cavalgaduras. Possivelmente porque não esperavam mais por elas, ou por acharem que vinha tudo velho, como alimento preparado há dias”.
É a crônica de uma época. Finda, mas inolvidável. Uma viagem pode ser esquecida, mas uma viagem em que se faz o transbordo no lombo de mula, porque a ponte submergiu alagada, não. Foi o tempo dos percalços, com sua pobreza e carestia. Todavia, um tempo em que a vida era vivida sem pressa. Parece que havia mais tempo para se viver tudo com a intensidade necessária, tempero indispensável para transformar dias comuns em momentos inesquecíveis.
Foto de capa: Praça da Matriz, em Cunha (SP). Autor: João Arantes. Data: final dos anos 1930. Observação: colorização feita por inteligência artificial.
Era um domingo, 20 de abril de 1958, dia em que se comemorou o “Centenário de Cunha”. Celebração que tomou por base a data de 20 de abril de 1858, quando Cunha foi elevada à categoria de cidade. Como já discutimos aqui e em outros lugares, essa data não teve relevância histórica. Voltemos ao assunto do post.
Em Cunha temos apenas um monumento referente à Revolução Constitucionalista de 1932. É o dedicado a Paulo do Virgínio (alcunha de Paulo Gonçalves dos Santos). Um trabalhador rural do bairro do Taboão, que durante a guerra civil foi torturado e fuzilado por um grupo de soldados da Marinha, a saber: o 1º tenente Ayrton Teixeira Ribeiro, o sargento Roque Eugênio de Oliveira e os soldados Juvenal Bezerra Monteiro, Ascendino Gomes da Silva Dantas e Raymundo Jeronymo da Costa, integrantes do corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil. Todos foram absolvidos Supremo Tribunal Militar. Mataram um civil e foram julgados por um tribunal militar. Era possível esperar justiça?
Os restos mortais de Paulo Virgínio foram transladados de Cunha no dia 7 de julho de 1955, após celebração de missa na Igreja Matriz. Daqui partiu para ser sepultado, de forma definitiva, no Mausoléu dos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera, na capital. O cortejo do “herói de Cunha” foi acompanhado durante todo o trajeto pelos batedores da Força Pública (Polícia Militar).
O Monumento, entretanto, foi erguido em 1958. Assim informou o Estadão (22 abr. 1958):
Vídeo da inauguração do Monumento a Paulo Virgínio, em 20 abr. 1958. Filme feito pelo Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense. Evento filmado em 16 mm preto e branco, com câmera Bell & Howell Filmo 70 ou Bolex H16, a 18 quadros por segundo, utilizando filme pancromático Kodak Plus-X. Digitalização feita na década atual. Acervo: Família Mendes.
“Cunha prestou domingo último, por ocasião dos festejos comemorativos do seu centenário de fundação, tocante homenagem aos heróis de 32. A nove quilômetros da cidade, em cerimônia que reuniu mais de cem veteranos de 32, sob o comando do general Valdemiro Meirelles Maia, foi entregue ao povo um monumento a Paulo Virginio, herói de Cunha, no mesmo local onde tombou, metralhado pelas tropas da Ditadura.
Apesar das dificuldades de transporte, agravadas pelo mau tempo, o povo participou quase em sua totalidade das comemorações do centenário. Às 12 horas e 30, estudantes, autoridades, veteranos de 32 dirigiram-se em caminhões lotados, para o local da cerimônia de inauguração do monumento a Paulo Virginio. Lá chegando, depois do toque de marcha batida, o general Valdemiro Meirelles foi solicitado a assumir o comando do pelotão de veteranos de 32. Estes se apresentavam com capacetes, e eram chamados por ordem hierárquica. À frente deles, senhoras paulistas de 32, todas de preto, postavam-se em fila. Entre as presentes anotamos as seguintes sras.: Julieta Nunes Pereira, representando, também, o Clube Piratininga; Adelaide Correia Ribeiro; Rosa Lanza de Castro; Edith Pereira da Silva.
Antes do descerramento do monumento, o gen. Valdemiro Meirelles pronunciou algumas palavras de improviso, iniciando por dizer que se encontrava ali para suavizar saudades. Ali, naquele mesmo local, lutara por São Paulo, lutara pelo Brasil. Considerando as causas da Revolução Constitucionalista, declarou que São Paulo sofrera uma injustiça, na época, ao se lhe atribuir ideais separatistas. “Nada mais falso pois só é fundamentalmente brasileiro quem é fundamentalmente paulista. O povo queria apenas a Constituição, o direito de votar, de escolher”. Referindo-se, depois, ao nível de politização do povo, o gen. Meirelles declarou que se “naquela época eu comandei paulistas desarmados, hoje comando paulistas armados de civismo. A cruz é, antes de tudo, uma escola de civismo”, terminou o orador, apontando para o monumento a Paulo Virginio, que tem a forma de uma cruz. Referiu-se, também, o orador, à personalidade de Paulo Virginio, o caboclo que preferiu morrer a revelar às tropas invasoras o local da defesa paulista.
Página do jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1958, noticiando a inauguração do Monumento e o “Centenário de Cunha”. Fonte: Acervo Estadão.
Foi prestada, depois, continência à bandeira brasileira, que foi içada pelo prefeito local, sr. Antonio Acacio Cursino. Na ocasião, além do próprio prefeito, falaram vários veteranos de 32, entre eles o sr. Mercio Prudente Correia, Cesar Salgado, o juiz de Direito da Comarca, dr. Paulo de Campos Azevedo, que agradeceu em nome de Cunha, o monumento a Paulo Virginio, dona Julieta Pereira Nunes, representando a mulher paulista, que foi convidada a descerrar o monumento, coberto com a bandeira de São Paulo. Precedeu o ato o toque de silencio, realizado por um veterano de 32. Em seguida, foi realizada a cerimônia da benção do monumento pelo padre Rodolfo Ignácio que oficiou, depois, missa campal. Em vista da chuva que caia abundante, após a missa rumaram todos para Cunha, a fim de participarem de um banquete, no Hotel Paulista.
O monumento a Paulo Virginio está situado numa elevação, no bairro do Rio Abaixo, no município de Cunha. É antes um túmulo, todo de granito sobre o qual uma grande cruz se ergue. Na lápide, numa placa de bronze, lê-se o seguinte epitáfio: ‘Aqui, aos 28 de julho de 1932 morreu Paulo filho de Cunha, herói e mártir fuzilado pela Ditadura. Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, no seu 25ª aniversario’.”
Obviamente, tal monumento só pode ser inaugurado após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), que censurava qualquer manifestação de orgulho paulista, sobretudo aquelas que se fundamentavam na Revolução de 1932. Em 1958, o Brasil gozava de um regime democrático e expressar o orgulho de ser paulista estava na moda, consequência das celebrações exaltadas de 1954, ano em que a cidade de São Paulo celebrou, com pompa e ufanismo, seu IV Centenário de fundação.
Paulo Virgínio foi o herói caipira que a Revolução precisava. Torturado e morto por fuzileiros navais, que foram absurdamente absolvidos, sua morte foi um prenúncio dos tempos sombrios que viriam 32 anos depois.
Foto de capa: Inauguração do Monumento a Paulo Virgínio. Observação: foto colorizada por inteligência artificial. Detalhes: No centro, discursando, o juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo. No canto direito, vê-se o Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado, jornalista e cinegrafista, segurando sua câmera. Foto postada, inicialmente, pelo blog “Tudo Por São Paulo 1932”. Sem autoria conhecida. Data: 22 abr. 1958. Local: bairro do Rio Abaixo, Cunha (SP).
Localização do Monumento a Paulo Virgínio (SP 171 – Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti):
A impressão de todos os pesquisadores e autores que escreveram sobre Cunha, até metade do século XX, era a mesma: uma cidade colonial, um rosário de casas brancas entre as montanhas.
A destruição do casario colonial foi obra recente. Operaram, em consórcio, duas frentes demolidoras: uma exógena, ideológica, gerada pelo capitalismo brasileiro, associando o passado ao atraso econômico, cujo mote foi “São Paulo não pode parar”; e a endógena, psicossocial, gerada pela mistura entre pobreza, analfabetismo e ignorância das elites locais. Essa combinação de forças do atraso pôs abaixo parte de nossa história.
O progresso, esperado, não veio. Entretanto, serviu para desfigurar uma paisagem cultural secular, transformando nosso centro urbano em uma cópia de todos os outros.
Nesta foto, pode-se perceber que, ainda em meados dos anos de 1960, Cunha conservava seu aspecto colonial. A margem sul da Rua Major Santana, por exemplo, era formada por quintais do casario central, com hortas e árvores e tudo o mais. Roças de milho, esse cereal civilizador, margeavam a cidade, mostrando que a vida urbana era mais telúrica que o “morar na roça” nos tempos atuais.
Foto de capa: Autoria: Robert W. Shirley. Data: 1965/1966. Local: centro de Cunha, em tomada da Praça do Rosário. Detalhes: Nota-se o predomínio de casarões em estilo colonial, de taipa ou pau-a-pique, com quintal nos fundos. As casas da praça Cônego Siqueira tinham quintal para a rua Major Santana. Observação: colorização feita por inteligência artificial.
Não se pôde falar em berço, que não venha logo a mente a caminha do bebê, com balanço ou fixo, de pau a pique ou dourada, conforme a bolsa dos respectivos genitores. A propósito: o Ilustrado dr. Laurindo Minhoto, velho professor e advogado, hoje em sua tebaida de Tatuí, conversava sobre essa história de se escrever “progenitor” como pai da criança, quando o termo exato, em boa linguagem e com vistas ao purismo gramatical, é “genitor”, que gera…
Estávamos em sua esplendida residência, em meio a livros, dicionários etc., no dia em que fomos representar s. exc. o sr. dr. Mario Lins, ilustre Secretario da Educação e Saúde Pública, no banquete das normalistas.
E o notável mestre, prosseguindo na sua explanação, latinista que é, insistia: Veja você, seu Lellis, “progenitor” e avô, isto é, pai do pai e não pai da gente! Explique isso numa das suas crônicas.
“Fiat voluntas tua”, seja feita a sua vontade. (S. Mateus, cap. XXII, v. 42). Por isso, obedeçamos ao mestre quando escrevemos: pai não é “progenitor”, é avô; pai é “genitor”. Confere. Toque o trole.
Fechado o parêntesis, voltemos ao berço. Berço e também a santa terrinha, onde se deixou o “imbigo” e onde se abriu o olhinho marreco pela primeira vez. Haja o cabra nascido em Caixa-Pregos ou Cascos de Rolha, seja o que for o povoado que lhe ouviu primeiramente o nhé… nhé… nhé… nhé… grande, pequeno, bonito, feio, atrasado ou progressista, ele o deve amar entranhadamente!
Pode ser que algum filho ingrato despreze o seu torrão, mas fique desde já acentuado, que no mínimo não é grande coisa… Sim! Urge cultuar a sua terra, porque é uma prova de bons sentimentos, de sensibilidade afetiva e de caráter eréctil. Para nós, sujeitinho pernóstico, que esconde o solo do seu nascimento, por ser uma terrinha modesta, simples, sem progressos e outros animais ferozes, não vale duas pitadas. Passe de largo. Até logo, oh coisa!
Estamos, nesta altura da crônica, seguindo para a invicta Cunha, a santa terrinha, como dizem saudosamente os portugueses, lembrando a poesia das suas aldeias e o encanto das suas paisagens.
Vamos lá passar um dia, domingo. Matar um pouco as saudades. Viemos dali com 10 anos, já se vão 51 janeiros puxadótes. Ha pouco ainda estivemos revendo os panoramas indescritíveis das suas visões serranas. É uma encantadora maravilha de clima. Um assombro de frutas as mais europeias, desde a cereja às nozes.
Povo admiravelmente bom. Criaturas que tiram a camisa do corpo para servir. Espírito simples, sem o artificio das máscaras móveis, sem fingimento dos gestos estudados. Concordia nos homens. Paz nas famílias. Tranquilidade nas almas.
Se alguma vez, uma ou outra divergência se assinala entre as ótimas pessoas do lugar, logo o ramo de oliveira se estende sobre os pequeninos desentendimentos e a vida prossegue no ritmo harmônico da melhor união de vistas.
Em 1937, nossa última visita a joia da Mantiqueira, chamada Cunha, recordamos saudosamente o “tempo será, de missiocó, laranja da China, tabaco em pó, quem é o mais durão, sou eu só só”… Depois, a tal de angina pectoris deu de brincar com a crônica, (mas levou no côco, foi-se! que a barreu! e isto porque a paquera era e é cunhense, rija, da boa) e só agora podemos dar um pulozinho aquele presépio que Nosso Senhor perpetuamente construiu nos picos da serra Quebra-Cangalha.
Quanta coisa linda e evocativa temos para ver e recordar na santa terrinha! O Cruzeiro, que o padre Bartholomeu Taddei, há 50 anos, plantou no Alto da Cadeia; o chafariz (ainda o mesmo) que o saudoso dr. Casimiro da Rocha inaugurou fazendo jorrar o líquido… que “pau d’água” não bebe; a chácara pitoresca do ilustre cunhense Juca Pereira; a casa do Chico Mendes, que acordava a população às 5 da manhã, tocando tambor numa caixa de querosene; a residência, com terraços, do inesquecível João José Vaz; o mercado antigo (quitanda) onde havia coqueiros magníficos com os devidos coquinhos amarelinhos; a Cachoeira, a Várzea do Gouvêa, a chácara da Calina, a chácara do Juca Bangu, o Bexiga, a chácara do Zé Joaquim, o sobrado do vigário padre Gomes, notável por suas pinturas internas representando episódios heroicos do Paraguai; a Igreja da Lapa, que caiu; a Igreja do Remédio, que também não existe mais; a capela de S. José, o Taboão, a escola do Rocambole, a fazenda Rio Abaixo, o sítio do Ladislau… Como tudo isto tem um sabor “irredutível ao verbo”, na frase de Eça de Queiroz!
E as festas de S. João, as fogueiras, a folia, a bandeira do Divino, os tocadores de viola, pandeiro, rufo… Havia um deles, um tal Claudio, turuna nas rufadas! E o “Império” com distribuição de cartuchos de doce. E a Semana Santa, todos de preto…
Vinham de outros lugares dois padres para ajudar o cônego Siqueira, um deles, o padre Velludo, com uns lenços de rapé muito molhados, estendidos na janela… pra enxugar!
E o “Tôco”, o cachorro do vigário, sempre ao lado do inesquecível sacerdote!
Vamos, rumo a Cunha, passar em revista, pela memória, todo esse tempo que não se apaga, corram os anos ou “carequem-se” as… cabeleiras!
Bendita sejas tu, oh terra do paraíso, onde se perpetua a saúde, onde se ouvem as harpas do heroísmo, cantando eternamente os salmos da vitória!
João Lellis Vieira nasceu em Cunha, a 15 de julho de 1880, e faleceu na cidade de São Paulo, a 5 de junho de 1949. Foi jornalista, historiador, cronista e poeta. Chegou a dirigir a Repartição do Arquivo Público do Estado de S. Paulo e o Departamento Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Ajudou a criar o personagem “Juca Pato”, o qual se tornou o nome e o troféu do prêmio “Intelectual do Ano”, concedido anualmente pela União Brasileira de Escritores (UBE). O personagem Juca Pato, que personificava a frustração da classe média paulistana, foi imortalizado pelo chargista Belmonte. Esta crônica, “Rumo ao berço”, foi publicada no jornal “Correio Paulistano”, em 9 de março de 1941.