“[…] a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades […] Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis”.
(Aziz Ab’Sáber, in “Domínios de natureza no Brasil: potencialidadesPaisagísticas”, 2003)
Os nomes dos lugares constituem um importante patrimônio cultural e histórico, pois revelam aspectos da paisagem, da ocupação humana e das formas de vida que moldaram um território ao longo do tempo. No município de Cunha, a análise da toponímia dos bairros rurais permite compreender elementos fundamentais de sua formação histórica e geográfica, que remonta ao século XVII, quando as primeiras sesmarias foram doadas na região. Mais do que simples denominações, esses nomes registram a relação entre os habitantes e o espaço, funcionando como verdadeiros documentos da memória coletiva.
Uma das características mais marcantes da toponímia cunhense é sua estreita ligação com o meio natural. Diversos bairros receberam nomes inspirados na vegetação local, como Pinhal, Cedro, Figueira, Guabirobas, Pessegueiro e Angico. Outros fazem referência direta aos recursos hídricos, como Rio Acima, Rio Abaixo, Córrego Fundo, Cachoeirinha e Paraibuna. O relevo também aparece frequentemente nas denominações, como em Serra do Indaiá, Alto da Bocaininha, Pedra Branca, Mato Dentro, Cume e Várzea. Esses nomes evidenciam que a identificação dos lugares ocorreu a partir da observação direta da paisagem. Em uma sociedade rural, onde rios, montanhas e matas serviam como referências para deslocamento e sobrevivência, a natureza tornou-se a principal fonte de orientação geográfica.
Croqui esquemático de bairro rural, gerado por IA. Fonte: Chat GPT.
A presença de numerosos topônimos relacionados às atividades agrícolas e pecuárias demonstra a forte origem rural do município. Nomes como Curral, Curralinho, Cocho, Paiol, Sítio, Fazenda, Retiro, Campo e Vargem remetem diretamente ao cotidiano das propriedades rurais e ao universo da produção agropecuária. A ocupação histórica de Cunha ocorreu de forma dispersa, baseada em sítios e fazendas distribuídos pelo território montanhoso. Dessa forma, a paisagem rural deixou marcas permanentes na nomenclatura local, refletindo a importância econômica e cultural da agricultura e da criação de animais para as comunidades cunhenses.
Entre os nomes mais recorrentes, destacam-se aqueles relacionados aos paióis. As denominações Paiol, Paiol Queimado, Paiol Velho e Paiolzinho aparecem em diferentes regiões do município, totalizando aproximadamente nove ocorrências. Essa frequência sugere a relevância dessas construções para a vida rural, já que os paióis eram fundamentais para o armazenamento de grãos, como o milho. A repetição do termo reforça o papel histórico da agricultura como base da economia local. O milho foi o sustentáculo econômico do município durante os séculos XVIII e XIX. Seu cultivo era voltado para alimentação local, cujo prato principal era quirera com feijão, e para a suinocultura. Cunha foi o maior produtor de toicinho da Província de S. Paulo. Sua produção agropecuária alimentou as fazendas de café do Vale do Paraíba. Outros nomes bastante comuns são Boa Vista e Mato Dentro. O primeiro aparece associado a diferentes localidades e geralmente indica áreas elevadas com ampla visibilidade da paisagem, típicas dos Mares de Morros. Já Mato Dentro remete à ocupação de áreas originalmente cobertas por vegetação densa, evidenciando o avanço gradual do povoamento sobre a Mata Atlântica da região.
Núcleo do bairro do Sertão do Pinhá, com sua capela e escola rural, na região leste do município de Cunha, próximo ao limite com Paraty (RJ). Foto: Paulo Cesar. Data: 2023.
A influência da religião católica também se manifesta de maneira significativa na toponímia do município. Bairros como Santa Rita, Santa Cruz, Divino Mestre, Ribeirão das Almas e São Roque revelam a importância da Igreja na organização social e territorial durante os períodos colonial e imperial. Em muitas áreas rurais brasileiras, as capelas constituíam o principal núcleo de convivência comunitária, reunindo moradores em celebrações religiosas, festividades e atividades coletivas. Assim, a presença desses nomes reflete não apenas a religiosidade dos habitantes, mas também o papel das instituições religiosas na formação das comunidades locais.
Outro aspecto relevante é a presença de topônimos derivados de nomes de pessoas e famílias, fenômeno conhecido como antroponímia. Exemplos como Antônio José, Sertão dos Marianos, Paraitinga dos Motas, Várzea do Joaquim Rosa, Galvão e Barra do Chico do Lau e do J. Alves indicam a influência de antigos moradores ou grupos familiares que desempenharam papel importante na ocupação dessas localidades. Essa característica revela um processo de colonização baseado em núcleos familiares dispersos e reforça a importância da tradição familiar patriarcal na preservação da memória local. Em muitos casos, o nome do lugar torna-se uma forma de perpetuar a lembrança daqueles que contribuíram para a construção da história da comunidade ou dos antigos fazendeiros que deram origem ao povoamento do bairro.
Aspecto da antiga fazenda dos Fagundes, no bairro Capetinga dos Fagundes, região nordeste de Cunha, próximo ao limite com Silveiras. Foto: Adilson Nunes.
A herança indígena também permanece viva na paisagem linguística de Cunha. Nomes como Paraibuna, Jaguarão, Jacuí e Paraitinga possuem origem tupi e remetem, em geral, a rios, animais ou elementos da natureza. Esses topônimos são vestígios da ocupação paulista na região, gente falante da Língua Geral, simbiose da Língua Tupi, “o grego da terra”, com a “última flor do Lácio”, a Língua Portuguesa. Indicam que muitos dos referenciais espaciais utilizados pelos povos indígenas foram incorporados pelos colonizadores. A permanência desses nomes evidencia a profundidade histórica da ocupação humana na região e a contribuição dos povos originários para a construção da identidade territorial local.
Além dos nomes ligados à natureza, à religião ou à memória familiar, há também uma grande quantidade de topônimos de caráter funcional. Localidades como Três Pontes, Encruzilhada, Barra, Ponte, Várzea do Tanque, Mato Dentro e Alto do Sapé possuem nomes essencialmente descritivos, criados para indicar localização, acesso ou características específicas do terreno. Esses topônimos funcionavam como instrumentos práticos de orientação em uma época em que os deslocamentos dependiam de trilhas, caminhos rurais e referências naturais. Cunha, um elo entre o Sertão e o Litoral, sempre foi recortada por inúmeros caminhos e tem forte herança tropeira. Esses topônimos refletem essa influência.
De modo geral, a toponímia de Cunha revela um município profundamente ligado à cultura caipira, em que a natureza, à vida rural e às formas tradicionais de ocupação do território estão intimamente ligadas. O caipira não existe sem seu torrão. Os nomes dos bairros preservam marcas da vegetação original, dos rios, das montanhas, das atividades agropecuárias, da religiosidade popular, da presença indígena e da memória das famílias pioneiras da Paulistânia. Diferentemente de áreas fortemente urbanizadas, onde predominam denominações planejadas ou homenagens oficiais, os topônimos cunhenses surgiram de maneira espontânea, diretamente relacionados à experiência cotidiana dos moradores. Por isso, constituem uma valiosa fonte para compreender a história da ocupação humana e a construção da paisagem cultural do município, resultado da interação entre sociedade e natureza ao longo do tempo.
Aspecto do bairro do Monjolo, região sudeste do município de Cunha.
Falar de bairro rural é falar de um pedaço do mundo que não cabe apenas no mapa. É a vizinhança que se reconhece pelo nome, pela capela, pelo campo de futebol, pelo bar de “fulano de tal”, pela estrada de terra, pela festa do padroeiro, pelo mutirão e pelo jeito como as famílias se ajudam quando a lida aperta. Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito (1964), mostrou que a vida caipira não pode ser entendida só pela economia. Ela se organiza também pela sociabilidade, pelos vínculos de vizinhança e pelo ajuste entre grupo humano e meio; em outras palavras, a cultura nasce no território vivido. Após o icônico “Ocê é gente di queim?”, sempre vem “Ocês são di ondi?”. O lugar importa, e importa muito, sim, senhor.
Em Cunha, esse tema ganha um peso ainda maior. O município, que não é populoso (população estimada em 2025, pelo IBGE, em 22.460 habitantes), tem sua população bem distribuída pelo seu amplo território, com mais de 1.407 km², o maior do Vale do Paraíba, apresentando uma densidade demográfica baixa, de 15,71 habitantes por km². Essa dispersão populacional ocasionou a existência, em seu território, de 2.287 estabelecimentos de produção agropecuária, número bastante elevado para o contexto estadual. Desse total, 74% são unidades classificadas como de agricultura familiar. É o município paulista com maior número de unidades de produção agrícola, superando, inclusive, Mirante do Paranapanema, município que é símbolo da reforma agrária e da luta contra a concentração fundiária no Brasil.
A paisagem cunhense, caprichosamente adornada por morros, vales, pastos, roças, capões de mata e caminhos que sobem e descem a serra, ajuda a entender por que os bairros rurais seguem tão importantes: eles são uma forma prática e afetiva de organizar a vida no campo. Não é por acaso que, de acordo com o Censo 2022, Cunha contava com 9.060 moradores rurais, o que significa cerca de 41% da população estava vivendo na roça. Um percentual muito alto para os padrões paulistas, estado em que a população rural corresponde a cerca de 2,6%. A distribuição dessa população pelo espaço rural possibilita a formação dos bairros rurais, pois, de acordo com Antonio Candido, o bairro é o “agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega”.
Na geografia cultural e na geografia agrária, o bairro rural pode ser visto como um espaço de enraizamento. Ele não é apenas uma localização; é um lugar carregado de memória, uso e pertencimento. Por isso, quando se observa Cunha, não se vê apenas produção agropecuária: vê-se uma malha de relações que mistura família, trabalho, religião e tradição. E há um fundo poético nisso tudo. Quando se ouve uma moda de viola ou se lê um verso que fala da terra como companhia de vida, entende-se melhor o que a geografia às vezes tenta dizer em palavras mais formais: a paisagem rural não é cenário, é experiência. Em Cunha, isso ainda salta aos olhos. Bairro não é um simples espaço; é lugar. Lugar de pertencimento, de memórias, de afeto, de extensão imediata do lar, de elo com a terra, torrão sagrado onde o caipira teve seu “umbigo enterrado”. Tal como na moda de viola “Rio Pequeno”, um dos grandes sucessos da dupla Tonico e Tinoco, lançada em abril de 1952, sair do bairro onde foi criado é abandonar parte de sua vida, de sua identidade: “O zóio dela encheu d’água, despediu co’a voz tremeno / Adeus, casa dos meus pais! Adeus, chão do Rio Pequeno!”
Bairro, o chão da cultura caipira
Aspecto do bairro da Cachoeira dos Rodrigues, região oeste do município de Cunha. Foto: Edson Luiz de Oliveira. Data: abr. 2022.
“O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.”
Antonio Candido, in Os parceiros do Rio Bonito
Os bairros rurais têm importância porque são, antes de tudo, lugares de convivência. Neles se cruzam a reza do terço, a folia, a festa do santo, o café coado no fogão, a visita sem cerimônia e o trabalho repartido entre família, vizinhos e compadres. A cultura caipira não vive solta no ar; ela precisa de chão, de rotina e de repetição. É no bairro rural que os saberes passam de uma geração para outra: o jeito de plantar, de criar, de cozinhar, de falar, de celebrar e de cuidar da terra. Candido, autor do excerto acima, mostrou que a vida caipira se estrutura em unidades mínimas de sociabilidade e cooperação, ligadas ao modo de viver e ao meio em que se assentam. Em Cunha, conforme estudo realizado na década de 1980 pela antropóloga Rosane M. Prado, os bairros rurais ocasionam diferenciações de valor que marcam as atividades humanas, bens, relações e símbolos no contexto local, levando em conta fatores como “maior ou menor distância da cidade, o que está associado à ideia de isolamento e dificuldade de acesso, e pelo aspecto de certas associações a propósito da ‘fama’ de determinados bairros. Assim, por exemplo, o Monjolo é associado a ‘gente brava’, ‘de briga’; a Capivara é lugar ‘mais caipira’, no sentido de ‘mais atrasado’; o Jericó é ‘dos metodistas’, lugar de gente ‘mais munheca’, ‘pão dura’. Também alguns bairros rurais são associados às próprias famílias que lhes dão nome, como o Sertão dos Marianos”. Ou seja, ser de determinado bairro já lhe garante certa identidade, característica inata e herdada da coletividade local, que precede a individualidade.
Por isso, o bairro rural é mais do que uma referência espacial. Ele é um território vivido. É ali que a paisagem ganha rosto humano e a cultura ganha matéria concreta. Uma estrada pode parecer apenas uma via de circulação, mas, no bairro rural, ela também é caminho de procissão, trajeto de escola, rota do leite, caminho antigo de tropeiro, passagem de cavaleiro e linha de contato entre casas dispersas. O lugar não existe só por sua forma, mas pelo uso e pelo sentido que as pessoas lhe dão. Em Cunha, onde a paisagem montanhosa fragmenta as ocupações e aproxima os moradores por núcleos de vizinhança, os bairros rurais seguem sendo uma base da identidade local.
Êxodo rural, esvaziamento e mudanças da paisagem
Aspecto do bairro do Jericó, região sudoeste do município de Cunha. Foto: Iverson Leite.
Mas essa paisagem vem mudando. O êxodo rural, que marcou boa parte do interior paulista ao longo do século XX e segue produzindo efeitos no século XXI, retirou moradores do campo, envelheceu comunidades e enfraqueceu laços tradicionais. No Brasil, o Censo 2022 registrou 25,6 milhões de pessoas em áreas rurais, contra 177,5 milhões em áreas urbanas, confirmando a continuidade histórica da urbanização. Em Cunha, mesmo com taxa de natalidade elevada, a população ficou estagnada durante todo o século XX. No estado de São Paulo, onde a presença rural é proporcionalmente muito pequena, esse processo foi ainda mais forte. Vivemos com toda intensidade a ideologia do progresso a todo custo, do “São Paulo não pode parar”, que esvaziou roças e memórias.
Nos bairros rurais, o resultado disso aparece no que os olhos logo percebem: casas vazias, antigas áreas de cultivo em descanso, festas menores, escolas fechadas, menos jovens permanecendo na roça. Está tudo virando tapera. A paisagem muda quando a população muda. E a cultura também sente o golpe. Quando uma comunidade perde moradores, ela não perde apenas número; perde memória compartilhada, perde prática social, perde voz coletiva. Municípios do interior paulista, antes marcados por forte presença caipira, passam a ter uma vida rural mais rarefeita, às vezes mantida por poucos idosos ou por propriedades voltadas a usos novos, menos ligados ao cotidiano tradicional do campo. O processo de terceirização do campo avança.
Essa mudança também altera a demografia local. Com menos jovens no meio rural e maior concentração de serviços e empregos nas sedes urbanas, o campo deixa de ser visto como lugar de futuro por muitas famílias. O problema é que, quando isso acontece, não desaparece só uma forma de morar. Some também uma maneira de organizar o território, de cultivar a terra e de reconhecer o município como herdeiro de uma cultura própria.
Cunha e a força da agricultura familiar
Aspecto do bairro da Pedra Branca, região leste do município de Cunha. Foto: Pedro Ribeiro. Data: 2002.
Em Cunha, o campo ainda é parte central da vida municipal. Isso se traduz na força da agricultura familiar cunhense no contexto estadual, com o município liderando ou ficando entre os primeiros em vários setores de produção agrícola. Mesmo com o esvaziamento do campo, muitos pequenos agricultores e pecuaristas permanecem na lida rural produzindo alimentos. E são essas pequenas propriedades familiares que fazem de Cunha a maior produtora paulista de leite e uma das maiores produtoras de hortaliças, milho, feijão e porcos da região. A base produtiva rural local está estruturada na pequena e média unidade tocada por famílias. E essa é uma das razões do seu sucesso.
Os levantamentos realizados pelo Censo Agro 2017 e do LUPA 2016/17 apontam justamente nessa direção: o município aparece como uma área fortemente marcada pela agricultura familiar e pela diversidade produtiva, a ponto de ser descrito como uma “potência da agricultura familiar”. Foram identificadas 3.452 unidades de produção agropecuária, com mais de 102 mil hectares de área ocupada com alguma cultura, pastagem ou reflorestamento. A maioria das propriedades está compreendida na faixa entre 5 e 50 hectares, ou seja, a estrutura fundiária é composta por minifúndios. O município se destaca na produção de milho, feijão, mel, cana, pinhão, café e frutas e hortaliças diversas; e na criação de bovinos para leite e corte, frango caipira, trutas, cavalos e mulas e porcos. Geograficamente, isso significa que o território de Cunha continua sendo sustentado por uma trama de pequenas propriedades, produção diversificada e forte vínculo entre moradia e trabalho, arranjo bem diferente daquele das áreas onde a modernização agrícola concentrou terra, mecanizou tudo e expulsou moradores.
Bairros rurais identificados
Aspecto do bairro da Aparição, região sudeste de Cunha.
Diante desse contexto geográfico disperso, ruralizado e fundamentado no trabalho familiar, o IBGE identificou 270 bairros rurais no município de Cunha, durante a realização do Censo Demográfico de 2022. Eis a lista:
– Abóboras
– Água Fria
– Água Fria (Bangu)
– Água Limpa
– Águas de Santa Rosa
– Alto da Bocaininha
– Alto do Sapé
– Amorim
– Angico
– Antônio José
– Aparição
– Araçaeiro
– Araruna
– Assunção
– Atibaia
– Balaieiro
– Bananal
– Bangu
– Barra do Chico do Lau
– Barra do J. Alves
– Barrinha
– Barreira (Campos Novos)
– Barreiro (Abóboras)
– Barreiro (Bangu)
– Barro Vermelho
– Bichinho
– Boa Esperança
– Boa Vista (Campos Novos)
– Boa Vista (Igreja de São José)
– Boa Vista (Jaguarão)
– Boa Vista (Pedra Branca)
– Bocaina de São Roque
– Bocaininha da Boa Esperança
– Bom Retiro
– Borda do Campo
– Brejaúva
– Brejinho (Guabirobas)
– Brejinho (Monjolo)
– Bugio
– Buracão
– Cachoeira (Cedro)
– Cachoeira dos Rodrigues
– Cachoeirinha (dos Gatos)
– Cachoeirinha (Monjolo)
– Cachoeirão (Barra J. Alves)
– Caçador Novo
– Campo
– Campo Alegre (Aparição)
– Campo Alegre (Bocaina)
– Campo Belo
– Campo da Bocaina
– Campinho (Bocaina)
– Campista
– Camundá
– Cana do Reino
– Canjara
– Caneleira
– Cantagalo
– Capetinga dos Fagundes
– Capetinga dos Motas
– Capinzal
– Capivara
– Capoeira do Fundo
– Capoeirinha
– Carneiros
– Carrapatal
– Carrasquinho
– Castelo
– Catioca
– Catioquinha
– Cedro
– Charquinho
– Cocho
– Comprida
– Condomínio Santana (Paraitinga)
– Conselho
– Córrego da Onça
– Córrego Fundo (Barra J. Alves)
– Córrego Fundo (Jaguarão)
– Córrego Seco
– Cume
– Curral
– Curralinho
– Desterro
– Divino Mestre
– Encruzilhada
– Engenho
– Entrecosto
– Escurinho
– Estiva
– Fazenda Ibipeba
– Fazenda Santana
– Fazenda São Tomé
– Fazendinha
– Felicidade
– Ferraz
– Figueira (Paraitinga)
– Figueira (Taboão)
– Figueira (Várzea do Tanque)
– Galvão
– Gândara
– Gaviroveira
– Gorozol
– Gramas
– Grota do Buraco
– Grotão
– Guanabara
– Guabirobas
– Guandu
– Guaranjanga
– Guaricanga (Barra J. Alves)
– Guaricanga (Juveva)
– Ingá
– Itacuruçá
– Itaquatuba
– Jacinto
– Jacuí
– Jacuí-Mirim
– Jacuizinho
– Jaguarão
– Jardim
– Jericó
– Juveva
– Lageado
– Lagoa (Barra J. Alves)
– Lagoa (Capivara)
– Lagoa (Pedra Branca)
– Laje
– Lajinha
– Limão
– Limoeiro
– Macuco
– Mandinga
– Maninha
– Mantiquira
– Marmeleiro (Campos Novos)
– Marmeleiro (Engenho)
– Martim
– Mato Dentro (Campos Novos)
– Mato Dentro (Catioca)
– Mato Dentro (Cedro)
– Mato Escuro
– Mato Limpo
– Milho Branco
– Milho Vermelho
– Mineiro
– Mogango
– Monjolinho (Campos Novos)
– Monjolo
– Mundéu
– Onça
– Oriente
– Paineira (Vargem do Tanque)
– Paineira de Cima
– Paineiras (Jaguarão)
– Paiol
– Paiol Queimado
– Paiol Velho (Campos Novos)
– Paiol Velho (Catioca)
– Paiol Velho (Cedro)
– Paiol Velho (Vargem do Tanque)
– Paiolzinho (Capivara)
– Paiolzinho (Córrego da Onça)
– Paiolzinho (Serra do Indaiá)
– Paiolzinho (Taboão)
– Palha Grande
– Palmeiras
– Palmital (Barra J. Alves)
– Palmital (Parque Estadual)
– Paraibuna
– Paraitinga (Campos Novos)
– Paraitinga de Baixo
– Paraitinga dos Cubas
– Paraitinga dos Gonçalves
– Paraitinga dos Motas
– Paraitinga dos Verreschi
– Parque Estadual (da Serra do Mar)
– Parreiral
– Pasto do Gado
– Pedra Branca
– Pedra Preta
– Pedras (Bocaina)
– Pedreira
– Peros
– Pessegueiro
– Pico Agudo
– Pinhal (Barro Vermelho)
– Pinhal (Campos Novos)
– Pinhalzinho
– Pinheiral
– Pinheirinho (Bangu)
– Pinheirinho (Barra J. Alves)
– Pinheiro
– Piri
– Poço Fundo
– Pontinha
– Ponte
– Ponte Alta
– Ponte Furada
– Ponte Nova
– Praia
– Quilombinho
– Quilombo
– Retiro (Cedro)
– Retiro (Sapé)
– Retiro das Palmeiras
– Ribeirão
– Rio Abaixo (Paraibuna)
– Rio Abaixo (Ribeirão)
– Rio Abaixo (Várzea do Tanque)
– Rio Acima
– Rio das Pedras (Capinzal)
– Rio do Peixe
– Rio Manso
– Roça Grande
– Rocinha
– Rodeio (Paraibuna)
– Roseira
– Samambaia
– Santa Cruz
– Santa Rita
– Sapé
– Sapezal
– São Roque
– Serra do Indaiá
– Serraria (Capivara)
– Sertão da Santa Bárbara
– Sertão do Itambé
– Sertão do Pinhal (Pinhá)
– Sertão dos Marianos
– Sertãozinho (Jaguarão)
– Sertãozinho (Jericó)
– Sertãozinho (Várzea do Tanque)
– Sete Voltas
– Sítio
– Sítio de Cima
– Sítio Velho (Jardim)
– Sítio Velho (Várzea do Tanque)
– Soledade
– Sororoca
– Taboão
– Tamancas
– Tanque
– Tanquinho
– Tapera (Capinzal)
– Tapera (Serra do Indaiá)
– Taperinha (Campos Novos)
– Taperinha (Catioca)
– Taquaral
– Tijuco Preto (Barra do J. Alves)
– Tijuco Preto (Campos Novos)
– Três Pontes
– Três Pontes (Várzea do Gonzaga)
– Usina (Cedro)
– Vargem da Cachoeira
– Vargem do Germano
– Vargem do Joaquim Rosa
– Vargem do Tanque
– Vargem dos Pinheiros
– Vargem Grande
– Varginha (Macuco)
– Varginha (Vargem do Tanque)
– Varginha (Vargem Grande)
– Várzea da Santa Cruz
– Várzea do Cedro
– Várzea do Gonzaga
– Vassouras
– Verde
– Vidro
– Vista Alegre
– Zaranha
Para diferenciar os topônimos iterados, que foram vários, acrescentou-se, entre parênteses e à frente, o nome de um bairro próximo espacialmente, facilitando, assim, a distinção. Por exemplo, há 3 bairros denominados “Varginha” em nosso município; daí, para distingui-los, colocou-se “Varginha (Macuco)”, isto é, trata-se do bairro da Varginha próximo ao bairro do Macuco.
Limitações do Censo 2022 para identificar bairros rurais
Aspecto do bairro da Bocaina de São Roque, região nordeste do município de Cunha. Foto: Adilson Nunes.
Talvez algum bairro que você conheça não apareceu na lista supra. Isso não quer dizer que ele não exista. Por isso, é importante olhar com cautela para os dados do Censo Demográfico 2022 quando o assunto é nomear e delimitar bairros rurais. O IBGE deixa claro que o setor censitário é a principal unidade territorial de coleta e divulgação de dados do Censo. Também informa que a malha de bairros do Censo 2022 foi construída por meio do ajuste de setores censitários, sempre que isso foi viável, e que, em várias situações, os limites dos bairros precisaram ser aproximados graficamente por razões operacionais. Em alguns casos, sequer foram considerados os bairros, como aconteceu com os setores censitários de Cunha, porque nosso município ainda não tem uma lei delimitando seus bairros e não há um mapa municipal oficial com os seus bairros rurais. Resumindo: o levantamento do IBGE é um retrato útil, mas não se trata de uma cartografia fina da toponímia rural.
Isso ajuda a entender por que surgem problemas como nomes de estradas sendo tomados como se fossem bairros, ausências de bairros efetivamente conhecidos pelos moradores e denominações pouco precisas com os dados do Censo 2022. Quando a base de referência é setorial e operacional, e não um levantamento específico da memória territorial local, essas distorções aparecem com facilidade. O próprio IBGE ressalta que a representação dos bairros adotou generalizações para evitar fragmentação excessiva da malha e problemas de coleta.
Por isso, os bairros rurais identificados pelo Censo 2022 devem ser lidos como aproximações da realidade territorial, e não como lista definitiva. É um ponto de partida, mas precisa ser confrontado com conhecimento local, cartografia de campo, memória dos moradores e leitura crítica do território. Um levantamento completo, dada a extensão do município, é um processo custoso e trabalhoso e exigiria uma pesquisa com essa única finalidade.
Nesse sentido, com o intuito de dirimir os equívocos e evitar confusões com a localização e toponímia dos bairros, foi utilizada a metodologia DBSCAN, que consiste em analisar coordenadas geográficas agrupando automaticamente os pontos que estão próximos entre si com base em um raio definido (por exemplo, 2 km) e um número mínimo de vizinhos (minPts), utilizando distância real na superfície da Terra (Haversine); o processo começa identificando, para cada ponto, quais outros estão dentro desse raio, classificando-os como pontos centrais (com muitos vizinhos), pontos de borda (ligados a centrais) ou outliers (isolados), e então formando clusters ao conectar todos os pontos acessíveis entre si (inclusive aqueles ligados indiretamente por uma “cadeia” de proximidade) até que se obtenham grupos naturais de alta densidade, sem impor forma ou quantidade prévia, permitindo identificar regiões reais de concentração espacial e separar automaticamente áreas isoladas, o que torna o método mais adequado para análise territorial.
No mais, o autor valeu-se do seu conhecimento empírico, que é limitado, para realizar correções e adequações que se fizeram necessárias, em virtude de equívocos cometidos pelos recenseadores durante a coleta e transcritos para o CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos), que é a base de dados do IBGE com todos os endereços do país. O CNEFE mapeia e georreferencia residências, estabelecimentos e obras em todo o território nacional. O arquivo digital do CNEFE do Censo 2022 do município de Cunha foi a base para realizar este levantamento toponímico.
E o futuro?
Aspecto do bairro do Sertão do Rio Manso, região sudeste do município de Cunha. Foto: Trip Rural. Data: 2020.
Cunha ainda guarda uma riqueza rara no interior paulista: muitos bairros rurais, uma população do campo numerosa e uma paisagem em que a cultura caipira ainda respira. Mas isso não significa estabilidade. Muitos desses bairros vêm perdendo moradores, envelhecendo e correndo o risco de desaparecer como comunidades vivas. E, quando um bairro rural se apaga, não se perde apenas uma referência geográfica; perde-se uma maneira de morar, trabalhar, festejar e lembrar.
Esse processo ameaça a continuidade da cultura caipira e atinge o coração da identidade municipal. A chegada de novos moradores vindos de fora pode trazer dinamismo e novas experiências, mas também pode enfraquecer vínculos antigos quando não há relação com os costumes, a memória e as práticas do lugar. O risco está em transformar o campo apenas em paisagem de contemplação e consumo, esvaziando-o de sua vida social mais funda.
Diante disso, pode-se perguntar: o campo ainda é viável? É um questionamento que não tem uma única resposta. Há os novos rurais, o êxodo urbano e uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis. Todos esses fatores apontam que há, sim, uma saída para roça. Mas é preciso fortalecer o camponês. Valorizar os bairros é defender uma forma de futuro em que o campo continue sendo produtor de alimentos, de cultura e de pertencimento. Em uma época em que tantas paisagens do interior se tornam homogêneas, Cunha ainda pode afirmar sua diferença: a de um município paulista que segue sendo, em muitos sentidos, genuinamente caipira. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças.
“O futuro a Deus pertence”, responderia um bom cunhense. Assim seja.
Referências: Antonio Candido. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 1964. Ester, M.; Kriegel, H.-P.; Sander, J.; Xu, X. A Density-Based Algorithm for Discovering Clusters in Large Spatial Databases with Noise. Proceedings of the 2nd International Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD). 1996. IBGE. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários – Resultados do universo. 2025. ______. Censo Demográfico 2022: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. 2022. SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO. COORDENADORIA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL. INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Levantamento censitário das unidades de produção agropecuária do Estado de São Paulo – Projeto LUPA 2016/17. 2019.
Anúncio publicado no jornal Radical Paulistano. Data: 17 jun. 1869.
“Escravo fugido Da fazenda do tenente-coronel José Prudente de Toledo, em Cunha, fugiu no dia 19 do corrente, o seu escravo Theodoro, com os seguintes signaes: côr parda, alto, pouca barba no queixo, dentes ponteagudos, quasi cariados, delgado de corpo, falla macia e agradavel, tem signal de um golpe num dos braços ácima da juncta da mão, proveniente de um córte de puxavante; é bom cavalleiro e dado a domador: leva um sacco com muita roupa, e um ponche de panno forrado de baeta azul, ainda novo, tem a edade presumida de 34 annos. Quem o apprehender e der aviso a seu senhor, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar. Cidade de Cunha, 23 de Janeiro de 1869.”
Este anúncio de jornal, publicado em 1869, revela muito sobre a estrutura social e a mentalidade do Brasil no Segundo Reinado, apenas 19 anos antes da abolição formal da escravidão (1888). O texto exemplifica como a imprensa era utilizada como uma ferramenta de controle social. Mesmo o “Radical Paulistano“, que era um jornal liberal e que propugnava pelo fim da escravidão, se submetia a anunciar para os escravagistas. O “escravo fugido” era tratado como uma propriedade extraviada. A descrição detalhada (“dentes ponteagudos“, “delgado de corpo“, “falla macia“) não visava humanizar Theodoro, mas sim fornecer um “guia de identificação” para que qualquer cidadão pudesse atuar como um agente de captura.
Cunha, no século XIX, era um ponto importante de passagem e produção ligada ao Vale do Paraíba, região que enriqueceu com o café e foi um dos últimos redutos do escravismo no Brasil. O tenente-coronel (da Guarda Nacional) José Prudente de Toledo era um dos principais fazendeiros do município, com terras entre os bairros do Engenho e do Cume, descendente dos fundadores de Cunha.
A cicatriz acima do pulso, causada por um “puxavante” (uma ferramenta usada para aparar cascos de cavalos ou em trabalhos de ferraria), é um registro físico da vida de trabalho manual exaustivo a que ele era submetido. Marcas físicas eram comuns em anúncios de fuga, servindo como “RG” numa época sem documentos fotográficos populares. Também demonstra a importância que o tropeirismo ocupava em nossa economia. Mesmo fazendas produtoras de milho e toucinho necessitavam de escravizados que soubessem os ofícios tropeiros.
O trecho final do anúncio, “protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar”, é um aviso jurídico. O “acoitar” (esconder ou ajudar um fugitivo) era crime previsto no Código Criminal do Império. Isso demonstra como o Estado brasileiro protegia o direito de propriedade sobre seres humanos e punia qualquer um que tentasse ajudar os escravizados em busca de liberdade. A solidariedade era criminalizada. E punida. Todos deviam colaborar com o sistema escravista.
Destaca-se, ainda, sinais de resistência e identidade no escravizado em questão. A fuga é um ato político: Theodoro fugiu levando consigo um saco de roupas e um “ponche de pano forrado de baeta azul” (traje típico dos tropeiros paulistas), o que indica que a fuga foi planejada. Ele não apenas fugiu do trabalho forçado, mas buscou levar itens de proteção e subsistência. Suas habilidades laborais o acompanham. Menciona-se, p. ex., que Theodoro era “bom cavalleiro e dado a domador” , habilidades técnicas valiosas naquele período histórico, o que muitas vezes dava ao escravizado uma maior mobilidade, mas também o tornava um “prejuízo” financeiro maior para o senhor.
Tropeiro com poncho de baeta azul. Derivado do antigo bernéu usado pelos bandeirantes, consolidou-se como a principal indumentária de viagem. Ilustração: “Troperos or Muleteers“. Data: 1822. Desenhista: Henry Chamberlain. Gravador: H. Alken.
Este documento é uma prova material de que a liberdade no Brasil foi conquistada com muita resistência individual e coletiva, através de atos corajosos como o de Theodoro, que desafiou o sistema de sua época. A fuga, talvez para um quilombo, era a resistência possível em um sistema opressor, em que a escravidão era tão institucionalizada, que era tratada como algo natural.
O tupi está muito presente na toponímia cunhense. Muitos bairros de Cunha foram denominados com vocábulos da língua original do Brasil. Mas quem os batizou assim? Foram os indígenas ou paulistas?
Catioca, Itambé, Itacuruçá, Jacuí, Paraitinga, Paraibuna, Mantiqueira, Cajuru, Canjara, Canhambora… Por que há tantos topônimos tupis na geografia cunhense? A resposta óbvia, a presença indígena, não se sustenta historicamente, pois muitos estudiosos dos povos originários comentam que tanto os Guaianases quanto os Puris, povos que habitavam onde hoje é o município de Cunha, pertenciam ao tronco linguístico do Macro-Jê, ou seja, não falavam tupi.
Aspecto das montanhas do bairro do Itambé, município de Cunha (SP).
Outra hipótese que busca elucidar essa questão é a de que esses lugares foram denominados pelos próprios paulistas durante o processo de ocupação e colonização do território. Isso ocorreu porque, até o século XVIII, os paulistas falavam uma língua geral (“tupi paulista”), que misturava a língua portuguesa com a língua tupi, fazendo amplo uso dos vocábulos tupis para batizar os lugares de que se apossaram.
Essa variante do tupi original explica a geografia cunhense? Parcialmente, sim. Mesmo com a proibição do Marquês de Pombal, em 1758, em uma tentativa arbitrária de implantar a língua dos colonizadores na marra, abolindo a língua geral, ela sobreviveu na geografia, nos mapas, no sotaque e no nosso jeito de falar, como expressão de identidade cultural.
Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.
Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.
Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.
Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.
Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.
A caminho da Bocaininha. Foto: Cláudio Luiz de Mello
Aspecto do relevo no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Cláudio Luiz de Mello.
A caminho de São José do Barreiro. Estradas, estradinhas e araucárias. Foto: Erick Sobreiro.
Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.
Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.
Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.
Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.
O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.
Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.
Era um domingo, 20 de abril de 1958, dia em que se comemorou o “Centenário de Cunha”. Celebração que tomou por base a data de 20 de abril de 1858, quando Cunha foi elevada à categoria de cidade. Como já discutimos aqui e em outros lugares, essa data não teve relevância histórica. Voltemos ao assunto do post.
Em Cunha temos apenas um monumento referente à Revolução Constitucionalista de 1932. É o dedicado a Paulo do Virgínio (alcunha de Paulo Gonçalves dos Santos). Um trabalhador rural do bairro do Taboão, que durante a guerra civil foi torturado e fuzilado por um grupo de soldados da Marinha, a saber: o 1º tenente Ayrton Teixeira Ribeiro, o sargento Roque Eugênio de Oliveira e os soldados Juvenal Bezerra Monteiro, Ascendino Gomes da Silva Dantas e Raymundo Jeronymo da Costa, integrantes do corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil. Todos foram absolvidos Supremo Tribunal Militar. Mataram um civil e foram julgados por um tribunal militar. Era possível esperar justiça?
Os restos mortais de Paulo Virgínio foram transladados de Cunha no dia 7 de julho de 1955, após celebração de missa na Igreja Matriz. Daqui partiu para ser sepultado, de forma definitiva, no Mausoléu dos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera, na capital. O cortejo do “herói de Cunha” foi acompanhado durante todo o trajeto pelos batedores da Força Pública (Polícia Militar).
O Monumento, entretanto, foi erguido em 1958. Assim informou o Estadão (22 abr. 1958):
Vídeo da inauguração do Monumento a Paulo Virgínio, em 20 abr. 1958. Filme feito pelo Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense. Evento filmado em 16 mm preto e branco, com câmera Bell & Howell Filmo 70 ou Bolex H16, a 18 quadros por segundo, utilizando filme pancromático Kodak Plus-X. Digitalização feita na década atual. Acervo: Família Mendes.
“Cunha prestou domingo último, por ocasião dos festejos comemorativos do seu centenário de fundação, tocante homenagem aos heróis de 32. A nove quilômetros da cidade, em cerimônia que reuniu mais de cem veteranos de 32, sob o comando do general Valdemiro Meirelles Maia, foi entregue ao povo um monumento a Paulo Virginio, herói de Cunha, no mesmo local onde tombou, metralhado pelas tropas da Ditadura.
Apesar das dificuldades de transporte, agravadas pelo mau tempo, o povo participou quase em sua totalidade das comemorações do centenário. Às 12 horas e 30, estudantes, autoridades, veteranos de 32 dirigiram-se em caminhões lotados, para o local da cerimônia de inauguração do monumento a Paulo Virginio. Lá chegando, depois do toque de marcha batida, o general Valdemiro Meirelles foi solicitado a assumir o comando do pelotão de veteranos de 32. Estes se apresentavam com capacetes, e eram chamados por ordem hierárquica. À frente deles, senhoras paulistas de 32, todas de preto, postavam-se em fila. Entre as presentes anotamos as seguintes sras.: Julieta Nunes Pereira, representando, também, o Clube Piratininga; Adelaide Correia Ribeiro; Rosa Lanza de Castro; Edith Pereira da Silva.
Antes do descerramento do monumento, o gen. Valdemiro Meirelles pronunciou algumas palavras de improviso, iniciando por dizer que se encontrava ali para suavizar saudades. Ali, naquele mesmo local, lutara por São Paulo, lutara pelo Brasil. Considerando as causas da Revolução Constitucionalista, declarou que São Paulo sofrera uma injustiça, na época, ao se lhe atribuir ideais separatistas. “Nada mais falso pois só é fundamentalmente brasileiro quem é fundamentalmente paulista. O povo queria apenas a Constituição, o direito de votar, de escolher”. Referindo-se, depois, ao nível de politização do povo, o gen. Meirelles declarou que se “naquela época eu comandei paulistas desarmados, hoje comando paulistas armados de civismo. A cruz é, antes de tudo, uma escola de civismo”, terminou o orador, apontando para o monumento a Paulo Virginio, que tem a forma de uma cruz. Referiu-se, também, o orador, à personalidade de Paulo Virginio, o caboclo que preferiu morrer a revelar às tropas invasoras o local da defesa paulista.
Página do jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1958, noticiando a inauguração do Monumento e o “Centenário de Cunha”. Fonte: Acervo Estadão.
Foi prestada, depois, continência à bandeira brasileira, que foi içada pelo prefeito local, sr. Antonio Acacio Cursino. Na ocasião, além do próprio prefeito, falaram vários veteranos de 32, entre eles o sr. Mercio Prudente Correia, Cesar Salgado, o juiz de Direito da Comarca, dr. Paulo de Campos Azevedo, que agradeceu em nome de Cunha, o monumento a Paulo Virginio, dona Julieta Pereira Nunes, representando a mulher paulista, que foi convidada a descerrar o monumento, coberto com a bandeira de São Paulo. Precedeu o ato o toque de silencio, realizado por um veterano de 32. Em seguida, foi realizada a cerimônia da benção do monumento pelo padre Rodolfo Ignácio que oficiou, depois, missa campal. Em vista da chuva que caia abundante, após a missa rumaram todos para Cunha, a fim de participarem de um banquete, no Hotel Paulista.
O monumento a Paulo Virginio está situado numa elevação, no bairro do Rio Abaixo, no município de Cunha. É antes um túmulo, todo de granito sobre o qual uma grande cruz se ergue. Na lápide, numa placa de bronze, lê-se o seguinte epitáfio: ‘Aqui, aos 28 de julho de 1932 morreu Paulo filho de Cunha, herói e mártir fuzilado pela Ditadura. Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, no seu 25ª aniversario’.”
Obviamente, tal monumento só pode ser inaugurado após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), que censurava qualquer manifestação de orgulho paulista, sobretudo aquelas que se fundamentavam na Revolução de 1932. Em 1958, o Brasil gozava de um regime democrático e expressar o orgulho de ser paulista estava na moda, consequência das celebrações exaltadas de 1954, ano em que a cidade de São Paulo celebrou, com pompa e ufanismo, seu IV Centenário de fundação.
Paulo Virgínio foi o herói caipira que a Revolução precisava. Torturado e morto por fuzileiros navais, que foram absurdamente absolvidos, sua morte foi um prenúncio dos tempos sombrios que viriam 32 anos depois.
Foto de capa: Inauguração do Monumento a Paulo Virgínio. Observação: foto colorizada por inteligência artificial. Detalhes: No centro, discursando, o juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo. No canto direito, vê-se o Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado, jornalista e cinegrafista, segurando sua câmera. Foto postada, inicialmente, pelo blog “Tudo Por São Paulo 1932”. Sem autoria conhecida. Data: 22 abr. 1958. Local: bairro do Rio Abaixo, Cunha (SP).
Localização do Monumento a Paulo Virgínio (SP 171 – Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti):
O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.
Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.
Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.
Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII. Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!
Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.
O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.
Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.
Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.
Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.
A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.
Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.
Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.
A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.
As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.
Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.
“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.
Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa
Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.
Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.
A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.
Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.
Um olhar, novos encantamentos. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila apresenta a gamela aos alunos de Cunha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Alunos se reencontram com a história local, através da farinha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila conversa com as crianças sobre a exposição. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autoracachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.
Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.
Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.
Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.
Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.
A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!
Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):
Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.
Esta é a planta da cidade de Cunha, desenhada em 1938, para compor o nosso primeiro mapa municipal. Faz parte do acervo do IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).
Com a ditadura de Vargas, durante o Estado Novo, foi decretada a organização e fixação da divisão territorial do Brasil (estados, municípios e distritos), conforme Decreto-Lei nº 311, de 2 de março de 1938.
Getúlio Vargas, Presidente da República, e Christovam Leite de Castro, Secretário-Geral do Conselho Nacional de Geografia, inauguram, em 1940, a Exposição Nacional dos Mapas Municipais, na cidade de Curitiba (PR). Foto: IBGE.
Esse decreto estabeleceu a obrigatoriedade da confecção de mapas de todos os municípios brasileiros. Medida fundamental para a centralização do poder durante o Estado Novo. Também uniformizou o conceito de “município” e “distrito” no Brasil. Permitiu a criação de estatísticas padronizadas e mapas oficiais do território brasileiro, servindo de base para as pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), criado em 1936. Houve uma grande exposição desses mapas no Rio de Janeiro.
Em 1938, o nosso município continha Cunha, que era o distrito-sede, e contava com mais dois distritos: Campos de Cunha (rebatizado assim, arbitrariamente, durante o Estado Novo, pois já havia outro lugar chamado “Campos Novos” em São Paulo) e Lagoinha. Sim, nossos vizinhos já foram nossos conterrâneos. Já tratamos desse fato aqui no Jacuhy.
A cidade de Cunha, em 1938. Foto: ENFA. Acervo: Museu Municipal Francisco Veloso.
O mapa de Cunha foi confeccionado pelo Instituto Geográfico e Geológico de S. Paulo (IGG), que teve como suporte fotografias aéreas tomadas pela Empresa Nacional de Fotos Aéreas (ENFA), que foi fundada em 1938 e focava em levantamentos aerofotogramétricos, uma técnica que utiliza fotografias aéreas para criar mapas e outros produtos cartográficos. Algumas dessas fotos aéreas estão preservadas até hoje e compõem parcialmente o acervo fotográfico do Museu Francisco Veloso.
O renomado IGG, mesmo com esses suportes e com pessoal técnico qualificado, cometeu falhas consideráveis na confecção do mapa de Cunha. O contorno territorial na sua parte sul e sudoeste ficou desfigurado. Por desconhecimento da comissão técnica? Por falta de apoio em campo e de uma base cartográfica confiável? Ou pela própria dificuldade do terreno, nessa região coberto por densa e impérvia mata? Os motivos podem ser muitos.
Apesar de bastante equivocado e com o traçado territorial todo impreciso, o mapa municipal de 1938 é histórico. Não apenas por ser o primeiro, mas também pelos recursos financeiros e técnicos alocados em sua elaboração. Nunca antes nada assim fora feito. Foi o primeiro a representar o nosso município em sua integralidade.
Mapa Municipal de Cunha, 1938. Fonte: IGC.
Além de apresentar as divisas municipais e distritais, localizar os 3 núcleos urbanos (Cunha, Lagoinha, Campos Novos) com o seu arruamento, esse mapa municipal situou 45 bairros rurais, alguns já desaparecidos, por exemplo, o “Águas Claras”, o “Fogo Vermelho”, o “Lageado de Cima”, o “dos Borges”, entre outros. E, ainda, determinou o Morro Agudo (Pico Agudo) como ponto culminante de Cunha, apesar de errar a localização montanha. De acordo com a carta topográfica do IBGE, o Pico Agudo tem 1.320 metros de altitude.
Só na década de 1960 é que esses equívocos foram corrigidos, pois houve deu-se início o mapeamento sistemático do território nacional, com levantamento aerofotográfico, apoio em campo e confecção de cartas hipsométricas, na escala de um para cinquenta mil. Empreitada que o IBGE levou adiante, determinando com precisão os limites de Cunha e sua rede hidrográfica, fundamental no estabelecimento de limites territoriais, que têm por base os interflúvios.
No Censo de 1940, Cunha apresentou sua maior população na série histórica dos recenseamentos: 24.818 habitantes. Talvez pelo acréscimo da população de Lagoinha. Território extenso. Mas a cidade era pequena. Moravam na urbe apenas 975 pessoas. Muitas casas da zona urbana eram de famílias da roça, que só visitavam a cidade nas festividades religiosas. Ficavam fechadas na maior parte do ano.
Montagem feita pelo Jacuhy, com sobreposição do Mapa Municipal de 1938 com imagem de satélite atual de Cunha, retirada do Google Earth.
A cidade de Cunha de 1938 corresponde, hoje, ao atual bairro do Centro. Seu perfil longitudinal, uma rugosidade dos tempos coloniais, é uma expansão da artéria da antiga Estrada Real. É o peso do tempo sobre o espaço, marcando ainda em nossos dias o formato da mancha urbana da nossa cidade.
Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.
Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?
O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.
Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.
Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.
O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.
O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.
E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.
No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.
Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:
Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro. Data: maio, 1941. Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O
Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O
Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro). Data: maio, 1940. Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.
Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.
Referências: Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC. Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso. Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.
Uma das velhas fazendas de Cunha, que virou tapera.
Tapera. Segundo o Houaiss: “residência ou fazenda em ruínas, tomada pelo mato”. Mas não foi a língua dos portugueses que nos deu esse termo. Vem do Tupi. Eduardo Navarro, especialista no “grego da terra”, aponta o significado original: “aldeia que foi”, isto é, “aldeia em ruínas, aldeia extinta, aldeia destruída.” Todavia, ressalva: “em nossos dias, essa palavra é usada com o sentido de ‘casa em ruínas, casebre abandonado’”.
Em Cunha, essa condição, talvez por ser comum, se refletiu na toponímia rural. Há vários bairros que se chamam “Tapera” ou “Taperinha”.
Nota-se que só casa de pau-a-pique vira tapera. Talvez pela efemeridade do material usado nas construções de taipa. Ou não. Pode ser um indicativo do êxodo rural. Famílias que se foram e a casa, vazia e abandonada, virou uma tapera.
Abandonada pelos donos, nem visita costuma receber. Nem de vez em quando. Nem de gente escondendo de chuva braba. Todos sabem que estão infestadas por animais peçonhentos. E todos deviam saber que são moradas de assombrações (se você não acredita, é melhor não abusar).
Assim, a tapera… a taperinha vai, lentamente, desaparecendo. O tempo, em todos os seus sentidos, é implacável.
Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.
O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.
Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.
Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.
O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.
Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.
Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:
Paraitinga:
De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.
Paraibuna:
De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.
Jacuí:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.
Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.
Itaim:
De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.
Guaripu:
De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).
Mambucaba:
De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.
Jacuí-Mirim:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.
Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.
Referências: CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001. MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025. NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapas: Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências: – “Cunha” (MI-2771-1), 1974. – “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974. – “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973. – “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982. – “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982. – “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981. – “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974. “Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski. “Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.
Vista da zona fronteiriça entre Cunha e São Luiz. Foto: Sítio Cotinga. Data: Maio de 2017.
Cunha, em função do tamanho do território (1.407,250 km²), limita-se com 10 municípios.
A sudoeste de nosso município se encontra o limite com São Luiz do Paraitinga, mais precisamente com o distrito de São Pedro da Catuçaba. Uma área pioneira no povoamento do município de Cunha. Os topônimos tupis dos bairros de lá corroboram esse pioneirismo, essa antiguidade: Catioca, Itambé, Itacuruçá, Itaim etc. A vila da Catuçaba, antigo povoado de São Pedro, também é de origem tupi (“katu” – bom + “sab(a)” – lugar = “lugar bom”). Distrito luizense desde 1944, Catuçaba hoje é a referência urbana daquela região cercada de antigas fazendas e bairros rurais que abrange, além do próprio município de São Luiz, Cunha e Lagoinha.
Vales encaixados, em “V”, dominam a região. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
O limite é todo terrestre. A linha divisória (e imaginária) segue por cerca de 28 quilômetros, partindo de Lagoinha até encontrar o limite com Ubatuba. Parte é permeável; outra, não. A parte permeável, onde há intercâmbio, fica ao norte, nas proximidades com Lagoinha. Há duas ligações por estrada de terra batida. Nem sempre estão em boas condições de trafegabilidade, por falta de manutenção periódica das municipalidades. Uma das ligações, via Fazenda Sant’Anna, é pelo bairro do Mato Dentro (Cunha) até alcançar o bairro do Chapéu Grande (São Luiz do Paraitinga). A outra ligação é pelo bairro do Ferraz (Cunha), que segue por um vale, até alcançar os contrafortes da Serra do Campo Grande e dobrar no bairro do Pinga (São Luiz do Paraitinga).
Mar de Morros: as montanhas que servem como limite entre Cunha e São Luiz. Foto: Michel Salazar.
Criado em 1977, o Parque Estadual da Serra do Mar impermeabilizou a parte sul da região fronteiriça, já no Planalto do Paraibuna. Por ser uma unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana ali, que era rarefeita, foi sendo progressivamente restrita e banida, regenerando em Mata Atlântica as áreas ocupadas e as trilhas abertas de outrora. Nas cercanias tinha até bairro conhecido: Sertão do Palmital. Inexistente atualmente, vencido pelo avanço da floresta tropical.
Serra do Campo Grande: aspecto. Foto: Rodrigo Leite Massiere. Data: 201[?].
O morro pedregoso mostrado na foto desta postagem está a 1.580 metros de altitude. A Serra do Campo Grande em alguns pontos chega superar os 1.600 metros. Por isso, ali a fisionomia é diferente do entrelaçado esverdeado de árvores, arbustos, cipós e plantas da Mata Atlântica característica. A altitude moldou nova fisionomia. É domínio de um ecossistema chamado de “campos de altitude” que, segundo a biogeografia, a despeito das controvérsias sobre sua origem, são típicos dos pontos mais elevados dos sistemas serranos do sudeste brasileiro, que se soergueram principalmente durante o período geológico do Terciário. Um delicado relicto escondido no topo da serra, tal qual na Serra da Bocaina. Fez bem o governo estadual em determinar a preservação daquela área, através de unidade de conservação.
Alto do Diamante. Foto: Alessandra Ramos. Arte e dados sobre a foto: Jacuhy.
As velhas fazendas que compõem a paisagem cultural daquelas bandas; as que sobraram, diga-se; são mais uma evidência que foi por ali que começou a ocupação do nosso município. A mais soberba, exemplo do neoclássico rural paulista, a Fazenda Sant´Anna fica por perto. Mas são as modestas, ecléticas por questões de pobreza, que podem ser vistas com mais frequência. São janelas para um tempo que já se foi… Muitas estão abandonadas, atestando a mudança dos ciclos econômicos que fizeram a riqueza e a história. Perderam a função dentro da organização espacial que emergiu no século passado. A pecuária de corte e leite, atividade agora predominante, é causadora de despovoamento, de êxodo rural. Desoladas, à mercê do tempo, as fazendas acabam virando taperas. E por fim, ruínas.
Fazenda do Mato Dentro quando ainda estava em pé. Hoje, está em ruínas. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
Mais que laços culturais, religiosos e genealógicos em comum, essa região de fronteira, no entorno da Serra do Campo Grande (também chamada de “Alto do Diamante”), se constitui em uma paisagem bastante interessante. Ainda está vivo o folclore caipira em suas diversas manifestações, sobretudo nas folias, bandeiras e pousos da Festa do Divino Espírito Santo, festa ontológica dessa gente paulista há mais de quatrocentos anos.
Parte da Carta Topográfica “Lagoinha”, do IBGE, mostrando o limite entre os dois municípios, o desenho e a altimetria do relevo local.
Os limites municipais são meras convenções do Estado, visando garantir ordenamento territorial, criar jurisdição. A paisagem cultural, filha que é da história viva, supera todas as artificialidades. Ali é tudo uma gente só, um mesmo lugar.
Referências: Google Earth, Google Maps, A História de Cunha: 1600-2010 (João Veloso), IBGE (Cidades, Cartas Topográficas, Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE), Dicionário de Tupi Antigo (Eduardo Navarro), Terra Paulista: histórias, arte, costume (CENPEC), A Passarinhóloga (blog), As transformações na arquitetura rural paulista pré-moderna (Marcelo G. Augusto).
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Observação: Este texto, após ser compartilhado em nossa página no Facebook, obteve um excelente alcance. E surgiram alguns questionamentos sobre o conceito de fronteira, na forma como utilizei no título. Pois, atualmente, o termo fronteira tem sido usado para designar a linha divisória entre países; entre unidades federativas, seria divisa; entre municípios (como no caso), limite. Essa informação vem sendo ventilada, inclusive, em páginas de Geografia. Mas é meramente semântica; não conceitual, como se faz sugerir. Tal distinção não encontra eco nos autores clássicos da Geografia. “Fronteira”, para Raffestin (1993), é uma zona (geográfica) camuflada em linha. Portanto, como conclui Ferrari (2014), “o limite não é visível fora do mapa, mas é justificado pelo marco de fronteira simbolizando a linha, enquanto a fronteira é uma zona geográfica, um espaço que pode, conseqüentemente, criar relações que ultrapassem o limite[…]”. Sugestões de leitura sobre o assunto: RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993. FERRARI, M. AS NOÇÕES DE FRONTEIRA EM GEOGRAFIA. Perspectiva Geográfica, [S. l.], v. 9, n. 10, 2014. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica/article/view/10161. Acesso em: 18 nov. 2024.
Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP) Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.
Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.
Hoje, tudo isso é raridade…
As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.
A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.
A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.
Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.
Foto: Fernando Cobbos. Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).
Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.
Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.
Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…
Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.
Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.
Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.
Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.