Farinha, Pinga & Fumo

Aspecto do centro histórico de Paraty, penetrando o Atlântico. Famosa, entre tantas coisas, pela sua pinga. Data: 1961. Foto: IPHAN.

Anedotas populares são pequenos relatos ou histórias curtas, geralmente engraçadas, que fazem parte da tradição oral de um povo. Elas costumam ter personagens típicos e abordam situações do cotidiano com humor, ironia ou malícia.

Circulam de boca em boca, muitas vezes sem autoria conhecida, reforçando a tradição oral.

Podem carregar ensinamentos, fatos e críticas sociais ou apenas têm o intuito de fazer rir. Costumam ser simples e diretas, com um desfecho inesperado ou cômico. Variam de região para região, incorporando o jeito de falar e os costumes locais.

O universo caipira é pródigo em anedotas. São parte importante da cultura popular e sempre aparecem em rodas de conversa, programas de rádio, livros de causos ou apresentações humorísticas, servindo, inclusive, como fontes para a História.

Algumas se elevaram tanto na cultura popular, que viraram matéria poética e musical, como no poema abaixo e no vídeo acima.

Farinha, pinga e fumo, três produtos coloniais dos mais consumidos. Suruí (Magé), Paraty e Baependi, três localidades históricas, que, pela qualidade daquilo que faziam, ganharam fama no imaginário e no gosto popular. Em 1925, o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) publicou o livro “Pau-Brasil”, seu primeiro de poesias, em que aparece o seguinte poema:

RELICÁRIO
No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha da Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
Ê comê bebê pitá e caí

Neste poema, Oswald de Andrade interpreta o Brasil através de uma linguagem coloquial, contrastando o luxo da corte com a vida popular, para criar um efeito humorístico. O poeta ainda utiliza a gradação de verbos como “comê”, “bebê”, “pitá” e “caí” como uma afronta à norma culta da língua portuguesa, para intensificar o humor e a crítica social, valorizando o jeito de falar dos caipiras, das pessoas da roça. Ao se valer de uma linguagem informal e cheia de oralidade, aproxima a escrita da língua falada, para dialogar com o povo e romper com a formalidade do academicismo da época. O Modernismo no Brasil, em sua fase inaugural, buscou renovar a arte e a cultura do país valorizando a identidade nacional. Os olhares e as penas daqueles modernistas estavam voltadas para os sertões, para o interior, para o Brasil profundo e ignorado.

Ser moderno (para Oswald de Andrade) era ser caipira. Autenticidade é tudo.

Quem era N. G. Lima?

A beleza da poesia anônima está em sua liberdade. Ela não precisa de aplausos para existir. Mas quando encontra leitores, pode florescer em algo maior. Como aconteceu com tantos nomes que hoje fazem parte da história literária nacional. O anonimato não é ausência de valor. É apenas o ponto de partida.

Primeiras décadas dos anos 2000. O século XXI chegara a Cunha. Zé Monteiro havia perdido a eleição municipal. Um futuro promissor nos aguardava: Cunha seria um  insigne destino turístico, assumindo sua “vocação natural”. Nós aguardamos por esse futuro até hoje. Recorro à fina ironia de Luis Fernando Verissimo, escritor recentemente falecido, para definir essa desilusão: “o futuro era muito melhor antigamente.” Alguns prognósticos envelhecem mal. Não sem antes nos envenenar de esperança, esta droga que nos faz viver sonhando só para nos desiludir, ao acordar.

E eu acordava cedo. Morava na roça. Vinha para escola, na cidade, de ônibus. Sem dinheiro, sem livros, saciando minha abstinência de leitura nos jornais da biblioteca do colégio. Cunha não era uma Arcádia, apesar de montanhosa, mas havia poemas e textos disponíveis, gratuitos, pelas papelarias, mercados e outros comércios da cidade. Da política à poesia, esses panfletos apócrifos eram lidos e repassados. Alguns foram guardados. Ainda bem, pois desapareceram. Já não se acha mais pelas aldeias do Peloponeso essas manifestações escritas. A vida acontece, agora, em espaços virtuais. O próprio Pã ficaria em pânico com a selvageria desses ambientes.

Lembro dos poemas que eram distribuídos em Cunha no início do século XXI. Li vários, guardei alguns. Ficavam disponíveis sobre os balcões, aos montes. Quem se interessava, podia levar. Método interessante e analógico. Tecnologia de compartilhamento da época. Papel sulfite, fotocópia, gratuidade e muita sensibilidade. Belíssimos. Conquistaram, com certeza, novos leitores. Como o “Mãe”, de N. G. Lima. Ela (ou ele?) escreveu outros. Mas quem era N. G. Lima? Sobrenome estranho entre as famílias da terra. Um dos versos sugere não ser nativa. Um pseudônimo? Nunca descobri. E também nunca mais li nada dela(e). Desapareceu junto com seus poemas, com esse antigo hábito de deixar poemas nos balcões.

É verdade sabida que poetas usaram pseudônimos para evitar preconceitos ou construir identidades literárias, como escritoras do século XIX e o próprio Fernando Pessoa. Exemplos marcantes incluem os irmãos Brontë, que, na verdade, eram Charlotte, Emily e Anne, uma estratégia criativa para driblar o machismo, e, assim, serem levadas a sério no mundo literário da época, que era dominado por homens. Temos James Macpherson, que criou “Ossian”, em uma famosa fraude literária. Mas será esse o caso de N. G. Lima? Mas cá entre nós, que importa o nome? Queremos mesmo é saber o paradeiro da(o) poeta e dos seus poemas. Ao contrário daquela época, daqueles hábitos, minha fome por poemas sensíveis está latente.

Que fim levou N. G. Lima?

Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Conversas ao pé do fogo

Em 1924, Cornélio Pires lançou o livro “Conversas do Pé do Fogo”. O livro reuniu causos, reflexões, ditados populares, anedotas e sabedoria popular, coletânea obtida das conversas simples, ao redor do fogo, nas rodas de violeiros e nos encontros típicos do meio rural paulista. Era um hábito muito caipira e comum conversar ao redor do fogão a lenha.

Mas qual era a pauta dessas prosas noturnas? Assuntos vários: vagueando entre causos de assombração, fofocas, picuinhas, bafafás, negócios e negociatas… e as infindáveis genealogias, levantadas desde priscas eras, com a devida resenha e desfecho, tal qual o poema “Quadrilha”, de Drummond. Em um mundo em que o jornal, o rádio ou a TV não “pegavam”, eram essas conversas uma eficaz forma informação e entretenimento. “Jogando conversa fora, até o sono chegar”, como diziam. Iluminadas pelas chamas do fogão, incutia-se nas gerações mais novas o modo de falar e de contar uma história, a sabedoria e as crendices populares, tão necessárias para sobrevivência de uma cultura, mantendo viva as tradições caipiras. Como um ritual, uma iniciação.

Com a morte dos bairros rurais, vitimados pelo êxodo rural, as conversas ao pé do fogo foram se apagando. Mas não só. Fogão a lenha é coisa do passado ou virou enfeite. Famílias numerosas foram se encurtando. Reunião de vizinhos para prosear, em um mundo cada vez mais individualista, é considerada “perda de tempo”. Vínculos de sociabilidade viraram cinzas. O último sopro foi o advento da internet e a sua popularização, com os “smartphones”, que transladou as conversas ao pé do fogo para as páginas da história, para o baú de coisas antigas. Os círculos materiais deram lugar aos virtuais, aos grupos no “Zap”.

Cada vez mais rara, essa maneira de conversar, prazerosa, demorada, desinteressada, assistida pelos braseiros, foi imortalizada nos versos de Cora Coralina, no poema “Fazenda Paraíso”:

“(…) De lado, bancos pesados, a mesa das refeições.
Meu avô puxava o tamborete da cabeceira, tomava assento.
Tio Jacinto vinha e se ajeitava, nós, gente menor, rodeávamos o fogo
sentadas em pedaços de couro de boi, pelo chão.
Gente grande nos bancos em fileira.
Ricarda, acocorada, alimentava o fogo.
Ficávamos ali em adoração naquele ritual sagrado,
que vem de milênios, de quando o primeiro fogo se acendeu na terra.
Contavam-se causos. Conversas infindáveis de outros tempos
e pessoas mortas (…)”

Sobre Cornélio Pires, foi um jornalista, folclorista e escritor brasileiro, pioneiro na valorização da cultura caipira, sendo um dos primeiros a gravar discos com músicas sertanejas e causos do interior. Sua obra tem grande valor etnográfico, linguístico e histórico, preservando um Brasil que, aos poucos, se transformava com o avanço da urbanização. E que, neste dias, remetem a um tempo que já se foi…

O planeta do geógrafo

Aquarela de Antoine de Saint-Exupéry

Por Antoine de Saint-Exupéry *

O sexto planeta era dez vezes maior. Era habitado por um velho que escrevia livros enormes.

— Bravo! Eis um explorador! Exclamou ele, logo que viu o principezinho.

O principezinho assentou-se na mesa, ofegante. Já viajara tanto!

— De onde vens? Perguntou-lhe o velho.

— Que livro é esse? Perguntou-lhe o principezinho. Que faz o senhor aqui?

— Sou geógrafo, respondeu o velho.

— Que é um geógrafo? Perguntou o principezinho.

— É um sábio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.

É bem interessante, disse o principezinho. Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E lançou um olhar, em torno de si, no planeta do geógrafo. Nunca havia visto planeta tão majestoso.

— O seu planeta é muito bonito. Haverá oceanos nele?

— Como hei de saber? Disse o geógrafo.

— Ah! (O principezinho estava decepcionado). E montanhas?

— Como hei de saber? Disse o geógrafo.

— E cidades, e rios, e desertos?

— Como hei de saber? Disse o geógrafo pela terceira vez.

— Mas o senhor é geógrafo!

— É claro, disse o geógrafo; mas não sou explorador. Há uma falta absoluta de exploradores. Não é o geógrafo que vai contar as cidades, os rios, as montanhas, os mares, os oceanos, os desertos. O geógrafo é muito importante para estar passeando. Não deixa um instante a escrivaninha. Mas recebe os exploradores, interroga-os, anota as suas lembranças. E se as lembranças de alguns lhe parecem interessantes, o geógrafo estabelece um inquérito sobre a moralidade do explorador.

— Por quê?

— Porque um explorador que mentisse produziria catástrofes nos livros de geografia. Como o explorador que bebesse demais.

” — Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.

— Por que não? É o mais bonito! “

Saint-Exupéry

— Por quê? Perguntou o principezinho.

— Porque os bêbados vêem dobrados. Então o geógrafo anotaria duas montanhas onde há uma só.

— Conheço alguém, disse o principezinho, que seria um mau explorador.

— É possível. Pois bem, quando a moralidade do explorador parece boa, faz-se uma investigação sobre a sua descoberta.

— Vai-se ver?

— Não. Seria muito complicado. Mas exige-se do explorador que ele forneça provas. Tratando-se, por exemplo, de uma grande montanha, ele trará grandes pedras.

O geógrafo, de súbito, se entusiasmou:

— Mas tu vens de longe. Tu és explorador! Tu me vais descrever o teu planeta!

E o geógrafo, tendo aberto o seu caderno, apontou o seu lápis. Anotam-se primeiro a lápis as narrações dos exploradores. Espera-se, para cobrir à tinta, que o explorador tenha fornecido provas.

— Então? Interrogou o geógrafo.

— Oh! Onde eu moro, disse o principezinho, não é interessante: é muito pequeno. Eu tenho três vulcões. Dois vulcões em atividade e um vulcão extinto. A gente nunca sabe…

— A gente nunca sabe, repetiu o geógrafo.

— Tenho também uma flor.

— Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.

— Por que não? É o mais bonito!

— Porque as flores são efêmeras.

— Que quer dizer “efêmera”?

— As geografias, disse o geógrafo, são os livros de mais valor. Nunca ficam fora de moda. É muito raro que um monte troque de lugar. É muito raro um oceano esvaziar-se. Nós escrevemos coisas eternas.

— Mas os vulcões extintos podem se reanimar, interrompeu o principezinho. Que quer dizer “efêmera”?

— Que os vulcões estejam extintos ou não, isso dá no mesmo para nós, disse o geógrafo. O que nos interessa é a montanha. Ela não muda.

— Mas que quer dizer “efêmera”? Repetiu o principezinho, que nunca, na sua vida, renunciara a uma pergunta que tivesse feito.

— Quer dizer “ameaçada de próxima desaparição”.

— Minha flor estará ameaçada de próxima desaparição?

— Sem dúvida.

Minha flor é efêmera, disse o principezinho, e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!

Foi seu primeiro movimento de remorso. Mas retomou coragem:

— Que me aconselha a visitar? Perguntou ele.

— O planeta Terra, respondeu-lhe o geógrafo. Goza de grande reputação…

E o principezinho se foi, pensando na flor.

Fonte:
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe (com aquarelas do autor). Tradução: D. Marcos Barbosa. 17. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1974, cap. XV, pp. 54-58.

* Antoine de Saint-Exupéry (Lyon, 29 de junho de 1900 — Mar Mediterrâneo, 31 de julho de 1944), foi um escritor, ilustrador e piloto francês. “O Pequeno Príncipe” foi publicado em 1943 e foi o grande sucesso de Saint-Exupéry. A obra vendeu mais de 200 milhões de exemplares em todo o mundo. O autor, no entanto, morreria um ano depois da publicação do livro e não testemunhou o seu sucesso

Credo de Dom Quixote

“Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento”. Ilustração de G. A. Harker. Ano: 1910.

Por Mário Ferreira dos Santos *

Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade.

Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças.

Creio na coragem; no domínio dos desejos e no amor eterno.

Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia.

Creio na cavalaria andante, realização suprema do homem bom e viril.

Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar, e monstros que destruir.

Creio na necessidade do mal para maior glória do bem.

Creio na noite para maior glória do sol, e no sol para maior glória da lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.

Fonte: Da obra “Páginas Várias“, Editora Logos, 2ª edição, 1963, p. 194. (Coleção “Antologia da Literatura Mundial“).

* Mário Dias Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um filósofo, tradutor e escritor paulista. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais“. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de “Filosofia Concreta“. Foi um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do “Centro de Cultura Social“, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo.

As três humanidades

Por Mário Ferreira dos Santos *

A Torre de Babel, pintura de Pieter Bruegel, o Velho (1563). Fonte: Wikimedia.

A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.

São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.

São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.

A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: “Tenho asfalto na alma … ” ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um “modus-vivendi”; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de “moda”, na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas “exquises”, instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do “taedium vitae”; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem econômica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingênuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, “Os homens excelsos não são originais”.

Justifico por final o título: três humanidades.

A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.

Fonte:
FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Páginas várias. 2. ed. São Paulo: Logos, 1963, pp. 106-108.
(Coleção Antologia da Literatura Mundial)

* Mário Dias Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 1907 – São Paulo, 11 de abril de 1968) foi um filósofo, tradutor e escritor brasileiro. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de Filosofia Concreta. Um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do Centro de Cultura Social, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo da primeira metade do século XX. Era autodidata e dono de uma enorme erudição. Para saber mais sobre o filósofo clique aqui.

Província Sentimental

Mar de morros da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. Foto: Frederico T. de S. e Miranda.

Por Ribeiro Couto *

Não sei a data precisa que começou a ficar nítida esta sensação de governar uma província própria, província que não corresponde à real “divisão administrativa” dos territórios que constituem, porque uns obedecem à soberania de São Paulo, outros à de Belo Horizonte e outros à de Niterói. Por alguns anos vivi em velhas cidades do Paraíba, não as mais notórias, senão as mais obscuras, fora da estrada de ferro, as que exigiam viagens a cavalo, ao sol e à chuva (São Bento do Sapucaí, Cunha, São José do Barreiro), passando à noite em ranchos de tropeiros. Foi nessas viagens que tive a revelação do virgem cheiro da terra orvalhada, pela manhã, quando as rolinhas andam ciscando pelo chão da estrada e o pesado voo dos viras mancha de preto o verde dos pastos. A seguir, fui morar no Sul de Minas e o sortilégio foi crescendo. Mais tarde, alguns anos no estrangeiro me ensinaram a unidade profunda daqueles vales (os de serra abaixo e os de serra acima) e verifiquei, maravilhado, que tinha dentro de mim toda uma província. Podem secretarias de segurança pública e repartições do tesouro, deste ou daquele Estado, distribuir forças de polícia e fazer coletas tributárias; é dentro de mim que está o governo desses rincões. A mim é que eles obedecem. Em mim é que confiam os povos. A mim é que devem as boas chuvas e as boas colheitas. Sou eu quem constrói em cada comarca o novo edifício de cadeia, onde aliás não quero nenhum preso; a cadeia é só para enfeitar o largo principal. Acompanha-me por toda a parte essa província feliz; é o meu verdadeiro chão. Se estou fatigado ou triste, recordo, por exemplo, o bambual que esconde aos olhos da cidade de Pouso Alto o pequeno cemitério do morro; ou penso no miserável casebre em que certa madrugada tive que dormir na Rocinha, a quatro léguas de Cunha, e onde os arreios dos animais me serviram de travesseiro, (A cabocla, com um candieiro de querosene na mão, ainda foi à cozinha assar um pedaço de carne para me servir a ceia). Não há desilusão ou amargura que possa destruir estes alicerces interiores, nem fazer secar estas fontes de gratuito enternecimento. A minha província me dá forças. Nela me revejo e dela me vem sempre um aceno amigo: memória de um café tomado à porta de um rancho, um olhar bondoso, um pedaço de paisagem onde voa sempre um passarinho.

Mas com certeza foi no Sul de Minas que tomei consciência maior de uma terra “minha”. Assim como também: de uma terra da qual eu tinha o imaculado gosto de ser.

Sobretudo nas vizinhanças imediatas da Mantiqueira, o Sul de Minas é um país à parte no sistema territorial do Brasil. Mesmo nos contrafortes mais ásperos da serra, limite meridional desse país, a paisagem não resultou de convulsões telúricas: tudo foi armado por mãos meigas. O caráter dominante dessa paisagem é a doçura.

Parece que na véspera do mundo ser habitado, quando as potências divinas organizavam a natureza, aquele pedaço do planeta ficou a cargo de anjos de bom gênio. O panorama não guardou lembrança de nenhuma pessoa má, nem de nenhuma ambição torpe. As vaquinhas se espalham, no fim da tarde, pelas lombas verdes de Passa Quatro ou Itanhandu (e provocam o êxtase da surpresa rural nos veranistas metropolitanos, debruçados à janela do trem) são animais de presépio; foi um dom dos reios magos, vieram da Judeia, em barcos fenícios. Dizer utilitariamente dessas vaquinhas “gado leiteiro”, é diminuir-lhes a categoria histórica e a dignidade cristã. Sacudindo a cauda paciente em pleno campo de capim-gordura, não se defendem da picada sutil das mutucas, nem da comichão dos bernes: executam um simples movimento de advertência religiosa, para mostrar que estão vivas, que não são inanimados ornamentos de um estábulo simbólico.

O Sul de Minas começa numa grotinha fresca, entre avencas silvestres, precisamente no ponto em que há uma caixa d’água e a locomotiva para, estendendo a mangueira para beber. Capoeirões de mato húmido cobrem as perambeiras, de um lado e de outro da linha. As pessoas vão no expresso, nos vagões manchados de graxa, sentem que ficou para baixo, lá muito em baixo, o mundo impuro do calor e da ansiedade. Já não haverá, por ali acima, em cada estação, rostos congestos de caixeiros-viajantes; nem senhoras que sobem aflitas à segunda classe, abanando-se com um jornal. A vida agora funciona num plano etéreo, suspensa entre nuvens e ligeiras brumas; e se porventura há sol, é um sol que pela manhã tomou o seu autêntico banho de chuva, um sol contente e lavado com a graduação exata do indispensável teor calórico (só o suficiente para amadurecer as lavouras).

Por meio de um golpe de estado, eu completaria o Sul de Minas com a incorporação do território vizinho de serra-abaixo, até o litoral (só para que não faltasse a essa região perfeita o adminículo poético e econômico do porto do mar).

Na verdade, existe em mim toda uma vasta província, na qual não fui nascido, mas em que senti renascer. Abrange a Bocaina e a serra de Cunha (desde as praias de Parati); desce até o vale do Paraíba, entre Bananal e Taubaté; sobre pela Mantiqueira e se estende, por Minas em fora, entre Paraisópolis e Pouso Alto. Ao Norte, até onde iria meu território?

Sei quanto seria difícil, para um geógrafo ou para um ditador, estabelecer os limites desse território pessoal; haveria municípios que desejariam fazer parte dele (Campos Gerais, por exemplo, onde tenho um amigo); outros, demasiado presos à influência de Belo Horizonte, quereriam ser excluídos. Problemas graves surgiriam, como o da escolha da capital. A velha cidade de Baependi, em cujos sobrados coloniais subsiste a memória de defuntas grandezas agrícolas, reclamaria o privilégio. A cidade de Campanha apresentaria títulos de inextinguível esplendor; e Itajubá não se conformaria; o Dr. Wenceslau Braz me mandaria um portador com uma carta, expondo as razões industriais que militariam em favor da “Chicago Sul-mineira”. Finalmente, a própria cidade de Pouso Alto, com sua única rua, a sua única praça e a estrada da Estação, viria em peso, à minha presença, para recordar-me que a ela, Pouso Alto, é que devo a minha identificação sentimental com as margens do rio Verde.

Essa província nunca existirá para a nação. Tanto mais depois que às capitais interessadas chegar a notícia de tais planos. Nunca será possível dar o golpe. Já agora, quando eu for a Niterói, a Belo Horizonte ou a São Paulo, haverá pessoas vigilantes no meu encalço. A mais humilde valise será revistada; terei de explicar, quem sabe, papéis garatujados que me acompanham (sempre fico inspirado em viagem) e será difícil que as delegacias de segurança social acreditem que se tratem de poemas, exclusivamente de poemas. Quando eu for a um bar à meia-noite, tomar um chope melancólico, todo perdido em meras evocações do meu passado de promotor estadual (origem biográfica de tal obsessão), haverá um sujeito de palheta, fumando charuto, que estará tomando nota da minha atitude e dos meus passos; pensará que fui ali “fazer uma ligação”.

Não importa. A verdadeira existência de uma pátria é questão de alma. Dentro de mim serei sempre o ditador de uma província natal independente e própria, composta de territórios que eu mesmo juntei por amor, como uma criança que fez um brinquedo para ela só.

Fonte: Barro do Município”, 1956, pp. 16-18.

* Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto) foi um diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista brasileiro. Nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Foi o quarto ocupante da cadeira 26, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 28 de março de 1934. Em 1924, Rui Ribeiro Couto, já então noivo de D. Ana Jacinta Pereira, natural de São Bento do Sapucaí, deixou esta bucólica cidadezinha montanhesa, onde fora delegado de polícia. Para o mesmo cargo e no mesmo ano, foi nomeado para a cidade de Cunha, onde veio residir entre março e abril do mesmo ano. Quando aqui esteve escreveu “Poemetos de Ternura e de Melancolia”, poesia, e “A cidade do Vício e da Graça”, crônicas e viagens. Em seguida, foi nomeado promotor de Justiça em São José do Barreiro, aqui no Vale do Paraíba. Entre 1926 e 1928 residiu em Pouso Alto, Minas, onde exerceu a promotoria e fez tratamento de sua precária saúde. Foi lá que escreveu essa crônica, “Província Sentimental”. Em 1928, parte para a França, passando a ocupar diversos cargos diplomáticos na Europa, chegando a ser embaixador do Brasil na antiga Iugoslávia.