Título: Saudade. Criador: Almeida Júnior. Data de criação: 1899. Tipo: Óleo sobre tela. Direitos: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
“O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E, por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.”
(CAEIRO, Alberto. Poesia (O Guardador de Rebanhos). Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 53-54)
E se completam os primeiros 10 anos do Jacuhy, o seu primeiro decênio. Em 21 de junho de 2016, resolvi criar uma página para expor tudo o que eu havia lido e pesquisado sobre Cunha. Boas intenções, poucas pretensões.
O Jacuhy é um blog pessoal. E um blog bairrista: é sobre Cunha, por Cunha e para Cunha. Cunha é o rio da minha aldeia. Nunca quis ser apenas um blog de história, cultura ou geografia. Porque há tantos, e “toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia”.
Sempre gostei de curiosidades históricas; as grandes questões da História nunca me cativaram, porque são chatas e insolúveis. O que é pequeno, conhecido em toda a sua extensão, palpável, me dá segurança. Diz-se: “mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Eu não sou marinheiro. Sou “cunheiro”. Opto sempre pela bonança.
Essa ânsia pelo completo me motiva. Fechar um assunto, esgotá-lo em suas causas e consequências é um deleite. Tanta subjetividade não pode atender aos ditames da micro-história; ainda assim, não me preocupo com o rigor científico. A narrativa é igualmente importante. Quem se põe a escrever tem no leitor a sua finalidade última.
O Jacuhy nunca foi o único a divulgar a história de Cunha. O querido professor João Veloso, um ícone, ainda era vivo quando fiz minha primeira postagem. O professor Victor Amato estava em plena atividade. O grupo virtual “Memória Cunhense”, no Facebook, estava com a audiência lá em cima. O Jacuhy veio para somar: ser mais um canal cultural, propagando notícias históricas e geográficas de Cunha.
Na época (2016/2017), fazia-se, no “Memória Cunhense”, o debate sobre a correção da data de aniversário de Cunha, propondo sua mudança para a data de fundação do município: 19 de março. Engajei-me nessa questão, mas quis ir além. No grupo, escrevia-se muito sobre o assunto. Os que apoiavam a mudança — a maioria — fundamentavam-se no livro do professor João Veloso (A História de Cunha); já os que eram contra, por diversas razões, apoiavam-se na banalidade da ação ou em outras fontes. Foi um período interessante: uma comunidade debatendo sua história e buscando alterar a história oficial.
A vitória do “19 de março” foi a vitória das ideias do professor João Veloso, levadas adiante pelo professor Victor Amato. Foi a municipalidade, por meio de uma lei, reconhecendo publicamente os 40 anos de pesquisa sobre Cunha de João Veloso: fundador do Museu Francisco Veloso, do Centro de Cultura e Tradição e pioneiro em tantas outras ações em prol da comunidade. Um reconhecimento merecido — e ainda pequeno diante de tudo o que ele foi.
Neste tempo de modernidade líquida, 10 anos é muito tempo. As mudanças já não esperam gerações: acontecem a todo momento e alteram o curso dos acontecimentos. Por isso, qualquer prognóstico sobre o Jacuhy é incerto. Se este fosse meu último post, ficaria feliz por tudo o que já publiquei na internet.
Não sou pesquisador, nem tenho nisso o meu trabalho. Sou real. Também estou sujeito às intempéries da vida — e tenho passado por algumas delas. Peço desculpas pelas ausências dos últimos meses. Tento contorná-las, mas não é fácil. Tudo requer tempo, este recurso escasso. Há coisas que o Jacuhy tem deixado pela metade: o mapa hidrográfico, a Proclamação da República em Cunha, os arquivos da escravidão, a política na década de 1930, uma biografia sobre o Molinari, o livro que quero escrever…
Lido com a ansiedade de não poder explorar todos os meandros do tempo ainda não visitados. E são muitas as curvas desconhecidas nesse rio tricentenário da história de Cunha.
Entre um café e um livro velho — que ataca minha rinite — vou prosseguindo. É muito difícil definir prioridades e sacrificar hobbies. Saudades de 2016! Não precisava me preocupar com tantas coisas… As intempéries da vida são forças morfoesculturais que moldam nossa existência e são alheias à nossa vontade. Devo aprender diariamente que, como disse o poeta Fernando Pessoa, “viver é não conseguir”.
Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP) Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.
Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.
Hoje, tudo isso é raridade…
As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.
A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.
A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.
Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.
A delegada Dr.ª Vania de Oliveira, fundadora do grupo “Memória Cunhense”. Foto: jornal “O Vale”.
Foi uma grata notícia para todos nós, quando em 2013, ficamos sabendo que a nova delegada da Delegacia de Polícia de Cunha era gente daqui. Pela primeira vez a cidade teria um delegado do lugar. E seria a Vania do “Nerso do Pó”, do dono da fábrica de torrefação de café Vicunha. Pronto! Já tínhamos a ficha completa da pessoa e os antecedentes todos, pois em Cunha ninguém é anônimo, todo mundo é “fio” de alguém, neto de outrem,… Assim, mais do que um processo genealógico, podemos fazer suposições sobre a estirpe da pessoa. Coisa nossa. E a da Vania era a melhor possível. Seus pais (Nércio & Cinira) foram conhecidíssimos e queridíssimos por todos. E para completar, a Vania já chegou com a fama feita: seu ótimo trabalho em São Luiz do Paraitinga tinha extrapolado as fronteiras, repercutindo em Cunha, para orgulho nosso. E em Cunha não foi diferente. Fez um excelente trabalho combatendo o crime na cidade e na nossa extensa zona rural. Promovida, teve que partir. Mas antes criou o maior grupo de memória coletiva do Vale, o “Memória Cunhense”, sucesso de audiência e postagens entre os “cunheiros”. Fruto do seu amor à terra e ao povo de Cunha. Sua terra! Ainda que por um fortuito geográfico tenha nascido em Guaratinguetá, cidade em que trabalha e reside atualmente. Mas ninguém duvida que seja uma cunhense de alma e coração. Nós conhecemos os nossos.
Mesmo morando aqui do lado, Vania revela que pretende voltar, após se aposentar, para a terra onde seu “umbigo está enterrado”.
No dia 9 de setembro deste ano, a Dr.ª Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, gentilmente, concedeu uma entrevista ao Jacuhy, que publicamos abaixo.
Jacuhy: Em 2012 você teve a ideia de criar um grupo “Memória Cunhense”, hoje um sucesso total e um dos maiores grupos virtuais de história e memória da nossa região. Como aconteceu? O que motivou você a criar o grupo? E como você vê hoje, nove anos depois, os resultados e as colaborações recebidas pelo grupo?
Vania:Acessando as redes sociais, percebi que alguns de meus amigos virtuais, em algumas oportunidades, publicavam fotografias antigas de familiares. Essas fotos, além de serem muito comentadas, despertavam meu interesse, seja pelo fato de dar um rosto para um cunhense, ilustre ou não, ou ainda pelo fato de que algumas dessas fotos apresentavam como pano de fundo uma construção antiga ou uma paisagem, que permitia reconstruir, pelo menos na minha imaginação, como seria fazer parte daquele momento importante da história de alguém ou mesmo a configuração arquitetônica ou paisagística de Cunha. A partir de então, passei a consultar algumas pessoas que demonstravam interesse pela parte histórica, dentre eles Victor Amato e o Efraim, os quais foram unânimes em incentivar a ideia de juntar todo esse material disperso em vários perfis e agrupá-los em um grupo, para que ficassem acessíveis para qualquer pessoa, sendo que os membros também poderiam alimentar com qualquer documento ou fotografia importante de sua família. É importante ressaltar que, emrazão do isolamento de Cunha, por um longo período, não tivemos grande quantidade de registros fotográficos e, os poucos que foram feitos, em grande parte, pertenciam a cunhenses que deixaram a cidade em busca de uma vida melhor; assim, poderiam compartilhar de onde estivessem.
Outro detalhe importante é que o grupo pretendia dar visibilidade àquelas pessoas que, embora não tivessem destaque social ou ocupassem cargos importantes, faziam parte do imaginário do povo cunhense por diversas razões, particularidades ou qualidades. Essas fotografias são as mais raras e, não por coincidência, são as mais visualizadas e inspiram os membros do grupo a tecerem seus comentários. Foi dessa forma que conheci o Zé Varda, o Ignácio Bebiano dos Reis, o Dr. Casemiro da Rocha, a D. Benzinha, a Lenice Amato, dentre tantos outros.
Hoje, passados 9 anos, entendo que o grupo segue firme, com mais de 8000 membros e mais de 4000 registros fotográficos, documentais, jornalísticos e literários. Esse farto material o torna apto à realização de pesquisas por estudantes ou apenas curiosos.
“Nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas…”
Vania Zaccaro, sobre o desafio que a sociedade cunhense tem para com sua própria história, após a partida do professor João Veloso
Jacuhy: Ano passado perdemos o professor João Veloso, grande incentivador da história e cultura local. Para você, que se interessa por essas questões, quais são os desafios que Cunha precisa enfrentar nessas áreas, agora sem a presença do professor João Veloso?
Vania:O falecimento do Professor João Veloso é uma perda imensurável. Foi meu professor no ensino médio e meu interesse na história de Cunha se deve ao seu trabalho. Eu acho, inclusive, que a história de Cunha se divide em antes de João Veloso e depois de João Veloso. Antes houve uma literatura com relação a nossa história, mais específica para trabalhos acadêmicos, feita por renomados estudiosos, importantíssima, mas nada que se compare com o livro “A História de Cunha”, escrito pelo professor João Veloso. Pela profundidade, pelo cuidado na pesquisa e pelo olhar apaixonado de um cunhense que dedicou sua vida para resgatar tudo que nos é caro.
Com a morte do professor, acho que nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas, para que não pereçam.
Jacuhy: Você foi delegada em São Luiz do Paraitinga, município vizinho de Cunha, e que tem uma postura muita ativa e propositiva na preservação da história e cultural do lugar. O que tem em São Luiz que não tem em Cunha? Podemos aprender algo com os nossos vizinhos?
Vania:Tive a grata satisfação de exercer minhas funções, por 9 anos, no município de São Luiz do Paraitinga, cidade que me acolheu e me honrou com o título de cidadã luizense. Os luizenses são as pessoas mais orgulhosas de sua cidade que eu conheci. Eles amam seus casarões, a música, as tradições, a história e principalmente a cultura caipira, sendo reconhecidos como o do “último reduto caipira do estado”. Esses valores fizeram com que eles resistissem às inovações e preservassem seu patrimônio arquitetônico e imaterial, mantendo-o o mais fiel possível. Em Cunha, faltou essa consciência de preservação. A arquitetura colonial foi considerada ultrapassada e algumas casas foram demolidas para se construir prédios modernos. Essa desconsideração influencia todo o resto. Vejo um certo distanciamento da população em geral com tudo que é relativo a esses bens, materiais e imateriais, fazendo com que sobrevivam graças a esforços de alguns abnegados, que resistem para defendê-los.
Jacuhy:Você passou a infância em Cunha e nossa cidade viveu muitas mudanças nos últimos anos. Quais são suas recordações desse período? Há algumas personagens que você recordaria? Há algo que nossa cidade perdeu e que devia resgatar?
Vania: Eu vivi em Cunha desde meu nascimento até os 34 anos, quando tive que sair para assumir cargo público. Embora a cidade fosse bem diferente, para mim era perfeita. Somente tenho boas lembranças, de momentos felizes, de amizades sinceras, de acolhimento, de empatia e solidariedade. Embora não professasse a fé católica (venho de uma família metodista), participava das festas religiosas, procissões, missas e isso foi superimportante para minha formação. Viver nessa época tinha um sentido mágico. Lembro, com muitas saudades, dos caminhões leiteiros, que transportavam as pessoas e tudo que conseguiam carregar: frangos, queijos, frutas e hortaliças, ovos e flores, no dia de Finados. Essas flores eram de todos os tipos, copos-de-leite, hortênsias, palmas de Santa Rita, lírios brancos, rosas, dálias etc. As pessoas, com toda dificuldade de locomoção, deixavam suas casas e iam até o cemitério para prestar homenagens aos seus antepassados e o cemitério ficava pequeno para tanto movimento. As músicas tocadas eram apenas sacras e religiosas e todos estavam tristes e comovidos. Também me marcava muito a Sexta-Feira da Paixão, onde os pecuaristas doavam toda a sua produção leiteira para quem quisesse aproveitar. O leite retirado das vacas, nesse dia triste, não poderia ser vendido. Hoje, tudo é muito diferente.
Jacuhy: Entre os seus interesses em nossa História, Vânia, você é uma das que mais destacam a nossa memória degustativa e a importância dela para nossa identidade. Por que você gosta de destacar essa questão? Há algum motivo pessoal por trás? E quais pratos e iguarias cunhenses que poderiam, segundo sua opinião, se tornarem patrimônio cultural imaterial de Cunha, já que os municípios de nossa região estão fazendo um resgate nesse sentido?
Vania: Essa memória degustativa faz parte do processo de reconhecimento da identidade do lugar. O afogado está para São Luiz do Paraitinga, como o bolinho de arroz está para Cunha. Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas.
Jacuhy: Você fez um bom trabalho quando esteve em Cunha, recebendo o reconhecimento da sociedade cunhense. Pretende voltar para Cunha ainda exercendo a sua profissão ou só depois de se aposentar? Ou não pretende mais retornar para cá?
Vania: Obrigada por sua generosidade em avaliar meu trabalho. Por três anos tive a honra de prestar serviços na minha cidade e, em razão de uma evolução na carreira, somos obrigados assumir maiores responsabilidades em cidades maiores. Entretanto, a aposentadoria se aproxima e, assim que conseguir, voltarei para onde meu umbigo está enterrado.
“Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas”
Vania Zaccaro, sobre a necessidade de ampliar o conjunto de bens do patrimônio culturalcunhense
Jacuhy: Vânia, você deixa muito claro em nossas conversas e nas suas postagens que, entre suas paixões, estão a História, as histórias e os causos de Cunha. Pretende escrever um livro sobre o assunto? Ou mesmo um livro sobre Cunha?
Vania: É apenas uma pretensão distante. Aposentada, teria um tempo maior para me dedicar a esses assuntos importantes e ajudar com ideias e pesquisas. Penso que existem vários cunhenses brilhantes que devem ter guardado poesias, contos, crônicas e histórias e, quem sabe, poderíamos fazer uma coletânea e editar alguma coisa. São apenas ilações de uma cunhense apaixonada por sua terra.
Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.
Vania:Por nada. Eu é que agradeço a sua consideração.
Entrevista concedida por mensagem, pela Drª. Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, para a página e blog Jacuhy. Data: 09 de setembro de 2021.
O grupo Memória Cunhense conta com um acervo de 4 mil fotos históricas de Cunha e sua gente. Contém milhares de informações úteis a quem se interessa pela História local. Professores, estudantes, pesquisadores e interessados podem ter acesso à totalidade desse acervo digital porque o grupo é público.
No vídeo, fizemos um pequeno tutorial para quem tem interesse em pesquisar algum assunto no Memória Cunhense, pois como o grupo já existe há 8 anos, são milhares de postagens disponíveis, o que torna extremamente trabalhoso buscar aquelas mais antigas pelo mural, via barra de rolagem. O ideal é utilizar a ferramenta de busca que existe dentro do próprio grupo.
O tutorial foi feito utilizando um smartphone, que é a ferramenta mais usual para acessar o Facebook atualmente. Para quem pretende pesquisar utilizando um computador, o procedimento é um pouco diferente. Ao acessar a página do grupo, há na lateral esquerda várias guias (“Discussão”, “Membros” etc.). Abaixo da guia “Sala de vídeo” há uma caixa de pesquisa acompanhada pelo ícone da lupa. Para fazer a pesquisa, basta digitar o termo dentro da caixa de pesquisa e clicar na lupa, para que aconteça a busca nas postagens do grupo. Os demais procedimentos são iguais aos do smartphone.
Muitas fotos antigas de Cunha e de seu povo podem ser encontradas no grupo Memória Cunhense.
Outono de 2.012. Os cunhenses, não só daqui, mas os dispersos por outras paragens, resolveram que era chegada a hora de invadir a rede social do Mark Zuckerberg, deixando juntar mato nas hortas de “colheita feliz” do Orkut. Cingidos com chapéu de palha e armados com enxada na cacunda partiram todos para o “Feice”. E assim que chegaram, trataram logo de colonizar o novo espaço virtual, demarcando o território com café, farinha, pinhão, preocupação com a vida alheia e muito “ar”, “er”, “ir”, “or”, “ur” para todos os lados. Porém, trouxeram consigo muitas postagens interessantes e saudosistas sobre Cunha e seu povo. Já que a Globo não mostra Cunha mesmo (nem quando houve o “L’Étape Brasil”, lembram?), nós mostramos. E do nosso jeito! Com muito sentimento envolvido, porque Cunha é nossa pátria e o nosso bairrismo interiorano “imporrrta, sim, senhorrr”.
E foi no meio de tantas postagens proveitosas e desencontradas que se ocultavam no feed de notícias e que desapareciam nos algoritmos da rede, que a doutora Vânia Zaccaro, “cunhêra raiz” e delegada de Polícia Civil, resolveu pôr ordem na casa. Teve então a ideia de criar um grupo que reunisse todas as postagens sobre Cunha. Para tal empreitada convidou o professor e escritor Victor Amato dos Santos, historiador e maestro da Banda Furiosa, para manter as publicações afinadas com o propósito do grupo. E chamou o Paulo Henrique de Campos Reis, que carrega no sangue a saga dos tropeiros, para transportar para o espaço virtual conteúdos que estivessem perdidos pelos sertões da rede social. E foi assim que, em 22 de junho de 2.012, foi criado o grupo Memória Cunhense com algumas dezenas de membros.
As primeiras postagens e colaborações foram feitas pelos próprios idealizadores, já que tudo aquilo era novidade para muitos e “nóis”, caipiras, somos ressabiados por natureza ante qualquer modernidade. O professor Victor já dispunha e publicara em seu perfil um riquíssimo material de cunhenses inolvidáveis de outrora (Tio Malaquias, Zé Veloso, Zé Varda, Seu Ubirajara, Tia Ção, Victor Amato & Maria Tereza Fornitano, entre outros). Então coube a ele inaugurar e abastecer o grupo nos primeiros dias, trazendo ao público a memória de tanta gente boa desta terra que, quando viva, era indispensável; e mesmo morta, é inesquecível. O Paulo Reis publicou o relato de seu pai, Sr. Roque Inácio, um dos últimos tropeiros de Cunha. E a Vânia resolveu aguçar a nossa memória gustativa, publicando a tradicional receita do bolinho de arroz, que tanto sucesso faz nas alvoradas da Festa do Divino, iguaria cunhense por excelência. A memória compreende várias dimensões do ser humano, passando, inclusive, pelo estômago.
À medida que o grupo ia crescendo e ganhando novos membros, o alcance das postagens se ampliava e novas contribuições foram surgindo. A quantidade de fotos e informações postadas aumentava diariamente. Os baús familiares foram se abrindo, fotografias antigas eram digitalizadas e lembranças diversas eram compartilhadas. A cada nova postagem, uma grata surpresa. Em cada surpresa, uma emoção. Para o cunhense ausente, que migrou, mas que manteve os laços afetivos, familiares e de pertencimento ligados a esta terra, relembrar é reviver. E reviver é sentir de novo. E assim, foto após foto, comentário após comentário, foi-se tecendo a memória coletiva de tanta gente dispersa e desencontrada, trazendo a lume o que foi olvidado, mas que não devia ter sido esquecido nunca. E quantos reencontros não aconteceram nos comentários? Reencontro com o passado, com o esquecido, com os parentes, com os amigos, com os lugares, consigo mesmo e com a comunidade. E quantos desses reencontros não começaram com a peculiar indagação: “Ocê é fio di queim?”. Frase-gatilho para despertar uma boa prosa e tantas reminiscências.
O professor Victor aponta que o sucesso do grupo se deve à seriedade e qualidade dos conteúdos postados, o que tornou o Memória Cunhense uma fonte de pesquisa para estudantes, professores, curiosos e interessados na História local, graças à “riqueza e precisão de informações nas publicações feitas nele quase que diariamente pelos participantes/colaboradores”, arremata.
Sem dúvida que o lançamento do livro “A História de Cunha”, pelo saudoso professor e historiador João Veloso, em setembro de 2.010, despertou o interesse dos cunhenses para com o seu passado e contribuiu para o surgimento de grupos de natureza memorialista e histórica. Sobre essa questão, o professor Victor acredita que o Memória Cunhense é um complemento ao livro do João Veloso, pois dá voz e vez ao povo cunhense para narrar a sua própria História. Esse pensamento converge com o objetivo da Vânia ao criar o grupo, pois conforme relato seu: “achei uma boa ideia reunir essas fotos, a maioria de anônimos ou pessoas que, embora não tivessem grande relevância para História oficial da cidade, estavam presentes no imaginário dos habitantes de Cunha”.
Foi também no Memória Cunhense que a ideia de se retificar a data de fundação do município de Cunha ganhou força e apoiadores, gerando muitos debates e questionamentos. Até que em 2.017, em um movimento encetado pelo professor Victor e respaldado nas pesquisas do historiador João Veloso, três audiências públicas ocorreram na Câmara de Cunha para debater a questão. Concluídas as audiências, um projeto de lei foi aprovado pelos vereadores e sancionado, posteriormente, pelo então prefeito Rolien Guarda Garcia, estabelecendo o dia19 de março de 1.724 como data oficial de fundação do município de Cunha.
Em 2020, o grupo já contava com um acervo virtual de mais de 4 mil fotos, 50 mil comentários e mais de 7 mil membros que interagiam e colaboravam ativamente nas postagens. E tudo isso está acessível a todos, pois o grupo é público. O Memória Cunhense é único porque foi pioneiro e precursor de outros grupos similares em municípios vizinhos. É único porque tem cumprido à risca a sua missão de matar a saudade e fazer reviver o que foi esquecido. Continua firme e forte em seu propósito inicial de ser uma exposição permanente e aberta para as belezas da Cunha de ontem, de hoje e de sempre, pois, como disse o poeta:
” (…)
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão. “
Carlos Drummond de Andrade, in “Memória”.
Imagem da postagem da série “Hoje na História de Cunha”, da página Jacuhy. O fundo é formado por fotos que estão no acervo digital do Memória Cunhense.
Relato escrito concedido pela Dra. Vânia Idalira Zaccaro de Oliveira, advogada, delegada e criadora do grupo (via Messenger). Guaratinguetá, junho de 2.020.
Relato escrito concedido por Victor Amato dos Santos, professor, historiador e criador do grupo (via Whatsapp). Cunha, junho de 2.020.
Imagens: Banco de imagens do grupo Memória Cunhense (Facebook).
Observações: Agradeço a contribuição e a gentileza da Vânia e do Victor por atender à solicitação da página prontamente, enviando os relatos que embasaram esta postagem.
Texto escrito originalmente para página do Facebook “História de Cunha” (atual Jacuhy), postado em 22 junho de 2.020.