Museu Francisco Veloso valoriza a identidade caipira de Cunha em sua nova exposição permanente

A exposição permanente do Museu Municipal Francisco Veloso, inaugurada recentemente, convida os visitantes a adentrar o universo caipira, não através de discursos acadêmicos distantes, mas pela porta de entrada mais genuína possível: a casa de um caipira de verdade, a roça onde trabalhou, o terreiro onde rezou e festejou, e a praça onde encontrou seus iguais. Intitulada “Pisa Terra, Pisa Chão: Histórias e Memórias da Cultura Caipira em Cunha”, a mostra é mais que uma coleção de artefatos históricos. É um ato de reparação contra certos preconceitos, uma celebração da riqueza cultural que brota das camadas populares e uma amostra de que a história do Brasil é escrita também por aqueles que têm as mãos cheias de calo e os dedos cheios de terra: aquelas pessoas que plantam a roça, lavram a gleba, cuidam do ninho, do gado e da tulha.

Além do Jeca Tatu: resgatar a dignidade do caipira
O termo “caipira” carrega uma herança pesada. Durante décadas, a literatura brasileira, particularmente através de Monteiro Lobato e seu icônico Jeca Tatu, cristalizou a imagem do homem caipira como símbolo de atraso, indolência e ignorância. Essa caricatura marcou profundamente o imaginário urbano, reforçando estereótipos que ainda ecoam nos dias de hoje, um estigma que pesa sobre os cunhenses.
A exposição do Museu Francisco Veloso oferece um antídoto a esse preconceito. Apoiada nas pesquisas do sociólogo Antônio Cândido e dos antropólogos que elegeram Cunha como campo privilegiado de estudo (Emilio Willems, Alceu Maynard Araújo e Robert Shirley), a mostra revela o caipira não como um tipo social atrasado, mas como portador de uma matriz cultural própria, rica e organizada, que se estrutura em três pilares fundamentais: o trabalho familiar na terra, a ajuda mútua dos mutirões e a devoção aos santos, celebrada em festas que garantiam a coesão comunitária e momentos de lazer.
Não era atraso. Era sabedoria acumulada, resiliência e uma forma de estar no mundo profundamente enraizada na natureza e na solidariedade, uma convivência amena entre o dever (trabalho) e o lazer. Sobre essa alternância, Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, escreve que ela exprime a integração do caipira “numa economia mais autárquica do que mercantil que, além de garantir sua independência, atende à sua mentalidade, valorizando mais as alternâncias de trabalho intenso e de lazer, na forma tradicional, do que um padrão de vida mais alto através do engajamento em sistemas de trabalho rigidamente disciplinado”. É, sem dúvida, uma herança indígena.

Entrada na exposição “Pisa terra, pisa chão”, que retrata a vida caipira em Cunha entre as décadas de 1940 e 1960. Data: 15 jul. 2026.

A imersão curatorial: por dentro da casa
De início, um espelho e uma pergunta: “Você é gente de quem?”. Assim se iniciam as conversas em Cunha. E assim é na exposição. Em frente a um espelho, o visitante pode se situar enquanto pessoa, evocando sua ancestralidade, suas circunstâncias e sua identidade. Depois desse credenciamento pessoal, pode adentrar a casa e mergulhar na alma caipira.
O que torna essa exposição singular é sua estratégia curatorial: o visitante não observa a história de fora. Ele é convidado a adentrar, literalmente, o universo caipira. A experiência começa na sala que simula uma casa de pau a pique, construída em dia de mutirão. Dali, o percurso segue para o terreiro, aquele chão de terra batida onde o trabalho, a festa e a religiosidade se entrelaçavam, e depois para a roça, onde a vida se media pelo calendário da natureza.
Cada objeto exposto foi escolhido com intencionalidade. Uma gamela de madeira, um jacá trançado, uma cabaça para água, um ferro de passar à brasa. Mas esses artefatos não estão ali apenas como curiosidades históricas. Cada um deles é uma ponte entre dois mundos: o mundo que foi vivido e o mundo presente do visitante. São objetos que ativam nossas memórias.
Passear pelas salas da exposição é visitar uma casa caipira. Os objetos não estão deslocados de seu ambiente tradicional. Cada tralha está em seu lugar, os objetos em seu contexto. É um passeio por dentro.

Foto de uma das paredes da Sala 1 “Vozes da Roça”, com retratos do povo de Cunha e um espelho onde o visitante pode responder a si mesmo a famosa pergunta “Você é gente de quem?”, própria de lugares onde os vínculos interpessoais sustentam o pertencimento e a confiança. Data: 15 jul. 2026.

A vida cotidiana: poesia na labuta
A exposição reconstrói, com precisão antropológica e sensibilidade literária, a rotina de uma família caipira cunhense, comum até os anos 1960. Cada gesto é documentado, cada momento do dia é narrado. O caipira acorda com as galinhas, antes do sol nascer. A mulher reza diante do oratório e acende o fogo. O café com açúcar e farinha de milho desperta a família. Os homens partem para a roça, lendo nos sinais da natureza (na chuva da noite anterior, na mudança para lua cheia) as promessas de uma boa colheita.
Enquanto isso, a mulher não descansa. Varre o terreiro, cuida das galinhas, escolhe o feijão na esteira, confere a farinha de milho na tulha. À tarde, bate a roupa na bica, passa com ferro à brasa as roupas de missa. A solidão é preenchida pela visita da vizinhança, regada a café e muita prosa. Quando o sol se põe, todos se reúnem ao redor do fogão para a última refeição, antes de se recolherem ao descanso merecido.
Há uma poesia nessa descrição. Não é a poesia dos românticos, mas a poesia real da vida vivida com dignidade, onde cada objeto tem sua função, onde o tempo é medido não pelo relógio, mas pelas estações, onde a família e a comunidade são redes de apoio mútuo e sustento.

Os mutirões: comida e comunidade
Um dos conceitos mais belos capturados pela exposição é o do mutirão, aquela forma de cooperação onde vizinhos e parentes se reúnem para realizar tarefas que nenhuma família conseguiria fazer sozinha. Colher feijão, preparar o terreno para plantio, roçar o pasto, fazer o barreamento de casas, até velórios: tudo dependia dessa rede de solidariedade.
O mutirão obedecia a regras de reciprocidade. Você ajudava sabendo que, quando chegasse sua vez, receberia igual solicitude. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres preparavam comida em quantidade generosa. Como dizia o ditado: “Minguado o café, minguado o prestígio”. E ao cair da noite, o trabalho se transformava em festa: modas de viola, catira, danças que confirmavam a vitalidade daquela comunidade.
Nesse sistema está a chave para entender o caipira: não era um homem isolado, mas um ser profundamente comunitário, cuja liberdade e independência se realizavam através da interdependência. Uma lição que nossa época de individualismo exacerbado deveria considerar com mais atenção. A exposição foi feliz ao evidenciar esse momento, que está no âmago da vida caipira.

Foto da Sala 6, “A Praça: Onde a cidade se encontra“, onde o visitante é conduzido ao espaço público, a Praça Matriz, palco dos grandes acontecimentos. Retrata, nas paredes, os movimentos da cidade com a chegada dos tropeiros, os dias turbulentos da Revolução de 32, os rumores das feiras e festas. Data: 15 jul. 2026.

Fé, festa e identidade: a dimensão mística da cultura
A exposição dedica espaço significativo às manifestações religiosas que estruturavam a vida caipira. A Festa do Divino, as Congadas, a Folia de Reis, as rezas cotidianas. Todas essas coisas isso não são encaradas como superstição ou folclore, mas como a expressão mais profunda da identidade e da coesão comunitária.
As Companhias de Congada, em particular, são destacadas. Vestidos com fardas brancas adornadas por fitas coloridas, os congadeiros dançam para festejar, agradecer e pagar promessas em louvor ao Espírito Santo e a São Benedito. Representantes da matriz afro-brasileira, essas companhias mantêm viva uma tradição que é parte indissociável da identidade religiosa de Cunha: a devoção a São Benedito, o “santo preto” e cozinheiro.
A Festa do Divino segue um ciclo de dádiva: a bandeira percorre as casas da comunidade, as famílias oferecem o que podem (dinheiro, alimentos, animais), e no encerramento, a comunidade inteira se reúne para preparar um grande almoço compartilhado igualmente com todos. É economia solidária, é religiosidade popular, é festa. Tudo junto. Por isso, ela está ali no cantinho da casa, marcando a presença divina.

Ainda na Sala 6, temos as esculturas dos integrantes da Companhia de Moçambique de São Benedito de Cunha, restauradas recentemente. Data: 15 jul. 2026.

A praça como ponto de encontro
A exposição termina convidando o visitante a sentar no “banco da árvore da mentira”, um banco que existe de verdade na Praça Matriz de Cunha, lugar de encontro diário de antigos moradores. Ali, você ouve as vozes daqueles que viveram o que viu representado nas paredes: os tropeiros que transportavam cargas pelas serras, os causos da Revolução de 1932, os que dançaram nas festas, os que rezaram nos terreiros, o povo que trabalhou e ainda trabalha na roça, pois em Cunha a população rural ainda representa 40% da população municipal.
A praça é a ágora cunhense, o espaço público onde a história se faz viva. E o museu reconhece isso: não encerra a narrativa nas paredes, mas a abre para o espaço urbano, para as vozes reais, para a memória viva da comunidade. Entre um causo e outro, as memórias são transmitidas às novas gerações.

O papel do Museu
Um dos meus maiores medos era que, após o falecimento do professor João Veloso, o Museu Francisco Veloso virasse um museu apenas no papel – o que não é raro em nosso país, tão alheio às suas instituições culturais. O que houve, entretanto, foi que, nesses últimos anos, o Museu assumiu seu papel. Felizmente. Ser o guardião e propagador da história de Cunha dá trabalho. Mas foi possível graças a uma equipe comprometida com a pesquisa e restauração, empenhada em dialogar com a comunidade. Por isso, a Dina, o Andreas, a Maiara, a Izabel e todos os que colaboram com o Museu estão de parabéns. Essa exposição aproximou a história de Cunha de seu povo, evidenciando o cotidiano daqueles que raramente aparecem nos livros oficiais. Houve a combinação de eficiência com sensibilidade.
Mais do que ter uma história para contar (e a tricentenária Cunha tem muitas!), é preciso saber contar uma história. A exposição fez isso com maestria. “Pisa Terra, Pisa Chão” é, portanto, um ponto de virada. O Museu reafirma, de forma definitiva, seu compromisso de que a história das pessoas simples – a história do trabalho, da solidariedade, da fé e das festas – é a história que merece ser preservada, estudada, debatida e celebrada. Recusa, assim, aceitar que o caipira seja apenas o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Recusa em ficar relembrando somente a guerra perdida, a ferrovia que não veio, aquilo que Cunha poderia ter sido e não foi.
Os cunhenses, embora raramente se nomeiem como caipiras, têm orgulho de sua tradição. Uma herança que ainda resiste, unindo moradores nas festas lúdico-religiosas, nas cavalgadas, nas congadas e, sobretudo, em uma história comum. Essa exposição permanente é um convite para que todos nós – visitantes de fora ou filhos da terra – reconheçamos que a verdadeira identidade de Cunha, e talvez do Brasil, está no Sertão, nas vozes e nas vidas daqueles que pisam terra e pisam chão.

A toponímia dos bairros rurais de Cunha: a paisagem como herança e memória

“[…] a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades […] Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis”.

(Aziz Ab’Sáber, in “Domínios de natureza no Brasil: potencialidades Paisagísticas”, 2003)

Os nomes dos lugares constituem um importante patrimônio cultural e histórico, pois revelam aspectos da paisagem, da ocupação humana e das formas de vida que moldaram um território ao longo do tempo. No município de Cunha, a análise da toponímia dos bairros rurais permite compreender elementos fundamentais de sua formação histórica e geográfica, que remonta ao século XVII, quando as primeiras sesmarias foram doadas na região. Mais do que simples denominações, esses nomes registram a relação entre os habitantes e o espaço, funcionando como verdadeiros documentos da memória coletiva.

Uma das características mais marcantes da toponímia cunhense é sua estreita ligação com o meio natural. Diversos bairros receberam nomes inspirados na vegetação local, como Pinhal, Cedro, Figueira, Guabirobas, Pessegueiro e Angico. Outros fazem referência direta aos recursos hídricos, como Rio Acima, Rio Abaixo, Córrego Fundo, Cachoeirinha e Paraibuna. O relevo também aparece frequentemente nas denominações, como em Serra do Indaiá, Alto da Bocaininha, Pedra Branca, Mato Dentro, Cume e Várzea. Esses nomes evidenciam que a identificação dos lugares ocorreu a partir da observação direta da paisagem. Em uma sociedade rural, onde rios, montanhas e matas serviam como referências para deslocamento e sobrevivência, a natureza tornou-se a principal fonte de orientação geográfica.

Croqui esquemático de bairro rural, gerado por IA. Fonte: Chat GPT.

A presença de numerosos topônimos relacionados às atividades agrícolas e pecuárias demonstra a forte origem rural do município. Nomes como Curral, Curralinho, Cocho, Paiol, Sítio, Fazenda, Retiro, Campo e Vargem remetem diretamente ao cotidiano das propriedades rurais e ao universo da produção agropecuária. A ocupação histórica de Cunha ocorreu de forma dispersa, baseada em sítios e fazendas distribuídos pelo território montanhoso. Dessa forma, a paisagem rural deixou marcas permanentes na nomenclatura local, refletindo a importância econômica e cultural da agricultura e da criação de animais para as comunidades cunhenses.

Entre os nomes mais recorrentes, destacam-se aqueles relacionados aos paióis. As denominações Paiol, Paiol Queimado, Paiol Velho e Paiolzinho aparecem em diferentes regiões do município, totalizando aproximadamente nove ocorrências. Essa frequência sugere a relevância dessas construções para a vida rural, já que os paióis eram fundamentais para o armazenamento de grãos, como o milho. A repetição do termo reforça o papel histórico da agricultura como base da economia local. O milho foi o sustentáculo econômico do município durante os séculos XVIII e XIX. Seu cultivo era voltado para alimentação local, cujo prato principal era quirera com feijão, e para a suinocultura. Cunha foi o maior produtor de toicinho da Província de S. Paulo. Sua produção agropecuária alimentou as fazendas de café do Vale do Paraíba. Outros nomes bastante comuns são Boa Vista e Mato Dentro. O primeiro aparece associado a diferentes localidades e geralmente indica áreas elevadas com ampla visibilidade da paisagem, típicas dos Mares de Morros. Já Mato Dentro remete à ocupação de áreas originalmente cobertas por vegetação densa, evidenciando o avanço gradual do povoamento sobre a Mata Atlântica da região.

Núcleo do bairro do Sertão do Pinhá, com sua capela e escola rural, na região leste do município de Cunha, próximo ao limite com Paraty (RJ). Foto: Paulo Cesar. Data: 2023.

A influência da religião católica também se manifesta de maneira significativa na toponímia do município. Bairros como Santa Rita, Santa Cruz, Divino Mestre, Ribeirão das Almas e São Roque revelam a importância da Igreja na organização social e territorial durante os períodos colonial e imperial. Em muitas áreas rurais brasileiras, as capelas constituíam o principal núcleo de convivência comunitária, reunindo moradores em celebrações religiosas, festividades e atividades coletivas. Assim, a presença desses nomes reflete não apenas a religiosidade dos habitantes, mas também o papel das instituições religiosas na formação das comunidades locais.

Outro aspecto relevante é a presença de topônimos derivados de nomes de pessoas e famílias, fenômeno conhecido como antroponímia. Exemplos como Antônio José, Sertão dos Marianos, Paraitinga dos Motas, Várzea do Joaquim Rosa, Galvão e Barra do Chico do Lau e do J. Alves indicam a influência de antigos moradores ou grupos familiares que desempenharam papel importante na ocupação dessas localidades. Essa característica revela um processo de colonização baseado em núcleos familiares dispersos e reforça a importância da tradição familiar patriarcal na preservação da memória local. Em muitos casos, o nome do lugar torna-se uma forma de perpetuar a lembrança daqueles que contribuíram para a construção da história da comunidade ou dos antigos fazendeiros que deram origem ao povoamento do bairro.

Aspecto da antiga fazenda dos Fagundes, no bairro Capetinga dos Fagundes, região nordeste de Cunha, próximo ao limite com Silveiras. Foto: Adilson Nunes.

A herança indígena também permanece viva na paisagem linguística de Cunha. Nomes como Paraibuna, Jaguarão, Jacuí e Paraitinga possuem origem tupi e remetem, em geral, a rios, animais ou elementos da natureza. Esses topônimos são vestígios da ocupação paulista na região, gente falante da Língua Geral, simbiose da Língua Tupi, “o grego da terra”, com a “última flor do Lácio”, a Língua Portuguesa. Indicam que muitos dos referenciais espaciais utilizados pelos povos indígenas foram incorporados pelos colonizadores. A permanência desses nomes evidencia a profundidade histórica da ocupação humana na região e a contribuição dos povos originários para a construção da identidade territorial local.

Além dos nomes ligados à natureza, à religião ou à memória familiar, há também uma grande quantidade de topônimos de caráter funcional. Localidades como Três Pontes, Encruzilhada, Barra, Ponte, Várzea do Tanque, Mato Dentro e Alto do Sapé possuem nomes essencialmente descritivos, criados para indicar localização, acesso ou características específicas do terreno. Esses topônimos funcionavam como instrumentos práticos de orientação em uma época em que os deslocamentos dependiam de trilhas, caminhos rurais e referências naturais. Cunha, um elo entre o Sertão e o Litoral, sempre foi recortada por inúmeros caminhos e tem forte herança tropeira. Esses topônimos refletem essa influência.

De modo geral, a toponímia de Cunha revela um município profundamente ligado à cultura caipira, em que a natureza, à vida rural e às formas tradicionais de ocupação do território estão intimamente ligadas. O caipira não existe sem seu torrão. Os nomes dos bairros preservam marcas da vegetação original, dos rios, das montanhas, das atividades agropecuárias, da religiosidade popular, da presença indígena e da memória das famílias pioneiras da Paulistânia. Diferentemente de áreas fortemente urbanizadas, onde predominam denominações planejadas ou homenagens oficiais, os topônimos cunhenses surgiram de maneira espontânea, diretamente relacionados à experiência cotidiana dos moradores. Por isso, constituem uma valiosa fonte para compreender a história da ocupação humana e a construção da paisagem cultural do município, resultado da interação entre sociedade e natureza ao longo do tempo.

Das Abóboras à Zaranha: IBGE identifica 271 bairros rurais em Cunha

Aspecto do bairro do Monjolo, região sudeste do município de Cunha.

Falar de bairro rural é falar de um pedaço do mundo que não cabe apenas no mapa. É a vizinhança que se reconhece pelo nome, pela capela, pelo campo de futebol, pelo bar de “fulano de tal”, pela estrada de terra, pela festa do padroeiro, pelo mutirão e pelo jeito como as famílias se ajudam quando a lida aperta. Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito (1964), mostrou que a vida caipira não pode ser entendida só pela economia. Ela se organiza também pela sociabilidade, pelos vínculos de vizinhança e pelo ajuste entre grupo humano e meio; em outras palavras, a cultura nasce no território vivido. Após o icônico “Ocê é gente di queim?”, sempre vem “Ocês são di ondi?”. O lugar importa, e importa muito, sim, senhor.

Em Cunha, esse tema ganha um peso ainda maior. O município, que não é populoso (população estimada em 2025, pelo IBGE, em 22.460 habitantes), tem sua população bem distribuída pelo seu amplo território, com mais de 1.407 km², o maior do Vale do Paraíba, apresentando uma densidade demográfica baixa, de 15,71 habitantes por km². Essa dispersão populacional ocasionou a existência, em seu território, de 2.287 estabelecimentos de produção agropecuária, número bastante elevado para o contexto estadual. Desse total, 74% são unidades classificadas como de agricultura familiar. É o município paulista com maior número de unidades de produção agrícola, superando, inclusive, Mirante do Paranapanema, município que é símbolo da reforma agrária e da luta contra a concentração fundiária no Brasil.

A paisagem cunhense, caprichosamente adornada por morros, vales, pastos, roças, capões de mata e caminhos que sobem e descem a serra, ajuda a entender por que os bairros rurais seguem tão importantes: eles são uma forma prática e afetiva de organizar a vida no campo. Não é por acaso que, de acordo com o Censo 2022, Cunha contava com 9.060 moradores rurais, o que significa cerca de 41% da população estava vivendo na roça. Um percentual muito alto para os padrões paulistas, estado em que a população rural corresponde a cerca de 2,6%. A distribuição dessa população pelo espaço rural possibilita a formação dos bairros rurais, pois, de acordo com Antonio Candido, o bairro é o “agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega”.

Na geografia cultural e na geografia agrária, o bairro rural pode ser visto como um espaço de enraizamento. Ele não é apenas uma localização; é um lugar carregado de memória, uso e pertencimento. Por isso, quando se observa Cunha, não se vê apenas produção agropecuária: vê-se uma malha de relações que mistura família, trabalho, religião e tradição. E há um fundo poético nisso tudo. Quando se ouve uma moda de viola ou se lê um verso que fala da terra como companhia de vida, entende-se melhor o que a geografia às vezes tenta dizer em palavras mais formais: a paisagem rural não é cenário, é experiência. Em Cunha, isso ainda salta aos olhos. Bairro não é um simples espaço; é lugar. Lugar de pertencimento, de memórias, de afeto, de extensão imediata do lar, de elo com a terra, torrão sagrado onde o caipira teve seu “umbigo enterrado”. Tal como na moda de viola “Rio Pequeno”, um dos grandes sucessos da dupla Tonico e Tinoco, lançada em abril de 1952, sair do bairro onde foi criado é abandonar parte de sua vida, de sua identidade: “O zóio dela encheu d’água, despediu co’a voz tremeno / Adeus, casa dos meus pais! Adeus, chão do Rio Pequeno!”

Bairro, o chão da cultura caipira

Aspecto do bairro da Cachoeira dos Rodrigues, região oeste do município de Cunha. Foto: Edson Luiz de Oliveira. Data: abr. 2022.

“O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.”

Antonio Candido, in Os parceiros do Rio Bonito

Os bairros rurais têm importância porque são, antes de tudo, lugares de convivência. Neles se cruzam a reza do terço, a folia, a festa do santo, o café coado no fogão, a visita sem cerimônia e o trabalho repartido entre família, vizinhos e compadres. A cultura caipira não vive solta no ar; ela precisa de chão, de rotina e de repetição. É no bairro rural que os saberes passam de uma geração para outra: o jeito de plantar, de criar, de cozinhar, de falar, de celebrar e de cuidar da terra. Candido, autor do excerto acima, mostrou que a vida caipira se estrutura em unidades mínimas de sociabilidade e cooperação, ligadas ao modo de viver e ao meio em que se assentam. Em Cunha, conforme estudo realizado na década de 1980 pela antropóloga Rosane M. Prado, os bairros rurais ocasionam diferenciações de valor que marcam as atividades humanas, bens, relações e símbolos no contexto local, levando em conta fatores como “maior ou menor distância da cidade, o que está associado à ideia de isolamento e dificuldade de acesso, e pelo aspecto de certas associações a propósito da ‘fama’ de determinados bairros. Assim, por exemplo, o Monjolo é associado a ‘gente brava’, ‘de briga’; a Capivara é lugar ‘mais caipira’, no sentido de ‘mais atrasado’; o Jericó é ‘dos metodistas’, lugar de gente ‘mais munheca’, ‘pão dura’. Também alguns bairros rurais são associados às próprias famílias que lhes dão nome, como o Sertão dos Marianos”. Ou seja, ser de determinado bairro já lhe garante certa identidade, característica inata e herdada da coletividade local, que precede a individualidade.

Por isso, o bairro rural é mais do que uma referência espacial. Ele é um território vivido. É ali que a paisagem ganha rosto humano e a cultura ganha matéria concreta. Uma estrada pode parecer apenas uma via de circulação, mas, no bairro rural, ela também é caminho de procissão, trajeto de escola, rota do leite, caminho antigo de tropeiro, passagem de cavaleiro e linha de contato entre casas dispersas. O lugar não existe só por sua forma, mas pelo uso e pelo sentido que as pessoas lhe dão. Em Cunha, onde a paisagem montanhosa fragmenta as ocupações e aproxima os moradores por núcleos de vizinhança, os bairros rurais seguem sendo uma base da identidade local.

Êxodo rural, esvaziamento e mudanças da paisagem

Aspecto do bairro do Jericó, região sudoeste do município de Cunha. Foto: Iverson Leite.

Mas essa paisagem vem mudando. O êxodo rural, que marcou boa parte do interior paulista ao longo do século XX e segue produzindo efeitos no século XXI, retirou moradores do campo, envelheceu comunidades e enfraqueceu laços tradicionais. No Brasil, o Censo 2022 registrou 25,6 milhões de pessoas em áreas rurais, contra 177,5 milhões em áreas urbanas, confirmando a continuidade histórica da urbanização. Em Cunha, mesmo com taxa de natalidade elevada, a população ficou estagnada durante todo o século XX. No estado de São Paulo, onde a presença rural é proporcionalmente muito pequena, esse processo foi ainda mais forte. Vivemos com toda intensidade a ideologia do progresso a todo custo, do “São Paulo não pode parar”, que esvaziou roças e memórias.

Nos bairros rurais, o resultado disso aparece no que os olhos logo percebem: casas vazias, antigas áreas de cultivo em descanso, festas menores, escolas fechadas, menos jovens permanecendo na roça. Está tudo virando tapera. A paisagem muda quando a população muda. E a cultura também sente o golpe. Quando uma comunidade perde moradores, ela não perde apenas número; perde memória compartilhada, perde prática social, perde voz coletiva. Municípios do interior paulista, antes marcados por forte presença caipira, passam a ter uma vida rural mais rarefeita, às vezes mantida por poucos idosos ou por propriedades voltadas a usos novos, menos ligados ao cotidiano tradicional do campo. O processo de terceirização do campo avança.

Essa mudança também altera a demografia local. Com menos jovens no meio rural e maior concentração de serviços e empregos nas sedes urbanas, o campo deixa de ser visto como lugar de futuro por muitas famílias. O problema é que, quando isso acontece, não desaparece só uma forma de morar. Some também uma maneira de organizar o território, de cultivar a terra e de reconhecer o município como herdeiro de uma cultura própria.

Cunha e a força da agricultura familiar

Aspecto do bairro da Pedra Branca, região leste do município de Cunha. Foto: Pedro Ribeiro. Data: 2002.

Em Cunha, o campo ainda é parte central da vida municipal. Isso se traduz na força da agricultura familiar cunhense no contexto estadual, com o município liderando ou ficando entre os primeiros em vários setores de produção agrícola. Mesmo com o esvaziamento do campo, muitos pequenos agricultores e pecuaristas permanecem na lida rural produzindo alimentos. E são essas pequenas propriedades familiares que fazem de Cunha a maior produtora paulista de leite e uma das maiores produtoras de hortaliças, milho, feijão e porcos da região. A base produtiva rural local está estruturada na pequena e média unidade tocada por famílias. E essa é uma das razões do seu sucesso.

Os levantamentos realizados pelo Censo Agro 2017 e do LUPA 2016/17 apontam justamente nessa direção: o município aparece como uma área fortemente marcada pela agricultura familiar e pela diversidade produtiva, a ponto de ser descrito como uma “potência da agricultura familiar”. Foram identificadas 3.452 unidades de produção agropecuária, com mais de 102 mil hectares de área ocupada com alguma cultura, pastagem ou reflorestamento. A maioria das propriedades está compreendida na faixa entre 5 e 50 hectares, ou seja, a estrutura fundiária é composta por minifúndios. O município se destaca na produção de milho, feijão, mel, cana, pinhão, café e frutas e hortaliças diversas; e na criação de bovinos para leite e corte, frango caipira, trutas, cavalos e mulas e porcos. Geograficamente, isso significa que o território de Cunha continua sendo sustentado por uma trama de pequenas propriedades, produção diversificada e forte vínculo entre moradia e trabalho, arranjo bem diferente daquele das áreas onde a modernização agrícola concentrou terra, mecanizou tudo e expulsou moradores.

Bairros rurais identificados

Aspecto do bairro da Aparição, região sudeste de Cunha.

Diante desse contexto geográfico disperso, ruralizado e fundamentado no trabalho familiar, o IBGE identificou 270 bairros rurais no município de Cunha, durante a realização do Censo Demográfico de 2022. Eis a lista:

  1. – Abóboras
  2. – Água Fria
  3. – Água Fria (Bangu)
  4. – Água Limpa
  5. – Águas de Santa Rosa
  6. – Alto da Bocaininha
  7. – Alto do Sapé
  8. – Amorim
  9. – Angico
  10. – Antônio José
  11. – Aparição
  12. – Araçaeiro
  13. – Araruna
  14. – Assunção
  15. – Atibaia
  16. – Balaieiro
  17. – Bananal
  18. – Bangu
  19. – Barra do Chico do Lau
  20. – Barra do J. Alves
  21. – Barrinha
  22. – Barreira (Campos Novos)
  23. – Barreiro (Abóboras)
  24. – Barreiro (Bangu)
  25. – Barro Vermelho
  26. – Bichinho
  27. – Boa Esperança
  28. – Boa Vista (Campos Novos)
  29. – Boa Vista (Igreja de São José)
  30. – Boa Vista (Jaguarão)
  31. – Boa Vista (Pedra Branca)
  32. – Bocaina de São Roque
  33. – Bocaininha da Boa Esperança
  34. – Bom Retiro
  35. – Borda do Campo
  36. – Brejaúva
  37. – Brejinho (Guabirobas)
  38. – Brejinho (Monjolo)
  39. – Bugio
  40. – Buracão
  41. – Cachoeira (Cedro)
  42. – Cachoeira dos Rodrigues
  43. – Cachoeirinha (dos Gatos)
  44. – Cachoeirinha (Monjolo)
  45. – Cachoeirão (Barra J. Alves)
  46. – Caçador Novo
  47. – Campo
  48. – Campo Alegre (Aparição)
  49. – Campo Alegre (Bocaina)
  50. – Campo Belo
  51. – Campo da Bocaina
  52. – Campinho (Bocaina)
  53. – Campista
  54. – Camundá
  55. – Cana do Reino
  56. – Canjara
  57. – Caneleira
  58. – Cantagalo
  59. – Capetinga dos Fagundes
  60. – Capetinga dos Motas
  61. – Capinzal
  62. – Capivara
  63. – Capoeira do Fundo
  64. – Capoeirinha
  65. – Carneiros
  66. – Carrapatal
  67. – Carrasquinho
  68. – Castelo
  69. – Catioca
  70. – Catioquinha
  71. – Cedro
  72. – Charquinho
  73. – Cocho
  74. – Comprida
  75. – Condomínio Santana (Paraitinga)
  76. – Conselho
  77. – Córrego da Onça
  78. – Córrego Fundo (Barra J. Alves)
  79. – Córrego Fundo (Jaguarão)
  80. – Córrego Seco
  81. – Cume
  82. – Curral
  83. – Curralinho
  84. – Desterro
  85. – Divino Mestre
  86. – Encruzilhada
  87. – Engenho
  88. – Entrecosto
  89. – Escurinho
  90. – Estiva
  91. – Fazenda Ibipeba
  92. – Fazenda Santana
  93. – Fazenda São Tomé
  94. – Fazendinha
  95. – Felicidade
  96. – Ferraz
  97. – Figueira (Paraitinga)
  98. – Figueira (Taboão)
  99. – Figueira (Várzea do Tanque)
  100. – Galvão
  101. – Gândara
  102. – Gaviroveira
  103. – Gorozol
  104. – Gramas
  105. – Grota do Buraco
  106. – Grotão
  107. – Guanabara
  108. – Guabirobas
  109. – Guandu
  110. – Guaranjanga
  111. – Guaricanga (Barra J. Alves)
  112. – Guaricanga (Juveva)
  113. – Ingá
  114. – Itacuruçá
  115. – Itaquatuba
  116. – Jacinto
  117. – Jacuí
  118. – Jacuí-Mirim
  119. – Jacuizinho
  120. – Jaguarão
  121. – Jardim
  122. – Jericó
  123. – Juveva
  124. – Lageado
  125. – Lagoa (Barra J. Alves)
  126. – Lagoa (Capivara)
  127. – Lagoa (Pedra Branca)
  128. – Laje
  129. – Lajinha
  130. – Limão
  131. – Limoeiro
  132. – Macuco
  133. – Mandinga
  134. – Maninha
  135. – Mantiquira
  136. – Marmeleiro (Campos Novos)
  137. – Marmeleiro (Engenho)
  138. – Martim
  139. – Mato Dentro (Campos Novos)
  140. – Mato Dentro (Catioca)
  141. – Mato Dentro (Cedro)
  142. – Mato Escuro
  143. – Mato Limpo
  144. – Milho Branco
  145. – Milho Vermelho
  146. – Mineiro
  147. – Mogango
  148. – Monjolinho (Campos Novos)
  149. – Monjolo
  150. – Mundéu
  151. – Onça
  152. – Oriente
  153. – Paineira (Vargem do Tanque)
  154. – Paineira de Cima
  155. – Paineiras (Jaguarão)
  156. – Paiol
  157. – Paiol Queimado
  158. – Paiol Velho (Campos Novos)
  159. – Paiol Velho (Catioca)
  160. – Paiol Velho (Cedro)
  161. – Paiol Velho (Vargem do Tanque)
  162. – Paiolzinho (Capivara)
  163. – Paiolzinho (Córrego da Onça)
  164. – Paiolzinho (Serra do Indaiá)
  165. – Paiolzinho (Taboão)
  166. – Palha Grande
  167. – Palmeiras
  168. – Palmital (Barra J. Alves)
  169. – Palmital (Parque Estadual)
  170. – Paraibuna
  171. – Paraitinga (Campos Novos)
  172. – Paraitinga de Baixo
  173. – Paraitinga dos Cubas
  174. – Paraitinga dos Gonçalves
  175. – Paraitinga dos Motas
  176. – Paraitinga dos Verreschi
  177. – Parque Estadual (da Serra do Mar)
  178. – Parreiral
  179. – Pasto do Gado
  180. – Pedra Branca
  181. – Pedra Preta
  182. – Pedras (Bocaina)
  183. – Pedreira
  184. – Peros
  185. – Pessegueiro
  186. – Pico Agudo
  187. – Pinhal (Barro Vermelho)
  188. – Pinhal (Campos Novos)
  189. – Pinhalzinho
  190. – Pinheiral
  191. – Pinheirinho (Bangu)
  192. – Pinheirinho (Barra J. Alves)
  193. – Pinheiro
  194. – Piri
  195. – Poço Fundo
  196. – Pontinha
  197. – Ponte
  198. – Ponte Alta
  199. – Ponte Furada
  200. – Ponte Nova
  201. – Praia
  202. – Quilombinho
  203. – Quilombo
  204. – Retiro (Cedro)
  205. – Retiro (Sapé)
  206. – Retiro das Palmeiras
  207. – Ribeirão
  208. – Rio Abaixo (Paraibuna)
  209. – Rio Abaixo (Ribeirão)
  210. – Rio Abaixo (Várzea do Tanque)
  211. – Rio Acima
  212. – Rio das Pedras (Capinzal)
  213. – Rio do Peixe
  214. – Rio Manso
  215. – Roça Grande
  216. – Rocinha
  217. – Rodeio (Paraibuna)
  218. – Roseira
  219. – Samambaia
  220. – Santa Cruz
  221. – Santa Rita
  222. – Sapé
  223. – Sapezal
  224. – São Roque
  225. – Serra do Indaiá
  226. – Serraria (Capivara)
  227. – Sertão da Santa Bárbara
  228. – Sertão do Itambé
  229. – Sertão do Pinhal (Pinhá)
  230. – Sertão dos Marianos
  231. – Sertãozinho (Jaguarão)
  232. – Sertãozinho (Jericó)
  233. – Sertãozinho (Várzea do Tanque)
  234. – Sete Voltas
  235. – Sítio
  236. – Sítio de Cima
  237. – Sítio Velho (Jardim)
  238. – Sítio Velho (Várzea do Tanque)
  239. – Soledade
  240. – Sororoca
  241. – Taboão
  242. – Tamancas
  243. – Tanque
  244. – Tanquinho
  245. – Tapera (Capinzal)
  246. – Tapera (Serra do Indaiá)
  247. – Taperinha (Campos Novos)
  248. – Taperinha (Catioca)
  249. – Taquaral
  250. – Tijuco Preto (Barra do J. Alves)
  251. – Tijuco Preto (Campos Novos)
  252. – Três Pontes
  253. – Três Pontes (Várzea do Gonzaga)
  254. – Usina (Cedro)
  255. – Vargem da Cachoeira
  256. – Vargem do Germano
  257. – Vargem do Joaquim Rosa
  258. – Vargem do Tanque
  259. – Vargem dos Pinheiros
  260. – Vargem Grande
  261. – Varginha (Macuco)
  262. – Varginha (Vargem do Tanque)
  263. – Varginha (Vargem Grande)
  264. – Várzea da Santa Cruz
  265. – Várzea do Cedro
  266. – Várzea do Gonzaga
  267. – Vassouras
  268. – Verde
  269. – Vidro
  270. – Vista Alegre
  271. – Zaranha

Para diferenciar os topônimos iterados, que foram vários, acrescentou-se, entre parênteses e à frente, o nome de um bairro próximo espacialmente, facilitando, assim, a distinção. Por exemplo, há 3 bairros denominados “Varginha” em nosso município; daí, para distingui-los, colocou-se “Varginha (Macuco)”, isto é, trata-se do bairro da Varginha próximo ao bairro do Macuco.

Limitações do Censo 2022 para identificar bairros rurais

Aspecto do bairro da Bocaina de São Roque, região nordeste do município de Cunha. Foto: Adilson Nunes.

Talvez algum bairro que você conheça não apareceu na lista supra. Isso não quer dizer que ele não exista. Por isso, é importante olhar com cautela para os dados do Censo Demográfico 2022 quando o assunto é nomear e delimitar bairros rurais. O IBGE deixa claro que o setor censitário é a principal unidade territorial de coleta e divulgação de dados do Censo. Também informa que a malha de bairros do Censo 2022 foi construída por meio do ajuste de setores censitários, sempre que isso foi viável, e que, em várias situações, os limites dos bairros precisaram ser aproximados graficamente por razões operacionais. Em alguns casos, sequer foram considerados os bairros, como aconteceu com os setores censitários de Cunha, porque nosso município ainda não tem uma lei delimitando seus bairros e não há um mapa municipal oficial com os seus bairros rurais. Resumindo: o levantamento do IBGE é um retrato útil, mas não se trata de uma cartografia fina da toponímia rural.

Isso ajuda a entender por que surgem problemas como nomes de estradas sendo tomados como se fossem bairros, ausências de bairros efetivamente conhecidos pelos moradores e denominações pouco precisas com os dados do Censo 2022. Quando a base de referência é setorial e operacional, e não um levantamento específico da memória territorial local, essas distorções aparecem com facilidade. O próprio IBGE ressalta que a representação dos bairros adotou generalizações para evitar fragmentação excessiva da malha e problemas de coleta.

Por isso, os bairros rurais identificados pelo Censo 2022 devem ser lidos como aproximações da realidade territorial, e não como lista definitiva. É um ponto de partida, mas precisa ser confrontado com conhecimento local, cartografia de campo, memória dos moradores e leitura crítica do território. Um levantamento completo, dada a extensão do município, é um processo custoso e trabalhoso e exigiria uma pesquisa com essa única finalidade.

Nesse sentido, com o intuito de dirimir os equívocos e evitar confusões com a localização e toponímia dos bairros, foi utilizada a metodologia DBSCAN, que consiste em analisar coordenadas geográficas agrupando automaticamente os pontos que estão próximos entre si com base em um raio definido (por exemplo, 2 km) e um número mínimo de vizinhos (minPts), utilizando distância real na superfície da Terra (Haversine); o processo começa identificando, para cada ponto, quais outros estão dentro desse raio, classificando-os como pontos centrais (com muitos vizinhos), pontos de borda (ligados a centrais) ou outliers (isolados), e então formando clusters ao conectar todos os pontos acessíveis entre si (inclusive aqueles ligados indiretamente por uma “cadeia” de proximidade) até que se obtenham grupos naturais de alta densidade, sem impor forma ou quantidade prévia, permitindo identificar regiões reais de concentração espacial e separar automaticamente áreas isoladas, o que torna o método mais adequado para análise territorial.

No mais, o autor valeu-se do seu conhecimento empírico, que é limitado, para realizar correções e adequações que se fizeram necessárias, em virtude de equívocos cometidos pelos recenseadores durante a coleta e transcritos para o CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos), que é a base de dados do IBGE com todos os endereços do país. O CNEFE mapeia e georreferencia residências, estabelecimentos e obras em todo o território nacional. O arquivo digital do CNEFE do Censo 2022 do município de Cunha foi a base para realizar este levantamento toponímico.

E o futuro?

Aspecto do bairro do Sertão do Rio Manso, região sudeste do município de Cunha. Foto: Trip Rural. Data: 2020.

Cunha ainda guarda uma riqueza rara no interior paulista: muitos bairros rurais, uma população do campo numerosa e uma paisagem em que a cultura caipira ainda respira. Mas isso não significa estabilidade. Muitos desses bairros vêm perdendo moradores, envelhecendo e correndo o risco de desaparecer como comunidades vivas. E, quando um bairro rural se apaga, não se perde apenas uma referência geográfica; perde-se uma maneira de morar, trabalhar, festejar e lembrar.

Esse processo ameaça a continuidade da cultura caipira e atinge o coração da identidade municipal. A chegada de novos moradores vindos de fora pode trazer dinamismo e novas experiências, mas também pode enfraquecer vínculos antigos quando não há relação com os costumes, a memória e as práticas do lugar. O risco está em transformar o campo apenas em paisagem de contemplação e consumo, esvaziando-o de sua vida social mais funda.

Diante disso, pode-se perguntar: o campo ainda é viável? É um questionamento que não tem uma única resposta. Há os novos rurais, o êxodo urbano e uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis. Todos esses fatores apontam que há, sim, uma saída para roça. Mas é preciso fortalecer o camponês. Valorizar os bairros é defender uma forma de futuro em que o campo continue sendo produtor de alimentos, de cultura e de pertencimento. Em uma época em que tantas paisagens do interior se tornam homogêneas, Cunha ainda pode afirmar sua diferença: a de um município paulista que segue sendo, em muitos sentidos, genuinamente caipira. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças.

“O futuro a Deus pertence”, responderia um bom cunhense. Assim seja.

Referências:
Antonio Candido. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 1964.
Ester, M.; Kriegel, H.-P.; Sander, J.; Xu, X. A Density-Based Algorithm for Discovering Clusters in Large Spatial Databases with Noise. Proceedings of the 2nd International Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD). 1996.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários – Resultados do universo. 2025.
______. Censo Demográfico 2022: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. 2022.
SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO. COORDENADORIA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL. INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Levantamento censitário das unidades de produção agropecuária do Estado de São Paulo – Projeto LUPA 2016/17. 2019.

O tupi na toponímia cunhense

O tupi está muito presente na toponímia cunhense. Muitos bairros de Cunha foram denominados com vocábulos da língua original do Brasil. Mas quem os batizou assim? Foram os indígenas ou paulistas?

Catioca, Itambé, Itacuruçá, Jacuí, Paraitinga, Paraibuna, Mantiqueira, Cajuru, Canjara, Canhambora… Por que há tantos topônimos tupis na geografia cunhense? A resposta óbvia, a presença indígena, não se sustenta historicamente, pois muitos estudiosos dos povos originários comentam que tanto os Guaianases quanto os Puris, povos que habitavam onde hoje é o município de Cunha, pertenciam ao tronco linguístico do Macro-Jê, ou seja, não falavam tupi.

Aspecto das montanhas do bairro do Itambé, município de Cunha (SP).

Outra hipótese que busca elucidar essa questão é a de que esses lugares foram denominados pelos próprios paulistas durante o processo de ocupação e colonização do território. Isso ocorreu porque, até o século XVIII, os paulistas falavam uma língua geral (“tupi paulista”), que misturava a língua portuguesa com a língua tupi, fazendo amplo uso dos vocábulos tupis para batizar os lugares de que se apossaram.

Essa variante do tupi original explica a geografia cunhense? Parcialmente, sim. Mesmo com a proibição do Marquês de Pombal, em 1758, em uma tentativa arbitrária de implantar a língua dos colonizadores na marra, abolindo a língua geral, ela sobreviveu na geografia, nos mapas, no sotaque e no nosso jeito de falar, como expressão de identidade cultural.

Bairro da Bocaininha da Boa Esperança

Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.

Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.

Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.

Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.

Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.

Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.

Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.

Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.

Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.

O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.

Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.

Referências:
Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas (2003), Aziz Ab’Sáber.
Os caminhos da Bocaina: uma questão agrária e ambiental (2002), FAU/USP, tese de doutorado de Maria de Lourdes Zuquim.
Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas a plantação (1957), de Alceu Maynard Araújo.
Panorama do Censo 2022 – IBGE – População residente: recorte setores censitários.
Bairro Boa Esperança (1978) – Carta Topográfica escala 1:10.000 – IGC – Plano Cartográfico do Estado de São Paulo

Foto de Capa: Cláudio Luiz de Mello – Data: nov. 2024 – Bairro Bocaininha da Boa Esperança

Localização do bairro:

Farinha, Pinga & Fumo

Aspecto do centro histórico de Paraty, penetrando o Atlântico. Famosa, entre tantas coisas, pela sua pinga. Data: 1961. Foto: IPHAN.

Anedotas populares são pequenos relatos ou histórias curtas, geralmente engraçadas, que fazem parte da tradição oral de um povo. Elas costumam ter personagens típicos e abordam situações do cotidiano com humor, ironia ou malícia.

Circulam de boca em boca, muitas vezes sem autoria conhecida, reforçando a tradição oral.

Podem carregar ensinamentos, fatos e críticas sociais ou apenas têm o intuito de fazer rir. Costumam ser simples e diretas, com um desfecho inesperado ou cômico. Variam de região para região, incorporando o jeito de falar e os costumes locais.

O universo caipira é pródigo em anedotas. São parte importante da cultura popular e sempre aparecem em rodas de conversa, programas de rádio, livros de causos ou apresentações humorísticas, servindo, inclusive, como fontes para a História.

Algumas se elevaram tanto na cultura popular, que viraram matéria poética e musical, como no poema abaixo e no vídeo acima.

Farinha, pinga e fumo, três produtos coloniais dos mais consumidos. Suruí (Magé), Paraty e Baependi, três localidades históricas, que, pela qualidade daquilo que faziam, ganharam fama no imaginário e no gosto popular. Em 1925, o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) publicou o livro “Pau-Brasil”, seu primeiro de poesias, em que aparece o seguinte poema:

RELICÁRIO
No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha da Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
Ê comê bebê pitá e caí

Neste poema, Oswald de Andrade interpreta o Brasil através de uma linguagem coloquial, contrastando o luxo da corte com a vida popular, para criar um efeito humorístico. O poeta ainda utiliza a gradação de verbos como “comê”, “bebê”, “pitá” e “caí” como uma afronta à norma culta da língua portuguesa, para intensificar o humor e a crítica social, valorizando o jeito de falar dos caipiras, das pessoas da roça. Ao se valer de uma linguagem informal e cheia de oralidade, aproxima a escrita da língua falada, para dialogar com o povo e romper com a formalidade do academicismo da época. O Modernismo no Brasil, em sua fase inaugural, buscou renovar a arte e a cultura do país valorizando a identidade nacional. Os olhares e as penas daqueles modernistas estavam voltadas para os sertões, para o interior, para o Brasil profundo e ignorado.

Ser moderno (para Oswald de Andrade) era ser caipira. Autenticidade é tudo.

Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Conversas ao pé do fogo

Em 1924, Cornélio Pires lançou o livro “Conversas do Pé do Fogo”. O livro reuniu causos, reflexões, ditados populares, anedotas e sabedoria popular, coletânea obtida das conversas simples, ao redor do fogo, nas rodas de violeiros e nos encontros típicos do meio rural paulista. Era um hábito muito caipira e comum conversar ao redor do fogão a lenha.

Mas qual era a pauta dessas prosas noturnas? Assuntos vários: vagueando entre causos de assombração, fofocas, picuinhas, bafafás, negócios e negociatas… e as infindáveis genealogias, levantadas desde priscas eras, com a devida resenha e desfecho, tal qual o poema “Quadrilha”, de Drummond. Em um mundo em que o jornal, o rádio ou a TV não “pegavam”, eram essas conversas uma eficaz forma informação e entretenimento. “Jogando conversa fora, até o sono chegar”, como diziam. Iluminadas pelas chamas do fogão, incutia-se nas gerações mais novas o modo de falar e de contar uma história, a sabedoria e as crendices populares, tão necessárias para sobrevivência de uma cultura, mantendo viva as tradições caipiras. Como um ritual, uma iniciação.

Com a morte dos bairros rurais, vitimados pelo êxodo rural, as conversas ao pé do fogo foram se apagando. Mas não só. Fogão a lenha é coisa do passado ou virou enfeite. Famílias numerosas foram se encurtando. Reunião de vizinhos para prosear, em um mundo cada vez mais individualista, é considerada “perda de tempo”. Vínculos de sociabilidade viraram cinzas. O último sopro foi o advento da internet e a sua popularização, com os “smartphones”, que transladou as conversas ao pé do fogo para as páginas da história, para o baú de coisas antigas. Os círculos materiais deram lugar aos virtuais, aos grupos no “Zap”.

Cada vez mais rara, essa maneira de conversar, prazerosa, demorada, desinteressada, assistida pelos braseiros, foi imortalizada nos versos de Cora Coralina, no poema “Fazenda Paraíso”:

“(…) De lado, bancos pesados, a mesa das refeições.
Meu avô puxava o tamborete da cabeceira, tomava assento.
Tio Jacinto vinha e se ajeitava, nós, gente menor, rodeávamos o fogo
sentadas em pedaços de couro de boi, pelo chão.
Gente grande nos bancos em fileira.
Ricarda, acocorada, alimentava o fogo.
Ficávamos ali em adoração naquele ritual sagrado,
que vem de milênios, de quando o primeiro fogo se acendeu na terra.
Contavam-se causos. Conversas infindáveis de outros tempos
e pessoas mortas (…)”

Sobre Cornélio Pires, foi um jornalista, folclorista e escritor brasileiro, pioneiro na valorização da cultura caipira, sendo um dos primeiros a gravar discos com músicas sertanejas e causos do interior. Sua obra tem grande valor etnográfico, linguístico e histórico, preservando um Brasil que, aos poucos, se transformava com o avanço da urbanização. E que, neste dias, remetem a um tempo que já se foi…

Museu Francisco Veloso começa a restaurar seus objetos históricos

O Museu Francisco Veloso deu início à restauração de vários artefatos históricos que fazem parte de seu acervo. Essa atividade tem por objetivo preservar os objetos indispensáveis para que a história de Cunha continue sendo contada, que é a missão fundamental do museu.

O “Boi Chimemé”, protagonista da cultura popular cunhense, sobretudo nos dias em que se brinca o carnaval de rua. Esta peça, parte do acervo do Museu Francisco Veloso, encontra-se restaurada e em breve voltará a ser exposta. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

O nosso museu, desde quando foi fundado pelo professor João Veloso, nos anos de 1970, tem a missão de preservar e difundir a história e a cultura de Cunha, tanto que sua fundação coincide com a do Centro de Cultura e Tradição de Cunha. São instituições complementares. O Museu Francisco Veloso é o guardião do nosso passado. Assim, a restauração é parte essencial dessa missão, pois permite que peças fragilizadas pelo tempo voltem a ter estabilidade e possam ser expostas e estudadas.

Sala destinada à restauração do acervo do Museu Francisco Veloso. Batizada de “Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes”, museólogo nascido em Cunha. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

A restauração visa preservar e revelar valores estéticos e históricos dos objetos do acervo, respeitando sua autenticidade. Isso significa que o trabalho não é apenas estético, mas também científico, garantindo que o público e os pesquisadores tenham acesso a informações fiéis que esses objetos trazem. É um trabalho minucioso e paciente, que exige uma equipe qualificada, para que atue com cuidado para não comprometer o valor histórico dos artefatos que estão em restauração. A restauração busca não apenas conferir estabilidade, mas recuperar, na medida do possível, as informações contidas nesses objetos. Isso significa que cada detalhe recuperado — uma inscrição, uma cor original, um símbolo –, pode revelar aspectos esquecidos ou detalhes que ajudam a montar o quebra-cabeça do passado, este país que não nos pertence, como bem alertou o sociólogo David Lowenthal.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foi pensando nessa questão que o Museu criou, recentemente, um espaço exclusivo, em suas dependências, destinado à restauração. Mais do um ambiente, o “Ateliê Restauro” conta com uma equipe qualificada para a empreitada: Thales Gayean é museólogo, historiador e técnico em restauro e conservação, Maiara Fernandes é graduanda em Museologia e Isabele Ceddia é cientista social e formada em artes visuais. A sala onde está o Ateliê foi batizada com o nome do cunhense Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, museólogo, arqueólogo e historiador do Departamento de História na Universidade de São Paulo (USP). Ulpiano é um dos maiores nomes, no Brasil, no campo dos estudos sobre cultura material, cultura visual e museus. O trabalho técnico consiste, entre outras coisas, em obturações, repinturas, remoção da oxidação, limpeza e hidratação dos artefatos. Algumas obras já foram restauradas, como as esculturas que representam a Congada de São Benedito, confeccionadas pelo ceramista Luiz Toledo, na década de 1990.

Esculturas do artista cunhense Luiz de Toledo, peças que representam a Congada de São Benedito. Em processo de restauro no Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Quando falamos de história local, a restauração ganha um papel ainda mais afetivo. Objetos preservados contam histórias de famílias, comunidades e tradições que moldaram a identidade cunhense. Relíquias doadas por famílias, álbuns de fotografia, obras e esculturas de artistas locais, utensílios e tralhas do tropeirismo, objetos militares ligados à Revolução de 1932 etc. Muitas famílias e pessoas de Cunha têm confiado e depositado ao museu suas relíquias e artefatos outros de importância histórica. Foi assim que o professor João Veloso constituiu o acervo do MFV. E essas doações continuam a acontecer, pois a relação de confiança e identificação dos cunhenses com o seu museu é vigorosa o suficiente para ter sido perene até agora (e já se vai quase meio século de existência do Museu). E tudo indica que irá continuar.

Cangalha, essa tecnologia tão cara ao tropeirismo. Batizou uma serra e marcou época. Peça será restaurada pelo Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Atualmente, o Museu tem se colocado como um espaço de visitação, recebendo muitos turistas que vêm passear em Cunha. Assim, o seu acervo e as peças restauradas ajudam a fortalecer o turismo cultural e, por consequência, a economia da cidade, pois atraem visitantes interessados em conhecer a história local, elemento indispensável para uma imersão completa do turista ao espaço que está consumindo. E Cunha tem muita história para contar. São mais de 300 anos.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Trazer novos olhares para assuntos dados como encerrados. Pôr em evidência as negligências (e não foram poucas). O Museu Francisco Veloso tem buscado criar, de forma crítica e através da História, um sentimento de pertencimento do cunhense com sua terra, mostrando às novas gerações de onde vieram, como vieram e quais valores foram construídos ao longo do tempo. É uma proposta de longa duração e trabalhosa, mas necessária. Viva o nosso Museu!

Maquete do casarão Nenê Felipe, na rua Comendador João Vaz, onde está instalado o Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foto de capa: Relógio carrilhão que pertenceu ao antigo Paço Municipal, sobrevivente do incêndio de 1961. Hoje, parte do acervo do Museu Francisco Veloso. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

A cidade dos palácios abandonados 

Por Miguel Ângelo Barros Ferreira *

O que impressiona desde logo o visitante é uma espécie de majestade ao abandono. Tem-se a impressão de que o tempo ali parou tudo deixando como antes. A enormidade da matriz expressa uma grandeza remota. Não bastava apenas muita fé. Era preciso muita riqueza para custear um templo de tais proporções. Não há em todo o estado de São Paulo, da mesma época, nada que se lhe compare. Um pormenor marcante é a existência do primitivo pelourinho, ainda na praça central, defronte da matriz. Deram-lhe função moderna. Fizeram dele lampião. Em volta, há uma espécie de ciranda de casas térreas, de paredes de taipa, denunciando, pelo aspecto venerável, que fizeram mais de cem anos. E há sobrados imponentes, com sacadas providas de grades ricas, proclamando uma riqueza que passou. Nas ruas relativamente largas, que conheceram o alarido das tropas, assenta agora a quietude de uma velha cidade afastada das rotas do comércio. Cunha, atualmente, recorda. É como velha que se senta junto da janela, de olhar perdido no horizonte, e conta o rosário e lembra a juventude. Lá distante, está Parati, que era a sua porta ao mar. É outro rescaldo de grandeza, onde existem telhados com telhas de porcelana vinda do reino e provavelmente importadas da China. Era no tempo dos galeões, do intercâmbio com o remoto Oriente, em que os navios, na volta do mar, vinham tocar e reabastecer-se nestes fartos Brasis. 

Imagem colorizada da rua Eduardo Querido, centro de Cunha, com as igrejas do Rosário e da Matriz ao fundo. Data: 1947. Autor: Alceu Maynard de Araújo.

Do outro lado, alonga-se o vale do Paraíba, por onde correu também a prosperidade nos tempos dessa baga sagrada que se tornou o café. Antes, já por ali escorrera o ouro que descia das Minas e ia fecundando de povoações as terras férteis que marginavam o Paraíba, transformado em roteiro da aventura e, depois, centro de fé, ao dar ao Brasil a imagem venerada da Aparecida. 

Entre esplendores que se apagaram ficou Cunha esquecida, quase isolada, no centro de serras de encostas hostis e bons caminhos. 

Fausto passado 

Como acontece com famílias em declínio que encontram no passado estímulo para a modéstia presente, em Cunha a tradição tem grande importância. O passado vive, palpita nas conversações. Serve de compensação, é motivo de orgulho. O majestoso sobrado em que o duque de Caxias esteve hospedado quando uma vez subiu de Parati e se destinava ao interior de São Paulo merece citação especial. Mas no prédio os anos estão marcados. As largas tábuas do soalho apresentam múltiplas frinchas pelas quais se vê perfeitamente o andar térreo. A escada está com os degraus gastos e range aflitivamente. Porque a tradição tem desses inconvenientes. Assume por vezes o aspecto de paupérrima velhice. Devia ter sido imponente a recepção ao ilustre Caxias. A sociedade próspera daquele tempo compareceu, as damas com seus vestidos mais ricos, as joias mais caras. Parece ainda escutar-se o riso alegre das mocinhas de então, jubilosas por exibirem suas graças e sua opulência. De todo esse encanto juvenil restam punhados de ossos no cemitério local. Mas naqueles tempos… Sim naqueles tempos, tudo era grandioso. Ouro em barra, pedras preciosas em grande número. Há lendas de terem escondido fortunas nas pareces de taipa dos velhos sobrados. 

Dizem que gente encontrou tesouros na demolição de casas antigas. Contam a história do governador das Setes Vilas, homem poderoso, que arrecadava o dízimo da região, cheia de ouro vindo das Minas e em cuja rota Cunha estava. Sua fortuna era imensa. Em 1850, ascendia a oitocentos e cinquenta contos de réis, quantia fabulosa porque tinha apreciável valor aquisitivo a pataca de cobre, que valia 40 réis. E então na casa daquele poderoso senhor, o ouro era medido aos litros como se faz com o feijão, e amontoado em prateleiras. Lá está a casa soberba para atestar tamanho fausto. Defronte dela juntava-se, ao anoitecer, a numerosa escravatura de velas acesas na mão para rezar o terço diante do nicho, em plena rua. O altivo senhor queria obediência e religião. E a escravaria, ao voltar do serviço, ia rezar antes de entrar na senzala. Como seres humanos oravam para, em seguida, como animais serem juntados no ergástulo.  

Tradições e superstições 

Terra antiga que ficou isolada, conservou bem vivo o patrimônio mental, sem grandes alterações. Na ocasião do parto ainda é preconizado soprar numa garrafa com força a fim de acelerar o desfecho feliz. Aliás era recurso primitivo, aconselhado às índias, que, em vez de garrafas inexistentes, usavam bambus. Tinha lógica. O esforço provocava contração dos músculos abdominais constituindo assim um apreciável concurso, como o espirro. 

Muitas das práticas e superstições observadas tiveram origem nos tempos recuados da colonização e ainda são observados nas províncias do norte de Portugal, como o lobisomem que é um ser humano que se metamorfoseia, em certas noites, em lobo e sai a morder o semelhante. As pessoas mordidas transformam-se também em lobisomem. A cura só pode ser conseguida em noite de lua cheia, ferindo o monstro atrás da orelha, com um garfo tridente. Em Cunha, quando o lobisomem é preto dizem tratar-se de um indivíduo negro. Se o cachorro é branco, então o infeliz é branco também. O animal toma a cor da epiderme do ser humano. Colocar teia de aranha e açúcar sobre feridas, considerar a laranja como alimento frio que se deve evitar no inverno, que carne de porco é quente, que só devem comer certos alimentos em meses que não têm “r”, que frutas misturadas com leite fazem mal e envenenam, por uma faca sobre mordida de abelha ou aranha, feiticeiras malévolas, alecrim e arruda contra mau olhado, são crendice que vieram nos galeões, por lá ficaram e ainda hoje se encontram também nas populações rurais peninsulares. 

Conjunto arquitetônico do centro de Cunha, visto da Praça do Rosário. Foto: Robert W. Shirley. Data: 1965.

A Festa do Divino 

A festa do Divino se celebra nas velhas cidades, constitui em Cunha a mais importante das manifestações religiosas e representa o ponto mais alto da vida da comunidade. Não tem data fixa. Varia de acordo com os recursos que o festeiro reúne. Tem que ser grandiosa, pois determina afluência maciça dos moradores da zona rural. Pode-se avaliar o interesse pelo fato de uma população dispersa de vinte e sete mil almas já se ter reunido na cidade num total de cerca de dez mil pessoas. Em importância só se lhe aproxima a festa de S. José, que reúne multidões. Além das cerimônias religiosas, há fogueiras, fogos, “companhias de moçambique” que executam danças próprias, que dizem não ser congada. Cada “companhia” tem um general que carrega o bastão, um capitão e um mestre com funções de dirigente da dança. Vinte dançarinos e doze tocadores de instrumentos formam uma grande companhia de moçambiqueiros. Violas, violão, cavaquinhos, caixas e pandeiros e até violinos integram o grupo de tocadores. O conjunto é constituído geralmente por pessoas aparentadas. Há ainda uma patente superior, o chefe supremo, o “rei”. É quem tudo manda. Poder supremo sem possibilidade de contestação. É uma espécie de patriarca, pois os elementos mais afastados em parentesco são seus afilhados. Irmãos, filhos, sobrinhos e netos desse rei constituem o moçambique, que usa uma espécie de uniforme, constituído por barrete branco, camisa e calças brancas. A camisa e os barretes são enfeitados com lãs de cores. O rei usa uma espécie de coroa. Só ele tem o direito de conduzir a bandeira de S. Benedito. Nas pernas, como se fossem ligas, usam todos uma tira de couro com guizos. Dançam empunhando bastões lisos, com pouco mais de um metro e que esgrimem enquanto volteiam. 

Organizar a festa do Divino é uma honra e um empreitada, pois exige coleta de donativos durante longos meses que são recolhidos em casa do festeiro. Há até um empreiteiro da “folia do Divino”, com sucesso garantido por duas dezenas de anos de prática, conhecedor do meio, amigo de toda a gente e bom tocador de violão e improvisador de modinhas. Daí o seu êxito. 

Contrastes 

Ambiente propenso não apenas à crença, mas também a credulidade e à crendice, ali se verificaram fatos e cenas bem curiosas. Em 1932, quando chegaram forças ditatoriais para ocupar a cidade, tomaram medidas estranhas. Começaram por implantar a desordem, abrindo as portas da cadeia e soltando os criminosos ali detidos. Entre esses figurava um moço loiro, que por não ter maior ocupação folheara uma das Bíblias distribuídas por uma missão protestante. Ao ver-se livre e sem ter recursos resolveu apresentar-se como o “Cristo que voltou”. Arranjou uma espécie de túnica branca, mostrava-se no alto de cupins, com os cabelos compridos, a barba loira crescida. Mandava fazer penitência. Impunha castigos e reparações, que consistiam em boa comida. Levava vida fácil e regalada. Até que um dia escolheu uma caipira jeitosa para companheira. Apresentou-a aos crentes como Virgem Maria. Acreditaram. Até que um dia o viram deitado com ela. Logo esmoreceu a fé. Aquela gente era crédula, mas não imbecil. Levaram o caso ao conhecimento do delegado que interveio com louvável presteza e reconduziu o “Cristo que voltou” à cadeia donde tinha sido libertado indevidamente para cumprir a pena que faltava. 

Sem a mesma gravidade e até cheio de pitoresco, foi o caso de João Camilo, espécie de capelão ambulante da roça. Era um velho preto de alma simples e confusas noções da religião. Influenciado pelo que vira na igreja amarrava um grande jacá em grosso tronco de arvore, à semelhança de um púlpito. E dali falava com confusa eloquência aos seus ouvintes intercalando na oratória deformações de frases latinas, dando a impressão de que rezava como padre… Retivera algumas palavras que ia soltando, repetindo: “oremus, oremus, repcicione Cristu, amem. Ora pronobis Santa Degenis, espeto da justiça, aleluia. O Senhor me ajude que eu também lhe ajudarei”

Evolução e estagnação 

Fac-símile da crônica sociológica de Barros Ferreira, publicada no Estadão, em 25 set. 1965.

Depois do período áureo, Cunha ainda cresceu até entrar em estagnação por falta de estímulos econômicos. No entanto, oferece condições magníficas para estância de repouso e cura, com seu clima seco e frio. Poderiam seus campos, a mil metros de altitude, produzir variadas frutas europeias, iguais às que se recebem da Argentina. Uvas de mesa podiam ali ser colhidas em larga escala. A oliveira devia ali produzir bem. É região de grandes frios que “torram” os pastos, segundo a expressão usada e impedem a volta integral à pastorícia, que é um estágio primitivo, um regresso, quando já foi atingida a fase agrícola. Com 2.472 habitantes em 1799, já contava 7.873 em 1872. Em 1886 somava 10.856 o povo do município. Seguiu-se o período da emigração do café do vale do Paraíba, o abandono da rota de Parati. Em 1920, tinha 20.171 almas. 24.818 revelou o censo de 1940. Não houve, portanto, o mesmo impulso no seu crescimento demográfico. A cidade de Cunha que começou opulenta não atingiu o desenvolvimento de outros, de Araraquara, por exemplo, que é muito mais recente e começou infinitamente mais pobre. Ficou segregada e esquecida, a ponto tal que, no movimento de 1932, muita gente orgulhosa de seus conhecimentos geográficos indagou onde ficava e foi procurar sua posição no mapa do Estado, de tal forma fora o declínio de uma das mais opulentas cidades paulistas do século passado. 

Fonte: Crônica extraída do jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de setembro de 1955.

* Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1997) foi um jornalista, historiador e escritor português, que passou boa parte da sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde veio a falecer.

Casa rural

Foto: Fernando Cobbos.
Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).

Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.

Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.

Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…

Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.

Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.

Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.

Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.

Cunha e o café

O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.

“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.

Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.

Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.

É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.

Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.

Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.

Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.

Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.

Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.

No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.

A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.

É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.

A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.

Referências:
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006.
SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942.
SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

As três humanidades

Por Mário Ferreira dos Santos *

A Torre de Babel, pintura de Pieter Bruegel, o Velho (1563). Fonte: Wikimedia.

A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.

São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.

São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.

A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: “Tenho asfalto na alma … ” ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um “modus-vivendi”; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de “moda”, na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas “exquises”, instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do “taedium vitae”; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem econômica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingênuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, “Os homens excelsos não são originais”.

Justifico por final o título: três humanidades.

A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.

Fonte:
FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Páginas várias. 2. ed. São Paulo: Logos, 1963, pp. 106-108.
(Coleção Antologia da Literatura Mundial)

* Mário Dias Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 1907 – São Paulo, 11 de abril de 1968) foi um filósofo, tradutor e escritor brasileiro. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de Filosofia Concreta. Um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do Centro de Cultura Social, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo da primeira metade do século XX. Era autodidata e dono de uma enorme erudição. Para saber mais sobre o filósofo clique aqui.

25 de setembro de 2010 – Lançamento do livro “A História de Cunha”, do professor João Veloso

O homem e a obra. Veloso tem nas mãos “A História de Cunha”. Foto: Geraldo Magela Tannús. Ano: 2010.

Há 11 anos era lançada a obra “A História de Cunha – 1600-2010 – Freguesia do Facão – A Rota da exploração das minas e abastecimento de tropas“, do professor e historiador cunhense João José de Oliveira Veloso (1945-2020), um livro que é fruto de uma vida de pesquisa. Páginas e páginas de muita informação, fatos e fontes primárias sobre a História de Cunha, antiga Freguesia do Facão.

E foi lançado em 2.010, justamente no ano em que Cunha viveu uma terrível catástrofe climática, revelando o caráter providencial do livro, pois diante do cenário de destruição que estava posto, nada mais inspirador para reconstrução do que olhar para grandeza do nosso passado.

São 496 páginas de pura história, quase sempre recheadas com fontes primárias. Fruto do amor e desprendimento de um apaixonado por Cunha: o professor João Veloso. Ele, tal como os sertanistas de outrora, explorou corredores e estantes empoeiradas dos arquivos públicos, enveredou-se por museus, inquiriu cunhenses que já se foram, averiguou obras, artigos e teses, campeou fotos e artefatos, desenterrou pilhas e pilhas de testamentos e doações de sesmarias, reconstituiu as sendas das tropas e os caminhos perdidos. Lapidou todas as informações colhidas, organizando-as e fazendo a sua interpretação. Para, finalmente, nos entregar essa obra valiosíssima. É um livro definitivo? O próprio professor Veloso, com a humildade que lhe era típica, rechaçou essa qualificação. Para ele, havia muito a ser pesquisado e muitas perguntas sem resposta na história local. Mas, convenhamos, não há mais nada de essencial a ser dito. Alguns fatos, talvez, ainda possam ser pormenorizados e ampliados, como o próprio professor João Veloso fez questão de deixar claro, quando deu uma aula pública, em 2017, na homenagem que a Câmara de Cunha lhe rendeu, na data em que foi aprovada a mudança do dia de comemoração de aniversário de Cunha para 19 de março. Essa retificação foi ancorada na pesquisa que culminou na publicação do livro “A História de Cunha (1.600 – 2.010)”, pelo professor João Veloso.

Foram mais de 40 anos de pesquisas realizadas por um professor abnegado, que não mediu esforços físicos e financeiros para trazer à lume um passado quase esquecido. Tirou o pó da grandeza do passado de Cunha, nos presenteando com a publicação. Como diz o professor José Eduardo Marques Mauro (professor do IEB-USP), o “livro patenteia o coroamento de todo um extenso e duradouro trabalho do autor, que, apresentado com esmerada publicação, assume o significado de uma autêntica dádiva ofertada à cidade e a população do município, se constituindo em um reforço ao aperfeiçoamento da identidade local e regional da população cunhense”. O professor Nelson Pesciotta (USP/UNITAU, ex-presidente do IEV), in memoriam, foi além. Para Pesciotta, o livro do professor João Veloso foi “uma certidão de nascimento para Cunha”. E foi mesmo!  Descortinou o nosso passado, situou o Cunha (Facão) no tempo e foi a primeira obra exclusiva sobre História de Cunha. E, pela sua abrangência temporal e qualidade acadêmica, é até hoje a única. Por ser insuperável, deve ser lida e consultada. Não é à toa que o professor José Eduardo disse que compreender a História de Cunha é uma forma de compreender a História do Brasil, já que na micro-história do município é possível pôr em evidência o pulsar da Nação.

O professor João Veloso foi o fundador do Centro de Cultura e Tradição de Cunha, criador e mantenedor do Museu Municipal “Francisco Veloso” e foi membro ativo do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos). Também fez a tradução do livro “O fim de uma tradição”, do antropólogo Robert W. Shirley, obra de referência nas áreas de Sociologia e Antropologia, no que concerne ao estudo de comunidade.

A obra “A História de Cunha“, atualmente esgotada, fomentou o interesse e o debate sobre a História local, servindo de referência para outros livros e dissertações sobre Cunha que foram lançadas no último decênio. Podemos dizer ainda que são frutos dessa obra ímpar o grupo do Facebook “Memória Cunhense“, um dos maiores do Vale sobre a temática memorialista, e a retificação da data de fundação do município de Cunha (agora 19/03/1724 e não mais 20/04/1858).

Mais que um historiador, o professor João foi um defensor do patrimônio histórico e cultural cunhense, um cidadão ativo na defesa da cultura e tradições do nosso povo. Em 2008, junto com o professor José Eduardo Marques Mauro, encetou um movimento que resultou na criação do COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha), realizando o tombamento dos imóveis históricos da cidade de Cunha, estabelecendo uma área de envoltória para preservar a nossa paisagem urbana. Graças a esse tombamento, em 2018, veio o tombamento estadual, realizado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão do Governo de São Paulo.

O livro “A História de Cunha” não foi a sua primeira obra e não foi a última. Em 2014, lançou “A história de Zina: a saga de uma família da zona rural cunhense”, uma ficção histórica romanceada. Suas crônicas, presentes no livro “O ambiente natural cunhense” são ótimas e merecem ser relidas. Um retrato fiel do povo de Cunha, de seus modos e dilemas, com uma boa dose de sofisticada ironia. Quando partiu, no começo deste ano, tinha um livro no prelo, sobre as manifestações folclóricas do município. Torcemos pelo lançamento. Como obra póstuma e como uma forma de gratidão do povo de Cunha a quem tanto fez por nosso lugar.

Uma segunda edição da obra “História de Cunha“, revista e ampliada, vinha sendo preparada, antes do repentino e infeliz falecimento do professor João Veloso. Mas quem sabe não possa sair nos próximos anos? Em 2024, Cunha irá comemorar o seu Tricentenário. E uma segunda edição dessa obra é um presente e tanto para comemorar tão significativo jubileu. Cunha merece!

Fonte:
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Obs.: Texto publicado em 25 de setembro de 2020, na página Jacuhy, do Facebook, na série “Hoje na História de Cunha”. A redação foi alterada em virtude do falecimento do professor e historiador João Veloso, em novembro de 2020.

Robert Shirley, o pesquisador americano que virou “cunheiro”

Robert Shirley esteve em Cunha, na década de 1960, para pesquisar os impactos do progresso industrial e urbano sobre a cultura e tradição local. Dessa pesquisa surgiu o livro “O fim de uma tradição“.

Robert Weaver Shirley nasceu em 11 de dezembro de 1936, na cidade de Baltimore, estado de Maryland, nos Estados Unidos da América. Era filho do Dr. Hale Forman Shirley, um típico médico caipira do Meio-Oeste americano, natural de Iowa, onde se criou e estudou. Sua mãe se chamava Mildred Weaver Shirley, nascida na mesma região de seu marido, criada em uma das muitas fazendas que compõem o estado do Illinois. Como estudante de Nutrição na Universidade de Iowa, ela conhece o jovem Hale, ainda um estudante de Medicina e seu futuro marido. Seu pai decide aprofundar sua formação e parte para Baltimore, objetivando estudar Psiquiatria Infantil na Universidade Johns Hopkins. Após a formação, quando Robert tinha apenas dois anos, os Shirley se mudam para o outro lado do país, se estabelecendo em São Francisco, Califórnia. Seu pai fora nomeado professor de Pediatria e Psiquiatria na Universidade de Stanford. Sua família se estabelece de forma definitiva na Baía de São Francisco desde então. Sua mãe veio a falecer em 1960 e seu pai em 1974. Essa proximidade familiar com a Medicina, o leva a trabalhar por vários anos como assistente de pesquisa médica em Palo Alto, Califórnia, na Universidade Stanford.

Robert Shirley graduou-se em Biologia e Antropologia na Universidade de Stanford, se mudando, posteriormente, para Nova Iorque, a fim de terminar seu doutorado na Universidade Columbia. Nessa Academia, influenciado pelo antropólogo e brasilianista Charles Wagley (1913-1991), inicia seus estudos sobre o Brasil, interesse que iria nortear toda sua carreira acadêmica e seria seu campo de pesquisa predileto e vitalício.

” Minha ligação com esta comunidade pequena [Cunha] é uma das felicidades de minha vida […] Mais uma vez, portanto, quero agradecer ao povo de Cunha por sua amizade durante doze anos”

Robert Shirley, em 1977.

Para realizar as pesquisas que culminariam em seu doutorado em Antropologia, parte para o Brasil, mais especificamente para a pequena e isolada cidade de Cunha, no extremo leste de São Paulo. Mais que uma experiência acadêmica e de pesquisa, Cunha o marcaria para sempre, como várias vezes testemunhou Shirley. Cunha foi um objeto de estudo que se transformou em um verdadeiro laboratório de experiências humanas, pessoais e solidárias para o cientista social. Aqui esteve por dois anos (1965-1966), dando continuidade às pesquisas sociais desenvolvidas na década de 1940 por Emílio Willems. Cunha foi, durante o século XX, uma espécie de cidade-laboratório dos cientistas sociais, pelo fato de ser uma comunidade isolada e que mantinha a cultura tradicional ainda intacta. Os mais importantes “estudos de comunidade” no Brasil aconteceram em nosso município. Seu interesse aqui era medir o impacto das cidades industriais paulistas sobre a pequena comunidade tradicional, cujo isolamento vinha sendo gradativamente rompido com novas estradas e novos meios de comunicação. Shirley, certa vez, afirmou que vir para Cunha era muito mais que um deslocamento no espaço, mas também um deslocamento no tempo, como se pudéssemos voltar a uma época pretérita. Sua pesquisa identifica vários sinais de ruptura na cultura tradicional, o que para ele levaria, com o passar do tempo, ao desaparecimento das manifestações folclóricas típicas do mundo rural.

O antropólogo nunca escondeu de ninguém: Cunha era sua segunda casa, depois da fria Toronto, onde tinha seu emprego. Os Veloso, segundo sua própria confissão, era sua família adotiva. Nestas paragens encontrou sua tese e novos amigos. Da relação fraternal com o inesquecível professor João Veloso (1945-2020), nasceu o Centro de Cultura e Tradição de Cunha, a tradução dos livros “O fim de uma tradição” e “Antropologia Jurídica” para o português e diversos boletins e matérias sobre a cultura e tradição local. Uma amizade intelectual que rendeu muitos frutos para Cunha e que até hoje desfrutamos. Shirley nunca se esqueceu da noite chuvosa, em janeiro de 1965, quando chegou a Cunha, após enfrentar o lamaçal que era a Estrada Cunha-Guaratinguetá e ter que pernoitar no meio do caminho. Instalou-se no “Hotel Paulista” (do Rafaello, belíssimo casarão colonial já demolido), e logo transformou a estalagem em uma espécie da sucursal da Universidade Columbia, ocupando quartos e salas e orientando ajudantes de pesquisa. Deixou Cunha um ano e meio depois com “20 quilos de material escrito e memórias infinitas”. Aproveitou o ensejo da introdução que fez ao livro “Um causo sério”, do José Velloso, em setembro de 1991, para fazer muitas confissões do seu amor a Cunha e aos amigos que aqui encontrou e sempre que pode visitou… Coisas que não cabiam na austeridade e sobriedade das publicações de suas inúmeras pesquisas, onde o distanciamento afetivo com o objeto de estudo é necessário para a credibilidade da pesquisa.

Robert Shirley, em 1966, quando estava em Cunha fazendo sua pesquisa de doutorado. Fonte: Museu Municipal Francisco Veloso.

Foi membro do corpo docente da Universidade de Toronto por mais de 27 anos, atuando na graduação e pós-graduação do curso de Antropologia, no Campus Scarborough. As disciplinas que ministrou foram: Antropologia Social e Cultural, Antropologia Econômica e Política, Escravidão Comparada e Direito e Sociedade. Além disso, também chegou a lecionar uma matéria sobre as sociedades latino-americanas, dando um curso sobre “As Américas: uma perspectiva antropológica”, com enfoque no México e no Brasil. Na pós-graduação, foi professor de Antropologia Jurídica e Metodologia e História do Pensamento Antropológico.

Já em 1988 havia se tornado o grande brasilianista do Canadá, atuando na Universidade de Toronto, abrindo as cortinas para os estudos sobre Brasil e apresentando o “país tropical abençoado por Deus” a milhares de jovens estudantes interessados pelo mundo abaixo da Linha do Equador. Realizou diversos cursos e seminários sobre o Brasil, durante muito tempo, no St. Michael’s College.

Como professor, conseguiu ministrar seus cursos em várias universidades brasileiras, tendo a oportunidade de visitar assim grande parte do país. Viajou para o Amazonas, região Nordeste, embora a maior de suas pesquisas tenha sido nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Sua área de pesquisa e atuação no ensino superior esteve ligada à Antropologia Social, matéria que lecionou em quatro universidades brasileiras. Também foi o introdutor, nas universidades brasileiras, da disciplina de Antropologia Jurídica, tendo atuado no Museu Nacional do Rio de Janeiro e na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Lecionou ainda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O Brasil foi o seu grande campo de pesquisa, conforme ele mesmo escreveu: “em 1970, comecei a me interessar pelas instituições que ligam as regiões rurais e urbanas. Passei alguns meses trabalhando em cooperativas, mas acabei me estabelecendo em uma extensa pesquisa sobre direito e instituições jurídicas no Brasil”. Início da década de 1980 estudou a cultura e as tradições gaúchas, quando era professor da UFRS. Em meados da década, ainda em Porto Alegre, junto com a professora Claudia Fonseca começa sua pesquisa sobre Antropologia Jurídica e Direito Comparado e o impacto das instituições jurídicas de uma perspectiva urbana, usando o método de estudo da comunidade. Na década de 1990, inicia os estudos sobre as favelas do Rio de Janeiro e São Paulo, fazendo comparativos sobre a organização de favelas nas diferentes cidades do Brasil. Aproveita para, nessa época, estudar as religiões afro-brasileiras enquanto força organizadora de comunidades carentes. Em 1993-1994, vive o seu ano sabático e aproveita para visitar Cunha por quatro meses. Retorna a Toronto em 1994, passando a atuar na área de Criminologia, buscando uma reforma policial e uma governança comunitária e de policiamento. No verão de 1996, retorna ao Brasil, como bolsista, para o Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP). No Brasil, pesquisou a organização jurídica local, as religiões nacionais e as organizações comunitárias.

Apaixonado por artes, literatura, dança e música (principalmente música clássica), Shirley não deixou esse hobby de fora de suas andanças acadêmicas. Do Brasil levou, quando retornou ao Canadá, uma enorme coleção de gravações brasileiras de diversos músicos e ritmos, além, claro, de uma infinidade de livros sobre nosso país, por quem nutria muito mais que um interesse de pesquisa, mas profundo afeto e respeito. Apoiou e acolheu em sua casa o coreógrafo brasileiro Newton Moraes.

Faleceu em 23 de julho de 2008, em sua residência, de forma repentina, em Toronto, aos 72 anos de idade. Já tinha se tornado professor emérito de Antropologia, na Universidade de Toronto. Ficou na lembrança dos alunos, amigos e familiares como um homem extremamente gentil. Deixou saudades em seu companheiro Newton Moraes, em seus irmãos Bill Shirley e Barbara Sierra e em seus sobrinhos Stephanie, Linda, Nicholas, Ethan, na sobrinha-neta Alexandra e em muitos amigos.

Sua obra, ainda que menos importante e impactante que a de Willems, contribuiu para a Antropologia brasileira, principalmente ao introduzir um novo campo de estudo: a Antropologia Jurídica. Para Cunha, ele foi muito mais que um pesquisador “do estrangeiro”, que só via o lugar como um objeto de pesquisa.  Virou “cunheiro” de alma e coração e deu suporte acadêmico aos movimentos culturais e de preservação histórica que brotaram na cidade após a década de 1970. Apesar de ter sido um problematizador sobre o iminente desaparecimento da cultura tradicional frente ao industrialismo paulista, foi ele um dos somaram esforços para que nossas tradições não chegassem ao fim.

Livros:

1971 – The End of a Tradition: Culture Change and Development in the Município of Cunha, São Paulo, Brazil. Columbia University Press, New York and London.

1977 – O Fim de uma Tradição (tradução de João José de Oliveira Veloso, com um prefácio à edição brasileira e um capítulo extra: “Cunha, Doze Anos Depois”), Editora Perspectiva, Série Debates, n. 141, São Paulo.

1987 – Antropologia Jurídica (tradução de João José de Oliveira Veloso), Editora Saraiva, São Paulo.

Artigos:

1962 – em parceria com A.K. Romney: “Love Magic and Socialization Anxiety: A Cross Cultural Survey,” American Anthropologist, v. 64, n. 5, out., tomo I, pp. 1028-31

1964 – com R.G. Desai: “Association of Leukemia and Blood Groups,” The Journal of Medical Genetics, vol. 2, n. 3.

1967 – “The End of a Tradition”: tese de doutoramento da Universidade de Columbia, da cidade de Nova Iorque, publicada pela Universidade Microfilms, Ann Arbor, Michigan.

1970 – “Politics and Labour Migration in Brazil: The Politics of Underemployment,” in Manpower and Economic Development, Institute of Developing Areas, McGill University, Montreal, PQ., v. 2, n. 1, pp. 45-48.

1971 – “Social and Economic Change in the Municipío of Cunha,” Ciências Econômicas e Sociais, São Paulo, v. 6, n. 2, pp. 93-101.

1973 – “Patronage and Cooperation, An Analysis from São Paulo State,” in Patronage and the Power Structure in Latin America, A. Strikon and S. Greenfield, editors; The University of New Mexico Press, Albuquerque, NM.

1978 – “Legal Institutions and Early Industrial Growth: Manchester/São Paulo,” no Stanford Journal of International Studies, v. XIII, Spring, pp. 157-176. Posteriormente publicado em livro como: Manchester and São Paulo, John Wirth, and Robert L. Jones editors, Stanford University Press, Stanford, California.

1979 – “Law in Rural Brazil” em Brazil, Anthropological Perspectives: Essays in Honor of Charles Wagley, Maxine L Margolis and William E. Carter, Editors, pp. 343-361. Columbia University Press, New York.

1987 – “A Brief Survey of Law in Brazil” em NS: The Canadian Journal of Latin American and Caribbean Studies, v. XII, n. 23, 1987; pp. 1-13.

1990 – “Recreating Communities: The Formation of Community in a Brazilian Shantytown,” em Urban Anthropology, v. 19, n. 3, 1990, pp. 255-276.

1991 – “A lições de Cunha” no jornal Folha de São Paulo, 9 ago. 1991, p. 10-12.

1991 – “Gaúcho Identity and Regional Nationalism, A Case Study of the Traditionalist Movement in Rio Grande do Sul, Brazil,” no Journal of Latin American Lore, #17, pp. 199-224, Journal of the Latin American Institute of U. C. L. A.

1992 – “Brazil in Toronto” no Abacaxi Times, (jornal da comunidade brasileira em Toronto): n. 8, nov. 1992, p. 7.

1992 – “Introdução ao livro de José Velloso” em SOBRINHO, José Veloso. Um Causo Sério, pp. 11-13, Centro de Cultura e Tradição de Cunha, Cunha, São Paulo.

1994 – “Brazilians in Canada” artigo da Encyclopedia of the Canadian People, publicação da Multi – Cultural History Society of Ontario, Toronto.

1995 – “A Case of Kidnapping – and a Case of Prejudice” Review of two books: “Wrong Time, Wrong place,” by Caroline Mallan and “See no Evil,” by Isabel Vincent, em The Financial Post, 20 mai. 1995, p.33

1996 – “The Moçambique and the Parabola, How Weekend Tourism is helping to Preserve Folk Traditions in Rural São Paulo, Brazil” em ANTHROPOS: 91, Berichte und Kommentare, pp. 545-551; Köln, Germany.

1997 – “Atitudes com Relação à Polícia em uma Favela do Sul do Brasil,” em Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, v. 9 – 1, mai. 1997, pp. 215-231, São Paulo.

1997 – “Faith and Freedom (a brief history of Afro-Brazilian Religion),” in The Queen’s Quarterly, inverno de 1997, pp. 690-711.

Fontes:
OBITUÁRIO de Robert W. Shirley. Disponível em: <https://www.legacy.com/obituaries/thestar/obituary.aspx?n=robert-w-shirley&pid=117514415 >. Acesso em: 23 set. 2021.
SHIRLEY, R. W. O fim de uma tradição: cultura e desenvolvimento no município de Cunha. Tradução de João José de Oliveira Veloso. São Paulo: Perspectiva, 1977.
UNIVERSITY OF TORONTO. Robert Shirley Anthropologist. Disponível em: <http://homes.chass.utoronto.ca/~rshirley/robert/index.htm >. Acesso em: 23 set. 2021.
VELLOSO SOBRINHO, J. Um causo sério. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1992.