Título: Saudade. Criador: Almeida Júnior. Data de criação: 1899. Tipo: Óleo sobre tela. Direitos: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
“O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E, por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.”
(CAEIRO, Alberto. Poesia (O Guardador de Rebanhos). Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 53-54)
E se completam os primeiros 10 anos do Jacuhy, o seu primeiro decênio. Em 21 de junho de 2016, resolvi criar uma página para expor tudo o que eu havia lido e pesquisado sobre Cunha. Boas intenções, poucas pretensões.
O Jacuhy é um blog pessoal. E um blog bairrista: é sobre Cunha, por Cunha e para Cunha. Cunha é o rio da minha aldeia. Nunca quis ser apenas um blog de história, cultura ou geografia. Porque há tantos, e “toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia”.
Sempre gostei de curiosidades históricas; as grandes questões da História nunca me cativaram, porque são chatas e insolúveis. O que é pequeno, conhecido em toda a sua extensão, palpável, me dá segurança. Diz-se: “mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Eu não sou marinheiro. Sou “cunheiro”. Opto sempre pela bonança.
Essa ânsia pelo completo me motiva. Fechar um assunto, esgotá-lo em suas causas e consequências é um deleite. Tanta subjetividade não pode atender aos ditames da micro-história; ainda assim, não me preocupo com o rigor científico. A narrativa é igualmente importante. Quem se põe a escrever tem no leitor a sua finalidade última.
O Jacuhy nunca foi o único a divulgar a história de Cunha. O querido professor João Veloso, um ícone, ainda era vivo quando fiz minha primeira postagem. O professor Victor Amato estava em plena atividade. O grupo virtual “Memória Cunhense”, no Facebook, estava com a audiência lá em cima. O Jacuhy veio para somar: ser mais um canal cultural, propagando notícias históricas e geográficas de Cunha.
Na época (2016/2017), fazia-se, no “Memória Cunhense”, o debate sobre a correção da data de aniversário de Cunha, propondo sua mudança para a data de fundação do município: 19 de março. Engajei-me nessa questão, mas quis ir além. No grupo, escrevia-se muito sobre o assunto. Os que apoiavam a mudança — a maioria — fundamentavam-se no livro do professor João Veloso (A História de Cunha); já os que eram contra, por diversas razões, apoiavam-se na banalidade da ação ou em outras fontes. Foi um período interessante: uma comunidade debatendo sua história e buscando alterar a história oficial.
A vitória do “19 de março” foi a vitória das ideias do professor João Veloso, levadas adiante pelo professor Victor Amato. Foi a municipalidade, por meio de uma lei, reconhecendo publicamente os 40 anos de pesquisa sobre Cunha de João Veloso: fundador do Museu Francisco Veloso, do Centro de Cultura e Tradição e pioneiro em tantas outras ações em prol da comunidade. Um reconhecimento merecido — e ainda pequeno diante de tudo o que ele foi.
Neste tempo de modernidade líquida, 10 anos é muito tempo. As mudanças já não esperam gerações: acontecem a todo momento e alteram o curso dos acontecimentos. Por isso, qualquer prognóstico sobre o Jacuhy é incerto. Se este fosse meu último post, ficaria feliz por tudo o que já publiquei na internet.
Não sou pesquisador, nem tenho nisso o meu trabalho. Sou real. Também estou sujeito às intempéries da vida — e tenho passado por algumas delas. Peço desculpas pelas ausências dos últimos meses. Tento contorná-las, mas não é fácil. Tudo requer tempo, este recurso escasso. Há coisas que o Jacuhy tem deixado pela metade: o mapa hidrográfico, a Proclamação da República em Cunha, os arquivos da escravidão, a política na década de 1930, uma biografia sobre o Molinari, o livro que quero escrever…
Lido com a ansiedade de não poder explorar todos os meandros do tempo ainda não visitados. E são muitas as curvas desconhecidas nesse rio tricentenário da história de Cunha.
Entre um café e um livro velho — que ataca minha rinite — vou prosseguindo. É muito difícil definir prioridades e sacrificar hobbies. Saudades de 2016! Não precisava me preocupar com tantas coisas… As intempéries da vida são forças morfoesculturais que moldam nossa existência e são alheias à nossa vontade. Devo aprender diariamente que, como disse o poeta Fernando Pessoa, “viver é não conseguir”.
“[…] a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades […] Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis”.
(Aziz Ab’Sáber, in “Domínios de natureza no Brasil: potencialidadesPaisagísticas”, 2003)
Os nomes dos lugares constituem um importante patrimônio cultural e histórico, pois revelam aspectos da paisagem, da ocupação humana e das formas de vida que moldaram um território ao longo do tempo. No município de Cunha, a análise da toponímia dos bairros rurais permite compreender elementos fundamentais de sua formação histórica e geográfica, que remonta ao século XVII, quando as primeiras sesmarias foram doadas na região. Mais do que simples denominações, esses nomes registram a relação entre os habitantes e o espaço, funcionando como verdadeiros documentos da memória coletiva.
Uma das características mais marcantes da toponímia cunhense é sua estreita ligação com o meio natural. Diversos bairros receberam nomes inspirados na vegetação local, como Pinhal, Cedro, Figueira, Guabirobas, Pessegueiro e Angico. Outros fazem referência direta aos recursos hídricos, como Rio Acima, Rio Abaixo, Córrego Fundo, Cachoeirinha e Paraibuna. O relevo também aparece frequentemente nas denominações, como em Serra do Indaiá, Alto da Bocaininha, Pedra Branca, Mato Dentro, Cume e Várzea. Esses nomes evidenciam que a identificação dos lugares ocorreu a partir da observação direta da paisagem. Em uma sociedade rural, onde rios, montanhas e matas serviam como referências para deslocamento e sobrevivência, a natureza tornou-se a principal fonte de orientação geográfica.
Croqui esquemático de bairro rural, gerado por IA. Fonte: Chat GPT.
A presença de numerosos topônimos relacionados às atividades agrícolas e pecuárias demonstra a forte origem rural do município. Nomes como Curral, Curralinho, Cocho, Paiol, Sítio, Fazenda, Retiro, Campo e Vargem remetem diretamente ao cotidiano das propriedades rurais e ao universo da produção agropecuária. A ocupação histórica de Cunha ocorreu de forma dispersa, baseada em sítios e fazendas distribuídos pelo território montanhoso. Dessa forma, a paisagem rural deixou marcas permanentes na nomenclatura local, refletindo a importância econômica e cultural da agricultura e da criação de animais para as comunidades cunhenses.
Entre os nomes mais recorrentes, destacam-se aqueles relacionados aos paióis. As denominações Paiol, Paiol Queimado, Paiol Velho e Paiolzinho aparecem em diferentes regiões do município, totalizando aproximadamente nove ocorrências. Essa frequência sugere a relevância dessas construções para a vida rural, já que os paióis eram fundamentais para o armazenamento de grãos, como o milho. A repetição do termo reforça o papel histórico da agricultura como base da economia local. O milho foi o sustentáculo econômico do município durante os séculos XVIII e XIX. Seu cultivo era voltado para alimentação local, cujo prato principal era quirera com feijão, e para a suinocultura. Cunha foi o maior produtor de toicinho da Província de S. Paulo. Sua produção agropecuária alimentou as fazendas de café do Vale do Paraíba. Outros nomes bastante comuns são Boa Vista e Mato Dentro. O primeiro aparece associado a diferentes localidades e geralmente indica áreas elevadas com ampla visibilidade da paisagem, típicas dos Mares de Morros. Já Mato Dentro remete à ocupação de áreas originalmente cobertas por vegetação densa, evidenciando o avanço gradual do povoamento sobre a Mata Atlântica da região.
Núcleo do bairro do Sertão do Pinhá, com sua capela e escola rural, na região leste do município de Cunha, próximo ao limite com Paraty (RJ). Foto: Paulo Cesar. Data: 2023.
A influência da religião católica também se manifesta de maneira significativa na toponímia do município. Bairros como Santa Rita, Santa Cruz, Divino Mestre, Ribeirão das Almas e São Roque revelam a importância da Igreja na organização social e territorial durante os períodos colonial e imperial. Em muitas áreas rurais brasileiras, as capelas constituíam o principal núcleo de convivência comunitária, reunindo moradores em celebrações religiosas, festividades e atividades coletivas. Assim, a presença desses nomes reflete não apenas a religiosidade dos habitantes, mas também o papel das instituições religiosas na formação das comunidades locais.
Outro aspecto relevante é a presença de topônimos derivados de nomes de pessoas e famílias, fenômeno conhecido como antroponímia. Exemplos como Antônio José, Sertão dos Marianos, Paraitinga dos Motas, Várzea do Joaquim Rosa, Galvão e Barra do Chico do Lau e do J. Alves indicam a influência de antigos moradores ou grupos familiares que desempenharam papel importante na ocupação dessas localidades. Essa característica revela um processo de colonização baseado em núcleos familiares dispersos e reforça a importância da tradição familiar patriarcal na preservação da memória local. Em muitos casos, o nome do lugar torna-se uma forma de perpetuar a lembrança daqueles que contribuíram para a construção da história da comunidade ou dos antigos fazendeiros que deram origem ao povoamento do bairro.
Aspecto da antiga fazenda dos Fagundes, no bairro Capetinga dos Fagundes, região nordeste de Cunha, próximo ao limite com Silveiras. Foto: Adilson Nunes.
A herança indígena também permanece viva na paisagem linguística de Cunha. Nomes como Paraibuna, Jaguarão, Jacuí e Paraitinga possuem origem tupi e remetem, em geral, a rios, animais ou elementos da natureza. Esses topônimos são vestígios da ocupação paulista na região, gente falante da Língua Geral, simbiose da Língua Tupi, “o grego da terra”, com a “última flor do Lácio”, a Língua Portuguesa. Indicam que muitos dos referenciais espaciais utilizados pelos povos indígenas foram incorporados pelos colonizadores. A permanência desses nomes evidencia a profundidade histórica da ocupação humana na região e a contribuição dos povos originários para a construção da identidade territorial local.
Além dos nomes ligados à natureza, à religião ou à memória familiar, há também uma grande quantidade de topônimos de caráter funcional. Localidades como Três Pontes, Encruzilhada, Barra, Ponte, Várzea do Tanque, Mato Dentro e Alto do Sapé possuem nomes essencialmente descritivos, criados para indicar localização, acesso ou características específicas do terreno. Esses topônimos funcionavam como instrumentos práticos de orientação em uma época em que os deslocamentos dependiam de trilhas, caminhos rurais e referências naturais. Cunha, um elo entre o Sertão e o Litoral, sempre foi recortada por inúmeros caminhos e tem forte herança tropeira. Esses topônimos refletem essa influência.
De modo geral, a toponímia de Cunha revela um município profundamente ligado à cultura caipira, em que a natureza, à vida rural e às formas tradicionais de ocupação do território estão intimamente ligadas. O caipira não existe sem seu torrão. Os nomes dos bairros preservam marcas da vegetação original, dos rios, das montanhas, das atividades agropecuárias, da religiosidade popular, da presença indígena e da memória das famílias pioneiras da Paulistânia. Diferentemente de áreas fortemente urbanizadas, onde predominam denominações planejadas ou homenagens oficiais, os topônimos cunhenses surgiram de maneira espontânea, diretamente relacionados à experiência cotidiana dos moradores. Por isso, constituem uma valiosa fonte para compreender a história da ocupação humana e a construção da paisagem cultural do município, resultado da interação entre sociedade e natureza ao longo do tempo.
Aspecto do bairro do Monjolo, região sudeste do município de Cunha.
Falar de bairro rural é falar de um pedaço do mundo que não cabe apenas no mapa. É a vizinhança que se reconhece pelo nome, pela capela, pelo campo de futebol, pelo bar de “fulano de tal”, pela estrada de terra, pela festa do padroeiro, pelo mutirão e pelo jeito como as famílias se ajudam quando a lida aperta. Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito (1964), mostrou que a vida caipira não pode ser entendida só pela economia. Ela se organiza também pela sociabilidade, pelos vínculos de vizinhança e pelo ajuste entre grupo humano e meio; em outras palavras, a cultura nasce no território vivido. Após o icônico “Ocê é gente di queim?”, sempre vem “Ocês são di ondi?”. O lugar importa, e importa muito, sim, senhor.
Em Cunha, esse tema ganha um peso ainda maior. O município, que não é populoso (população estimada em 2025, pelo IBGE, em 22.460 habitantes), tem sua população bem distribuída pelo seu amplo território, com mais de 1.407 km², o maior do Vale do Paraíba, apresentando uma densidade demográfica baixa, de 15,71 habitantes por km². Essa dispersão populacional ocasionou a existência, em seu território, de 2.287 estabelecimentos de produção agropecuária, número bastante elevado para o contexto estadual. Desse total, 74% são unidades classificadas como de agricultura familiar. É o município paulista com maior número de unidades de produção agrícola, superando, inclusive, Mirante do Paranapanema, município que é símbolo da reforma agrária e da luta contra a concentração fundiária no Brasil.
A paisagem cunhense, caprichosamente adornada por morros, vales, pastos, roças, capões de mata e caminhos que sobem e descem a serra, ajuda a entender por que os bairros rurais seguem tão importantes: eles são uma forma prática e afetiva de organizar a vida no campo. Não é por acaso que, de acordo com o Censo 2022, Cunha contava com 9.060 moradores rurais, o que significa cerca de 41% da população estava vivendo na roça. Um percentual muito alto para os padrões paulistas, estado em que a população rural corresponde a cerca de 2,6%. A distribuição dessa população pelo espaço rural possibilita a formação dos bairros rurais, pois, de acordo com Antonio Candido, o bairro é o “agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega”.
Na geografia cultural e na geografia agrária, o bairro rural pode ser visto como um espaço de enraizamento. Ele não é apenas uma localização; é um lugar carregado de memória, uso e pertencimento. Por isso, quando se observa Cunha, não se vê apenas produção agropecuária: vê-se uma malha de relações que mistura família, trabalho, religião e tradição. E há um fundo poético nisso tudo. Quando se ouve uma moda de viola ou se lê um verso que fala da terra como companhia de vida, entende-se melhor o que a geografia às vezes tenta dizer em palavras mais formais: a paisagem rural não é cenário, é experiência. Em Cunha, isso ainda salta aos olhos. Bairro não é um simples espaço; é lugar. Lugar de pertencimento, de memórias, de afeto, de extensão imediata do lar, de elo com a terra, torrão sagrado onde o caipira teve seu “umbigo enterrado”. Tal como na moda de viola “Rio Pequeno”, um dos grandes sucessos da dupla Tonico e Tinoco, lançada em abril de 1952, sair do bairro onde foi criado é abandonar parte de sua vida, de sua identidade: “O zóio dela encheu d’água, despediu co’a voz tremeno / Adeus, casa dos meus pais! Adeus, chão do Rio Pequeno!”
Bairro, o chão da cultura caipira
Aspecto do bairro da Cachoeira dos Rodrigues, região oeste do município de Cunha. Foto: Edson Luiz de Oliveira. Data: abr. 2022.
“O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.”
Antonio Candido, in Os parceiros do Rio Bonito
Os bairros rurais têm importância porque são, antes de tudo, lugares de convivência. Neles se cruzam a reza do terço, a folia, a festa do santo, o café coado no fogão, a visita sem cerimônia e o trabalho repartido entre família, vizinhos e compadres. A cultura caipira não vive solta no ar; ela precisa de chão, de rotina e de repetição. É no bairro rural que os saberes passam de uma geração para outra: o jeito de plantar, de criar, de cozinhar, de falar, de celebrar e de cuidar da terra. Candido, autor do excerto acima, mostrou que a vida caipira se estrutura em unidades mínimas de sociabilidade e cooperação, ligadas ao modo de viver e ao meio em que se assentam. Em Cunha, conforme estudo realizado na década de 1980 pela antropóloga Rosane M. Prado, os bairros rurais ocasionam diferenciações de valor que marcam as atividades humanas, bens, relações e símbolos no contexto local, levando em conta fatores como “maior ou menor distância da cidade, o que está associado à ideia de isolamento e dificuldade de acesso, e pelo aspecto de certas associações a propósito da ‘fama’ de determinados bairros. Assim, por exemplo, o Monjolo é associado a ‘gente brava’, ‘de briga’; a Capivara é lugar ‘mais caipira’, no sentido de ‘mais atrasado’; o Jericó é ‘dos metodistas’, lugar de gente ‘mais munheca’, ‘pão dura’. Também alguns bairros rurais são associados às próprias famílias que lhes dão nome, como o Sertão dos Marianos”. Ou seja, ser de determinado bairro já lhe garante certa identidade, característica inata e herdada da coletividade local, que precede a individualidade.
Por isso, o bairro rural é mais do que uma referência espacial. Ele é um território vivido. É ali que a paisagem ganha rosto humano e a cultura ganha matéria concreta. Uma estrada pode parecer apenas uma via de circulação, mas, no bairro rural, ela também é caminho de procissão, trajeto de escola, rota do leite, caminho antigo de tropeiro, passagem de cavaleiro e linha de contato entre casas dispersas. O lugar não existe só por sua forma, mas pelo uso e pelo sentido que as pessoas lhe dão. Em Cunha, onde a paisagem montanhosa fragmenta as ocupações e aproxima os moradores por núcleos de vizinhança, os bairros rurais seguem sendo uma base da identidade local.
Êxodo rural, esvaziamento e mudanças da paisagem
Aspecto do bairro do Jericó, região sudoeste do município de Cunha. Foto: Iverson Leite.
Mas essa paisagem vem mudando. O êxodo rural, que marcou boa parte do interior paulista ao longo do século XX e segue produzindo efeitos no século XXI, retirou moradores do campo, envelheceu comunidades e enfraqueceu laços tradicionais. No Brasil, o Censo 2022 registrou 25,6 milhões de pessoas em áreas rurais, contra 177,5 milhões em áreas urbanas, confirmando a continuidade histórica da urbanização. Em Cunha, mesmo com taxa de natalidade elevada, a população ficou estagnada durante todo o século XX. No estado de São Paulo, onde a presença rural é proporcionalmente muito pequena, esse processo foi ainda mais forte. Vivemos com toda intensidade a ideologia do progresso a todo custo, do “São Paulo não pode parar”, que esvaziou roças e memórias.
Nos bairros rurais, o resultado disso aparece no que os olhos logo percebem: casas vazias, antigas áreas de cultivo em descanso, festas menores, escolas fechadas, menos jovens permanecendo na roça. Está tudo virando tapera. A paisagem muda quando a população muda. E a cultura também sente o golpe. Quando uma comunidade perde moradores, ela não perde apenas número; perde memória compartilhada, perde prática social, perde voz coletiva. Municípios do interior paulista, antes marcados por forte presença caipira, passam a ter uma vida rural mais rarefeita, às vezes mantida por poucos idosos ou por propriedades voltadas a usos novos, menos ligados ao cotidiano tradicional do campo. O processo de terceirização do campo avança.
Essa mudança também altera a demografia local. Com menos jovens no meio rural e maior concentração de serviços e empregos nas sedes urbanas, o campo deixa de ser visto como lugar de futuro por muitas famílias. O problema é que, quando isso acontece, não desaparece só uma forma de morar. Some também uma maneira de organizar o território, de cultivar a terra e de reconhecer o município como herdeiro de uma cultura própria.
Cunha e a força da agricultura familiar
Aspecto do bairro da Pedra Branca, região leste do município de Cunha. Foto: Pedro Ribeiro. Data: 2002.
Em Cunha, o campo ainda é parte central da vida municipal. Isso se traduz na força da agricultura familiar cunhense no contexto estadual, com o município liderando ou ficando entre os primeiros em vários setores de produção agrícola. Mesmo com o esvaziamento do campo, muitos pequenos agricultores e pecuaristas permanecem na lida rural produzindo alimentos. E são essas pequenas propriedades familiares que fazem de Cunha a maior produtora paulista de leite e uma das maiores produtoras de hortaliças, milho, feijão e porcos da região. A base produtiva rural local está estruturada na pequena e média unidade tocada por famílias. E essa é uma das razões do seu sucesso.
Os levantamentos realizados pelo Censo Agro 2017 e do LUPA 2016/17 apontam justamente nessa direção: o município aparece como uma área fortemente marcada pela agricultura familiar e pela diversidade produtiva, a ponto de ser descrito como uma “potência da agricultura familiar”. Foram identificadas 3.452 unidades de produção agropecuária, com mais de 102 mil hectares de área ocupada com alguma cultura, pastagem ou reflorestamento. A maioria das propriedades está compreendida na faixa entre 5 e 50 hectares, ou seja, a estrutura fundiária é composta por minifúndios. O município se destaca na produção de milho, feijão, mel, cana, pinhão, café e frutas e hortaliças diversas; e na criação de bovinos para leite e corte, frango caipira, trutas, cavalos e mulas e porcos. Geograficamente, isso significa que o território de Cunha continua sendo sustentado por uma trama de pequenas propriedades, produção diversificada e forte vínculo entre moradia e trabalho, arranjo bem diferente daquele das áreas onde a modernização agrícola concentrou terra, mecanizou tudo e expulsou moradores.
Bairros rurais identificados
Aspecto do bairro da Aparição, região sudeste de Cunha.
Diante desse contexto geográfico disperso, ruralizado e fundamentado no trabalho familiar, o IBGE identificou 270 bairros rurais no município de Cunha, durante a realização do Censo Demográfico de 2022. Eis a lista:
– Abóboras
– Água Fria
– Água Fria (Bangu)
– Água Limpa
– Águas de Santa Rosa
– Alto da Bocaininha
– Alto do Sapé
– Amorim
– Angico
– Antônio José
– Aparição
– Araçaeiro
– Araruna
– Assunção
– Atibaia
– Balaieiro
– Bananal
– Bangu
– Barra do Chico do Lau
– Barra do J. Alves
– Barrinha
– Barreira (Campos Novos)
– Barreiro (Abóboras)
– Barreiro (Bangu)
– Barro Vermelho
– Bichinho
– Boa Esperança
– Boa Vista (Campos Novos)
– Boa Vista (Igreja de São José)
– Boa Vista (Jaguarão)
– Boa Vista (Pedra Branca)
– Bocaina de São Roque
– Bocaininha da Boa Esperança
– Bom Retiro
– Borda do Campo
– Brejaúva
– Brejinho (Guabirobas)
– Brejinho (Monjolo)
– Bugio
– Buracão
– Cachoeira (Cedro)
– Cachoeira dos Rodrigues
– Cachoeirinha (dos Gatos)
– Cachoeirinha (Monjolo)
– Cachoeirão (Barra J. Alves)
– Caçador Novo
– Campo
– Campo Alegre (Aparição)
– Campo Alegre (Bocaina)
– Campo Belo
– Campo da Bocaina
– Campinho (Bocaina)
– Campista
– Camundá
– Cana do Reino
– Canjara
– Caneleira
– Cantagalo
– Capetinga dos Fagundes
– Capetinga dos Motas
– Capinzal
– Capivara
– Capoeira do Fundo
– Capoeirinha
– Carneiros
– Carrapatal
– Carrasquinho
– Castelo
– Catioca
– Catioquinha
– Cedro
– Charquinho
– Cocho
– Comprida
– Condomínio Santana (Paraitinga)
– Conselho
– Córrego da Onça
– Córrego Fundo (Barra J. Alves)
– Córrego Fundo (Jaguarão)
– Córrego Seco
– Cume
– Curral
– Curralinho
– Desterro
– Divino Mestre
– Encruzilhada
– Engenho
– Entrecosto
– Escurinho
– Estiva
– Fazenda Ibipeba
– Fazenda Santana
– Fazenda São Tomé
– Fazendinha
– Felicidade
– Ferraz
– Figueira (Paraitinga)
– Figueira (Taboão)
– Figueira (Várzea do Tanque)
– Galvão
– Gândara
– Gaviroveira
– Gorozol
– Gramas
– Grota do Buraco
– Grotão
– Guanabara
– Guabirobas
– Guandu
– Guaranjanga
– Guaricanga (Barra J. Alves)
– Guaricanga (Juveva)
– Ingá
– Itacuruçá
– Itaquatuba
– Jacinto
– Jacuí
– Jacuí-Mirim
– Jacuizinho
– Jaguarão
– Jardim
– Jericó
– Juveva
– Lageado
– Lagoa (Barra J. Alves)
– Lagoa (Capivara)
– Lagoa (Pedra Branca)
– Laje
– Lajinha
– Limão
– Limoeiro
– Macuco
– Mandinga
– Maninha
– Mantiquira
– Marmeleiro (Campos Novos)
– Marmeleiro (Engenho)
– Martim
– Mato Dentro (Campos Novos)
– Mato Dentro (Catioca)
– Mato Dentro (Cedro)
– Mato Escuro
– Mato Limpo
– Milho Branco
– Milho Vermelho
– Mineiro
– Mogango
– Monjolinho (Campos Novos)
– Monjolo
– Mundéu
– Onça
– Oriente
– Paineira (Vargem do Tanque)
– Paineira de Cima
– Paineiras (Jaguarão)
– Paiol
– Paiol Queimado
– Paiol Velho (Campos Novos)
– Paiol Velho (Catioca)
– Paiol Velho (Cedro)
– Paiol Velho (Vargem do Tanque)
– Paiolzinho (Capivara)
– Paiolzinho (Córrego da Onça)
– Paiolzinho (Serra do Indaiá)
– Paiolzinho (Taboão)
– Palha Grande
– Palmeiras
– Palmital (Barra J. Alves)
– Palmital (Parque Estadual)
– Paraibuna
– Paraitinga (Campos Novos)
– Paraitinga de Baixo
– Paraitinga dos Cubas
– Paraitinga dos Gonçalves
– Paraitinga dos Motas
– Paraitinga dos Verreschi
– Parque Estadual (da Serra do Mar)
– Parreiral
– Pasto do Gado
– Pedra Branca
– Pedra Preta
– Pedras (Bocaina)
– Pedreira
– Peros
– Pessegueiro
– Pico Agudo
– Pinhal (Barro Vermelho)
– Pinhal (Campos Novos)
– Pinhalzinho
– Pinheiral
– Pinheirinho (Bangu)
– Pinheirinho (Barra J. Alves)
– Pinheiro
– Piri
– Poço Fundo
– Pontinha
– Ponte
– Ponte Alta
– Ponte Furada
– Ponte Nova
– Praia
– Quilombinho
– Quilombo
– Retiro (Cedro)
– Retiro (Sapé)
– Retiro das Palmeiras
– Ribeirão
– Rio Abaixo (Paraibuna)
– Rio Abaixo (Ribeirão)
– Rio Abaixo (Várzea do Tanque)
– Rio Acima
– Rio das Pedras (Capinzal)
– Rio do Peixe
– Rio Manso
– Roça Grande
– Rocinha
– Rodeio (Paraibuna)
– Roseira
– Samambaia
– Santa Cruz
– Santa Rita
– Sapé
– Sapezal
– São Roque
– Serra do Indaiá
– Serraria (Capivara)
– Sertão da Santa Bárbara
– Sertão do Itambé
– Sertão do Pinhal (Pinhá)
– Sertão dos Marianos
– Sertãozinho (Jaguarão)
– Sertãozinho (Jericó)
– Sertãozinho (Várzea do Tanque)
– Sete Voltas
– Sítio
– Sítio de Cima
– Sítio Velho (Jardim)
– Sítio Velho (Várzea do Tanque)
– Soledade
– Sororoca
– Taboão
– Tamancas
– Tanque
– Tanquinho
– Tapera (Capinzal)
– Tapera (Serra do Indaiá)
– Taperinha (Campos Novos)
– Taperinha (Catioca)
– Taquaral
– Tijuco Preto (Barra do J. Alves)
– Tijuco Preto (Campos Novos)
– Três Pontes
– Três Pontes (Várzea do Gonzaga)
– Usina (Cedro)
– Vargem da Cachoeira
– Vargem do Germano
– Vargem do Joaquim Rosa
– Vargem do Tanque
– Vargem dos Pinheiros
– Vargem Grande
– Varginha (Macuco)
– Varginha (Vargem do Tanque)
– Varginha (Vargem Grande)
– Várzea da Santa Cruz
– Várzea do Cedro
– Várzea do Gonzaga
– Vassouras
– Verde
– Vidro
– Vista Alegre
– Zaranha
Para diferenciar os topônimos iterados, que foram vários, acrescentou-se, entre parênteses e à frente, o nome de um bairro próximo espacialmente, facilitando, assim, a distinção. Por exemplo, há 3 bairros denominados “Varginha” em nosso município; daí, para distingui-los, colocou-se “Varginha (Macuco)”, isto é, trata-se do bairro da Varginha próximo ao bairro do Macuco.
Limitações do Censo 2022 para identificar bairros rurais
Aspecto do bairro da Bocaina de São Roque, região nordeste do município de Cunha. Foto: Adilson Nunes.
Talvez algum bairro que você conheça não apareceu na lista supra. Isso não quer dizer que ele não exista. Por isso, é importante olhar com cautela para os dados do Censo Demográfico 2022 quando o assunto é nomear e delimitar bairros rurais. O IBGE deixa claro que o setor censitário é a principal unidade territorial de coleta e divulgação de dados do Censo. Também informa que a malha de bairros do Censo 2022 foi construída por meio do ajuste de setores censitários, sempre que isso foi viável, e que, em várias situações, os limites dos bairros precisaram ser aproximados graficamente por razões operacionais. Em alguns casos, sequer foram considerados os bairros, como aconteceu com os setores censitários de Cunha, porque nosso município ainda não tem uma lei delimitando seus bairros e não há um mapa municipal oficial com os seus bairros rurais. Resumindo: o levantamento do IBGE é um retrato útil, mas não se trata de uma cartografia fina da toponímia rural.
Isso ajuda a entender por que surgem problemas como nomes de estradas sendo tomados como se fossem bairros, ausências de bairros efetivamente conhecidos pelos moradores e denominações pouco precisas com os dados do Censo 2022. Quando a base de referência é setorial e operacional, e não um levantamento específico da memória territorial local, essas distorções aparecem com facilidade. O próprio IBGE ressalta que a representação dos bairros adotou generalizações para evitar fragmentação excessiva da malha e problemas de coleta.
Por isso, os bairros rurais identificados pelo Censo 2022 devem ser lidos como aproximações da realidade territorial, e não como lista definitiva. É um ponto de partida, mas precisa ser confrontado com conhecimento local, cartografia de campo, memória dos moradores e leitura crítica do território. Um levantamento completo, dada a extensão do município, é um processo custoso e trabalhoso e exigiria uma pesquisa com essa única finalidade.
Nesse sentido, com o intuito de dirimir os equívocos e evitar confusões com a localização e toponímia dos bairros, foi utilizada a metodologia DBSCAN, que consiste em analisar coordenadas geográficas agrupando automaticamente os pontos que estão próximos entre si com base em um raio definido (por exemplo, 2 km) e um número mínimo de vizinhos (minPts), utilizando distância real na superfície da Terra (Haversine); o processo começa identificando, para cada ponto, quais outros estão dentro desse raio, classificando-os como pontos centrais (com muitos vizinhos), pontos de borda (ligados a centrais) ou outliers (isolados), e então formando clusters ao conectar todos os pontos acessíveis entre si (inclusive aqueles ligados indiretamente por uma “cadeia” de proximidade) até que se obtenham grupos naturais de alta densidade, sem impor forma ou quantidade prévia, permitindo identificar regiões reais de concentração espacial e separar automaticamente áreas isoladas, o que torna o método mais adequado para análise territorial.
No mais, o autor valeu-se do seu conhecimento empírico, que é limitado, para realizar correções e adequações que se fizeram necessárias, em virtude de equívocos cometidos pelos recenseadores durante a coleta e transcritos para o CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos), que é a base de dados do IBGE com todos os endereços do país. O CNEFE mapeia e georreferencia residências, estabelecimentos e obras em todo o território nacional. O arquivo digital do CNEFE do Censo 2022 do município de Cunha foi a base para realizar este levantamento toponímico.
E o futuro?
Aspecto do bairro do Sertão do Rio Manso, região sudeste do município de Cunha. Foto: Trip Rural. Data: 2020.
Cunha ainda guarda uma riqueza rara no interior paulista: muitos bairros rurais, uma população do campo numerosa e uma paisagem em que a cultura caipira ainda respira. Mas isso não significa estabilidade. Muitos desses bairros vêm perdendo moradores, envelhecendo e correndo o risco de desaparecer como comunidades vivas. E, quando um bairro rural se apaga, não se perde apenas uma referência geográfica; perde-se uma maneira de morar, trabalhar, festejar e lembrar.
Esse processo ameaça a continuidade da cultura caipira e atinge o coração da identidade municipal. A chegada de novos moradores vindos de fora pode trazer dinamismo e novas experiências, mas também pode enfraquecer vínculos antigos quando não há relação com os costumes, a memória e as práticas do lugar. O risco está em transformar o campo apenas em paisagem de contemplação e consumo, esvaziando-o de sua vida social mais funda.
Diante disso, pode-se perguntar: o campo ainda é viável? É um questionamento que não tem uma única resposta. Há os novos rurais, o êxodo urbano e uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis. Todos esses fatores apontam que há, sim, uma saída para roça. Mas é preciso fortalecer o camponês. Valorizar os bairros é defender uma forma de futuro em que o campo continue sendo produtor de alimentos, de cultura e de pertencimento. Em uma época em que tantas paisagens do interior se tornam homogêneas, Cunha ainda pode afirmar sua diferença: a de um município paulista que segue sendo, em muitos sentidos, genuinamente caipira. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças.
“O futuro a Deus pertence”, responderia um bom cunhense. Assim seja.
Referências: Antonio Candido. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 1964. Ester, M.; Kriegel, H.-P.; Sander, J.; Xu, X. A Density-Based Algorithm for Discovering Clusters in Large Spatial Databases with Noise. Proceedings of the 2nd International Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD). 1996. IBGE. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários – Resultados do universo. 2025. ______. Censo Demográfico 2022: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. 2022. SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO. COORDENADORIA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL. INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Levantamento censitário das unidades de produção agropecuária do Estado de São Paulo – Projeto LUPA 2016/17. 2019.