Cunha, seu solo e sua agricultura familiar

Cunha é uma potência da agricultura familiar do estado de São Paulo, segundo os dados do Censo Agro 2017 e da LUPA 2016-2017, da CATI. Ao lado de Mirante do Paranapanema, município do extremo oeste paulista, Cunha lidera em quase todos os quesitos relacionados à agricultura familiar. Com o maior número de propriedades agropecuárias, Cunha possui a 3ª maior plantação de milho forrageiro (27,3 t), a 9ª maior plantação de cana-de-açúcar forrageira (15,3t), a 4ª maior produção de azeitonas (3t), o 3º maior rebanho de muares (246 cabeças), o 3º maior número de perus (130 cabeças) e o 15º maior número de produtores e trabalhadores agrícolas do estado. Mais de 80% das propriedades rurais de Cunha possuem horta, pomar, galináceos ou suínos, o que caracteriza a nossa produção como familiar e diversificada, embora em pequena escala. Além disso, possui o maior número de propriedades coletoras de pinhão: 91 estabelecimentos praticam esse tipo de extrativismo vegetal.

O Projeto LUPA (Levantamento Censitário de Unidades de Produção Agropecuária) é um projeto da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, que mapeia detalhadamente as áreas rurais do estado. Seu principal objetivo é gerar dados e estatísticas sobre a produção agropecuária paulista para fins de planejamento e pesquisa. O Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017 foi a principal e mais completa investigação estatística e territorial sobre a produção agropecuária do país. Foi a 11ª edição do Censo Agropecuário, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que levantou informações detalhadas sobre todos os estabelecimentos agropecuários, florestais e aquícolas do Brasil. O objetivo foi investigar a estrutura, a produção e a economia do setor. Desse modo, coletou dados sobre a área, os trabalhadores, o tipo de produção e o uso de insumos, como agrotóxicos. São essas pesquisas que apontam Cunha como potência da agricultura familiar paulista.

Cartaz demonstrando algumas das potencialidades agrícolas do município de Cunha. Fonte: IBGE e CATI. Edição, pesquisa e arte: Jacuhy.

Cunha é o maior produtor de leite do estado de São Paulo, conforme mostra a tabela abaixo. Diferente do que é anualmente divulgado nos levantamentos da “Produção da Pecuária Municipal”, que faz um levantamento baseado somente na produção registrada no Ministério da Agricultura, que é divulgada pelos laticínios, o Censo Agropecuário faz o levantamento realizando pesquisa de campo, percorrendo todas as propriedades agrícolas. Como se sabe, boa parte da produção leiteira municipal é artesanal e vem de retireiros familiares, produção essa que não aparece nas estatísticas oficiais. Com a divulgação dos dados colhidos no “Censo Agropecuário 2017”, cuja coleta aconteceu em todas as propriedades agrícolas de Cunha, obtivemos uma outra quantidade da produção leiteira, muito maior do que aquela que é registrada e divulgada anualmente pelo IBGE. O Censo Agropecuário vai além da produção registrada, considera todos os produtores, não importa o tipo ou o tamanho da sua produção e propriedade. Por isso, os dados do “Censo Agropecuário de 2017” são mais fidedignos e expressam melhor a nossa realidade e produção. 

Mas tanta riqueza e fartura depende de um recurso natural imprescindível, mas pouco comentado e, às vezes, até esquecido: o solo. É um dos recursos naturais mais valiosos do planeta, essencial para a vida na Terra. Ele desempenha um papel crucial na agricultura, servindo como base para o crescimento das plantas, que são a fonte primária de alimento para humanos e animais. A formação do solo é um processo demorado, influenciado por diversos fatores como clima, topografia e atividade biológica. Estima-se que para formar apenas 1 centímetro de solo, são necessários entre 400 e 1000 anos, dependendo das condições ambientais e do tipo de solo. Esse tempo permite a decomposição de rochas e a acumulação de material orgânico, essenciais para a fertilidade e estrutura do solo. Portanto, a conservação do solo existente é crucial, dada a lentidão de sua renovação natural. A preservação da qualidade e da saúde dos solos é vital para a sustentabilidade ambiental e para a segurança alimentar global, pois a perda de solo é um problema ambiental atual, com estimativas indicando que cerca de 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas anualmente em todo o mundo. No Brasil (e em Cunha também), a erosão é um dos principais problemas, resultando na perda de aproximadamente 500 milhões de toneladas de solo a cada ano. O manejo inadequado, a formação de pastagens extensivas, a retirada de vegetação associada à declividade dos Mares de Morros, ocasionam processos erosivos que levam à perda e degradação do solo em nosso município. Por tudo isso, celebra-se em 5 de dezembro o Dia Mundial do Solo. O objetivo da data é sensibilizar as pessoas a respeito da importância de se preservar esse recurso natural que é a base e sustento da vida.

Principais tipos de solos que ocorrem Cunha. Fonte: IAC | Embrapa. Edição e arte: Jacuhy.

Esperamos que um dia os produtores rurais e os gestores públicos de Cunha possam fazer algum projeto no sentido de preservar o solo cunhense, essa riqueza que, ao longo de 300 anos de história e ocupação deste planalto, tem nos sustentando, mesmo sendo  tão maltratado e degradado pela ação humana. Arado e revolvido, gradeado e cavoucado, destocado na enxada, pisoteado e tantas vezes levado pela enxurrada, o solo é um recurso natural local esquecido quando aqui se implantam projetos de conservação ambiental.

Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Fonte: IAC | Embrapa. Data: 1999.

Referências:
OLIVEIRA et al. Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Campinas: IAC/Embrapa, 1999. Mapa, escala 1:500.000.
SANTOS, Humberto Gonçalves dos [et al.] Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 5. ed., rev. e ampl. – Brasília, DF : Embrapa, 2018. 

Cunha, carvão e milho

Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:

“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.

Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.

Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.

O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.

As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.

A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.

A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.

Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.

Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.

De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.

A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.

Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.

No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.

Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”

Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.

O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.

Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.

O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.

Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.

Acesso à internet em Cunha

Em 2022, 71,46% dos domicílios em Cunha tinham acesso à internet. Esse número está bem abaixo dos índices estaduais e nacionais, mas é semelhante aos demais municípios da região do Alto Paraíba do Sul, que possuem população dispersa e ruralizada. Por exemplo, Lagoinha tinha 69,8% dos seus domicílios conectados; São Luiz do Paraitinga, 76,5%; e Silveiras, 72,6%. Com 41% da população residindo no campo, conectar todos os lares é um desafio para nosso município. Além disso, Cunha é um dos municípios mais pobres de São Paulo, o que agrava a situação.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que 89,4% da população brasileira tem acesso à internet em casa. O Censo 2022 também revelou dados sobre os domicílios com internet. O maior percentual está em Passo de Torres (SC), onde 96,9% dos domicílios estão conectados. Já Uiramutã (RR) tem o menor percentual, com apenas 25,52%.

Em todo o Brasil, 86,3% dos domicílios tinham conexão à internet em 2022. Nenhum município registrou 100% da população residindo em domicílios com acesso à internet.

Esta foi a primeira vez que o IBGE inclui um quesito sobre acesso à internet nos domicílios no Censo, portanto, não é possível comparar com dados de edições anteriores.

Tabela mostrando a posição de Cunha no ranking nacional de qualidade da internet. Fonte: Estadão.

Com relação à qualidade da internet, Cunha precisa avançar muito mais. Ocupava, ano passado, apenas 3.480ª posição no ranking nacional, com 57,16 pontos no quesito acesso à informação e comunicação, conforme levantamento do IPS Brasil. Esse indicador, que analisa vários componentes de desenvolvimento social nos 5.570 municípios do País, mediu como está a cobertura de internet móvel (4G/5G), segundo a densidade de banda larga fixa, de telefonia móvel e a qualidade da rede móvel. O indicador de qualidade expressa a capacidade da rede de entregar os pacotes de dados ao destino sem ocorrência de perdas. A escala varia de 0 a 100. Dos 5.570 municípios brasileiros, só 84 tiveram nota igual ou maior que 80. A média do Brasil ficou em 69,77 pontos. Cunha ficou, portanto, abaixo da média nacional, mesmo estando na região mais desenvolvida do país e ostentando o título de “estância turística”.

Já no mapa de qualidade da internet, iniciativa da NIC.br, que a partir de dados de medições coletados pelos medidores da família SIMET busca ilustrar o estado do acesso à nas localidades nacionais, Cunha estava com uma velocidade de download de apenas 20,56 (mbit/s) e Campos de Cunha 6,23 (mbit/s), taxa de velocidade considerada baixa perante os demais municípios da região do Vale do Paraíba paulista.

Mapa mostrando a situação da velocidade da internet em Cunha e no distrito de Campos de Cunha, na escala regional. Fonte: NIC.br.

A qualidade da internet em uma cidade turística é um fator essencial para garantir uma experiência positiva aos visitantes e impulsionar o desenvolvimento local. Turistas dependem de conexão estável e rápida para acessar mapas, fazer reservas, compartilhar momentos nas redes sociais e buscar informações sobre atrações, restaurantes e eventos. Além disso, uma boa infraestrutura digital favorece o trabalho remoto, atraindo os chamados nômades digitais e ampliando o tempo de permanência dos visitantes. Para os empreendedores locais, a internet de qualidade é vital para promover seus serviços, realizar vendas online e se conectar com novos mercados. Assim, conectividade não é apenas uma questão de comodidade, mas uma estratégia inteligente para fortalecer o turismo e dinamizar a economia cunhense.

Foto de capa: SP-171, Cunha (SP). Autor: Flavio Luiz Koch. Fonte: Pexels.

Cunha: pinhão, pinheiro e paisagem

O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.

Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.

Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.

Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII.  Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!

Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.

O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.

Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.

Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.

Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.

A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.

Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.

Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.

A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.

As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.

Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.

Referências:
AB’SÁBER, A. N. A teoria dos refúgios: origem e significado. Anais do II Congresso Nacional sobre Essências naturais; Revista do Instituto Florestal (1), 1992.
G1. Grimpeiro é a ave guardiã das araucárias, 11 mai. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/05/11/grimpeiro-e-a-ave-guardia-das-araucarias.ghtml&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
INSTITUTO FLORESTAL DE SÃO PAULO (IF). Reflorestamento com araucária: conservação da natureza e geração de trabalho e renda, 4 jun. 2021. Disponível em: <https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/institutoflorestal/2021/06/reflorestamento-com-araucaria-conservacao-da-natureza-e-geracao-de-trabalho-e-renda/&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
MARTINELLI, M. Estado de São Paulo: aspectos da natureza. Confins [on-line], n. 9, 2010. Acesso em : 13 set. 2025. Disponível em : http://journals.openedition.org/confins/6557 .
STARZYNSKI, R.; NALON, M. A.; FRIZO, C. G. A.; SOUZA, P. M. de. Estratégias para a preservação da Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze em Cunha-SP, Brasil: aspectos ambientais, socioeconômicos e jurídicos. Revista do Instituto Florestal, v. 32 n. 2, p.187-201, dez. 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/iflorestal/sites/234/2020/12/rif32-2_187-201.pdf >, acesso em 13 set. 2025.
VELOSO, J. J. de O. A história de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Capa: arte do Jacuhy.

Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Formação territorial e demográfica de Cunha

Qual a origem do nome do município de Cunha?

“Cunha” é uma homenagem ao ex-governador da Capitania de São Paulo, o capitão Francisco da Cunha e Meneses (1747-1812). O capitão Francisco da Cunha foi um militar português e governou a capitania de São Paulo entre 1782 e 1785, como capitão-general. No final do seu mandato, em 15 de setembro de 1.785, elevou a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão à condição de vila, o que equivale, hoje, a um município, um território independente. Até então, nosso município pertencia à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Assim, para homenageá-lo, os moradores locais mudaram o nome daqui de “Facão” para “Cunha”, e a partir da instalação da Câmara, órgão administrativo das vilas daquela época, em 28 de outubro de 1.785, nosso município passou a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha.

Em 20 de abril de 1.858, a vila foi elevada à categoria de cidade, e passou a se chamar “Cidade de Cunha”, já sem a referência à santa padroeira. E assim permanece até hoje.

E o nome Facão?

A origem é controversa e tem sido motivo de debate entre os historiadores. “Facão” ou “Facam” (dependendo do documento) é o mais antigo nome de Cunha. Há registros – anteriores ao ano de 1.700 – que mencionavam a existência de uma antiga capelinha dedicada à Nossa Senhora do Facão, nas cercanias da atual cidade, no chamado “Alto do José Dias” ou “Alto da Mantiquira”, na elevação que dá acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Mas por que chamavam nossa cidade desse nome? Um documento de 1.732, em que Francisco Tavares Brito relata sua viagem do Rio de Janeiro até Minas, passando por Cunha, deixa uma pista:

“A esta vila também vem dar o caminho de Parati, que chamam o Caminho Velho, e quem sai de Parati, vem ao Bananal, sobe a inacessível serra e descansa na Aparição; passa-se o rio Paraitinga (que toma aqui o nome das serranias por onde passa e logo depois se. chama Paraíba do Sul); e se pernoita no sítio que também toma o nome do rio; Afonso Martins; passa-se aqui o Facão, que é um *carreirinho / / que vai pelo alto de um cume, no qual apenas passa um cavalo ou passa um homem a pé, e se acaso declina para alguma das partes se precipita. Vai-se à Encruzilhada e se entra depois na vila de Guaratinguetá […]”

Aspecto do documento de 1732, contendo o relato de Francisco Tavares Brito. Códice Costa Matoso. Fonte: Fundação João Pinheiro.

Ou seja, o “Facão” seria uma passagem muito estreita e perigosa, no alto de um morro, com despenhadeiros em ambos os lados. Essa passagem, por ser temida, era sempre lembrada pelos viajantes, aventureiros e tropeiros; e acabou batizando toda a região. Ficava no antigo caminho entre Paraty e Cunha, em local incerto, no que veio a se chamar “Estrada Real”, cujo destino eram as cobiçadas jazidas de Minas Gerais.

Mas isso não é consenso entre os historiadores. Há outras cogitações.

Como foi formado o território cunhense?

Tempos coloniais. Os Guaianases, uma das inúmeras nações indígenas do Brasil, eram nômades, não possuindo uma aldeia fixa. Viviam e passavam pelo que veio a ser o município de Cunha. Percorriam todos esses sertões, por meio da densa Mata Atlântica, em busca de caça e frutos.

Em 1534, a fim de facilitar a colonização do Brasil, a Coroa Portuguesa estabeleceu o sistema de capitanias hereditárias. O que hoje é Cunha ficou pertencendo à Capitania de São Vicente, cujo donatário era Martim Afonso de Sousa.

Em 1624, a Capitania de São Vicente foi dividida e o que viria a ser Cunha passou a pertencer à Capitania de Itanhaém, que pertencia a Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, dona de todas as terras do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ela promoveu incursões exploratórias no Vale do Paraíba, a fim de conhecer melhor a região, que, na época, ainda era um sertão inóspito e povoado apenas por indígenas. Buscavam essas expedições encontrar metais preciosos ou capturar indígenas para vendê-los com escravos.

Em 24 de setembro de 1.650, o capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Guaratinguetá, recebe uma sesmaria (grande extensão de terra que era doada pela Coroa) no bairro da Borda do Campo, que fica na beira da Rodovia Paulo Virgínio, perto do Jacuí. Essa é a primeira sesmaria que foi doada no que veio a ser o território cunhense. O capitão irá abrir uma estrada ligando o Facão (Cunha) a Guaratinguetá, aproveitando uma trilha indígena já existente.

Em 1.724, Luiz da Silva Porto e sua família erguem uma capela no bairro da Boa Vista, dedicada a Jesus, Maria e José. Esse é marco fundador do município de Cunha.

Em 1.731, José Gomes de Gouveia constrói uma igreja no bairro do Facão, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (e, futuramente, de Cunha também). No entorno dessa igreja irá se desenvolver um pequeno povoado. É o embrião da cidade de Cunha.

Em 1.749, com o aumento do movimento de tropas e o crescimento do povoado, a capela do Facão passa a ter um padre regular, se tornando uma freguesia. Surge, então, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, com paróquia e território pertencendo a Guaratinguetá.

Mapa da Divisão dos Municípios de São Paulo por volta de 1700. Cunha pertencia ao território de Guaratinguetá. Fonte: Fundação SEADE.

Em 15 de setembro de 1.785, o capitão-general da Capitania de S. Paulo Francisco da Cunha e Meneses eleva Cunha à condição de vila, tornando-a independente de Guaratinguetá. Cunha passa a ter território próprio (chamado de “termo”, na época) e a ser administrada localmente, com a criação da Câmara (não havia Prefeitura na época). Também vai mudar de nome, deixa de se chamar “Facão” e passa a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, para homenagear o capitão-general que lhe concedeu autonomia.

Em 18 de junho de 1.842, a Vila de N.ª S.ª da Conceição de Cunha é transferida para a província do Rio de Janeiro. Estava ocorrendo na província de São Paulo a Revolta Liberal e a transferência tinha o intuito de manter Cunha livre dos do domínio dos revoltosos. Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses, até que voltou novamente para a Província de S. Paulo.

Em 20 de abril de 1.858, Cunha é elevada à categoria de cidade.

Em 8 de março de 1.872 é criado o Distrito de Paz de Campos Novos, que passa a se chamar Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos.

Durante todo o século XIX, os limites de Cunha com os outros municípios vão sendo demarcados, fruto da disputa da Câmara de Cunha com as câmaras dos municípios vizinhos. Será assim com Paraty, que reclama como território seu até um marco que havia no bairro da Boa Vista; e com Guaratinguetá, que queria estabelecer o limite com Cunha pelo rio Paraitinga, aumentando, assim, seu território. A Câmara de Cunha sairá vitoriosa desses litígios. Além disso, fazendeiros estabelecidos nos limites com Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, se valendo do poder político que possuíam e visando atender aos seus interesses eleitorais, mudavam suas fazendas para os municípios vizinhos, alterando assim o tamanho do nosso território.

Em 1.934, Lagoinha é transferida para Cunha como distrito. Ficará pertencendo a Cunha até 1.944, quando será transferida para o município de São Luís do Paraitinga. Nesse mesmo ano, o distrito de Campos Novos terá seu nome alterado para “Campos de Cunha”, por força de um decreto estadual. Apesar da mudança do nome, o antigo topônimo é até hoje o mais popular.

Em 1964, os limites de Cunha com outros municípios são descritos e estabelecidos na Lei Estadual nº 8.092, de 28/02/1964, permanecendo inalterados desde então.

Atualmente, Cunha possui uma área de 1.407,25 Km², sendo o 11º maior município do estado de São Paulo e o maior da região do Vale do Paraíba. Faz divisa com os seguintes municípios: Paraty e Angra dos Reis, do estado do Rio de Janeiro, e Ubatuba, São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias e São José do Barreiro, do estado de São Paulo. Em seu território há 2 unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Quais povos estão presentes na formação territorial do município de Cunha?

Os povos originários, que habitavam Cunha antes da chegada dos portugueses, eram os “Guaianás” ou “Guaianases”. Segundo relato de viajantes, colonizadores e aventureiros, os Guaianases não falavam tupi e eram tronco linguístico Macro-Jê. Eram indígenas coletores (de pinhão e frutos) e caçadores, e, por consequência, nômades (migravam para o litoral dependendo da estação do ano). Viviam na Serra do Mar e faziam parte de um complexo cultural, cujos remanescentes seriam o Puri e Coroado, do Vale do Paraíba e sudeste de Minas. Até hoje é possível encontrar em Cunha cacos da cerâmica produzida por esse povo e machados líticos que confeccionaram. Algumas peças estão guardadas no Museu Municipal. Apesar de Cunha não ter aldeia, antropólogos que estudaram nosso município no século passado, apontaram que parte de nossa população é descendente de indígenas, pois apresenta traços biotípicos e feições dos povos originários do Brasil.

A primeira incursão colonizadora europeia em nosso território ocorreu em outubro de 1.596, quando Martim Corrêa de Sá, o inglês Anthony Knivet (autor do relato sobre a entrada), setecentos portugueses e cerca de 2 mil indígenas Guaianases percorreram onde, hoje, é o município de Cunha. Essa data marca a chegada dos portugueses (brancos) a Cunha. A partir do século XVII, muitas famílias paulistas oriundas de Taubaté e aventureiros portugueses vão se estabelecer em Cunha, ganhando sesmarias no bairro da Catioca e no seu entorno. Essas famílias pioneiras, católicas, além da religião, trouxeram para Cunha manifestações culturais típicas dos portugueses e dos paulistas, como Festa e Folia do Divino.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 10 milhões de negros africanos foram trazidos às Américas para trabalhar de forma forçada como escravos. Milhares deles foram trazidos para Cunha, para trabalhar nas fazendas de milho e criação de porcos que havia aqui. Quase metade do contingente de africanos trazido para o Brasil era formada pelos Banto, que eram povos e culturas da região da África Central, onde atualmente se encontram países como Angola, Moçambique, Congo etc. Em Cunha, a maior parte dos escravizados eram Banto. Aliás, no século XIX, a maioria da população de Cunha era negra, seja livre ou escravizada. Esse povo trouxe consigo sua cultura e algumas manifestações culturais estão presentes em Cunha até hoje, como a Congada, o Moçambique e o Jongo. Outras etnias africanas também foram trazidas para Cunha, porém, não na mesma proporção que os bantos.

No final do século XIX e início do século XX chegaram a Cunha imigrantes vindos de outras partes do mundo, sobretudo do Líbano e da Itália. Essas famílias se dedicaram à agricultura, à marcenaria e ao comércio, sobretudo os libaneses; se dedicaram ainda à política, contribuindo para diversificar o mosaico cultural e étnico que caracteriza a população cunhense.

Cunha e o café

O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.

“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.

Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.

Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.

É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.

Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.

Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.

Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.

Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.

Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.

No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.

A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.

É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.

A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.

Referências:
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006.
SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942.
SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Cunha, transporte e desenvolvimento

Rodovia Vice-prefeito Salvador Pacetti (SP-171), quando atravessa o bairro do Taboão. Foto: site Viagens e Caminhos. Data: 2010.

Antes mesmo de Cunha ser Cunha, os caminhos já faziam parte da história deste lugar. A antiga trilha dos Guaianases, o “caminho do Facão”, foi um dos primeiros pontos de entrada para o sertão. Um peabiru que foi amplamente utilizado pelos colonizadores. Aliás, é bem provável que o nosso antigo topônimo “Facan/Facão” seja em razão da condição desse antigo caminho, que vencia a Serra do Mar, mas era dos mais perigosos e precários.

Dizem os antigos cronistas e aventureiros que os Guaianases, primeiros a pisar neste chão, estavam sediados na Ilha Grande. Quando chegava o verão, migravam do litoral rumo ao sertão, embrenhando-se na mata, que, de tanto ser varada, acabou virando a trilha desse povo originário.

Em distância absoluta, a cidade mais próxima de Cunha é Lagoinha (vide Mapa Concêntrico de Cunha abaixo). Dista 23,6 Km. No passado, já chegou a ser distrito de Cunha. Mas somente agora estão a asfaltar a ligação entre elas, via bairro do Jaguarão. A segunda cidade mais próxima, Paraty (RJ), a 30 Km, só foi conectada decentemente a Cunha em 2016, depois de mais um século de reivindicação para o seu calçamento.

É muito pouco para uma cidade que surgiu, justamente, em função dos caminhos.

Está sob a ponte aérea Rio – São Paulo, principal fluxo aeroviário brasileiro. Movimento bem perceptível à noite, com pontos luminosos transitando no céu no sentido Leste-Oeste.

Está conectada por menos de 50 Km, via SP-171, à BR-116, principal rodovia do Brasil.

Mapa Concêntrico em Cunha (SP), apresentando algumas cidades selecionadas como referência. A equidistância entre os círculos em destaque é de 50 Km. O objetivo é mostrar a posição de Cunha entre os dois maiores conglomerados urbanos do Brasil. Além da distância entre as cidades, foram respeitadas as angulações azimutais.Data: 2022. Cartografia: Jacuhy.

Portanto, percebe-se que Cunha não está mal localizada – como sugerem certas pessoas ao tentar justificar o subdesenvolvimento municipal –, já que seu sítio urbano fica entre as duas maiores metrópoles do país; mas é mal servida pela rede rodoviária, modal de transporte predominante no Brasil. E o problema nem é a densidade dessa rede, porque só de estradas rurais o seu território é cortado por mais de 2 mil quilômetros, e, sim, a condição dessas vias. Trata-se de estradas vicinais de terra batida, com manutenção esporádica, inapropriadas ao tráfego nos dias chuvosos.

Até 2016, quando a Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concluída, a única ligação asfaltada que o município possuía com outro lugar era com Guaratinguetá, pela Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), inaugurada em 1967 até a cidade de Cunha. O trecho até a divisa com o estado do Rio de Janeiro foi concluído em 1984.

Sem estradas transitáveis, não há turismo nem escoamento da produção agrícola.

Cidade com clima de montanha, porém bem perto do litoral. Localização privilegiada, isso sim. Só que sem estradas, é mais uma das “cidades mortas” do velho Vale, a espera de uma via transitável que possa ressuscitá-la.

PIB de Cunha cresce 11% em 2020

Setorização do PIB cunhense – 2020. Arte: Jacuhy.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no dia 16 de dezembro de 2022 o Produto Interno Bruto (PIB) referente ao ano de 2020 de todos os municípios do Brasil. O intuito da instituição é “fornecer estimativas do Produto Interno Bruto – PIB dos Municípios, a preços correntes, e do valor adicionado bruto da Agropecuária, da Indústria, dos Serviços e da Administração, saúde e educação públicas e seguridade social, a preços correntes, compatível com as metodologias das Contas Regionais e Nacionais do Brasil, sendo as estimativas obtidas comparáveis entre si”; sendo portanto, um dado econômico relevante para o planejamento estatal, que permite verificar regiões e pontos com o avanços ou retrocessos econômicos no conjunto territorial do país. Ron Johnston (2009, p. 320) afirma que as estimativas do PIB são usadas para comparar o volume da atividade econômica ao longo do tempo e do espaço – seja em agregado ou per capita – mas para evitar complicações introduzidas pela inflação e flutuações da taxa de câmbio, elas devem ser convertidas em uma base comum.

A divulgação dos dados referentes ao PIB dos municípios em 2020 era aguardada, pois foi um ano atípico, marcado pelo alastramento do COVID-19 e a consequente paralização de diversas atividades econômicas, em virtude da emergência sanitária. O tamanho do impacto da pandemia sobre a economia tem sido objeto de debate entre os economistas. À medida em que os dados vêm sendo divulgados, foi possível perceber que os setores mais impactados pela pandemia foram o de alojamento e alimentação; serviços domésticos; transporte, armazenamento e correio; artes, cultura, esporte e recreação e outras atividades de serviços. Segundo o IBGE, “os resultados de 2020 evidenciam que os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre as economias municipais variaram de acordo com a importância das suas atividades de Serviços, sobretudo as presenciais. Isto porque estes serviços agregam as atividades com as maiores quedas de participação no País entre 2019 e 2020, sendo as mais afetadas pelas medidas restritivas de isolamento e precaução de contágio por parte das famílias adotadas durante o ano.”. Todavia, os economistas e técnicos de planejamento têm alertado para a interpretação econômica do PIB dos municípios em 2020 e pedido cautela, pois foi um “ano em que a crise sanitária provocada pela Covid-19 trouxe grandes desafios para a mensuração da atividade econômica”, conforme consta na “Nota técnica – PIB 2020”, emitida pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), órgão do Governo de São Paulo.

A região do Vale do Paraíba Paulista foi diretamente impactada pela pandemia e viu seu PIB regredir em relação a 2019. O PIB regional recuou de 131,6 bilhões de reais em 2019 para 122,6 bilhões de reais em 2020. Uma variação negativa de 6,87% no volume. Os grandes centros econômicos de nossa região, São José dos Campos e Taubaté, ficaram entre os municípios que mais perderam participação PIB do Brasil em 2020, o que demonstra o grave impacto causado pela pandemia sobre a economia regional. O PIB do estado de São Paulo avançou 0,4% no mesmo período. Cunha não sofreu o mesmo impacto econômico.

O PIB de Cunha avançou de 267,7 milhões de reais em 2019 para 297,3 milhões de reais em 2020, agregando assim quase 30 milhões de reais de um ano para o outro, uma variação de volume de 11,05%. Desde que o IBGE começou a mensurar os PIB dos municípios, em 2002, na metodologia que utiliza até agora, Cunha nunca registrou decréscimo. Com esse resultado, a taxa participação econômica do município no PIB estadual teve um pequeno aumento. Era de 0,0114% em 2019 e foi para 0,0125% em 2020. No ranking estadual, Cunha é apenas 365ª maior economia.

Evolução do PIB de Cunha (2002-2020). Fonte: IBGE, 2022.

Ao se fazer um recorte setorial no PIB de Cunha, percebe-se que o setor que alavancou esse crescimento, mesmo diante do cenário de crise econômica, foi o primário. A agropecuária cunhense teve uma variação positiva de 54%, passando a responder por 12,9% do PIB cunhense (era 9,3% em 2019). Cunha é o maior produtor de leite de São Paulo e possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba Paulista.

O setor hoteleiro e de alimentação foi duramente atingido pelas restrições sanitárias e de circulação implementadas para deter o avanço do COVID-19. Em Cunha não foi diferente. Medidas restritivas foram tomadas pela Municipalidade para preservar a saúde da população e tentar frear o avanço das infecções por coronavírus. Eventos foram cancelados. Pousadas foram temporariamente fechadas e restaurantes só puderam funcionar com entregas em domicílio. O turismo, hoje uma importante atividade econômica de Cunha, foi o mais impactado pela pandemia. Por outro lado, muitas pessoas deixaram a Região Metropolitana de São Paulo e se refugiaram em suas casas de veraneio e sítios na zona rural cunhense, na esperança de não serem infectados. Essa migração sanitária, esse êxodo urbano temporário, certamente aqueceu o comércio local e o setor de serviços, compensando as perdas do setor turístico. Por essa razão, mesmo com a crise, o setor terciário de Cunha variou positivamente.

Plantação no bairro da Vargem Grande. Data: 2014. Foto: Facebook Bairro da Vargem Grande – Cunha – SP.

A outra parte do setor terciário, aquela ligada à administração pública, foi fundamental para estabilidade econômica do município, uma vez que esse funcionalismo não sofreu cortes no salário nem enfrentou demissões por causa da crise econômica desencadeada pela pandemia. Uma parte considerável dos cunhenses que possuem remuneração registrada são aposentados ou funcionários públicos municipais, estaduais e federais. A Prefeitura de Cunha, por exemplo, emprega diretamente mais de 600 pessoas.

O setor secundário de Cunha corresponde a apenas 5,3% do PIB municipal e é composto por pequenas indústrias alimentícias. Não sofreu queda, mas também não evoluiu economicamente no período. Já a agropecuária cunhense, marcada por sua característica familiar, sempre foi resiliente. Como não foi um setor atingido diretamente pelos impactos negativos pandemia, registrou um grande crescimento. Ou seria apenas uma consequência do aumento da fiscalização e do registro de produção?

Plantação de hortaliças em sistema hidropônico, na zona rural cunhense. Data: 2022.

O PIB per capita do município saltou de R$ 12.349 em 2019 para R$ 13.857,47 em 2020. Mesmo assim, caiu no ranking estadual. Ocupava a 631ª posição em 2019; em 2020, está na 634ª posição. De acordo com esse dado econômico, Cunha figura entre os municípios mais pobres do estado. São Paulo tem 645 municípios. Na média brasileira, o PIB per capita foi R$ 35.935,74; bem acima, portanto, do nosso PIB per capita municipal. Por fim, alerta o geógrafo britânico Ron Johnston (2009, p. 320) que “o PIB não é necessariamente uma medida válida de ‘saúde econômica’, uma vez que as consequências prejudiciais (por exemplo, sobre o meio ambiente) não são levadas em consideração. E sua melhoria nem sempre é sinal de crescimento real; por exemplo: o aumento dos gastos com policiamento poderia estimular o crescimento do PIB, mas não é nada mais que uma resposta a um aumento da criminalidade.”. E o PIB per capita é limitado como indicador econômico porque não considera uma condição básica da economia capitalista: a brutal desigualdade de renda que existe entre as classes sociais.

Referências:
FUNDAÇÃO SEADE. PIB paulista cresceu 0,4% em 2020, 10 mar. 2021. Disponível em: < https://informa.seade.gov.br/analise_pdf/pib-paulista-cresceu-2020/ >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Nota técnica – PIB 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/c1b5063b-d6b9-4832-a8ee-9caad7ee2c85/download/nota-tecnica_pib_do_esp_2020.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB por municípios do Estado de São Paulo – 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/13af6a0f-e731-4fc7-8664-73e57de8f465/download/pib-municipios-2020.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB para os municípios de São Paulo – 2019. São Paulo: Fundação SEADE, 2021. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/7a58161d-f687-4c15-8edf-0787a6b03245/download/pib-municipios-2019.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
GREGORY, Derek et al. Dictionary of Human Geography. 5. ed. West Sussex (Reino Unido): Wiley-Blackwell, 2009.
IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios: Cunha. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: < https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html?t=pib-por-municipio&c=3513603 >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Produto interno bruto dos municípios 2020. Rio de Janeiro: IBGE / Coordenação de Contas Nacionais, 2022. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101990_informativo.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.

Cunha no ano da Independência do Brasil

Os relatos de viagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) trazem um valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país: o Vale do Paraíba.

Em 1822 realizou sua segunda viagem pela Província de São Paulo e nos legou diversos relatos sobre um tempo que já se foi… Nessa segunda viagem saiu do Rio de Janeiro e foi em direção a Minas. De lá, desceu a Mantiqueira, passou por Cachoeira Paulista e Guaratinguetá. Tomou rumo para Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, finalmente, São Paulo. Na volta, retornou a Mogi das Cruzes, passou por Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. De Taubaté partiu em direção à capital do Brasil, passando por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz.

Praça da Matriz de Cunha, por volta de 1900. Foto: Museu Municipal. Digitalização e coloração: Giorgio Cerutti.

Muito embora não tenha passado pela então Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, Saint-Hilaire (2002, p. 118) não deixou de registrar informações sobre o nosso município. Pernoitando em um rancho de tropeiros, antes de chegar a Bananal, junto com seus dois criados – Firmino e Laruotte –, dois índios montados e um tropeiro, se deparou com dois soldados que iriam assumir guarda em uma barreira criada na estrada entre Cunha e Paraty e deles extraiu as seguintes informações, alguns meses antes da Independência do Brasil:

Rancho de Pedro Louco, 24 de abril, 4 léguas – No rancho sob o qual passamos a última noite, estavam dois homens da Vila de Cunha que vão assumir a guarda de uma barreira recém-criada nesta estrada. Segundo o que me informaram fica a cidade de Cunha situada perto da grande cordilheira, a nove léguas de Guaratinguetá, a quatorze do pequeno porto de Parati e cinco das nascentes do Paraíba. Como se acha em terreno baixo, o açúcar e o café não progridem em suas redondezas, que contudo produzem em abundância o milho e outros gêneros dos quais parte embarca em Parati para o Rio de Janeiro. De Guaratinguetá enviam também gêneros a Parati, fazendo-os passar pela Vila de Cunha.”

Saint-Hilaire, 24 de abril de 1822

Há outras impressões mais ou menos do mesmo período. Ficaremos, devido a sua precisão, com a do geógrafo e sacerdote português padre Manuel Aires de Casal (1945, p. 241-242), no seu “Corografia Brasílica”, lançado em 1817:

Cunha, em outro tempo Facão. Villa ainda pequena, e que com facilidade pôde ser considerável, situada na vizinhança do Rio Jacuhy sobre a serra, oito léguas ao Norte de Paraty, ornada com a Igreja Matriz, de que he Padroeira N. S. da Conceição. O clima he sadio, as noites de Junho, e Julho frias. He o lugar da Zona Torrida, onde ategora tem prosperado melhor as flores, e arvores frutiferas oriundas da Europa. Nos seus contornos ha extensos pinheiraes; e seus habitantes cultivam mantimentos do paiz, recolhem abundancia de milho, e criam em grande quantidade gallinhas, e porcos, sua riqueza. O caminho, que communica esta Villa com a do Paraty, he péssimo. Quando os recoveiros transitarem por elle com a mesma facilidade, e segurança, que os do Cubatão entre S. Paulo, e Santos, então uma terá florescimento, outra maior commercio.”

Padre Manuel Aires de Casal, 1817
Parte de uma carta da Província de S. Paulo, do início do século XIX, mostrando a localização de Cunha, os rios e os caminhos para o mar. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

População

A população da Vila alcançava 2.818 almas em 1823. A economia prosperava, mas de forma modesta. O café ainda não tinha alcançado o seu auge na região. E Cunha, que possuía função complementar, aguardava ser alavancada junto, com o arranque econômico que atingiria o Vale. Predominava entre as atividades, conforme descrição da época, presente nos Maços de População, o seguinte: “tem hum sitio em q. fas sua plantação e seva capados”. A mão de obra era basicamente escrava, contingente que atingia cerca de 44% de toda a população do município. A maioria era formada por escravizados africanos, porém é de se supor que ainda havia entre eles indígenas, descendentes dos povos originários.

As barreiras de alfândega que existiam no caminho até o mar eram ocupadas por soldados, que fiscalizam e faziam cumprir a taxação, daí a razão de ser a militar a profissão de maior ocupação entre os cunhenses nesse tempo. Não é uma coincidência ter Saint-Hilaire se deparado com dois deles, que vinham assumir posto em Cunha, quando pernoitou no rancho de Pedro Louco.

Fonte: Arquivo Público do Estado de S. Paulo, Maços de População da Vila de Cunha, 1823.

Na década de 1830, a produção de café se torna dominante no Vale do Paraíba, superando o cultivo de cana-de-açúcar, com quem dividia o uso e ocupação do solo. De 1823 a 1836, a população cresce. Reflexo do avanço da cafeicultura na região e do lastro de desenvolvimento que provocava. Passa de 2.818 para 3.403 habitantes. Chega a 559 “fógos” (sinônimo de moradia, casa, habitação, residência). É um novo tempo não só na política, mas na economia e na demografia. Recebe a região grandes contingentes humanos: de brancos, aventureiros e escravizados de outras partes do Brasil. Do ponto de vista ambiental é um desastre: liquidação quase completa da Mata Atlântica, que reduzir-se-á aos sertões e as cordilheiras.

Tropeirismo

O surgimento de Cunha, outrora Facão, que remonta às primeiras doações de sesmarias nos fins do século XVII, está relacionado diretamente com os caminhos, antigos, que permeavam o planalto do Paraitinga e do Paraibuna. Ponto de parada entre Paraty, no litoral, e as cidades do sertão: Guaratinguetá e Taubaté. Portanto, aqui, mais que em outros lugares, floresceu o tropeirismo. O dinamismo dos fluxos de gentes, mercadorias e ideias animou os primeiros anos da Freguesia do Facão, que vingou na Serra do Mar. Os que foram se estabelecendo, margeando a Estrada Real, foram se nutrindo desse movimento das tropas e do rol de atividades adjuntas que dessa circulação vai-e-vem advém.

Um dia comum em uma cidade paulista no início do século XIX. “San Bernardo”, aquarela sobre papel. 1827.
Autor: Charles Landseer. Fotografia: Fernando Chaves. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Por isso, a abertura de novas vias ou a modernização e retificação das antigas, sempre representava um duro golpe econômico e demográfico sobre o Facão. Essas decadências podem ser percebidas nos estudos genealógicos, como foi na pesquisa do historiador Carlos da Silveira (1938, p. 92): “As tropas, que eram a sua vida, começaram a se desviar para outras zonas e as velhas famílias, em fins do século XVIII e princípios do XIX, trataram de se ir localizando ao longo do caminho novo, de Lorena ao Rio. Numerosos habitantes, facãozenses puros, deslocaram-se da terra natal, povoando assim as margens da nova estrada, em territórios que vieram a constituir os municípios paulistas de Lorena até a fronteira fluminense, e, passando mesmo essa fronteira, estenderam-se até o Rio Piraí (…)”.

Mas Cunha sempre se reinventa. A natureza nos é generosa e disposição para o trabalho o cunhense sempre teve, desde sempre. Em 1836, chama a atenção o grande número de ferreiros entre as artes e ofícios de que se ocupavam os cunhenses. Havia 11 deles trabalhando em suas oficinas na Vila. Número bem acima dos municípios da região, inclusive daqueles que possuíam uma população ou um espaço urbano maior. Isso mostra que mesmo com a inauguração do caminho novo da Estrada Real ou do Caminho Novo da Piedade, os valeparaibanos não negligenciaram a antiga via de acesso ao litoral, que passava por Cunha e findava no porto de Paraty. Antes do café tomar conta, permaneceu essa via como rota de escoamento das riquezas do Vale.

Um tropeiro e a sua tropa, em aquarela de Jean Baptiste Debret. Carvão, 1822, aquarela. Fonte: Museus Castro Maya/IBRAM/MINC. Fotógrafo: Jaime Acioli

Por isso, Cunha não desapareceu do mapa. Além de sua produção agrícola, funcionava como entreposto comercial. Os ferradores de Cunha – produzindo estribos, esporas, ferraduras, cravos e pregos, fivelas, trempes, panelas e toda sorte de utensílios de ferro – davam assistência logística ao transporte de cargas e ao aparato das tropas. A nossa cidade, ainda que minúscula, ocupava uma função naquela rede urbana pretérita.

Economia

A vocação de Cunha para pecuária é antiga. O economista Francisco Vidal Luna (1998, p. 135), ao estudar os municípios paulistas entre os séculos XVIII e XIX, observou sobre essa atividade o que segue: “em 1804 sua importância maior ocorria no Vale do Paraíba, com 14,8% dos proprietários e 22,8% dos escravos, e no Caminho do Sul, com participações de 14,0% e 26,1%, respectivamente. No Vale do Paraíba destacavam-se Cunha e São Luís do Paraitinga (…)”. Todavia, naquele tempo predominava a suinocultura; e não a bovinocultura, como atualmente, com Cunha sendo a maior bacia leiteira do estado.

“Loja de carne de porco”, gravura de Jean B. Debret, representando o Rio de Janeiro do século XIX. Acervo do Museu Castro Maya.

Os dados estatísticos mais próximos, de 1836, apontavam que a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha figurava entre as maiores produtoras de milho da Província de S. Paulo: com 87.988 alqueires, ocupando a 9ª posição. Além do cereal nativo da América, era destaque a produção de fumo com 649 arrobas, 2ª posição, atrás somente de Curitiba, que na época pertencia ao território paulista. Por ser um produto básico da culinária colonial, o toicinho era um produto comercializável e Cunha, com uma produção de 8.905 arrobas, ocupava naquela época a 1ª posição entre os municípios paulistas, correspondendo a 68,5% de toda produção provincial. Essa grande produção em nosso município indica o quanto a economia local estava ligada às culturas e criações que fugiam do sistema de plantation, ainda que a mão de obra fosse escrava em sua maioria. Junto com o cultivo de feijão, tabaco e milho e outros gêneros, criavam-se porcos e galinhas. Mais do que base da economia de subsistência, esses itens, para Cunha, destinavam-se à exportação e geração de receita. Seguiam para a Corte, via porto de Paraty, e para São Paulo e outras cidades do Vale, nas cangalhas.

Dos cultivos que prosperavam a província, Cunha em nada se destacava. Müller anota o que havia em nossas redondezas em termos de estabelecimentos agrícolas: “5 engenhos de assucar, em ponto pequeno, 2 fazendas de criar, 2 fazendas de café”. Número muito aquém dos municípios vizinhos. O motivo: o clima. A geomorfologia do nosso território, cercado por três serras, intensificava o frio característico do clima tropical de altitude. A geada, visita constante em nossos invernos, baldava as culturas tropicais nestas bandas. Entretanto, na descrição geral aparece a ressalva: “n’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vacum, e cavalar. Não tem terrenos devolutos.”. O café e o açúcar não fizeram a riqueza dos fazendeiros e sitiantes de Cunha, que de alguma forma, encontraram o seu nicho econômico como fornecedores de alimentos para região e para outras cidades maiores, envolvidas que eram em outras atividades agrícolas ou comerciais, mais rentáveis e tropicais.

Fazenda da Barreira, antes de ser demolida, no bairro do Taboão. Antiga alfândega para as mercadorias do Vale. Foto: Marcos Santilli. Data: década de 1980.

Após a Independência do Brasil, o Vale do Paraíba se tornará a região mais próspera do Império nascente. O café irá alavancar todas as localidades valeparaibanas. Até aquelas que não produziam café, como Cunha. No século XIX Cunha conhecerá o seu auge econômico e também viverá a sua decadência. Um século de muitas nuances, mudanças, e que merecerá, em breve, um texto só sobre esse período.

Referências:
AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Maços de População – Vila de Cunha – 1823. Disponível em: < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/web/digitalizado/textual/macos
_populacao >, acesso em 5 set. 2022.
DÓRIA, Carlos A.; BASTOS, Marcelo C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
LUNA, Francisco V. São Paulo: População, Atividades e posse de escravos em vinte e cinco localidades – (1777-1829). Estudos Econômicos. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 99 -169, jan/mar., 1998. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ee/issue/view/877 >, acesso em 10 set. 2022.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3 ed. São Paulo: Governo do Estado, 1978.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Tradução de Afonso de E. Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
SILVEIRA, Carlos da. Apontamentos para o estudo de uma grande família: os Lopes Figueira, do Facão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, v. 35, p. 91-130, dez., 1938.
SOBRINHO, Alves M. A Civilização do Café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.

Cunha: paisagem, meio ambiente e economia

Cunha vista da Serra da Bocaina. Foto: Pedro Máximo. Data: 2011.

A cidade de Cunha vista da Pedra Grande, na Serra da Bocaina, próxima à divisa com Silveiras. Está a 34 quilômetros em distância absoluta, na direção sudoeste. O interessante dessa perspectiva é que aparece a Serra do Alto do Diamante ao fundo, que está a cerca de 55 quilômetros de distância da Pedra Grande. Após essa serra, temos ainda o bairro do Sertão do Palmital e mais cerca de 5 Km (em termos absolutos) de terras cunhenses até se chegar ao limite com São Luís do Paraitinga, divisa formada com cotas altimétricas inferiores ao do Alto do Diamante e vertente do rio Paraibuna. A foto na perspectiva noroeste-sudoeste revela um pouco da extensão de nosso município, maior do Vale do Paraíba e o único no estado circundado por três 3 serras principais (além de outras ramificações), como é o caso do Alto do Diamante, do Alto Grande e do Campo Grande. Todas com picos ultrapassando os 1600 metros de altitude.

Cunha vista da Pedra Grande. Cotas altimétricas do IBGE (1973). Edição: Jacuhy.

O bairro Sertão do Palmital, ainda em 1970, completamente isolado de Cunha. Os moradores se serviam, quando podiam, de São Luiz do Paraitinga, via distrito de São Pedro da Catuçaba. Mesmo assim por trilhas acessíveis apenas a pé ou a cavalo.

Parte da carta hipsométrica das três serras. Fonte: IBGE, 1973.

Um dos morros da Serra desperta a nossa atenção por sua feição cônica, se assemelhando a um vulcão, o que obviamente não é e nem nunca foi. Trata-se de dois morros na verdade, mais pontiagudos e altos que os vizinhos que observados de longe, revelam esse contorno diferente. Essa Serra, aliás, pode ser melhor observada do Morro Grande, vide as fotos da “Estalagem Shambala” ou do loteamento recentemente aberto “Alpes de Cunha”.

Alto do Diamante e Campo Grande. Vista da Estalagem Shambala. Data: 2022.

Os morros que circundam a cidade de Cunha, e que parecem altos, praticamente se aplainam ante a imponência da Serra do Mar, que, como uma muralha, cerca o município nos limites de sudoeste a nordeste.

Vista da Serra do Campo Grande. Foto: Guto Felipe. Data: 2022.

Todo esse “Mar de Morros” é obra de milhões de anos de processos erosivos contínuos, consequência da ação do clima tropical sobre o relevo. As paisagens que temos hoje são heranças que a natureza nos legou e que devemos preservar para a posteridade.

Vista da Serra do Alto do Diamante. Foto: Rodrigo Leite. Data: 2012.

Por isso, o desmatamento incontrolável que nossa região passou nos últimos cem anos preocupa. Não só pelo aumento dos movimentos de massa e os riscos que eles trazem à segurança das pessoas e animais, além dos prejuízos, mas pela perda dos solos, um problema grave e ainda pouco abordado e tratado em Cunha. Sem solo não há agricultura, pecuária e nem vida. A aceleração dos processos erosivos e a retirada ilegal de mata ciliar levam ao assoreamento dos cursos d’água e ao desaparecimento da fauna fluvial. A retirada de mata no topo dos morros leva ao sumiço dos vertedouros. Toda ação humana gera algum impacto ambiental que, mais cedo ou mais tarde, acarretará algum impacto social.

O pouco que restou da nossa Mata Atlântica foi resultado da ação impositiva do Estado, que interveio na década de 1.970 para impedir o desaparecimento completo da cobertura vegetal, com a criação de duas unidades de conservação de proteção integral: Parque Nacional da Serra da Bocaina e Parque Estadual da Serra do Mar. Nunca partiu de nós, cunhenses, o devido cuidado com meio ambiente. É muito provável que sem as unidades de conservação, o pouco de verde que ainda restou já teria virado carvão, moirão, palanque, esteio, móveis, pasto etc. Até o nosso linguajar valida a visão antiecológica de ver árvores e matas como um problema. Chamamos de “pasto sujo” aquele que contém árvores e capoeirões espalhados pela herdade.

O desenvolvimento do turismo surge como uma esperança. Ao retirar do setor primário o sustento de muitas famílias e realocá-lo no terciário, ameniza a pressão sobre os recursos naturais do município. Ademais, a paisagem natural ou regenerada deixa de ser um “pasto sujo” e passa a ser valorizada. Valorizada no sentido financeiro mesmo, pois o turismo é uma atividade econômica que promove o consumo do espaço e das paisagens. Desde que não seja predatório ou privilégio de alguns empreendedores, o turismo pode ser uma das saídas para Cunha.

A pergunta que fica é: o que deixaremos para as futuras gerações? Mais do que esperar do Estado e atribuir responsabilidades a outrem, sempre é bom fazer um exercício de reflexão pessoal, focado na nossa ação no mundo. Cabe a nós, enquanto comunidade, buscar alternativas econômicas sustentáveis.

Referências:
AB’SÁBER, Aziz N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. 5 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
CRUZ, Rita de C. A. da. Introdução à geografia do turismo. 2. ed. São Paulo: Roca, 2003.
IBGE. Lagoinha: região sudeste do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1973. 1 carta topográfca, color., 4465 × 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF 23-Y-D-III-2.
O ESTADO DE S. PAULO. Palmital, um bairro isolado. 4 out. 1970, p. 42.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
VELOSO, João J. de O. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1996.

Santa Rosa, as virtuosas águas de Campos de Cunha

Logotipo utilizado nos galões da Águas Virtuosas de Santa Rosa. Símbolo de qualidade.

Um breve levantamento histórico das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, hoje “Águas Serras de Cunha”. As águas da Fonte Paulista, considerada uma das melhores do Brasil, voltou a ser engarrafada. Mais que uma fonte geradora de empregos, trata-se um motivo de orgulho para todos os cunhenses.

Século XIX – Em ofício endereçado à Assembleia Provincial solicitando recursos, em 1882, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.

Década de 1910 – Moradores de Cunha e Campos Novos costumavam fazer excursões para as “Águas”, para beber nas suas fontes, engarrafá-la e até nela se banhar, crendo ser o líquido portador de moléculas milagrosas. A fama da água se espalha pelo Vale e chega aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo. Assim que soube das fontes minerais, comprou as terras onde se localizavam as minas. Passava, então, o local a ser denominado por “Águas do Barão”. Era natural de Lorena (SP), mas já época morava em São Paulo (SP). O Barão possuía terras em diversos municípios da nossa região e do Sul de Minas. Pioneiro na introdução do trabalho livre no Vale, estabeleceu diversas colônias agrícolas para imigrantes, com destaque para a de Quiririm, em Taubaté, e para a de Canas, hoje município. Em São Paulo, capital, tonou-se banqueiro, investidor e empresário. Chegou a participar do governo do guaratinguetaense Rodrigues Alves, quando este esteve na Presidência. Esteve sempre envolvido com projetos modernizadores, copiando o que podia da Europa. Em 1861 adquiriu uma grande propriedade de terra na Serra da Mantiqueira, introduzindo uma fazenda-modelo, que veio a se chamar “São Francisco dos Campos do Jordão”. Anos depois, já famosa, tornar-se-ia na primeira estância climática e cidade sanatório, visando o tratamento de tuberculosos. E ainda introduziu nessa sua fazenda o cultivo de frutas europeias. Parecia ser similar o seu projeto para as fontes de água mineral da Pedra Branca, rebatizada por ele, posteriormente, como católico fervoroso que era, como “Águas de Santa Rosa”.

1912 – É organizada a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”, em Campos Novos de Cunha.

1 de dezembro de 1912 – A “Companhia de Águas Mineraes de Santa Rosa”, do Barão da Bocaina, compra a Fazenda Jaboticabal, espólio de Laurindo Umbellino dos Santos Pinto, com 150 alqueires de terra, aumentando a propriedade da Companhia, que já tinha domínios no lugar. Essa ampliação era fruto da ambição do Barão de levantar no bairro uma nova cidade, uma estância hidromineral, parcelando o solo, levantando casas e hotéis e criando serviços de abastecimento e distribuição das águas minerais.

28 de dezembro de 1913 – Após receber infraestrutura, é fechada à visitação pública a primeira fonte das “Águas Mineraes de Santa Rosa”.

28 de outubro de 1915 – Instrução Pública: É criada pela Assembleia Legislativa de São Paulo uma Escola Rural Mista no Bairro das Águas Virtuosas de Santa Rosa, município de Cunha.

1915 – Entra no orçamento estadual, por indicação do deputado estadual Dr. Casemiro da Rocha e outros da região, a construção de uma estrada ligando Lorena à estação das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.

1916 – Iniciam-se as obras de infraestrutura turística na fazenda das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, tendo à frente o arquiteto francês radicado em Cunha Cyrille Loviat, o mesmo que construiu o Grupo Escolar de Cunha e o Mercado Municpal. A ideia inicial era construir um hotel e um posto policial. O zelador da fazenda era o sr. Bernardino Alves Ferreira.

6 de agosto de 1919 – nomeada, por decreto estadual, a primeira professora da Escola Rural Districtal das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, a saber: Professora Gesséa Dias Corrêa, aprovada em concurso público.

1918 – Requer o Barão da Bocaina, junto ao Governo Federal, a reconstrução da estrada Lorena-Mambucaba, que passava pelo distrito de Campos de Cunha.

1919 – É votado, para o orçamento de 1920, por indicação do deputado Dr. Casemiro da Rocha, a restauração da estrada que ligava a fazenda das “Águas” ao porto de Taquary, município de Paraty, estado do Rio de Janeiro.

1 de janeiro de 1920 – O bairro das “Águas” recebe uma agência postal dos Correios. Antes mesmo de Campos Novos ter uma! Razão de muitas críticas dos moradores da vila, muito mais populosa e ainda desprovida de serviço postal. O agente postal nomeado para aquela agência foi o sr. Benedito Vaz Reis.

Década de 1920 – Administra as fontes minerais a “Companhia de Águas Mineraes de Santa Rosa”. Em diversas comunicações oficiais aponta-se a necessidade de arrumar a estrada que liga a sede da fazenda à cidade de Lorena. Necessidade de prolongar a estrada de Campos Novos à fazenda das “Águas” é prevista no orçamento estadual.

1932 – Durante a Revolução Constitucionalista foi ocupada por tropas paulistas (do 4º Batalhão de Combate e da Liga de Defesa Paulista, sob o comando do Tenente Meirelles Maia). Estando arranchados na localidade, chamou a atenção do serviço médico do Exército Constitucionalista a dentição totalmente preservada dos moradores locais, algo raro na zona rural de Cunha naquela época. Os oficiais médicos atribuíram tal característica à salubridade e propriedades químicas daquelas fontes minerais. Passada a guerra civil, foram aqueles soldados grandes incentivadores da ideia de tornar Cunha uma estância hidromineral, pois muitos que lutaram em Cunha, entrariam para a política, posteriormente. Entre eles, podemos citar o ex-governador Adhemar de Barros, já falecido, que, como mandatário estadual, muito lutou para que Cunha alcançasse o status de estância.

17 de outubro de 1938 – Falece em São Paulo (SP), o Barão da Bocaina, último titular ainda vivo do Império do Brasil. Com sua morte, fenece o seu projeto para as “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.

10 de julho de 1940 – É aberta a estrada rodoviária de Cunha a Campos Novos, de terra batida ainda, substituindo o leito carroçável, o antigo caminho de tropa que servia de ligação entre a sede municipal e a distrital. A caravana de políticos que vem inaugurar a obra visita a fazenda da estação das Águas Virtuosas de Santa Rosa, ainda um projeto promissor.

Dezembro de 1941 – É extinta a agência postal das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.

Década de 1940 – A Companhia possuía ações na bolsa de valores do Rio. Laudos do Laboratório Adolpho Lutz e do antigo Instituto Geográfico e Geológico de São Paulo apontam as fontes de águas minerais da fazenda, com vazão de 101.400 litros por hora, como as melhores do país.

Expedição do antropólogo americano Robert W. Shirley à Fazenda das Águas. 1965. Foto: Arquivo do Museu Francisco Veloso.

Década de 1960 – A Fazenda das Águas, como é conhecida, é vendida ao empresário Ghisleni Giulio, que pretende pôr em prática os antigos projetos do Barão da Bocaina.

Setembro de 1972 – É feito um reflorestamento com eucalipto na fazenda das “Águas Minerais de Santa Rosa”, empreendimento da Agro Vale do Paraíba S/C Ltda., com sede em Guaratinguetá. Trata-se de um investimento que conta com a participação de várias empresas e alega o plantio de 5 milhões de árvores, em três parques florestais criados em nossa região. Até hoje é a maior fazenda do município de Cunha, chegando até o Sertão, no limite com o estado do Rio de Janeiro, município de Paraty. Um ponto verde escuro nas imagens de satélite, devido a cobertura com eucalipto.

12 de novembro de 1975 – É criada a empresa Águas Virtuosas Santa Rosa LTDA, para envasar e comercializar águas minerais.

Igreja da Fazenda das Águas em 1978. Foto: Eurindo Perez (Página “Parada do Tempo”/ Facebook)

1981 – Inicia-se negociação com a Arábia Saudita, visando exportar água mineral de qualidade superior para aquele árido reino do Oriente Médio.

Década de 1980 – A Fazenda das Águas é um dos destinos turísticos de Cunha mais visitado e conhecido. A própria Prefeitura divulgava o lugar como um dos atrativos de Cunha, quando fazia anúncios na imprensa. A visitação pública aumenta após o asfaltamento do Estrada Municipal Ignácio Bebiano dos Reis, que interliga a cidade de Cunha à vila de Campos de Cunha.

Década de 1990 – A água mineral “Águas Virtuosas de Santa Rosa” conquista o mercado regional e seu nome se consolida, fornecendo um produto de excelente qualidade por um preço menor que as concorrentes. Na mesma década, a empresa seria fechada por motivos econômicos (?) e a comercialização suspensa.

24 de abril de 2000 – A Fazenda das Águas e suas fontes minerais são compradas e incorporadas pela empresa do mesmo ramo Águas Prata Ltda.

Década de 2010 – O reflorestamento de eucalipto da fazenda é vendido à indústria de madeira e celulose. A extração de madeira do local, pela quantidade de árvores, gera um importante fluxo de empregos em Cunha.

2021 – As fontes minerais da Fazenda das Águas voltam a ser envasadas e comercializadas, com novo nome: “Águas Serras de Cunha”.

Fontes:
Arquivos do Museu Municipal Francisco Veloso.
Arquivos da Prefeitura Municipal de Cunha.
Grupo “Memória Cunhense” – Facebook.
Jornal Correio Paulistano, 1854 a 1942.
Jornal do Commercio (RJ) – 1940 a 1949.
O Estado de São Paulo, 28 set. 1972.
O Estado de São Paulo, 1 abr. 1981.
Ofícios da Câmara Municipal da Cidade de Cunha, 1882.
Página “Parada do Tempo” – Facebook.
PASIN, J. L. Os Barões do Café: titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista. Aparecida: Vale Livros, 2001.
Revista Istoé, 21 dez. 1977.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
______. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1996.

Turismo em Cunha: cartografias, regionalizações etc.

O Lavandário e o pôr-do-Sol mais lindo do Brasil.

Faço aqui algumas breves considerações sobre a cartografia turística do município de Cunha e as regionalizações impostas pela Secretaria de Turismo de São Paulo e pelo Ministério do Turismo.

Cartografia

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2009. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).

Esse mapa turístico de Cunha vem sendo reproduzido e impresso pela Prefeitura, com algumas alterações, desde o início deste século. Foi criado pelo designer cunhense Wagner Oliveira. Sem dúvida, é muito bonito e elegante, mas peca nos aspectos cartográficos. Prevalece os aspectos estéticos sobre os técnicos. A cidade de Cunha, como se nota, está ampliada e o restante que do plano, que cobre o município, está em escala menor. Esse tipo de representação acarreta muitas distorções e gera confusão em que lê esse mapa. Geralmente, quando se amplia parte de uma peça cartográfica, a representação em escala maior aparece fora do plano geral, no canto e/ou destacada, a fim de chamar a atenção e não iludir quem realiza a leitura. Ademais, os pontos turísticos de Cunha, diferente de Campos do Jordão, por exemplo, não estão concentrados no perímetro urbano, mas dispersos pela nossa extensa área rural. Desse modo, ainda que o objetivo dessa técnica seja permitir a localização dos pontos turísticos e empreendimentos turísticos dentro da cidade, acaba atrapalhando a localização dos lugares similares que estão na zona rural, já que, como escrevi, Cunha não tem seus pontos e empreendimentos turísticos concentrados na zona urbana. A falta de uma escala mais próxima à realidade, sobretudo nos trechos rurais, tem gerado muitas frustrações nos turistas que se guiam por esse mapa, quando percorrem os roteiros que haviam traçado.

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2015. Fonte: CunhaTur.

Outro problema é a quantidade de informações que são apresentadas e representadas. Como o número de empreendimentos turísticos em nosso município vem aumentando a cada ano, à medida em que esses mapas são atualizados, ficam cada vez mais poluídos e carregados, o que compromete a leitura e a estética da peça gráfica. A solução pode estar na seleção das informações fornecidas ou na criação de um mapa digital para o turismo cunhense, através de um aplicativo para smartphone, por exemplo. Com os mapas digitais não só a atualização pode ser feita de maneira mais rápida e econômica, como a quantidade de informações pode ser resolvida com a criação de camadas selecionáveis, onde o próprio usuário pode decidir o que ele quer ver e localizar.

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2019. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).

Regionalizações

Cunha era uma estância climática desde 1948. Foi a primeira do estado, antes até de Campos do Jordão. Na verdade, era para ser estância hidromineral devido às fontes da “Águas Virtuosas de Santa Rosa”. Mas, por pressões políticas de alguns deputados federais, insuflados pelos municípios que já gozavam desse “status” e acesso ao orçamento estadual, acabou se tornando uma estância climática (VELOSO, 1995, p. 12). Nessa batalha de Cunha atuaram dois políticos da época: deputado estadual Sebastião Carneiro da Silva (PSD), grande batalhador das causas valeparaibanas, e o governador Ademar de Barros (PSP), ex-combatente do serviço médico do Exército Constitucionalista, tendo servido na frente de Cunha. Na década de 1940, o dr. João Lellis Vieira, cunhense “da gema” e articulista do jornal “Correio Paulistano”, aproveitava o espaço que tinha para provocar Campos do Jordão, exclamando que Cunha, ao contrário daquela estância da Mantiqueira, era “climatericamente a Suíça Brasileira!”. Puro bairrismo. E um monólogo inócuo. Em nada abalou a reputação de Campos do Jordão, construída pelo próprio governo estadual, visando massagear o ego e ofertar um “plano B” para as quatrocentonas falidas, que já não dispunham de bufunfa para visitar a Suíça (de verdade) …

Mapa da Tipologia Turística das Estâncias Paulistas. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.

Em 2015, o artigo 7º, da Lei Complementar nº 1.261 do estado de São Paulo, que Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas”, prescreveu que “os municípios classificados por lei como Estâncias Balneárias, Hidrominerais, Climáticas e Turísticas passam a ser classificados como Estâncias Turísticas, sem prejuízo da utilização da terminologia anteriormente adotada, para efeito de divulgação dos seus principais atrativos, produtos e peculiaridades.” Assim, ainda que a Prefeitura de Cunha mantivesse a divulgação do título de “Estância Climática”, oficialmente passou a ser “Estância Turística”. Na parte que interessa à Municipalidade, o acesso à verba extra do orçamento estadual para fomentar o turismo local, nada mudou. Portanto, nenhum estardalhaço foi gerado. A questão que se pôs a partir de então foi como o Governo Estadual organizaria e enquadraria os municípios turísticos.

Mapa dos Segmentos Turísticos no Estado de S. Paulo. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.

Em um primeiro momento, a Secretaria de Turismo estadual lançou um documento para orientar as prefeituras sobre as mudanças ocorridas por força da nova lei. Assim, naquele momento, São Paulo estava dividido turisticamente em 15 macrorregiões e subdividido em 34 regiões turísticas englobando todos os 645 municípios paulistas (SÃO PAULO, 2015). Cunha pertencia à “Macrorregião do Vale do Paraíba” e à “Região Turística do Vale do Paraíba e Serras”. Basicamente, a Secretaria seguiu a regionalização histórica já existente, sem inventar moda. No mesmo documento, ao aprofundar a regionalização, a Secretaria criou os “Circuitos Turísticos”, uma sub-regionalização das regiões turísticas. Cunha, por sua vez, integrava, simultaneamente, o “Circuito Cultura Caipira”, junto com outros municípios do Alto Vale, e o “Roteiro do Vale Histórico”, junto com os municípios do “garoupas”. Essa regionalização era bastante condizente com a realidade e a história local, valorizando os aspectos culturais de Cunha e adjacências.

Cunha foi inserida dentro do segmento histórico e cultural, com destaque por sua cerâmica de alta temperatura nacionalmente conhecida. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo. Ano: 2017.

A referida Lei Complementar reconhecia 13 segmentos de turismo: Social; Ecoturismo; Cultural; Religioso; Estudos e de Intercâmbio; de Esportes; de Pesca; Náutico; de Aventura; de Sol e Praia; de Negócios e Eventos; Rural; de Saúde. Sendo que Cunha estava segmentada dentro de uma região de turismo cultural, cuja definição, dada pela mesma lei é a que segue: “compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Ainda que não seja a melhor para descrever o turismo cunhense era mais condizente que o enquadramento dado, por exemplo, ao turismo religioso, que é definido assim: “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas, independentemente da origem étnica ou do credo”. Entretanto, a partir de 2017, Cunha passou a integrar a “Região Turística da Fé”, junto com Aparecida, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá etc. mesmo não sendo um centro de peregrinação religiosa como esses municípios.

Mapa dos Circuitos Turísticos Paulistas. Ano: 2016. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.

O que se vê é que nem o próprio Governo conseguiu superar a utilização e categorização das estâncias (turísticas, climáticas e hidrominerais), ainda que oficialmente tenha sido proscrita. O termo “municípios turísticos” ou “estância turística” ainda não foi plenamente assimilado pelas pastas estaduais. E muito menos pelos municípios, empresários, guias e população em geral. Por óbvios motivos políticos e eleitorais, em 2016, uma lei estadual criou a categoria “Municípios de Interesse Turístico”, ampliando em mais 140 o número de municípios paulistas com acesso ao filão orçamentário para “incrementar o turismo”.

Interessante notar que até no site desenvolvido pelas prefeituras da Região Turística da Fé, a foto de Cunha na página inicial é a única não remete à religião ou às igrejas, apresentando a foto de uma das dezenas de cachoeiras do município na chamada da página inicial. Ainda que as festas religiosas de Cunha sejam seculares e possam atrair turistas, elas são expressões de fé da população local e não um evento de cunho turístico. São manifestações de fé genuínas e não eventos comerciais de fundo religioso. Talvez a única exceção dentro dessas manifestações seja a Festa de Sá Mariinha das Três Pontes, em cujo lugar há até um pequeno centro de apoio ao romeiro, mas ainda assim são romeiros de Cunha e adjacências que vistam o local, ou seja, devotos da própria região e que estão no mesmo meio cultural. Diferentemente de Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá, que são centros nacionais do Catolicismo, e atraem fiéis até de outros países e em contingentes impensáveis para as festas religiosas de Cunha.

A descrição para caracterização da Região Turística da Fé é ambígua. Vejamos: “A Região Turística da Fé se destaca como uma das mais belas do país, está localizada no eixo Rio x São Paulo entre as Serras da Mantiqueira, da Bocaina e do Mar. São 08 municípios no Vale do Paraíba que estão unidos pelo desenvolvimento do turismo regional: Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Cunha, Guaratinguetá, Lorena e Piquete. Com um grande número de santuários e belezas naturais a região proporciona uma experiência única de fé, contemplação e atividades turísticas em meio das lindas paisagens de serras e rios nos mais variados tipos de turismo e seus atrativos: turismo religioso, turismo rural, turismo cultural, de esportes, de aventura, ecoturismo, negócios e eventos, náutico e gastronômico.” (grifo meu) (REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ, 2020). Como se nota, não se sabe ao certo qual o tipo de turismo a desenvolver, porque uma coisa é atrair e acolher romeiros e outra coisa é desenvolver o ecoturismo. No encontro que culminou em um estatuto para os municípios integrantes da RT da Fé, afirmou-se que: “(…) muitos projetos possam acontecer na Rota da Fé, tanto focando a religiosidade regional, como investimentos na infraestrutura (…)” (grifo meu) (PREFEITURA DE APARECIDA, 2019). Ora, como Cunha focar seu investimento em eventos religiosos, se quase todas suas festas turísticas são laicas e comerciais?

Mapa das Regiões Turísticas do Estado de São Paulo. É o que está em vigor. Cunha aparece em outra região turística. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de S. Paulo. Ano: 2017.

Praticamente quase todos os tipos de turismo praticados no Brasil são citados como a ser desenvolvido pela Região Turística da Fé. É claro que a diversificação das atividades turísticas é desejável, mas no caso parece que os mentores municipais estão meio perdidos quanto aos objetivos e metas a serem traçadas. Ter colocado Cunha no meio desses municípios engrossou o caldo da confusão, sem dúvida. Quem dá enfoque em tudo acaba não priorizando nada. Não há nenhum elemento caracterizador, ainda que o turismo religioso preceda os demais e seja citado “um grande número de santuários”, para logo em seguida já destacar as “belezas naturais”, que uma caracterização tão genérica, que pode aparecer na descrição da maioria das regiões turísticas do mundo. O fato é que Cunha não conta com santuários e nem é visitada por motivos religiosos. Na página de Cunha, no site da Região Turística da Fé, até são citadas as festas religiosas, mas os destaques são para os campos de lavandas, cachoeiras e às festas ligadas ao clima serrano. Faria mais sentido, penso eu, alocar Cunha na região vizinha, do “Rios do Vale”, que engloba parte dos municípios do Alto Vale do Paraíba. Pelo menos em nosso território nasce o rio Paraibuna, no bairro da Aparição, e ganha corpo o rio Paraitinga, que desce da Serra da Bocaina. Associar a beleza natural a alguma ação contemplativa de fé em nosso município é um grande disparate, a menos que Cunha tenha algum centro de peregrinação xamânica e ninguém nos avisou de nada…

Não se pode criar regionalizações em gabinetes, desconsiderando a história e desenvolvimento de cada lugar. Canetadas de políticos não devem preceder e prevalecer sobre o trabalho científico de geógrafos e turismólogos.

Considerações finais

Atualmente, a maior parte das pessoas que visitam Cunha utiliza para encontrar os destinos almejados as plataformas cartográficas digitais, como o Google Maps (por exemplo), por serem mais simples, acessíveis e atualizadas. Acessíveis até certo ponto, convenhamos, já que em uma boa parte da zona rural de Cunha não há sinal de celular e, consequentemente, de internet. Entretanto, ainda que venha caindo em desuso e estejam condenados, os mapas turísticos impressos de Cunha precisam equilibrar os aspectos artísticos e técnicos na sua apresentação, tornando-se um instrumento de localização mais útil a quem se destina: os turistas.

Com relação à regionalização turística a que Cunha foi submetida, compete à Prefeitura, através de seu corpo técnico, e ao Conselho Municipal de Turismo de Cunha (COMTUR) questionar esse enquadramento alheio à realidade do turismo local: ao seu desenvolvimento e história, à sua tipologia e às potencialidades que apresenta. Inclusive, o planejamento turístico estadual aponta que um dos objetivos estratégicos para o setor é “promover a atuação articulada de agentes públicos e privados na implantação de empreendimentos e produtos turísticos nacionais ou internacionais, que aproveitem as vocações e potencialidades dos municípios e regiões do Estado de São Paulo.” (SÃO PAULO, 2020, p. 37). E ainda, no mesmo documento, estabelece que o “incentivo e valorização das iniciativas que fortaleçam a identidade local e regional dos destinos turísticos” e a modernização e ampliação das “estratégias de marketing e comunicação de destinos, produtos e serviços turísticos ofertados no Estado de São Paulo nos níveis municipal, regional, nacional e internacional” (SÃO PAULO, 2020, pp. 44-45) são estratégias prioritárias para fomentar o turismo paulista na próxima década. Trata-se de uma regionalização totalmente deslocada, no tempo e no espaço. E que pode comprometer nosso desenvolvimento turístico se for seguida e houver direcionamento de investimentos.

Cunha viveu nesse primeiro quinquênio da pavimentação completa da rodovia que liga a cidade a Paraty (RJ) um crescimento nunca visto do seu turismo. O fluxo cada vez maior de pessoas que se dirige às praias da Costa Verde fluminense e para o Litoral Norte paulista transformou nossas montanhas em vitrine e propaganda ininterrupta do lugar. É um outdoor vivo e verdadeiro dos dois lados da pista da rodovia SP-171. Entretanto, é preciso planejar e aprimorar as atividades turísticas que acontecem aqui, para gere renda e traga benefícios para todos os cunhenses e que seja sustentável, ecologicamente e financeiramente, nas próximas décadas.

Vídeo sobre a então Estância Climática de Cunha, produzido pela Aprecesp (Associação das Prefeituras das Cidades Estância do Estado de São Paulo), em 2012.

Referências:
CORRÊA, R. L. Região e organização espacial. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007.
LIBAULT, A. Geocartografia. São Paulo: Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo, 1975.
PREFEITURA DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Mapa Turístico de Cunha já está disponível aqui no site oficial da prefeitura, 22 jan. 2019. Disponível em: < http://www.cunha.sp.gov.br/noticias/mapa-turistico-de-cunha-ja-esta-disponivel-aqui-no-site-oficial-da-prefeitura/ >. Acesso em: 4 out. 2021.
PREFEITURA DE APARECIDA. Estatuto da Região Turística da Fé, 26 jul. 2019. Disponível em: < https://www.aparecida.sp.gov.br/portal/noticias/0/3/326/estatuto-da-regiao-turistica-da-fe >. Acesso em: 5 out. 2021.
REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ. Conheça Cunha. Disponível em: < https://rtdafe.com.br/cunha/ >. Acesso em 4 out. 2021.
______. Sobre a região. Disponível em: < https://rtdafe.com.br/ >. Acesso em 4 out. 2021.
SÃO PAULO (Estado). LEI COMPLEMENTAR Nº 1.261, DE 29 DE ABRIL DE 2015. Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas. São Paulo (SP), abr. 2015. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei.complementar/2015/lei.complementar-1261-29.04.2015.html >. Acesso em: 5 out. 2021.
SÃO PAULO (Estado) / Secretaria de Turismo. Município de Interesse Turístico: cartilha de orientação de acordo com a Lei 1261/15. São Paulo: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, 2015. Disponível em: < https://www.turismo.sp.gov.br/publico/include/download.php?file=108 >. Acesso em: 4 ou. 2021.
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SECRETARIA DE TURISMO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Tipologia Turística das Estâncias Paulistas – 2017. “Turismo em São Paulo”, TUR.SP – Companhia Paulista de Eventos e Turismo | Disponível em: < http://www.turismoemsaopaulo.com >. Acesso em: 11 jan. 2018.
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VELOSO, J. J. de O. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1995.

Cunha: maior produtora paulista de leite

Fazenda Aracatu, uma das inúmeras propriedades rurais de Cunha que produzem leite e queijo. Foto: Fazenda Aracatu.

Os resultados do Censo Agropecuário de 2017, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram que o município de Cunha é o maior produtor de leite do estado de São Paulo, com uma produção anual de 32,5 milhões de litros, sendo seguido por Araras. Estima-se que o total produzido seja bem maior que o apurado pelo Censo, já que muitos produtores declaram uma quantidade inferior à sua real produção. A produção estadual de leite chega a 1,5 bilhão de litros. De qualquer forma, o resultado municipal evidencia a importância da pecuária leiteira para economia local e a necessidade do governo estadual de investir na pecuária cunhense, visando aumentar a produtividade, a qualidade do leite e a melhora do plantel, já que é o maior produtor estadual de leite, mas a baixa produtividade é um desafio a ser superado.

Cunha possui o 6º maior efetivo de rebanho bovino do estado, com 75.347 cabeças, sendo o maior da região do Vale do Paraíba paulista. A liderança estadual fica com Mirante do Paranapanema, município da região de Presidente Prudente, na divisa com o Paraná, com 101 mil cabeças de gado. Além da produção total, nosso município ocupa a liderança no ranking estadual em número de vacas ordenhadas (13.951 cabeças), no valor obtido com a produção de leite de vaca (35,8 milhões de reais) e no número de estabelecimentos agrícolas que se dedicam à pecuária leiteira (1.281 unidades). Aliás, a maioria (61%) das propriedades rurais locais são voltadas, pelo menos em parte, à produção de leite, uma que vez que as duas modalidades de pecuária (leite e corte) ocorrem de maneira simultânea, em consórcio, nos minifúndios de Cunha.

Ao analisar o resultado desse último recenseamento agrícola, é possível perceber que Cunha é, ao lado de Mirante do Paranapanema, o município que possui a mais forte agricultura familiar do estado, devido à grande quantidade de estabelecimentos agrícolas (o maior número do estado, com 2.287 unidades de produção), à equânime estrutura fundiária (área média dos estabelecimentos é de 35,5 hectares) e à diversidade produtiva, ainda que em pequena escala, de cada unidade agrícola. A ocorrência de víveres, de equinos e muares e de plantações de hortifrutis em quase todos os sítios e pequenas fazendas evidenciam que em Cunha o modo de produção caipira, típico do interior paulista, ainda resiste e persiste em pleno século XXI. Por agricultura familiar entende-se que é aquela onde a gestão da propriedade é compartilhada pela família e a atividade produtiva agropecuária é a principal fonte geradora de renda da propriedade, sendo diferenciada da agricultura comercial pelo Decreto Federal nº 9.064, de 31 de maio de 2017. Como se nota, a agricultura familiar é uma força econômica do nosso município, precisando ser mais apoiada por todas as esferas do poder público, para que possa garantir renda, emprego e permanência à população rural. A produção captada por laticínios e cooperativas inspecionadas pelos serviços oficiais chega a 23 milhões de litros por ano. Mas nem todas as propriedades produtoras possuem certificação sanitária ou vendem leite para laticínios regularizados.

Outra questão relacionada à pecuária leiteira em nosso município é a produção artesanal de queijo (frescal, muçarela, nozinho, provolone etc.), que ocorre em fabriquetas espalhadas por diversos bairros rurais. A Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável Regional (CDRS) de Guaratinguetá estima, por exemplo, que o processamento artesanal do leite cunhense chega a atingir cerca de mil propriedades, com produção de cerca de 30 mil litros de leite diários. Apesar de não serem registradas e muitas não contarem nem mesmo com o SIM (Serviço de Inspeção Municipal), trata-se de uma atividade que é sustento de muitas famílias rurais e de pequenos pecuaristas que não são cooperativados e que vendem sua produção a essas fábricas artesanais. As queijarias artesanais buscam a regularização de sua produção, visando receber certificação sanitária dos órgãos competentes, para que possam comercializar com tranquilidade e legalmente seus queijos em Cunha e em outros lugares. Para tanto, organizaram uma associação e buscam apoio junto à Prefeitura de Cunha, visando receber apoio técnico e político para alcançar as certificações exigidas pelos organismos sanitários e de controle, buscando, desse modo, equivaler o SIM, de abrangência no território municipal, ao Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI/POA), certificação federal. Uma vez reconhecida essa equivalência do SIM com o Serviço de Inspeção Federal (SIF), garante-se oficialmente a segurança dos alimentos produzidos em Cunha e possibilita a venda dos queijos feitos aqui para todo o território nacional. Apesar de desconsiderada nas estatísticas oficiais, a produção desses pequenos laticínios familiares não é pequena. Recentemente, inclusive, a produção artesanal e familiar de queijo em Cunha, bem como as reivindicações dos produtores, foi tema de reportagem do canal Terra Viva. O queijo de Cunha já conquistou muitos paladares, resta conquistar o aval da burocracia federal.

A intensa geada de julho mudou a cor da paisagem rural de Cunha e deve trazer prejuízos à produção de leite. Local: bairro do Encontro – Cunha – SP. Data: julho, 2021.

Apesar da liderança estadual, os pecuaristas de Cunha devem passar por dificuldades em 2021. O inverno por si só, pela falta de chuvas, já faz a produção diária de leite despencar, encarecendo o preço do produto nas prateleiras (Lei da Oferta e da Procura). Só que este ano, além da estiagem e do aumento dos insumos produtivos, a intensidade da geada deve afetar a produção de leite e trazer prejuízos aos retireiros. A paisagem rural cunhense mudou de cor, passou de verde a castanho, após as últimas geadas. Os pastos foram tostados pelo congelamento do orvalho. Sem pastagem, os produtores rurais devem recorrer à compra de silagem ou comprar ração industrializada para alimentação do rebanho, o que deve encarecer a produção e aumentar o preço do leite e seus derivados aos consumidores. As dificuldades para o produtor rural cunhense são muitas (como sempre foram), mas a resiliência é a marca dessa gente que, com trabalho pertinaz, tudo supera. E prevalece. Sorte a nossa, pois sem produção não há comida.

Fontes:

CANAL TERRAVIVA. De Cunha-SP para o Brasil: Produtores buscam venda do queijo para fora do município. Youtube, 19 fev. 2021. Disponível em: < https://youtu.be/pykJ-G3Zvps >. Acesso em: 3 ago. 2021.
IBGE. Censo Agropecuário 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. Disponível em: < https://censos.ibge.gov.br/agro/2017/ >. Acesso em: 3 ago. 2021.
SECRETARIA de Agricultura apoia a produção de queijo dos laticínios de Cunha. Governo do Estado de São Paulo, 9 abr. 2020. Disponível em: < https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/secretaria-de-agricultura-apoia-a-producao-de-queijo-dos-laticinios-de-cunha/ >. Acesso em: 8 ago. 2021.

10 curiosidades sobre Lagoinha – SP

Igreja Matriz e Cachoeira Grande: cartões-postais de Lagoinha, no interior de São Paulo.

1. RELIGIÃO: É o município mais católico de São Paulo. Em termos percentuais, segundo o Censo 2010, 93,4% dos lagoinhenses se declaram católicos romanos. Valor relativo bem acima dos registrados no estado e no país. O segundo município mais católico do estado é Ribeirão dos Índios, no Oeste, com 89,1%.
2. PADRES: Devido à importância da religião junto aos seus moradores, em Lagoinha os padres sempre tiveram um papel social e político relevante, destacando-se dois deles: padre Francisco Eloy de Almeida (Padre Chico) e padre Osmar Barbosa, ambos mineiros e já falecidos. O primeiro chegou a Lagoinha em 1.937. Logo se tornou líder religioso, comunitário e político, um defensor da fé e muito querido junto ao povo. A principal escola da cidade faz homenagem à sua figura. O segundo também foi um líder comunitário e muito conhecido e querido não só pelo povo de Lagoinha, mas por muitas pessoas do Vale. Sua clarividência, sempre negada por ele, e seus aconselhamentos eram considerados divinos e eram buscados por muitas pessoas que passavam por problemas. Também era um dos devotos da Menina Izildinha, uma menina nascida em Portugal em 1897 e falecida com apenas 13 anos vítima de leucemia e considerada santa. O catolicismo popular também é muito forte em Lagoinha e há entre muitos moradores a devoção à Sá Mariinha das Três Pontes (Maria Guedes), curandeira e vidente cunhense, considerada santa por muitos. Essa devoção é resultado da proximidade do bairro da Três Pontes com a zona rural lagoinhense, onde muitos moradores visitavam e se consultavam com Sá Mariinha.
3. PADROEIRA – A padroeira de Lagoinha é Nossa Senhora da Conceição. Lagoinha se tornou freguesia de São Luiz em 26 de março de 1.866. Por freguesia se entende paróquia, ou seja, a antiga capela passou a contar padre regular. A capelinha foi construída em meados do XIX, sendo que por volta de 1.863, a imagem da Virgem da Conceição foi trazida por tropeiros de Portugal, segundo a tradição, a pedido da família dos “Antocas” (os irmãos Joaquim e Francisco Antônio Ribeiro e Antônio Alves da Silva e suas respectivas esposas, antigos sesmeiros). Aliás, é a mesma padroeira de Cunha. Isso se deve à influência dos portugueses, pois a devoção à Imaculada Conceição, padroeira da nossa antiga Metrópole, é bastante antiga e interligada a própria história do país ibérico, sobretudo com os grandes acontecimentos decisivos para a independência e identidade nacional durante a Reconquista. Consta como um dos atos fundantes de Portugal, uma Missa pontifical de ação de graças, em honra da Imaculada Conceição, que foi celebrada em Lisboa, recém conquistada aos islâmicos, em 1.147, pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques.
4. NOME: O nome Lagoinha tem relação direta com sua origem tropeira. A palavra “lagoinha” é um diminutivo de “lagoa”. Consta que o sítio onde está a cidade foi, desde o século XVII, um pouso de tropeiros. Estes usavam o lugar como paragem e ponto de apoio, em suas viagens comerciais entre as fazendas, vilas, portos e freguesias coloniais. E nesse lugar, por ser um ponto de descanso e reabastecimento, existia uma pequena lagoa, que servia como bebedouro para as tropas e para uso dos tropeiros, daí então vem o nome que os tropeiros batizaram o lugar: “Pouso da Lagoinha”. Em 1.863, chega na região a família dos “Antocas”. Oriunda de Ubatuba, essa devota família, assim que chegou para a sesmaria que havia recebido, resolveu doar uma gleba de terra no entorno do pouso, para que ali se construísse uma capela dedicada à Virgem Imaculada. Casa após casa, no entorno dessa capela começou a surgir o que viria a ser hoje a cidade de Lagoinha.
5. ELEITORES: Lagoinha possui mais eleitores do que habitantes. Em 2018 eram 5.041 eleitores para uma população total de 4.896 habitantes, segundo estimativa do IBGE para o ano de 2019. Apesar dessa situação causar estranheza e desconfiança, não há nada de errado com ela. É típica de municípios que sofrem perda de população por migração intermunicipal e êxodo rural, como ocorre aqui no Alto Vale do Paraíba, onde a mudança de município de residência não é acompanhada pela mudança de domicílio eleitoral. As pessoas mudam de cidade, mas preferem continuar votando na cidade natal, aproveitando a eleição para rever a família e amigos ou mesmo para participar do pleito no lugar onde possuem relação mais próxima com a política. Cunha também possui um número elevado de eleitores, se comparado à população residente. Consequentemente isso acaba gerando uma alta taxa de abstenção, por essa razão o Tribunal Regional Eleitoral tem sido mais exigente no recadastramento eleitoral no que concerne à comprovação de residência.
6. TAUBATÉ: Atualmente o município possui uma forte ligação e dependência em relação a Taubaté, apesar dos laços históricos e da maior proximidade com Guaratinguetá. Essa ligação com Taubaté se estreitou a partir de 1.981, com a pavimentação da Rodovia Nelson Ferreira Pinto (SP-153), que liga a cidade de Lagoinha com a vizinha São Luiz do Paraitinga.
7. FAZENDAS: Apesar da sede da Fazenda Santana ficar no município de Cunha, próxima à divisa com Lagoinha, os seus donos sempre tiveram mais ligação com Lagoinha e São Luiz do que com Cunha, com destaque para o coronel (da Guarda Nacional) Manoel Antônio Domingues de Castro, figura política importante no passado lagoinhense. Em 1.873, ocupava o cargo de subdelegado na então freguesia pertencente a São Luiz do Paraitinga. Chegou a ser deputado estadual em 1.907. E em 1.892 conseguiu que fossem transferidas para a Vila de Lagoinha as terras de suas fazendas, a saber: as fazendas “Santa Anna” (pertencente a São Luiz do Paraitinga na época) e “João Ferraz” (atual bairro do Ferraz, município de Cunha). Com o advento do República, acabou por prevalecer o princípio da divisa intermunicipal por vertentes e não a partir de interesses particulares.
8. FRONTEIRAS: Vários bairros rurais de Cunha se comunicam mais com Lagoinha do que com nossa cidade. Isso se deve à proximidade e facilidade de acesso com a cidade vizinha. Por estarem na região de fronteira, é mais fácil ir até Lagoinha do que vir até Cunha. É o caso, por exemplo, do bairro do Barro Vermelho. Geograficamente, é Cunha; no entanto, os moradores votam, estudam, fazem consultas médicas, negócios e compras em Lagoinha. Por conseguinte, gera atrito entre as duas prefeituras, pois ambas querem se livrar da prestação de serviços públicos a esses moradores, que no final acabam sendo prejudicados e tendo que reivindicar seus direitos por causa de sua localização. Claro que, do ponto de vista legal, o atendimento aos moradores compete à Prefeitura de Cunha, pois estão dentro de nossa circunscrição territorial e nos recenseamentos, que servem de base para o repasse de verbas estaduais e federais, os moradores entram na soma da população de Cunha. Nos últimos tempos, acordos entre as duas prefeituras têm sido feito no tocante à manutenção das estradas rurais, principal queixa desses moradores.
9. TURISMO: A Cachoeira Grande, no bairro do Faxinal, é o principal ponto turístico de Lagoinha. Com 38 metros de queda livre, é uma das maiores e mais bonitas da região. A cachoeira é formada pelo rio do Pinhal, afluente do rio Paraitinga, que corta o município no sentido oeste-leste. Lagoinha está cercada por duas serras: a do Quebra-Cangalha (Serra Fria ou dos Forros) ao norte e ao sul a do Mar (Serra do Alto do Chapéu).
10. TRADIÇÃO: Lagoinha é uma das cidades mortas do Vale Paraíba, tão bem descritas pela narrativa ácida de Monteiro Lobato. Assim como Cunha, o município entrou em estagnação econômica com a subutilização dos caminhos serranos para escoamento da produção valeparaibana, depois da inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil e com o fim do ciclo do café na nossa região. Atualmente conta com 220 estabelecimentos agropecuários, uma produção leiteira de 25 mil litros por dia e mais 20 mil cabeças de gado. É uma das maiores bacias leiteiras do estado e um dos centros da pecuária de corte da RM do Vale do Paraíba. Se no passado a falta de indústrias e a perda de dinamismo econômico eram entraves, hoje o fato de ser uma cidade bucólica e distante dos grandes centros industriais é um fator que impulsiona o turismo rural e o ecoturismo, atraindo visitantes ansiosos para explorar as belezas com que Lagoinha foi, generosamente, agraciada pela natureza. E tudo isso em um lugar que vem conservando a fé, a tradição e os valores que, repassados geração a geração desde tempos imemoriais, fez esse rincão de São Paulo ser um bastião da mais autêntica cultura paulista.

Mapa e dados de Lagoinha – SP. Cartografia: Jacuhy.

FONTES:
A religiosidade de Lagoinha, SP. Trip Rural, 30 ago. 2019. Disponível em: < http://www.triprural.org.br/a-religiosidade-de-lagoinha-sp/>, acesso em: 18 mai. 2020.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO (ALESP). LEI N. 22, DE 26 DE MARÇO DE 1866. Eleva à categoria de freguesia a capela de Nossa Senhora da Lagoinha, e autoriza o governo provincial a determinar as divisas entre essa Freguesia e os municípios de São Luiz, Cunha, Guaratinguetá e Pindamonhangaba. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/…/…/lei/1866/lei-22-26.03.1866.html, acesso em: 20 mai. 2020.
______. LEI N. 85, DE 6 DE SETEMBRO DE 1892 (Transfere para a villa de Lagoinha fazendas do cidadão Manoel Antonio Domingues de Castro). Disponível em: <http://www.al.sp.gov.br/…/l…/lei/1892/lei-85-06.09.1892.html>, acesso em: 19 mai. 2020.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Lagoinha: São Paulo. Rio de Janeiro: IBGE, 1973. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Y-D-III-2. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/…/GEBIS%…/SF-23-Y-D-III-2.jpg>. Acesso em: 19 mai. 2020.
______. Mapa Municipal Estatístico: Lagoinha – SP. Escala: 1: 50.000. IBGE, Rio de Janeiro: 2011. Disponível em: <ftp://geoftp.ibge.gov.br/…/mapas_municip…/sp/lagoinha_v2.pdf>, acesso em: 20 mai. 2020.
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INSTITUTO CHÃO CAIPIRA MALVINA BORGES DE FARIA. Lagoinha. Disponível em: <http://www.chaocaipira.org.br/cidades/lagoinha>, acesso em: 20 mai. 2020.
LUNÉ, Antônio J. B. de; FONSECA, P. D. da. Almanak da Província de São Paulo para 1873. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado, 1985.
PREFEITURA MUNICIPAL DE LAGOINHA. Turismo religioso. Disponível em: <https://www.lagoinha.sp.gov.br/…/…/0/9/858/Turismo-Religioso>, acesso em: 20 mai. 2020.
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SPINELLI, Evandro. Osmar Barbosa (1928-2011): padre Osmar, o milagreiro que previa o futuro. Folha de S. Paulo. Cotidiano. Obituário. São Paulo, 7 nov. 2011. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0711201115.htm>, acesso em: 20 mai. 2020.
VELOSO, João J. de O. Fazenda Sant’anna – Roteiro Turístico e Histórico de Cunha. Cunha: Museu Municipal Francisco Veloso, dez. 2019. Disponível em: <https://www.facebook.com/joaoveloso.veloso.5/posts/10206544664212941>, acesso em 19 mai. 2020.