A Praça do Rosário, no centro de Cunha, apesar da bela vista para a Serra do Mar, é pouco arborizada e cuidada. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.
A cidade de Cunha é a segunda menos arborizada da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN), de acordo com dados do Censo 2022, divulgados no dia 17 de abril, quinta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a pesquisa Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, nossa cidade apresentaapenas 16,87% de seus domicílios com uma ou mais árvores no entorno. A cidade menos arborizada é Arapeí, com 8,57%. Piquete, outra cidade turística da nossa região, também apresenta um índice baixo, com 25,36%. Vale lembrar que nossa região conta com 39 municípios, cuja população ultrapassa 2,5 milhões de habitantes e é altamente urbanizada, com 94,7% desse contingente vivendo em áreas urbanas.
Soldados paulistas na Praça da Matriz, em 1932. Nota-se as árvores compondo a paisagem da praça.
Cunha em 1940. Árvores ladeavam ruas e praças.
Aqui a Praça da Matriz em uma tomada aérea de 1939, com sua arborização característica.
É interessante perceber as mudanças pelas quais a paisagem urbana de Cunha passou ao longo do tempo. Por exemplo, quando observamos fotos das décadas de 1930 e 1940 (vide na galeria acima), percebemos que era uma cidade muito menor, porém muito mais arborizada do que é hoje. Lembrava aquelas charmosas vilas europeias. As ruas centrais e a Praça da Matriz eram adornadas e ladeadas por árvores. Cunha, naquele tempo, ainda não era uma cidade turística, como é atualmente.
O último grande projeto de arborização da cidade ocorreu na década de 1970, durante o mandato do ex-prefeito José Elias Abdalla (Zelão), que tinha como objetivo embelezar a cidade, na esperança de promover o despertar turístico de Cunha. Muitas das árvores então plantadas, já envelhecidas e malcuidadas, foram, ao longo do tempo, sendo cortadas pela gestão municipal para ampliar ou remodelar as vias públicas — ou pela Defesa Civil, devido aos riscos que apresentavam aos moradores e transeuntes.
Desse projeto urbanístico — um dos muitos idealizados por esse visionário prefeito — restou apenas a arborização da Avenida Padre Rodolfo, no bairro do Alto do Cruzeiro. Por isso, é a avenida mais verde e bonita da cidade. Aquelas sibipirunas são um presente à Santa Casa, aos seus convalescentes e aos moradores do entorno. Esperamos que essa avenida nunca venha a ser descaracterizada, como infelizmente ocorreu com tantas outras.
Praça Cônego Siqueira descaracterizada. Dos bancos em “S”, nos anos 1980/1990, para um arremedo de centro de eventos e festas, uma verdadeira gambiarra. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.
Até a década de 1990, a Praça da Matriz e a Praça Cônego Siqueira — sempre locais de encontro dos cunhenses de todas as gerações — ainda contavam com mais de uma dúzia de árvores. Até mesmo uma vetusta e frondosa araucária, símbolo de Cunha, localizada ao lado, no terreno da Prefeitura (onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Educação), veio a morrer misteriosamente nos últimos anos. Depois que decidiram transformar a praça em um centro de eventos, o verde foi cedendo espaço a estruturas metálicas e plásticas, de gosto estético bastante duvidoso. A arborização, sempre prometida, foi sendo deixada “para depois” — um “depois” com prazo indeterminado, ao que tudo indica. A cada reforma ou remodelação, mais concreto e pedra. E mais árvores sacrificadas. Um contrassenso em um lugar que promove o ecoturismo e outras características naturais como atrativos turísticos.
Vista de drone da Igreja de Nossa Senhora da Conceição – construção de 1731 no estilo barroco paulista, na Praça Cônego Siqueira e da Matriz. Nota-se poucas árvores na praça central. Data: maio de 2018. Autor: Rubens Chaves/Pulsar Imagens.
Em entrevista concedida ao Jacuhy, há alguns anos, o engenheiro agrônomo Glênio Wilson de Campos, da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), que esteve à frente da Casa da Agricultura de Cunha entre as décadas de 1970 e 1980, apontou que a falta de arborização é um dos problemas da cidade, não apenas por uma questão ambiental, mas também estética, considerando o enorme potencial turístico do município. À época, o engenheiro Glênio sugeriu o plantio de pereiras como solução, pois, além de serem árvores frutíferas, adaptam-se bem a ambientes urbanos. Cunha, no passado, chegou a realizar a “Festa da Pera” e era a maior produtora paulista dessa fruta, graças aos inúmeros pomares mantidos por seus pequenos produtores. Obviamente, não podemos deixar de mencionar que a Mata Atlântica — bioma no qual nosso município está inserido — possui uma flora riquíssima, com diversas espécies que se adaptam muito bem aos espaços urbanos.
Embora o Brasil seja o maior país tropical e abrigue a maior floresta do mundo, seus espaços urbanos ainda carecem de árvores. Segundo o IBGE, 66% dos brasileiros vivem em ruas arborizadas, mas um terço mora em vias sem qualquer árvore. “O fato de 66% dos brasileiros viverem em trechos de ruas com pelo menos uma árvore é um número significativo”, afirmou o geógrafo Jaison Cervi, da Coordenação de Geografia do IBGE. “O problema é que as porcentagens variam muito de acordo com a região do país.” Curiosamente, a Região Norte é a menos arborizada. Também não deixa de ser curioso que Cunha, município que abriga duas unidades de conservação em seu território, esteja entre os menos arborizados do Vale. Na verdade, é inaceitável.
A arborização é crucial para melhorar a qualidade de vida nas cidades e combater o aquecimento global. As árvores purificam o ar, reduzem a temperatura, previnem enchentes e diminuem a contaminação dos lençóis freáticos. Em resumo, são essenciais para qualquer ambiente. Mesmo que, em Cunha, elas não estejam “na moda”, sua importância se reafirmará cada vez mais. E voltarão a ser plantadas, seja pelo poder público local ou pela própria população, pois a tomada de consciência é inevitável — e diversos projetos ambientais vêm surgindo em nosso município. O aquecimento global está aí. Todos vão precisar de uma sombra para se proteger.
Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha. Foto: Cemitério de Cunha, década de 1970. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
O Cemitério de Cunha foi inaugurado em 7 de abril de 1868, após mais de uma década de dedicação da Câmara Municipal. Angariar fundos naquele tempo não era fácil. A ação dos administradores locais em prol de um descanso seguro e asséptico aos mortos começou em meados do século XIX. O arcaico hábito de enterrar defuntos no interior de capelas e igrejas vinha sendo questionado pelas autoridades sanitárias do Império.
Entretanto, convém lembrar que essa honra de ser sepultado no interior dos templos sagrados era facultada às elites locais. Aos pobres e remediados, era oferecido o adro da Igreja Matriz. Sim, a praça já foi cemitério. Por isso, no início da década de 1990, quando a Praça da Matriz passou por uma de suas inúmeras reformas, foram encontradas ossadas e vestígios de antigas sepulturas.
Aliás, o jazigo refletia a condição social do falecido. Nem depois de morto se escapava da segregação de uma sociedade estamental. Aos escravizados era destinado o chão seco das fazendas e sítios em que trabalhavam. Os condenados à forca eram enterrados dentro de suas celas, na Cadeia Pública. Por isso, quando o antigo sobrado que sediava a Cadeia, Câmara e Prefeitura foi incendiado, em 1961, na base de suas ruínas foram encontrados muitos restos mortais. Os pobres da zona rural eram enterrados na beira das estradas ou ao lado das capelas locais, dando origem a muitas santa-cruzes, que podem ser encontradas até hoje pelas estradas de Cunha.
Um fato curioso e até anedótico aconteceu quando a Câmara de Cunha concluiu as obras do Cemitério. Tudo estava planejado para o começo de abril, dia 5, um domingo. Todavia, uma vez pronto, faltava a sua razão de existir: cadáveres. Não havia. Ninguém estava morrendo em Cunha naqueles idos. Os ricos, visando manter seu privilégio, queriam continuar sendo sepultados nas igrejas; os pobres e escravizados, por questão de custo e logística, continuavam a ser enterrados na roça. Cidade com pouca população, seria difícil encontrar algum finado ajustado ao calendário político. Foi aí que tiveram a ideia de emprestar um defunto de Paraty, cidade vizinha sempre afligida pelas moléstias tropicais. E de lá trouxeram o primeiro morto, inaugurando, assim, a necrópole municipal.
Cemitério de Cunha em cartão-postal da década de 1970. Fonte: Museu Francisco Veloso.
Uma década após a inauguração peculiar, o Cemitério Municipal finalmente pôde ser devidamente ocupado. Em 1878, a epidemia de varíola varreu o município de Cunha, ceifando muitas vidas. A famigerada e temida peste bubônica, desgraçadamente, povoou o campo-santo de sepulturas.
Em 23 de julho de 1971, o senhor José Oliveira Pinto resolveu se esconder na antiga capela do Cemitério, fugindo de uma forte chuva que atingia a cidade. Uma descarga elétrica atingiu a capela, ceifando sua vida e danificando a estrutura do secular velório.
Vista da Praça São Paulo, da Casa da Agricultura de Cunha e do Cemitério Municipal. Foto: Gislene Gomes. Data: 1978.
Em 20 de abril de 1973, a Prefeitura entregou um Cemitério Municipal remodelado e reformado à população, com um belo gramado à frente e uma estátua de Cristo, com o braço direito levantado, sinalizando sua bênção ao povo de Cunha.
Referência: “A história de Cunha: 1600-2010”, de João José de Oliveira Veloso.
Rua Dom Lino, ontem (década de 1940) e hoje (2020). Fotos: Museu Francisco Veloso e Jacuhy.
A Rua Dom Lino é uma das nossas ruas centrais. Foi assim nomeada em 22 de setembro de 1.877, pela Câmara de Cunha, por ocasião da visita do Rev.mo Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo, pois o religioso ficou hospedado na Casa Paroquial, na mesma rua. O pároco de Cunha na época era o Cônego Antônio Gomes Siqueira, que, posteriormente, também emprestaria seu nome para batizar uma de nossas praças. O cônego foi uma figura importante no âmbito local, tanto no campo religioso quanto no político. Membro destacado e líder do Partido Liberal, quando ainda reinava D. Pedro II.
Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo. Imagem: Página Brazil Imperial (Facebook).
A visita do bispo durou quase 3 semanas e nesse ínterim, que V.Rev.ª contou com afamada hospitalidade cunhense, teve tempo para visitar todas as igrejas da cidade, a Capela da Boa Vista (nosso marco fundador), a vizinha Lagoinha, o distrito de Campos de Cunha, as Águas de Santa Rosa e a Fazenda Pedra Branca.
O bispo diocesano deixou a cidade em 10 de outubro, sendo acompanhado por um préstito de dezenas cavaleiros até a primeira légua do caminho. Levou, além da boa impressão dos cunhenses, uma caridosa quantia angariada pela Câmara, destinada a amenizar o flagelo da seca que castigava o Ceará, sua terra natal.
Era a Câmara de Cunha composta pelos seguintes membros, em 1.877: – João Carlos Freire; – Francisco Mendes Mendonça (alferes); – Antônio Moreira da Silva Querido; – Manoel Albino dos Santos Queiroz; – Manoel Rodrigues da Silva; – Antônio José Vieira (professor); – Antônio Xavier Freire (presidente e juiz municipal).
Interessante é que o registro fotográfico mais antigo que se tem de Cunha foi feito na Dom Lino. Ele aparece no livro “A História de Cunha (1600-2010)”, do professor João Veloso, datado como de 1.868. Aliás, nesse ano, a Dom Lino ainda era chamada de Rua da Lapa. Na fotografia, de qualidade compatível com a época, aparece a torre da antiga Capela da Lapa, demolida em 1.907, e, ao fundo, o sobrado do Paço Municipal, incendiado e demolido em 1.961.
Rua da Lapa na fotografia mais antiga que se tem de Cunha. Data: 1.868. Fonte: Museu Francisco Veloso.
Pessoas, vestidas à moda do tempo, posam para a máquina de fotografia. Grande novidade era essa máquina que capturava momentos! Rua movimentada, Cunha vivia os seus últimos dias de glória. Dessa velha Cunha e desse áureo tempo quase nada restou além dessa fotografia.
Segundo pesquisa de Diogo F. Borsoi (“A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX”, 2020), publicada pelo Museu Paulista, na Rua da Lapa “predominavam casas habitadas por proprietários que as utilizavam apenas quando iam à vila. Havia também oito imóveis destinados à renda de aluguel na vila (…)”. Era a rua onde ficavam as casas dos maiores fazendeiros de Cunha, que só apareciam na cidade por ocasião das festas religiosas, permanecendo esses imóveis fechados boa parte do ano.
Um desses fazendeiros da rua era o coronel Antônio José de Macedo Sampaio, vulgo “Coronel Macedo”. Ele e sua esposa, Maria Francisca de Novaes Fonseca, católicos devotos, eram os zeladores e mantenedores da Capela da Lapa. Sempre estavam à frente da Festa de Nossa Senhora da Lapa, comemorada em 15 de agosto. Tinham casa em frente à capela, na esquina da atual Travessa Paulo Virgínio, onde hoje é o restaurante “Il Pumo” e o “Armazém Arte & Sabores”. Consumiram parte de sua riqueza na conservação e ornamentação dessa capela, chegando a deixar espólios em dinheiro, em seus respectivos testamentos, para a conservação da capela; que, infelizmente, não foram suficientes para mantê-la de pé até nossos dias.
Rua Dom Lino, em 1.978. Foto: Eurindo Braga Perez. Fonte: Página Parada do Tempo (Facebook).
Sobre as ruínas da Capela da Lapa foi erguido o Mercado Municipal, em 1.913. O povo de Cunha, religioso, não viu com bons olhos essa profana troca. Por isso, por muitas décadas, o Mercado, tão lotado em outras cidades, em Cunha virou um espaço anecúmeno, perdendo até mesmo sua função.
Fontes: “A História de Cunha”, João Veloso; “O Cunhense” (jornal) – 1.878; Arquivos do Museu Francisco Veloso; “A paisagem das trocas”, Diogo Borsoi; “Negro Político, Político Negro”, Oracy Nogueira.
Cartão-postal da Agência dos Correios de Cunha. Década de 1980. A Praça Cônego Siqueira em destaque.
Assim era a Praça Cônego Siqueira, no Centro de Cunha, em foto de cartão-postal dos Correios, na década de 1.980. Aquele charme típico de cidade interiorana, que só as do velho Vale Paraíba têm. Dois fuscas e um jipe azul parado no meio da rua, para uma prosa do condutor. Antigo e singular costume esse… À noite, aos sábados e domingos, era um movimento só: circular, até perder a conta, no adro da Matriz. Quem nunca deu “uma vorta na praça”, não é mesmo? Diversão dos cunhenses de então.
A vida, como percebe-se, seguia na santa paz. Saudade de tudo isso, do que era o nosso presente e hoje já virou história.
No início do século XXI, a praça foi toda remodelada. Era a urbanização turística sendo implementada; uma nova etapa da economia cunhense, alterando o espaço urbano da pequena Cunha. Hoje, é mais um centro de eventos, de estética duvidosa.
O turismo cobra um preço caro. Consome até a alma dos lugares.
O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.
“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.
Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.
Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.
É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.
Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.
Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.
Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.
Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.
Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.
No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.
A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.
É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.
A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.
Referências: LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957. MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978. NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992. SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006. SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942. SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Lenda ou fato? O patrono do Exército visitou mesmo Cunha? Podemos confiar na tradição oral dos cunhenses?
Datado da primeira metade do século XIX, provavelmente da década de 1830 (VELOSO, 2014, p. 56), período em que Cunha se beneficiou do desenvolvimento regional proporcionado pelo café, o sobrado da Praça Coronel João Olympio, número 52, esquina com a Rua Dom Lino,oficialmente “Casarão Osmar Felipe”, “é a construção particular mais imponente da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas. Construído em taipa, na primeira metade do século dezenove, consta que nele se hospedou Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, em 1842, quando veio à Província para sufocar a insurreição liberal. É hoje a sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso.” (IEV, 1993).Na época do inventário do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), ainda era propriedade particular, pertencia à professora Dalva Raquel Coelho Nascimento, alugado à Prefeitura de Cunha. É vestígio da fastuosa civilização do café, que cobriu o vale de rubiáceas e riquezas, em meados do século XIX (VELOSO, 1995, p. 28). Essa riqueza, conforme apontou o historiador Francisco Sodero de Toledo (1977), se refletiu no crescimento das cidades e nos melhoramentos urbanos, em escala regional. O crescimento econômico do setor rural incrementava a urbanização, além do mais, as cidades, outrora ocupando um papel secundário, passam a ser o centro da vida política, devido à ação centralizadora do Segundo Reinado, a partir de 1840. Assim, a volumetria e os requintes arquitetônicos dos casarões e sobrados urbanos passaram a ser uma forma dos fazendeiros e líderes políticos locais expressar seu poder político e econômico (MAIA & MAIA, 1977; HERRMANN, 1948), a chamada “arquitetura do café”, além das já conhecidas insígnias: quantidade de escravos, extensão das propriedades, tamanho da sede da fazenda etc. Em prefácio para a obra “Vale do Paraíba: velhas cidades”, o acadêmico Mário Guimarães Ferri (1977, p. 3), resume bem as consequências do enriquecimento regional: “O café originou, no Vale do Paraíba, a aristocracia ‘dos Barões do Café’. ‘Com o café muita coisa mudou’. As casas de morada transferiram-se das fazendas para as cidades. As igrejas foram aformoseadas e as festas religiosas adquiriram maiores requintes; muitos hábitos franceses foram importados; construíram-se santas casas e teatros. Palácio e palacetes abrigaram famílias patriarcais. (…)”. Símbolo de ostentação econômica e política das elites agrárias do passado, há na arquitetura urbana do período uma ânsia para parecer mais importante do é, sobretudo aos olhos dos visitantes, fazendo das vilas e cidades vitrines, muitas vezes bravateando uma glória que não tinham. Não passou desapercebida aos olhos do jornalista viajante Emilio Zaluar (1976, p. 50) essa forma peculiar de demonstrar grandeza no Vale do Paraíba: “Todas as cidades e vilas querem ser cortes, ainda que seus habitantes só tenham por ponto de reunião a casa onde se joga o dominó, e todas as portas se fechem antes do toque de recolher!”. Desse modo, o embelezamento urbano por que passa a então recente cidade de Cunha, elevada a essa categoria em 20 de abril de 1858, era uma forma da elite local, escravocrata, com riqueza advinda de saciar o mercado regional com cereais e toucinho e do trânsito das tropas por cá, demonstrar o seu poder econômico e político.
Desenho de Tom Maia, realçando os traços arquitetônicos do Sobrado, razão pela qual se sobressai entre os demais casarões e sobrados da cidade de Cunha. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, 1993.
Muitos casarões de Cunha não resistiram ao tempo: ruíram-se ou foram demolidos. Por isso, nossos olhares se voltam para o sobrado da praça Coronel João Olympio, um dos poucos que restaram e que nos remetem ao passado imperial de Cunha. Sua importância histórica e pedagógica, com o passar do tempo, ganha relevo, pois “suas paredes abrigaram, nesses já quase duzentos anos de existência, além das famílias que nele residiram: Fórum, Coletoria, agência da Caixa Econômica, Prefeitura, Câmara Municipal, Delegacia de Polícia e Museu. Funcionaram nele ainda clube recreativo e pensão” (SANTOS; VELOSO, 2019). Atualmente encontra-se fechado para reformas (alegação oficial). Como não há reforma alguma por lá, jaz abandonado. Trata-se da construção particular mais importante da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas (IEV, 1993). Construção de taipa de pilão, técnica de construção civil proscrita. Atualmente, pertence à Prefeitura e foi denominado “Casarão Osmar Felipe”, homenagem ao ex-prefeito de Cunha de vários mandatos. Depois de muito tempo abandonado, foi reformado e chegou a sediar a Prefeitura de Cunha por um brevíssimo período (entre 2010-2011), mas logo apresentou infiltrações e problemas em sua estrutura e foi fechado novamente. E assim permanece até hoje.
No mesmo texto, o professor Victor ressalta um importante fato, que os cunhenses mais antigos sempre comentam, quando se referem ao sobrado: “Em 1842, veio o Duque de Caxias do Rio de Janeiro, via Paraty, com a finalidade de apaziguar revoltas liberais em Sorocaba e em Silveiras. Esse fato histórico é o mais importante ligado a esse prédio, por conta do pernoite do Patrono do Exército em Cunha, abrigado sob o teto desse patrimônio arquitetônico.” Entretanto, por ser uma informação repassada pela tradição oral, alguns suspeitavam ser uma lenda. O próprio professor João Veloso me disse certa vez que não era possível confirmar a veracidade desse relato oral, muito embora, por sua consistência e persistência entre os mais antigos, não tivesse a história característica de um “causo” ou coisa fictícia.
Desenho de Tom Maia. Entrada do Sobrado da Praça Coronel João Olympio. Destaque para os detalhes da porta e sacadas. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, de 1993.
Mas novos documentos e relatos vêm surgindo, trazendo a lume situações e lembranças que ajudam a elucidar se o pernoite de fato houve ou se foi fruto da imaginação de alguém. O Arquivo Público do Estado de São Paulo divulgou em sua página no Facebook, em 7 de maio de 2020, um ofício de informação de campanha militar, redigido por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (futuro duque de Caxias), quando estava na Vila de Guaratinguetá, datado de 20/07/1842, endereçado a José da Costa Carvalho (Barão de Monte Alegre), presidente da Província de São Paulo na época, por meio do qual informa que partirá no mesmo dia para a Vila de Paraty, tendo em vista que o movimento liberal já havia sido sufocado em Silveiras e que tinha recebido ordem de regresso à Corte, pelo Governo Imperial. Também informa que deslocou um batalhão para a Província de Minas Gerais, onde a revolta resistia nas vilas de Aiuruoca e São João del-Rei, conforme transcrição (APESP, 2019): “Hoje parto para a Villa de Parati, e logo depois seguirei para a Côrte em virtude das ordens que recebi do Governo Imperial: e no momento em que vou deixar o territorio d’esta Provincia tenho o praser de assegurar a Vossa Excelência á vista das ultimas participações recebidas dos Commandantes de Forças em operaçoẽs no Norte d’esta Provincia, que os ultimos grupos de rebeldes armados forão destroçados na Freguesia dos Silveiras, e suas immediações; e que portanto está pacificada esta Provincia, restando unicamente agora que as auctoridades locáes com prudencia e energia completem esse grande triumpho que obtive, com a poderosa e prompta coadjuvação que me prestou Vossa Excelência.” Considerando que o caminho entre as vilas de Guaratinguetá e Paraty não podia ser feito sem passar pela Vila Cunha, não há dúvida que o futuro Duque de Caxias passou por aqui. Veio pelo antigo caminho aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral e depois seguiu pelo Peabiru, aberto pelos Guaianás, que ligava o planalto ao litoral de Paraty, por onde houve a penetração colonizadora pioneira dos portugueses na região.
O “Casarão Osmar Felipe“, em foto capturada no dia 11 ago. 2019, por Jacuhy.
Sobre o caminho Guaratinguetá-Cunha, hoje Rodovia Paulo Virginio (SP-171), é importante tecer alguns comentários. Foi aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, recebeu ainda sesmarias nas terras do Facão, no final do século XVII. Sobre esse antigo sesmeiro, diz o genealogista Helvécio Coelho (2001, p. 214): “Antes de 1650, foi o ‘descobridor’ de um caminho para o mar ‘com excessivo trabalho’ e obteve uma sesmaria principiando do ribeiro ‘Jacuimiri’, nas bordas das primeiras campinas, com uma légua de testada, meia légua para cada lado do dito caminho, correndo o sertão até a Boa Vista pelo caminho, ao rumo do mar.” Sobre o percurso, relata Oracy Nogueira (1992, p. 67), que de Guaratinguetá a Cunha se levava, no ano de 1.878, 2 dias de viagem, com um pernoite em bairros intermediários (Rocinha, Cedro ou Paraitinga). De Cunha a Paraty, talvez mais 2 dias, já que Cunha está exatamente no meio do caminho entre Guaratinguetá e Paraty. Ainda que a pressa, muitas vezes imposta por necessidades militares, tenha encurtado esse tempo, é improvável demais, pela dificuldade que impõe o terreno montanhoso, que o pernoite em Cunha não tenha acontecido. Convém ressaltar, a título de esclarecimento, que a atual Rodovia SP-171 não segue integralmente o traçado do caminho antigo, aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral.
O sobrado, em foto de 1965, quando era pensão familiar. Foto: R. W. Shirley. Acervo do Museu Municipal de Cunha.
Voltando ao trajeto do Duque, o coronel Daróz (2014) informa que Caxias partiu para Corte em 23 de julho, certamente pelo porto de Paraty. Desse modo, é presumível que o futuro Duque de Caxias tenha pernoitado em Cunha, quando regressava para a cidade do Rio. É deveras impensável que uma autoridade imperial, ao deparar-se com uma vila, tenha recusado o conforto de uma casa coberta, com cama, janta e convivas, para dormir ao relento, junto aos seus soldados, após campanha militar vitoriosa. E como era costume naquele tempo, quando uma autoridade visitava uma vila, preparavam-lhe as melhores acomodações, na melhor casa da cidade. E havia casarão melhor e mais belo em Cunha naquele tempo, do que o da praça Coronel João Olympio, que até hoje nos enche os olhos? Era uma honra para um proprietário acomodar em sua casa os nobres do Império. E poderia ser vantajoso também, fazendo-lhe uma solicitação nas alcovas: algum favor, algum cargo público para um parente… Aliás, receber bem e com festança autoridades eclesiásticas, políticas e militares era hábito das vilas e cidades do Vale de antigamente. Narrando experiência similar na Vila de Pindamonhangaba, Motta Sobrinho (1967, p. 100) ressalta que a vila – no dia de visita de “gente graúda” – tinha a seguinte atmosfera: “(…) o ambiente era festivo e adrede preparado: arcos floridos, bandeiras, flâmulas, foguetórios. (…)”. Cunha, dada a competição atávica entre vilas e cidades que havia na região, não fez por menos à visita do ilustre comandante.
Corrobora a ocorrência do pernoite o depoimento da senhora Maria Amelia Calazans que, ao completar cem anos de idade, recebeu destaque na coluna social do jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de abril de 1936. Residindo na Fazenda da Barra, no município de Paraibuna, neste estado, D. Maria Amelia rememorou os fatos mais importantes de sua longeva vida. Nascida em 24 de abril de 1836, na cidade de Cunha, foi batizada na Igreja Matriz desta cidade pelo cônego Manuel Rodrigues da Silva. Era filha de Antonio Moreira da Silva e Rita Constancia do Espírito Santo Moreira. Casou-se na mesma Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1859, com José Calazans, mudando-se para Paraibuna desde então, onde, junto com seu esposo, adquiriu a Fazenda da Barra. Entre os fatos históricos vivenciados por ela, é relatado: “Conheceu o barão de Caxias, que foi hospedado por sua mãe, em Cunha, quando o illustre general veio a São Paulo apaziguar a revolta de 1842. E rememora até hoje esse facto historiando com todos os pormenores a chegada de Caxias a então florescente cidade de Cunha.” (O ESTADO DE S. PAULO, p. 2, 1936). Infelizmente, dada a exiguidade das notas sociais, os pormenores da estadia do Duque em Cunha não são dados. Uma pena. Todavia, essa nota vem confirmar de forma definitiva o pernoite do Duque de Caxias em Cunha. Não é lenda e nem “causo”. O patrono do Exército Brasileiro dormiu mesmo no velho sobrado.
O Barão de Caxias, circa 1841, em desenho de François-René Moreaux. Fonte: Wikimedia Commons.
O pernoite ficou na História e na memória dos cunhenses. Formalidades como essa, por serem raras, não podiam “passar em branco” nas pequenas vilas do Império. A Câmara de Cunha deve ter preparado uma festa e agitado a pacata vila serrana. Discursos, saudações, repique de sinos na Matriz, missa, pessoas curiosas na rua, olhando ressabiadas os soldados que acompanhavam a comitiva militar do ainda Barão… O isolamento trazia ar de novidade a coisas banais, bastava que destoassem da realidade cotidiana. E convivas, claro. Mas para a elite, para os políticos. A única parte que difere a tradição oral nos repassada dos documentos oficiais é a direção tomada pelo chefe militar. Os documentos oficiais relatam que o Barão chegou à Província de São Paulo pelo mar, via porto de Santos, onde alcançou o planalto de Piratininga e, posteriormente, Sorocaba. E no ofício mencionado, consta textualmente que ele estava de retorno à Corte, após obter sucesso na campanha militar, quando pernoitou na Vila de Cunha. Portanto, ele não passou por aqui quando estava chegando para “pacificar” a Província, mas estava de partida, quando pernoitou. Mero detalhe.
Sobre a Revolta Liberal, tratava-se mais uma briga entre os dois principais grupos políticos do Segundo Reinado: os conservadores e os liberais. Nas eleições legislativas de 1840, os políticos liberais pagaram capangas para espancar adversários, roubar urnas e modificar resultados. Assim, obtiveram a vitória no pleito. Mas o uso de violência, fizeram essa eleição passar para História como “eleições do cacete” e ganharam um irônico lema: “para os amigos pão, para os inimigos pau”. O Conselho de Ministros, formado na maioria por políticos conservadores, apelou a D. Pedro II que exercesse seu Poder Moderador (uma invenção da Constituição de 1.824, para descaracterizar o sistema tripartite de poder) e anulasse os votos da eleição. Anulada as eleições em 1842, os conservadores novamente retomaram o poder. E os liberais resolveram ir às armas para assegurar o resultado (fraudado). Em S. Paulo, segundo Daróz (2014) “A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província –, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari.” A Revolta começou a ganhar contornos separatistas, e o Império agiu rápido, enviando o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, sob a liderança do Barão de Caxias, para sufocar o movimento. Coronel Dároz (2014) assinala: “preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou o Brigadeiro Luís Alves de Lima e Silva, Barão de Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.” Em julho, a Revolta foi sufocada em São Paulo. Em Minas Gerais, duraria até agosto. Dom Pedro II, com sua política de apaziguamento de ânimos, concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. Para Caxias, a vitória resultou em promoção a Marechal-de-Campo.
O “Casarão Osmar Felipe” em 1993, então sede da Prefeitura de Cunha. Foto: Prefeitura Municipal de Cunha.
Com quase 200 anos, o casarão resiste no centro de Cunha. É tombado tanto pelo COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha), órgão municipal, através do Decreto Municipal nº. 014/2008, de 18 de abril de 2008 (Rerratificado pelo Decreto Municipal nº. 046/2009), que o colocou no primeiro grupo de proteção: “GP1 – Proteção integral das fachadas, volumetria e interior da edificação”; quanto pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), conforme Resolução SC-12, de 26-2-2018, que “dispõe sobre o tombamento de conjunto de imóveis localizados no município de Cunha”. Uma testemunha ocular das coisas acontecidas e findas, parafraseando os dizeres do historiador Paulo Prado, “última testemunha presente das lutas, ambições e glórias do passado.”.Mas até quando? O professor Victor, sempre dedicado às causas mais nobres e culturais desta terra, já fez o alerta: “Urge, desse modo, que todo o empenho e todas as ações possíveis para sua preservação sejam buscados e conquistados, para que a História, a Cultura e a Memória continuem a se fazer presentes e vivas no centro histórico da Estância Climática e Turística de Cunha – SP, visto que, se soubermos de onde viemos, saberemos para onde vamos.”.
Desejoso que essas ações sejam iniciadas o quanto antes, espero ver esse patrimônio restaurado em breve. E funcionando. Quantos equipamentos culturais não podem ser instalados ali? Do contrário, se o abandono persistir, só nos restará compartilhar do mesmo lamento e indignação de Cora Coralina, ao ver as ruínas de um sobrado em sua Goiás Velho:
“(…) Fechado. Largado. O velho sobrado colonial de cinco sacadas, de ferro forjado, cede. Bem que podia ser conservado, bem que devia ser retocado, tão alto, tão nobre-senhorial. (…) Quem se lembra? Quem se esquece? (…)”
Não esqueci e não vou deixar que esqueçam. Queremos o sobrado de pé. E aberto a todos.
Referências: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP), Fundo José da Costa Carvalho. Notação [BR SPAPESP JCC 125.1.1.14]. Ofício de informação de campanha militar enviado por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (duque de Caxias) a José da Costa Carvalho, barão de Monte Alegre e presidente da província de São Paulo, comunicando sua partida para a vila de Parati e, em seguida para a Côrte, em virtude de ordens recebidas do Governo Imperial; relata a pacificação da província e a partida do 1º Batalhão Provisório de 1ª linha para abater os rebeldes de Minas e ocupar São João Del Rey, remete a Ordem do Dia de despedida do exército Pacificador. Guaratinguetá, 20/07/1842. Disponível em: < https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=3063377987034356&id=182206948484822&__tn__=-R >. Acesso em: 7 mai. 2020. COELHO, Helvécio V. C. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP, n. 8., 2001, p. 209-216. Disponível em: < http://www.asbrap.org.br/documentos/revistas/rev8_art10.pdf >, acesso em 9 mai. 2020. CORA CORALINA. Velho Sobrado (poema). Disponível em: < https://www.escritas.org/pt/t/5489/velho-sobrado >, acesso em 9 mai. 2020. CUNHA (Município). Decreto Municipal n.º 14/2008, de 18 de abril de 2008. Cunha (SP): Prefeitura Municipal de Cunha, 2008. DARÓZ, Carlos R. C. As revoltas liberais de 1842: o Império consolidado. Revista Militar, n. 2549/2550, jun./jul., 2014. HERRMANN, Lucila. Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num Período de Trezentos Anos. Revista de Administração, Ano II, Números 5 – 6, mar. / jun., 1948, p. 3 – 326. INSTITUTO DE ESTUDOS VALEPARAIBANOS (IEV). Cunha – Sobrado: Sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso. (Inventário). Guaratinguetá (SP), 1993. MAIA, Tom; MAIA, Theresa R. C. Vale do Paraíba: velhas cidades. São Paulo: Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo, 1977. MOTTA SOBRINHO, Alves. A civilização do café (1820-1920). 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967. NOGUEIRA, Oracy. Negro Político, Político Negro: a vida do Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992. O ESTADO DE S. PAULO. Sociedade. Ano LXII, n. 20.408, p. 2, ed. de 24 abr. 1936. Disponível em: < https://acervo.estadao.com.br/publicados/1936/04/24/g/19360424-20408-nac-0002-999-2-not-agwqhqg.jpg >. Acesso em: 23 de abr. de 2022. PRADO, Paulo. Paulística: história de São Paulo. 2. ed. Rio de Janeiro: Ariel, 1934. SANTOS, Victor A. dos; VELOSO, João J. de O. Sobrado da Prefeitura de Cunha-SP. Data: 16 de maio de 2019. Disponível em: < https://www.facebook.com/victor.amatodossantos/posts/2184695021567318 >, acesso em 9 mai. 2020. SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Cultura. Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). Conjunto de Imóveis – Categoria: Conjuntos e Sítios Urbanos – Município: Cunha. Resolução de Tombamento: Resolução 12, de 26/02/18. Número do Processo: 33706/95. Livro do Tombo Histórico: inscrição nº 485, p. 152 a 153. Publicação do Diário Oficial: Poder Executivo I, 27/02/18, p. 30. Disponível em: < http://condephaat.sp.gov.br/benstombados/conjunto-de-imoveis/ >. Acesso em: 23 abr. 2022. TOLEDO, Francisco S. Economia cafeeira e aspectos urbanos (1850-1875). Revista da Faculdade Salesiana. Ano XVIII, n.º 26/27, Lorena (SP), 1977, p. 94-108. VELOSO, João J. de O. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1995. ______. A História de Zina: a saga de uma família da zona rural cunhense. São José dos Campos (SP): Mirian Gráfica e Editora, 2014. ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S. Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.
A Torre de Babel, pintura de Pieter Bruegel, o Velho (1563). Fonte: Wikimedia.
A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.
São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.
São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.
A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: “Tenho asfalto na alma … ” ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um “modus-vivendi”; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de “moda”, na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas “exquises”, instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do “taedium vitae”; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem econômica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingênuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, “Os homens excelsos não são originais”.
Justifico por final o título: três humanidades.
A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.
Fonte: FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Páginas várias. 2. ed. São Paulo: Logos, 1963, pp. 106-108. (Coleção Antologia da Literatura Mundial)
* Mário Dias Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 1907 – São Paulo, 11 de abril de 1968) foi um filósofo, tradutor e escritor brasileiro. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de Filosofia Concreta. Um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do Centro de Cultura Social, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo da primeira metade do século XX. Era autodidata e dono de uma enorme erudição. Para saber mais sobre o filósofo clique aqui.
Estudo coordenado por Carlos Cesar Ronquim, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Territorial, apontou que a área ocupada por eucalipto no Vale do Paraíba, em sua porção paulista, saltou de 35.200 hectares em 1.985 para 113.600 hectares em 2.015, ocupando uma área equivalente ao município de São José dos Campos, o segundo maior de nossa região. Um aumento de 323% ao longo de 30 anos. Em 1.985, 2,5% da área total da nossa região estava ocupada por eucaliptos. Em 2.015, esse percentual chegava aos 8,1%da total área do Vale do Paraíba paulista. Esse aumento se reflete na paisagem regional. Todos os habitantes adultos do Vale, os nativos daqui pelo menos, já perceberam esse aumento explicito e visível nos seus lugares e municípios, principalmente a partir das primeiras décadas do século XXI. Seria o eucalipto o novo café?
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 1985. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016.
O aumento da área ocupada pela silvicultura de eucalipto foi acompanhado pela queda das áreas ocupadas por pastagem, solo exposto e atividades agrícolas, conforme pode ser verificado nos mapas que ilustram este artigo. A área ocupada por pastagem ainda ocupa a liderança, com 652.600 hectares, correspondendo em termos relativos a 46,7% do total. Todavia, há 30 anos correspondia a cerca de 68% da área total da região, o que demonstra o quanto o ambiente natural estava degradado pela pecuária e agricultura extensiva tradicional. A área com solo exposto sofreu uma ligeira queda, caindo de 3,7% para 3,3% em 2.015, uma diminuição de 5.500 hectares. É uma constatação positiva, pois a exposição do solo é um agravante ambiental, porque geralmente desencadeia processos erosivos, lixiviação etc. Por fim, a área ocupada por atividades agrícolas também retraiu, saindo de 51.300 hectares em 1.985 para 36.500 em 2.015. Em termos relativos ocupava 3,6% da área total e em 2.015 passou a ocupar 2,6%. Forte indicar que o ciclo agrícola do Vale está em franco declínio, incapaz de concorrer com outras áreas do Brasil, onde impera uma agricultura mecanizada, com produção em larga escala e voltada à exportação.
O retraimento das áreas de pasto e plantação foi sucedido por um aumento da ocupação por matas nativas. Um salto de 249.500 hectares em 1.985 para 455.200 hectares em 2.015. Assim, a cobertura florestal sobre a nossa região aumentou de 17,8% em 1.985 para 32,6% em 2015. Uma constatação auspiciosa e que indica que nem só de más notícias vive a Mata Atlântica. Com o progressivo aumento regional das taxas de urbanização, a área ocupada por construções também aumentou de 38.500 hectares para 63.600 hectares, chegando a uma ocupação de 4,6% da área total do Vale em 2.015. O aumento da mancha urbana das urbes valeparaibanas se dá pelo crescimento da população citadina e pelo forte êxodo rural, que ainda não se esgotou em nossa região. Esvaziam-se os campos; incham-se as cidades. Um reflexo da situação nacional em escala regional.
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 2015. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016
O esvaziamento do campo valeparaibano paulista pode ser um dos fatores que levou ao aumentou da cobertura de mata nativa, indicando uma regeneração dos pastos sujos que, em 1985, correspondiam a 390.600 hectares, ou 27,9% da área total regional. A queda da quantidade das áreas agrícolas também se relaciona com o declínio da agricultura familiar na região e ao êxodo rural. Além do mais, principalmente nos municípios do Alto Vale do Paraíba, as propriedades agrícolas têm adquirido novas funções. Muitas se converteram em sítios de veraneio para pessoas advindas da Região Metropolitana de São Paulo. Outras têm se convertido em lugares para consumo do espaço, com a incipiente, mas promissora atividade turística regional (com exceção de Campos do Jordão, que já é um polo turístico há muitas décadas), com as práticas ecoturismo e turismo rural, que valorizam a existência de mata nativa e torna esse tipo de cobertura do solo um fator de agregação de valor. Há também um aumento da patrulha da Polícia Militar Ambiental, mas essa ação repressiva nunca gerou consciência, apenas medo e desconfiança, além de dividendos para o Estado, com as pesadas multas que aplicam.
O avanço do eucalipto se dá no mesmo contexto, mas parece ser causa do êxodo e não consequência. Essa cultura comercial avança no rastro de estagnação econômica deixado pelas atividades ligadas à agricultura familiar e à pecuária extensiva, cada vez menos lucrativas e cada vez mais inviáveis para as pessoas da roça. É impossível os agricultores e pecuaristas do Alto Vale, adeptos de técnicas rudimentares, competirem com os agricultores e pecuaristas de outras regiões do Brasil, que incorporam técnicas modernas, mecânicas e automatizadas na produção. Diante desse cenário, há um barateamento da propriedade agrícola regional, tornando-a interessante às grandes empresas de papel e celulose do Brasil, pois a região possui uma excelente localização, possui vasta malha rodoviária e está entre as duas maiores metrópoles do país e relativamente próxima aos centros industriais e aos portos. Uma vez adquiridas, sempre de vários proprietários do mesmo bairro e ao mesmo tempo, com intuito de pressionar – de forma covarde – os mais proprietários mais resistentes, ocorre a expulsão da população local, pondo fim à existência do bairro rural. Cria-se um verdadeiro “deserto verde”, levando a antiga propriedade familiar, passada de geração a geração, e que atendia ao mercado local e às necessidades familiares, a atender às demandas do mercado internacional, se articulando e se organizando a partir de uma lógica exógena e desvinculada totalmente do lugar. A celulose é um dos produtos de exportação do Brasil e sua venda tem sido destinada principalmente para a Rep. Popular da China, EUA e Países Baixos. Não é à toa que na vizinha São Luiz do Paraitinga (SP) já existe um movimento local de resistência ao avanço desenfreado da eucaliptocultura, causadora de impactos ambientais, sociais e na saúde do povo da roça, devido ao uso indiscriminado de formicidas e outros agrotóxicos em larga escala.
Afinal, quem realmente ganha com o avanço das plantações de eucalipto? A população do lugar eu sei que não é. Para os boias-frias, que são contratados de maneira precária por empresas terceirizadas a fim de realizar o plantio, o controle de pragas e a limpeza dos pés de eucalipto, eu aposto que não também. Já a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e a Suzano Papel e Celulose eu tenho certeza que sim. Quem mais?
Ou as saúvas acabam com os eucaliptos, ou as empresas de eucalipto vão acabar com todo universo caipira da região. Vida longa às saúvas!
“A maioria do povo mora na roça”, diziam os cunhenses a qualquer forasteiro, que constatar que a cidade de Cunha é muito pequena, acabava atacando nosso ego interiorano. Perdemos essa desculpa para a estatística. Pela primeira vez na História do município de Cunha, a população urbana ultrapassou a população rural. A urbanização crescente é uma tendência de todo o país e um processo pelo qual Cunha vinha passando nas últimas décadas. Em 2000, a porcentagem de população urbana era de 48,22% (11.134 habitantes) e a rural era de 51,78% (11.956 habitantes), ou seja, a população urbana cresceu em termos relativo e absoluto, enquanto a rural caiu em ambos. Repetiu-se em Cunha uma tendência da caracterizadora da urbanização brasileira. No estado de São Paulo, a população rural também caiu em termo absoluto (e no relativo também, idem), de pouco mais de 2,4 milhões em 2000 para cerca de 1,7 milhão em 2010. Isto aponta a pertinência do êxodo rural no território paulista, unidade federativa que viveu mais intensamente o processo de industrialização e urbanização nacional.
Fonte: IBGE – Censo 2010.
A taxa de urbanização cunhense cresceu 7,42% em 10 anos, o que corresponde um crescimento médio anual de cerca de 0,75%, sendo assim, é provável que a população urbana tenha superado a rural em 2003, no início da década de 2000. A taxa de urbanização de Cunha (55,6%) é ainda muito baixa em relação ao estado de São Paulo e ao Brasil. Em São Paulo chega aos impressionantes 96%; bem acima dos países desenvolvidos, no Reino Unido, por exemplo, que está em 84%, a mesma do Brasil. Assim, Cunha é um atípico município do Sudeste brasileiro, um território bastante ruralizado na área mais desenvolvida, industrializada e urbanizada do país. Aqui, o universo rural ainda exerce forte impacto e influência sobre a economia e na sociedade.
Outro fator importante é tratar do que foi considerado urbano para o IBGE. Neste caso, o instituto considera a organização do quadro territorial municipal e os seus perímetros. Todos esses perímetros devem ser definidos por lei municipal e sendo contidos dentro dos limites municipais. O Município de Cunha está assim organizado:
Cidade: a sede do município, no caso a cidade de Cunha;
Vilas: sedes de distritos, no caso a vila de Campos de Cunha;
Áreas Urbanas Isoladas (AUI’s): localidade com característica urbana separada da cidade ou das vilas, no caso temos duas – AUI do B. do Paraitinga e AUI do B. da Bocaina de São Roque.
O bairro rural da Bocaina, que tem igreja, rua, unidade básica de saúde, escola estadual até o 9º ano e outros elementos de centralidade/urbanidade, foi pela primeira vez recenseado como urbano, como uma área urbana isolada. São consideradas urbanas por lei municipal, todas feitas sem nenhum critério científico. Embora tratar essas AUI’s como área urbana seja questionável geograficamente, isso não teve impacto grande sobre a taxa de urbanização, porque só na cidade de Cunha reside mais 50% de toda a população municipal.
Observação: Texto escrito em 14 de janeiro de 2013, uma brevíssima análise dos resultados do Censo do IBGE de 2010.