
Encravada nas curvas sinuosas do Vale do Paraíba, abraçada pelas escarpas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é uma daquelas cidades que nos remetem ao passado. Seu casario colonial em taipa de pilão e pau-a-pique, suas tradições seculares como a Festa do Divino Espírito Santo e o famoso Carnaval de Marchinhas agitam a história de um lugar, que no passado, foi um próspero entreposto comercial entre a serra e o litoral, por onde escoavam os produtos da lavoura do planalto, por meio de tropas, rumo ao porto de Ubatuba. Porém, a mesma geografia encantadora que emoldura a cidade carrega uma vulnerabilidade histórica. O sítio de São Luiz se assenta, nos dizeres de Ab’Saber, o filho ilustre, em um lóbulo meândrico, às margens do Rio Paraitinga. Meandros estreitos, topografia de várzea e vales encaixados formam um conjunto paisagístico capaz de desencadear cheias sazonais devastadoras.
Quando pensamos na força das águas em São Luiz do Paraitinga, a memória coletiva nos remete imediatamente, por proximidade temporal, à catástrofe de janeiro de 2010, quando o rio subiu mais de 12 metros, destruiu a histórica Igreja Matriz e devastou o centro histórico. O que poucos sabem, no entanto, é que em fevereiro de 1882, mais de um século antes, a cidade viveu um drama semelhante, documentado nas páginas dos jornais do Correio Paulistano.
Um fevereiro chuvoso
Nas últimas semanas de fevereiro de 1882, pancadas torrenciais de chuva castigaram o Vale do Paraíba. Sobretudo as áreas serranas como Cunha, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. O Rio Paraitinga, afluente do Paraíba do Sul, transbordou entre os dias 22 e 24 de fevereiro, avançando sobre o casario imperial de São Luiz, cidade margeada pelo rio.
As notícias da época, publicadas no periódico paulistano Correio Paulistano (que replicava relatos de jornais locais como a Gazeta de S. Luiz, e Redempção), relatam os acontecimentos do desastre hidrológico e a dimensão dos danos e prejuízos à comunidade local.
Em edição de 23 de fevereiro de 1882, o Correio Paulistano advertia que as águas já ultrapassavam marcos históricos antigos: “Relatam os habitantes desta cidade que, após a magna enchente que houve em 1863, a qual causou panico e grandes prejuizos á localidade, nenhuma ainda chegou a altura da que se manifestou esta semana no Parahytinga, cujas aguas engrossadas consideravelmente, chegaram até os umbraes das cozinhas de algumas casas que se acham mais chegadas ao rio.” Diferente do que se podia imaginar no início, a água não parou por aí. Nos dias seguintes, o Paraitinga continua subindo. A população acompanha atônita.

Ruas ou rios?
As ruas de São Luiz viraram rios. O Paraitinga foi entrando sem pedir licença. A edição do Correio Paulistano de 4 de março de 1882 (transcrevendo a Gazeta de S. Luiz, de 25 de fevereiro) trouxe detalhes minuciosos do ápice do desastre: “Esta cidade está sendo victima de uma inundação, causada pelas aguas do Parahytinga, que começou a augmentar de volume desde o dia 22. E acrescenta: “Rodou a ponte que se achava a entrada da cidade e que dava passagem para Taubaté e outros pontos. As ruas do Barão do Parahytinga, 31 de Março, D. Pedro II, Rosario, Fazendeiros e praças da Matriz e Mercês estão alagadas; nellas navegam canôas salvando pessoas e objectos”.

O relato descreve a destruição dos prédios históricos e o pânico da população: “As casas d’estas ruas e praças estragaram-se e já desabaram as dos srs. capitão Laurindo Pereira do Campos, capitão Generoso Pereira do Campos, escrivão do orphãos, José Antonio Guerra, capitão José Maria do Gouveia; os fundos do palacete da exma. sra. baroneza do Parahytinga abateo, bem como a casa do redactor do ‘Redempção’ e a do 2º tabellião interino. Os habitantes d’aquellas ruas e praças refugiaram se nas egrejas Matriz, Rosario, Mercês, na casa da camara e nos pontos mais elevados”.
Em 9 de março de 1882, o jornal trazia novos relatos transcritos do Redempção, um periódico luizense, destacando a elevação impressionante do leito do rio: “O rio Parahytinga, que sahio do seu leito no dia 23 do passado [fevereiro], invadira a cidade, inundando-a nos dias 23 e 24, elevando as suas águas a mais dois palmos de altura da fallada enchente de Janeiro de 1863.[…] Na rua dos Fazendeiros a água chegou à altura de 10 palmos!” E acrescenta: “A ponte da cidade foi levada pela impetuosidade das águas; a torre e frontispício da matriz abateram e ameaçam cahir.” Note-se, aqui, um agouro: já em 1882 a estrutura da Igreja Matriz sofria abalos e ameaçava ruir por conta da inundação, uma terrível premonição do que viria, de fato, a acontecer no limiar do ano de 2010.

Prejuízos e isolamento
Além das perdas materiais no centro urbano, a inundação de 1882 cortou as artérias de comunicação de São Luiz do Paraitinga com o restante da Província de São Paulo. A cidade ficou praticamente isolada.
O trecho da edição de 22 de abril de 1882 resume o estrago na infraestrutura regional: “Accresce, porém, que cahiram diversas pontes do municipio, tornando assim muito difficil as communicações com a cidade, notando-se entre ellas a ponte sobre o rio Parahytinga que banha a cidade de S. Luiz e a ponte sobre o rio Parahybuna na estrada que conduz a Ubatuba; a primeira acha-se na estrada que liga S. Luiz a E. F. do Norte, em Taubaté, e a segunda na estrada por onde passam os productos da lavoura do municipio para o porto de Ubatuba.”

Esses danos atingiram as vias principais de circulação de São Luiz, comprometendo sua histórica função de entreposto comercial, rota intermediária entre o Vale e o mar. Os prejuízos econômicos foram avaliados em centenas de contos de réis, uma fortuna astronômica para a época: “Os prejuízos na cidade são orçados em perto de duzentos contos, mas se á estes acrescentarmos os causados pela cheia do ribeirão do Chapéo e grandes trovoadas nos dias 24, 25 e 26, podemos calcular em 300 contos o de todo o município.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). Diante do caos, produtores locais e lavradores enviaram apelos desesperados ao Presidente da Província (equivalente ao atual Governador), como consta na edição de 30 de abril de 1882: “Os infelizes lavradores de S. Luiz, lutam não só com a crise que nos acabrunha como tambem com a impossibilidade de transportar os seus productos, devido ao descuido, pouco caso e a impiedade com que temos sido tratados pelo governo […] pedimos instantemente que não deixe ao desamparo os pobres luizenses…”.

Sem contato com o restante da Província, o colapso econômico era iminente. São Luiz dependia das suas vias de circulação e do trânsito de tropas para sobreviver economicamente. O apelo urgente ao orçamento do governo provincial era a saída.
Solidariedade nas horas difíceis
Apesar do desespero, os relatos de 1882 também registram atos de humanidade, de ajuda mútua e união comunitária. Em meio às perdas, comerciantes e cidadãos não mediram esforços para resgatar vizinhos e distribuir mantimentos: “Felizmente não tivemos vida a lamentar, mas alguns cidadãos escaparam de ser victimas de sua dedicação[…] O exmo. sr. Barão de Parahytinga, três ou quatro dias após a enchente, mandou alguns cargueiros de gêneros alimentícios para serem distribuídos com os pobres.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). O jornal registra ainda uma lista de moradores e nomes notáveis da sociedade luizense que atuaram no socorro das famílias atingidas. Nas tragédias, a solidariedade e a hospitalidade, tão características das sociedades caipiras, emergem com força maior. Em 2010, durante a inundação do centro histórico, os operadores e instrutores de turismo de aventura da cidade usaram botes de rafting para resgatar mais de mil pessoas ilhadas e transportar suprimentos essenciais.
Desastres que se repetem

A geografia de São Luiz do Paraitinga, cravada em uma bacia hidrográfica recortada por serras íngremes e vales estreitos, faz com que a água acumulada nas cabeceiras da Serra do Mar e da Bocaina convirja com velocidade e intensidade para o leito do Paraitinga. Sempre quando chove muito em Cunha, o Paraitinga inunda São Luiz. Foi assim em 1882 e em 2010. Por isso, o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em Cunha é tão importante para a cidade.
| Aspectos | Inundação de 1882 | Inundação de 2010 |
| Causa | Chuvas volumosas e contínuas no mês de fevereiro. | Precipitação extrema acumulada na virada do ano (31 de dez. 2009 – 1 de jan. 2010 (mais de 300 mm, principalmente nas cabeceiras do Paraitinga). |
| Dinâmica do Rio | Transbordamento do Rio Paraitinga atingindo 6 a 8 metros acima do leito. | Elevação do rio em mais de 12 metros acima do nível normal |
| Impacto no Patrimônio | Danos e desabamentos dos casarões de taipa, desabamento de pontes e trincas no frontispício da Matriz. | Destruição total da Igreja Matriz, da Capela das Mercês e desabamento de casarões tombados. |
| Isolamento | Queda das pontes para Taubaté e Ubatuba; tráfego feito por canoas e baldeação. | Interdição das rodovias Oswaldo Cruz e estradas vicinais; isolamento por dias. |
| Resgate e Apoio | Resgates comunitários com canoas de madeira e solidariedade dos moradores locais. | Ações de resgate por helicópteros e botes infláveis das equipes de rafting; mobilização de voluntários e da Defesa Civil. |
Em 1882, os jornais falavam em canoas navegando por cima dos balcões das lojas na Rua dos Fazendeiros. Em 2010, o cenário foi dolorosamente idêntico: o centro histórico se transformou em um grande lago corrente. O núcleo original da cidade, onde se eleva a igreja, implantou-se na planície de sedimentação do rio Paraitinga, correspondendo à margem convexa de um meandro. Com o crescimento urbano, a cidade expandiu-se pelo mesmo lado do rio, ocupando também a margem côncava de outro meandro imediatamente a montante, além de avançar pelas colinas cristalinas ao redor. A localização de seu sítio urbano a expõe a esse risco hidrológico.
Lições do tempo

A história de São Luiz do Paraitinga é uma história de simbiose com suas águas. O mesmo rio que traz vida e fertilidade, que batizou a urbe, que aterrou o sítio onde os casarões históricos se assentam pode extravasar, ocupar sua planície, causando perdas de vidas, ferimentos, doenças, desalojamentos, falências, arruinando o inestimável patrimônio histórico daquele lugar.
Reexaminar os jornais de 1882 nos lembra que a memória e o conhecimento geográfico são as melhores ferramentas para conviver com a força da natureza, que são cíclicas e incontroláveis. É preciso, portanto, conhecê-las para se prevenir. É preciso se prevenir para preservar o patrimônio histórico. Com as mudanças climáticas, eventos extremos serão mais comuns. Novas inundações acontecerão. A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) é uma das soluções para superar as adversidades vindouras. Ao fazer uma abordagem pedagógica e comunitária, a ERRD cria uma cultura de prevenção, resiliência e autoproteção frente a ameaças socioambientais e climáticas. Integra, assim, o conhecimento científico aos saberes locais para desnaturalizar os desastres, mostrando que, embora os eventos naturais (como inundações) ocorram, o risco e a tragédia são construções sociais mitigáveis pela ação da sociedade organizada.
São Luiz do Paraitinga sobreviveu a 1863, resistiu bravamente em 1882 e renasceu em 2010. A força das águas do Paraitinga não esmoreceu a resiliência do luizense. Calcado em sua rica e história e cultura, o povo de São Luiz nunca perde o ânimo. Quando as chuvas cessam nas cabeceiras, o Paraitinga se amansa e volta ao seu leito; o luizense, com tenacidade, reconstrói tudo de novo. As coisas se ajeitam, a vida e o rio seguem o seu curso.
Referências:
Ab’Sáber, A. N. (2003). Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial.
Allucci, R. R., & Schucchi, M. C. D. S.. (2019). São Luiz do Paraitinga: o imaginário fundacional e suas projeções. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 27, e 15.
Borsoi, D. F.. (2021). São Luiz do Paraitinga: em que medida iluminista? Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 29, d1e28.
CORREIO PAULISTANO (várias edições de 1882) – Hemeroteca Digital Brasileira.
Müller, N. L. (1969). O fato urbano na Bacia do Rio Paraíba: Estado de São Paulo (Série A – Biblioteca Geográfica Brasileira, Publicação n.º 23). Instituto Brasileiro de Geografia.
Petrone, P. (1959). A região de São Luis do Paraitinga: (Estudo de geografia humana). Revista Brasileira de Geografia, 21( 3), 239-336.
Tominaga, L. K., Santoro, J., & Amaral, R. do. (Orgs.). (2015). Desastres naturais: Conhecer para prevenir (3ª ed.). Instituto Geológico.













































