Aves de Cunha: Biogeografia, Conservação e Observação

Montagem com duas aves raras avistadas em Cunha. Fotos: WikiAves. Edição: Jacuhy.

Cunha tem se destacado como uma das localidades mais propícias à observação de aves (birdwatching) em São Paulo, ocupando, atualmente, a 27ª posição no ranking estadual de espécies fotografadas, segundo o portal WikiAves, com 381 espécies identificadas em seu território.

Estrategicamente encravada entre as serras do Mar e da Bocaina, com duas unidades de conservação de proteção integral em seu território, Cunha possui uma geografia privilegiada. O gradiente de altitude cria diferentes microclimas e vegetações. É por isso que, na lista de espécies catalogadas, aparecem tanto aves típicas de áreas mais frias e elevadas (como a saudade, o fruxu e a borralhara-assobiadora) quanto espécies dos vales. A presença dessas unidades garante a proteção de matas maduras e contínuas, elemento fundamental para a sobrevivência de águias florestais, da jacutinga e dos tapaculos.

As aves fotografadas no município são características da Mata Atlântica, mais especificamente das florestas úmidas de encosta (Floresta Ombrófila Densa) e de altitude, típicas do Sudeste e do Sul do Brasil. Os registros indicam um alto grau de endemismo, visto que espécies como a jacutinga, o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), a araponga, o tangará (Chiroxiphia caudata), a saíra-sete-cores (Tangara seledon), além de ampla variedade de tapaculos, tovacas e choquinhas, são exclusivas desse bioma, onde evoluíram e fora do qual não existem. A presença de vegetação primária ou em estágio avançado de regeneração é decisiva para esse cenário. Não obstante, a avifauna local também reflete um mosaico composto por áreas florestais permeadas por zonas rurais e de borda.

O relevo montanhoso de Cunha favorece a biodiversidade, ocorrendo aves de diversas espécies. Foto: Airbnb.

Matas extensas garantem o sustento de predadores de topo: o registro de grandes águias florestais, como o gavião-pato e o gavião-pega-macaco, funciona como bioindicador de maciços florestais contínuos, já que essas aves demandam vasto território e abundância de presas. Da mesma forma, as florestas maduras abrigam grandes dispersores de sementes; a presença da jacutinga, do macuco e da araponga evidencia a existência de árvores adultas (como canelas e o palmito-juçara) capazes de produzir frutos em quantidade suficiente para alimentar aves de grande porte, espécies que costumam ser as primeiras a desaparecer em áreas desmatadas ou sujeitas à caça.

Já os sub-bosques preservados, graças ao microclima específico, sustentam famílias restritas ao solo florestal (como tapaculos, tovacas e macuquinhos), consideradas os bioindicadores mais rigorosos de integridade ambiental. Por terem voo curto e dependerem de um estrato escuro, úmido e rico em serrapilheira, essas aves não atravessam pastagens, atestando que a base da floresta permanece intacta. Em contrapartida, as áreas abertas e antropizadas (pastos e lavouras) atraem espécies como o quero-quero, a seriema, o anu-branco e o pardal, adaptados a bordas de mata, estradas de terra e sedes de fazenda.

Diversas espécies endêmicas da Mata Atlântica e ameaçadas de extinção já foram registradas em Cunha. Constantemente citadas em inventários de fauna, listas vermelhas (ICMBio/IUCN) e diagnósticos ambientais, essas aves atuam como espécies-chave para aferir o estado de conservação do bioma. Por serem naturalmente raras e terem sofrido expressivo declínio populacional, seu registro fotográfico é notável. Em Cunha, destacam-se: jacutinga (Aburria jacutinga), papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), águia-cinzenta (Urubitinga coronata), araponga (Procnias nudicollis), pixoxó (Sporophila frontalis), caneleirinho-de-chapéu-preto (Piprites pileata), maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni), papa-moscas-estrela (Hemitriccus furcatus) e saí-de-pernas-pretas (Dacnis nigripes).

A jacutinga representa um dos maiores tesouros da Mata Atlântica atual: criticamente ameaçada, depende dos frutos do palmito-juçara e de outras árvores maduras. A maria-leque-do-sudeste, igualmente rara, associa-se de forma estrita a cursos d’água límpidos no interior de matas primárias. O caneleirinho-de-chapéu-preto, de hábitos discretos no dossel, passa facilmente despercebido aos olhares menos atentos, enquanto o saí-de-pernas-pretas, que percorre a copa em busca de frutos e flores, é consideravelmente mais difícil de avistar do que o saí-azul. O registro simultâneo de especialistas de sub-bosque, águias florestais e aves dependentes de taquaras comprova o nível excepcional de conservação dos ecossistemas locais.

Registro do Grimpeiro (Leptasthenura setaria), fotografado em Cunha por Rogério Magalhães. A ocorrência desse pássaro está intimamente associada às Araucárias.

Foram identificadas também espécies quase ameaçadas que, embora não figurem na categoria máxima de risco, sofrem com a perda de habitat e a caça, exigindo monitoramento contínuo (algumas já constam como “Vulneráveis” em listas estaduais paulistas). Entre elas, encontram-se o macuco (Tinamus solitarius), o araçari-banana (Pteroglossus bailloni), a tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris), o sanhaço-pardo (Orchesticus abeillei), o sabiá-cica (Triclaria malachitacea), o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), o pica-pau-dourado (Piculus aurulentus), o cuiú-cuiú (Pionopsitta pileata) e o gavião-pombo-grande (Pseudastur polionotus). A presença de espécies com alta sensibilidade ecológica, como a jacutinga e a maria-leque-do-sudeste, atesta a qualidade ambiental superior do município.

Em 30 de agosto de 2026, data de elaboração deste levantamento, o WikiAves contabilizava 381 espécies registradas em Cunha (373 com registros fotográficos e 182 com gravações sonoras, totalizando 4.186 arquivos). O município consolida-se, assim, como destino de excelência para quem pratica a observação de aves. Derivado dos termos ingleses birdwatching e birding, o verbo “passarinhar” designa a atividade recreativa e científica de contemplar aves em vida livre.

Aspecto do rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Cunha. A unidade de conservação é um dos espaços privilegiados para prática do birdwatching, em Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2026.

Visando atender a esse público, o Núcleo Cunha do Parque Estadual da Serra do Mar estruturou a Trilha de Observação de Aves: um percurso autoguiado de 1,1 km, de nível fácil, traçado sobre uma antiga estrada em meio a remanescentes de araucárias, equipado com deque de observação e conexão com a Trilha do Rio Paraibuna. Os observadores que visitam ou residem em Cunha contribuem diretamente para o conhecimento desse patrimônio natural. Esses dados são fruto do esforço conjunto de fotógrafos, ornitólogos e guias locais que percorrem os diferentes quadrantes do município, viabilizando o monitoramento científico de populações ameaçadas e reiterando a relevância dos corredores ecológicos da Serra do Mar, um exemplo concreto de integração entre ecoturismo e conservação ambiental.

Museu Francisco Veloso valoriza a identidade caipira de Cunha em sua nova exposição permanente

A exposição permanente do Museu Municipal Francisco Veloso, inaugurada recentemente, convida os visitantes a adentrar o universo caipira, não através de discursos acadêmicos distantes, mas pela porta de entrada mais genuína possível: a casa de um caipira de verdade, a roça onde trabalhou, o terreiro onde rezou e festejou, e a praça onde encontrou seus iguais. Intitulada “Pisa Terra, Pisa Chão: Histórias e Memórias da Cultura Caipira em Cunha”, a mostra é mais que uma coleção de artefatos históricos. É um ato de reparação contra certos preconceitos, uma celebração da riqueza cultural que brota das camadas populares e uma amostra de que a história do Brasil é escrita também por aqueles que têm as mãos cheias de calo e os dedos cheios de terra: aquelas pessoas que plantam a roça, lavram a gleba, cuidam do ninho, do gado e da tulha.

Além do Jeca Tatu: resgatar a dignidade do caipira
O termo “caipira” carrega uma herança pesada. Durante décadas, a literatura brasileira, particularmente através de Monteiro Lobato e seu icônico Jeca Tatu, cristalizou a imagem do homem caipira como símbolo de atraso, indolência e ignorância. Essa caricatura marcou profundamente o imaginário urbano, reforçando estereótipos que ainda ecoam nos dias de hoje, um estigma que pesa sobre os cunhenses.
A exposição do Museu Francisco Veloso oferece um antídoto a esse preconceito. Apoiada nas pesquisas do sociólogo Antônio Cândido e dos antropólogos que elegeram Cunha como campo privilegiado de estudo (Emilio Willems, Alceu Maynard Araújo e Robert Shirley), a mostra revela o caipira não como um tipo social atrasado, mas como portador de uma matriz cultural própria, rica e organizada, que se estrutura em três pilares fundamentais: o trabalho familiar na terra, a ajuda mútua dos mutirões e a devoção aos santos, celebrada em festas que garantiam a coesão comunitária e momentos de lazer.
Não era atraso. Era sabedoria acumulada, resiliência e uma forma de estar no mundo profundamente enraizada na natureza e na solidariedade, uma convivência amena entre o dever (trabalho) e o lazer. Sobre essa alternância, Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, escreve que ela exprime a integração do caipira “numa economia mais autárquica do que mercantil que, além de garantir sua independência, atende à sua mentalidade, valorizando mais as alternâncias de trabalho intenso e de lazer, na forma tradicional, do que um padrão de vida mais alto através do engajamento em sistemas de trabalho rigidamente disciplinado”. É, sem dúvida, uma herança indígena.

Entrada na exposição “Pisa terra, pisa chão”, que retrata a vida caipira em Cunha entre as décadas de 1940 e 1960. Data: 15 jul. 2026.

A imersão curatorial: por dentro da casa
De início, um espelho e uma pergunta: “Você é gente de quem?”. Assim se iniciam as conversas em Cunha. E assim é na exposição. Em frente a um espelho, o visitante pode se situar enquanto pessoa, evocando sua ancestralidade, suas circunstâncias e sua identidade. Depois desse credenciamento pessoal, pode adentrar a casa e mergulhar na alma caipira.
O que torna essa exposição singular é sua estratégia curatorial: o visitante não observa a história de fora. Ele é convidado a adentrar, literalmente, o universo caipira. A experiência começa na sala que simula uma casa de pau a pique, construída em dia de mutirão. Dali, o percurso segue para o terreiro, aquele chão de terra batida onde o trabalho, a festa e a religiosidade se entrelaçavam, e depois para a roça, onde a vida se media pelo calendário da natureza.
Cada objeto exposto foi escolhido com intencionalidade. Uma gamela de madeira, um jacá trançado, uma cabaça para água, um ferro de passar à brasa. Mas esses artefatos não estão ali apenas como curiosidades históricas. Cada um deles é uma ponte entre dois mundos: o mundo que foi vivido e o mundo presente do visitante. São objetos que ativam nossas memórias.
Passear pelas salas da exposição é visitar uma casa caipira. Os objetos não estão deslocados de seu ambiente tradicional. Cada tralha está em seu lugar, os objetos em seu contexto. É um passeio por dentro.

Foto de uma das paredes da Sala 1 “Vozes da Roça”, com retratos do povo de Cunha e um espelho onde o visitante pode responder a si mesmo a famosa pergunta “Você é gente de quem?”, própria de lugares onde os vínculos interpessoais sustentam o pertencimento e a confiança. Data: 15 jul. 2026.

A vida cotidiana: poesia na labuta
A exposição reconstrói, com precisão antropológica e sensibilidade literária, a rotina de uma família caipira cunhense, comum até os anos 1960. Cada gesto é documentado, cada momento do dia é narrado. O caipira acorda com as galinhas, antes do sol nascer. A mulher reza diante do oratório e acende o fogo. O café com açúcar e farinha de milho desperta a família. Os homens partem para a roça, lendo nos sinais da natureza (na chuva da noite anterior, na mudança para lua cheia) as promessas de uma boa colheita.
Enquanto isso, a mulher não descansa. Varre o terreiro, cuida das galinhas, escolhe o feijão na esteira, confere a farinha de milho na tulha. À tarde, bate a roupa na bica, passa com ferro à brasa as roupas de missa. A solidão é preenchida pela visita da vizinhança, regada a café e muita prosa. Quando o sol se põe, todos se reúnem ao redor do fogão para a última refeição, antes de se recolherem ao descanso merecido.
Há uma poesia nessa descrição. Não é a poesia dos românticos, mas a poesia real da vida vivida com dignidade, onde cada objeto tem sua função, onde o tempo é medido não pelo relógio, mas pelas estações, onde a família e a comunidade são redes de apoio mútuo e sustento.

Os mutirões: comida e comunidade
Um dos conceitos mais belos capturados pela exposição é o do mutirão, aquela forma de cooperação onde vizinhos e parentes se reúnem para realizar tarefas que nenhuma família conseguiria fazer sozinha. Colher feijão, preparar o terreno para plantio, roçar o pasto, fazer o barreamento de casas, até velórios: tudo dependia dessa rede de solidariedade.
O mutirão obedecia a regras de reciprocidade. Você ajudava sabendo que, quando chegasse sua vez, receberia igual solicitude. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres preparavam comida em quantidade generosa. Como dizia o ditado: “Minguado o café, minguado o prestígio”. E ao cair da noite, o trabalho se transformava em festa: modas de viola, catira, danças que confirmavam a vitalidade daquela comunidade.
Nesse sistema está a chave para entender o caipira: não era um homem isolado, mas um ser profundamente comunitário, cuja liberdade e independência se realizavam através da interdependência. Uma lição que nossa época de individualismo exacerbado deveria considerar com mais atenção. A exposição foi feliz ao evidenciar esse momento, que está no âmago da vida caipira.

Foto da Sala 6, “A Praça: Onde a cidade se encontra“, onde o visitante é conduzido ao espaço público, a Praça Matriz, palco dos grandes acontecimentos. Retrata, nas paredes, os movimentos da cidade com a chegada dos tropeiros, os dias turbulentos da Revolução de 32, os rumores das feiras e festas. Data: 15 jul. 2026.

Fé, festa e identidade: a dimensão mística da cultura
A exposição dedica espaço significativo às manifestações religiosas que estruturavam a vida caipira. A Festa do Divino, as Congadas, a Folia de Reis, as rezas cotidianas. Todas essas coisas isso não são encaradas como superstição ou folclore, mas como a expressão mais profunda da identidade e da coesão comunitária.
As Companhias de Congada, em particular, são destacadas. Vestidos com fardas brancas adornadas por fitas coloridas, os congadeiros dançam para festejar, agradecer e pagar promessas em louvor ao Espírito Santo e a São Benedito. Representantes da matriz afro-brasileira, essas companhias mantêm viva uma tradição que é parte indissociável da identidade religiosa de Cunha: a devoção a São Benedito, o “santo preto” e cozinheiro.
A Festa do Divino segue um ciclo de dádiva: a bandeira percorre as casas da comunidade, as famílias oferecem o que podem (dinheiro, alimentos, animais), e no encerramento, a comunidade inteira se reúne para preparar um grande almoço compartilhado igualmente com todos. É economia solidária, é religiosidade popular, é festa. Tudo junto. Por isso, ela está ali no cantinho da casa, marcando a presença divina.

Ainda na Sala 6, temos as esculturas dos integrantes da Companhia de Moçambique de São Benedito de Cunha, restauradas recentemente. Data: 15 jul. 2026.

A praça como ponto de encontro
A exposição termina convidando o visitante a sentar no “banco da árvore da mentira”, um banco que existe de verdade na Praça Matriz de Cunha, lugar de encontro diário de antigos moradores. Ali, você ouve as vozes daqueles que viveram o que viu representado nas paredes: os tropeiros que transportavam cargas pelas serras, os causos da Revolução de 1932, os que dançaram nas festas, os que rezaram nos terreiros, o povo que trabalhou e ainda trabalha na roça, pois em Cunha a população rural ainda representa 40% da população municipal.
A praça é a ágora cunhense, o espaço público onde a história se faz viva. E o museu reconhece isso: não encerra a narrativa nas paredes, mas a abre para o espaço urbano, para as vozes reais, para a memória viva da comunidade. Entre um causo e outro, as memórias são transmitidas às novas gerações.

O papel do Museu
Um dos meus maiores medos era que, após o falecimento do professor João Veloso, o Museu Francisco Veloso virasse um museu apenas no papel – o que não é raro em nosso país, tão alheio às suas instituições culturais. O que houve, entretanto, foi que, nesses últimos anos, o Museu assumiu seu papel. Felizmente. Ser o guardião e propagador da história de Cunha dá trabalho. Mas foi possível graças a uma equipe comprometida com a pesquisa e restauração, empenhada em dialogar com a comunidade. Por isso, a Dina, o Andreas, a Maiara, a Izabel e todos os que colaboram com o Museu estão de parabéns. Essa exposição aproximou a história de Cunha de seu povo, evidenciando o cotidiano daqueles que raramente aparecem nos livros oficiais. Houve a combinação de eficiência com sensibilidade.
Mais do que ter uma história para contar (e a tricentenária Cunha tem muitas!), é preciso saber contar uma história. A exposição fez isso com maestria. “Pisa Terra, Pisa Chão” é, portanto, um ponto de virada. O Museu reafirma, de forma definitiva, seu compromisso de que a história das pessoas simples – a história do trabalho, da solidariedade, da fé e das festas – é a história que merece ser preservada, estudada, debatida e celebrada. Recusa, assim, aceitar que o caipira seja apenas o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Recusa em ficar relembrando somente a guerra perdida, a ferrovia que não veio, aquilo que Cunha poderia ter sido e não foi.
Os cunhenses, embora raramente se nomeiem como caipiras, têm orgulho de sua tradição. Uma herança que ainda resiste, unindo moradores nas festas lúdico-religiosas, nas cavalgadas, nas congadas e, sobretudo, em uma história comum. Essa exposição permanente é um convite para que todos nós – visitantes de fora ou filhos da terra – reconheçamos que a verdadeira identidade de Cunha, e talvez do Brasil, está no Sertão, nas vozes e nas vidas daqueles que pisam terra e pisam chão.

Quando o Paraitinga transbordou: a inundação de 1882 em São Luiz

Foto da praça central e centro histórico de São Luiz do Paraitinga, em 1882. Fonte: Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Colorizada por IA (Gemini).

Encravada nas curvas sinuosas do Vale do Paraíba, abraçada pelas escarpas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é uma daquelas cidades que nos remetem ao passado. Seu casario colonial em taipa de pilão e pau-a-pique, suas tradições seculares como a Festa do Divino Espírito Santo e o famoso Carnaval de Marchinhas agitam a história de um lugar, que no passado, foi um próspero entreposto comercial entre a serra e o litoral, por onde escoavam os produtos da lavoura do planalto, por meio de tropas, rumo ao porto de Ubatuba. Porém, a mesma geografia encantadora que emoldura a cidade carrega uma vulnerabilidade histórica. O sítio de São Luiz se assenta, nos dizeres de Ab’Saber, o filho ilustre, em um lóbulo meândrico, às margens do Rio Paraitinga. Meandros estreitos, topografia de várzea e vales encaixados formam um conjunto paisagístico capaz de desencadear cheias sazonais devastadoras.

Quando pensamos na força das águas em São Luiz do Paraitinga, a memória coletiva nos remete imediatamente, por proximidade temporal, à catástrofe de janeiro de 2010, quando o rio subiu mais de 12 metros, destruiu a histórica Igreja Matriz e devastou o centro histórico. O que poucos sabem, no entanto, é que em fevereiro de 1882, mais de um século antes, a cidade viveu um drama semelhante, documentado nas páginas dos jornais do Correio Paulistano.

Um fevereiro chuvoso

Nas últimas semanas de fevereiro de 1882, pancadas torrenciais de chuva castigaram o Vale do Paraíba. Sobretudo as áreas serranas como Cunha, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. O Rio Paraitinga, afluente do Paraíba do Sul, transbordou entre os dias 22 e 24 de fevereiro, avançando sobre o casario imperial de São Luiz, cidade margeada pelo rio.

As notícias da época, publicadas no periódico paulistano Correio Paulistano (que replicava relatos de jornais locais como a Gazeta de S. Luiz, e Redempção), relatam os acontecimentos do desastre hidrológico e a dimensão dos danos e prejuízos à comunidade local.

Em edição de 23 de fevereiro de 1882, o Correio Paulistano advertia que as águas já ultrapassavam marcos históricos antigos: “Relatam os habitantes desta cidade que, após a magna enchente que houve em 1863, a qual causou panico e grandes prejuizos á localidade, nenhuma ainda chegou a altura da que se manifestou esta semana no Parahytinga, cujas aguas engrossadas consideravelmente, chegaram até os umbraes das cozinhas de algumas casas que se acham mais chegadas ao rio.” Diferente do que se podia imaginar no início, a água não parou por aí. Nos dias seguintes, o Paraitinga continua subindo. A população acompanha atônita.

Ruas ou rios?

As ruas de São Luiz viraram rios. O Paraitinga foi entrando sem pedir licença. A edição do Correio Paulistano de 4 de março de 1882 (transcrevendo a Gazeta de S. Luiz, de 25 de fevereiro) trouxe detalhes minuciosos do ápice do desastre: “Esta cidade está sendo victima de uma inundação, causada pelas aguas do Parahytinga, que começou a augmentar de volume desde o dia 22. E acrescenta: “Rodou a ponte que se achava a entrada da cidade e que dava passagem para Taubaté e outros pontos. As ruas do Barão do Parahytinga, 31 de Março, D. Pedro II, Rosario, Fazendeiros e praças da Matriz e Mercês estão alagadas; nellas navegam canôas salvando pessoas e objectos”.

O relato descreve a destruição dos prédios históricos e o pânico da população: “As casas d’estas ruas e praças estragaram-se e já desabaram as dos srs. capitão Laurindo Pereira do Campos, capitão Generoso Pereira do Campos, escrivão do orphãos, José Antonio Guerra, capitão José Maria do Gouveia; os fundos do palacete da exma. sra. baroneza do Parahytinga abateo, bem como a casa do redactor do ‘Redempção’ e a do 2º tabellião interino. Os habitantes d’aquellas ruas e praças refugiaram se nas egrejas Matriz, Rosario, Mercês, na casa da camara e nos pontos mais elevados”.

Em 9 de março de 1882, o jornal trazia novos relatos transcritos do Redempção, um periódico luizense, destacando a elevação impressionante do leito do rio: “O rio Parahytinga, que sahio do seu leito no dia 23 do passado [fevereiro], invadira a cidade, inundando-a nos dias 23 e 24, elevando as suas águas a mais dois palmos de altura da fallada enchente de Janeiro de 1863.[…] Na rua dos Fazendeiros a água chegou à altura de 10 palmos!” E acrescenta: “A ponte da cidade foi levada pela impetuosidade das águas; a torre e frontispício da matriz abateram e ameaçam cahir.” Note-se, aqui, um agouro: já em 1882 a estrutura da Igreja Matriz sofria abalos e ameaçava ruir por conta da inundação, uma terrível premonição do que viria, de fato, a acontecer no limiar do ano de 2010.

Prejuízos e isolamento

Além das perdas materiais no centro urbano, a inundação de 1882 cortou as artérias de comunicação de São Luiz do Paraitinga com o restante da Província de São Paulo. A cidade ficou praticamente isolada.

O trecho da edição de 22 de abril de 1882 resume o estrago na infraestrutura regional: “Accresce, porém, que cahiram diversas pontes do municipio, tornando assim muito difficil as communicações com a cidade, notando-se entre ellas a ponte sobre o rio Parahytinga que banha a cidade de S. Luiz e a ponte sobre o rio Parahybuna na estrada que conduz a Ubatuba; a primeira acha-se na estrada que liga S. Luiz a E. F. do Norte, em Taubaté, e a segunda na estrada por onde passam os productos da lavoura do municipio para o porto de Ubatuba.”

Esses danos atingiram as vias principais de circulação de São Luiz, comprometendo sua histórica função de entreposto comercial, rota intermediária entre o Vale e o mar. Os prejuízos econômicos foram avaliados em centenas de contos de réis, uma fortuna astronômica para a época: “Os prejuízos na cidade são orçados em perto de duzentos contos, mas se á estes acrescentarmos os causados pela cheia do ribeirão do Chapéo e grandes trovoadas nos dias 24, 25 e 26, podemos calcular em 300 contos o de todo o município.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). Diante do caos, produtores locais e lavradores enviaram apelos desesperados ao Presidente da Província (equivalente ao atual Governador), como consta na edição de 30 de abril de 1882: “Os infelizes lavradores de S. Luiz, lutam não só com a crise que nos acabrunha como tambem com a impossibilidade de transportar os seus productos, devido ao descuido, pouco caso e a impiedade com que temos sido tratados pelo governo […] pedimos instantemente que não deixe ao desamparo os pobres luizenses…”.

Sem contato com o restante da Província, o colapso econômico era iminente. São Luiz dependia das suas vias de circulação e do trânsito de tropas para sobreviver economicamente. O apelo urgente ao orçamento do governo provincial era a saída.

Solidariedade nas horas difíceis

Apesar do desespero, os relatos de 1882 também registram atos de humanidade, de ajuda mútua e união comunitária. Em meio às perdas, comerciantes e cidadãos não mediram esforços para resgatar vizinhos e distribuir mantimentos: “Felizmente não tivemos vida a lamentar, mas alguns cidadãos escaparam de ser victimas de sua dedicação[…] O exmo. sr. Barão de Parahytinga, três ou quatro dias após a enchente, mandou alguns cargueiros de gêneros alimentícios para serem distribuídos com os pobres.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). O jornal registra ainda uma lista de moradores e nomes notáveis da sociedade luizense que atuaram no socorro das famílias atingidas. Nas tragédias, a solidariedade e a hospitalidade, tão características das sociedades caipiras, emergem com força maior. Em 2010, durante a inundação do centro histórico, os operadores e instrutores de turismo de aventura da cidade usaram botes de rafting para resgatar mais de mil pessoas ilhadas e transportar suprimentos essenciais.

Desastres que se repetem

Sítio urbano e perfil topográfico da cidade de São Luiz do Paraitinga. Fonte: Nice Lecocq Müller.

A geografia de São Luiz do Paraitinga, cravada em uma bacia hidrográfica recortada por serras íngremes e vales estreitos, faz com que a água acumulada nas cabeceiras da Serra do Mar e da Bocaina convirja com velocidade e intensidade para o leito do Paraitinga. Sempre quando chove muito em Cunha, o Paraitinga inunda São Luiz. Foi assim em 1882 e em 2010. Por isso, o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em Cunha é tão importante para a cidade.

AspectosInundação de 1882Inundação de 2010
CausaChuvas volumosas e contínuas no mês de fevereiro.Precipitação extrema acumulada na virada do ano (31 de dez. 2009 – 1 de jan. 2010 (mais de 300 mm, principalmente nas cabeceiras do Paraitinga).
Dinâmica do RioTransbordamento do Rio Paraitinga atingindo 6 a 8 metros acima do leito.Elevação do rio em mais de 12 metros acima do nível normal
Impacto no PatrimônioDanos e desabamentos dos casarões de taipa, desabamento de pontes e trincas no frontispício da Matriz.Destruição total da Igreja Matriz, da Capela das Mercês e desabamento de casarões tombados.
IsolamentoQueda das pontes para Taubaté e Ubatuba; tráfego feito por canoas e baldeação.Interdição das rodovias Oswaldo Cruz e estradas vicinais; isolamento por dias.
Resgate e ApoioResgates comunitários com canoas de madeira e solidariedade dos moradores locais.Ações de resgate por helicópteros e botes infláveis das equipes de rafting; mobilização de voluntários e da Defesa Civil.

Em 1882, os jornais falavam em canoas navegando por cima dos balcões das lojas na Rua dos Fazendeiros. Em 2010, o cenário foi dolorosamente idêntico: o centro histórico se transformou em um grande lago corrente. O núcleo original da cidade, onde se eleva a igreja, implantou-se na planície de sedimentação do rio Paraitinga, correspondendo à margem convexa de um meandro. Com o crescimento urbano, a cidade expandiu-se pelo mesmo lado do rio, ocupando também a margem côncava de outro meandro imediatamente a montante, além de avançar pelas colinas cristalinas ao redor. A localização de seu sítio urbano a expõe a esse risco hidrológico.

Lições do tempo

A cidade margeada pelo rio. Foto: Carlos Borges Schmidt. Data: década de 1950.

A história de São Luiz do Paraitinga é uma história de simbiose com suas águas. O mesmo rio que traz vida e fertilidade, que batizou a urbe, que aterrou o sítio onde os casarões históricos se assentam pode extravasar, ocupar sua planície, causando perdas de vidas, ferimentos, doenças, desalojamentos, falências, arruinando o inestimável patrimônio histórico daquele lugar.

Reexaminar os jornais de 1882 nos lembra que a memória e o conhecimento geográfico são as melhores ferramentas para conviver com a força da natureza, que são cíclicas e incontroláveis. É preciso, portanto, conhecê-las para se prevenir. É preciso se prevenir para preservar o patrimônio histórico. Com as mudanças climáticas, eventos extremos serão mais comuns. Novas inundações acontecerão. A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) é uma das soluções para superar as adversidades vindouras. Ao fazer uma abordagem pedagógica e comunitária, a ERRD cria uma cultura de prevenção, resiliência e autoproteção frente a ameaças socioambientais e climáticas. Integra, assim, o conhecimento científico aos saberes locais para desnaturalizar os desastres, mostrando que, embora os eventos naturais (como inundações) ocorram, o risco e a tragédia são construções sociais mitigáveis pela ação da sociedade organizada.

São Luiz do Paraitinga sobreviveu a 1863, resistiu bravamente em 1882 e renasceu em 2010. A força das águas do Paraitinga não esmoreceu a resiliência do luizense. Calcado em sua rica e história e cultura, o povo de São Luiz nunca perde o ânimo. Quando as chuvas cessam nas cabeceiras, o Paraitinga se amansa e volta ao seu leito; o luizense, com tenacidade, reconstrói tudo de novo. As coisas se ajeitam, a vida e o rio seguem o seu curso.

Referências:
Ab’Sáber, A. N. (2003). Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial.
Allucci, R. R., & Schucchi, M. C. D. S.. (2019). São Luiz do Paraitinga: o imaginário fundacional e suas projeções. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 27, e 15.
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