Quando o Paraitinga transbordou: a inundação de 1882 em São Luiz

Foto da praça central e centro histórico de São Luiz do Paraitinga, em 1882. Fonte: Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Colorizada por IA (Gemini).

Encravada nas curvas sinuosas do Vale do Paraíba, abraçada pelas escarpas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é uma daquelas cidades que nos remetem ao passado. Seu casario colonial em taipa de pilão e pau-a-pique, suas tradições seculares como a Festa do Divino Espírito Santo e o famoso Carnaval de Marchinhas agitam a história de um lugar, que no passado, foi um próspero entreposto comercial entre a serra e o litoral, por onde escoavam os produtos da lavoura do planalto, por meio de tropas, rumo ao porto de Ubatuba. Porém, a mesma geografia encantadora que emoldura a cidade carrega uma vulnerabilidade histórica. O sítio de São Luiz se assenta, nos dizeres de Ab’Saber, o filho ilustre, em um lóbulo meândrico, às margens do Rio Paraitinga. Meandros estreitos, topografia de várzea e vales encaixados formam um conjunto paisagístico capaz de desencadear cheias sazonais devastadoras.

Quando pensamos na força das águas em São Luiz do Paraitinga, a memória coletiva nos remete imediatamente, por proximidade temporal, à catástrofe de janeiro de 2010, quando o rio subiu mais de 12 metros, destruiu a histórica Igreja Matriz e devastou o centro histórico. O que poucos sabem, no entanto, é que em fevereiro de 1882, mais de um século antes, a cidade viveu um drama semelhante, documentado nas páginas dos jornais do Correio Paulistano.

Um fevereiro chuvoso

Nas últimas semanas de fevereiro de 1882, pancadas torrenciais de chuva castigaram o Vale do Paraíba. Sobretudo as áreas serranas como Cunha, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. O Rio Paraitinga, afluente do Paraíba do Sul, transbordou entre os dias 22 e 24 de fevereiro, avançando sobre o casario imperial de São Luiz, cidade margeada pelo rio.

As notícias da época, publicadas no periódico paulistano Correio Paulistano (que replicava relatos de jornais locais como a Gazeta de S. Luiz, e Redempção), relatam os acontecimentos do desastre hidrológico e a dimensão dos danos e prejuízos à comunidade local.

Em edição de 23 de fevereiro de 1882, o Correio Paulistano advertia que as águas já ultrapassavam marcos históricos antigos: “Relatam os habitantes desta cidade que, após a magna enchente que houve em 1863, a qual causou panico e grandes prejuizos á localidade, nenhuma ainda chegou a altura da que se manifestou esta semana no Parahytinga, cujas aguas engrossadas consideravelmente, chegaram até os umbraes das cozinhas de algumas casas que se acham mais chegadas ao rio.” Diferente do que se podia imaginar no início, a água não parou por aí. Nos dias seguintes, o Paraitinga continua subindo. A população acompanha atônita.

Ruas ou rios?

As ruas de São Luiz viraram rios. O Paraitinga foi entrando sem pedir licença. A edição do Correio Paulistano de 4 de março de 1882 (transcrevendo a Gazeta de S. Luiz, de 25 de fevereiro) trouxe detalhes minuciosos do ápice do desastre: “Esta cidade está sendo victima de uma inundação, causada pelas aguas do Parahytinga, que começou a augmentar de volume desde o dia 22. E acrescenta: “Rodou a ponte que se achava a entrada da cidade e que dava passagem para Taubaté e outros pontos. As ruas do Barão do Parahytinga, 31 de Março, D. Pedro II, Rosario, Fazendeiros e praças da Matriz e Mercês estão alagadas; nellas navegam canôas salvando pessoas e objectos”.

O relato descreve a destruição dos prédios históricos e o pânico da população: “As casas d’estas ruas e praças estragaram-se e já desabaram as dos srs. capitão Laurindo Pereira do Campos, capitão Generoso Pereira do Campos, escrivão do orphãos, José Antonio Guerra, capitão José Maria do Gouveia; os fundos do palacete da exma. sra. baroneza do Parahytinga abateo, bem como a casa do redactor do ‘Redempção’ e a do 2º tabellião interino. Os habitantes d’aquellas ruas e praças refugiaram se nas egrejas Matriz, Rosario, Mercês, na casa da camara e nos pontos mais elevados”.

Em 9 de março de 1882, o jornal trazia novos relatos transcritos do Redempção, um periódico luizense, destacando a elevação impressionante do leito do rio: “O rio Parahytinga, que sahio do seu leito no dia 23 do passado [fevereiro], invadira a cidade, inundando-a nos dias 23 e 24, elevando as suas águas a mais dois palmos de altura da fallada enchente de Janeiro de 1863.[…] Na rua dos Fazendeiros a água chegou à altura de 10 palmos!” E acrescenta: “A ponte da cidade foi levada pela impetuosidade das águas; a torre e frontispício da matriz abateram e ameaçam cahir.” Note-se, aqui, um agouro: já em 1882 a estrutura da Igreja Matriz sofria abalos e ameaçava ruir por conta da inundação, uma terrível premonição do que viria, de fato, a acontecer no limiar do ano de 2010.

Prejuízos e isolamento

Além das perdas materiais no centro urbano, a inundação de 1882 cortou as artérias de comunicação de São Luiz do Paraitinga com o restante da Província de São Paulo. A cidade ficou praticamente isolada.

O trecho da edição de 22 de abril de 1882 resume o estrago na infraestrutura regional: “Accresce, porém, que cahiram diversas pontes do municipio, tornando assim muito difficil as communicações com a cidade, notando-se entre ellas a ponte sobre o rio Parahytinga que banha a cidade de S. Luiz e a ponte sobre o rio Parahybuna na estrada que conduz a Ubatuba; a primeira acha-se na estrada que liga S. Luiz a E. F. do Norte, em Taubaté, e a segunda na estrada por onde passam os productos da lavoura do municipio para o porto de Ubatuba.”

Esses danos atingiram as vias principais de circulação de São Luiz, comprometendo sua histórica função de entreposto comercial, rota intermediária entre o Vale e o mar. Os prejuízos econômicos foram avaliados em centenas de contos de réis, uma fortuna astronômica para a época: “Os prejuízos na cidade são orçados em perto de duzentos contos, mas se á estes acrescentarmos os causados pela cheia do ribeirão do Chapéo e grandes trovoadas nos dias 24, 25 e 26, podemos calcular em 300 contos o de todo o município.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). Diante do caos, produtores locais e lavradores enviaram apelos desesperados ao Presidente da Província (equivalente ao atual Governador), como consta na edição de 30 de abril de 1882: “Os infelizes lavradores de S. Luiz, lutam não só com a crise que nos acabrunha como tambem com a impossibilidade de transportar os seus productos, devido ao descuido, pouco caso e a impiedade com que temos sido tratados pelo governo […] pedimos instantemente que não deixe ao desamparo os pobres luizenses…”.

Sem contato com o restante da Província, o colapso econômico era iminente. São Luiz dependia das suas vias de circulação e do trânsito de tropas para sobreviver economicamente. O apelo urgente ao orçamento do governo provincial era a saída.

Solidariedade nas horas difíceis

Apesar do desespero, os relatos de 1882 também registram atos de humanidade, de ajuda mútua e união comunitária. Em meio às perdas, comerciantes e cidadãos não mediram esforços para resgatar vizinhos e distribuir mantimentos: “Felizmente não tivemos vida a lamentar, mas alguns cidadãos escaparam de ser victimas de sua dedicação[…] O exmo. sr. Barão de Parahytinga, três ou quatro dias após a enchente, mandou alguns cargueiros de gêneros alimentícios para serem distribuídos com os pobres.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). O jornal registra ainda uma lista de moradores e nomes notáveis da sociedade luizense que atuaram no socorro das famílias atingidas. Nas tragédias, a solidariedade e a hospitalidade, tão características das sociedades caipiras, emergem com força maior. Em 2010, durante a inundação do centro histórico, os operadores e instrutores de turismo de aventura da cidade usaram botes de rafting para resgatar mais de mil pessoas ilhadas e transportar suprimentos essenciais.

Desastres que se repetem

Sítio urbano e perfil topográfico da cidade de São Luiz do Paraitinga. Fonte: Nice Lecocq Müller.

A geografia de São Luiz do Paraitinga, cravada em uma bacia hidrográfica recortada por serras íngremes e vales estreitos, faz com que a água acumulada nas cabeceiras da Serra do Mar e da Bocaina convirja com velocidade e intensidade para o leito do Paraitinga. Sempre quando chove muito em Cunha, o Paraitinga inunda São Luiz. Foi assim em 1882 e em 2010. Por isso, o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em Cunha é tão importante para a cidade.

AspectosInundação de 1882Inundação de 2010
CausaChuvas volumosas e contínuas no mês de fevereiro.Precipitação extrema acumulada na virada do ano (31 de dez. 2009 – 1 de jan. 2010 (mais de 300 mm, principalmente nas cabeceiras do Paraitinga).
Dinâmica do RioTransbordamento do Rio Paraitinga atingindo 6 a 8 metros acima do leito.Elevação do rio em mais de 12 metros acima do nível normal
Impacto no PatrimônioDanos e desabamentos dos casarões de taipa, desabamento de pontes e trincas no frontispício da Matriz.Destruição total da Igreja Matriz, da Capela das Mercês e desabamento de casarões tombados.
IsolamentoQueda das pontes para Taubaté e Ubatuba; tráfego feito por canoas e baldeação.Interdição das rodovias Oswaldo Cruz e estradas vicinais; isolamento por dias.
Resgate e ApoioResgates comunitários com canoas de madeira e solidariedade dos moradores locais.Ações de resgate por helicópteros e botes infláveis das equipes de rafting; mobilização de voluntários e da Defesa Civil.

Em 1882, os jornais falavam em canoas navegando por cima dos balcões das lojas na Rua dos Fazendeiros. Em 2010, o cenário foi dolorosamente idêntico: o centro histórico se transformou em um grande lago corrente. O núcleo original da cidade, onde se eleva a igreja, implantou-se na planície de sedimentação do rio Paraitinga, correspondendo à margem convexa de um meandro. Com o crescimento urbano, a cidade expandiu-se pelo mesmo lado do rio, ocupando também a margem côncava de outro meandro imediatamente a montante, além de avançar pelas colinas cristalinas ao redor. A localização de seu sítio urbano a expõe a esse risco hidrológico.

Lições do tempo

A cidade margeada pelo rio. Foto: Carlos Borges Schmidt. Data: década de 1950.

A história de São Luiz do Paraitinga é uma história de simbiose com suas águas. O mesmo rio que traz vida e fertilidade, que batizou a urbe, que aterrou o sítio onde os casarões históricos se assentam pode extravasar, ocupar sua planície, causando perdas de vidas, ferimentos, doenças, desalojamentos, falências, arruinando o inestimável patrimônio histórico daquele lugar.

Reexaminar os jornais de 1882 nos lembra que a memória e o conhecimento geográfico são as melhores ferramentas para conviver com a força da natureza, que são cíclicas e incontroláveis. É preciso, portanto, conhecê-las para se prevenir. É preciso se prevenir para preservar o patrimônio histórico. Com as mudanças climáticas, eventos extremos serão mais comuns. Novas inundações acontecerão. A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) é uma das soluções para superar as adversidades vindouras. Ao fazer uma abordagem pedagógica e comunitária, a ERRD cria uma cultura de prevenção, resiliência e autoproteção frente a ameaças socioambientais e climáticas. Integra, assim, o conhecimento científico aos saberes locais para desnaturalizar os desastres, mostrando que, embora os eventos naturais (como inundações) ocorram, o risco e a tragédia são construções sociais mitigáveis pela ação da sociedade organizada.

São Luiz do Paraitinga sobreviveu a 1863, resistiu bravamente em 1882 e renasceu em 2010. A força das águas do Paraitinga não esmoreceu a resiliência do luizense. Calcado em sua rica e história e cultura, o povo de São Luiz nunca perde o ânimo. Quando as chuvas cessam nas cabeceiras, o Paraitinga se amansa e volta ao seu leito; o luizense, com tenacidade, reconstrói tudo de novo. As coisas se ajeitam, a vida e o rio seguem o seu curso.

Referências:
Ab’Sáber, A. N. (2003). Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial.
Allucci, R. R., & Schucchi, M. C. D. S.. (2019). São Luiz do Paraitinga: o imaginário fundacional e suas projeções. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 27, e 15.
Borsoi, D. F.. (2021). São Luiz do Paraitinga: em que medida iluminista? Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 29, d1e28.
CORREIO PAULISTANO (várias edições de 1882) – Hemeroteca Digital Brasileira.
Müller, N. L. (1969). O fato urbano na Bacia do Rio Paraíba: Estado de São Paulo (Série A – Biblioteca Geográfica Brasileira, Publicação n.º 23). Instituto Brasileiro de Geografia.
Petrone, P. (1959). A região de São Luis do Paraitinga: (Estudo de geografia humana). Revista Brasileira de Geografia, 21( 3), 239-336.
Tominaga, L. K., Santoro, J., & Amaral, R. do. (Orgs.). (2015). Desastres naturais: Conhecer para prevenir (3ª ed.). Instituto Geológico.

Cunha vira vila

Cartaz ilustrativo elaborado por IA (Copilot).

Segue, abaixo, a transcrição da Portaria para Ereção da Vila de Cunha:

Portaria para a Erecção da V.ª de Cunha.

Porquanto S. Mag.de que Deos guarde nas Instruçoens de 26 de Janeiro de 1765, e outras posteriores ordens dirigidas a este Governo he servida ordenar que nas Povoaçoens e partes desta Capitania se levantem, e erijão Villas, congregando a ellas todos os vadios dispersos, e que vivem em sitios Volantes, para morarem Civilmente, ministrandose lhes os Sacramentos, e estando prontos para as ocazioens do seu Real Servisso, por ser assim tudo conveniente ao mesmo, e ao augmento, e bem dos Povos, e porque a Freguezia do Facão se acha huma das mais populozas desta Capitania e pela distancia em que está da Villa de Guaratinguetá, seu Distrito não pode ser ministrada a Justiça e Governo Civil sem hum grande detrimento daquelles moradores. Sou servido ordenar ao Doutor Ouvidor desta Comarca, que passando logo á mencionada Freguezia a faça erigir em Villa, levantando Pelourinho, e assignalando-lhe termo, delle se fará Auto em que assignará a Camera da Villa de Guaratinguetá donde fica desmenbrada; e da mesma forma as Cameras vizinhas com quem houver de confinar, para que em nenhum tempo possão vir em duvida os limites: e demarcando tambem lugar para se edificarem os Paços do Concelho e Cadeya, me proporá as pessoas mais capazes para Juizes Vereadores, e mais Officiaes da Camera que hão de servir neste prezente anno segundo as ordens; e da mesma forma Escrivão para se lhe conferir Provimento. O que tudo assim obrará, e conforme as Leis a este respeito promulgadas. São Paulo a 15 de 7br.º de 1785. Com a Rubrica de S. Ex.ª

Conforme

Luiz Antonio Neves de Carvalho

A portaria transcrita acima é um documento diplomático colonial expedido em 15 de setembro de 1785, na cidade de São Paulo. O documento trata da Portaria para a Erecção da Vila de Cunha (a elevação da antiga Freguesia do Facão à categoria de Vila, a saber: Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha). É fundamental para entender a história de nosso município.

Contexto Histórico e Político

O documento é emitido no final do período colonial (reinado de D. Maria I de Portugal). O governador da Capitania de São Paulo na época era Francisco da Cunha Menezes (governou de 1782 a 1788), motivo pelo qual a nova vila recebeu o nome de Cunha em sua homenagem.

A portaria faz referência explícita às “Instruçoens de 26 de Janeiro de 1765”, diretrizes estabelecidas durante o governo do Morgado de Mateus (Luís António de Sousa Botelho Mourão). Essas instruções refletiam a política pombalina e pós-pombalina de interiorização, reorganização territorial e fortalecimento do controle estatal sobre o território da Capitania de São Paulo.

A antiga Freguesia do Facão estava localizada no Caminho Velho da Estrada Real, rota crucial que ligava as Minas Gerais e o Vale do Paraíba ao porto de Paraty e ao Rio de Janeiro. Devido ao constante fluxo de tropeiros, mercadorias e ouro, a região teve um rápido crescimento demográfico e econômico, o que motivou os interesses coloniais na região.

Controle Social, Moral e Militar

A portaria traz com clareza a visão ideológica da administração colonial sobre as populações rurais e itinerantes:

Ordenamento Populacional: Fala-se em “congregando a ellas todos os vadios dispersos, e que vivem em sitios Volantes”. Na linguagem administrativa da época, “vadios” referia-se a posseiros, agregados ou populações sem residência fixa ou sem inserção formal na economia agroexportadora/tributável.

Disciplinarização: O objetivo de fazê-los “morar Civilmente” envolvia a evangelização/manutenção do controle religioso (“ministrandose lhes os Sacramentos”) e o enquadramento militar/fiscal (“prontos para as ocazioens do seu Real Servisso”), como o recrutamento para ordenanças ou a defesa do território.

Acesso à Justiça e Descentralização Administrativa

A Freguesia do Facão dependia jurisdicionalmente da Vila de Guaratinguetá. O texto aponta que a distância entre as duas localidades impedia que a “Justiça e Governo Civil” fossem ministrados sem “hum grande detrimento daquelles moradores”. A criação da nova vila era, portanto, uma solução para aproximar a autoridade do Estado da população local.

Símbolos e Instituições do Poder Municipal

A portaria detalha os passos rituais e jurídicos necessários para fundar uma vila na América Portuguesa:

1) Ouvidor da Comarca: Agente magistrado do Rei incumbido de executar a ordenação.

2) Erecção do Pelourinho: O pelourinho era o maior símbolo de autonomia municipal e da jurisdição penal/civil do Rei. Sua instalação marcava juridicamente a transformação de freguesia (circunscrição religiosa) em Vila (município).

3) Paços do Concelho e Cadeia: Infraestrutura física indispensável para o funcionamento da Câmara Municipal (poder legislativo/executivo local) e do sistema judiciário local (a prisão).

Antigo Paço Municipal, sede da Câmara, Comarca, Prefeitura e Cadeia Pública. Erigido a partir de 1785, atravessou o século XIX, mas acabou consumido em um incêndio criminoso em 1961. Imagem colorizada e melhorada com o uso de IA (Gemini), a partir de uma fotografia antiga do edifício.

4) Composição da Câmara: Instrução para indicação das “pessoas mais capazes para Juizes Vereadores, e mais Officiaes da Camera”. Tais cargos eram destinados aos chamados “homens bons” (a elite proprietária de terras local).

Fixação De Limites Territoriais

Rua Comendador João Vaz, calçadão. Antiga Rua da Quitanda, que ligava a Igreja Matriz à Casa de Câmara e Cadeia. Data: década de 1950. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.

O documento exige a demarcação do Termo (a jurisdição territorial do novo município) e a lavratura de um Auto assinado pelas Câmaras vizinhas (como Guaratinguetá) “para que em nenhum tempo possão vir em duvida os limites”. Isso evidencia a preocupação da Coroa em evitar conflitos fundiários e fiscais entre os poderes locais contíguos. De fato, os litígios territoriais foram um dos problemas que a Câmara de Cunha teve que enfrentar no século XIX. A Câmara de Guaratinguetá, por exemplo, reivindicou, sem sucesso, que o limite com Cunha fosse o Rio Paraitinga. Sem sucesso também a Vila de Paraty, via governo da Província do Rio de Janeiro, queria que o limite estabelecido fosse a Igreja da Boa Vista, abocanhando para si toda a região da Serra do Mar. Outras pendengas territoriais menores, com as vilas vizinhas de oeste, não cessaram nos Oitocentos.

Com o Auto de Ereção, enfim, estava criado o município de Cunha. Foi o primeiro território desmembrado do município de Guaratinguetá.

A “Portaria para a Erecção da V.ª de Cunha” é uma fonte primária fundamental para a história regional paulista e para a história administrativa do Brasil Colonial. Ilustra, na prática, como a Coroa Portuguesa operava a transição de povoados espontâneos para estruturas urbanas formais, combinando a garantia da ordem, o controle fiscal e a criação de elites locais subordinadas ao poder central. A elevação das freguesias à categoria de vila obedecia a uma lógica exógena, atendendo muito mais os interesses da colonização portuguesa do que o desejo nativo de maior autonomia política e econômica.

Notas de Leitura
7br.º: Abreviatura tradicional de setembro (do latim September, o sétimo mês do calendário romano).
V.ª / S. Mag.de / S. Ex.ª: Abreviaturas para Villa, Sua Magestade e Sua Excelência.

Referência Bibliográfica
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo. Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo: Ofícios do General Francisco da Cunha Menezes (Governador da Capitania) 1782-1786. São Paulo: Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo, 1961. v. 85.

O discurso do vigário

Restauração feita por IA, a partir de quadro do Cônego Siqueira, que havia na Igreja Matriz. Imagem gerada por Victor Amato dos Santos.

Communicado.

Agora, que se achão reunidos os srs. deputados provinciaes, eu, que sou filho, e residente na cidade de Cunha, chamo a attenção desses senhores para esta cidade, que se acha balda de recursos, para o bem estar dos seus habitantes, seu desenvolvimento moral, e material.

Precisa-se de um chafariz, que ministre agoa a esses habitantes, para não se finarem a sede, as ruas se achão em pessimo estado, e precisão de ser calçadas para comodo do transito publico bem como a falta de boas estradas, que são os verdadeiros vehiculos do commercio, sendo esta localidade a menos pesada aos cofres publicos, a matriz, alem do estado ruinoso, que não se comporta com a dignidade um Templo de Deos, e por isso precisa, de prompto concerto, se acha sem paramentos, e note-se, que por meus esforços, e de alguns amigos consegui criar, e elevar a irmandade do Sacramento, para o qual o povo tem cooperado para as missas das quintas feiras, e esse povo se alegra de vêr a Santa, e Augusta Religião n’um pé magestoso e digno da santidade de seu culto, e é só assim, que se arreigão as crenças religiosas, que hoje se achão arrefecidas, no espirito do povo, o que é um grande passo para a educação, e civilisação de todas as classes — vida sem religião é viagem sem roteiro, assim dizia o finado marquez de Maricá o Rochefoucauld brazileiro.

A cadeira de latim, e francez criada no anno passado está até hoje vaga, e como é de necessidade, que ella seja occupada, bom será, que seja ella posta a concurso. A de primeiras letras do sexo masculino se acha fechada a 2 mezes, mais ou menos, e não se sabe, de que provem esta falta.

Outras palpitantes necessidades alem das expostas exigem promptas medidas, e nesta conjunctura, appello para o illustre deputado, o sr. dr. José Martiniano de Oliveira Borges, representante por Cunha, que estamos certo das necessidades do circulo, que o elegeo, e por isso se compenetrará proporá todas as medidas concernentes afim de serem satisfeitas com promptidão estas emergentes necessidades, tanto mais, que s. s. tem por seu lado a illustre maioria da assembléa, e como estas questões não são de partido, que sempre accarretão divisões, s. s. obterá a adhesão da illustre minoria.

Não sei, que fatalidade pesa sobre a cidade de Cunha, que se acha entregue ao olvido, e não ha uma voz, que se eleve para manifestar suas necessidades. Outr’ora quando a desditosa Irlanda acabrunhada ouvia a vóz poderosa, e retumbante de O’Conel, erguia uma cabeça, no emtanto na provincia de S. Paulo, a pobre cidade de Cunha se acha abandonada, como se a maldição do Eterno a tivesse ferido, sem que uma voz se levante para acoroçoal-a !

Senhores legisladores provinciaes, é tempo de lançardes vossas vistas benignas para esta parte da provincia, de que sois representantes, nas vossas mãos está tiral-a do aviltamento, em que se acha mergulhada, e erguel-a a altura em que devem ser collocadas todas as localidades da provincia de nosso nascimento.

Se escutardes minha debil vóz, que se manifesta nestas poucas linhas, bem merecereis da patria, e o juizo da posteridade, levando vossos nomes as paginas da historia de nosso paiz, vos bem dirá, e eu, como filho, e parocho da cidade de Cunha serei o primeiro em agradecer as medidas, que tomardes na presente sessão legislativa em prol dos interesses desta cidade, digna por sem duvida de todas as vossas attenções.

S. Paulo 1º de março de 1859.
O vigario, Antonio Gomes de Siqueira.

1859. Cunha tinha acabado de ser elevada à categoria de cidade, mas antigos e recorrentes problemas urbanos afetavam a vida da pequena localidade serrana. Seu maior líder político e religioso no século XIX, o Cônego Antônio Gomes de Siqueira (o “Padre Gomes”), resolveu agir. Dirigiu-se à capital e, na Assembleia Provincial, proferiu um incisivo discurso. Na tribuna, cobrou o Dr. José Martiniano de Oliveira Borges, deputado provincial do 2º Distrito eleito com os votos de Cunha. Alguns dos problemas apontados atravessaram os séculos e persistem até os dias de hoje.

O texto “Communicado” (1859) é um documento típico do Brasil Imperial (Segundo Reinado, governo de Dom Pedro II), escrito pelo vigário de Cunha (SP). Trata-se de uma petição pública — um apelo às autoridades provinciais.

Reprodução do “Communicado”, o discurso do Cônego Siqueira. Fonte: jornal Correio Paulistano, 1859.

Cunha havia sido elevada à categoria de cidade em 20 de abril de 1858; ou seja, o texto surge logo após sua emancipação política. O Brasil vivia um período de centralização administrativa, mas as decisões práticas (infraestrutura, educação, etc.) eram muito dependentes das províncias e de seus deputados. O objetivo do discurso era influenciar os políticos provinciais.

O vigário faz um retrato claro das condições locais:

  1. Falta de infraestrutura básica: Ausência de chafarizes (abastecimento de água) e estradas em péssimo estado ou inexistentes. Muitas cidades do interior eram mal integradas economicamente, dependentes de caminhos precários, como era — e ainda é — o caso de Cunha.
  2. Crise econômica e isolamento: Padre Gomes afirma que a cidade está “balda de recursos” e destaca que as estradas são os “veículos do comércio”. Cunha sempre dependeu de seus caminhos, por ser uma cidade que surge entre o sertão e o mar. No século XIX, o desenvolvimento dependia fortemente de rotas de circulação (tropas e comércio agrícola). Esse antigo problema de Cunha, como se sabe, não se resolveu; pelo contrário, agravou-se com o surgimento das estradas de ferro no último quartel dos oitocentos.
  3. Problemas religiosos e simbólicos: A Igreja Matriz está em ruínas e falta dignidade ao culto. Na época, a Igreja Católica era a instituição central da vida social e política; portanto, um templo degradado significava perda de prestígio para a cidade e enfraquecimento da coesão social (a reforma da Igreja Matriz seria realizada posteriormente, no último quartel do século XIX).
  4. Educação precária: As cadeiras de Latim e Francês — disciplinas essenciais na época — estão vazias, e a escola masculina, fechada. Há dificuldade em manter o ensino formal e carência de professores qualificados. A educação no Império era limitada, e as cidades pequenas sofriam com o abandono institucional.

O texto expressa valores típicos do período, como a religião vista como base da civilização. O autor cita que “vida sem religião é viagem sem roteiro”. A mentalidade dominante associava a religião à moralidade pública e à ordem social, fatores considerados condições para o progresso. A civilização cristã, tomando como referência a Europa, era o objetivo final daquela sociedade.

O discurso reforça a importância do Padre Gomes para a vida social e política cunhense. Ele agia como o legítimo representante local; por isso, podia cobrar ações do poder público e tinha apoio para viajar até São Paulo com tal intento. Seu discurso repercutiu, sendo publicado no jornal Correio Paulistano. Havia espaço no Império para a expressão da opinião pública local, desde que bem articulada.

Fonte da foto: Museu Francisco Veloso.

Como padre, sua proposta política é conciliadora. Ele afirma que as demandas “não são de partido”. É um típico discurso imperial: visava evitar conflitos políticos e priorizava o interesse comum. Contudo, o texto diz muito também sobre a personalidade e o modo de fazer política do Cônego Siqueira, que transitou entre os partidos da época. Com a chegada da República, foi ele quem, já em seu ocaso, conciliou monarquistas (liberais e conservadores) e republicanos em Cunha, consolidando um novo grupo político que permaneceria no poder local até a Revolução de 1930.

Deputado regional. Figura histórica de Guaratinguetá. Quadro gerado por IA, a partir de imagem do Museu Frei Galvão, de Guaratinguetá.

O “Communicado” é um manifesto de denúncia do abandono em que se encontrava o interior paulista. Aponta a necessidade de modernização urbana em um momento no qual as cidades começavam a ganhar importância, mesmo em uma economia majoritariamente agrária. É, ainda, um reflexo das desigualdades regionais: recém-promovida a cidade, Cunha não tinha estrutura básica para sustentar esse status. Apesar de o discurso combinar religião, política e moral, os problemas apontados pelo vigário eram pertinentes — e permanecem atuais.

Fonte: jornal Correio Paulistano, 6 de março de 1859.

Theodoro, o tropeiro escravizado

Anúncio publicado no jornal Radical Paulistano. Data: 17 jun. 1869.

“Escravo fugido
Da fazenda do tenente-coronel José Prudente de Toledo, em Cunha, fugiu no dia 19 do corrente, o seu escravo Theodoro, com os seguintes signaes: côr parda, alto, pouca barba no queixo, dentes ponteagudos, quasi cariados, delgado de corpo, falla macia e agradavel, tem signal de um golpe num dos braços ácima da juncta da mão, proveniente de um córte de puxavante; é bom cavalleiro e dado a domador: leva um sacco com muita roupa, e um ponche de panno forrado de baeta azul, ainda novo, tem a edade presumida de 34 annos. Quem o apprehender e der aviso a seu senhor, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar.
Cidade de Cunha, 23 de Janeiro de 1869.”

Este anúncio de jornal, publicado em 1869, revela muito sobre a estrutura social e a mentalidade do Brasil no Segundo Reinado, apenas 19 anos antes da abolição formal da escravidão (1888). O texto exemplifica como a imprensa era utilizada como uma ferramenta de controle social. Mesmo o “Radical Paulistano“, que era um jornal liberal e que propugnava pelo fim da escravidão, se submetia a anunciar para os escravagistas. O “escravo fugido” era tratado como uma propriedade extraviada. A descrição detalhada (“dentes ponteagudos“, “delgado de corpo“, “falla macia“) não visava humanizar Theodoro, mas sim fornecer um “guia de identificação” para que qualquer cidadão pudesse atuar como um agente de captura.

Cunha, no século XIX, era um ponto importante de passagem e produção ligada ao Vale do Paraíba, região que enriqueceu com o café e foi um dos últimos redutos do escravismo no Brasil. O tenente-coronel (da Guarda Nacional) José Prudente de Toledo era um dos principais fazendeiros do município, com terras entre os bairros do Engenho e do Cume, descendente dos fundadores de Cunha.

A cicatriz acima do pulso, causada por um “puxavante” (uma ferramenta usada para aparar cascos de cavalos ou em trabalhos de ferraria), é um registro físico da vida de trabalho manual exaustivo a que ele era submetido. Marcas físicas eram comuns em anúncios de fuga, servindo como “RG” numa época sem documentos fotográficos populares. Também demonstra a importância que o tropeirismo ocupava em nossa economia. Mesmo fazendas produtoras de milho e toucinho necessitavam de escravizados que soubessem os ofícios tropeiros.

O trecho final do anúncio, “protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar”, é um aviso jurídico. O “acoitar” (esconder ou ajudar um fugitivo) era crime previsto no Código Criminal do Império. Isso demonstra como o Estado brasileiro protegia o direito de propriedade sobre seres humanos e punia qualquer um que tentasse ajudar os escravizados em busca de liberdade. A solidariedade era criminalizada. E punida. Todos deviam colaborar com o sistema escravista.

Destaca-se, ainda, sinais de resistência e identidade no escravizado em questão. A fuga é um ato político: Theodoro fugiu levando consigo um saco de roupas e um “ponche de pano forrado de baeta azul” (traje típico dos tropeiros paulistas), o que indica que a fuga foi planejada. Ele não apenas fugiu do trabalho forçado, mas buscou levar itens de proteção e subsistência. Suas habilidades laborais o acompanham. Menciona-se, p. ex., que Theodoro era “bom cavalleiro e dado a domador” , habilidades técnicas valiosas naquele período histórico, o que muitas vezes dava ao escravizado uma maior mobilidade, mas também o tornava um “prejuízo” financeiro maior para o senhor.

Tropeiro com poncho de baeta azul. Derivado do antigo bernéu usado pelos bandeirantes, consolidou-se como a principal indumentária de viagem. Ilustração: “Troperos or Muleteers“. Data: 1822. Desenhista: Henry Chamberlain. Gravador: H. Alken.

Este documento é uma prova material de que a liberdade no Brasil foi conquistada com muita resistência individual e coletiva, através de atos corajosos como o de Theodoro, que desafiou o sistema de sua época. A fuga, talvez para um quilombo, era a resistência possível em um sistema opressor, em que a escravidão era tão institucionalizada, que era tratada como algo natural.

Sobre antigas formas de construir

Como se fazia a argamassa em Cunha no século XIX?

Observe a foto acima, que mostra o detalhe de uma coluna estrutural de uma casa rural cunhense de meados do século XIX. Nota-se a argamassa constituída por rochas (gnaisse e granito alterado) disformes, encaixadas manualmente com o auxílio de argila e areia. A estrutura geológica do embasamento cristalino, sobre a qual se assenta o território municipal, torna essas rochas resistentes especialmente abundantes, o que permitiu o seu uso na construção civil rústica e rural cunhense.

Percebem-se, ainda, fragmentos de conchas marinhas. Elemento inusitado na construção civil atual, as conchas foram a solução regional para a inexistência de cal industrial ou cimento naqueles tempos. Trazidas do litoral (Paraty e Ubatuba) em jacás pelos tropeiros, as conchas eram trituradas ou queimadas e adicionadas ao barro. Sua função primordial era fornecer o carbonato de cálcio necessário para que a argamassa fosse eficaz e resistente, já que, no Brasil Colônia e no Império, não havia cimento industrial nem depósitos de calcário de fácil acesso.

Além de resistência, as conchas conferiam volume e aderência à mistura, permitindo, assim, que as colunas sustentassem os casarões ao longo do tempo, até os dias de hoje. Infelizmente, poucos exemplares restam preservados em nosso extenso município, historicamente rural.

Concha marinha presente em coluna estrutural, em uma construção rural do século XIX. Local: município de Cunha – SP.

Farinha, Pinga & Fumo

Aspecto do centro histórico de Paraty, penetrando o Atlântico. Famosa, entre tantas coisas, pela sua pinga. Data: 1961. Foto: IPHAN.

Anedotas populares são pequenos relatos ou histórias curtas, geralmente engraçadas, que fazem parte da tradição oral de um povo. Elas costumam ter personagens típicos e abordam situações do cotidiano com humor, ironia ou malícia.

Circulam de boca em boca, muitas vezes sem autoria conhecida, reforçando a tradição oral.

Podem carregar ensinamentos, fatos e críticas sociais ou apenas têm o intuito de fazer rir. Costumam ser simples e diretas, com um desfecho inesperado ou cômico. Variam de região para região, incorporando o jeito de falar e os costumes locais.

O universo caipira é pródigo em anedotas. São parte importante da cultura popular e sempre aparecem em rodas de conversa, programas de rádio, livros de causos ou apresentações humorísticas, servindo, inclusive, como fontes para a História.

Algumas se elevaram tanto na cultura popular, que viraram matéria poética e musical, como no poema abaixo e no vídeo acima.

Farinha, pinga e fumo, três produtos coloniais dos mais consumidos. Suruí (Magé), Paraty e Baependi, três localidades históricas, que, pela qualidade daquilo que faziam, ganharam fama no imaginário e no gosto popular. Em 1925, o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) publicou o livro “Pau-Brasil”, seu primeiro de poesias, em que aparece o seguinte poema:

RELICÁRIO
No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha da Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
Ê comê bebê pitá e caí

Neste poema, Oswald de Andrade interpreta o Brasil através de uma linguagem coloquial, contrastando o luxo da corte com a vida popular, para criar um efeito humorístico. O poeta ainda utiliza a gradação de verbos como “comê”, “bebê”, “pitá” e “caí” como uma afronta à norma culta da língua portuguesa, para intensificar o humor e a crítica social, valorizando o jeito de falar dos caipiras, das pessoas da roça. Ao se valer de uma linguagem informal e cheia de oralidade, aproxima a escrita da língua falada, para dialogar com o povo e romper com a formalidade do academicismo da época. O Modernismo no Brasil, em sua fase inaugural, buscou renovar a arte e a cultura do país valorizando a identidade nacional. Os olhares e as penas daqueles modernistas estavam voltadas para os sertões, para o interior, para o Brasil profundo e ignorado.

Ser moderno (para Oswald de Andrade) era ser caipira. Autenticidade é tudo.

Cunha e suas águas minerais

Nos idos de 1875, as fontes de águas minerais de Cunha já eram conhecidas no estado de S. Paulo. Engana-se, portanto, quem pensa que elas foram descobertas no século XX. Em sua obra “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy (1826 – 1907), ao descrever as fontes de águas minerais paulistas conhecidas, aponta: “Só são conhecidas algumas fontes e entre estas as do municipio de Cunha, de agua ferrea, e em S. João Baptista uma fonte thermal sulphurosa na vertente paulista da serra de Caldas da provincia de Minas Geraes”. Alguns anos depois, em 1882, através de um ofício endereçado à Assembleia Provincial, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.

Parte do ofício da Câmara da Cidade de Cunha, destinado à Assembleia Provincial de S. Paulo, relatando a existência de águas minerais em nosso município. Fonte: ALESP. Data: 1882.

A fama da água de Cunha se espalhou pela província de tal forma, que chegou aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo, que era aficionado por lugares que possuíam fontes de água mineral. Em 1912, ele adquiriu as terras da região, comprando a “Fazenda Jaboticabal”, criando, assim, a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”. Seu projeto era criar uma cidade no entorno das nascentes, a exemplo do que fora feito em Campos do Jordão, empreendimento urbano patrocinado e dirigido pelo Barão.

Visita do Marechal Mallet, então Ministro da Guerra, em janeiro de 1902, a São Francisco dos Campos, em terras do Barão da Bocaina, que aparece em primeiro plano. Foto e Descrição: Fundação Christiano Rosa (Piquete – SP).

Na década de 1940, Cunha lutaria, com o apoio de alguns deputados, junto ao Governo Estadual, para se tornar uma Estância Hidromineral. As outras cidades, que já detinham esse título, pressionaram politicamente o governador e os deputados, a fim de barrar o intento cunhense. Obtiveram sucesso. Como prêmio de consolo, Cunha recebeu o título de Estância Climática, em 28 de outubro de 1948. Tarde demais para se tornar uma cidade-sanatório. A penicilina já havia chegado ao Brasil, por meio do pesquisador Henrique de Souza Filho, (do Instituto Oswaldo Cruz), em 1943. Ele foi responsável por realizar os primeiros experimentos com o antibiótico fora da Inglaterra, onde foi descoberto por Alexander Fleming. Esse remédio trouxe um impacto significativo na saúde pública, permitindo o tratamento de diversas doenças infecciosas, entre elas a tuberculose, que antes eram consideradas graves e muitas vezes fatais. As cidades sanatoriais, de “clima salubérrimo” (como gostava de adjetivar Cunha o entusiasta João Lellis Vieira, em sua coluna no “Correio Paulistano”), foram aposentadas.

Recorte do diário “Correio Paulistano”, de 28 jul. 1940, p. 3, em um dos muitos artigos que Lellis Vieira apresenta Cunha como a “Suíça Brasileira”. Fonte: Biblioteca Nacional.

Aliás, digna de nota é a batalha inglória, que João Lellis Vieira (Cunha, 15 de julho de 1880 – São Paulo, 5 de junho de 1949), diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo de 1938 a 1947, travaria nas colunas do “Correio Paulistano”. O cronista ergueu o estandarte de Cunha como a legítima “Suíça Brasileira”, insígnia disputada com Campos do Jordão. O “Correio Paulistano” foi o órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), partido que durante muitas décadas reinou em São Paulo. Cunhense, antigo perrepista, católico praticante, historiador e poeta, Lellis Vieira era graduado pela Faculdade de Filosofia de São Bento e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Nomeado pelo governador Ademar de Barros, dirigiu o Arquivo Público até 1947, quando assumiu o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ocupando esse cargo até falecer. Campos do Jordão, cidade situada no alto da serra da Mantiqueira, venceu essa batalha, ficando famosa e sendo reconhecida como a “Suíça Brasileira”.  O próprio governo estadual construiu lá o seu palácio de inverno (“Palácio Boa Vista”) encerrando, assim, a questão.

Página do livro “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy, que cita as águas minerais de Cunha. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).

Foi somente em 1975 que a água mineral de Campos de Cunha passou a ser comercializada. A iniciativa veio do empresário Ghisleni Giulio, que adquiriu a fazenda nos anos de 1960. A “Águas Virtuosas Santa Rosa”, como era conhecida, em pouco tempo conquistou muitos fregueses devido à sua composição mineral, leveza e alto grau de pureza. Atualmente, é comercializada com o nome “Serras de Cunha” e pertence ao grupo “Águas Prata”.

Sob o território cunhense existe um reservatório de água com mais de 550 milhões de anos. É o Aquífero Cristalino, formado pelas rochas mais antigas do estado de São Paulo. O Cristalino aflora na parte leste do estado, cobrindo uma área de aproximadamente 53.400 km², conforme mostra o mapa acima. Ele está presente em outros municípios como Campos do Jordão, Águas de Lindóia, Jundiaí, Iporanga e até na Região Metropolitana de São Paulo.  O Aquífero Cristalino é composto por rochas ígneas e metamórficas — tipos de rochas muito resistentes, formadas em condições extremas de temperatura e pressão. A água subterrânea no Cristalino se acumula e circula por fraturas nas rochas. Essas fendas surgiram muito tempo depois da formação das rochas, como resultado de movimentos tectônicos, como a separação dos continentes e a formação da Serra do Mar.

Desenho esquemático do Aquífero Cristalino Pré-Cambriano, com suas fraturas. Fonte: Instituto Geológico.

Dependendo do tipo e da quantidade dessas fraturas, o aquífero pode ter maior ou menor vazão. O Cristalino é dividido em duas unidades, sendo a principal o Aquífero Pré-Cambriano, que é o aquele que abrange o nosso município e possui as rochas mais resistentes e antigas. Sua produtividade é geralmente baixa e bastante variável, dependendo da presença de fraturas abertas. Apesar da produtividade variável, a água do Aquífero Cristalino é de boa qualidade e pode ser usada para consumo humano, possuindo diversas fontes minerais em sua área de ocorrência.

Recorte de um mapa com os principais recursos minerais que podem ocorrer em Cunha. Fonte: ANM, 2025.

A água é a principal riqueza mineral de Cunha. De acordo com recente consulta que fizemos à Agência Nacional de Mineração (ANM), a única concessão de lavra que existe em nosso município está outorgada às Águas Prata Ltda. e foi concedida em 1974. Na condição de requerimento ou autorização para pesquisa, além da água mineral, há outros minerais que estão sendo pesquisados por aqui: feldspato, argila, areia, ferro, terras raras, caulim, gnaisse e granito. Na área fronteiriça com o município de Lagoinha há dois requerimentos de lavra da Cerâmica Industrial de Taubaté Ltda. para exploração de caulim.

Foto de Capa: Represa da “Serras de Cunha”, bairro das Águas, Distrito de Campos de Cunha, Cunha – SP. Data: 2024.

Leia mais: Cunha e suas águas minerais

Inauguração do Cemitério de Cunha – 7 de abril de 1868

Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha. Foto: Cemitério de Cunha, década de 1970. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.

O Cemitério de Cunha foi inaugurado em 7 de abril de 1868, após mais de uma década de dedicação da Câmara Municipal. Angariar fundos naquele tempo não era fácil. A ação dos administradores locais em prol de um descanso seguro e asséptico aos mortos começou em meados do século XIX. O arcaico hábito de enterrar defuntos no interior de capelas e igrejas vinha sendo questionado pelas autoridades sanitárias do Império.

Entretanto, convém lembrar que essa honra de ser sepultado no interior dos templos sagrados era facultada às elites locais. Aos pobres e remediados, era oferecido o adro da Igreja Matriz. Sim, a praça já foi cemitério. Por isso, no início da década de 1990, quando a Praça da Matriz passou por uma de suas inúmeras reformas, foram encontradas ossadas e vestígios de antigas sepulturas.

Aliás, o jazigo refletia a condição social do falecido. Nem depois de morto se escapava da segregação de uma sociedade estamental. Aos escravizados era destinado o chão seco das fazendas e sítios em que trabalhavam. Os condenados à forca eram enterrados dentro de suas celas, na Cadeia Pública. Por isso, quando o antigo sobrado que sediava a Cadeia, Câmara e Prefeitura foi incendiado, em 1961, na base de suas ruínas foram encontrados muitos restos mortais. Os pobres da zona rural eram enterrados na beira das estradas ou ao lado das capelas locais, dando origem a muitas santa-cruzes, que podem ser encontradas até hoje pelas estradas de Cunha.

Um fato curioso e até anedótico aconteceu quando a Câmara de Cunha concluiu as obras do Cemitério. Tudo estava planejado para o começo de abril, dia 5, um domingo. Todavia, uma vez pronto, faltava a sua razão de existir: cadáveres. Não havia. Ninguém estava morrendo em Cunha naqueles idos. Os ricos, visando manter seu privilégio, queriam continuar sendo sepultados nas igrejas; os pobres e escravizados, por questão de custo e logística, continuavam a ser enterrados na roça. Cidade com pouca população, seria difícil encontrar algum finado ajustado ao calendário político. Foi aí que tiveram a ideia de emprestar um defunto de Paraty, cidade vizinha sempre afligida pelas moléstias tropicais. E de lá trouxeram o primeiro morto, inaugurando, assim, a necrópole municipal.

Cemitério de Cunha em cartão-postal da década de 1970. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Uma década após a inauguração peculiar, o Cemitério Municipal finalmente pôde ser devidamente ocupado. Em 1878, a epidemia de varíola varreu o município de Cunha, ceifando muitas vidas. A famigerada e temida peste bubônica, desgraçadamente, povoou o campo-santo de sepulturas.

Em 23 de julho de 1971, o senhor José Oliveira Pinto resolveu se esconder na antiga capela do Cemitério, fugindo de uma forte chuva que atingia a cidade. Uma descarga elétrica atingiu a capela, ceifando sua vida e danificando a estrutura do secular velório.

Vista da Praça São Paulo, da Casa da Agricultura de Cunha e do Cemitério Municipal. Foto: Gislene Gomes. Data: 1978.

Em 20 de abril de 1973, a Prefeitura entregou um Cemitério Municipal remodelado e reformado à população, com um belo gramado à frente e uma estátua de Cristo, com o braço direito levantado, sinalizando sua bênção ao povo de Cunha.

Referência:
“A história de Cunha: 1600-2010”, de João José de Oliveira Veloso.

Postagem original, no Facebook:

A chegada do Dr. Casemiro da Rocha a Cunha – 12 de abril de 1.878

Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da nossa página no Facebook.

Em 12 de abril de 1878 chegava a Cunha, com o intuito de fixar residência, o médico baiano Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, proveniente de São Paulo, em companhia do jornalista e bacharel cunhense Benedicto Velloso d’Oliveira e Silva. Acometido de afecção pulmonar, foi convencido por Benedicto Velloso a vir para Cunha, para que o clima salubre das montanhas exercesse sobre sua moléstia efeito terapêutico. Quando chegou, logo percebeu ser o único médico residente em Cunha, razão que o leva a abrir um consultório imediatamente na cidade. No último quartel do século XIX, Cunha já estava entrando em fase de decadência econômica, devido ao esgotamento da pujança cafeeira do Vale e à Estrada de Ferro Central do Brasil, que tornou impraticável o caminho Guaratinguetá-Paraty. Por isso, desde logo anunciou: “consulta grátis aos pobres”. Sua benevolência o tornaria notório e em pouco tempo ganhou a simpatia e amizade dos cunhenses. Um ano após a sua chegada, foi eleito vereador pelo Partido Liberal. Como médico, fazia mais caridade que para as contas. Na política defendeu a causa republicana, fundando o Clube Republicano de Cunha, e a causa abolicionista, atuando na libertação de muitos escravos da cidade.
Em 1883, já filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), chegou à presidência da Câmara Municipal. Mesmo sofrendo preconceito por ser negro (no início), não se abateu e se impôs (pela sua formação e benevolência) ante a elite local, a qual ele passou a integrar e liderar. Em 1911 foi um dos precursores, junto com prefeito Coronel João Olympio, na criação do primeiro hospital de Cunha, a Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, que funcionou onde é hoje o restaurante Jeca Grill, na rua que se chamava Direita e hoje leva o seu nome. Republicano de primeira hora, com o advento do novo regime, logo estaria ocupando postos políticos e se tornando em um dos líderes do Partido Republicano Paulista (PRP), o principal partido da Primeira República. Em 1913 liderou a construção do Grupo Escolar. Em 1918 estava nos leitos improvisados de Cunha combatendo a gripe espanhola.
Em 1933 foi nomeado prefeito de Cunha, uma cidade arrasada economicamente pela Revolução do ano anterior. Mas ocupou o cargo por poucos dias, falecendo em 29 de dezembro do mesmo ano, para tristeza de todos. Sua ascensão política e seu amor Cunha, terra que adotou como sua e ajudou como pôde, fez dele uma figura marcante na História de Cunha e querido por todos. Além de ser um ótimo político, sempre foi alguém preocupado com o bem comum e em ajudar a cidade que o acolheu.

Fontes:
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha – Freguesia do Facão – A rota de exploração das Minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010, pp. 353-354.

Foto: Alfredo Casemiro da Rocha, aos 22 anos de idade, posando com sua tese de doutoramento, intitulada: “Do diagnóstico e tratamento do beribéri”, na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador (BA), no começo do ano de 1.878. Foto extraída do livro do “Negro político, político negro”, de Oracy Nogueira, p. 43. Foto provavelmente cedida pela família ao autor.

Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid02WpUHembMWL3f1jTxy2rqdx8xvXGq3UxPuCija3RBot4GtPnrRiNiKZtfq5cppd9Tl

Rua Dom Lino

Rua Dom Lino, ontem (década de 1940) e hoje (2020). Fotos: Museu Francisco Veloso e Jacuhy.

A Rua Dom Lino é uma das nossas ruas centrais. Foi assim nomeada em 22 de setembro de 1.877, pela Câmara de Cunha, por ocasião da visita do Rev.mo Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo, pois o religioso ficou hospedado na Casa Paroquial, na mesma rua. O pároco de Cunha na época era o Cônego Antônio Gomes Siqueira, que, posteriormente, também emprestaria seu nome para batizar uma de nossas praças. O cônego foi uma figura importante no âmbito local, tanto no campo religioso quanto no político. Membro destacado e líder do Partido Liberal, quando ainda reinava D. Pedro II.

Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo. Imagem: Página Brazil Imperial (Facebook).

A visita do bispo durou quase 3 semanas e nesse ínterim, que V.Rev.ª contou com afamada hospitalidade cunhense, teve tempo para visitar todas as igrejas da cidade, a Capela da Boa Vista (nosso marco fundador), a vizinha Lagoinha, o distrito de Campos de Cunha, as Águas de Santa Rosa e a Fazenda Pedra Branca.

O bispo diocesano deixou a cidade em 10 de outubro, sendo acompanhado por um préstito de dezenas cavaleiros até a primeira légua do caminho. Levou, além da boa impressão dos cunhenses, uma caridosa quantia angariada pela Câmara, destinada a amenizar o flagelo da seca que castigava o Ceará, sua terra natal.

Era a Câmara de Cunha composta pelos seguintes membros, em 1.877:
– João Carlos Freire;
– Francisco Mendes Mendonça (alferes);
– Antônio Moreira da Silva Querido;
– Manoel Albino dos Santos Queiroz;
– Manoel Rodrigues da Silva;
– Antônio José Vieira (professor);
– Antônio Xavier Freire (presidente e juiz municipal).

Interessante é que o registro fotográfico mais antigo que se tem de Cunha foi feito na Dom Lino. Ele aparece no livro “A História de Cunha (1600-2010)”, do professor João Veloso, datado como de 1.868. Aliás, nesse ano, a Dom Lino ainda era chamada de Rua da Lapa. Na fotografia, de qualidade compatível com a época, aparece a torre da antiga Capela da Lapa, demolida em 1.907, e, ao fundo, o sobrado do Paço Municipal, incendiado e demolido em 1.961.

Rua da Lapa na fotografia mais antiga que se tem de Cunha. Data: 1.868. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Pessoas, vestidas à moda do tempo, posam para a máquina de fotografia. Grande novidade era essa máquina que capturava momentos! Rua movimentada, Cunha vivia os seus últimos dias de glória. Dessa velha Cunha e desse áureo tempo quase nada restou além dessa fotografia.

Segundo pesquisa de Diogo F. Borsoi (“A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX”, 2020), publicada pelo Museu Paulista, na Rua da Lapa “predominavam casas habitadas por proprietários que as utilizavam apenas quando iam à vila. Havia também oito imóveis destinados à renda de aluguel na vila (…)”. Era a rua onde ficavam as casas dos maiores fazendeiros de Cunha, que só apareciam na cidade por ocasião das festas religiosas, permanecendo esses imóveis fechados boa parte do ano.

Um desses fazendeiros da rua era o coronel Antônio José de Macedo Sampaio, vulgo “Coronel Macedo”. Ele e sua esposa, Maria Francisca de Novaes Fonseca, católicos devotos, eram os zeladores e mantenedores da Capela da Lapa. Sempre estavam à frente da Festa de Nossa Senhora da Lapa, comemorada em 15 de agosto. Tinham casa em frente à capela, na esquina da atual Travessa Paulo Virgínio, onde hoje é o restaurante “Il Pumo” e o “Armazém Arte & Sabores”. Consumiram parte de sua riqueza na conservação e ornamentação dessa capela, chegando a deixar espólios em dinheiro, em seus respectivos testamentos, para a conservação da capela; que, infelizmente, não foram suficientes para mantê-la de pé até nossos dias.

Rua Dom Lino, em 1.978. Foto: Eurindo Braga Perez. Fonte: Página Parada do Tempo (Facebook).

Sobre as ruínas da Capela da Lapa foi erguido o Mercado Municipal, em 1.913. O povo de Cunha, religioso, não viu com bons olhos essa profana troca. Por isso, por muitas décadas, o Mercado, tão lotado em outras cidades, em Cunha virou um espaço anecúmeno, perdendo até mesmo sua função.

Fontes:
“A História de Cunha”, João Veloso;
“O Cunhense” (jornal) – 1.878;
Arquivos do Museu Francisco Veloso;
“A paisagem das trocas”, Diogo Borsoi;
“Negro Político, Político Negro”, Oracy Nogueira.

Cunha e o café

O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.

“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.

Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.

Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.

É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.

Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.

Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.

Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.

Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.

Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.

No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.

A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.

É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.

A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.

Referências:
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006.
SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942.
SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Cunha no ano da Independência do Brasil

Os relatos de viagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) trazem um valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país: o Vale do Paraíba.

Em 1822 realizou sua segunda viagem pela Província de São Paulo e nos legou diversos relatos sobre um tempo que já se foi… Nessa segunda viagem saiu do Rio de Janeiro e foi em direção a Minas. De lá, desceu a Mantiqueira, passou por Cachoeira Paulista e Guaratinguetá. Tomou rumo para Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, finalmente, São Paulo. Na volta, retornou a Mogi das Cruzes, passou por Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. De Taubaté partiu em direção à capital do Brasil, passando por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz.

Praça da Matriz de Cunha, por volta de 1900. Foto: Museu Municipal. Digitalização e coloração: Giorgio Cerutti.

Muito embora não tenha passado pela então Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, Saint-Hilaire (2002, p. 118) não deixou de registrar informações sobre o nosso município. Pernoitando em um rancho de tropeiros, antes de chegar a Bananal, junto com seus dois criados – Firmino e Laruotte –, dois índios montados e um tropeiro, se deparou com dois soldados que iriam assumir guarda em uma barreira criada na estrada entre Cunha e Paraty e deles extraiu as seguintes informações, alguns meses antes da Independência do Brasil:

“Rancho de Pedro Louco, 24 de abril, 4 léguas – No rancho sob o qual passamos a última noite, estavam dois homens da Vila de Cunha que vão assumir a guarda de uma barreira recém-criada nesta estrada. Segundo o que me informaram fica a cidade de Cunha situada perto da grande cordilheira, a nove léguas de Guaratinguetá, a quatorze do pequeno porto de Parati e cinco das nascentes do Paraíba. Como se acha em terreno baixo, o açúcar e o café não progridem em suas redondezas, que contudo produzem em abundância o milho e outros gêneros dos quais parte embarca em Parati para o Rio de Janeiro. De Guaratinguetá enviam também gêneros a Parati, fazendo-os passar pela Vila de Cunha.”

Saint-Hilaire, 24 de abril de 1822

Há outras impressões mais ou menos do mesmo período. Ficaremos, devido a sua precisão, com a do geógrafo e sacerdote português padre Manuel Aires de Casal (1945, p. 241-242), no seu “Corografia Brasílica”, lançado em 1817:

“Cunha, em outro tempo Facão. Villa ainda pequena, e que com facilidade pôde ser considerável, situada na vizinhança do Rio Jacuhy sobre a serra, oito léguas ao Norte de Paraty, ornada com a Igreja Matriz, de que he Padroeira N. S. da Conceição. O clima he sadio, as noites de Junho, e Julho frias. He o lugar da Zona Torrida, onde ategora tem prosperado melhor as flores, e arvores frutiferas oriundas da Europa. Nos seus contornos ha extensos pinheiraes; e seus habitantes cultivam mantimentos do paiz, recolhem abundancia de milho, e criam em grande quantidade gallinhas, e porcos, sua riqueza. O caminho, que communica esta Villa com a do Paraty, he péssimo. Quando os recoveiros transitarem por elle com a mesma facilidade, e segurança, que os do Cubatão entre S. Paulo, e Santos, então uma terá florescimento, outra maior commercio.”

Padre Manuel Aires de Casal, 1817
Parte de uma carta da Província de S. Paulo, do início do século XIX, mostrando a localização de Cunha, os rios e os caminhos para o mar. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

População

A população da Vila alcançava 2.818 almas em 1823. A economia prosperava, mas de forma modesta. O café ainda não tinha alcançado o seu auge na região. E Cunha, que possuía função complementar, aguardava ser alavancada junto, com o arranque econômico que atingiria o Vale. Predominava entre as atividades, conforme descrição da época, presente nos Maços de População, o seguinte: “tem hum sitio em q. fas sua plantação e seva capados”. A mão de obra era basicamente escrava, contingente que atingia cerca de 44% de toda a população do município. A maioria era formada por escravizados africanos, porém é de se supor que ainda havia entre eles indígenas, descendentes dos povos originários.

As barreiras de alfândega que existiam no caminho até o mar eram ocupadas por soldados, que fiscalizam e faziam cumprir a taxação, daí a razão de ser a militar a profissão de maior ocupação entre os cunhenses nesse tempo. Não é uma coincidência ter Saint-Hilaire se deparado com dois deles, que vinham assumir posto em Cunha, quando pernoitou no rancho de Pedro Louco.

Fonte: Arquivo Público do Estado de S. Paulo, Maços de População da Vila de Cunha, 1823.

Na década de 1830, a produção de café se torna dominante no Vale do Paraíba, superando o cultivo de cana-de-açúcar, com quem dividia o uso e ocupação do solo. De 1823 a 1836, a população cresce. Reflexo do avanço da cafeicultura na região e do lastro de desenvolvimento que provocava. Passa de 2.818 para 3.403 habitantes. Chega a 559 “fógos” (sinônimo de moradia, casa, habitação, residência). É um novo tempo não só na política, mas na economia e na demografia. Recebe a região grandes contingentes humanos: de brancos, aventureiros e escravizados de outras partes do Brasil. Do ponto de vista ambiental é um desastre: liquidação quase completa da Mata Atlântica, que reduzir-se-á aos sertões e as cordilheiras.

Tropeirismo

O surgimento de Cunha, outrora Facão, que remonta às primeiras doações de sesmarias nos fins do século XVII, está relacionado diretamente com os caminhos, antigos, que permeavam o planalto do Paraitinga e do Paraibuna. Ponto de parada entre Paraty, no litoral, e as cidades do sertão: Guaratinguetá e Taubaté. Portanto, aqui, mais que em outros lugares, floresceu o tropeirismo. O dinamismo dos fluxos de gentes, mercadorias e ideias animou os primeiros anos da Freguesia do Facão, que vingou na Serra do Mar. Os que foram se estabelecendo, margeando a Estrada Real, foram se nutrindo desse movimento das tropas e do rol de atividades adjuntas que dessa circulação vai-e-vem advém.

Um dia comum em uma cidade paulista no início do século XIX. “San Bernardo”, aquarela sobre papel. 1827.
Autor: Charles Landseer. Fotografia: Fernando Chaves. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Por isso, a abertura de novas vias ou a modernização e retificação das antigas, sempre representava um duro golpe econômico e demográfico sobre o Facão. Essas decadências podem ser percebidas nos estudos genealógicos, como foi na pesquisa do historiador Carlos da Silveira (1938, p. 92): “As tropas, que eram a sua vida, começaram a se desviar para outras zonas e as velhas famílias, em fins do século XVIII e princípios do XIX, trataram de se ir localizando ao longo do caminho novo, de Lorena ao Rio. Numerosos habitantes, facãozenses puros, deslocaram-se da terra natal, povoando assim as margens da nova estrada, em territórios que vieram a constituir os municípios paulistas de Lorena até a fronteira fluminense, e, passando mesmo essa fronteira, estenderam-se até o Rio Piraí (…)”.

Mas Cunha sempre se reinventa. A natureza nos é generosa e disposição para o trabalho o cunhense sempre teve, desde sempre. Em 1836, chama a atenção o grande número de ferreiros entre as artes e ofícios de que se ocupavam os cunhenses. Havia 11 deles trabalhando em suas oficinas na Vila. Número bem acima dos municípios da região, inclusive daqueles que possuíam uma população ou um espaço urbano maior. Isso mostra que mesmo com a inauguração do caminho novo da Estrada Real ou do Caminho Novo da Piedade, os valeparaibanos não negligenciaram a antiga via de acesso ao litoral, que passava por Cunha e findava no porto de Paraty. Antes do café tomar conta, permaneceu essa via como rota de escoamento das riquezas do Vale.

Um tropeiro e a sua tropa, em aquarela de Jean Baptiste Debret. Carvão, 1822, aquarela. Fonte: Museus Castro Maya/IBRAM/MINC. Fotógrafo: Jaime Acioli

Por isso, Cunha não desapareceu do mapa. Além de sua produção agrícola, funcionava como entreposto comercial. Os ferradores de Cunha – produzindo estribos, esporas, ferraduras, cravos e pregos, fivelas, trempes, panelas e toda sorte de utensílios de ferro – davam assistência logística ao transporte de cargas e ao aparato das tropas. A nossa cidade, ainda que minúscula, ocupava uma função naquela rede urbana pretérita.

Economia

A vocação de Cunha para pecuária é antiga. O economista Francisco Vidal Luna (1998, p. 135), ao estudar os municípios paulistas entre os séculos XVIII e XIX, observou sobre essa atividade o que segue: “em 1804 sua importância maior ocorria no Vale do Paraíba, com 14,8% dos proprietários e 22,8% dos escravos, e no Caminho do Sul, com participações de 14,0% e 26,1%, respectivamente. No Vale do Paraíba destacavam-se Cunha e São Luís do Paraitinga (…)”. Todavia, naquele tempo predominava a suinocultura; e não a bovinocultura, como atualmente, com Cunha sendo a maior bacia leiteira do estado.

“Loja de carne de porco”, gravura de Jean B. Debret, representando o Rio de Janeiro do século XIX. Acervo do Museu Castro Maya.

Os dados estatísticos mais próximos, de 1836, apontavam que a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha figurava entre as maiores produtoras de milho da Província de S. Paulo: com 87.988 alqueires, ocupando a 9ª posição. Além do cereal nativo da América, era destaque a produção de fumo com 649 arrobas, 2ª posição, atrás somente de Curitiba, que na época pertencia ao território paulista. Por ser um produto básico da culinária colonial, o toicinho era um produto comercializável e Cunha, com uma produção de 8.905 arrobas, ocupava naquela época a 1ª posição entre os municípios paulistas, correspondendo a 68,5% de toda produção provincial. Essa grande produção em nosso município indica o quanto a economia local estava ligada às culturas e criações que fugiam do sistema de plantation, ainda que a mão de obra fosse escrava em sua maioria. Junto com o cultivo de feijão, tabaco e milho e outros gêneros, criavam-se porcos e galinhas. Mais do que base da economia de subsistência, esses itens, para Cunha, destinavam-se à exportação e geração de receita. Seguiam para a Corte, via porto de Paraty, e para São Paulo e outras cidades do Vale, nas cangalhas.

Dos cultivos que prosperavam a província, Cunha em nada se destacava. Müller anota o que havia em nossas redondezas em termos de estabelecimentos agrícolas: “5 engenhos de assucar, em ponto pequeno, 2 fazendas de criar, 2 fazendas de café”. Número muito aquém dos municípios vizinhos. O motivo: o clima. A geomorfologia do nosso território, cercado por três serras, intensificava o frio característico do clima tropical de altitude. A geada, visita constante em nossos invernos, baldava as culturas tropicais nestas bandas. Entretanto, na descrição geral aparece a ressalva: “n’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vacum, e cavalar. Não tem terrenos devolutos.”. O café e o açúcar não fizeram a riqueza dos fazendeiros e sitiantes de Cunha, que de alguma forma, encontraram o seu nicho econômico como fornecedores de alimentos para região e para outras cidades maiores, envolvidas que eram em outras atividades agrícolas ou comerciais, mais rentáveis e tropicais.

Fazenda da Barreira, antes de ser demolida, no bairro do Taboão. Antiga alfândega para as mercadorias do Vale. Foto: Marcos Santilli. Data: década de 1980.

Após a Independência do Brasil, o Vale do Paraíba se tornará a região mais próspera do Império nascente. O café irá alavancar todas as localidades valeparaibanas. Até aquelas que não produziam café, como Cunha. No século XIX Cunha conhecerá o seu auge econômico e também viverá a sua decadência. Um século de muitas nuances, mudanças, e que merecerá, em breve, um texto só sobre esse período.

Referências:
AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Maços de População – Vila de Cunha – 1823. Disponível em: < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/web/digitalizado/textual/macos
_populacao >, acesso em 5 set. 2022.
DÓRIA, Carlos A.; BASTOS, Marcelo C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
LUNA, Francisco V. São Paulo: População, Atividades e posse de escravos em vinte e cinco localidades – (1777-1829). Estudos Econômicos. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 99 -169, jan/mar., 1998. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ee/issue/view/877 >, acesso em 10 set. 2022.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3 ed. São Paulo: Governo do Estado, 1978.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Tradução de Afonso de E. Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
SILVEIRA, Carlos da. Apontamentos para o estudo de uma grande família: os Lopes Figueira, do Facão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, v. 35, p. 91-130, dez., 1938.
SOBRINHO, Alves M. A Civilização do Café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.

Cunha: composição étnica em 1.828

Cem anos após a sua fundação e logo após a Independência do Brasil, a Vila de Cunha somava 3.192 almas, espalhadas, sobretudo, pelo seu extenso território rural, já que a população urbana naquele tempo era insignificante. Nada de insignificante era a sua importância econômica para o Vale e para a Província de S. Paulo. Impossibilitada, devido ao clima frio, de produzir café e cana-de-açúcar na escala reclamada pelo mercado, o município, desde os primórdios, dedicou-se à produção de gêneros de primeira necessidade para a economia interna, como milho, carne de porco, toucinho e tabaco. Embora fosse pequena a sua população de 1.828, era muito mais significativa relativamente do que os 22 mil habitantes de hoje, em um Estado com 43,7 milhões de habitantes. Na época a Província contava com apenas 221.559 habitantes, portanto, Cunha concentrava cerca de 1,5% de toda a população da Província. Nas fazendas, as plantações e o árduo trabalho agrícola demandavam uma grande e eficiente mão de obra, obtida principalmente através da escravização dos negros, daí se observa a grande proporção de população negra em nosso município, como se observa no gráfico.