Um episódio da história da villa de Cunha

Por volta do anno de 1700, o intenso uso do antigo trilho dos goyanás, entre Paraty e o valle do Parahyba, no caminho das minas geraes, determinou a formação de pousos, onde os tropeiros descansavam e havia milho farto para os animaes.

O ouro, augmentando incrivelmente o tráfego, fez taes acampamentos crescerem de importância, transformando-as em estalagens. E com essas paradas forçadas o commercio fosse rendoso, natural que por ali se fixassem comerciantes desiludidos das minerações, ou lavradores, forçados pela própria natureza, de tendências irreprimivelmente voltada para a agricultura. Porque há indivíduos assim, que nascem com a vida rural no destino.

Entre esses, um Silva Porto acampou em 1724, com a família e mais companheiros, nos logares denominados “Campo Alegre” e “Boa Vista”, à margem da estrada, junto ao ribeiro Lavapés.

Fizeram curral, onde metteram algumas cabeças de gado. Dahi à construcção da egreja, da pequenina capella que é o germen de todas as novas freguesias, foi um instante. Estava esboçado o arraial.

Sommaram-se nove habitantes. Aventureiros que pretendiam alcançar o território das minas e deixavam encantar, convidados pela terra e pelo clima, ficavam. Espalhavam-se pela serra, nas ondulações do solo, entre os milharaes, a canna doce e os verdes campos de pastagens.

Mais tarde uma família portugueza conhecida pelo nome de Falcon, composta de Falcon, mulher, filha, genro e irmão, frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição, fixou-se também ali, numa planície pouco distante, dando mais impulso ao nascente povoado.

Constituíram-se assim três núcleos principaes: “Boa Vista” e “Campo Alegre”, com Silva Porto e seus companheiros; e a família Falcon, no ponto em que hoje se situa a cidade.

Aconteceu então que entre os grupos, e isso era natural, surgiu accesa rivalidade, porque todos três, conhecendo que careciam reunir-se, porquanto a união faz a força, queriam cada qual que seu próprio sítio constituísse o centro da futura villa.

Frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição (o qual demonstrava absoluto desinteresse da questão material e cuidava mais da salvação das das almas), argumentando que no alto do ribeirão Lavapés já havia uma egreja, e revelando assim a mais absoluta isenção de partido, transportou para o campo rival a imagem de N. S. da Conceição, de sua particular fé e de milagrosa fama.

Três vezes levou o religioso imagem à capella; três vezes a imagem voltou, no rastro delle, ao núcleo dos Falcon.

Milagre?

Conclusão do artigo da historiadora Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado em 1957, que pôs em xeque a família “Falcon” ou “Falcão” como fundadora de Cunha.

Não foi preciso mais nada. Interpretando o facto como manifestação de divina vontade, foi facil ao frade, insuspeito na questão material, arrebanhar para o seu grupo os moradores das vizinhanças, e com o auxílio delles erigir um templo de grandes proporções, templo que veio a constituir um dos mais importantes monumentos históricos da região.

Em 1747 o arraial foi freguesia. A freguezia foi villa em 1785, com o nome de Villa de Nossa Senhora da Conceição do Cunha.

O mais interessante, porém, é que hoje a cidade e dita simplesmente de “Cunha”. O nome histórico, o que lhe reflecte verdadeiramente a formação, esse ficou por ahi, degastado pelo tempo e inteiramente olvidado pelos homens. Só restou o appendice final, encaixado a martelo, à última hora, pelo governador e capitão general de São Paulo, Francisco da Cunha Meneses, numa deslavada autohomenagem, que atravessou e venceu quase dois séculos.

Mas isso não foi nada, uma vez que a idéa pegou.

E o nome da pitoresca cidade é até um dos mais sympathicos e amáveis para todos os paulistas.

Parte do artigo publicado no Estadão, em abril de 1939, transcrito neste post. Fonte: Acervo Estadão. Interessante notar que não é assinado.

Nota:
Sobre a suposta “família Falcon” e “frei Manuel”, citados neste artigo anônimo, trata-se de personagens contestados pelas pesquisas históricas e genealógicas que se fizeram sobre a origem de Cunha, antigo Facão. Essas personagens e a história miraculosa da santa que mudou de lugar compõem o nosso mito fundador. Para saber mais, leia:
– O artigo “Um documento interessante sôbre Cunha”, da professora do departamento de história da USP Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado na Revista de História, n. 31, 1957.
– O artigo “Cunha e nome Facão”, do professor de história e genealogista Carlos da Silveira, publicado em duas partes na Revista do Arquivo Municipal, vol. LVIII, 1939 e vol. LXIII, 1940.

Bairro da Bocaininha da Boa Esperança

Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.

Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.

Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.

Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.

Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.

Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.

Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.

Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.

Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.

O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.

Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.

Referências:
Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas (2003), Aziz Ab’Sáber.
Os caminhos da Bocaina: uma questão agrária e ambiental (2002), FAU/USP, tese de doutorado de Maria de Lourdes Zuquim.
Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas a plantação (1957), de Alceu Maynard Araújo.
Panorama do Censo 2022 – IBGE – População residente: recorte setores censitários.
Bairro Boa Esperança (1978) – Carta Topográfica escala 1:10.000 – IGC – Plano Cartográfico do Estado de São Paulo

Foto de Capa: Cláudio Luiz de Mello – Data: nov. 2024 – Bairro Bocaininha da Boa Esperança

Localização do bairro:

Uma foto antiga de Cunha

Foto da cidade de Cunha, em 1932, publicada na Revista da Semana (RJ), na edição n.º 45, de outubro de 1932, na página 23. A legenda é a seguinte: “Vista geral de Cunha diante de cuja cidade se detiveram encarniçadamente, durante quasi todo o tempo da luta, os exércitos combatentes”. Cunha foi um dos principais palcos de batalha daquela guerra civil.

Finda a Revolução de 1932, a Revista da Semana retratou de várias formas os dias de combate, o cotidiano das tropas combatentes e das cidades paulistas. Várias cidades do Vale foram retratadas. A revista fez uma reportagem, no estilo fotojornalismo, uma novidade na época, sob o título de “O movimento revolucionário em S. Paulo”. A reportagem ocupou, por várias edições, as páginas do periódico em 1932, mostrando fotos de ambos os lados que estiveram em confronto.

A Revista da Semana foi um periódico ilustrado de variedades fundado por Álvaro de Tefé, no Rio de Janeiro. Circulou pela primeira vez em 1900 e foi extinta em 1959. Segundo Carolina Vianna Dantas, pesquisadora do CPDOC/FGV, “mesmo com um projeto editorial voltado para o público feminino, a Revista da Semana não deixou de abordar temas relativos à política nacional. Durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, combinou temas amenos, como o veraneio elegante em Petrópolis, com a realidade da guerra em seu aspecto mais duro”.

Capa da Revista da Semana (RJ), edição n. 45, de 22 de out. de 1932. Fonte: Biblioteca Nacional.

A qualidade da foto, por ser uma cópia de uma página de revista, infelizmente, é ruim. Mas é possível identificar as principais construções que existiam na época, ainda uma cidade de casas coloniais, com suas duas igrejas barrocas.

O local da tomada da foto, pela posição, parece ser o bairro do Alto Cruzeiro, onde hoje é a Santa Casa, que não existia na época. Ou a Estrada Cunha-Paraty, não dá para afirmar com certeza.

Referências:
Revista da Semana 1900 a 1959 – Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional;
Verbete REVISTA DA SEMANA – CPDOC/FGV.

The Great Synagogue of Rome

Great Synagogue of Rome postcard (circa. 1920).

The Great Synagogue of Rome (Italian: Tempio Maggiore di Roma) is an Orthodox Jewish congregation and synagogue located on Lungotevere de’ Cenci, in Rome, Lazio, Italy. Designed by architects Vincenzo Costa and Osvaldo Armanni, it showcases an eclectic blend of Historicism and Art Nouveau styles. Completed in 1904, it stands as the largest synagogue in Rome and houses the Jewish Museum of Rome.

Historical Background

Rome’s Jewish community traces its origins to the 2nd century B.C., when the Roman Republic formed a loose alliance with Judea under Judah Maccabeus. During this period, many Jews migrated from Judea to Rome. Their population grew steadily over the centuries, bolstered by Mediterranean trade and later by forced migration—many Jews were brought to Rome as slaves following the Jewish–Roman wars between 63 and 135 CE.

The current Tempio Maggiore di Roma was built shortly after Italy’s unification in 1870, when the Kingdom of Italy annexed Rome and dissolved the Papal States. With the demolition of the Roman Ghetto and the granting of citizenship to Jews, the community sought to replace the old ghetto synagogue—a complex structure that housed five scolas (Italian-Jewish term for synagogues)—with a grand new building.

Commemoration and Interfaith Milestones

Commemorative plaques have been installed to honor Jewish victims of Nazi persecution and the 1982 attack by the Abu Nidal Organization.

A landmark moment occurred on 13 April 1986, when Pope John Paul II made a historic visit to the synagogue—the first known papal visit to a synagogue since the early days of the Roman Catholic Church. He prayed alongside Rabbi Elio Toaff, then Chief Rabbi of Rome. Subsequent visits included Pope Benedict XVI in 2010, hosted by Rabbi Riccardo Di Segni, and Pope Francis on 17 January 2016.

Cultural Significance

The synagogue celebrated its centenary in 2004. Beyond its role as a place of worship, it serves as a cultural and organizational hub for la Comunità Ebraica di Roma (the Hebrew community of Rome). It houses the offices of the Chief Rabbi of Rome and the Jewish Museum of Rome.

On 17 January 2005, thirteen cantors, in collaboration with the Jewish Ministers Cantors Association of America (Chazzanim Farband), performed the first cantorial concert in the synagogue’s history.

During his 2016 visit, Pope Francis condemned violence committed in the name of religion and expressed solidarity with the Jewish diaspora as a gesture of interfaith friendship. Echoing the words of Pope John Paul II, he referred to Jews as the “elder brothers” of Christians and added the phrase “elder sisters” to include Christian women in this spiritual kinship.