
A cidade de Cunha é a segunda menos arborizada da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN), de acordo com dados do Censo 2022, divulgados no dia 17 de abril, quinta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a pesquisa Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, nossa cidade apresenta apenas 16,87% de seus domicílios com uma ou mais árvores no entorno. A cidade menos arborizada é Arapeí, com 8,57%. Piquete, outra cidade turística da nossa região, também apresenta um índice baixo, com 25,36%. Vale lembrar que nossa região conta com 39 municípios, cuja população ultrapassa 2,5 milhões de habitantes e é altamente urbanizada, com 94,7% desse contingente vivendo em áreas urbanas.
É interessante perceber as mudanças pelas quais a paisagem urbana de Cunha passou ao longo do tempo. Por exemplo, quando observamos fotos das décadas de 1930 e 1940 (vide na galeria acima), percebemos que era uma cidade muito menor, porém muito mais arborizada do que é hoje. Lembrava aquelas charmosas vilas europeias. As ruas centrais e a Praça da Matriz eram adornadas e ladeadas por árvores. Cunha, naquele tempo, ainda não era uma cidade turística, como é atualmente.
O último grande projeto de arborização da cidade ocorreu na década de 1970, durante o mandato do ex-prefeito José Elias Abdalla (Zelão), que tinha como objetivo embelezar a cidade, na esperança de promover o despertar turístico de Cunha. Muitas das árvores então plantadas, já envelhecidas e malcuidadas, foram, ao longo do tempo, sendo cortadas pela gestão municipal para ampliar ou remodelar as vias públicas — ou pela Defesa Civil, devido aos riscos que apresentavam aos moradores e transeuntes.
Desse projeto urbanístico — um dos muitos idealizados por esse visionário prefeito — restou apenas a arborização da Avenida Padre Rodolfo, no bairro do Alto do Cruzeiro. Por isso, é a avenida mais verde e bonita da cidade. Aquelas sibipirunas são um presente à Santa Casa, aos seus convalescentes e aos moradores do entorno. Esperamos que essa avenida nunca venha a ser descaracterizada, como infelizmente ocorreu com tantas outras.

Até a década de 1990, a Praça da Matriz e a Praça Cônego Siqueira — sempre locais de encontro dos cunhenses de todas as gerações — ainda contavam com mais de uma dúzia de árvores. Até mesmo uma vetusta e frondosa araucária, símbolo de Cunha, localizada ao lado, no terreno da Prefeitura (onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Educação), veio a morrer misteriosamente nos últimos anos. Depois que decidiram transformar a praça em um centro de eventos, o verde foi cedendo espaço a estruturas metálicas e plásticas, de gosto estético bastante duvidoso. A arborização, sempre prometida, foi sendo deixada “para depois” — um “depois” com prazo indeterminado, ao que tudo indica. A cada reforma ou remodelação, mais concreto e pedra. E mais árvores sacrificadas. Um contrassenso em um lugar que promove o ecoturismo e outras características naturais como atrativos turísticos.

Em entrevista concedida ao Jacuhy, há alguns anos, o engenheiro agrônomo Glênio Wilson de Campos, da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), que esteve à frente da Casa da Agricultura de Cunha entre as décadas de 1970 e 1980, apontou que a falta de arborização é um dos problemas da cidade, não apenas por uma questão ambiental, mas também estética, considerando o enorme potencial turístico do município. À época, o engenheiro Glênio sugeriu o plantio de pereiras como solução, pois, além de serem árvores frutíferas, adaptam-se bem a ambientes urbanos. Cunha, no passado, chegou a realizar a “Festa da Pera” e era a maior produtora paulista dessa fruta, graças aos inúmeros pomares mantidos por seus pequenos produtores. Obviamente, não podemos deixar de mencionar que a Mata Atlântica — bioma no qual nosso município está inserido — possui uma flora riquíssima, com diversas espécies que se adaptam muito bem aos espaços urbanos.
Embora o Brasil seja o maior país tropical e abrigue a maior floresta do mundo, seus espaços urbanos ainda carecem de árvores. Segundo o IBGE, 66% dos brasileiros vivem em ruas arborizadas, mas um terço mora em vias sem qualquer árvore. “O fato de 66% dos brasileiros viverem em trechos de ruas com pelo menos uma árvore é um número significativo”, afirmou o geógrafo Jaison Cervi, da Coordenação de Geografia do IBGE. “O problema é que as porcentagens variam muito de acordo com a região do país.” Curiosamente, a Região Norte é a menos arborizada. Também não deixa de ser curioso que Cunha, município que abriga duas unidades de conservação em seu território, esteja entre os menos arborizados do Vale. Na verdade, é inaceitável.
A arborização é crucial para melhorar a qualidade de vida nas cidades e combater o aquecimento global. As árvores purificam o ar, reduzem a temperatura, previnem enchentes e diminuem a contaminação dos lençóis freáticos. Em resumo, são essenciais para qualquer ambiente. Mesmo que, em Cunha, elas não estejam “na moda”, sua importância se reafirmará cada vez mais. E voltarão a ser plantadas, seja pelo poder público local ou pela própria população, pois a tomada de consciência é inevitável — e diversos projetos ambientais vêm surgindo em nosso município. O aquecimento global está aí. Todos vão precisar de uma sombra para se proteger.
Referências:
ESTADÃO. Quais são as cidades mais arborizadas do Brasil; veja ranking e mapa interativo. O Estado de S. Paulo, 17 abr. 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/quais-sao-as-cidades-mais-arborizadas-do-brasil-veja-ranking-e-mapa-interativo/. Acesso em: 18 abr. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Panorama do Censo 2022: Cunha (SP). Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/. Acesso em: 18 abr. 2025.
______. Censo 2022: dois em cada três brasileiros moram em vias sem rampa para cadeirantes. Agência de Notícias do IBGE, 17 abr. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43166-censo-2022-dois-em-cada-tres-brasileiros-moram-em-vias-sem-rampa-para-cadeirantes. Acesso em: 18 abr. 2025.


