
Foi uma grata notícia para todos nós, quando em 2013, ficamos sabendo que a nova delegada da Delegacia de Polícia de Cunha era gente daqui. Pela primeira vez a cidade teria um delegado do lugar. E seria a Vania do “Nerso do Pó”, do dono da fábrica de torrefação de café Vicunha. Pronto! Já tínhamos a ficha completa da pessoa e os antecedentes todos, pois em Cunha ninguém é anônimo, todo mundo é “fio” de alguém, neto de outrem,… Assim, mais do que um processo genealógico, podemos fazer suposições sobre a estirpe da pessoa. Coisa nossa. E a da Vania era a melhor possível. Seus pais (Nércio & Cinira) foram conhecidíssimos e queridíssimos por todos. E para completar, a Vania já chegou com a fama feita: seu ótimo trabalho em São Luiz do Paraitinga tinha extrapolado as fronteiras, repercutindo em Cunha, para orgulho nosso. E em Cunha não foi diferente. Fez um excelente trabalho combatendo o crime na cidade e na nossa extensa zona rural. Promovida, teve que partir. Mas antes criou o maior grupo de memória coletiva do Vale, o “Memória Cunhense”, sucesso de audiência e postagens entre os “cunheiros”. Fruto do seu amor à terra e ao povo de Cunha. Sua terra! Ainda que por um fortuito geográfico tenha nascido em Guaratinguetá, cidade em que trabalha e reside atualmente. Mas ninguém duvida que seja uma cunhense de alma e coração. Nós conhecemos os nossos.
Mesmo morando aqui do lado, Vania revela que pretende voltar, após se aposentar, para a terra onde seu “umbigo está enterrado”.
No dia 9 de setembro deste ano, a Dr.ª Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, gentilmente, concedeu uma entrevista ao Jacuhy, que publicamos abaixo.
Jacuhy: Em 2012 você teve a ideia de criar um grupo “Memória Cunhense”, hoje um sucesso total e um dos maiores grupos virtuais de história e memória da nossa região. Como aconteceu? O que motivou você a criar o grupo? E como você vê hoje, nove anos depois, os resultados e as colaborações recebidas pelo grupo?
Vania: Acessando as redes sociais, percebi que alguns de meus amigos virtuais, em algumas oportunidades, publicavam fotografias antigas de familiares. Essas fotos, além de serem muito comentadas, despertavam meu interesse, seja pelo fato de dar um rosto para um cunhense, ilustre ou não, ou ainda pelo fato de que algumas dessas fotos apresentavam como pano de fundo uma construção antiga ou uma paisagem, que permitia reconstruir, pelo menos na minha imaginação, como seria fazer parte daquele momento importante da história de alguém ou mesmo a configuração arquitetônica ou paisagística de Cunha. A partir de então, passei a consultar algumas pessoas que demonstravam interesse pela parte histórica, dentre eles Victor Amato e o Efraim, os quais foram unânimes em incentivar a ideia de juntar todo esse material disperso em vários perfis e agrupá-los em um grupo, para que ficassem acessíveis para qualquer pessoa, sendo que os membros também poderiam alimentar com qualquer documento ou fotografia importante de sua família. É importante ressaltar que, em razão do isolamento de Cunha, por um longo período, não tivemos grande quantidade de registros fotográficos e, os poucos que foram feitos, em grande parte, pertenciam a cunhenses que deixaram a cidade em busca de uma vida melhor; assim, poderiam compartilhar de onde estivessem.
Outro detalhe importante é que o grupo pretendia dar visibilidade àquelas pessoas que, embora não tivessem destaque social ou ocupassem cargos importantes, faziam parte do imaginário do povo cunhense por diversas razões, particularidades ou qualidades. Essas fotografias são as mais raras e, não por coincidência, são as mais visualizadas e inspiram os membros do grupo a tecerem seus comentários. Foi dessa forma que conheci o Zé Varda, o Ignácio Bebiano dos Reis, o Dr. Casemiro da Rocha, a D. Benzinha, a Lenice Amato, dentre tantos outros.
Hoje, passados 9 anos, entendo que o grupo segue firme, com mais de 8000 membros e mais de 4000 registros fotográficos, documentais, jornalísticos e literários. Esse farto material o torna apto à realização de pesquisas por estudantes ou apenas curiosos.
“Nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas…”
Vania Zaccaro, sobre o desafio que a sociedade cunhense tem para com sua própria história, após a partida do professor João Veloso
Jacuhy: Ano passado perdemos o professor João Veloso, grande incentivador da história e cultura local. Para você, que se interessa por essas questões, quais são os desafios que Cunha precisa enfrentar nessas áreas, agora sem a presença do professor João Veloso?
Vania: O falecimento do Professor João Veloso é uma perda imensurável. Foi meu professor no ensino médio e meu interesse na história de Cunha se deve ao seu trabalho. Eu acho, inclusive, que a história de Cunha se divide em antes de João Veloso e depois de João Veloso. Antes houve uma literatura com relação a nossa história, mais específica para trabalhos acadêmicos, feita por renomados estudiosos, importantíssima, mas nada que se compare com o livro “A História de Cunha”, escrito pelo professor João Veloso. Pela profundidade, pelo cuidado na pesquisa e pelo olhar apaixonado de um cunhense que dedicou sua vida para resgatar tudo que nos é caro.
Com a morte do professor, acho que nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas, para que não pereçam.
Jacuhy: Você foi delegada em São Luiz do Paraitinga, município vizinho de Cunha, e que tem uma postura muita ativa e propositiva na preservação da história e cultural do lugar. O que tem em São Luiz que não tem em Cunha? Podemos aprender algo com os nossos vizinhos?
Vania: Tive a grata satisfação de exercer minhas funções, por 9 anos, no município de São Luiz do Paraitinga, cidade que me acolheu e me honrou com o título de cidadã luizense. Os luizenses são as pessoas mais orgulhosas de sua cidade que eu conheci. Eles amam seus casarões, a música, as tradições, a história e principalmente a cultura caipira, sendo reconhecidos como o do “último reduto caipira do estado”. Esses valores fizeram com que eles resistissem às inovações e preservassem seu patrimônio arquitetônico e imaterial, mantendo-o o mais fiel possível. Em Cunha, faltou essa consciência de preservação. A arquitetura colonial foi considerada ultrapassada e algumas casas foram demolidas para se construir prédios modernos. Essa desconsideração influencia todo o resto. Vejo um certo distanciamento da população em geral com tudo que é relativo a esses bens, materiais e imateriais, fazendo com que sobrevivam graças a esforços de alguns abnegados, que resistem para defendê-los.
Jacuhy: Você passou a infância em Cunha e nossa cidade viveu muitas mudanças nos últimos anos. Quais são suas recordações desse período? Há algumas personagens que você recordaria? Há algo que nossa cidade perdeu e que devia resgatar?
Vania: Eu vivi em Cunha desde meu nascimento até os 34 anos, quando tive que sair para assumir cargo público. Embora a cidade fosse bem diferente, para mim era perfeita. Somente tenho boas lembranças, de momentos felizes, de amizades sinceras, de acolhimento, de empatia e solidariedade. Embora não professasse a fé católica (venho de uma família metodista), participava das festas religiosas, procissões, missas e isso foi superimportante para minha formação. Viver nessa época tinha um sentido mágico. Lembro, com muitas saudades, dos caminhões leiteiros, que transportavam as pessoas e tudo que conseguiam carregar: frangos, queijos, frutas e hortaliças, ovos e flores, no dia de Finados. Essas flores eram de todos os tipos, copos-de-leite, hortênsias, palmas de Santa Rita, lírios brancos, rosas, dálias etc. As pessoas, com toda dificuldade de locomoção, deixavam suas casas e iam até o cemitério para prestar homenagens aos seus antepassados e o cemitério ficava pequeno para tanto movimento. As músicas tocadas eram apenas sacras e religiosas e todos estavam tristes e comovidos. Também me marcava muito a Sexta-Feira da Paixão, onde os pecuaristas doavam toda a sua produção leiteira para quem quisesse aproveitar. O leite retirado das vacas, nesse dia triste, não poderia ser vendido. Hoje, tudo é muito diferente.
Jacuhy: Entre os seus interesses em nossa História, Vânia, você é uma das que mais destacam a nossa memória degustativa e a importância dela para nossa identidade. Por que você gosta de destacar essa questão? Há algum motivo pessoal por trás? E quais pratos e iguarias cunhenses que poderiam, segundo sua opinião, se tornarem patrimônio cultural imaterial de Cunha, já que os municípios de nossa região estão fazendo um resgate nesse sentido?
Vania: Essa memória degustativa faz parte do processo de reconhecimento da identidade do lugar. O afogado está para São Luiz do Paraitinga, como o bolinho de arroz está para Cunha. Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas.
Jacuhy: Você fez um bom trabalho quando esteve em Cunha, recebendo o reconhecimento da sociedade cunhense. Pretende voltar para Cunha ainda exercendo a sua profissão ou só depois de se aposentar? Ou não pretende mais retornar para cá?
Vania: Obrigada por sua generosidade em avaliar meu trabalho. Por três anos tive a honra de prestar serviços na minha cidade e, em razão de uma evolução na carreira, somos obrigados assumir maiores responsabilidades em cidades maiores. Entretanto, a aposentadoria se aproxima e, assim que conseguir, voltarei para onde meu umbigo está enterrado.
“Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas”
Vania Zaccaro, sobre a necessidade de ampliar o conjunto de bens do patrimônio cultural cunhense
Jacuhy: Vânia, você deixa muito claro em nossas conversas e nas suas postagens que, entre suas paixões, estão a História, as histórias e os causos de Cunha. Pretende escrever um livro sobre o assunto? Ou mesmo um livro sobre Cunha?
Vania: É apenas uma pretensão distante. Aposentada, teria um tempo maior para me dedicar a esses assuntos importantes e ajudar com ideias e pesquisas. Penso que existem vários cunhenses brilhantes que devem ter guardado poesias, contos, crônicas e histórias e, quem sabe, poderíamos fazer uma coletânea e editar alguma coisa. São apenas ilações de uma cunhense apaixonada por sua terra.
Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.
Vania: Por nada. Eu é que agradeço a sua consideração.
Entrevista concedida por mensagem, pela Drª. Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, para a página e blog Jacuhy.
Data: 09 de setembro de 2021.


