Paranapiacaba: origem e evolução da Serra do Mar

A Serra do Mar – a “Paranapiacaba”, na língua tupi, que significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epîak (ver) e aba (lugar), conforme tradução de Frei Gaspar da Madre de Deus – não é uma cordilheira, um dobramento moderno como é o Andes. É uma cadeia de montanhas alinhadas. Não por acaso, foi entendida pelos colonizadores portugueses, tão afeitos ao Medievo, como uma muralha.

Relevo de origem complexa, sobreposição de diversos eventos geológicos marcam sua evolução. Sua estrutura geológica aponta para formação do antigo continente Pangeia (há 300 milhões de anos) e para a traumática separação da Gondwana (180 milhões de anos), que resultou no nascimento da América do Sul e da África. Esse relevo escarpado, aliás, é herança dessa separação.

Mas não só isso. O tectonismo foi intenso, de modo que a parte mais alta desse relevo antigo foi totalmente destruída e foi se depositar no fundo do mar ou na Bacia Sedimentar do Paraná. O que vemos hoje da Serra do Mar, seus pontões rochosos, é uma belíssima exposição natural de rochas graníticas que foram formadas a 30 quilômetros de profundidade. O intemperismo e os sucessivos processos erosivos foram esculpindo esse relevo, salientando as rochas mais resistentes. As rochas mais fracas não tiveram vez. Viraram sedimentos.

Ranhuras erosivas fazem parte da paisagem natural, mesmo em áreas cobertas de Mata Atlântica. São resultantes dos altos índices pluviométricos, condicionados pela proximidade com o oceano e pela altura das montanhas, que ultrapassam com folga a cota dos 1.000 metros, combinados com a declividade acentuada, por vezes abrupta, de suas escarpas. O solo raso, sustentado por lajedos, são incapazes de manter-se incólume nesses lugares. Todos esses processos geológicos recobertos por floresta tropical resultaram em uma paisagem de beleza cênica ímpar, de cartão-postal, como a mostrada acima, no município de Morretes (PR).

Duas falhas transcorrentes pré-cambrianas perlongam a Serra do Mar e seu reverso. Geólogos interpretam as escarpas da serra nesse trecho como resultado de abatimentos e basculamentos de blocos de falha. Dada a continuidade topográfica da Serra do Parati com o planalto, é provável que elas representem a parte frontal de erosão remontante da borda do planalto entre os dois maciços resistentes dos promontórios sustentados pelas rochas alcalinas da ilha de São Sebastião e o granito do Parati.

Origem e evolução da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. Fonte: Revista Pesquisa FAPESP. Data: 2021.

Para o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP),  a Serra do Mar e da Mantiqueira foram “moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva”. O geólogo Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências da USP, acrescenta: “além do clima, há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Essas serras já foram uma só, há 130 milhões de anos, quando se formaram, conforme mostra o infográfico acima. Chegaram a atingir incríveis 4 mil metros de altitude! (hoje, não chega a 3 mil…). Mas nada dura para sempre. Tremores sísmicos intensos estremeceram a ligação e o divórcio foi inevitável. Desse distanciamento surgiu o Vale do Paraíba, abertura propícia para o acúmulo de sedimentos oriundos da erosão das duas serras. Esse acúmulo gerou a chamada Bacia Sedimentar de Taubaté, importante feição geológica de rifteamento no Brasil. Há 15 milhões de anos, os rios Paraitinga e Paraibuna, que encorpavam o volume do rio Tietê, foram, finalmente, capturados por esse vale novo, mudando de rumo, e direcionando para o Rio de Janeiro, como é atualmente.

A separação dessas serras trouxe três consequências:

  • A formação de reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e Campos, localizadas no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro;
  • Uma nova configuração da rede hidrográfica regional, separando as bacias do Paraíba do Sul e a do Tietê, pelo soerguimento do chamado Alto Estrutural de Arujá;
  • Vicariância, pois a separação de comunidades de animais e plantas, favoreceu a formação de novas espécies.
Na foto, ao fundo, vê-se a Serra dos Três Picos, com altitudes que variam entre 1.500 – 1.600 metros, dentro do município de Paraty. Captura tomada da Estrada Cunha-Paraty (RJ-165).

A evolução não para. As encostas do Serra do Mar continuam erodindo, se desgastando. A serra vai se distanciando do mar, ampliando a planície costeira.

Foto de capa: mapa “Brasile Centrale” (parcial), autor: Herbet Bayer, Instituto Geographico de Agostini (1952).

Formação territorial e demográfica de Cunha

Qual a origem do nome do município de Cunha?

“Cunha” é uma homenagem ao ex-governador da Capitania de São Paulo, o capitão Francisco da Cunha e Meneses (1747-1812). O capitão Francisco da Cunha foi um militar português e governou a capitania de São Paulo entre 1782 e 1785, como capitão-general. No final do seu mandato, em 15 de setembro de 1.785, elevou a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão à condição de vila, o que equivale, hoje, a um município, um território independente. Até então, nosso município pertencia à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Assim, para homenageá-lo, os moradores locais mudaram o nome daqui de “Facão” para “Cunha”, e a partir da instalação da Câmara, órgão administrativo das vilas daquela época, em 28 de outubro de 1.785, nosso município passou a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha.

Em 20 de abril de 1.858, a vila foi elevada à categoria de cidade, e passou a se chamar “Cidade de Cunha”, já sem a referência à santa padroeira. E assim permanece até hoje.

E o nome Facão?

A origem é controversa e tem sido motivo de debate entre os historiadores. “Facão” ou “Facam” (dependendo do documento) é o mais antigo nome de Cunha. Há registros – anteriores ao ano de 1.700 – que mencionavam a existência de uma antiga capelinha dedicada à Nossa Senhora do Facão, nas cercanias da atual cidade, no chamado “Alto do José Dias” ou “Alto da Mantiquira”, na elevação que dá acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Mas por que chamavam nossa cidade desse nome? Um documento de 1.732, em que Francisco Tavares Brito relata sua viagem do Rio de Janeiro até Minas, passando por Cunha, deixa uma pista:

“A esta vila também vem dar o caminho de Parati, que chamam o Caminho Velho, e quem sai de Parati, vem ao Bananal, sobe a inacessível serra e descansa na Aparição; passa-se o rio Paraitinga (que toma aqui o nome das serranias por onde passa e logo depois se. chama Paraíba do Sul); e se pernoita no sítio que também toma o nome do rio; Afonso Martins; passa-se aqui o Facão, que é um *carreirinho / / que vai pelo alto de um cume, no qual apenas passa um cavalo ou passa um homem a pé, e se acaso declina para alguma das partes se precipita. Vai-se à Encruzilhada e se entra depois na vila de Guaratinguetá […]”

Aspecto do documento de 1732, contendo o relato de Francisco Tavares Brito. Códice Costa Matoso. Fonte: Fundação João Pinheiro.

Ou seja, o “Facão” seria uma passagem muito estreita e perigosa, no alto de um morro, com despenhadeiros em ambos os lados. Essa passagem, por ser temida, era sempre lembrada pelos viajantes, aventureiros e tropeiros; e acabou batizando toda a região. Ficava no antigo caminho entre Paraty e Cunha, em local incerto, no que veio a se chamar “Estrada Real”, cujo destino eram as cobiçadas jazidas de Minas Gerais.

Mas isso não é consenso entre os historiadores. Há outras cogitações.

Como foi formado o território cunhense?

Tempos coloniais. Os Guaianases, uma das inúmeras nações indígenas do Brasil, eram nômades, não possuindo uma aldeia fixa. Viviam e passavam pelo que veio a ser o município de Cunha. Percorriam todos esses sertões, por meio da densa Mata Atlântica, em busca de caça e frutos.

Em 1534, a fim de facilitar a colonização do Brasil, a Coroa Portuguesa estabeleceu o sistema de capitanias hereditárias. O que hoje é Cunha ficou pertencendo à Capitania de São Vicente, cujo donatário era Martim Afonso de Sousa.

Em 1624, a Capitania de São Vicente foi dividida e o que viria a ser Cunha passou a pertencer à Capitania de Itanhaém, que pertencia a Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, dona de todas as terras do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ela promoveu incursões exploratórias no Vale do Paraíba, a fim de conhecer melhor a região, que, na época, ainda era um sertão inóspito e povoado apenas por indígenas. Buscavam essas expedições encontrar metais preciosos ou capturar indígenas para vendê-los com escravos.

Em 24 de setembro de 1.650, o capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Guaratinguetá, recebe uma sesmaria (grande extensão de terra que era doada pela Coroa) no bairro da Borda do Campo, que fica na beira da Rodovia Paulo Virgínio, perto do Jacuí. Essa é a primeira sesmaria que foi doada no que veio a ser o território cunhense. O capitão irá abrir uma estrada ligando o Facão (Cunha) a Guaratinguetá, aproveitando uma trilha indígena já existente.

Em 1.724, Luiz da Silva Porto e sua família erguem uma capela no bairro da Boa Vista, dedicada a Jesus, Maria e José. Esse é marco fundador do município de Cunha.

Em 1.731, José Gomes de Gouveia constrói uma igreja no bairro do Facão, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (e, futuramente, de Cunha também). No entorno dessa igreja irá se desenvolver um pequeno povoado. É o embrião da cidade de Cunha.

Em 1.749, com o aumento do movimento de tropas e o crescimento do povoado, a capela do Facão passa a ter um padre regular, se tornando uma freguesia. Surge, então, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, com paróquia e território pertencendo a Guaratinguetá.

Mapa da Divisão dos Municípios de São Paulo por volta de 1700. Cunha pertencia ao território de Guaratinguetá. Fonte: Fundação SEADE.

Em 15 de setembro de 1.785, o capitão-general da Capitania de S. Paulo Francisco da Cunha e Meneses eleva Cunha à condição de vila, tornando-a independente de Guaratinguetá. Cunha passa a ter território próprio (chamado de “termo”, na época) e a ser administrada localmente, com a criação da Câmara (não havia Prefeitura na época). Também vai mudar de nome, deixa de se chamar “Facão” e passa a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, para homenagear o capitão-general que lhe concedeu autonomia.

Em 18 de junho de 1.842, a Vila de N.ª S.ª da Conceição de Cunha é transferida para a província do Rio de Janeiro. Estava ocorrendo na província de São Paulo a Revolta Liberal e a transferência tinha o intuito de manter Cunha livre dos do domínio dos revoltosos. Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses, até que voltou novamente para a Província de S. Paulo.

Em 20 de abril de 1.858, Cunha é elevada à categoria de cidade.

Em 8 de março de 1.872 é criado o Distrito de Paz de Campos Novos, que passa a se chamar Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos.

Durante todo o século XIX, os limites de Cunha com os outros municípios vão sendo demarcados, fruto da disputa da Câmara de Cunha com as câmaras dos municípios vizinhos. Será assim com Paraty, que reclama como território seu até um marco que havia no bairro da Boa Vista; e com Guaratinguetá, que queria estabelecer o limite com Cunha pelo rio Paraitinga, aumentando, assim, seu território. A Câmara de Cunha sairá vitoriosa desses litígios. Além disso, fazendeiros estabelecidos nos limites com Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, se valendo do poder político que possuíam e visando atender aos seus interesses eleitorais, mudavam suas fazendas para os municípios vizinhos, alterando assim o tamanho do nosso território.

Em 1.934, Lagoinha é transferida para Cunha como distrito. Ficará pertencendo a Cunha até 1.944, quando será transferida para o município de São Luís do Paraitinga. Nesse mesmo ano, o distrito de Campos Novos terá seu nome alterado para “Campos de Cunha”, por força de um decreto estadual. Apesar da mudança do nome, o antigo topônimo é até hoje o mais popular.

Em 1964, os limites de Cunha com outros municípios são descritos e estabelecidos na Lei Estadual nº 8.092, de 28/02/1964, permanecendo inalterados desde então.

Atualmente, Cunha possui uma área de 1.407,25 Km², sendo o 11º maior município do estado de São Paulo e o maior da região do Vale do Paraíba. Faz divisa com os seguintes municípios: Paraty e Angra dos Reis, do estado do Rio de Janeiro, e Ubatuba, São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias e São José do Barreiro, do estado de São Paulo. Em seu território há 2 unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Quais povos estão presentes na formação territorial do município de Cunha?

Os povos originários, que habitavam Cunha antes da chegada dos portugueses, eram os “Guaianás” ou “Guaianases”. Segundo relato de viajantes, colonizadores e aventureiros, os Guaianases não falavam tupi e eram tronco linguístico Macro-Jê. Eram indígenas coletores (de pinhão e frutos) e caçadores, e, por consequência, nômades (migravam para o litoral dependendo da estação do ano). Viviam na Serra do Mar e faziam parte de um complexo cultural, cujos remanescentes seriam o Puri e Coroado, do Vale do Paraíba e sudeste de Minas. Até hoje é possível encontrar em Cunha cacos da cerâmica produzida por esse povo e machados líticos que confeccionaram. Algumas peças estão guardadas no Museu Municipal. Apesar de Cunha não ter aldeia, antropólogos que estudaram nosso município no século passado, apontaram que parte de nossa população é descendente de indígenas, pois apresenta traços biotípicos e feições dos povos originários do Brasil.

A primeira incursão colonizadora europeia em nosso território ocorreu em outubro de 1.596, quando Martim Corrêa de Sá, o inglês Anthony Knivet (autor do relato sobre a entrada), setecentos portugueses e cerca de 2 mil indígenas Guaianases percorreram onde, hoje, é o município de Cunha. Essa data marca a chegada dos portugueses (brancos) a Cunha. A partir do século XVII, muitas famílias paulistas oriundas de Taubaté e aventureiros portugueses vão se estabelecer em Cunha, ganhando sesmarias no bairro da Catioca e no seu entorno. Essas famílias pioneiras, católicas, além da religião, trouxeram para Cunha manifestações culturais típicas dos portugueses e dos paulistas, como Festa e Folia do Divino.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 10 milhões de negros africanos foram trazidos às Américas para trabalhar de forma forçada como escravos. Milhares deles foram trazidos para Cunha, para trabalhar nas fazendas de milho e criação de porcos que havia aqui. Quase metade do contingente de africanos trazido para o Brasil era formada pelos Banto, que eram povos e culturas da região da África Central, onde atualmente se encontram países como Angola, Moçambique, Congo etc. Em Cunha, a maior parte dos escravizados eram Banto. Aliás, no século XIX, a maioria da população de Cunha era negra, seja livre ou escravizada. Esse povo trouxe consigo sua cultura e algumas manifestações culturais estão presentes em Cunha até hoje, como a Congada, o Moçambique e o Jongo. Outras etnias africanas também foram trazidas para Cunha, porém, não na mesma proporção que os bantos.

No final do século XIX e início do século XX chegaram a Cunha imigrantes vindos de outras partes do mundo, sobretudo do Líbano e da Itália. Essas famílias se dedicaram à agricultura, à marcenaria e ao comércio, sobretudo os libaneses; se dedicaram ainda à política, contribuindo para diversificar o mosaico cultural e étnico que caracteriza a população cunhense.

O tupi antigo na hidrografia cunhense

Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.

O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.

Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.

Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.

O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.

Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.

Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:

Paraitinga:

De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.

Paraibuna:

De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.

Jacuí:

De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.

Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.

Itaim:

De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.

Guaripu:

De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).

Mambucaba:

De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.

Jacuí-Mirim:

De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.

Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.

Referências:
CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001.
MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025.
NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Mapas:
Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências:
– “Cunha” (MI-2771-1), 1974.
– “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974.
– “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973.
– “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982.
– “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982.
– “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981.
– “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974.
“Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski.
“Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.

O desastre climático de 1º de janeiro de 2010

Arte elaborada pelo Jacuhy para a série de postagens de #HojeNaHistóriaDeCunha, do perfil do Jacuhy no Facebook. Data: 2020.

Há 15 anos, no dia 01/01/2.010, Cunha amanheceu isolada e destruída depois de uma chuva torrencial que durou 12 horas ininterruptas. A chuva começou no final da tarde do dia 31 de dezembro de 2.009 e foi até a manhã do Ano Novo. Deslizamentos de terra ocorreram em todo o município, sendo um deles fatal. Com tanta água sendo escoada, a drenagem dos rios foi insuficiente. Os seus volumes transbordaram com força, destruindo pontes, estradas, construções e tudo o mais que encontraram pela frente. Em São Luiz do Paraitinga, cidade à jusante do rio que a batizou, o Paraitinga, abastecido pelas torrentes recebidas no município de Cunha, subiu mais de 12 metros acima de seu leito normal, inundando a histórica cidade vale-paraibana, com dezenas de casarões e construções tombadas pelo Patrimônio Histórico. Os prédios de taipa derreteram, sucumbindo ante à força impetuosa da natureza. Todos assistiram inertes e estarrecidos à queda Igreja Matriz de São Luís de Tolosa, edifício centenário e imponente, que foi reconstruído recentemente.

Causas

Destruição causada pela chuva, no Distrito de Campos de Cunha, em 01 de jan. de 2010.

De onde veio tanta água? Dados históricos da PCD (Plataforma de Coleta de Dados) / Estações Ambientais Automáticas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), localizada no alto do Parque Nova Cunha, registraram no dia 1º de janeiro de 2.010, 165 mm de precipitação, o que equivale dizer que em cada metro quadrado de solo choveu cerca 165 litros de água. Dados da Estação Digital da ANA (Agência Nacional de Águas), que fica perto da ponte sobre o rio Paraitinga, na Rodovia Paulo Virgínio, registrou 174 mm de precipitação, um valor extremamente alto e raro de acontecer, que até chega a assustar até os cientistas e estudiosos do clima. Assim que toda essa água começou a descer rio baixo, o nível do rio Paraitinga só ia aumentando, deixando a população luizense em pânico, pois não sabiam de onde estava vindo tanta água, já que a chuva por lá não foi tão forte como cá. Só depois dessa tragédia, os órgãos estaduais competentes resolveram criar uma rede de coleta de dados e de prevenção integrada, facilitando a comunicação da área à montante (Cunha), com as cidades à jusante do rio, como São Luiz.

Climograma de Cunha – SP, elaborado com dados meteorológicos entre 1991 a 2021. Fonte: Climate Data.

Segundo o meteorologista do CPTEC- INPE, Giovanni Dolif, a intensa precipitação que castigou a nossa região foi causada por um sistema de baixa pressão atmosférica, cujo centro estava no Atlântico, estacionado há alguns quilômetros litoral norte de São Paulo. Áreas de baixa pressão favorecem a ocorrência de chuvas. Ventos úmidos, vindos tanto do continente (desde a Amazônia) como do mar (do Atlântico), se encontraram justamente sobre nossa região, formando nuvens carregadas que acabaram se precipitando.  Além do mais, o fator geomorfológico (Serra do Mar) favorece a formação de nuvens mais carregadas. Já para o renomado geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab’Sáber, já falecido, o evento de janeiro de 2.010 era parte de uma crise periódica de natureza climato-hidrológica de escala mais ampla que a mera convergência de ventos em determinado local, pois para ele a climatologia tropical entraria em colapso de tempos em tempos, como diz: “Este ano (2.010) foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos (…) essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luís. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”. Nesta entrevista à Rede Brasil Atual, Ab’Sáber também mencionou como agravante do colapso climático a feição do relevo, extremamente montanhosa em nossa região, um verdadeiro “mar de morros”, conforme termo que ele cunhou. Para o pesquisador, o caminho para minimizar os impactos desses colapsos passa pela educação preventiva, ressaltando que “é hora de obrigar essas cidades (Cunha, Angra dos Reis, São Luiz etc.) a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa.” Ou seja, é preciso que cada morador conheça o seu próprio município, os seus aspectos naturais e históricos.

Vídeo gravado por morador mostrando a inundação causada pelo rio Paraitinga, na SP-171 (Rodovia Paulo Virgínio), na altura do bairro do Paraitinga. Data: 2.010.

Consequências

Em 01 de janeiro de 2.010, a situação era crítica, devido a diversos escorregamentos, tanto na zona urbana quanto na rural, isolando a cidade, as vilas e bairros rurais. Os números do desastre climático foram os seguintes: queda de cerca de 1.000 barreiras em estradas e rodovias; destruição de 300 pontes de madeira em estrada rural; 38 desabrigados; 492 desalojados; 12.000 isolados e 6 óbitos por soterramento (Mário Penha, 46 anos, Ingrid, 35 anos, Manolo e Érica, casal com aproximadamente 65 anos, Eduardo Moron, 15 anos, e Sabrina, 12 anos), todos de uma mesma família paulistana, que possuía uma casa de veraneio no bairro da Barra do Bié, destruída por um deslizamento de terra. Houve a remoção de famílias em aproximadamente 90 residências. Além desses danos, não se contabilizaram os inúmeros estábulos, áreas de pastagem e animais mortos em virtude da enchente causada por tamanha chuva, trazendo sérios prejuízos econômicos para pecuária leiteira, principal atividade municipal. Como a situação da cidade foi amplamente divulgada pela mídia e as estradas ficaram intransitáveis, o setor turístico também teve um enorme prejuízo e, nos anos posteriores, foi absorvendo o impacto negativo. A Prefeitura de Cunha, diante de sua incapacidade responder aos danos causados pelas consequências da precipitação anormal, decretou Estado de Calamidade Pública, em 5 de janeiro. O isolamento total durou até o dia 3 de janeiro, quando a ligação com Guaratinguetá foi reestabelecida, pois as pontes da SP-171 foram parcialmente destruídas. A Prefeitura deslocou todo o seu corpo técnico e parte do seu setor de serviços para a Escola Municipal “Benedito Aguiar Sant’Anna”, prédio que foi a base das operações emergenciais daquele janeiro. O objetivo era coordenar as ações e respostas da Municipalidade de maneira sinérgica, visando apresentar uma resposta menos demorada ante à catástrofe.

Vídeo elaborado pela Defesa Civil de Cunha, em 2.010, com fotos da tragédia climática, durante a resposta de Cunha à calamidade.

Apesar de toda tragédia vivenciada, Cunha também experimentou a solidariedade das cidades vizinhas e de todo Brasil, pois inúmeras doações foram encaminhadas à cidade. Os helicópteros da Polícia Militar do Estado de São Paulo e do Comando de Aviação do Exército Brasileiro, que se mobilizaram para atuar em Cunha nos momentos mais difíceis, em muito ajudaram à população da zona rural, prestando socorro e rompendo o isolamento que preocupava a todos. A Defesa Civil estadual, bem como os excelentes institutos estaduais IG (Instituto Geológico) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) deram todo o apoio técnico, administrativo e operacional possível, não só no momento emergencial (com vistorias e interdição de áreas de risco), mas principalmente posteriormente, ajudando na construção de um município menos inseguro e mais planejado (ainda um sonho). Muitos moradores de Cunha também se voluntariam e atuaram naquele momento, seja na distribuição de alimentos e medicamentos para moradores rurais, na logística das operações ou ainda no descarregamento, armazenamento, triagem e distribuição das doações recebidas.

Destruição causada pela enchente na ponte sobre o rio Jacuizinho, na SP-171. Data: 01/01/2010.

O desastre natural serviu para reforçar o papel e a importância da Defesa Civil municipal, que foi o órgão mais atuante durante o período emergencial e de calamidade pública, prestando todo o socorro possível e não medindo esforços para que a os danos ocorridos fossem atenuados.  O papel assumido pela Defesa Civil durante o momento calamitoso fez com que os moradores e órgãos municipais entendessem a importância da própria comunidade local atuar e se prevenir em relação aos riscos que podem destruir bens materiais e vidas. “Área de risco” passou a fazer parte do vocabulário cunhense e todos passaram a levar o assunto a sério. Esse evento triste e desastroso nos serviu como alerta, mostrando que nenhum lugar – nem os mais belos, como o nosso – está a salvo de eventos meteorológicos intensos e catastróficos. E que o único meio de evitar grandes danos materiais e humanos é se preparar para eles, porque cedo ou tarde acabam ocorrendo. As cicatrizes, dos movimentos de massas que ocorreram em 2.010, são visíveis ainda em nossa paisagem, servindo como lembrete, um recado da natureza para não nos deixar esquecer do fatídico desastre.

Reconstrução

Todo o mês de janeiro de 2.010 seria marcado pela ação emergencial da Prefeitura, de órgãos estaduais e da Polícia Militar e do Exército Brasileiro (presente com os seus helicópteros), um esforço conjunto na tentativa de mitigar os efeitos desastrosos do colapso climático, visando desobstruir estradas, levar medicamentos e mantimentos às comunidades isoladas e reconstruir pontes de madeira às pressas, na tentativa de reconectar os bairros rurais à sede municipal. A reconstrução das pontes, estradas e casas do município levaria ainda dois longos anos e receberia financiamento público, com a transferência de recursos estaduais e federais.  As estradas foram refeitas entre os anos de 2.010/2.011, pela Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (CODASP), mediante convênio da Prefeitura com o Governo do Estado. Já o núcleo do CDHU – Estrada Velha, construído para atender às famílias que perderam suas casas no desastre, só foi concluído e inaugurado em 2.016.

Reportagem da TV Band Vale, em 28/01/2010, mostrando as ações da comunidade e da municipalidade cunhense para reconstruir o município.

Pode ocorrer novamente?

Desastres naturais de natureza atmosférica não são raros em Cunha. Como exemplo podemos citar a grande chuva do dia 17 para o dia 18 de dezembro de 1.973, que levou o prefeito de então José Elias Abdalla, o Zelão, a decretar estado de calamidade pública. Pontes e estradas ficaram destruídas e acabadas. Todavia, essa precipitação foi tipicamente convectiva, de modo que não se apresentou uniforme por todo o município, mas concentrou-se justamente nas cabeceiras do rio Jacuí, daí o seu impacto destrutivo. Segundo o DAEE, na Estação Pluviométrica do Cume foram registrados 73 mm, uma forte chuva, na Estação Pluviométrica da Paraibuna foram registrados 77,3 mm, mas nada se compara ao registrado na Estação Pluviométrica do Sertão do Rio Manso, com os seus alarmantes 293,5 mm anotados. O vendaval de granizo de 14 de junho de 1.987 durou apenas 5 minutos, mas acabou destruindo parcialmente 60 casas e ferindo 35 pessoas levemente. Os vários destelhamentos assustaram os moradores. Eventos climáticos extremos desse tipo demonstram que a nossa região não está livre de catástrofes naturais, pois fatores como característica do terreno e do relevo, o sistema atmosférico e a questão humana, que envolve a forma de ocupação e a ausência de planejamento e ordenamento territorial, são elementos catalisadores de tragédias climáticas. E nem sempre os prejuízos se restringem ao campo econômico, infelizmente. Geadas extremas e estiagens também costumam ocorrer em nosso município e podem acarretar muitos transtornos e danos econômicos para agropecuária local. Por isso a importância da elaboração por parte do município de um plano de contingência, para dar uma resposta rápida quando o desastre acontecer. Como é difícil saber “quando”, “o que” e “onde” ocorrerão os próximos eventos climáticos extremos, vale a máxima popular: “é melhor prevenir do que remediar”.

Vídeo mostra São Luís do Paraitinga alagada e a queda de uma das torres da Igreja Matriz, que acabou por ruir.

Fontes:

AB’SABER, Aziz Nacib. A propósito da periodicidade climato-hidrológica que vem provocando grandes crises em Santa Catarina. Estudos Avançados, São Paulo, v. 23, n. 67, p. 299-306, 2009.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000300032&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em:  01 Jan.  2020.
Band News. Brasil: INPE alertou sobre chuvas no Vale do Paraíba em SP. Disponível em: https://tvuol.uol.com.br/video/brasil-inpe-alertou-sobre-chuvas-no-vale-do-paraiba-em-sp-04028D1A3666C8813326
CENTRO DE PREVISÃO DE TEMPO E ESTUDOS CLIMÁTICOS (CPTEC) / INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Banco de Dados – Dados automáticos da Plataforma de Coleta de Dados (PCD): PCD 30885 – ESTAÇÃO: Cunha/SP Disponível em: http://sinda.crn.inpe.br/PCD/SITE/novo/site/index.php.
COMITÊ DE INTEGRAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARAÍBA DO SUL (CEIVAP). Recuperação da bacia do rio Paraitinga vai custar cerca de R$ 15 milhões. Revista Pelas Águas do Paraíba. n. 5, ano IV, nov. 2010. p. 36-37.
DEPARTAMENTO DE ÁGUAS E ENERGIA ELÉTRICA (DAEE). Banco de Dados Hidrológicos. Disponível em: http://www.hidrologia.daee.sp.gov.br/
DIOCESE DE TAUBATÉ. Paróquia São Luís de Tolosa – São Luiz do Paraitinga. Disponível em: https://diocesedetaubate.org.br/saoluisdetolosa/
G1. Soterramento em Cunha, SP, mata 5. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1432106-5605,00-SOTERRAMENTO+EM+CUNHA+SP+MATA.html
G1. Helicóptero do Exército resgata mulher que sobreviveu a deslizamento em Cunha. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1432334-5605,00-HELICOPTERO+DO+EXERCITO+RESGATA+MULHER+QUE+SOBREVIVEU+A+DESLIZAMENTO+EM+CUN.html
G1. Família morta em soterramento em Cunha é enterrada na capital paulista. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1433245-5605,00-FAMILIA+MORTA+EM+SOTERRAMENTO+EM+CUNHA+E+ENTERRADA+NA+CAPITAL+PAULISTA.html
G1. Chuva derrubou 600 barreiras e 300 pontes em Cunha, diz prefeitura. Disponível: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1433244-5605,00-CHUVA+DERRUBOU+BARREIRAS+E+PONTES+EM+CUNHA+DIZ+PREFEITURA.html
Giovanni Dolif – Chuva intensa em Angra, Sao Luis do Paraitinga e Cunha. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gdx3fMqewJ0
INSTITUTO GEOLÓGICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Instituto Geológico orienta ações em São Luiz Do Paraitinga e Cunha. Disponível em: https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/institutogeologico/2010/01/instituto-geologico-orienta-acoes-em-sao-luiz-do-paraitinga-e-cunha/
O ESTADO DE S. PAULO. Temporal em Cunha fere 20 pessoas e destrói 5 casas. Geral, 16 jun. 1987, p. 42. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/publicados/1987/06/16/g/19870616-34446-nac-0042-999-42-not-gghkhhh.jpg
O Globo. Turistas morrem soterrados em deslizamento de terra em Cunha, SP. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/turistas-morrem-soterrados-em-deslizamento-de-terra-em-cunha-sp-3075311
PREFEITURA DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Decreto n.º 043/73, de 18 de dezembro de 1.973.
Rede Brasil Atual. Para Ab’Saber, inundação de Paraitinga é parte de ano anômalo. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidades/2010/01/para-absaber-inundacao-de-paraitinga-e-parte-de-ano-anomalo-1/
UOL Notícias. Quase 2.000 permanecem isolados em Cunha (SP); Capivari (SP) tem 378 desabrigados. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/06/ult5772u6924.jhtm
UOL Notícias. Cunha-SP decreta estado de calamidade pública. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/2010/01/05/ult4469u51213.jhtm

Postagem original (Facebook):

A zona de fronteira entre Cunha e São Luiz do Paraitinga

Vista da zona fronteiriça entre Cunha e São Luiz. Foto: Sítio Cotinga. Data: Maio de 2017.

Cunha, em função do tamanho do território (1.407,250 km²), limita-se com 10 municípios.

A sudoeste de nosso município se encontra o limite com São Luiz do Paraitinga, mais precisamente com o distrito de São Pedro da Catuçaba. Uma área pioneira no povoamento do município de Cunha. Os topônimos tupis dos bairros de lá corroboram esse pioneirismo, essa antiguidade: Catioca, Itambé, Itacuruçá, Itaim etc. A vila da Catuçaba, antigo povoado de São Pedro, também é de origem tupi (“katu” – bom + “sab(a)” – lugar = “lugar bom”). Distrito luizense desde 1944, Catuçaba hoje é a referência urbana daquela região cercada de antigas fazendas e bairros rurais que abrange, além do próprio município de São Luiz, Cunha e Lagoinha.

Vales encaixados, em “V”, dominam a região. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.

O limite é todo terrestre. A linha divisória (e imaginária) segue por cerca de 28 quilômetros, partindo de Lagoinha até encontrar o limite com Ubatuba. Parte é permeável; outra, não. A parte permeável, onde há intercâmbio, fica ao norte, nas proximidades com Lagoinha. Há duas ligações por estrada de terra batida. Nem sempre estão em boas condições de trafegabilidade, por falta de manutenção periódica das municipalidades. Uma das ligações, via Fazenda Sant’Anna, é pelo bairro do Mato Dentro (Cunha) até alcançar o bairro do Chapéu Grande (São Luiz do Paraitinga). A outra ligação é pelo bairro do Ferraz (Cunha), que segue por um vale, até alcançar os contrafortes da Serra do Campo Grande e dobrar no bairro do Pinga (São Luiz do Paraitinga).

Mar de Morros: as montanhas que servem como limite entre Cunha e São Luiz. Foto: Michel Salazar.

Criado em 1977, o Parque Estadual da Serra do Mar impermeabilizou a parte sul da região fronteiriça, já no Planalto do Paraibuna. Por ser uma unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana ali, que era rarefeita, foi sendo progressivamente restrita e banida, regenerando em Mata Atlântica as áreas ocupadas e as trilhas abertas de outrora. Nas cercanias tinha até bairro conhecido: Sertão do Palmital. Inexistente atualmente, vencido pelo avanço da floresta tropical.

Serra do Campo Grande: aspecto. Foto: Rodrigo Leite Massiere. Data: 201[?].

O morro pedregoso mostrado na foto desta postagem está a 1.580 metros de altitude. A Serra do Campo Grande em alguns pontos chega superar os 1.600 metros. Por isso, ali a fisionomia é diferente do entrelaçado esverdeado de árvores, arbustos, cipós e plantas da Mata Atlântica característica. A altitude moldou nova fisionomia. É domínio de um ecossistema chamado de “campos de altitude” que, segundo a biogeografia, a despeito das controvérsias sobre sua origem, são típicos dos pontos mais elevados dos sistemas serranos do sudeste brasileiro, que se soergueram principalmente durante o período geológico do Terciário. Um delicado relicto escondido no topo da serra, tal qual na Serra da Bocaina. Fez bem o governo estadual em determinar a preservação daquela área, através de unidade de conservação.

Alto do Diamante. Foto: Alessandra Ramos. Arte e dados sobre a foto: Jacuhy.

As velhas fazendas que compõem a paisagem cultural daquelas bandas; as que sobraram, diga-se; são mais uma evidência que foi por ali que começou a ocupação do nosso município. A mais soberba, exemplo do neoclássico rural paulista, a Fazenda Sant´Anna fica por perto. Mas são as modestas, ecléticas por questões de pobreza, que podem ser vistas com mais frequência. São janelas para um tempo que já se foi… Muitas estão abandonadas, atestando a mudança dos ciclos econômicos que fizeram a riqueza e a história. Perderam a função dentro da organização espacial que emergiu no século passado. A pecuária de corte e leite, atividade agora predominante, é causadora de despovoamento, de êxodo rural. Desoladas, à mercê do tempo, as fazendas acabam virando taperas. E por fim, ruínas.

Fazenda do Mato Dentro quando ainda estava em pé. Hoje, está em ruínas. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.

Mais que laços culturais, religiosos e genealógicos em comum, essa região de fronteira, no entorno da Serra do Campo Grande (também chamada de “Alto do Diamante”), se constitui em uma paisagem bastante interessante. Ainda está vivo o folclore caipira em suas diversas manifestações, sobretudo nas folias, bandeiras e pousos da Festa do Divino Espírito Santo, festa ontológica dessa gente paulista há mais de quatrocentos anos.

Parte da Carta Topográfica “Lagoinha”, do IBGE, mostrando o limite entre os dois municípios, o desenho e a altimetria do relevo local.

Os limites municipais são meras convenções do Estado, visando garantir ordenamento territorial, criar jurisdição. A paisagem cultural, filha que é da história viva, supera todas as artificialidades. Ali é tudo uma gente só, um mesmo lugar.

Referências:
Google Earth, Google Maps, A História de Cunha: 1600-2010 (João Veloso), IBGE (Cidades, Cartas Topográficas, Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE), Dicionário de Tupi Antigo (Eduardo Navarro), Terra Paulista: histórias, arte, costume (CENPEC), A Passarinhóloga (blog), As transformações na arquitetura rural paulista pré-moderna (Marcelo G. Augusto).

Publicação original (Facebook):

Observação:
Este texto, após ser compartilhado em nossa página no Facebook, obteve um excelente alcance. E surgiram alguns questionamentos sobre o conceito de fronteira, na forma como utilizei no título. Pois, atualmente, o termo fronteira tem sido usado para designar a linha divisória entre países; entre unidades federativas, seria divisa; entre municípios (como no caso), limite. Essa informação vem sendo ventilada, inclusive, em páginas de Geografia. Mas é meramente semântica; não conceitual, como se faz sugerir. Tal distinção não encontra eco nos autores clássicos da Geografia.
“Fronteira”, para Raffestin (1993),  é  uma  zona (geográfica)  camuflada  em  linha. Portanto, como conclui Ferrari (2014), “o  limite  não  é  visível  fora  do  mapa,  mas  é  justificado pelo  marco  de  fronteira  simbolizando  a  linha,  enquanto  a  fronteira  é  uma  zona  geográfica, um   espaço   que  pode,  conseqüentemente,  criar  relações  que  ultrapassem  o  limite […]”.
Sugestões de leitura sobre o assunto:
RAFFESTIN,  Claude. Por  uma  Geografia do Poder.  São Paulo:  Ática,  1993.
FERRARI, M. AS NOÇÕES DE FRONTEIRA EM GEOGRAFIA. Perspectiva Geográfica[S. l.], v. 9, n. 10, 2014. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica/article/view/10161. Acesso em: 18 nov. 2024.

Cunha e o café

O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.

“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.

Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.

Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.

É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.

Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.

Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.

Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.

Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.

Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.

No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.

A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.

É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.

A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.

Referências:
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006.
SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942.
SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

O capitão-general Lobo de Saldanha e sua passagem pela Freguesia do Facão, em 1775

Representação ilustrativa do Governador Lobo de Saldanha, gerada por IA.

O relato vem da época que Cunha era Facão. Século XVIII, portanto. Feito pelo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha, que foi o 10º Governador da Capitania de São Paulo, de 14 de maio de 1775 a 15 de março de 1782.

Partiu de Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro, centro da administração colonial. Do Rio navegou até Paraty. Daí até aqui, o Facão. E daqui em direção à capital, São Paulo. Viagem difícil. Uma aventura, deveras.

Tanto que, para sorte nossa, resolveu anotar. A carta narrando a viagem foi destinada a D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão de Eça Melo e Silva Mascarenhas (1729–1790), 2º. Marquês do Lavradio, Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1778.

De sua passagem pela Freguesia do Facão, entre 3 e 5 de junho de 1775, consta o seguinte:

“No dia 2 de Junho dormi ao pé da serra, em caza do Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo impraticável caminho, e vim dormir á Apparição; no dia 4 fomos ouvir Missa ao Facão e dormir na caza de José Alz’. No dia 5 ouvi Missa na Parahytinga e dormir á Rocinha, ao pé do morro; nessa noute e na manhã do dia 6 que vim dormir a Guaratinguetá, me acompanhou uma trovoada grande, com m.ta chuva.”

Deste curto relato, podemos extrair as seguintes informações históricas:

  • O porto de Paraty era a principal rota de entrada para S. Paulo e para o Sertão, ainda no último quartel do século XVIII.
  • A péssima condição da Estrada Cunha-Paraty (Estrada Real – Caminho Velho), cuja intransitabilidade era notória e temida por todos os viajantes. Basta observar que a comitiva do futuro governador gastou um dia inteiro, de cedo até a noite, dos Penha até a Aparição, tendo que escalar a serra mais a pé do que montado.
  • O bairro da Aparição, também muito recorrente na memória dos viajantes, era um pouso de tropas, lugar de descanso para os caminhantes que superavam a Serra do Facão.
  • O Facão já era uma freguesia (da Vila de S. A. de Guaratinguetá). Orago à Nossa Senhora da Conceição, com vigário próprio e missas regulares. Numa dessas, que o futuro governador assistiu, foi celebrada pelo padre Floriano da Silva Toledo (segundo lista dos párocos de Cunha elaborada por Carlos da Silveira, em 1906). Floriano era filho de Luiz da Silva Porto, fundador da capela da Boa Vista.
  • José Alz’., citado na descrição, morador do Facão, com casa no largo da Matriz, era José Alves (ou Álvarez) de Oliveira, português de Aveiro. Veio a falecer em Cunha em 1792. Foi casado com Margarida da Silva do Amaral, natural de Paraty. Mudou-se para Cunha, com sua família, por volta de 1742. Foi um dos assinantes do termo de ereção da Vila de Cunha, em 1785. Seus descendentes estão, hoje, assinando Querido e Alves de Oliveira como sobrenome.
  • A ocorrência de missa na capela de Nossa Senhora Sant’Anna do Paraitinga (conhecida como “Capela da Santaninha” ou “Santana Velha”). Ficava no bairro do Campo Belo. Foi construída entre 1736 e 1740. Dos registros mais antigos sobre ela, consta um batizado realizado em 1752. Ligada intimamente ao tropeirismo e ao fluxo que dele vem, conhece também a decadência após a abertura da estrada de ferro que ligou São Paulo à Corte, em 1877. No século XX, fica em ruínas, sendo demolida no ano de 1947. A atual capela de Santana do Paraitinga foi inaugurada em 1964; já a Capela de Santaninha, no Campo Belo, foi reconstruída no ano 2000. O Paraitinga, como se nota, também foi pouso de tropeiro.
  • A existência da Rocinha, hoje área urbana isolada de Guaratinguetá, originada de um antigo rancho de tropeiros.

O governo de Lobo de Saldanha, cuja memória a historiografia paulista tratou de execrar, foi marcado pelas tensões geopolíticas no sul da colônia, os litígios e os conflitos com os espanhóis pela região do Rio da Prata. Por ser militar, administrou bem essa questão, arregimentando tropas, formando batalhões, guarnecendo as fronteiras, defendendo as terras do Império Lusitano. Entretanto, inapto politicamente, arrumou muitas encrencas com o clero e com Câmara de São Paulo. Muitas vezes agindo passionalmente, arregimentou ainda muitos inimigos entre a elite e os historiadores locais, razão pela qual sua memória póstuma foi anatematizada.

Antes de encerrar a missiva, depois de experenciar a travessia pelos caminhos da Capitania, Lobo de Saldanha promete:

“Estou da esperança de povoar o sertão desta Capitania e da de V. Exª., para que nos seja mais fácil a comunicação pelo Paraty de terra.”

Preocupado com questões geopolíticas e picuinhas políticas, ficou na promessa a melhoria das vias terrestres de comunicação da Capitania de S. Paulo. Relatos posteriores, tanto do século XVIII quanto do XIX, reforçam a saga que era transitar entre Cunha e Paraty.

Ou ainda é?

Referências:
ARCHIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Publicação official de documentos interessantes para a história e costumes de S. Paulo: correspondencia de Martim Lopes Lobo de Saldanha (1775-1777). Vol. XLII. São Paulo: Escola Typographica Salesiana, 1903.
BARBIO, Marcelo. Uma teia de famílias. Disponível em: <https://marcelobarbio.net.br/pafg538.htm#12544>. Acesso em 23 jul. 2024.
BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020.
LEITE, Lorena. Déspota, tirano e arbitrário: o governo de Martim Lopes Lobo de Saldanha na capitania de São Paulo (1775-1782). 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.teses.usp.br/…/8/8137/tde-31102013-105747/. Acesso em: 23 jul. 2024.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha / JAC gráfica e editora, 2010.

Um bairro em três municípios

Imagem de satélite da tríplice fronteira: Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, no bairro do Rio do Peixe. Fonte: Google Earth.

O bairro

A palavra “bairro” vem sendo usada desde o século X. Sua origem etimológica é controversa, provavelmente ibérica. Dizem que vem do árabe “bárri” (isto é, “exterior”) e este do árabe clássico بري (barrī), que significa “selvagem”. Segundo o Houaiss, é a “porção de território povoado nas cercanias de uma cidade; povoado, arraial, distrito”. Para a geografia, trata-se de “organizações rurais dispersas, estruturadas por grupos de vizinhança, e marcadas por uma consciência coletiva de pertencimento, emanada na convivência diária do homem do campo com seus parentes, vizinhos e parceiros”.

Localização do bairro, a extremo noroeste do município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.

O Rio do Peixe é um bairro rural, um entre tantos do Vale do Paraíba paulista – exceto por uma característica – estar localizado entre três municípios: Cunha, Guaratinguetá e Lagoinha. Os moradores, por uma questão de proximidade, se identificam como lagoinhenses. A parte cunhense está no extremo noroeste do nosso município, longe da sede, portanto.

Capela de Santa Luzia do Rio do Peixe, localizada no município de Cunha, é o centro religioso da comunidade rural. Foto: Google Street View.

Os moradores expressam sua devoção na capelinha de Santa Luzia, padroeira do bairro, que é atendida pelos padres de Lagoinha. O predomínio da pecuária leiteira hoje é incontestável. Pastos e mais pastos, com manchas de eucalipto. No começo do século XX, a produção do bairro era escoada por tropas, sendo levada até o Rancho da Pedreira, para ser comercializada em Guaratinguetá. A lavoura de milho e feijão, associada à suinocultura e outras feituras caipiras, eram o sustento das famílias, sítios e fazendas. A vida girava em torno de um calendário agrícola, a exemplo de outros bairros de Cunha e região. Mas as transformações vivenciadas ao longo do século XX impulsionaram a pecuária, sobretudo a leiteira. A chegada dos mineiros, o êxodo rural, o aposento das tropas, a inviabilidade econômica das lavouras em uma ecologia dominada por montanhas íngremes… O Rio do Peixe se adequou às imposições econômicas.

Em direção a Cunha, pela SP-153. Vista do Rio do Peixe. Foto: Google Street View.

Atualmente, o bairro é atravessado por uma estrada asfaltada, um luxo que chegou tarde (no final do século XX). A rodovia João Martins Corrêa (SP-153) liga a cidade de Lagoinha ao bairro da Rocinha, em Guaratinguetá, conectando-se à rodovia Paulo Virgínio (SP-171). Isso abriu um leque de oportunidades econômicas para o bairro, não só com a valorização dos imóveis rurais, mas também com o turismo rural. Casas de veraneio e acomodações alugáveis foram erguidas.

O rio

Trajeto do rio do Peixe, da nascente à foz. Fonte: Carta Topográfica do IBGE.

O rio do Peixe, curso d’água, é um dos muitos afluentes do rio Paraitinga. Nasce na serra da Embira, que é uma das variações toponímicas da serra do Quebra-Cangalha, no bairro do Córrego da Onça, município de Lagoinha. A nascente, assim como o bairro, também se situa em tríplice fronteira: Lagoinha, Guaratinguetá, Aparecida. A altitude supera até os 1.500m. Uma das nascentes, inclusive, é perto do topo do pico da Embira, que com seus 1.541m de altitude, é o ponto culminante da Quebra-Cangalha e do município de Lagoinha.

De lá, o rio do Peixe marcha para o oeste, encachoeirando-se serra abaixo, até alcançar o bairro da Santa Rita. Rumando na mesma direção, alcança o pequeno vale encaixado que batizou. Daí em diante, seu curso natural serve de limite entre Cunha e Guaratinguetá, desenhando nosso território até a altura do bairro Retiro das Palmeiras, de onde, convertendo-se para o sul, vai desaguar no Paraitinga, no bairro do Jaguarão.

O rio do Peixe, em trecho encachoeirado no município de Lagoinha. Foto: Danilo de Paula. Data: 2022.

Esses vales, como o rio do Peixe, embora modestos, são, no contexto do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, vias naturais de comunicação e ocupação, favorecendo o assentamento humano. Foram, desde tempos imemoriais, preferidos por indígenas, bandeirantes, tropeiros e sesmeiros. Ao se constituir as fazendas, núcleos originários de muitos bairros rurais, procuravam sempre instalar-se nessas planuras exíguas, nessas baixadas que permitiam explorar a motricidade hídrica, tão útil outrora e ainda agora. Por isso, quase todo sítio de bairro rural cunhense localiza-se nessas acanhadas planícies fluviais.

As linhas

Desse modo, muitas vezes, os limites de determinado bairro se confundem com os limites fisiográficos da paisagem, porque o bairro “é um lugar, uma área qualquer, com características mais ou menos próprias”, podendo ser “um vale, uma cabeceira ou nascente de algum ribeirão, uma praia (…) É o povo que lhe dá o nome e determina, com limites mais ou menos imprecisos, a área abrangida pelo mesmo”. Mas, dificilmente, os bairros se confundem com os limites intermunicipais.

Vídeo com imagens aéreas do Rio do Peixe, nas proximidades da tríplice fronteira, feito pelo canal Guará Vídeo Drone, em 2023.

Os limites políticos e territoriais estabelecidos pelo Estado pouco importam. São formalidades cartoriais. O cotidiano é regido pelas relações humanas, pelo dinamismo econômico, pela solidariedade vicinal e por heranças culturais e históricas, que remontam às primeiras famílias que ali se estabeleceram. Estar em uma tríplice fronteira não se sobrepõe a fatos sociais de maior envergadura. Antes de serem desse ou daquele município, os moradores se identificam e se sentem pertencentes ao bairro do Rio do Peixe.

Antiga escola rural do bairro do Rio do Peixe, em ruínas, em meio à braquiária. Símbolo do êxodo rural. Foto: Google Street View.

O torrão precede o território, tal como o lar precede o Estado-Nação. Um bairro rural se sustenta por laços que linhas imaginárias jamais poderão confundir.

Referências:
Bairro rural-bairro urbano: um revisão conceitual, artigo de Bruno Maia Halley, publicado na GEOUSP – Espaço e Tempo, em 2014.
Cartas topográficas “Lagoinha” e “Guaratinguetá”, do IBGE, com primeira edição em 1973.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado em 2001.
Google Earth e Google Street View, de onde foram tiradas as imagens e usados como fontes de consulta.
Negro Político, Político Negro – A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, de Oracy Nogueira, 1992.

O terremoto de Cunha – 22 de março de 1967

O outono tinha acabado de começar. Um dos verões mais chuvosos da história foi aquele da temporada de 1966/1967, no Sudeste Brasileiro. A cidade de Caraguatatuba foi uma das atingidas por tanta precipitação, com deslizamentos que provocaram a morte de 450 pessoas, devastando a cidade do litoral norte paulista. Cunha, muito embora não tenha sofrido, também viveu uma temporada chuvosa. O Paraíba do Sul extravasava, inundando as cidades do seu Vale.

Tudo começou com um estrondo. Trovão? Impossível, o tempo estava bom naquele 22 de março de 1967. Em seguida, o tremor. Panelas areadas e penduradas tilintando. Quadros caindo. Paredes trincando. A água na bacia de banho começou a se mexer. Não durou mais que 3 segundos, mas o susto foi grande. Como disseram: “parecia uma vertigem, uma tontura”. Não, não era vertigem. Era a crosta terrestre se acomodando. Passava das 21h30 da noite de uma quarta-feira e as famílias de Cunha já se preparavam para ir deitar-se. Muitos foram dormir com medo e sem entender nada.

Exceto na cidade. Relata o jornalista da Folha de São Paulo: “Em Cunha repetiu-se a história [de outras cidades do Vale]: o estouro, que ninguém sabe explicar, o tremor e depois a cidade em pânico”. A Polícia Militar teve que intervir para garantir “a ordem” e botar o povo, com medo, para dentro de casa.

Intensidade

Manchete do jornal Folha de São Paulo noticiando o ocorrido, 23 mar. 1967. Fonte: Acervo Folha.

No dia seguinte, pela manhã, o rádio anunciou: “a terra tremeu no Vale do Paraíba”. O epicentro foi em Cunha. Os sismógrafos da USP mediram o sismo e foi aferida uma magnitude de 4,1 na escala Richter. Em aspectos gerais, um tremor ligeiro, de baixa intensidade; mas para os padrões brasileiros, cuja estrutura se assenta no interior da placa tectônica Sulamericana, é muito. Na Escala de Mercalli-Sieberg, o sismo de Cunha foi classificado na intensidade VII, ou seja, “Muito forte”, com os seguintes efeitos perceptíveis: “Caem muitas chaminés. Há estragos limitados em edifícios de boa construção, mas importantes e generalizados nas construções mais frágeis. Facilmente perceptível pelos condutores de veículos automóveis em trânsito. Desencadeia pânico geral nas populações”.

O sismógrafo do Observatório Nacional, localizado na cidade do Rio de Janeiro, registrou o tremor às 21h13, com uma duração de 80 segundos. A população carioca também sentiu o abalo.

O abalo foi sentido em outras cidades: Caraguatatuba, Ubatuba, Aparecida, Guaratinguetá, Lorena, Lagoinha, Paraibuna, São Luiz do Paraitinga, Paraty, São Sebastião, Ilhabela, Angra dos Reis, Barra Mansa e até na cidade do Rio de Janeiro (de forma menos intensa), como mencionado acima. A população das cidades atingidas pelo abalo ficou apavorada e saiu pelas ruas, principalmente em São Luiz do Paraitinga, Ubatuba e Caraguatatuba, a ponto da polícia precisar intervir para acalmar os ânimos. Coube ao professor de Geologia da USP Viktor Leinz explicar o fenômeno e afastar o temor e o possível nexo entre a chuvarada e o tremor. Explicou que esses fenômenos são raros no Brasil e, quando ocorrem, são de baixa intensidade, causando estragos pequenos. E que são frutos da ação de agentes internos, de forças que agem no interior da Terra, sem relação com a atmosfera e a precipitação elevada do verão de 1967. Em seu livro “Geologia Geral”, ele explica que o estrondo ouvido antes do terremoto se deve a uma refração da onda sísmica, que acontece em terra, no ar, propagando assim uma onda na atmosfera em um comprimento perceptível à audição humana.

Causa

Perfil Geológico da Rodovia Paulo Virgínio – SP -171, mostrando as zonas de cisalhamento entre Guaratinguetá e Cunha. Fonte: Dissertação “O complexo embu no leste do estado de São Paulo: contribuição ao conhecimento da litoestratigrafia e da evolução estrutural e metamórfica”, de Amélia João Fernandes, USP, 1991.

O geólogo e professor do Departamento de Geologia, Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), da Unesp em Rio Claro, José Alexandre Perinotto, explica que os terremotos, também conhecidos como abalos sísmicos, podem ser ocasionados por atividade vulcânica, falhas geológicas ou pelo encontro de placas tectônicas. No caso do tremor de terra que teve seu epicentro em Cunha, a causa foi falha geológica (fratura na crosta terrestre). Onde há falha, é possível ocorrer novas quebras, dependendo de fatores como o peso, distensão e compressão exercido sobre ela.

O município de Cunha, segundo a geofísica Amélia João Fernandes, é atravessado por três zonas de cisalhamento de falhas geológicas: “Alto da Fartura”, “Santa Rita” e a megafalha “Cubatão”. Perinotto explica que “zonas de cisalhamento são regiões da crosta terrestre nas quais existem um acúmulo de falhas geológicas. São zonas que podem sofrer esse movimento de cisalhar, ou seja, um bloco se deslocar em relação ao outro. Então, essas zonas de cisalhamento têm tudo a ver com os terremotos. Isso porque é ao longo do deslocamento dos planos de falhas que há o dispêndio da energia e, consequentemente, causa-se a vibração, que é o abalo sísmico. Nós chamamos de zona de rifts cenozóicos do sudeste brasileiro. Essa zona é bastante propícia para causar esse abalo e vai continuar causando outros em diferentes magnitudes e intensidades.”

Parte do Mapa Geológico esquemático da Rodovia Paulo Virgínio – SP -171, com destaque (acrescentado) para as zonas de cisalhamento entre Guaratinguetá e e para a cidade de Cunha. Fonte: Dissertação “O complexo embu no leste do estado de São Paulo: contribuição ao conhecimento da litoestratigrafia e da evolução estrutural e metamórfica”, de Amélia João Fernandes, USP, 1991.


Consequências
Além do pânico generalizado na cidade, o abalo sísmico causou muitos estragos, porém, nenhuma vítima fatal ou ferido.

Tanto na zona rural quanto na zona urbana rachaduras apareceram nas paredes das casas e quadros foram derrubados. A região mais atingida pelo terremoto foi o eixo Cunha-Guaratinguetá. No local denominado “Descanso do Machado”, uma árvore de 15 metros foi arrancada do solo. Uma fenda de cerca de 40 centímetros abriu-se no chão. Portão, cercas e varais foram arrancados.


Pela intensidade incomum, lembra Jesus Berrocal, geofísico do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), o sismo de Cunha serviu de referência para a construção da usina nuclear Angra I, em Angra dos Reis (RJ). Em operação desde 1982, a usina é resistente a um tremor da magnitude daquele que teve seu epicentro Cunha, em 1967, e desliga-se automaticamente, caso o sismo ultrapasse a margem de segurança do projeto (4,1 na escala Richter).

Conclusão
“Não existem locais estáveis. Tudo está se movendo”, diz pesquisador Alloua Saadi, responsável pelo primeiro mapa neotectônico do Brasil, identificando as 48 falhas mestras (principais) que cortam o solo do país. Quem pensa que o Brasil está livre dos terremotos está enganado. Ainda mais o município de Cunha, que é cortado por 3 falhas geológicas. Entretanto, não há razão para alarme. Se acontecer de novo um abalo sísmico em Cunha, vamos levar mais susto do que prejuízo.

Referências:
Geologia Geral, Viktor Leinz e Sérgio E. do Amaral (2003)
O Complexo Embu no leste do estado de São Paulo, Dissertação de Mestrado (USP), Amélia J. O. Fernandes (1991)
O Estado de S. Paulo (1967)
Folha de São Paulo (1967)
Correio da Manhã (1967)
Serviço Geológico do Brasil – CPRM (2014)
Jornal da UNESP (2023)

Censo 2022 aponta crescimento da população de Cunha

Contrariando as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos últimos anos, a população de Cunha voltou a crescer. Foram recenseados 22.110 habitantes em todo o município em 2022, durante a realização do Censo. Esse dado foi divulgado pelo IBGE no dia 28 de dezembro de 2022. Em Cunha já está 100% concluído, com os 74 setores censitários apurados. Portanto, o resultado apresentado já é definitivo.

Observando as projeções populacionais do IBGE de 2019, 2020 e 2021 para Cunha, nota-se que indicavam sucessivas quedas na população municipal. Como essas projeções se baseiam em tendências, é provável que consideraram a redução da população que ocorreu entre os censos de 2000 e 2010. Naquele Censo foram contados 23.062 habitantes; neste, 21.866 habitantes. Assim, ano após ano, o IBGE foi apontando um tênue recuo da população cunhense.

Todavia, em 2022 apurou-se o contrário: houve a interrupção dos sucessivos recuos, registrando um ínfimo crescimento (1,1%). Se isso será uma tendência para as próximas décadas, tendo em vista que a atividade turística vem se fortalecendo nos últimos anos, só o tempo dirá. A estabilidade ou crescimento de uma população depende, entre outros fatores, de uma resposta econômica. Não tem como a população de Cunha crescer sem a economia local oferecer, por exemplo, emprego aos jovens.

Após essa divulgação protocolar, veio a divulgação completa do Censo 2022. Houve um decréscimo da população em relação ao resultado preliminar, razão pela qual este artigo foi editado. Outros aspectos da realidade local vão sendo divulgados, mediante cronograma do IBGE. Aguardamos os dados referentes às taxas de população rural e urbana, à pirâmide e composição etária, à renda média, à escolarização, à religião etc. Com esses dados, é possível comparar com os recenseamentos anteriores e indicar mudanças e permanências no tecido social local.

Vista aérea da cidade de Cunha. Imagem: Guará Vídeo Drone (YouTube). Data: junho de 2022.

Resultados Preliminares
A população da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN) chegou a 2,5 milhões de habitantes. Em relação ao Censo de 2010, a RMVPLN teve um acréscimo de 295.134 habitantes, o que corresponde a um aumento de 13% de sua população. A RMVPLN é composta por 39 municípios. Cunha foi o segundo município da região que menos cresceu, não acompanhando o patamar de crescimento regional. Ainda assim situação melhor do que nos 11 municípios da região (Cruzeiro, Campos do Jordão, Aparecida, Santa Branca, Piquete, São Luiz do Paraitinga, Bananal, Queluz, Redenção da Serra, Areias e Arapeí) que viram a sua população reduzir na última década.

O Jacuhy retornará à análise da população regional, quando o IBGE apresentar os resultados definitivos. Em alguns municípios da RMVPLN, o Censo 2022 ainda está inconcluso.

Referências:
BEAUJEU-GARNIER, Jacqueline. Geografia de população. Tradução de Leônidas Gontijo de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.
BROEK, Jan O. M. Iniciação ao estudo da geografia. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
DAMIANI, Amélia L. População e geografia. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2009.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: acompanhe a coleta nas UFs e municípios. Disponível em: < https://censo2022.ibge.gov.br/acompanhamento-de-coleta.html?cod=3513603 >. Acesso em 11 jan. 2023.
______. Censo 2022: Tabelas – Prévia da População dos Municípios com base nos dados do Censo Demográfico 2022 coletados até 25/12/2022. Disponível em: < https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=35938&t=resultados >. Acesso em 11 jan. 2023.
______. Censo 2022: Municípios: prévia da população calculada com base nos resultados do Censo Demográfico 2022 até 25 de dezembro de 2022. Disponível em: < https://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2022/Previa_da_Populacao/POP2022_Municipios.pdf >. Acesso em 11 jan. 2023.

PIB de Cunha cresce 11% em 2020

Setorização do PIB cunhense – 2020. Arte: Jacuhy.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no dia 16 de dezembro de 2022 o Produto Interno Bruto (PIB) referente ao ano de 2020 de todos os municípios do Brasil. O intuito da instituição é “fornecer estimativas do Produto Interno Bruto – PIB dos Municípios, a preços correntes, e do valor adicionado bruto da Agropecuária, da Indústria, dos Serviços e da Administração, saúde e educação públicas e seguridade social, a preços correntes, compatível com as metodologias das Contas Regionais e Nacionais do Brasil, sendo as estimativas obtidas comparáveis entre si”; sendo portanto, um dado econômico relevante para o planejamento estatal, que permite verificar regiões e pontos com o avanços ou retrocessos econômicos no conjunto territorial do país. Ron Johnston (2009, p. 320) afirma que as estimativas do PIB são usadas para comparar o volume da atividade econômica ao longo do tempo e do espaço – seja em agregado ou per capita – mas para evitar complicações introduzidas pela inflação e flutuações da taxa de câmbio, elas devem ser convertidas em uma base comum.

A divulgação dos dados referentes ao PIB dos municípios em 2020 era aguardada, pois foi um ano atípico, marcado pelo alastramento do COVID-19 e a consequente paralização de diversas atividades econômicas, em virtude da emergência sanitária. O tamanho do impacto da pandemia sobre a economia tem sido objeto de debate entre os economistas. À medida em que os dados vêm sendo divulgados, foi possível perceber que os setores mais impactados pela pandemia foram o de alojamento e alimentação; serviços domésticos; transporte, armazenamento e correio; artes, cultura, esporte e recreação e outras atividades de serviços. Segundo o IBGE, “os resultados de 2020 evidenciam que os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre as economias municipais variaram de acordo com a importância das suas atividades de Serviços, sobretudo as presenciais. Isto porque estes serviços agregam as atividades com as maiores quedas de participação no País entre 2019 e 2020, sendo as mais afetadas pelas medidas restritivas de isolamento e precaução de contágio por parte das famílias adotadas durante o ano.”. Todavia, os economistas e técnicos de planejamento têm alertado para a interpretação econômica do PIB dos municípios em 2020 e pedido cautela, pois foi um “ano em que a crise sanitária provocada pela Covid-19 trouxe grandes desafios para a mensuração da atividade econômica”, conforme consta na “Nota técnica – PIB 2020”, emitida pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), órgão do Governo de São Paulo.

A região do Vale do Paraíba Paulista foi diretamente impactada pela pandemia e viu seu PIB regredir em relação a 2019. O PIB regional recuou de 131,6 bilhões de reais em 2019 para 122,6 bilhões de reais em 2020. Uma variação negativa de 6,87% no volume. Os grandes centros econômicos de nossa região, São José dos Campos e Taubaté, ficaram entre os municípios que mais perderam participação PIB do Brasil em 2020, o que demonstra o grave impacto causado pela pandemia sobre a economia regional. O PIB do estado de São Paulo avançou 0,4% no mesmo período. Cunha não sofreu o mesmo impacto econômico.

O PIB de Cunha avançou de 267,7 milhões de reais em 2019 para 297,3 milhões de reais em 2020, agregando assim quase 30 milhões de reais de um ano para o outro, uma variação de volume de 11,05%. Desde que o IBGE começou a mensurar os PIB dos municípios, em 2002, na metodologia que utiliza até agora, Cunha nunca registrou decréscimo. Com esse resultado, a taxa participação econômica do município no PIB estadual teve um pequeno aumento. Era de 0,0114% em 2019 e foi para 0,0125% em 2020. No ranking estadual, Cunha é apenas 365ª maior economia.

Evolução do PIB de Cunha (2002-2020). Fonte: IBGE, 2022.

Ao se fazer um recorte setorial no PIB de Cunha, percebe-se que o setor que alavancou esse crescimento, mesmo diante do cenário de crise econômica, foi o primário. A agropecuária cunhense teve uma variação positiva de 54%, passando a responder por 12,9% do PIB cunhense (era 9,3% em 2019). Cunha é o maior produtor de leite de São Paulo e possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba Paulista.

O setor hoteleiro e de alimentação foi duramente atingido pelas restrições sanitárias e de circulação implementadas para deter o avanço do COVID-19. Em Cunha não foi diferente. Medidas restritivas foram tomadas pela Municipalidade para preservar a saúde da população e tentar frear o avanço das infecções por coronavírus. Eventos foram cancelados. Pousadas foram temporariamente fechadas e restaurantes só puderam funcionar com entregas em domicílio. O turismo, hoje uma importante atividade econômica de Cunha, foi o mais impactado pela pandemia. Por outro lado, muitas pessoas deixaram a Região Metropolitana de São Paulo e se refugiaram em suas casas de veraneio e sítios na zona rural cunhense, na esperança de não serem infectados. Essa migração sanitária, esse êxodo urbano temporário, certamente aqueceu o comércio local e o setor de serviços, compensando as perdas do setor turístico. Por essa razão, mesmo com a crise, o setor terciário de Cunha variou positivamente.

Plantação no bairro da Vargem Grande. Data: 2014. Foto: Facebook Bairro da Vargem Grande – Cunha – SP.

A outra parte do setor terciário, aquela ligada à administração pública, foi fundamental para estabilidade econômica do município, uma vez que esse funcionalismo não sofreu cortes no salário nem enfrentou demissões por causa da crise econômica desencadeada pela pandemia. Uma parte considerável dos cunhenses que possuem remuneração registrada são aposentados ou funcionários públicos municipais, estaduais e federais. A Prefeitura de Cunha, por exemplo, emprega diretamente mais de 600 pessoas.

O setor secundário de Cunha corresponde a apenas 5,3% do PIB municipal e é composto por pequenas indústrias alimentícias. Não sofreu queda, mas também não evoluiu economicamente no período. Já a agropecuária cunhense, marcada por sua característica familiar, sempre foi resiliente. Como não foi um setor atingido diretamente pelos impactos negativos pandemia, registrou um grande crescimento. Ou seria apenas uma consequência do aumento da fiscalização e do registro de produção?

Plantação de hortaliças em sistema hidropônico, na zona rural cunhense. Data: 2022.

O PIB per capita do município saltou de R$ 12.349 em 2019 para R$ 13.857,47 em 2020. Mesmo assim, caiu no ranking estadual. Ocupava a 631ª posição em 2019; em 2020, está na 634ª posição. De acordo com esse dado econômico, Cunha figura entre os municípios mais pobres do estado. São Paulo tem 645 municípios. Na média brasileira, o PIB per capita foi R$ 35.935,74; bem acima, portanto, do nosso PIB per capita municipal. Por fim, alerta o geógrafo britânico Ron Johnston (2009, p. 320) que “o PIB não é necessariamente uma medida válida de ‘saúde econômica’, uma vez que as consequências prejudiciais (por exemplo, sobre o meio ambiente) não são levadas em consideração. E sua melhoria nem sempre é sinal de crescimento real; por exemplo: o aumento dos gastos com policiamento poderia estimular o crescimento do PIB, mas não é nada mais que uma resposta a um aumento da criminalidade.”. E o PIB per capita é limitado como indicador econômico porque não considera uma condição básica da economia capitalista: a brutal desigualdade de renda que existe entre as classes sociais.

Referências:
FUNDAÇÃO SEADE. PIB paulista cresceu 0,4% em 2020, 10 mar. 2021. Disponível em: < https://informa.seade.gov.br/analise_pdf/pib-paulista-cresceu-2020/ >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Nota técnica – PIB 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/c1b5063b-d6b9-4832-a8ee-9caad7ee2c85/download/nota-tecnica_pib_do_esp_2020.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB por municípios do Estado de São Paulo – 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/13af6a0f-e731-4fc7-8664-73e57de8f465/download/pib-municipios-2020.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB para os municípios de São Paulo – 2019. São Paulo: Fundação SEADE, 2021. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/7a58161d-f687-4c15-8edf-0787a6b03245/download/pib-municipios-2019.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
GREGORY, Derek et al. Dictionary of Human Geography. 5. ed. West Sussex (Reino Unido): Wiley-Blackwell, 2009.
IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios: Cunha. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: < https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html?t=pib-por-municipio&c=3513603 >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Produto interno bruto dos municípios 2020. Rio de Janeiro: IBGE / Coordenação de Contas Nacionais, 2022. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101990_informativo.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.

Cunha no ano da Independência do Brasil

Os relatos de viagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) trazem um valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país: o Vale do Paraíba.

Em 1822 realizou sua segunda viagem pela Província de São Paulo e nos legou diversos relatos sobre um tempo que já se foi… Nessa segunda viagem saiu do Rio de Janeiro e foi em direção a Minas. De lá, desceu a Mantiqueira, passou por Cachoeira Paulista e Guaratinguetá. Tomou rumo para Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, finalmente, São Paulo. Na volta, retornou a Mogi das Cruzes, passou por Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. De Taubaté partiu em direção à capital do Brasil, passando por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz.

Praça da Matriz de Cunha, por volta de 1900. Foto: Museu Municipal. Digitalização e coloração: Giorgio Cerutti.

Muito embora não tenha passado pela então Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, Saint-Hilaire (2002, p. 118) não deixou de registrar informações sobre o nosso município. Pernoitando em um rancho de tropeiros, antes de chegar a Bananal, junto com seus dois criados – Firmino e Laruotte –, dois índios montados e um tropeiro, se deparou com dois soldados que iriam assumir guarda em uma barreira criada na estrada entre Cunha e Paraty e deles extraiu as seguintes informações, alguns meses antes da Independência do Brasil:

Rancho de Pedro Louco, 24 de abril, 4 léguas – No rancho sob o qual passamos a última noite, estavam dois homens da Vila de Cunha que vão assumir a guarda de uma barreira recém-criada nesta estrada. Segundo o que me informaram fica a cidade de Cunha situada perto da grande cordilheira, a nove léguas de Guaratinguetá, a quatorze do pequeno porto de Parati e cinco das nascentes do Paraíba. Como se acha em terreno baixo, o açúcar e o café não progridem em suas redondezas, que contudo produzem em abundância o milho e outros gêneros dos quais parte embarca em Parati para o Rio de Janeiro. De Guaratinguetá enviam também gêneros a Parati, fazendo-os passar pela Vila de Cunha.”

Saint-Hilaire, 24 de abril de 1822

Há outras impressões mais ou menos do mesmo período. Ficaremos, devido a sua precisão, com a do geógrafo e sacerdote português padre Manuel Aires de Casal (1945, p. 241-242), no seu “Corografia Brasílica”, lançado em 1817:

Cunha, em outro tempo Facão. Villa ainda pequena, e que com facilidade pôde ser considerável, situada na vizinhança do Rio Jacuhy sobre a serra, oito léguas ao Norte de Paraty, ornada com a Igreja Matriz, de que he Padroeira N. S. da Conceição. O clima he sadio, as noites de Junho, e Julho frias. He o lugar da Zona Torrida, onde ategora tem prosperado melhor as flores, e arvores frutiferas oriundas da Europa. Nos seus contornos ha extensos pinheiraes; e seus habitantes cultivam mantimentos do paiz, recolhem abundancia de milho, e criam em grande quantidade gallinhas, e porcos, sua riqueza. O caminho, que communica esta Villa com a do Paraty, he péssimo. Quando os recoveiros transitarem por elle com a mesma facilidade, e segurança, que os do Cubatão entre S. Paulo, e Santos, então uma terá florescimento, outra maior commercio.”

Padre Manuel Aires de Casal, 1817
Parte de uma carta da Província de S. Paulo, do início do século XIX, mostrando a localização de Cunha, os rios e os caminhos para o mar. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

População

A população da Vila alcançava 2.818 almas em 1823. A economia prosperava, mas de forma modesta. O café ainda não tinha alcançado o seu auge na região. E Cunha, que possuía função complementar, aguardava ser alavancada junto, com o arranque econômico que atingiria o Vale. Predominava entre as atividades, conforme descrição da época, presente nos Maços de População, o seguinte: “tem hum sitio em q. fas sua plantação e seva capados”. A mão de obra era basicamente escrava, contingente que atingia cerca de 44% de toda a população do município. A maioria era formada por escravizados africanos, porém é de se supor que ainda havia entre eles indígenas, descendentes dos povos originários.

As barreiras de alfândega que existiam no caminho até o mar eram ocupadas por soldados, que fiscalizam e faziam cumprir a taxação, daí a razão de ser a militar a profissão de maior ocupação entre os cunhenses nesse tempo. Não é uma coincidência ter Saint-Hilaire se deparado com dois deles, que vinham assumir posto em Cunha, quando pernoitou no rancho de Pedro Louco.

Fonte: Arquivo Público do Estado de S. Paulo, Maços de População da Vila de Cunha, 1823.

Na década de 1830, a produção de café se torna dominante no Vale do Paraíba, superando o cultivo de cana-de-açúcar, com quem dividia o uso e ocupação do solo. De 1823 a 1836, a população cresce. Reflexo do avanço da cafeicultura na região e do lastro de desenvolvimento que provocava. Passa de 2.818 para 3.403 habitantes. Chega a 559 “fógos” (sinônimo de moradia, casa, habitação, residência). É um novo tempo não só na política, mas na economia e na demografia. Recebe a região grandes contingentes humanos: de brancos, aventureiros e escravizados de outras partes do Brasil. Do ponto de vista ambiental é um desastre: liquidação quase completa da Mata Atlântica, que reduzir-se-á aos sertões e as cordilheiras.

Tropeirismo

O surgimento de Cunha, outrora Facão, que remonta às primeiras doações de sesmarias nos fins do século XVII, está relacionado diretamente com os caminhos, antigos, que permeavam o planalto do Paraitinga e do Paraibuna. Ponto de parada entre Paraty, no litoral, e as cidades do sertão: Guaratinguetá e Taubaté. Portanto, aqui, mais que em outros lugares, floresceu o tropeirismo. O dinamismo dos fluxos de gentes, mercadorias e ideias animou os primeiros anos da Freguesia do Facão, que vingou na Serra do Mar. Os que foram se estabelecendo, margeando a Estrada Real, foram se nutrindo desse movimento das tropas e do rol de atividades adjuntas que dessa circulação vai-e-vem advém.

Um dia comum em uma cidade paulista no início do século XIX. “San Bernardo”, aquarela sobre papel. 1827.
Autor: Charles Landseer. Fotografia: Fernando Chaves. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Por isso, a abertura de novas vias ou a modernização e retificação das antigas, sempre representava um duro golpe econômico e demográfico sobre o Facão. Essas decadências podem ser percebidas nos estudos genealógicos, como foi na pesquisa do historiador Carlos da Silveira (1938, p. 92): “As tropas, que eram a sua vida, começaram a se desviar para outras zonas e as velhas famílias, em fins do século XVIII e princípios do XIX, trataram de se ir localizando ao longo do caminho novo, de Lorena ao Rio. Numerosos habitantes, facãozenses puros, deslocaram-se da terra natal, povoando assim as margens da nova estrada, em territórios que vieram a constituir os municípios paulistas de Lorena até a fronteira fluminense, e, passando mesmo essa fronteira, estenderam-se até o Rio Piraí (…)”.

Mas Cunha sempre se reinventa. A natureza nos é generosa e disposição para o trabalho o cunhense sempre teve, desde sempre. Em 1836, chama a atenção o grande número de ferreiros entre as artes e ofícios de que se ocupavam os cunhenses. Havia 11 deles trabalhando em suas oficinas na Vila. Número bem acima dos municípios da região, inclusive daqueles que possuíam uma população ou um espaço urbano maior. Isso mostra que mesmo com a inauguração do caminho novo da Estrada Real ou do Caminho Novo da Piedade, os valeparaibanos não negligenciaram a antiga via de acesso ao litoral, que passava por Cunha e findava no porto de Paraty. Antes do café tomar conta, permaneceu essa via como rota de escoamento das riquezas do Vale.

Um tropeiro e a sua tropa, em aquarela de Jean Baptiste Debret. Carvão, 1822, aquarela. Fonte: Museus Castro Maya/IBRAM/MINC. Fotógrafo: Jaime Acioli

Por isso, Cunha não desapareceu do mapa. Além de sua produção agrícola, funcionava como entreposto comercial. Os ferradores de Cunha – produzindo estribos, esporas, ferraduras, cravos e pregos, fivelas, trempes, panelas e toda sorte de utensílios de ferro – davam assistência logística ao transporte de cargas e ao aparato das tropas. A nossa cidade, ainda que minúscula, ocupava uma função naquela rede urbana pretérita.

Economia

A vocação de Cunha para pecuária é antiga. O economista Francisco Vidal Luna (1998, p. 135), ao estudar os municípios paulistas entre os séculos XVIII e XIX, observou sobre essa atividade o que segue: “em 1804 sua importância maior ocorria no Vale do Paraíba, com 14,8% dos proprietários e 22,8% dos escravos, e no Caminho do Sul, com participações de 14,0% e 26,1%, respectivamente. No Vale do Paraíba destacavam-se Cunha e São Luís do Paraitinga (…)”. Todavia, naquele tempo predominava a suinocultura; e não a bovinocultura, como atualmente, com Cunha sendo a maior bacia leiteira do estado.

“Loja de carne de porco”, gravura de Jean B. Debret, representando o Rio de Janeiro do século XIX. Acervo do Museu Castro Maya.

Os dados estatísticos mais próximos, de 1836, apontavam que a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha figurava entre as maiores produtoras de milho da Província de S. Paulo: com 87.988 alqueires, ocupando a 9ª posição. Além do cereal nativo da América, era destaque a produção de fumo com 649 arrobas, 2ª posição, atrás somente de Curitiba, que na época pertencia ao território paulista. Por ser um produto básico da culinária colonial, o toicinho era um produto comercializável e Cunha, com uma produção de 8.905 arrobas, ocupava naquela época a 1ª posição entre os municípios paulistas, correspondendo a 68,5% de toda produção provincial. Essa grande produção em nosso município indica o quanto a economia local estava ligada às culturas e criações que fugiam do sistema de plantation, ainda que a mão de obra fosse escrava em sua maioria. Junto com o cultivo de feijão, tabaco e milho e outros gêneros, criavam-se porcos e galinhas. Mais do que base da economia de subsistência, esses itens, para Cunha, destinavam-se à exportação e geração de receita. Seguiam para a Corte, via porto de Paraty, e para São Paulo e outras cidades do Vale, nas cangalhas.

Dos cultivos que prosperavam a província, Cunha em nada se destacava. Müller anota o que havia em nossas redondezas em termos de estabelecimentos agrícolas: “5 engenhos de assucar, em ponto pequeno, 2 fazendas de criar, 2 fazendas de café”. Número muito aquém dos municípios vizinhos. O motivo: o clima. A geomorfologia do nosso território, cercado por três serras, intensificava o frio característico do clima tropical de altitude. A geada, visita constante em nossos invernos, baldava as culturas tropicais nestas bandas. Entretanto, na descrição geral aparece a ressalva: “n’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vacum, e cavalar. Não tem terrenos devolutos.”. O café e o açúcar não fizeram a riqueza dos fazendeiros e sitiantes de Cunha, que de alguma forma, encontraram o seu nicho econômico como fornecedores de alimentos para região e para outras cidades maiores, envolvidas que eram em outras atividades agrícolas ou comerciais, mais rentáveis e tropicais.

Fazenda da Barreira, antes de ser demolida, no bairro do Taboão. Antiga alfândega para as mercadorias do Vale. Foto: Marcos Santilli. Data: década de 1980.

Após a Independência do Brasil, o Vale do Paraíba se tornará a região mais próspera do Império nascente. O café irá alavancar todas as localidades valeparaibanas. Até aquelas que não produziam café, como Cunha. No século XIX Cunha conhecerá o seu auge econômico e também viverá a sua decadência. Um século de muitas nuances, mudanças, e que merecerá, em breve, um texto só sobre esse período.

Referências:
AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Maços de População – Vila de Cunha – 1823. Disponível em: < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/web/digitalizado/textual/macos
_populacao >, acesso em 5 set. 2022.
DÓRIA, Carlos A.; BASTOS, Marcelo C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
LUNA, Francisco V. São Paulo: População, Atividades e posse de escravos em vinte e cinco localidades – (1777-1829). Estudos Econômicos. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 99 -169, jan/mar., 1998. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ee/issue/view/877 >, acesso em 10 set. 2022.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3 ed. São Paulo: Governo do Estado, 1978.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Tradução de Afonso de E. Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
SILVEIRA, Carlos da. Apontamentos para o estudo de uma grande família: os Lopes Figueira, do Facão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, v. 35, p. 91-130, dez., 1938.
SOBRINHO, Alves M. A Civilização do Café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.

O velho sobrado e o Duque de Caxias

Lenda ou fato? O patrono do Exército visitou mesmo Cunha? Podemos confiar na tradição oral dos cunhenses?

Datado da primeira metade do século XIX, provavelmente da década de 1830 (VELOSO, 2014, p. 56), período em que Cunha se beneficiou do desenvolvimento regional proporcionado pelo café, o sobrado da Praça Coronel João Olympio, número 52, esquina com a Rua Dom Lino,oficialmente “Casarão Osmar Felipe”, “é a construção particular mais imponente da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas. Construído em taipa, na primeira metade do século dezenove, consta que nele se hospedou Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, em 1842, quando veio à Província para sufocar a insurreição liberal. É hoje a sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso.” (IEV, 1993).Na época do inventário do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), ainda era propriedade particular, pertencia à professora Dalva Raquel Coelho Nascimento, alugado à Prefeitura de Cunha. É vestígio da fastuosa civilização do café, que cobriu o vale de rubiáceas e riquezas, em meados do século XIX (VELOSO, 1995, p. 28). Essa riqueza, conforme apontou o historiador Francisco Sodero de Toledo (1977), se refletiu no crescimento das cidades e nos melhoramentos urbanos, em escala regional. O crescimento econômico do setor rural incrementava a urbanização, além do mais, as cidades, outrora ocupando um papel secundário, passam a ser o centro da vida política, devido à ação centralizadora do Segundo Reinado, a partir de 1840. Assim, a volumetria e os requintes arquitetônicos dos casarões e sobrados urbanos passaram a ser uma forma dos fazendeiros e líderes políticos locais expressar seu poder político e econômico (MAIA & MAIA, 1977; HERRMANN, 1948), a chamada “arquitetura do café”, além das já conhecidas insígnias: quantidade de escravos, extensão das propriedades, tamanho da sede da fazenda etc. Em prefácio para a obra “Vale do Paraíba: velhas cidades”, o acadêmico Mário Guimarães Ferri (1977, p. 3), resume bem as consequências do enriquecimento regional: “O café originou, no Vale do Paraíba, a aristocracia ‘dos Barões do Café’. ‘Com o café muita coisa mudou’. As casas de morada transferiram-se das fazendas para as cidades. As igrejas foram aformoseadas e as festas religiosas adquiriram maiores requintes; muitos hábitos franceses foram importados; construíram-se santas casas e teatros. Palácio e palacetes abrigaram famílias patriarcais. (…)”. Símbolo de ostentação econômica e política das elites agrárias do passado, há na arquitetura urbana do período uma ânsia para parecer mais importante do é, sobretudo aos olhos dos visitantes, fazendo das vilas e cidades vitrines, muitas vezes bravateando uma glória que não tinham. Não passou desapercebida aos olhos do jornalista viajante Emilio Zaluar (1976, p. 50) essa forma peculiar de demonstrar grandeza no Vale do Paraíba: “Todas as cidades e vilas querem ser cortes, ainda que seus habitantes só tenham por ponto de reunião a casa onde se joga o dominó, e todas as portas se fechem antes do toque de recolher!”. Desse modo, o embelezamento urbano por que passa a então recente cidade de Cunha, elevada a essa categoria em 20 de abril de 1858, era uma forma da elite local, escravocrata, com riqueza advinda de saciar o mercado regional com cereais e toucinho e do trânsito das tropas por cá, demonstrar o seu poder econômico e político.

Desenho de Tom Maia, realçando os traços arquitetônicos do Sobrado, razão pela qual se sobressai entre os demais casarões e sobrados da cidade de Cunha. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, 1993.

Muitos casarões de Cunha não resistiram ao tempo: ruíram-se ou foram demolidos. Por isso, nossos olhares se voltam para o sobrado da praça Coronel João Olympio, um dos poucos que restaram e que nos remetem ao passado imperial de Cunha. Sua importância histórica e pedagógica, com o passar do tempo, ganha relevo, pois “suas paredes abrigaram, nesses já quase duzentos anos de existência, além das famílias que nele residiram: Fórum, Coletoria, agência da Caixa Econômica, Prefeitura, Câmara Municipal, Delegacia de Polícia e Museu. Funcionaram nele ainda clube recreativo e pensão” (SANTOS; VELOSO, 2019). Atualmente encontra-se fechado para reformas (alegação oficial). Como não há reforma alguma por lá, jaz abandonado. Trata-se da construção particular mais importante da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas (IEV, 1993). Construção de taipa de pilão, técnica de construção civil proscrita. Atualmente, pertence à Prefeitura e foi denominado “Casarão Osmar Felipe”, homenagem ao ex-prefeito de Cunha de vários mandatos. Depois de muito tempo abandonado, foi reformado e chegou a sediar a Prefeitura de Cunha por um brevíssimo período (entre 2010-2011), mas logo apresentou infiltrações e problemas em sua estrutura e foi fechado novamente. E assim permanece até hoje.

No mesmo texto, o professor Victor ressalta um importante fato, que os cunhenses mais antigos sempre comentam, quando se referem ao sobrado: “Em 1842, veio o Duque de Caxias do Rio de Janeiro, via Paraty, com a finalidade de apaziguar revoltas liberais em Sorocaba e em Silveiras. Esse fato histórico é o mais importante ligado a esse prédio, por conta do pernoite do Patrono do Exército em Cunha, abrigado sob o teto desse patrimônio arquitetônico.” Entretanto, por ser uma informação repassada pela tradição oral, alguns suspeitavam ser uma lenda. O próprio professor João Veloso me disse certa vez que não era possível confirmar a veracidade desse relato oral, muito embora, por sua consistência e persistência entre os mais antigos, não tivesse a história característica de um “causo” ou coisa fictícia.  

Desenho de Tom Maia. Entrada do Sobrado da Praça Coronel João Olympio. Destaque para os detalhes da porta e sacadas. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, de 1993.

Mas novos documentos e relatos vêm surgindo, trazendo a lume situações e lembranças que ajudam a elucidar se o pernoite de fato houve ou se foi fruto da imaginação de alguém. O Arquivo Público do Estado de São Paulo divulgou em sua página no Facebook, em 7 de maio de 2020, um ofício de informação de campanha militar, redigido por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (futuro duque de Caxias), quando estava na Vila de Guaratinguetá, datado de 20/07/1842, endereçado a José da Costa Carvalho (Barão de Monte Alegre), presidente da Província de São Paulo na época, por meio do qual informa que partirá no mesmo dia para a Vila de Paraty, tendo em vista que o movimento liberal já havia sido sufocado em Silveiras e que tinha recebido ordem de regresso à Corte, pelo Governo Imperial. Também informa que deslocou um batalhão para a Província de Minas Gerais, onde a revolta resistia nas vilas de Aiuruoca e São João del-Rei, conforme transcrição (APESP, 2019): “Hoje parto para a Villa de Parati, e logo depois seguirei para a Côrte em virtude das ordens que recebi do Governo Imperial: e no momento em que vou deixar o territorio d’esta Provincia tenho o praser de assegurar a Vossa Excelência á vista das ultimas participações recebidas dos Commandantes de Forças em operaçoẽs no Norte d’esta Provincia, que os ultimos grupos de rebeldes armados forão destroçados na Freguesia dos Silveiras, e suas immediações; e que portanto está pacificada esta Provincia, restando unicamente agora que as auctoridades locáes com prudencia e energia completem esse grande triumpho que obtive, com a poderosa e prompta coadjuvação que me prestou Vossa Excelência.” Considerando que o caminho entre as vilas de Guaratinguetá e Paraty não podia ser feito sem passar pela Vila Cunha, não há dúvida que o futuro Duque de Caxias passou por aqui. Veio pelo antigo caminho aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral e depois seguiu pelo Peabiru, aberto pelos Guaianás, que ligava o planalto ao litoral de Paraty, por onde houve a penetração colonizadora pioneira dos portugueses na região.

O “Casarão Osmar Felipe“, em foto capturada no dia 11 ago. 2019, por Jacuhy.

Sobre o caminho Guaratinguetá-Cunha, hoje Rodovia Paulo Virginio (SP-171), é importante tecer alguns comentários. Foi aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, recebeu ainda sesmarias nas terras do Facão, no final do século XVII. Sobre esse antigo sesmeiro, diz o genealogista Helvécio Coelho (2001, p. 214): “Antes de 1650, foi o ‘descobridor’ de um caminho para o mar ‘com excessivo trabalho’ e obteve uma sesmaria principiando do ribeiro ‘Jacuimiri’, nas bordas das primeiras campinas, com uma légua de testada, meia légua para cada lado do dito caminho, correndo o sertão até a Boa Vista pelo caminho, ao rumo do mar.” Sobre o percurso, relata Oracy Nogueira (1992, p. 67), que de Guaratinguetá a Cunha se levava, no ano de 1.878, 2 dias de viagem, com um pernoite em bairros intermediários (Rocinha, Cedro ou Paraitinga). De Cunha a Paraty, talvez mais 2 dias, já que Cunha está exatamente no meio do caminho entre Guaratinguetá e Paraty. Ainda que a pressa, muitas vezes imposta por necessidades militares, tenha encurtado esse tempo, é improvável demais, pela dificuldade que impõe o terreno montanhoso, que o pernoite em Cunha não tenha acontecido. Convém ressaltar, a título de esclarecimento, que a atual Rodovia SP-171 não segue integralmente o traçado do caminho antigo, aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral.

O sobrado, em foto de 1965, quando era pensão familiar. Foto: R. W. Shirley. Acervo do Museu Municipal de Cunha.

Voltando ao trajeto do Duque, o coronel Daróz (2014) informa que Caxias partiu para Corte em 23 de julho, certamente pelo porto de Paraty. Desse modo, é presumível que o futuro Duque de Caxias tenha pernoitado em Cunha, quando regressava para a cidade do Rio. É deveras impensável que uma autoridade imperial, ao deparar-se com uma vila, tenha recusado o conforto de uma casa coberta, com cama, janta e convivas, para dormir ao relento, junto aos seus soldados, após campanha militar vitoriosa. E como era costume naquele tempo, quando uma autoridade visitava uma vila, preparavam-lhe as melhores acomodações, na melhor casa da cidade. E havia casarão melhor e mais belo em Cunha naquele tempo, do que o da praça Coronel João Olympio, que até hoje nos enche os olhos? Era uma honra para um proprietário acomodar em sua casa os nobres do Império. E poderia ser vantajoso também, fazendo-lhe uma solicitação nas alcovas: algum favor, algum cargo público para um parente… Aliás, receber bem e com festança autoridades eclesiásticas, políticas e militares era hábito das vilas e cidades do Vale de antigamente. Narrando experiência similar na Vila de Pindamonhangaba, Motta Sobrinho (1967, p. 100) ressalta que a vila – no dia de visita de “gente graúda” – tinha a seguinte atmosfera: “(…) o ambiente era festivo e adrede preparado: arcos floridos, bandeiras, flâmulas, foguetórios. (…)”. Cunha, dada a competição atávica entre vilas e cidades que havia na região, não fez por menos à visita do ilustre comandante.

Corrobora a ocorrência do pernoite o depoimento da senhora Maria Amelia Calazans que, ao completar cem anos de idade, recebeu destaque na coluna social do jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de abril de 1936. Residindo na Fazenda da Barra, no município de Paraibuna, neste estado, D. Maria Amelia rememorou os fatos mais importantes de sua longeva vida. Nascida em 24 de abril de 1836, na cidade de Cunha, foi batizada na Igreja Matriz desta cidade pelo cônego Manuel Rodrigues da Silva. Era filha de Antonio Moreira da Silva e Rita Constancia do Espírito Santo Moreira. Casou-se na mesma Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1859, com José Calazans, mudando-se para Paraibuna desde então, onde, junto com seu esposo, adquiriu a Fazenda da Barra. Entre os fatos históricos vivenciados por ela, é relatado: “Conheceu o barão de Caxias, que foi hospedado por sua mãe, em Cunha, quando o illustre general veio a São Paulo apaziguar a revolta de 1842. E rememora até hoje esse facto historiando com todos os pormenores a chegada de Caxias a então florescente cidade de Cunha.” (O ESTADO DE S. PAULO, p. 2, 1936). Infelizmente, dada a exiguidade das notas sociais, os pormenores da estadia do Duque em Cunha não são dados. Uma pena. Todavia, essa nota vem confirmar de forma definitiva o pernoite do Duque de Caxias em Cunha. Não é lenda e nem “causo”. O patrono do Exército Brasileiro dormiu mesmo no velho sobrado.

O Barão de Caxias, circa 1841, em desenho de François-René Moreaux. Fonte: Wikimedia Commons.

O pernoite ficou na História e na memória dos cunhenses. Formalidades como essa, por serem raras, não podiam “passar em branco” nas pequenas vilas do Império. A Câmara de Cunha deve ter preparado uma festa e agitado a pacata vila serrana. Discursos, saudações, repique de sinos na Matriz, missa, pessoas curiosas na rua, olhando ressabiadas os soldados que acompanhavam a comitiva militar do ainda Barão… O isolamento trazia ar de novidade a coisas banais, bastava que destoassem da realidade cotidiana. E convivas, claro. Mas para a elite, para os políticos. A única parte que difere a tradição oral nos repassada dos documentos oficiais é a direção tomada pelo chefe militar. Os documentos oficiais relatam que o Barão chegou à Província de São Paulo pelo mar, via porto de Santos, onde alcançou o planalto de Piratininga e, posteriormente, Sorocaba. E no ofício mencionado, consta textualmente que ele estava de retorno à Corte, após obter sucesso na campanha militar, quando pernoitou na Vila de Cunha. Portanto, ele não passou por aqui quando estava chegando para “pacificar” a Província, mas estava de partida, quando pernoitou. Mero detalhe.

Sobre a Revolta Liberal, tratava-se mais uma briga entre os dois principais grupos políticos do Segundo Reinado: os conservadores e os liberais. Nas eleições legislativas de 1840, os políticos liberais pagaram capangas para espancar adversários, roubar urnas e modificar resultados. Assim, obtiveram a vitória no pleito. Mas o uso de violência, fizeram essa eleição passar para História como “eleições do cacete” e ganharam um irônico lema: “para os amigos pão, para os inimigos pau”. O Conselho de Ministros, formado na maioria por políticos conservadores, apelou a D. Pedro II que exercesse seu Poder Moderador (uma invenção da Constituição de 1.824, para descaracterizar o sistema tripartite de poder) e anulasse os votos da eleição. Anulada as eleições em 1842, os conservadores novamente retomaram o poder. E os liberais resolveram ir às armas para assegurar o resultado (fraudado). Em S. Paulo, segundo Daróz (2014) “A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província –, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari.” A Revolta começou a ganhar contornos separatistas, e o Império agiu rápido, enviando o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, sob a liderança do Barão de Caxias, para sufocar o movimento. Coronel Dároz (2014) assinala: “preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou o Brigadeiro Luís Alves de Lima e Silva, Barão de Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.” Em julho, a Revolta foi sufocada em São Paulo. Em Minas Gerais, duraria até agosto. Dom Pedro II, com sua política de apaziguamento de ânimos, concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. Para Caxias, a vitória resultou em promoção a Marechal-de-Campo.

O “Casarão Osmar Felipe” em 1993, então sede da Prefeitura de Cunha. Foto: Prefeitura Municipal de Cunha.

Com quase 200 anos, o casarão resiste no centro de Cunha. É tombado tanto pelo COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha), órgão municipal, através do Decreto Municipal nº. 014/2008, de 18 de abril de 2008 (Rerratificado pelo Decreto Municipal nº. 046/2009), que o colocou no primeiro grupo de proteção: “GP1 – Proteção integral das fachadas, volumetria e interior da edificação”; quanto pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), conforme Resolução SC-12, de 26-2-2018, que “dispõe sobre o tombamento de conjunto de imóveis localizados no município de Cunha”. Uma testemunha ocular das coisas acontecidas e findas, parafraseando os dizeres do historiador Paulo Prado, “última testemunha presente das lutas, ambições e glórias do passado.”.Mas até quando? O professor Victor, sempre dedicado às causas mais nobres e culturais desta terra, já fez o alerta: “Urge, desse modo, que todo o empenho e todas as ações possíveis para sua preservação sejam buscados e conquistados, para que a História, a Cultura e a Memória continuem a se fazer presentes e vivas no centro histórico da Estância Climática e Turística de Cunha – SP, visto que, se soubermos de onde viemos, saberemos para onde vamos.”.

Desejoso que essas ações sejam iniciadas o quanto antes, espero ver esse patrimônio restaurado em breve. E funcionando. Quantos equipamentos culturais não podem ser instalados ali? Do contrário, se o abandono persistir, só nos restará compartilhar do mesmo lamento e indignação de Cora Coralina, ao ver as ruínas de um sobrado em sua Goiás Velho:

“(…) Fechado. Largado.
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas,
de ferro forjado,
cede.
Bem que podia ser conservado,
bem que devia ser retocado,
tão alto, tão nobre-senhorial.
(…)
Quem se lembra?
Quem se esquece?
(…)”

Não esqueci e não vou deixar que esqueçam. Queremos o sobrado de pé. E aberto a todos.

Referências:
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP), Fundo José da Costa Carvalho. Notação [BR SPAPESP JCC 125.1.1.14]. Ofício de informação de campanha militar enviado por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (duque de Caxias) a José da Costa Carvalho, barão de Monte Alegre e presidente da província de São Paulo, comunicando sua partida para a vila de Parati e, em seguida para a Côrte, em virtude de ordens recebidas do Governo Imperial; relata a pacificação da província e a partida do 1º Batalhão Provisório de 1ª linha para abater os rebeldes de Minas e ocupar São João Del Rey, remete a Ordem do Dia de despedida do exército Pacificador. Guaratinguetá, 20/07/1842. Disponível em: < https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=3063377987034356&id=182206948484822&__tn__=-R >. Acesso em: 7 mai. 2020.
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CORA CORALINA. Velho Sobrado (poema). Disponível em: < https://www.escritas.org/pt/t/5489/velho-sobrado >, acesso em 9 mai. 2020.
CUNHA (Município). Decreto Municipal n.º 14/2008, de 18 de abril de 2008. Cunha (SP): Prefeitura Municipal de Cunha, 2008.
DARÓZ, Carlos R. C. As revoltas liberais de 1842: o Império consolidado. Revista Militar, n. 2549/2550, jun./jul., 2014.
HERRMANN, Lucila. Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num Período de Trezentos Anos. Revista de Administração, Ano II, Números 5 – 6, mar. / jun., 1948, p. 3 – 326.
INSTITUTO DE ESTUDOS VALEPARAIBANOS (IEV). Cunha – Sobrado: Sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso. (Inventário). Guaratinguetá (SP), 1993.
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O ESTADO DE S. PAULO. Sociedade. Ano LXII, n. 20.408, p. 2, ed. de 24 abr. 1936. Disponível em: < https://acervo.estadao.com.br/publicados/1936/04/24/g/19360424-20408-nac-0002-999-2-not-agwqhqg.jpg >. Acesso em: 23 de abr. de 2022.
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Campos Novos se torna Distrito de Paz

Arte feita para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da página Jacuhy, no Facebook.

Foram os antigos caminhos que cortavam a região a causa do povoamento. Havia o “Caminho das Boiadas” ou “Estrada da Bocaina”. Surgiu para não destruir o Caminho do Ouro oficial, pela Serra do Facão, pois o gado, em seu transitar, vai socavando com suas patas e destruindo a estrada. Assim, o gado era tocado por outro caminho. O Caminho das Boiadas saía de Guaratinguetá ou Lorena, passava pelos campos da Bocaina e alcançava o porto de Mambucaba ou Angra dos Reis, dependendo do rumo que tomava. Posteriormente (séc. XIX), esse caminho seria utilizado e calçado para o transporte do café. Mais que uma conexão entre o planalto e o litoral, foram esses caminhos vetores de ocupação e colonização.

No final do século XVIII, algumas famílias paulistas e fluminenses conseguiram sesmarias no vale do Paraitinga e nos contrafortes da Bocaina. Eram os Fialho, os Galvão dos Santos (Carmo), os Gomes Siqueira, os Ayres dos Reis, os Vaz da Silva, os França Mota, os Rodrigues da Silva, os Mariano Rodrigues, os Santos Pinto, os Pinto dos Santos, os Pinto Leite, os Cardoso de Miranda, os Marques, os Galvão Freire, os Almeida, os Pereira, os Moraes, os Lopes dos Santos, os Siqueira França, os Albano da Silva, os Müller etc. Terra boa, ainda ínvia. Vão povoando e abrindo passagem. De vez em quando ainda viam, esses pioneiros, os Puris cortando, apressadamente, aquelas florestas intactas. Caminhos foram se abrindo, novas famílias chegando e desmatando. A mata caía onde novos sítios eram erguidos. Por volta de 1.820 já se registra 400 almas, entre brancos e escravos. Denominava-se “Bocaina”, apenas. Em 1.859, Manoel Lopes dos Santos (D’Assunção) edifica a primeira capela da redondeza, orago de Nossa Senhora dos Remédios. Por esse tempo, ganha notoriedade a Fazenda da Serra, no bairro da Guabiroba. Era propriedade de Maria do Carmo dos Santos, viúva do Alferes José Gomes dos Santos Pinto e casada em segundas núpcias com Luiz Pereira Paes de Almeida. Latifundiária e rica, bancou boa parte da edificação da capela. Como centro religioso da redondeza, em torno da capela brota um povoado: Campos Novos. Povoado é um termo que significava à época “pequeno aglomerado rural ou urbano, sem autonomia administrativa; lugar ou sítio no qual já se formou uma pequena população ou um pequeno núcleo de habitantes.” (SEADE, 1995).

Croqui da vila de Campos de Cunha, distrito do município de Cunha. Atentar para o diminuto arruamento. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC). Data: maio de 1940.

Vivia a região um enorme crescimento econômico proporcionado pela riqueza do café, que ia modificando a paisagem. Respingo da pujança econômica do médio Vale do Paraíba no planalto. “Campos”, devido aos campos de altitude da Serra da Bocaina, e “Novos”, porque a ocupação do Distrito era mais recente do que o restante do município. Campos Novos vingou à margem de um (Lorena – Mambucaba) das dezenas de caminhos que conectavam o vale produtor aos portos de exportação. Por isso, pulsou no ritmo regional: viveu o apogeu e a decadência da cafeicultura valeparaibana. Depois veio a fonte de água mineral (na década de 1910), depois a pecuária leiteira (década de 1940) … O turismo ainda é uma promessa, pois o potencial de Campos de Cunha é grande demais para seguir ainda inexplorado.

A região passa por um rápido crescimento econômico e populacional. Até que em 8 de março de 1.872, o povoado de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha se torna um Distrito de Paz, pela Lei Municipal nº. 5. Assim, passa a contar com uma autoridade administrativa nomeada pela Vila de Cunha especialmente para o lugar. Um Distrito era uma “divisão territorial e administrativa em que certa autoridade administrativa, judicial ou fiscal exerce sua jurisdição” (SEADE, 1995).

Em 11/09/1873, a capela passa a ser paróquia, com vigário próprio nomeado. Dessa forma, torna-se de fato Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha, pois só se tornava freguesia se fosse paróquia, isto é, tivesse um padre regular atuando na igreja. O primeiro que chegou a Campos Novos para a missão foi o padre italiano Nicolau Polito Derosa (“Padre Derosa”). O termo “freguesia” se refere a: “circunscrição eclesiástica que forma a paróquia; sede de uma igreja paroquial, que servia também, para a administração civil; categoria oficial institucionalmente reconhecida a que era elevado um povoado quando nele houvesse uma capela curada ou paróquia na qual pudesse manter um padre à custa destes paroquianos, pagando a ele a côngrua anual (…)” (SEADE, 1995).

Na divisão administrativa referente ao ano de 1911 já consta o Distrito de “Campos Novos de Cunha” como pertencente à Comarca de Cunha. Esse topônimo foi simplificado para “Campos de Cunha” apenas, na lei de divisão administrativa de 1938, permanecendo assim até os dias atuais. Mas para o cunhense ainda é “Campos Novos”.

Em 1912, o Barão da Bocaina compra a fazenda onde estava as fontes de águas minerais, conhecidas desde o século XIX. Seu projeto era construir uma nova cidade no local, uma estância hidromineral seguindo o exemplo de Campos do Jordão, que fora um projeto seu. E bem-sucedido. Com a morte do Barão, os planos são abandonados. Na década de 1970, a fazenda é comprada pelo italiano Ghisleni Giulio. Seu projeto era criar um loteamento, seguindo, modestamente, os planos do Barão. Não consegue vender os lotes, então decide envasar e vender a água mineral. A qualidade das “Águas Virtuosas Santa Rosa” conquista o mercado regional, mas na década de 1990 o envasamento é suspenso. Em 2021, a água mineral volta a ser vendida com o nome de “Serras de Cunha”, uma marca da Águas Prata Ltda.

Entre as décadas de 1920-1950, muitas famílias mineiras (os Fagundes, os Gonçalves etc.) migram para o município de Cunha, inclusive Campos de Cunha, atraídas pelo baixo preço das terras. Aqui desenvolvem a pecuária leiteira e, posteriormente, a pecuária de corte. Hoje, Cunha é a maior produtora de leite do estado. Então, Campos de Cunha se torna famoso pela qualidade de seus queijos e por sua produção de leite. Até pouco tempo, o Distrito contava com 2 grandes laticínios e outros artesanais espalhados pela zona rural, as fabriquetas.

Antiga fotografia capturada na vila de Campos de Cunha, possivelmente da década de 1940, postada no grupo “Memória Cunhense” (Facebook).

Nos anos de 1970-1980, devido ao abandono do Distrito pelas administrações municipais, cresce entre os moradores o desejo de emancipar-se de Cunha. Ademais, Campos de Cunha sempre manteve mais ligação com Lorena e Silveiras do que com a sede municipal. O pleito dos moradores é levantado pela SADICAC (Sociedade de Amigos do Distrito de Campos de Cunha) e recebe apoio dos deputados da região. Em 1991 é aprovado a realização de um plebiscito pela Assembleia Legislativa de São Paulo para votar a emancipação do Distrito de Campos da Cunha. Todavia, mudanças nas normas estaduais para emancipação de municípios, concernente à autossuficiência econômica, adia o sonho de Campos de Cunha.

É uma longa história, bem resumida pelo poeta e cantor Celso Galvão “…mas o lugar cresceu/ o tempo passou/ as porteiras se abriram / o progresso chegou/ Uma estrada novinha/ e a freguesia no meio da serra aflorou (…) uma gente que sonha e constrói para o futuro uma linda cidade/ na certeza de que/ a união e a fé/ é o caminho e verdade…”. Hoje, Campos de Cunha celebra 150 anos de elevação a Distrito. Parabéns a todos os moradores: da vila, da Bocaina e de todos os bairros rurais. Felicitação que estendo aos que se encontram dispersos por outras paragens.

Campos de Cunha em dois tempos: na década de 1980, na foto superior; na inferior, em 2016. Crescimento da mancha e adensamento urbano. Fotos: Página “Lá em Campos Novos” (Facebook).

Referências:
CUNHA, M. W. V. da. O Povoamento no Município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, v. II, p. 641-49, Florianópolis (SC), 1944.
FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS (SEADE). Memória das estatísticas demográficas: definições. Disponível em: < http://produtos.seade.gov.br/produtos/500anos/index.php?tip=defi >. Acesso em 8 mar. 2022.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades: Cunha (SP): História e fotos. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico >. Acesso em 8 mar. 2022.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha – 1600 – 2010 – Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Música homenageando Campos de Cunha, composta e interpretada por Celso Galvão.

O trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul

Rio Paraíba do Sul, quando cruza o município de Cruzeiro (SP), com a Serra da Mantiqueira ao fundo. Fonte: Wikipédia. Data: 2014.

A porção paulista do rio Paraíba do Sul (também chamada de Alto Paraíba do Sul) ocupa uma área de drenagem de 14.444 Km², onde vivem 2,1 milhões de pessoas, abrangendo 34 municípios de nossa região. A bacia de drenagem de um rio, segundo Teixeira et al. (2009, p. 308), inclui todos os afluentes que deságuam na drenagem principal e eventuais lagos associados a esse sistema, ela é separada das bacias de drenagem vizinhas por divisores de água (elevações topográficas), como as serras do Mar, da Bocaina, Mantiqueira e Quebra-Cangalha, por exemplo

Dentro dessa região hidrográfica há 16 unidades de conservação, com destaque para os núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), recentemente tombado como Patrimônio da Humanidade. Ambas as unidades são de proteção integral. Todas essas unidades de conservação visam preservar as seguintes vegetações: Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, Campos de Altitude e Floresta Ombrófila Mista. A área ocupada com vegetação natural remanescente corresponde a 3.846 Km², o que equivale a 26,5% da área de drenagem da bacia.

Mapa mostrando o trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul. Fonte: Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Data: 2015.

O rio Paraíba do Sul é formado pela confluência dos rios do Paraibuna, que nasce no município de Cunha (SP), no bairro da Aparição; e do Paraitinga, que nasce no topo da Serra da Bocaina, no município de Areias (SP). A junção dos cursos d’água ocorre onde hoje é a área alagada da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, pertencente à Companhia Energética de São Paulo (CESP), localizada entre os municípios paulistas de Natividade da Serra, Paraibuna e Redenção da Serra. Da nascente na Serra da Bocaina até a foz em Atafona, município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, o Paraíba do Sul realiza um percurso de 1.137 km de extensão, até alcançar o Oceano Atlântico. Seus principais afluentes no trecho paulista são: Paraibuna, Paraitinga e Jacuí (formadores); Jaguari, Uma, Buquira, Ferrão, Embaú, Piquete, Bocaina, Pitangueiras e Itagaçaba (tributários).

Imagem de satélite da foz do Paraíba do Sul, mostrando o seu delta assimétrico dominado por ondas, formado pelo acúmulo de sedimentos ao longo de milhares de anos. Imagem: Divisão de Sensoriamento Remoto – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Data: 2019. Fonte: Flickr.

As principais atividades econômicas desenvolvidas são a agropecuária (rizicultura, pecuária leiteira e de corte, milho etc.), indústria e pesquisa tecnológica (automobilística e aeroespacial), química e alimentícia (laticínios, principalmente), o turismo (religioso, ecológico, de montanha, cultural etc.), comércio e serviços e mineração de areia. A maioria dos municípios que estão inseridos dentro da bacia hidrográfica é pobre e vulnerável socioeconomicamente, com a exceção de São José dos Campos, Guararema, Jacareí e Aparecida (SEADE, 2018), que foram classificados e. Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) como dinâmicos, isto é, municípios com índice elevado de riqueza e bons níveis nos indicadores sociais (longevidade e escolaridade médio /alto). Os municípios que são cortados pela Serra do Mar e da Bocaina apresentam os piores indicadores sociais da região, como é o caso de Cunha.

Outros indicadores ambientais: 99,7% dos resíduos sólidos são destinados a aterros sanitários adequados; 91,1% do esgoto urbano é coletado, porém, apenas 63,9% é tratado; a redução da carga orgânica poluidora do esgoto doméstico foi de apenas 40,2%; a demanda total (superficial e subterrânea) corresponde a apenas 10,7% da vazão do rio Paraíba do Sul, no trecho paulista, o que mostra uma baixa pressão sobre os recursos hídricos disponíveis; dos 21 pontos de coleta de água de rios da bacia para análise, 4 foram qualificados como ótimos, 18 como bons e apenas 1 como regular, o que favorece a proteção da vida aquática.

Rio Paraíba do Sul na proximidade de sua nascente, na Serra da Bocaina. Imagem: Marco Cruz. Data: 2011. Fonte: YouTube.

Por estar localizado entre as duas maiores metrópoles do país, o rio Paraíba do Sul sofre com a poluição de suas águas, seja pelo esgoto doméstico ou pelo industrial. Além disso, boa parte de suas cabeceiras, onde estão as nascentes, estão desmatadas e degradadas. Todavia, trata-se de um rio de suma importância social: abastece mais de 14,2 milhões de pessoas, pois parte de suas águas são desviadas para a bacia hidrográfica do rio Guandu, com a finalidade de gerar energia e abastecer a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Outros usos de suas águas são para irrigação (na rizicultura no Vale do Paraíba paulista, principalmente), geração de energia hidrelétrica e diluição de esgotos, este é uma das principais fontes de poluição do rio Paraíba do Sul, sobretudo nos trechos que cruzam as áreas urbanas. A vazão média do rio Paraíba do Sul, na divisa com o estado do Rio de Janeiro, é de 217 m³/s e a vazão mínima é de 72 m³/s, ou seja, cerca de um terço da vazão média. A situação é preocupante, pois só neste século o rio Paraíba do Sul já passou por duas crises hídricas, a primeira em 2004 e a última entre 2014 e 2016, atingindo sua fase de maior escassez em 2015. Nessas crises, as vazões diminuem muito, devido à baixa precipitação, causando impactos nos níveis de armazenamento dos reservatórios e, consequentemente, na irrigação, na geração de energia e no abastecimento de água para a população. A precipitação média no trecho paulista da bacia é de 1.385 mm ao ano. Devido à escassez hídrica e alta demanda das regiões metropolitanas do entorno, a água do Paraíba tem sido alvo de disputa entre as unidades federativas. Por isso e pela sua relevância ambiental, projetos que objetivem recuperar o rio – da nascente até a foz – são para ontem.

Vídeo com imagens de drone da foz do rio Paraíba do Sul, no norte fluminense. Fonte: YouTube / Canal Macaé Drone. Data: 2021.

Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Paraíba do Sul. Disponível em: < https://www.gov.br/ana/pt-br/sala-de-situacao/paraiba-do-sul/paraiba-do-sul-saiba-mais >. Acesso em: 19 out. 2021.
FUNDAÇÃO SEADE. Índice Paulista de Responsabilidade Social. São Paulo: Fundação Seade, 2018. Disponível em: < http://www.iprs.seade.gov.br/ >. Aceso em 19 out. 2021.
RIO PARAÍBA DO SUL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rio_Para%C3%ADba_do_Sul&oldid=62208470 >. Acesso em: 19 out. 2021.
SÃO PAULO (ESTADO). Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS). Capacitação de agentes no processo de gestão de recursos hídricos em atividades de educação ambiental. Taubaté (SP): CBH-PS, 2009.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Guia do Sistema Paulista de Recursos Hídricos. 3. ed. São Paulo: SSRH, 2015.
TEIXEIRA, W. et al. (org.). Decifrando a Terra. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009