Aves de Cunha: Biogeografia, Conservação e Observação

Montagem com duas aves raras avistadas em Cunha. Fotos: WikiAves. Edição: Jacuhy.

Cunha tem se destacado como uma das localidades mais propícias à observação de aves (birdwatching) em São Paulo, ocupando, atualmente, a 27ª posição no ranking estadual de espécies fotografadas, segundo o portal WikiAves, com 381 espécies identificadas em seu território.

Estrategicamente encravada entre as serras do Mar e da Bocaina, com duas unidades de conservação de proteção integral em seu território, Cunha possui uma geografia privilegiada. O gradiente de altitude cria diferentes microclimas e vegetações. É por isso que, na lista de espécies catalogadas, aparecem tanto aves típicas de áreas mais frias e elevadas (como a saudade, o fruxu e a borralhara-assobiadora) quanto espécies dos vales. A presença dessas unidades garante a proteção de matas maduras e contínuas, elemento fundamental para a sobrevivência de águias florestais, da jacutinga e dos tapaculos.

As aves fotografadas no município são características da Mata Atlântica, mais especificamente das florestas úmidas de encosta (Floresta Ombrófila Densa) e de altitude, típicas do Sudeste e do Sul do Brasil. Os registros indicam um alto grau de endemismo, visto que espécies como a jacutinga, o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), a araponga, o tangará (Chiroxiphia caudata), a saíra-sete-cores (Tangara seledon), além de ampla variedade de tapaculos, tovacas e choquinhas, são exclusivas desse bioma, onde evoluíram e fora do qual não existem. A presença de vegetação primária ou em estágio avançado de regeneração é decisiva para esse cenário. Não obstante, a avifauna local também reflete um mosaico composto por áreas florestais permeadas por zonas rurais e de borda.

O relevo montanhoso de Cunha favorece a biodiversidade, ocorrendo aves de diversas espécies. Foto: Airbnb.

Matas extensas garantem o sustento de predadores de topo: o registro de grandes águias florestais, como o gavião-pato e o gavião-pega-macaco, funciona como bioindicador de maciços florestais contínuos, já que essas aves demandam vasto território e abundância de presas. Da mesma forma, as florestas maduras abrigam grandes dispersores de sementes; a presença da jacutinga, do macuco e da araponga evidencia a existência de árvores adultas (como canelas e o palmito-juçara) capazes de produzir frutos em quantidade suficiente para alimentar aves de grande porte, espécies que costumam ser as primeiras a desaparecer em áreas desmatadas ou sujeitas à caça.

Já os sub-bosques preservados, graças ao microclima específico, sustentam famílias restritas ao solo florestal (como tapaculos, tovacas e macuquinhos), consideradas os bioindicadores mais rigorosos de integridade ambiental. Por terem voo curto e dependerem de um estrato escuro, úmido e rico em serrapilheira, essas aves não atravessam pastagens, atestando que a base da floresta permanece intacta. Em contrapartida, as áreas abertas e antropizadas (pastos e lavouras) atraem espécies como o quero-quero, a seriema, o anu-branco e o pardal, adaptados a bordas de mata, estradas de terra e sedes de fazenda.

Diversas espécies endêmicas da Mata Atlântica e ameaçadas de extinção já foram registradas em Cunha. Constantemente citadas em inventários de fauna, listas vermelhas (ICMBio/IUCN) e diagnósticos ambientais, essas aves atuam como espécies-chave para aferir o estado de conservação do bioma. Por serem naturalmente raras e terem sofrido expressivo declínio populacional, seu registro fotográfico é notável. Em Cunha, destacam-se: jacutinga (Aburria jacutinga), papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), águia-cinzenta (Urubitinga coronata), araponga (Procnias nudicollis), pixoxó (Sporophila frontalis), caneleirinho-de-chapéu-preto (Piprites pileata), maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni), papa-moscas-estrela (Hemitriccus furcatus) e saí-de-pernas-pretas (Dacnis nigripes).

A jacutinga representa um dos maiores tesouros da Mata Atlântica atual: criticamente ameaçada, depende dos frutos do palmito-juçara e de outras árvores maduras. A maria-leque-do-sudeste, igualmente rara, associa-se de forma estrita a cursos d’água límpidos no interior de matas primárias. O caneleirinho-de-chapéu-preto, de hábitos discretos no dossel, passa facilmente despercebido aos olhares menos atentos, enquanto o saí-de-pernas-pretas, que percorre a copa em busca de frutos e flores, é consideravelmente mais difícil de avistar do que o saí-azul. O registro simultâneo de especialistas de sub-bosque, águias florestais e aves dependentes de taquaras comprova o nível excepcional de conservação dos ecossistemas locais.

Registro do Grimpeiro (Leptasthenura setaria), fotografado em Cunha por Rogério Magalhães. A ocorrência desse pássaro está intimamente associada às Araucárias.

Foram identificadas também espécies quase ameaçadas que, embora não figurem na categoria máxima de risco, sofrem com a perda de habitat e a caça, exigindo monitoramento contínuo (algumas já constam como “Vulneráveis” em listas estaduais paulistas). Entre elas, encontram-se o macuco (Tinamus solitarius), o araçari-banana (Pteroglossus bailloni), a tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris), o sanhaço-pardo (Orchesticus abeillei), o sabiá-cica (Triclaria malachitacea), o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), o pica-pau-dourado (Piculus aurulentus), o cuiú-cuiú (Pionopsitta pileata) e o gavião-pombo-grande (Pseudastur polionotus). A presença de espécies com alta sensibilidade ecológica, como a jacutinga e a maria-leque-do-sudeste, atesta a qualidade ambiental superior do município.

Em 30 de agosto de 2026, data de elaboração deste levantamento, o WikiAves contabilizava 381 espécies registradas em Cunha (373 com registros fotográficos e 182 com gravações sonoras, totalizando 4.186 arquivos). O município consolida-se, assim, como destino de excelência para quem pratica a observação de aves. Derivado dos termos ingleses birdwatching e birding, o verbo “passarinhar” designa a atividade recreativa e científica de contemplar aves em vida livre.

Aspecto do rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Cunha. A unidade de conservação é um dos espaços privilegiados para prática do birdwatching, em Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2026.

Visando atender a esse público, o Núcleo Cunha do Parque Estadual da Serra do Mar estruturou a Trilha de Observação de Aves: um percurso autoguiado de 1,1 km, de nível fácil, traçado sobre uma antiga estrada em meio a remanescentes de araucárias, equipado com deque de observação e conexão com a Trilha do Rio Paraibuna. Os observadores que visitam ou residem em Cunha contribuem diretamente para o conhecimento desse patrimônio natural. Esses dados são fruto do esforço conjunto de fotógrafos, ornitólogos e guias locais que percorrem os diferentes quadrantes do município, viabilizando o monitoramento científico de populações ameaçadas e reiterando a relevância dos corredores ecológicos da Serra do Mar, um exemplo concreto de integração entre ecoturismo e conservação ambiental.

Quando o Paraitinga transbordou: a inundação de 1882 em São Luiz

Foto da praça central e centro histórico de São Luiz do Paraitinga, em 1882. Fonte: Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Colorizada por IA (Gemini).

Encravada nas curvas sinuosas do Vale do Paraíba, abraçada pelas escarpas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é uma daquelas cidades que nos remetem ao passado. Seu casario colonial em taipa de pilão e pau-a-pique, suas tradições seculares como a Festa do Divino Espírito Santo e o famoso Carnaval de Marchinhas agitam a história de um lugar, que no passado, foi um próspero entreposto comercial entre a serra e o litoral, por onde escoavam os produtos da lavoura do planalto, por meio de tropas, rumo ao porto de Ubatuba. Porém, a mesma geografia encantadora que emoldura a cidade carrega uma vulnerabilidade histórica. O sítio de São Luiz se assenta, nos dizeres de Ab’Saber, o filho ilustre, em um lóbulo meândrico, às margens do Rio Paraitinga. Meandros estreitos, topografia de várzea e vales encaixados formam um conjunto paisagístico capaz de desencadear cheias sazonais devastadoras.

Quando pensamos na força das águas em São Luiz do Paraitinga, a memória coletiva nos remete imediatamente, por proximidade temporal, à catástrofe de janeiro de 2010, quando o rio subiu mais de 12 metros, destruiu a histórica Igreja Matriz e devastou o centro histórico. O que poucos sabem, no entanto, é que em fevereiro de 1882, mais de um século antes, a cidade viveu um drama semelhante, documentado nas páginas dos jornais do Correio Paulistano.

Um fevereiro chuvoso

Nas últimas semanas de fevereiro de 1882, pancadas torrenciais de chuva castigaram o Vale do Paraíba. Sobretudo as áreas serranas como Cunha, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. O Rio Paraitinga, afluente do Paraíba do Sul, transbordou entre os dias 22 e 24 de fevereiro, avançando sobre o casario imperial de São Luiz, cidade margeada pelo rio.

As notícias da época, publicadas no periódico paulistano Correio Paulistano (que replicava relatos de jornais locais como a Gazeta de S. Luiz, e Redempção), relatam os acontecimentos do desastre hidrológico e a dimensão dos danos e prejuízos à comunidade local.

Em edição de 23 de fevereiro de 1882, o Correio Paulistano advertia que as águas já ultrapassavam marcos históricos antigos: “Relatam os habitantes desta cidade que, após a magna enchente que houve em 1863, a qual causou panico e grandes prejuizos á localidade, nenhuma ainda chegou a altura da que se manifestou esta semana no Parahytinga, cujas aguas engrossadas consideravelmente, chegaram até os umbraes das cozinhas de algumas casas que se acham mais chegadas ao rio.” Diferente do que se podia imaginar no início, a água não parou por aí. Nos dias seguintes, o Paraitinga continua subindo. A população acompanha atônita.

Ruas ou rios?

As ruas de São Luiz viraram rios. O Paraitinga foi entrando sem pedir licença. A edição do Correio Paulistano de 4 de março de 1882 (transcrevendo a Gazeta de S. Luiz, de 25 de fevereiro) trouxe detalhes minuciosos do ápice do desastre: “Esta cidade está sendo victima de uma inundação, causada pelas aguas do Parahytinga, que começou a augmentar de volume desde o dia 22. E acrescenta: “Rodou a ponte que se achava a entrada da cidade e que dava passagem para Taubaté e outros pontos. As ruas do Barão do Parahytinga, 31 de Março, D. Pedro II, Rosario, Fazendeiros e praças da Matriz e Mercês estão alagadas; nellas navegam canôas salvando pessoas e objectos”.

O relato descreve a destruição dos prédios históricos e o pânico da população: “As casas d’estas ruas e praças estragaram-se e já desabaram as dos srs. capitão Laurindo Pereira do Campos, capitão Generoso Pereira do Campos, escrivão do orphãos, José Antonio Guerra, capitão José Maria do Gouveia; os fundos do palacete da exma. sra. baroneza do Parahytinga abateo, bem como a casa do redactor do ‘Redempção’ e a do 2º tabellião interino. Os habitantes d’aquellas ruas e praças refugiaram se nas egrejas Matriz, Rosario, Mercês, na casa da camara e nos pontos mais elevados”.

Em 9 de março de 1882, o jornal trazia novos relatos transcritos do Redempção, um periódico luizense, destacando a elevação impressionante do leito do rio: “O rio Parahytinga, que sahio do seu leito no dia 23 do passado [fevereiro], invadira a cidade, inundando-a nos dias 23 e 24, elevando as suas águas a mais dois palmos de altura da fallada enchente de Janeiro de 1863.[…] Na rua dos Fazendeiros a água chegou à altura de 10 palmos!” E acrescenta: “A ponte da cidade foi levada pela impetuosidade das águas; a torre e frontispício da matriz abateram e ameaçam cahir.” Note-se, aqui, um agouro: já em 1882 a estrutura da Igreja Matriz sofria abalos e ameaçava ruir por conta da inundação, uma terrível premonição do que viria, de fato, a acontecer no limiar do ano de 2010.

Prejuízos e isolamento

Além das perdas materiais no centro urbano, a inundação de 1882 cortou as artérias de comunicação de São Luiz do Paraitinga com o restante da Província de São Paulo. A cidade ficou praticamente isolada.

O trecho da edição de 22 de abril de 1882 resume o estrago na infraestrutura regional: “Accresce, porém, que cahiram diversas pontes do municipio, tornando assim muito difficil as communicações com a cidade, notando-se entre ellas a ponte sobre o rio Parahytinga que banha a cidade de S. Luiz e a ponte sobre o rio Parahybuna na estrada que conduz a Ubatuba; a primeira acha-se na estrada que liga S. Luiz a E. F. do Norte, em Taubaté, e a segunda na estrada por onde passam os productos da lavoura do municipio para o porto de Ubatuba.”

Esses danos atingiram as vias principais de circulação de São Luiz, comprometendo sua histórica função de entreposto comercial, rota intermediária entre o Vale e o mar. Os prejuízos econômicos foram avaliados em centenas de contos de réis, uma fortuna astronômica para a época: “Os prejuízos na cidade são orçados em perto de duzentos contos, mas se á estes acrescentarmos os causados pela cheia do ribeirão do Chapéo e grandes trovoadas nos dias 24, 25 e 26, podemos calcular em 300 contos o de todo o município.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). Diante do caos, produtores locais e lavradores enviaram apelos desesperados ao Presidente da Província (equivalente ao atual Governador), como consta na edição de 30 de abril de 1882: “Os infelizes lavradores de S. Luiz, lutam não só com a crise que nos acabrunha como tambem com a impossibilidade de transportar os seus productos, devido ao descuido, pouco caso e a impiedade com que temos sido tratados pelo governo […] pedimos instantemente que não deixe ao desamparo os pobres luizenses…”.

Sem contato com o restante da Província, o colapso econômico era iminente. São Luiz dependia das suas vias de circulação e do trânsito de tropas para sobreviver economicamente. O apelo urgente ao orçamento do governo provincial era a saída.

Solidariedade nas horas difíceis

Apesar do desespero, os relatos de 1882 também registram atos de humanidade, de ajuda mútua e união comunitária. Em meio às perdas, comerciantes e cidadãos não mediram esforços para resgatar vizinhos e distribuir mantimentos: “Felizmente não tivemos vida a lamentar, mas alguns cidadãos escaparam de ser victimas de sua dedicação[…] O exmo. sr. Barão de Parahytinga, três ou quatro dias após a enchente, mandou alguns cargueiros de gêneros alimentícios para serem distribuídos com os pobres.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). O jornal registra ainda uma lista de moradores e nomes notáveis da sociedade luizense que atuaram no socorro das famílias atingidas. Nas tragédias, a solidariedade e a hospitalidade, tão características das sociedades caipiras, emergem com força maior. Em 2010, durante a inundação do centro histórico, os operadores e instrutores de turismo de aventura da cidade usaram botes de rafting para resgatar mais de mil pessoas ilhadas e transportar suprimentos essenciais.

Desastres que se repetem

Sítio urbano e perfil topográfico da cidade de São Luiz do Paraitinga. Fonte: Nice Lecocq Müller.

A geografia de São Luiz do Paraitinga, cravada em uma bacia hidrográfica recortada por serras íngremes e vales estreitos, faz com que a água acumulada nas cabeceiras da Serra do Mar e da Bocaina convirja com velocidade e intensidade para o leito do Paraitinga. Sempre quando chove muito em Cunha, o Paraitinga inunda São Luiz. Foi assim em 1882 e em 2010. Por isso, o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em Cunha é tão importante para a cidade.

AspectosInundação de 1882Inundação de 2010
CausaChuvas volumosas e contínuas no mês de fevereiro.Precipitação extrema acumulada na virada do ano (31 de dez. 2009 – 1 de jan. 2010 (mais de 300 mm, principalmente nas cabeceiras do Paraitinga).
Dinâmica do RioTransbordamento do Rio Paraitinga atingindo 6 a 8 metros acima do leito.Elevação do rio em mais de 12 metros acima do nível normal
Impacto no PatrimônioDanos e desabamentos dos casarões de taipa, desabamento de pontes e trincas no frontispício da Matriz.Destruição total da Igreja Matriz, da Capela das Mercês e desabamento de casarões tombados.
IsolamentoQueda das pontes para Taubaté e Ubatuba; tráfego feito por canoas e baldeação.Interdição das rodovias Oswaldo Cruz e estradas vicinais; isolamento por dias.
Resgate e ApoioResgates comunitários com canoas de madeira e solidariedade dos moradores locais.Ações de resgate por helicópteros e botes infláveis das equipes de rafting; mobilização de voluntários e da Defesa Civil.

Em 1882, os jornais falavam em canoas navegando por cima dos balcões das lojas na Rua dos Fazendeiros. Em 2010, o cenário foi dolorosamente idêntico: o centro histórico se transformou em um grande lago corrente. O núcleo original da cidade, onde se eleva a igreja, implantou-se na planície de sedimentação do rio Paraitinga, correspondendo à margem convexa de um meandro. Com o crescimento urbano, a cidade expandiu-se pelo mesmo lado do rio, ocupando também a margem côncava de outro meandro imediatamente a montante, além de avançar pelas colinas cristalinas ao redor. A localização de seu sítio urbano a expõe a esse risco hidrológico.

Lições do tempo

A cidade margeada pelo rio. Foto: Carlos Borges Schmidt. Data: década de 1950.

A história de São Luiz do Paraitinga é uma história de simbiose com suas águas. O mesmo rio que traz vida e fertilidade, que batizou a urbe, que aterrou o sítio onde os casarões históricos se assentam pode extravasar, ocupar sua planície, causando perdas de vidas, ferimentos, doenças, desalojamentos, falências, arruinando o inestimável patrimônio histórico daquele lugar.

Reexaminar os jornais de 1882 nos lembra que a memória e o conhecimento geográfico são as melhores ferramentas para conviver com a força da natureza, que são cíclicas e incontroláveis. É preciso, portanto, conhecê-las para se prevenir. É preciso se prevenir para preservar o patrimônio histórico. Com as mudanças climáticas, eventos extremos serão mais comuns. Novas inundações acontecerão. A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) é uma das soluções para superar as adversidades vindouras. Ao fazer uma abordagem pedagógica e comunitária, a ERRD cria uma cultura de prevenção, resiliência e autoproteção frente a ameaças socioambientais e climáticas. Integra, assim, o conhecimento científico aos saberes locais para desnaturalizar os desastres, mostrando que, embora os eventos naturais (como inundações) ocorram, o risco e a tragédia são construções sociais mitigáveis pela ação da sociedade organizada.

São Luiz do Paraitinga sobreviveu a 1863, resistiu bravamente em 1882 e renasceu em 2010. A força das águas do Paraitinga não esmoreceu a resiliência do luizense. Calcado em sua rica e história e cultura, o povo de São Luiz nunca perde o ânimo. Quando as chuvas cessam nas cabeceiras, o Paraitinga se amansa e volta ao seu leito; o luizense, com tenacidade, reconstrói tudo de novo. As coisas se ajeitam, a vida e o rio seguem o seu curso.

Referências:
Ab’Sáber, A. N. (2003). Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial.
Allucci, R. R., & Schucchi, M. C. D. S.. (2019). São Luiz do Paraitinga: o imaginário fundacional e suas projeções. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 27, e 15.
Borsoi, D. F.. (2021). São Luiz do Paraitinga: em que medida iluminista? Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 29, d1e28.
CORREIO PAULISTANO (várias edições de 1882) – Hemeroteca Digital Brasileira.
Müller, N. L. (1969). O fato urbano na Bacia do Rio Paraíba: Estado de São Paulo (Série A – Biblioteca Geográfica Brasileira, Publicação n.º 23). Instituto Brasileiro de Geografia.
Petrone, P. (1959). A região de São Luis do Paraitinga: (Estudo de geografia humana). Revista Brasileira de Geografia21( 3), 239-336.
Tominaga, L. K., Santoro, J., & Amaral, R. do. (Orgs.). (2015). Desastres naturais: Conhecer para prevenir (3ª ed.). Instituto Geológico.

A toponímia dos bairros rurais de Cunha: a paisagem como herança e memória

“[…] a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades […] Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis”.

(Aziz Ab’Sáber, in “Domínios de natureza no Brasil: potencialidades Paisagísticas”, 2003)

Os nomes dos lugares constituem um importante patrimônio cultural e histórico, pois revelam aspectos da paisagem, da ocupação humana e das formas de vida que moldaram um território ao longo do tempo. No município de Cunha, a análise da toponímia dos bairros rurais permite compreender elementos fundamentais de sua formação histórica e geográfica, que remonta ao século XVII, quando as primeiras sesmarias foram doadas na região. Mais do que simples denominações, esses nomes registram a relação entre os habitantes e o espaço, funcionando como verdadeiros documentos da memória coletiva.

Uma das características mais marcantes da toponímia cunhense é sua estreita ligação com o meio natural. Diversos bairros receberam nomes inspirados na vegetação local, como Pinhal, Cedro, Figueira, Guabirobas, Pessegueiro e Angico. Outros fazem referência direta aos recursos hídricos, como Rio Acima, Rio Abaixo, Córrego Fundo, Cachoeirinha e Paraibuna. O relevo também aparece frequentemente nas denominações, como em Serra do Indaiá, Alto da Bocaininha, Pedra Branca, Mato Dentro, Cume e Várzea. Esses nomes evidenciam que a identificação dos lugares ocorreu a partir da observação direta da paisagem. Em uma sociedade rural, onde rios, montanhas e matas serviam como referências para deslocamento e sobrevivência, a natureza tornou-se a principal fonte de orientação geográfica.

Croqui esquemático de bairro rural, gerado por IA. Fonte: Chat GPT.

A presença de numerosos topônimos relacionados às atividades agrícolas e pecuárias demonstra a forte origem rural do município. Nomes como Curral, Curralinho, Cocho, Paiol, Sítio, Fazenda, Retiro, Campo e Vargem remetem diretamente ao cotidiano das propriedades rurais e ao universo da produção agropecuária. A ocupação histórica de Cunha ocorreu de forma dispersa, baseada em sítios e fazendas distribuídos pelo território montanhoso. Dessa forma, a paisagem rural deixou marcas permanentes na nomenclatura local, refletindo a importância econômica e cultural da agricultura e da criação de animais para as comunidades cunhenses.

Entre os nomes mais recorrentes, destacam-se aqueles relacionados aos paióis. As denominações Paiol, Paiol Queimado, Paiol Velho e Paiolzinho aparecem em diferentes regiões do município, totalizando aproximadamente nove ocorrências. Essa frequência sugere a relevância dessas construções para a vida rural, já que os paióis eram fundamentais para o armazenamento de grãos, como o milho. A repetição do termo reforça o papel histórico da agricultura como base da economia local. O milho foi o sustentáculo econômico do município durante os séculos XVIII e XIX. Seu cultivo era voltado para alimentação local, cujo prato principal era quirera com feijão, e para a suinocultura. Cunha foi o maior produtor de toicinho da Província de S. Paulo. Sua produção agropecuária alimentou as fazendas de café do Vale do Paraíba. Outros nomes bastante comuns são Boa Vista e Mato Dentro. O primeiro aparece associado a diferentes localidades e geralmente indica áreas elevadas com ampla visibilidade da paisagem, típicas dos Mares de Morros. Já Mato Dentro remete à ocupação de áreas originalmente cobertas por vegetação densa, evidenciando o avanço gradual do povoamento sobre a Mata Atlântica da região.

Núcleo do bairro do Sertão do Pinhá, com sua capela e escola rural, na região leste do município de Cunha, próximo ao limite com Paraty (RJ). Foto: Paulo Cesar. Data: 2023.

A influência da religião católica também se manifesta de maneira significativa na toponímia do município. Bairros como Santa Rita, Santa Cruz, Divino Mestre, Ribeirão das Almas e São Roque revelam a importância da Igreja na organização social e territorial durante os períodos colonial e imperial. Em muitas áreas rurais brasileiras, as capelas constituíam o principal núcleo de convivência comunitária, reunindo moradores em celebrações religiosas, festividades e atividades coletivas. Assim, a presença desses nomes reflete não apenas a religiosidade dos habitantes, mas também o papel das instituições religiosas na formação das comunidades locais.

Outro aspecto relevante é a presença de topônimos derivados de nomes de pessoas e famílias, fenômeno conhecido como antroponímia. Exemplos como Antônio José, Sertão dos Marianos, Paraitinga dos Motas, Várzea do Joaquim Rosa, Galvão e Barra do Chico do Lau e do J. Alves indicam a influência de antigos moradores ou grupos familiares que desempenharam papel importante na ocupação dessas localidades. Essa característica revela um processo de colonização baseado em núcleos familiares dispersos e reforça a importância da tradição familiar patriarcal na preservação da memória local. Em muitos casos, o nome do lugar torna-se uma forma de perpetuar a lembrança daqueles que contribuíram para a construção da história da comunidade ou dos antigos fazendeiros que deram origem ao povoamento do bairro.

Aspecto da antiga fazenda dos Fagundes, no bairro Capetinga dos Fagundes, região nordeste de Cunha, próximo ao limite com Silveiras. Foto: Adilson Nunes.

A herança indígena também permanece viva na paisagem linguística de Cunha. Nomes como Paraibuna, Jaguarão, Jacuí e Paraitinga possuem origem tupi e remetem, em geral, a rios, animais ou elementos da natureza. Esses topônimos são vestígios da ocupação paulista na região, gente falante da Língua Geral, simbiose da Língua Tupi, “o grego da terra”, com a “última flor do Lácio”, a Língua Portuguesa. Indicam que muitos dos referenciais espaciais utilizados pelos povos indígenas foram incorporados pelos colonizadores. A permanência desses nomes evidencia a profundidade histórica da ocupação humana na região e a contribuição dos povos originários para a construção da identidade territorial local.

Além dos nomes ligados à natureza, à religião ou à memória familiar, há também uma grande quantidade de topônimos de caráter funcional. Localidades como Três Pontes, Encruzilhada, Barra, Ponte, Várzea do Tanque, Mato Dentro e Alto do Sapé possuem nomes essencialmente descritivos, criados para indicar localização, acesso ou características específicas do terreno. Esses topônimos funcionavam como instrumentos práticos de orientação em uma época em que os deslocamentos dependiam de trilhas, caminhos rurais e referências naturais. Cunha, um elo entre o Sertão e o Litoral, sempre foi recortada por inúmeros caminhos e tem forte herança tropeira. Esses topônimos refletem essa influência.

De modo geral, a toponímia de Cunha revela um município profundamente ligado à cultura caipira, em que a natureza, à vida rural e às formas tradicionais de ocupação do território estão intimamente ligadas. O caipira não existe sem seu torrão. Os nomes dos bairros preservam marcas da vegetação original, dos rios, das montanhas, das atividades agropecuárias, da religiosidade popular, da presença indígena e da memória das famílias pioneiras da Paulistânia. Diferentemente de áreas fortemente urbanizadas, onde predominam denominações planejadas ou homenagens oficiais, os topônimos cunhenses surgiram de maneira espontânea, diretamente relacionados à experiência cotidiana dos moradores. Por isso, constituem uma valiosa fonte para compreender a história da ocupação humana e a construção da paisagem cultural do município, resultado da interação entre sociedade e natureza ao longo do tempo.

Das Abóboras à Zaranha: IBGE identifica 271 bairros rurais em Cunha

Aspecto do bairro do Monjolo, região sudeste do município de Cunha.

Falar de bairro rural é falar de um pedaço do mundo que não cabe apenas no mapa. É a vizinhança que se reconhece pelo nome, pela capela, pelo campo de futebol, pelo bar de “fulano de tal”, pela estrada de terra, pela festa do padroeiro, pelo mutirão e pelo jeito como as famílias se ajudam quando a lida aperta. Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito (1964), mostrou que a vida caipira não pode ser entendida só pela economia. Ela se organiza também pela sociabilidade, pelos vínculos de vizinhança e pelo ajuste entre grupo humano e meio; em outras palavras, a cultura nasce no território vivido. Após o icônico “Ocê é gente di queim?”, sempre vem “Ocês são di ondi?”. O lugar importa, e importa muito, sim, senhor.

Em Cunha, esse tema ganha um peso ainda maior. O município, que não é populoso (população estimada em 2025, pelo IBGE, em 22.460 habitantes), tem sua população bem distribuída pelo seu amplo território, com mais de 1.407 km², o maior do Vale do Paraíba, apresentando uma densidade demográfica baixa, de 15,71 habitantes por km². Essa dispersão populacional ocasionou a existência, em seu território, de 2.287 estabelecimentos de produção agropecuária, número bastante elevado para o contexto estadual. Desse total, 74% são unidades classificadas como de agricultura familiar. É o município paulista com maior número de unidades de produção agrícola, superando, inclusive, Mirante do Paranapanema, município que é símbolo da reforma agrária e da luta contra a concentração fundiária no Brasil.

A paisagem cunhense, caprichosamente adornada por morros, vales, pastos, roças, capões de mata e caminhos que sobem e descem a serra, ajuda a entender por que os bairros rurais seguem tão importantes: eles são uma forma prática e afetiva de organizar a vida no campo. Não é por acaso que, de acordo com o Censo 2022, Cunha contava com 9.060 moradores rurais, o que significa cerca de 41% da população estava vivendo na roça. Um percentual muito alto para os padrões paulistas, estado em que a população rural corresponde a cerca de 2,6%. A distribuição dessa população pelo espaço rural possibilita a formação dos bairros rurais, pois, de acordo com Antonio Candido, o bairro é o “agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega”.

Na geografia cultural e na geografia agrária, o bairro rural pode ser visto como um espaço de enraizamento. Ele não é apenas uma localização; é um lugar carregado de memória, uso e pertencimento. Por isso, quando se observa Cunha, não se vê apenas produção agropecuária: vê-se uma malha de relações que mistura família, trabalho, religião e tradição. E há um fundo poético nisso tudo. Quando se ouve uma moda de viola ou se lê um verso que fala da terra como companhia de vida, entende-se melhor o que a geografia às vezes tenta dizer em palavras mais formais: a paisagem rural não é cenário, é experiência. Em Cunha, isso ainda salta aos olhos. Bairro não é um simples espaço; é lugar. Lugar de pertencimento, de memórias, de afeto, de extensão imediata do lar, de elo com a terra, torrão sagrado onde o caipira teve seu “umbigo enterrado”. Tal como na moda de viola “Rio Pequeno”, um dos grandes sucessos da dupla Tonico e Tinoco, lançada em abril de 1952, sair do bairro onde foi criado é abandonar parte de sua vida, de sua identidade: “O zóio dela encheu d’água, despediu co’a voz tremeno / Adeus, casa dos meus pais! Adeus, chão do Rio Pequeno!”

Bairro, o chão da cultura caipira

Aspecto do bairro da Cachoeira dos Rodrigues, região oeste do município de Cunha. Foto: Edson Luiz de Oliveira. Data: abr. 2022.

“O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.”

Antonio Candido, in Os parceiros do Rio Bonito

Os bairros rurais têm importância porque são, antes de tudo, lugares de convivência. Neles se cruzam a reza do terço, a folia, a festa do santo, o café coado no fogão, a visita sem cerimônia e o trabalho repartido entre família, vizinhos e compadres. A cultura caipira não vive solta no ar; ela precisa de chão, de rotina e de repetição. É no bairro rural que os saberes passam de uma geração para outra: o jeito de plantar, de criar, de cozinhar, de falar, de celebrar e de cuidar da terra. Candido, autor do excerto acima, mostrou que a vida caipira se estrutura em unidades mínimas de sociabilidade e cooperação, ligadas ao modo de viver e ao meio em que se assentam. Em Cunha, conforme estudo realizado na década de 1980 pela antropóloga Rosane M. Prado, os bairros rurais ocasionam diferenciações de valor que marcam as atividades humanas, bens, relações e símbolos no contexto local, levando em conta fatores como “maior ou menor distância da cidade, o que está associado à ideia de isolamento e dificuldade de acesso, e pelo aspecto de certas associações a propósito da ‘fama’ de determinados bairros. Assim, por exemplo, o Monjolo é associado a ‘gente brava’, ‘de briga’; a Capivara é lugar ‘mais caipira’, no sentido de ‘mais atrasado’; o Jericó é ‘dos metodistas’, lugar de gente ‘mais munheca’, ‘pão dura’. Também alguns bairros rurais são associados às próprias famílias que lhes dão nome, como o Sertão dos Marianos”. Ou seja, ser de determinado bairro já lhe garante certa identidade, característica inata e herdada da coletividade local, que precede a individualidade.

Por isso, o bairro rural é mais do que uma referência espacial. Ele é um território vivido. É ali que a paisagem ganha rosto humano e a cultura ganha matéria concreta. Uma estrada pode parecer apenas uma via de circulação, mas, no bairro rural, ela também é caminho de procissão, trajeto de escola, rota do leite, caminho antigo de tropeiro, passagem de cavaleiro e linha de contato entre casas dispersas. O lugar não existe só por sua forma, mas pelo uso e pelo sentido que as pessoas lhe dão. Em Cunha, onde a paisagem montanhosa fragmenta as ocupações e aproxima os moradores por núcleos de vizinhança, os bairros rurais seguem sendo uma base da identidade local.

Êxodo rural, esvaziamento e mudanças da paisagem

Aspecto do bairro do Jericó, região sudoeste do município de Cunha. Foto: Iverson Leite.

Mas essa paisagem vem mudando. O êxodo rural, que marcou boa parte do interior paulista ao longo do século XX e segue produzindo efeitos no século XXI, retirou moradores do campo, envelheceu comunidades e enfraqueceu laços tradicionais. No Brasil, o Censo 2022 registrou 25,6 milhões de pessoas em áreas rurais, contra 177,5 milhões em áreas urbanas, confirmando a continuidade histórica da urbanização. Em Cunha, mesmo com taxa de natalidade elevada, a população ficou estagnada durante todo o século XX. No estado de São Paulo, onde a presença rural é proporcionalmente muito pequena, esse processo foi ainda mais forte. Vivemos com toda intensidade a ideologia do progresso a todo custo, do “São Paulo não pode parar”, que esvaziou roças e memórias.

Nos bairros rurais, o resultado disso aparece no que os olhos logo percebem: casas vazias, antigas áreas de cultivo em descanso, festas menores, escolas fechadas, menos jovens permanecendo na roça. Está tudo virando tapera. A paisagem muda quando a população muda. E a cultura também sente o golpe. Quando uma comunidade perde moradores, ela não perde apenas número; perde memória compartilhada, perde prática social, perde voz coletiva. Municípios do interior paulista, antes marcados por forte presença caipira, passam a ter uma vida rural mais rarefeita, às vezes mantida por poucos idosos ou por propriedades voltadas a usos novos, menos ligados ao cotidiano tradicional do campo. O processo de terceirização do campo avança.

Essa mudança também altera a demografia local. Com menos jovens no meio rural e maior concentração de serviços e empregos nas sedes urbanas, o campo deixa de ser visto como lugar de futuro por muitas famílias. O problema é que, quando isso acontece, não desaparece só uma forma de morar. Some também uma maneira de organizar o território, de cultivar a terra e de reconhecer o município como herdeiro de uma cultura própria.

Cunha e a força da agricultura familiar

Aspecto do bairro da Pedra Branca, região leste do município de Cunha. Foto: Pedro Ribeiro. Data: 2002.

Em Cunha, o campo ainda é parte central da vida municipal. Isso se traduz na força da agricultura familiar cunhense no contexto estadual, com o município liderando ou ficando entre os primeiros em vários setores de produção agrícola. Mesmo com o esvaziamento do campo, muitos pequenos agricultores e pecuaristas permanecem na lida rural produzindo alimentos. E são essas pequenas propriedades familiares que fazem de Cunha a maior produtora paulista de leite e uma das maiores produtoras de hortaliças, milho, feijão e porcos da região. A base produtiva rural local está estruturada na pequena e média unidade tocada por famílias. E essa é uma das razões do seu sucesso.

Os levantamentos realizados pelo Censo Agro 2017 e do LUPA 2016/17 apontam justamente nessa direção: o município aparece como uma área fortemente marcada pela agricultura familiar e pela diversidade produtiva, a ponto de ser descrito como uma “potência da agricultura familiar”. Foram identificadas 3.452 unidades de produção agropecuária, com mais de 102 mil hectares de área ocupada com alguma cultura, pastagem ou reflorestamento. A maioria das propriedades está compreendida na faixa entre 5 e 50 hectares, ou seja, a estrutura fundiária é composta por minifúndios. O município se destaca na produção de milho, feijão, mel, cana, pinhão, café e frutas e hortaliças diversas; e na criação de bovinos para leite e corte, frango caipira, trutas, cavalos e mulas e porcos. Geograficamente, isso significa que o território de Cunha continua sendo sustentado por uma trama de pequenas propriedades, produção diversificada e forte vínculo entre moradia e trabalho, arranjo bem diferente daquele das áreas onde a modernização agrícola concentrou terra, mecanizou tudo e expulsou moradores.

Bairros rurais identificados

Aspecto do bairro da Aparição, região sudeste de Cunha.

Diante desse contexto geográfico disperso, ruralizado e fundamentado no trabalho familiar, o IBGE identificou 270 bairros rurais no município de Cunha, durante a realização do Censo Demográfico de 2022. Eis a lista:

  1. – Abóboras
  2. – Água Fria
  3. – Água Fria (Bangu)
  4. – Água Limpa
  5. – Águas de Santa Rosa
  6. – Alto da Bocaininha
  7. – Alto do Sapé
  8. – Amorim
  9. – Angico
  10. – Antônio José
  11. – Aparição
  12. – Araçaeiro
  13. – Araruna
  14. – Assunção
  15. – Atibaia
  16. – Balaieiro
  17. – Bananal
  18. – Bangu
  19. – Barra do Chico do Lau
  20. – Barra do J. Alves
  21. – Barrinha
  22. – Barreira (Campos Novos)
  23. – Barreiro (Abóboras)
  24. – Barreiro (Bangu)
  25. – Barro Vermelho
  26. – Bichinho
  27. – Boa Esperança
  28. – Boa Vista (Campos Novos)
  29. – Boa Vista (Igreja de São José)
  30. – Boa Vista (Jaguarão)
  31. – Boa Vista (Pedra Branca)
  32. – Bocaina de São Roque
  33. – Bocaininha da Boa Esperança
  34. – Bom Retiro
  35. – Borda do Campo
  36. – Brejaúva
  37. – Brejinho (Guabirobas)
  38. – Brejinho (Monjolo)
  39. – Bugio
  40. – Buracão
  41. – Cachoeira (Cedro)
  42. – Cachoeira dos Rodrigues
  43. – Cachoeirinha (dos Gatos)
  44. – Cachoeirinha (Monjolo)
  45. – Cachoeirão (Barra J. Alves)
  46. – Caçador Novo
  47. – Campo
  48. – Campo Alegre (Aparição)
  49. – Campo Alegre (Bocaina)
  50. – Campo Belo
  51. – Campo da Bocaina
  52. – Campinho (Bocaina)
  53. – Campista
  54. – Camundá
  55. – Cana do Reino
  56. – Canjara
  57. – Caneleira
  58. – Cantagalo
  59. – Capetinga dos Fagundes
  60. – Capetinga dos Motas
  61. – Capinzal
  62. – Capivara
  63. – Capoeira do Fundo
  64. – Capoeirinha
  65. – Carneiros
  66. – Carrapatal
  67. – Carrasquinho
  68. – Castelo
  69. – Catioca
  70. – Catioquinha
  71. – Cedro
  72. – Charquinho
  73. – Cocho
  74. – Comprida
  75. – Condomínio Santana (Paraitinga)
  76. – Conselho
  77. – Córrego da Onça
  78. – Córrego Fundo (Barra J. Alves)
  79. – Córrego Fundo (Jaguarão)
  80. – Córrego Seco
  81. – Cume
  82. – Curral
  83. – Curralinho
  84. – Desterro
  85. – Divino Mestre
  86. – Encruzilhada
  87. – Engenho
  88. – Entrecosto
  89. – Escurinho
  90. – Estiva
  91. – Fazenda Ibipeba
  92. – Fazenda Santana
  93. – Fazenda São Tomé
  94. – Fazendinha
  95. – Felicidade
  96. – Ferraz
  97. – Figueira (Paraitinga)
  98. – Figueira (Taboão)
  99. – Figueira (Várzea do Tanque)
  100. – Galvão
  101. – Gândara
  102. – Gaviroveira
  103. – Gorozol
  104. – Gramas
  105. – Grota do Buraco
  106. – Grotão
  107. – Guanabara
  108. – Guabirobas
  109. – Guandu
  110. – Guaranjanga
  111. – Guaricanga (Barra J. Alves)
  112. – Guaricanga (Juveva)
  113. – Ingá
  114. – Itacuruçá
  115. – Itaquatuba
  116. – Jacinto
  117. – Jacuí
  118. – Jacuí-Mirim
  119. – Jacuizinho
  120. – Jaguarão
  121. – Jardim
  122. – Jericó
  123. – Juveva
  124. – Lageado
  125. – Lagoa (Barra J. Alves)
  126. – Lagoa (Capivara)
  127. – Lagoa (Pedra Branca)
  128. – Laje
  129. – Lajinha
  130. – Limão
  131. – Limoeiro
  132. – Macuco
  133. – Mandinga
  134. – Maninha
  135. – Mantiquira
  136. – Marmeleiro (Campos Novos)
  137. – Marmeleiro (Engenho)
  138. – Martim
  139. – Mato Dentro (Campos Novos)
  140. – Mato Dentro (Catioca)
  141. – Mato Dentro (Cedro)
  142. – Mato Escuro
  143. – Mato Limpo
  144. – Milho Branco
  145. – Milho Vermelho
  146. – Mineiro
  147. – Mogango
  148. – Monjolinho (Campos Novos)
  149. – Monjolo
  150. – Mundéu
  151. – Onça
  152. – Oriente
  153. – Paineira (Vargem do Tanque)
  154. – Paineira de Cima
  155. – Paineiras (Jaguarão)
  156. – Paiol
  157. – Paiol Queimado
  158. – Paiol Velho (Campos Novos)
  159. – Paiol Velho (Catioca)
  160. – Paiol Velho (Cedro)
  161. – Paiol Velho (Vargem do Tanque)
  162. – Paiolzinho (Capivara)
  163. – Paiolzinho (Córrego da Onça)
  164. – Paiolzinho (Serra do Indaiá)
  165. – Paiolzinho (Taboão)
  166. – Palha Grande
  167. – Palmeiras
  168. – Palmital (Barra J. Alves)
  169. – Palmital (Parque Estadual)
  170. – Paraibuna
  171. – Paraitinga (Campos Novos)
  172. – Paraitinga de Baixo
  173. – Paraitinga dos Cubas
  174. – Paraitinga dos Gonçalves
  175. – Paraitinga dos Motas
  176. – Paraitinga dos Verreschi
  177. – Parque Estadual (da Serra do Mar)
  178. – Parreiral
  179. – Pasto do Gado
  180. – Pedra Branca
  181. – Pedra Preta
  182. – Pedras (Bocaina)
  183. – Pedreira
  184. – Peros
  185. – Pessegueiro
  186. – Pico Agudo
  187. – Pinhal (Barro Vermelho)
  188. – Pinhal (Campos Novos)
  189. – Pinhalzinho
  190. – Pinheiral
  191. – Pinheirinho (Bangu)
  192. – Pinheirinho (Barra J. Alves)
  193. – Pinheiro
  194. – Piri
  195. – Poço Fundo
  196. – Pontinha
  197. – Ponte
  198. – Ponte Alta
  199. – Ponte Furada
  200. – Ponte Nova
  201. – Praia
  202. – Quilombinho
  203. – Quilombo
  204. – Retiro (Cedro)
  205. – Retiro (Sapé)
  206. – Retiro das Palmeiras
  207. – Ribeirão
  208. – Rio Abaixo (Paraibuna)
  209. – Rio Abaixo (Ribeirão)
  210. – Rio Abaixo (Várzea do Tanque)
  211. – Rio Acima
  212. – Rio das Pedras (Capinzal)
  213. – Rio do Peixe
  214. – Rio Manso
  215. – Roça Grande
  216. – Rocinha
  217. – Rodeio (Paraibuna)
  218. – Roseira
  219. – Samambaia
  220. – Santa Cruz
  221. – Santa Rita
  222. – Sapé
  223. – Sapezal
  224. – São Roque
  225. – Serra do Indaiá
  226. – Serraria (Capivara)
  227. – Sertão da Santa Bárbara
  228. – Sertão do Itambé
  229. – Sertão do Pinhal (Pinhá)
  230. – Sertão dos Marianos
  231. – Sertãozinho (Jaguarão)
  232. – Sertãozinho (Jericó)
  233. – Sertãozinho (Várzea do Tanque)
  234. – Sete Voltas
  235. – Sítio
  236. – Sítio de Cima
  237. – Sítio Velho (Jardim)
  238. – Sítio Velho (Várzea do Tanque)
  239. – Soledade
  240. – Sororoca
  241. – Taboão
  242. – Tamancas
  243. – Tanque
  244. – Tanquinho
  245. – Tapera (Capinzal)
  246. – Tapera (Serra do Indaiá)
  247. – Taperinha (Campos Novos)
  248. – Taperinha (Catioca)
  249. – Taquaral
  250. – Tijuco Preto (Barra do J. Alves)
  251. – Tijuco Preto (Campos Novos)
  252. – Três Pontes
  253. – Três Pontes (Várzea do Gonzaga)
  254. – Usina (Cedro)
  255. – Vargem da Cachoeira
  256. – Vargem do Germano
  257. – Vargem do Joaquim Rosa
  258. – Vargem do Tanque
  259. – Vargem dos Pinheiros
  260. – Vargem Grande
  261. – Varginha (Macuco)
  262. – Varginha (Vargem do Tanque)
  263. – Varginha (Vargem Grande)
  264. – Várzea da Santa Cruz
  265. – Várzea do Cedro
  266. – Várzea do Gonzaga
  267. – Vassouras
  268. – Verde
  269. – Vidro
  270. – Vista Alegre
  271. – Zaranha

Para diferenciar os topônimos iterados, que foram vários, acrescentou-se, entre parênteses e à frente, o nome de um bairro próximo espacialmente, facilitando, assim, a distinção. Por exemplo, há 3 bairros denominados “Varginha” em nosso município; daí, para distingui-los, colocou-se “Varginha (Macuco)”, isto é, trata-se do bairro da Varginha próximo ao bairro do Macuco.

Limitações do Censo 2022 para identificar bairros rurais

Aspecto do bairro da Bocaina de São Roque, região nordeste do município de Cunha. Foto: Adilson Nunes.

Talvez algum bairro que você conheça não apareceu na lista supra. Isso não quer dizer que ele não exista. Por isso, é importante olhar com cautela para os dados do Censo Demográfico 2022 quando o assunto é nomear e delimitar bairros rurais. O IBGE deixa claro que o setor censitário é a principal unidade territorial de coleta e divulgação de dados do Censo. Também informa que a malha de bairros do Censo 2022 foi construída por meio do ajuste de setores censitários, sempre que isso foi viável, e que, em várias situações, os limites dos bairros precisaram ser aproximados graficamente por razões operacionais. Em alguns casos, sequer foram considerados os bairros, como aconteceu com os setores censitários de Cunha, porque nosso município ainda não tem uma lei delimitando seus bairros e não há um mapa municipal oficial com os seus bairros rurais. Resumindo: o levantamento do IBGE é um retrato útil, mas não se trata de uma cartografia fina da toponímia rural.

Isso ajuda a entender por que surgem problemas como nomes de estradas sendo tomados como se fossem bairros, ausências de bairros efetivamente conhecidos pelos moradores e denominações pouco precisas com os dados do Censo 2022. Quando a base de referência é setorial e operacional, e não um levantamento específico da memória territorial local, essas distorções aparecem com facilidade. O próprio IBGE ressalta que a representação dos bairros adotou generalizações para evitar fragmentação excessiva da malha e problemas de coleta.

Por isso, os bairros rurais identificados pelo Censo 2022 devem ser lidos como aproximações da realidade territorial, e não como lista definitiva. É um ponto de partida, mas precisa ser confrontado com conhecimento local, cartografia de campo, memória dos moradores e leitura crítica do território. Um levantamento completo, dada a extensão do município, é um processo custoso e trabalhoso e exigiria uma pesquisa com essa única finalidade.

Nesse sentido, com o intuito de dirimir os equívocos e evitar confusões com a localização e toponímia dos bairros, foi utilizada a metodologia DBSCAN, que consiste em analisar coordenadas geográficas agrupando automaticamente os pontos que estão próximos entre si com base em um raio definido (por exemplo, 2 km) e um número mínimo de vizinhos (minPts), utilizando distância real na superfície da Terra (Haversine); o processo começa identificando, para cada ponto, quais outros estão dentro desse raio, classificando-os como pontos centrais (com muitos vizinhos), pontos de borda (ligados a centrais) ou outliers (isolados), e então formando clusters ao conectar todos os pontos acessíveis entre si (inclusive aqueles ligados indiretamente por uma “cadeia” de proximidade) até que se obtenham grupos naturais de alta densidade, sem impor forma ou quantidade prévia, permitindo identificar regiões reais de concentração espacial e separar automaticamente áreas isoladas, o que torna o método mais adequado para análise territorial.

No mais, o autor valeu-se do seu conhecimento empírico, que é limitado, para realizar correções e adequações que se fizeram necessárias, em virtude de equívocos cometidos pelos recenseadores durante a coleta e transcritos para o CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos), que é a base de dados do IBGE com todos os endereços do país. O CNEFE mapeia e georreferencia residências, estabelecimentos e obras em todo o território nacional. O arquivo digital do CNEFE do Censo 2022 do município de Cunha foi a base para realizar este levantamento toponímico.

E o futuro?

Aspecto do bairro do Sertão do Rio Manso, região sudeste do município de Cunha. Foto: Trip Rural. Data: 2020.

Cunha ainda guarda uma riqueza rara no interior paulista: muitos bairros rurais, uma população do campo numerosa e uma paisagem em que a cultura caipira ainda respira. Mas isso não significa estabilidade. Muitos desses bairros vêm perdendo moradores, envelhecendo e correndo o risco de desaparecer como comunidades vivas. E, quando um bairro rural se apaga, não se perde apenas uma referência geográfica; perde-se uma maneira de morar, trabalhar, festejar e lembrar.

Esse processo ameaça a continuidade da cultura caipira e atinge o coração da identidade municipal. A chegada de novos moradores vindos de fora pode trazer dinamismo e novas experiências, mas também pode enfraquecer vínculos antigos quando não há relação com os costumes, a memória e as práticas do lugar. O risco está em transformar o campo apenas em paisagem de contemplação e consumo, esvaziando-o de sua vida social mais funda.

Diante disso, pode-se perguntar: o campo ainda é viável? É um questionamento que não tem uma única resposta. Há os novos rurais, o êxodo urbano e uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis. Todos esses fatores apontam que há, sim, uma saída para roça. Mas é preciso fortalecer o camponês. Valorizar os bairros é defender uma forma de futuro em que o campo continue sendo produtor de alimentos, de cultura e de pertencimento. Em uma época em que tantas paisagens do interior se tornam homogêneas, Cunha ainda pode afirmar sua diferença: a de um município paulista que segue sendo, em muitos sentidos, genuinamente caipira. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças.

“O futuro a Deus pertence”, responderia um bom cunhense. Assim seja.

Referências:
Antonio Candido. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 1964.
Ester, M.; Kriegel, H.-P.; Sander, J.; Xu, X. A Density-Based Algorithm for Discovering Clusters in Large Spatial Databases with Noise. Proceedings of the 2nd International Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD). 1996.
IBGE. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários – Resultados do universo. 2025.
______. Censo Demográfico 2022: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. 2022.
SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO. COORDENADORIA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL. INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Levantamento censitário das unidades de produção agropecuária do Estado de São Paulo – Projeto LUPA 2016/17. 2019.

O tupi na toponímia cunhense

O tupi está muito presente na toponímia cunhense. Muitos bairros de Cunha foram denominados com vocábulos da língua original do Brasil. Mas quem os batizou assim? Foram os indígenas ou paulistas?

Catioca, Itambé, Itacuruçá, Jacuí, Paraitinga, Paraibuna, Mantiqueira, Cajuru, Canjara, Canhambora… Por que há tantos topônimos tupis na geografia cunhense? A resposta óbvia, a presença indígena, não se sustenta historicamente, pois muitos estudiosos dos povos originários comentam que tanto os Guaianases quanto os Puris, povos que habitavam onde hoje é o município de Cunha, pertenciam ao tronco linguístico do Macro-Jê, ou seja, não falavam tupi.

Aspecto das montanhas do bairro do Itambé, município de Cunha (SP).

Outra hipótese que busca elucidar essa questão é a de que esses lugares foram denominados pelos próprios paulistas durante o processo de ocupação e colonização do território. Isso ocorreu porque, até o século XVIII, os paulistas falavam uma língua geral (“tupi paulista”), que misturava a língua portuguesa com a língua tupi, fazendo amplo uso dos vocábulos tupis para batizar os lugares de que se apossaram.

Essa variante do tupi original explica a geografia cunhense? Parcialmente, sim. Mesmo com a proibição do Marquês de Pombal, em 1758, em uma tentativa arbitrária de implantar a língua dos colonizadores na marra, abolindo a língua geral, ela sobreviveu na geografia, nos mapas, no sotaque e no nosso jeito de falar, como expressão de identidade cultural.

Bairro da Bocaininha da Boa Esperança

Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.

Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.

Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.

Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.

Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.

Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.

Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.

Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.

Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.

O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.

Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.

Referências:
Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas (2003), Aziz Ab’Sáber.
Os caminhos da Bocaina: uma questão agrária e ambiental (2002), FAU/USP, tese de doutorado de Maria de Lourdes Zuquim.
Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas a plantação (1957), de Alceu Maynard Araújo.
Panorama do Censo 2022 – IBGE – População residente: recorte setores censitários.
Bairro Boa Esperança (1978) – Carta Topográfica escala 1:10.000 – IGC – Plano Cartográfico do Estado de São Paulo

Foto de Capa: Cláudio Luiz de Mello – Data: nov. 2024 – Bairro Bocaininha da Boa Esperança

Localização do bairro:

Cunha, seu solo e sua agricultura familiar

Cunha é uma potência da agricultura familiar do estado de São Paulo, segundo os dados do Censo Agro 2017 e da LUPA 2016-2017, da CATI. Ao lado de Mirante do Paranapanema, município do extremo oeste paulista, Cunha lidera em quase todos os quesitos relacionados à agricultura familiar. Com o maior número de propriedades agropecuárias, Cunha possui a 3ª maior plantação de milho forrageiro (27,3 t), a 9ª maior plantação de cana-de-açúcar forrageira (15,3t), a 4ª maior produção de azeitonas (3t), o 3º maior rebanho de muares (246 cabeças), o 3º maior número de perus (130 cabeças) e o 15º maior número de produtores e trabalhadores agrícolas do estado. Mais de 80% das propriedades rurais de Cunha possuem horta, pomar, galináceos ou suínos, o que caracteriza a nossa produção como familiar e diversificada, embora em pequena escala. Além disso, possui o maior número de propriedades coletoras de pinhão: 91 estabelecimentos praticam esse tipo de extrativismo vegetal.

O Projeto LUPA (Levantamento Censitário de Unidades de Produção Agropecuária) é um projeto da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, que mapeia detalhadamente as áreas rurais do estado. Seu principal objetivo é gerar dados e estatísticas sobre a produção agropecuária paulista para fins de planejamento e pesquisa. O Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017 foi a principal e mais completa investigação estatística e territorial sobre a produção agropecuária do país. Foi a 11ª edição do Censo Agropecuário, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que levantou informações detalhadas sobre todos os estabelecimentos agropecuários, florestais e aquícolas do Brasil. O objetivo foi investigar a estrutura, a produção e a economia do setor. Desse modo, coletou dados sobre a área, os trabalhadores, o tipo de produção e o uso de insumos, como agrotóxicos. São essas pesquisas que apontam Cunha como potência da agricultura familiar paulista.

Cartaz demonstrando algumas das potencialidades agrícolas do município de Cunha. Fonte: IBGE e CATI. Edição, pesquisa e arte: Jacuhy.

Cunha é o maior produtor de leite do estado de São Paulo, conforme mostra a tabela abaixo. Diferente do que é anualmente divulgado nos levantamentos da “Produção da Pecuária Municipal”, que faz um levantamento baseado somente na produção registrada no Ministério da Agricultura, que é divulgada pelos laticínios, o Censo Agropecuário faz o levantamento realizando pesquisa de campo, percorrendo todas as propriedades agrícolas. Como se sabe, boa parte da produção leiteira municipal é artesanal e vem de retireiros familiares, produção essa que não aparece nas estatísticas oficiais. Com a divulgação dos dados colhidos no “Censo Agropecuário 2017”, cuja coleta aconteceu em todas as propriedades agrícolas de Cunha, obtivemos uma outra quantidade da produção leiteira, muito maior do que aquela que é registrada e divulgada anualmente pelo IBGE. O Censo Agropecuário vai além da produção registrada, considera todos os produtores, não importa o tipo ou o tamanho da sua produção e propriedade. Por isso, os dados do “Censo Agropecuário de 2017” são mais fidedignos e expressam melhor a nossa realidade e produção. 

Mas tanta riqueza e fartura depende de um recurso natural imprescindível, mas pouco comentado e, às vezes, até esquecido: o solo. É um dos recursos naturais mais valiosos do planeta, essencial para a vida na Terra. Ele desempenha um papel crucial na agricultura, servindo como base para o crescimento das plantas, que são a fonte primária de alimento para humanos e animais. A formação do solo é um processo demorado, influenciado por diversos fatores como clima, topografia e atividade biológica. Estima-se que para formar apenas 1 centímetro de solo, são necessários entre 400 e 1000 anos, dependendo das condições ambientais e do tipo de solo. Esse tempo permite a decomposição de rochas e a acumulação de material orgânico, essenciais para a fertilidade e estrutura do solo. Portanto, a conservação do solo existente é crucial, dada a lentidão de sua renovação natural. A preservação da qualidade e da saúde dos solos é vital para a sustentabilidade ambiental e para a segurança alimentar global, pois a perda de solo é um problema ambiental atual, com estimativas indicando que cerca de 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas anualmente em todo o mundo. No Brasil (e em Cunha também), a erosão é um dos principais problemas, resultando na perda de aproximadamente 500 milhões de toneladas de solo a cada ano. O manejo inadequado, a formação de pastagens extensivas, a retirada de vegetação associada à declividade dos Mares de Morros, ocasionam processos erosivos que levam à perda e degradação do solo em nosso município. Por tudo isso, celebra-se em 5 de dezembro o Dia Mundial do Solo. O objetivo da data é sensibilizar as pessoas a respeito da importância de se preservar esse recurso natural que é a base e sustento da vida.

Principais tipos de solos que ocorrem Cunha. Fonte: IAC | Embrapa. Edição e arte: Jacuhy.

Esperamos que um dia os produtores rurais e os gestores públicos de Cunha possam fazer algum projeto no sentido de preservar o solo cunhense, essa riqueza que, ao longo de 300 anos de história e ocupação deste planalto, tem nos sustentando, mesmo sendo  tão maltratado e degradado pela ação humana. Arado e revolvido, gradeado e cavoucado, destocado na enxada, pisoteado e tantas vezes levado pela enxurrada, o solo é um recurso natural local esquecido quando aqui se implantam projetos de conservação ambiental.

Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Fonte: IAC | Embrapa. Data: 1999.

Referências:
OLIVEIRA et al. Mapa Pedológico do Estado de São Paulo. Campinas: IAC/Embrapa, 1999. Mapa, escala 1:500.000.
SANTOS, Humberto Gonçalves dos [et al.] Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. 5. ed., rev. e ampl. – Brasília, DF : Embrapa, 2018. 

Cunha, carvão e milho

Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:

“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.

Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.

Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.

O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.

As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.

A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.

A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.

Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.

Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.

De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.

A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.

Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.

No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.

Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”

Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.

O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.

Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.

O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.

Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.

A jardineira, a praça da Matriz e a vagarosidade da vida

Cunha era um mundo à parte. A indiferença dos cunhenses para tudo o que era “de fora” era a regra. Isolada pela geografia, marcada por uma economia autóctone e de subsistência, o município margeou o século XX. Com sua ânsia pelo progresso e por suas agitações várias, o século XX chegou tarde em Cunha. Foi atingida, sim, pelas ideologias do tempo, mas tarde, no último quartel do século passado. Providencial atraso para muitas tradições, que aqui resistiram, mas inútil para os casarões de taipa e pau-a-pique, que sucumbiram em nome do progresso, das “modernas” e insossas casas e prédios de alvenaria. A praça da Matriz atual é outra coisa. Mesmo tombada e centro da vida social, não se iguala a que foi demolida. A praça era sinônimo de cidade.

Alguém pode comentar: “Nossa, Cunha parecia Paraty!” Sim, parecia mesmo. Todos os que aqui passaram – e deixaram suas impressões escritas – foram unânimes em sentenciar sobre o aspecto urbano colonial de Cunha. Cidade colonial sobre o outeiro, compacta, esbranquiçada, avistada de longe. Emilio Willems, que aqui esteve em 1945, observou: “Quase todos os prédios da cidade alta [da praça] são antigos, tendo alguns deles mais de cem anos. Casas térreas na maioria, apresentam elas, na sua arquitetura externa, o aspecto comum das pequenas cidades brasileiras do século XIX (…) na cidade alta não há mais de uma dúzia de prédios construídos nos últimos dez anos. Alguns destoam consideravelmente da arquitetura tradicional, mas, a despeito de todas as diferenças que os distinguem dos prédios vizinhos, a homogeneidade estética da cidade, vista como um todo, não foi quebrada”.

Aquele foi o tempo das jardineiras. Das estradas de terra e barro nos dias de verão. No inverno; de poeira. O sociólogo Emilio Willems no livro “Cunha – Tradição e Transição em uma cultura rural do Brasil” (1947) registrou a seguinte informação: “Até 1932 as famílias locais viajavam em carro de boi levando dois dias para percorrer os 49 quilômetros entre Cunha e Guaratinguetá. Os homens usavam o cavalo, mas fazer a viagem num único dia era considerado um tanto penoso. Atualmente, em tempo seco, a jardineira leva três horas para ir de uma cidade à outra. O automóvel percorre a mesma distância em uma hora e meia, mas em dias chuvosos, a estrada torna-se quase intransitável para veículos motorizados”.

Em 1932, em razão do conflito que se desenrolou nestas paragens, a estrada entre Cunha e Guaratinguetá foi arrumada e tornou-se transitável. Um legado positivo da guerra civil, que tantas desgraças nos trouxe. Ainda que a viagem fosse uma verdadeira saga. Sobretudo quando chovia. Maria de Lourdes Andrade Noronha, que foi professora no bairro do Monjolo, em 1948, relata, em seu romance “Desencontro” (1971), alguns contratempos vividos nesse trajeto: “O céu despejava água quase ininterruptamente. Por toda parte, alagadiços e estragos nas plantações. As professoras de sítio ficaram retidas uns dias em cidades vizinhas, até que as jardineiras de Cunha [chamada de Santo Antônio da Serra no romance] voltassem a circular pelas estradas então, intransitáveis (…). Depois de uns dias de sol, a empresa Rodoviária publicou que seus carros subiriam as serras sem maior perigo para os passageiros. A jardineira foi mal lotada com alguns viajantes de casas comerciais, poucos sitiantes e meia dúzia de professoras. Viagem de interrupções para desatolar daqui, contornar por lá, ou fazer descer os passageiros quando o terreno não oferecesse garantias. Assim mesmo ia tudo relativamente bem, porque isso não era surpresa. Só uma preocupação bailava em cada cabeça: recomeçara a chover. As águas do rio voltariam a subir até o instante em que tivessem de atravessá-lo. (…) Ao chegarmos a Cunha, comentavam as passageiras, nossa jardineira será alvo de desusada curiosidade por estar a cidade alheada do resto do mundo há vários dias. A previsão foi decepcionante. A gente do lugar, os ‘cunheiros’ como eram apelidados por troça, pelos habitantes de cidades vizinhas, não deram a menor importância à complicada viagem daqueles que vinham Ihes trazer algo para suas necessidades materiais e intelectuais: os representantes de firmas comerciais, as professorinhas de roça e o Correio. Na realidade os ‘cunheiros’ que assistiram ao desembarque dos viajantes estremunhados, quiseram apenas constatar, com os próprios olhos, se a empresa Rodoviária havia restabelecido o tráfego com esse punhado de gente e bagagens, que em verdade, conseguira transpor o rio. Com a chuvarada de todos os verões estavam acostumados a isso, e desta vez parece, nem ligaram aos jornais e à correspondência, amarrados com cuidado nas cabeças das cavalgaduras. Possivelmente porque não esperavam mais por elas, ou por acharem que vinha tudo velho, como alimento preparado há dias”.

É a crônica de uma época. Finda, mas inolvidável. Uma viagem pode ser esquecida, mas uma viagem em que se faz o transbordo no lombo de mula, porque a ponte submergiu alagada, não. Foi o tempo dos percalços, com sua pobreza e carestia. Todavia, um tempo em que a vida era vivida sem pressa. Parece que havia mais tempo para se viver tudo com a intensidade necessária, tempero indispensável para transformar dias comuns em momentos inesquecíveis.

Cunha: pinhão, pinheiro e paisagem

O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.

Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.

Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.

Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII.  Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!

Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.

O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.

Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.

Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.

Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.

A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.

Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.

Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.

A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.

As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.

Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.

Referências:
AB’SÁBER, A. N. A teoria dos refúgios: origem e significado. Anais do II Congresso Nacional sobre Essências naturais; Revista do Instituto Florestal (1), 1992.
G1. Grimpeiro é a ave guardiã das araucárias, 11 mai. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/05/11/grimpeiro-e-a-ave-guardia-das-araucarias.ghtml&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
INSTITUTO FLORESTAL DE SÃO PAULO (IF). Reflorestamento com araucária: conservação da natureza e geração de trabalho e renda, 4 jun. 2021. Disponível em: <https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/institutoflorestal/2021/06/reflorestamento-com-araucaria-conservacao-da-natureza-e-geracao-de-trabalho-e-renda/&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
MARTINELLI, M. Estado de São Paulo: aspectos da natureza. Confins [on-line], n. 9, 2010. Acesso em : 13 set. 2025. Disponível em : http://journals.openedition.org/confins/6557 .
STARZYNSKI, R.; NALON, M. A.; FRIZO, C. G. A.; SOUZA, P. M. de. Estratégias para a preservação da Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze em Cunha-SP, Brasil: aspectos ambientais, socioeconômicos e jurídicos. Revista do Instituto Florestal, v. 32 n. 2, p.187-201, dez. 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/iflorestal/sites/234/2020/12/rif32-2_187-201.pdf >, acesso em 13 set. 2025.
VELOSO, J. J. de O. A história de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Capa: arte do Jacuhy.

Cunha e suas águas minerais

Nos idos de 1875, as fontes de águas minerais de Cunha já eram conhecidas no estado de S. Paulo. Engana-se, portanto, quem pensa que elas foram descobertas no século XX. Em sua obra “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy (1826 – 1907), ao descrever as fontes de águas minerais paulistas conhecidas, aponta: “Só são conhecidas algumas fontes e entre estas as do municipio de Cunha, de agua ferrea, e em S. João Baptista uma fonte thermal sulphurosa na vertente paulista da serra de Caldas da provincia de Minas Geraes”. Alguns anos depois, em 1882, através de um ofício endereçado à Assembleia Provincial, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.

Parte do ofício da Câmara da Cidade de Cunha, destinado à Assembleia Provincial de S. Paulo, relatando a existência de águas minerais em nosso município. Fonte: ALESP. Data: 1882.

A fama da água de Cunha se espalhou pela província de tal forma, que chegou aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo, que era aficionado por lugares que possuíam fontes de água mineral. Em 1912, ele adquiriu as terras da região, comprando a “Fazenda Jaboticabal”, criando, assim, a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”. Seu projeto era criar uma cidade no entorno das nascentes, a exemplo do que fora feito em Campos do Jordão, empreendimento urbano patrocinado e dirigido pelo Barão.

Visita do Marechal Mallet, então Ministro da Guerra, em janeiro de 1902, a São Francisco dos Campos, em terras do Barão da Bocaina, que aparece em primeiro plano. Foto e Descrição: Fundação Christiano Rosa (Piquete – SP).

Na década de 1940, Cunha lutaria, com o apoio de alguns deputados, junto ao Governo Estadual, para se tornar uma Estância Hidromineral. As outras cidades, que já detinham esse título, pressionaram politicamente o governador e os deputados, a fim de barrar o intento cunhense. Obtiveram sucesso. Como prêmio de consolo, Cunha recebeu o título de Estância Climática, em 28 de outubro de 1948. Tarde demais para se tornar uma cidade-sanatório. A penicilina já havia chegado ao Brasil, por meio do pesquisador Henrique de Souza Filho, (do Instituto Oswaldo Cruz), em 1943. Ele foi responsável por realizar os primeiros experimentos com o antibiótico fora da Inglaterra, onde foi descoberto por Alexander Fleming. Esse remédio trouxe um impacto significativo na saúde pública, permitindo o tratamento de diversas doenças infecciosas, entre elas a tuberculose, que antes eram consideradas graves e muitas vezes fatais. As cidades sanatoriais, de “clima salubérrimo” (como gostava de adjetivar Cunha o entusiasta João Lellis Vieira, em sua coluna no “Correio Paulistano”), foram aposentadas.

Recorte do diário “Correio Paulistano”, de 28 jul. 1940, p. 3, em um dos muitos artigos que Lellis Vieira apresenta Cunha como a “Suíça Brasileira”. Fonte: Biblioteca Nacional.

Aliás, digna de nota é a batalha inglória, que João Lellis Vieira (Cunha, 15 de julho de 1880 – São Paulo, 5 de junho de 1949), diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo de 1938 a 1947, travaria nas colunas do “Correio Paulistano”. O cronista ergueu o estandarte de Cunha como a legítima “Suíça Brasileira”, insígnia disputada com Campos do Jordão. O “Correio Paulistano” foi o órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), partido que durante muitas décadas reinou em São Paulo. Cunhense, antigo perrepista, católico praticante, historiador e poeta, Lellis Vieira era graduado pela Faculdade de Filosofia de São Bento e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Nomeado pelo governador Ademar de Barros, dirigiu o Arquivo Público até 1947, quando assumiu o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ocupando esse cargo até falecer. Campos do Jordão, cidade situada no alto da serra da Mantiqueira, venceu essa batalha, ficando famosa e sendo reconhecida como a “Suíça Brasileira”.  O próprio governo estadual construiu lá o seu palácio de inverno (“Palácio Boa Vista”) encerrando, assim, a questão.

Página do livro “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy, que cita as águas minerais de Cunha. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).

Foi somente em 1975 que a água mineral de Campos de Cunha passou a ser comercializada. A iniciativa veio do empresário Ghisleni Giulio, que adquiriu a fazenda nos anos de 1960. A “Águas Virtuosas Santa Rosa”, como era conhecida, em pouco tempo conquistou muitos fregueses devido à sua composição mineral, leveza e alto grau de pureza. Atualmente, é comercializada com o nome “Serras de Cunha” e pertence ao grupo “Águas Prata”.

Sob o território cunhense existe um reservatório de água com mais de 550 milhões de anos. É o Aquífero Cristalino, formado pelas rochas mais antigas do estado de São Paulo. O Cristalino aflora na parte leste do estado, cobrindo uma área de aproximadamente 53.400 km², conforme mostra o mapa acima. Ele está presente em outros municípios como Campos do Jordão, Águas de Lindóia, Jundiaí, Iporanga e até na Região Metropolitana de São Paulo.  O Aquífero Cristalino é composto por rochas ígneas e metamórficas — tipos de rochas muito resistentes, formadas em condições extremas de temperatura e pressão. A água subterrânea no Cristalino se acumula e circula por fraturas nas rochas. Essas fendas surgiram muito tempo depois da formação das rochas, como resultado de movimentos tectônicos, como a separação dos continentes e a formação da Serra do Mar.

Desenho esquemático do Aquífero Cristalino Pré-Cambriano, com suas fraturas. Fonte: Instituto Geológico.

Dependendo do tipo e da quantidade dessas fraturas, o aquífero pode ter maior ou menor vazão. O Cristalino é dividido em duas unidades, sendo a principal o Aquífero Pré-Cambriano, que é o aquele que abrange o nosso município e possui as rochas mais resistentes e antigas. Sua produtividade é geralmente baixa e bastante variável, dependendo da presença de fraturas abertas. Apesar da produtividade variável, a água do Aquífero Cristalino é de boa qualidade e pode ser usada para consumo humano, possuindo diversas fontes minerais em sua área de ocorrência.

Recorte de um mapa com os principais recursos minerais que podem ocorrer em Cunha. Fonte: ANM, 2025.

A água é a principal riqueza mineral de Cunha. De acordo com recente consulta que fizemos à Agência Nacional de Mineração (ANM), a única concessão de lavra que existe em nosso município está outorgada às Águas Prata Ltda. e foi concedida em 1974. Na condição de requerimento ou autorização para pesquisa, além da água mineral, há outros minerais que estão sendo pesquisados por aqui: feldspato, argila, areia, ferro, terras raras, caulim, gnaisse e granito. Na área fronteiriça com o município de Lagoinha há dois requerimentos de lavra da Cerâmica Industrial de Taubaté Ltda. para exploração de caulim.

Foto de Capa: Represa da “Serras de Cunha”, bairro das Águas, Distrito de Campos de Cunha, Cunha – SP. Data: 2024.

Leia mais: Cunha e suas águas minerais

Mapa municipal e planta da cidade de Cunha (1938)

Esta é a planta da cidade de Cunha, desenhada em 1938, para compor o nosso primeiro mapa municipal. Faz parte do acervo do IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).

Com a ditadura de Vargas, durante o Estado Novo, foi decretada a organização e fixação da divisão territorial do Brasil (estados, municípios e distritos), conforme Decreto-Lei nº 311, de 2 de março de 1938.

Getúlio Vargas, Presidente da República, e Christovam Leite de Castro, Secretário-Geral do Conselho Nacional de Geografia, inauguram, em 1940, a Exposição Nacional dos Mapas Municipais, na cidade de Curitiba (PR). Foto: IBGE.

Esse decreto estabeleceu a obrigatoriedade da confecção de mapas de todos os municípios brasileiros. Medida fundamental para a centralização do poder durante o Estado Novo. Também uniformizou o conceito de “município” e “distrito” no Brasil. Permitiu a criação de estatísticas padronizadas e mapas oficiais do território brasileiro, servindo de base para as pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), criado em 1936. Houve uma grande exposição desses mapas no Rio de Janeiro.

Em 1938, o nosso município continha Cunha, que era o distrito-sede, e contava com mais dois distritos: Campos de Cunha (rebatizado assim, arbitrariamente, durante o Estado Novo, pois já havia outro lugar chamado “Campos Novos” em São Paulo) e Lagoinha. Sim, nossos vizinhos já foram nossos conterrâneos.  Já tratamos desse fato aqui no Jacuhy.

A cidade de Cunha, em 1938. Foto: ENFA. Acervo: Museu Municipal Francisco Veloso.

O mapa de Cunha foi confeccionado pelo Instituto Geográfico e Geológico de S. Paulo (IGG), que teve como suporte fotografias aéreas tomadas pela Empresa Nacional de Fotos Aéreas (ENFA), que foi fundada em 1938 e focava em levantamentos aerofotogramétricos, uma técnica que utiliza fotografias aéreas para criar mapas e outros produtos cartográficos. Algumas dessas fotos aéreas estão preservadas até hoje e compõem parcialmente o acervo fotográfico do Museu Francisco Veloso.

O renomado IGG, mesmo com esses suportes e com pessoal técnico qualificado, cometeu falhas consideráveis na confecção do mapa de Cunha. O contorno territorial na sua parte sul e sudoeste ficou desfigurado. Por desconhecimento da comissão técnica? Por falta de apoio em campo e de uma base cartográfica confiável? Ou pela própria dificuldade do terreno, nessa região coberto por densa e impérvia mata? Os motivos podem ser muitos.

Apesar de bastante equivocado e com o traçado territorial todo impreciso, o mapa municipal de 1938 é histórico. Não apenas por ser o primeiro, mas também pelos recursos financeiros e técnicos alocados em sua elaboração. Nunca antes nada assim fora feito. Foi o primeiro a representar o nosso município em sua integralidade.

Mapa Municipal de Cunha, 1938. Fonte: IGC.

Além de apresentar as divisas municipais e distritais, localizar os 3 núcleos urbanos (Cunha, Lagoinha, Campos Novos) com o seu arruamento, esse mapa municipal situou 45 bairros rurais, alguns já desaparecidos, por exemplo, o “Águas Claras”, o “Fogo Vermelho”, o “Lageado de Cima”, o “dos Borges”, entre outros. E, ainda, determinou o Morro Agudo (Pico Agudo) como ponto culminante de Cunha, apesar de errar a localização montanha. De acordo com a carta topográfica do IBGE, o Pico Agudo tem 1.320 metros de altitude.

Só na década de 1960 é que esses equívocos foram corrigidos, pois houve deu-se início o mapeamento sistemático do território nacional, com levantamento aerofotográfico, apoio em campo e confecção de cartas hipsométricas, na escala de um para cinquenta mil. Empreitada que o IBGE levou adiante, determinando com precisão os limites de Cunha e sua rede hidrográfica, fundamental no estabelecimento de limites territoriais, que têm por base os interflúvios.

No Censo de 1940, Cunha apresentou sua maior população na série histórica dos recenseamentos: 24.818 habitantes. Talvez pelo acréscimo da população de Lagoinha. Território extenso. Mas a cidade era pequena. Moravam na urbe apenas 975 pessoas. Muitas casas da zona urbana eram de famílias da roça, que só visitavam a cidade nas festividades religiosas. Ficavam fechadas na maior parte do ano.

Montagem feita pelo Jacuhy, com sobreposição do Mapa Municipal de 1938 com imagem de satélite atual de Cunha, retirada do Google Earth.

A cidade de Cunha de 1938 corresponde, hoje, ao atual bairro do Centro. Seu perfil longitudinal, uma rugosidade dos tempos coloniais, é uma expansão da artéria da antiga Estrada Real. É o peso do tempo sobre o espaço, marcando ainda em nossos dias o formato da mancha urbana da nossa cidade.

Um recorte de papel

Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.

Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?

O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.

Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.

Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.

O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.

O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.

E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.

No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.

Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:

Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro.
Data: maio, 1941.
Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O

Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O

Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro).
Data: maio, 1940.
Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.

Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.

Referências:
Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC.
Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.

Formação territorial e demográfica de Cunha

Qual a origem do nome do município de Cunha?

“Cunha” é uma homenagem ao ex-governador da Capitania de São Paulo, o capitão Francisco da Cunha e Meneses (1747-1812). O capitão Francisco da Cunha foi um militar português e governou a capitania de São Paulo entre 1782 e 1785, como capitão-general. No final do seu mandato, em 15 de setembro de 1.785, elevou a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão à condição de vila, o que equivale, hoje, a um município, um território independente. Até então, nosso município pertencia à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Assim, para homenageá-lo, os moradores locais mudaram o nome daqui de “Facão” para “Cunha”, e a partir da instalação da Câmara, órgão administrativo das vilas daquela época, em 28 de outubro de 1.785, nosso município passou a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha.

Em 20 de abril de 1.858, a vila foi elevada à categoria de cidade, e passou a se chamar “Cidade de Cunha”, já sem a referência à santa padroeira. E assim permanece até hoje.

E o nome Facão?

A origem é controversa e tem sido motivo de debate entre os historiadores. “Facão” ou “Facam” (dependendo do documento) é o mais antigo nome de Cunha. Há registros – anteriores ao ano de 1.700 – que mencionavam a existência de uma antiga capelinha dedicada à Nossa Senhora do Facão, nas cercanias da atual cidade, no chamado “Alto do José Dias” ou “Alto da Mantiquira”, na elevação que dá acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Mas por que chamavam nossa cidade desse nome? Um documento de 1.732, em que Francisco Tavares Brito relata sua viagem do Rio de Janeiro até Minas, passando por Cunha, deixa uma pista:

“A esta vila também vem dar o caminho de Parati, que chamam o Caminho Velho, e quem sai de Parati, vem ao Bananal, sobe a inacessível serra e descansa na Aparição; passa-se o rio Paraitinga (que toma aqui o nome das serranias por onde passa e logo depois se. chama Paraíba do Sul); e se pernoita no sítio que também toma o nome do rio; Afonso Martins; passa-se aqui o Facão, que é um *carreirinho / / que vai pelo alto de um cume, no qual apenas passa um cavalo ou passa um homem a pé, e se acaso declina para alguma das partes se precipita. Vai-se à Encruzilhada e se entra depois na vila de Guaratinguetá […]”

Aspecto do documento de 1732, contendo o relato de Francisco Tavares Brito. Códice Costa Matoso. Fonte: Fundação João Pinheiro.

Ou seja, o “Facão” seria uma passagem muito estreita e perigosa, no alto de um morro, com despenhadeiros em ambos os lados. Essa passagem, por ser temida, era sempre lembrada pelos viajantes, aventureiros e tropeiros; e acabou batizando toda a região. Ficava no antigo caminho entre Paraty e Cunha, em local incerto, no que veio a se chamar “Estrada Real”, cujo destino eram as cobiçadas jazidas de Minas Gerais.

Mas isso não é consenso entre os historiadores. Há outras cogitações.

Como foi formado o território cunhense?

Tempos coloniais. Os Guaianases, uma das inúmeras nações indígenas do Brasil, eram nômades, não possuindo uma aldeia fixa. Viviam e passavam pelo que veio a ser o município de Cunha. Percorriam todos esses sertões, por meio da densa Mata Atlântica, em busca de caça e frutos.

Em 1534, a fim de facilitar a colonização do Brasil, a Coroa Portuguesa estabeleceu o sistema de capitanias hereditárias. O que hoje é Cunha ficou pertencendo à Capitania de São Vicente, cujo donatário era Martim Afonso de Sousa.

Em 1624, a Capitania de São Vicente foi dividida e o que viria a ser Cunha passou a pertencer à Capitania de Itanhaém, que pertencia a Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, dona de todas as terras do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ela promoveu incursões exploratórias no Vale do Paraíba, a fim de conhecer melhor a região, que, na época, ainda era um sertão inóspito e povoado apenas por indígenas. Buscavam essas expedições encontrar metais preciosos ou capturar indígenas para vendê-los com escravos.

Em 24 de setembro de 1.650, o capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Guaratinguetá, recebe uma sesmaria (grande extensão de terra que era doada pela Coroa) no bairro da Borda do Campo, que fica na beira da Rodovia Paulo Virgínio, perto do Jacuí. Essa é a primeira sesmaria que foi doada no que veio a ser o território cunhense. O capitão irá abrir uma estrada ligando o Facão (Cunha) a Guaratinguetá, aproveitando uma trilha indígena já existente.

Em 1.724, Luiz da Silva Porto e sua família erguem uma capela no bairro da Boa Vista, dedicada a Jesus, Maria e José. Esse é marco fundador do município de Cunha.

Em 1.731, José Gomes de Gouveia constrói uma igreja no bairro do Facão, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (e, futuramente, de Cunha também). No entorno dessa igreja irá se desenvolver um pequeno povoado. É o embrião da cidade de Cunha.

Em 1.749, com o aumento do movimento de tropas e o crescimento do povoado, a capela do Facão passa a ter um padre regular, se tornando uma freguesia. Surge, então, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, com paróquia e território pertencendo a Guaratinguetá.

Mapa da Divisão dos Municípios de São Paulo por volta de 1700. Cunha pertencia ao território de Guaratinguetá. Fonte: Fundação SEADE.

Em 15 de setembro de 1.785, o capitão-general da Capitania de S. Paulo Francisco da Cunha e Meneses eleva Cunha à condição de vila, tornando-a independente de Guaratinguetá. Cunha passa a ter território próprio (chamado de “termo”, na época) e a ser administrada localmente, com a criação da Câmara (não havia Prefeitura na época). Também vai mudar de nome, deixa de se chamar “Facão” e passa a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, para homenagear o capitão-general que lhe concedeu autonomia.

Em 18 de junho de 1.842, a Vila de N.ª S.ª da Conceição de Cunha é transferida para a província do Rio de Janeiro. Estava ocorrendo na província de São Paulo a Revolta Liberal e a transferência tinha o intuito de manter Cunha livre dos do domínio dos revoltosos. Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses, até que voltou novamente para a Província de S. Paulo.

Em 20 de abril de 1.858, Cunha é elevada à categoria de cidade.

Em 8 de março de 1.872 é criado o Distrito de Paz de Campos Novos, que passa a se chamar Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos.

Durante todo o século XIX, os limites de Cunha com os outros municípios vão sendo demarcados, fruto da disputa da Câmara de Cunha com as câmaras dos municípios vizinhos. Será assim com Paraty, que reclama como território seu até um marco que havia no bairro da Boa Vista; e com Guaratinguetá, que queria estabelecer o limite com Cunha pelo rio Paraitinga, aumentando, assim, seu território. A Câmara de Cunha sairá vitoriosa desses litígios. Além disso, fazendeiros estabelecidos nos limites com Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, se valendo do poder político que possuíam e visando atender aos seus interesses eleitorais, mudavam suas fazendas para os municípios vizinhos, alterando assim o tamanho do nosso território.

Em 1.934, Lagoinha é transferida para Cunha como distrito. Ficará pertencendo a Cunha até 1.944, quando será transferida para o município de São Luís do Paraitinga. Nesse mesmo ano, o distrito de Campos Novos terá seu nome alterado para “Campos de Cunha”, por força de um decreto estadual. Apesar da mudança do nome, o antigo topônimo é até hoje o mais popular.

Em 1964, os limites de Cunha com outros municípios são descritos e estabelecidos na Lei Estadual nº 8.092, de 28/02/1964, permanecendo inalterados desde então.

Atualmente, Cunha possui uma área de 1.407,25 Km², sendo o 11º maior município do estado de São Paulo e o maior da região do Vale do Paraíba. Faz divisa com os seguintes municípios: Paraty e Angra dos Reis, do estado do Rio de Janeiro, e Ubatuba, São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias e São José do Barreiro, do estado de São Paulo. Em seu território há 2 unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Quais povos estão presentes na formação territorial do município de Cunha?

Os povos originários, que habitavam Cunha antes da chegada dos portugueses, eram os “Guaianás” ou “Guaianases”. Segundo relato de viajantes, colonizadores e aventureiros, os Guaianases não falavam tupi e eram tronco linguístico Macro-Jê. Eram indígenas coletores (de pinhão e frutos) e caçadores, e, por consequência, nômades (migravam para o litoral dependendo da estação do ano). Viviam na Serra do Mar e faziam parte de um complexo cultural, cujos remanescentes seriam o Puri e Coroado, do Vale do Paraíba e sudeste de Minas. Até hoje é possível encontrar em Cunha cacos da cerâmica produzida por esse povo e machados líticos que confeccionaram. Algumas peças estão guardadas no Museu Municipal. Apesar de Cunha não ter aldeia, antropólogos que estudaram nosso município no século passado, apontaram que parte de nossa população é descendente de indígenas, pois apresenta traços biotípicos e feições dos povos originários do Brasil.

A primeira incursão colonizadora europeia em nosso território ocorreu em outubro de 1.596, quando Martim Corrêa de Sá, o inglês Anthony Knivet (autor do relato sobre a entrada), setecentos portugueses e cerca de 2 mil indígenas Guaianases percorreram onde, hoje, é o município de Cunha. Essa data marca a chegada dos portugueses (brancos) a Cunha. A partir do século XVII, muitas famílias paulistas oriundas de Taubaté e aventureiros portugueses vão se estabelecer em Cunha, ganhando sesmarias no bairro da Catioca e no seu entorno. Essas famílias pioneiras, católicas, além da religião, trouxeram para Cunha manifestações culturais típicas dos portugueses e dos paulistas, como Festa e Folia do Divino.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 10 milhões de negros africanos foram trazidos às Américas para trabalhar de forma forçada como escravos. Milhares deles foram trazidos para Cunha, para trabalhar nas fazendas de milho e criação de porcos que havia aqui. Quase metade do contingente de africanos trazido para o Brasil era formada pelos Banto, que eram povos e culturas da região da África Central, onde atualmente se encontram países como Angola, Moçambique, Congo etc. Em Cunha, a maior parte dos escravizados eram Banto. Aliás, no século XIX, a maioria da população de Cunha era negra, seja livre ou escravizada. Esse povo trouxe consigo sua cultura e algumas manifestações culturais estão presentes em Cunha até hoje, como a Congada, o Moçambique e o Jongo. Outras etnias africanas também foram trazidas para Cunha, porém, não na mesma proporção que os bantos.

No final do século XIX e início do século XX chegaram a Cunha imigrantes vindos de outras partes do mundo, sobretudo do Líbano e da Itália. Essas famílias se dedicaram à agricultura, à marcenaria e ao comércio, sobretudo os libaneses; se dedicaram ainda à política, contribuindo para diversificar o mosaico cultural e étnico que caracteriza a população cunhense.

Tapera

Uma das velhas fazendas de Cunha, que virou tapera.

Tapera. Segundo o Houaiss: “residência ou fazenda em ruínas, tomada pelo mato”. Mas não foi a língua dos portugueses que nos deu esse termo. Vem do Tupi. Eduardo Navarro, especialista no “grego da terra”, aponta o significado original: “aldeia que foi”, isto é, “aldeia em ruínas, aldeia extinta, aldeia destruída.” Todavia, ressalva: “em nossos dias, essa palavra é usada com o sentido de ‘casa em ruínas, casebre abandonado’”.

Em Cunha, essa condição, talvez por ser comum, se refletiu na toponímia rural. Há vários bairros que se chamam “Tapera” ou “Taperinha”.

Nota-se que só casa de pau-a-pique vira tapera. Talvez pela efemeridade do material usado nas construções de taipa. Ou não. Pode ser um indicativo do êxodo rural. Famílias que se foram e a casa, vazia e abandonada, virou uma tapera.

Abandonada pelos donos, nem visita costuma receber. Nem de vez em quando. Nem de gente escondendo de chuva braba. Todos sabem que estão infestadas por animais peçonhentos. E todos deviam saber que são moradas de assombrações (se você não acredita, é melhor não abusar).

Assim, a tapera… a taperinha vai, lentamente, desaparecendo. O tempo, em todos os seus sentidos, é implacável.