O discurso do vigário

Restauração feita por IA, a partir de quadro do Cônego Siqueira, que havia na Igreja Matriz. Imagem gerada por Victor Amato dos Santos.

Communicado.

Agora, que se achão reunidos os srs. deputados provinciaes, eu, que sou filho, e residente na cidade de Cunha, chamo a attenção desses senhores para esta cidade, que se acha balda de recursos, para o bem estar dos seus habitantes, seu desenvolvimento moral, e material.

Precisa-se de um chafariz, que ministre agoa a esses habitantes, para não se finarem a sede, as ruas se achão em pessimo estado, e precisão de ser calçadas para comodo do transito publico bem como a falta de boas estradas, que são os verdadeiros vehiculos do commercio, sendo esta localidade a menos pesada aos cofres publicos, a matriz, alem do estado ruinoso, que não se comporta com a dignidade um Templo de Deos, e por isso precisa, de prompto concerto, se acha sem paramentos, e note-se, que por meus esforços, e de alguns amigos consegui criar, e elevar a irmandade do Sacramento, para o qual o povo tem cooperado para as missas das quintas feiras, e esse povo se alegra de vêr a Santa, e Augusta Religião n’um pé magestoso e digno da santidade de seu culto, e é só assim, que se arreigão as crenças religiosas, que hoje se achão arrefecidas, no espirito do povo, o que é um grande passo para a educação, e civilisação de todas as classes — vida sem religião é viagem sem roteiro, assim dizia o finado marquez de Maricá o Rochefoucauld brazileiro.

A cadeira de latim, e francez criada no anno passado está até hoje vaga, e como é de necessidade, que ella seja occupada, bom será, que seja ella posta a concurso. A de primeiras letras do sexo masculino se acha fechada a 2 mezes, mais ou menos, e não se sabe, de que provem esta falta.

Outras palpitantes necessidades alem das expostas exigem promptas medidas, e nesta conjunctura, appello para o illustre deputado, o sr. dr. José Martiniano de Oliveira Borges, representante por Cunha, que estamos certo das necessidades do circulo, que o elegeo, e por isso se compenetrará proporá todas as medidas concernentes afim de serem satisfeitas com promptidão estas emergentes necessidades, tanto mais, que s. s. tem por seu lado a illustre maioria da assembléa, e como estas questões não são de partido, que sempre accarretão divisões, s. s. obterá a adhesão da illustre minoria.

Não sei, que fatalidade pesa sobre a cidade de Cunha, que se acha entregue ao olvido, e não ha uma voz, que se eleve para manifestar suas necessidades. Outr’ora quando a desditosa Irlanda acabrunhada ouvia a vóz poderosa, e retumbante de O’Conel, erguia uma cabeça, no emtanto na provincia de S. Paulo, a pobre cidade de Cunha se acha abandonada, como se a maldição do Eterno a tivesse ferido, sem que uma voz se levante para acoroçoal-a !

Senhores legisladores provinciaes, é tempo de lançardes vossas vistas benignas para esta parte da provincia, de que sois representantes, nas vossas mãos está tiral-a do aviltamento, em que se acha mergulhada, e erguel-a a altura em que devem ser collocadas todas as localidades da provincia de nosso nascimento.

Se escutardes minha debil vóz, que se manifesta nestas poucas linhas, bem merecereis da patria, e o juizo da posteridade, levando vossos nomes as paginas da historia de nosso paiz, vos bem dirá, e eu, como filho, e parocho da cidade de Cunha serei o primeiro em agradecer as medidas, que tomardes na presente sessão legislativa em prol dos interesses desta cidade, digna por sem duvida de todas as vossas attenções.

S. Paulo 1º de março de 1859.
O vigario, Antonio Gomes de Siqueira.

1859. Cunha tinha acabado de ser elevada à categoria de cidade, mas antigos e recorrentes problemas urbanos afetavam a vida da pequena localidade serrana. Seu maior líder político e religioso no século XIX, o Cônego Antônio Gomes de Siqueira (o “Padre Gomes”), resolveu agir. Dirigiu-se à capital e, na Assembleia Provincial, proferiu um incisivo discurso. Na tribuna, cobrou o Dr. José Martiniano de Oliveira Borges, deputado provincial do 2º Distrito eleito com os votos de Cunha. Alguns dos problemas apontados atravessaram os séculos e persistem até os dias de hoje.

O texto “Communicado” (1859) é um documento típico do Brasil Imperial (Segundo Reinado, governo de Dom Pedro II), escrito pelo vigário de Cunha (SP). Trata-se de uma petição pública — um apelo às autoridades provinciais.

Reprodução do “Communicado”, o discurso do Cônego Siqueira. Fonte: jornal Correio Paulistano, 1859.

Cunha havia sido elevada à categoria de cidade em 20 de abril de 1858; ou seja, o texto surge logo após sua emancipação política. O Brasil vivia um período de centralização administrativa, mas as decisões práticas (infraestrutura, educação, etc.) eram muito dependentes das províncias e de seus deputados. O objetivo do discurso era influenciar os políticos provinciais.

O vigário faz um retrato claro das condições locais:

  1. Falta de infraestrutura básica: Ausência de chafarizes (abastecimento de água) e estradas em péssimo estado ou inexistentes. Muitas cidades do interior eram mal integradas economicamente, dependentes de caminhos precários, como era — e ainda é — o caso de Cunha.
  2. Crise econômica e isolamento: Padre Gomes afirma que a cidade está “balda de recursos” e destaca que as estradas são os “veículos do comércio”. Cunha sempre dependeu de seus caminhos, por ser uma cidade que surge entre o sertão e o mar. No século XIX, o desenvolvimento dependia fortemente de rotas de circulação (tropas e comércio agrícola). Esse antigo problema de Cunha, como se sabe, não se resolveu; pelo contrário, agravou-se com o surgimento das estradas de ferro no último quartel dos oitocentos.
  3. Problemas religiosos e simbólicos: A Igreja Matriz está em ruínas e falta dignidade ao culto. Na época, a Igreja Católica era a instituição central da vida social e política; portanto, um templo degradado significava perda de prestígio para a cidade e enfraquecimento da coesão social (a reforma da Igreja Matriz seria realizada posteriormente, no último quartel do século XIX).
  4. Educação precária: As cadeiras de Latim e Francês — disciplinas essenciais na época — estão vazias, e a escola masculina, fechada. Há dificuldade em manter o ensino formal e carência de professores qualificados. A educação no Império era limitada, e as cidades pequenas sofriam com o abandono institucional.

O texto expressa valores típicos do período, como a religião vista como base da civilização. O autor cita que “vida sem religião é viagem sem roteiro”. A mentalidade dominante associava a religião à moralidade pública e à ordem social, fatores considerados condições para o progresso. A civilização cristã, tomando como referência a Europa, era o objetivo final daquela sociedade.

O discurso reforça a importância do Padre Gomes para a vida social e política cunhense. Ele agia como o legítimo representante local; por isso, podia cobrar ações do poder público e tinha apoio para viajar até São Paulo com tal intento. Seu discurso repercutiu, sendo publicado no jornal Correio Paulistano. Havia espaço no Império para a expressão da opinião pública local, desde que bem articulada.

Fonte da foto: Museu Francisco Veloso.

Como padre, sua proposta política é conciliadora. Ele afirma que as demandas “não são de partido”. É um típico discurso imperial: visava evitar conflitos políticos e priorizava o interesse comum. Contudo, o texto diz muito também sobre a personalidade e o modo de fazer política do Cônego Siqueira, que transitou entre os partidos da época. Com a chegada da República, foi ele quem, já em seu ocaso, conciliou monarquistas (liberais e conservadores) e republicanos em Cunha, consolidando um novo grupo político que permaneceria no poder local até a Revolução de 1930.

Deputado regional. Figura histórica de Guaratinguetá. Quadro gerado por IA, a partir de imagem do Museu Frei Galvão, de Guaratinguetá.

O “Communicado” é um manifesto de denúncia do abandono em que se encontrava o interior paulista. Aponta a necessidade de modernização urbana em um momento no qual as cidades começavam a ganhar importância, mesmo em uma economia majoritariamente agrária. É, ainda, um reflexo das desigualdades regionais: recém-promovida a cidade, Cunha não tinha estrutura básica para sustentar esse status. Apesar de o discurso combinar religião, política e moral, os problemas apontados pelo vigário eram pertinentes — e permanecem atuais.

Fonte: jornal Correio Paulistano, 6 de março de 1859.

Theodoro, o tropeiro escravizado

Anúncio publicado no jornal Radical Paulistano. Data: 17 jun. 1869.

“Escravo fugido
Da fazenda do tenente-coronel José Prudente de Toledo, em Cunha, fugiu no dia 19 do corrente, o seu escravo Theodoro, com os seguintes signaes: côr parda, alto, pouca barba no queixo, dentes ponteagudos, quasi cariados, delgado de corpo, falla macia e agradavel, tem signal de um golpe num dos braços ácima da juncta da mão, proveniente de um córte de puxavante; é bom cavalleiro e dado a domador: leva um sacco com muita roupa, e um ponche de panno forrado de baeta azul, ainda novo, tem a edade presumida de 34 annos. Quem o apprehender e der aviso a seu senhor, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar.
Cidade de Cunha, 23 de Janeiro de 1869.”

Este anúncio de jornal, publicado em 1869, revela muito sobre a estrutura social e a mentalidade do Brasil no Segundo Reinado, apenas 19 anos antes da abolição formal da escravidão (1888). O texto exemplifica como a imprensa era utilizada como uma ferramenta de controle social. Mesmo o “Radical Paulistano“, que era um jornal liberal e que propugnava pelo fim da escravidão, se submetia a anunciar para os escravagistas. O “escravo fugido” era tratado como uma propriedade extraviada. A descrição detalhada (“dentes ponteagudos“, “delgado de corpo“, “falla macia“) não visava humanizar Theodoro, mas sim fornecer um “guia de identificação” para que qualquer cidadão pudesse atuar como um agente de captura.

Cunha, no século XIX, era um ponto importante de passagem e produção ligada ao Vale do Paraíba, região que enriqueceu com o café e foi um dos últimos redutos do escravismo no Brasil. O tenente-coronel (da Guarda Nacional) José Prudente de Toledo era um dos principais fazendeiros do município, com terras entre os bairros do Engenho e do Cume, descendente dos fundadores de Cunha.

A cicatriz acima do pulso, causada por um “puxavante” (uma ferramenta usada para aparar cascos de cavalos ou em trabalhos de ferraria), é um registro físico da vida de trabalho manual exaustivo a que ele era submetido. Marcas físicas eram comuns em anúncios de fuga, servindo como “RG” numa época sem documentos fotográficos populares. Também demonstra a importância que o tropeirismo ocupava em nossa economia. Mesmo fazendas produtoras de milho e toucinho necessitavam de escravizados que soubessem os ofícios tropeiros.

O trecho final do anúncio, “protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar”, é um aviso jurídico. O “acoitar” (esconder ou ajudar um fugitivo) era crime previsto no Código Criminal do Império. Isso demonstra como o Estado brasileiro protegia o direito de propriedade sobre seres humanos e punia qualquer um que tentasse ajudar os escravizados em busca de liberdade. A solidariedade era criminalizada. E punida. Todos deviam colaborar com o sistema escravista.

Destaca-se, ainda, sinais de resistência e identidade no escravizado em questão. A fuga é um ato político: Theodoro fugiu levando consigo um saco de roupas e um “ponche de pano forrado de baeta azul” (traje típico dos tropeiros paulistas), o que indica que a fuga foi planejada. Ele não apenas fugiu do trabalho forçado, mas buscou levar itens de proteção e subsistência. Suas habilidades laborais o acompanham. Menciona-se, p. ex., que Theodoro era “bom cavalleiro e dado a domador” , habilidades técnicas valiosas naquele período histórico, o que muitas vezes dava ao escravizado uma maior mobilidade, mas também o tornava um “prejuízo” financeiro maior para o senhor.

Tropeiro com poncho de baeta azul. Derivado do antigo bernéu usado pelos bandeirantes, consolidou-se como a principal indumentária de viagem. Ilustração: Troperos or Muleteers“. Data: 1822. Desenhista: Henry Chamberlain. Gravador: H. Alken.

Este documento é uma prova material de que a liberdade no Brasil foi conquistada com muita resistência individual e coletiva, através de atos corajosos como o de Theodoro, que desafiou o sistema de sua época. A fuga, talvez para um quilombo, era a resistência possível em um sistema opressor, em que a escravidão era tão institucionalizada, que era tratada como algo natural.

Sobre antigas formas de construir

Como se fazia a argamassa em Cunha no século XIX?

Observe a foto acima, que mostra o detalhe de uma coluna estrutural de uma casa rural cunhense de meados do século XIX. Nota-se a argamassa constituída por rochas (gnaisse e granito alterado) disformes, encaixadas manualmente com o auxílio de argila e areia. A estrutura geológica do embasamento cristalino, sobre a qual se assenta o território municipal, torna essas rochas resistentes especialmente abundantes, o que permitiu o seu uso na construção civil rústica e rural cunhense.

Percebem-se, ainda, fragmentos de conchas marinhas. Elemento inusitado na construção civil atual, as conchas foram a solução regional para a inexistência de cal industrial ou cimento naqueles tempos. Trazidas do litoral (Paraty e Ubatuba) em jacás pelos tropeiros, as conchas eram trituradas ou queimadas e adicionadas ao barro. Sua função primordial era fornecer o carbonato de cálcio necessário para que a argamassa fosse eficaz e resistente, já que, no Brasil Colônia e no Império, não havia cimento industrial nem depósitos de calcário de fácil acesso.

Além de resistência, as conchas conferiam volume e aderência à mistura, permitindo, assim, que as colunas sustentassem os casarões ao longo do tempo, até os dias de hoje. Infelizmente, poucos exemplares restam preservados em nosso extenso município, historicamente rural.

Concha marinha presente em coluna estrutural, em uma construção rural do século XIX. Local: município de Cunha – SP.

Duas fotos da trincheira do Morro Grande, 1932

“Esta é a trincheira que não se rendeu:
(…)
a que, atenta, nos vigia;
a que, invicta, nos defende;
a que, eterna, nos glorifica!” (…)

Durante os dias mais intensos da chamada Batalha de Cunha, havia um sistema de trincheiras que guardava a cidade do assédio dos federais. Era o “Reducto”, conhecido atualmente como “Morro Grande”. Irredutível em seu posicionamento privilegiado, esse conjunto de linhas de defesa não cedeu. Com tenacidade e eficácia, foi defendido e guarnecido pelas levas de voluntários que chegavam, dia após dia, ao front, engrossando o Exército Constitucionalista. Antes, resistiu e permitiu o avanço dos paulistas sobre os federais, marcando uma das poucas vitórias militares que os paulistas obtiveram ao longo do conflito civil.

O tenente Abílio Pereira de Rezende apelidou a intricada rede de trincheiras de “a intransponível”, porque, segundo ele, por ela “não passava nem mosquete e nem mosquito”.

A geomorfologia local facilitava a defesa. Como uma muralha de terra e granito, doze montanhas erguem-se a mais de mil metros de altitude, cercando Cunha em meia-lua. Ninhos de metralhadora cautelosamente distribuídos pela rede criavam um círculo de fogo perfeito para repelir qualquer “desavisado”. Os paulistas não estavam dispostos a recuar. A rede estendia-se sobre os caminhos que chegavam até a cidade, permitindo, assim, o total controle da situação.

As tropas federais ficaram, por sua vez, estacionadas no Divino Mestre, uma montanha de maior altitude, de onde conseguiam visualizar as torres da Igreja Matriz, postas, assim, ao alcance de seus Krupp 75 mm. O lugar possuía uma vista panorâmica de toda a região, o que possibilitava aos federais acompanhar (quase) todo o movimento das tropas paulistas. Porém, essa ligeira vantagem era contrabalançada por uma falha geológica, que criou um vale encaixado e rebaixado, separando o Divino Mestre do Morro Grande. Na prática, essa falha transformava o cenário em um castelo feudal: as montanhas se assemelhavam às muralhas; a falha, a um fosso. Os ataques federais, que a ninguém surpreendiam, foram, um a um, rechaçados. Tentaram, algumas vezes, até ataques frontais. Sem sucesso.

Os voluntários sustentaram, a ferro e fogo, suas posições, mesmo em desvantagem no número de homens e armas, e com escassez de munição.

Em 1932, parece que a covardia andava fora de moda.

Cunha não caiu para que São Paulo se mantivesse de pé.

O tupi na toponímia cunhense

O tupi está muito presente na toponímia cunhense. Muitos bairros de Cunha foram denominados com vocábulos da língua original do Brasil. Mas quem os batizou assim? Foram os indígenas ou paulistas?

Catioca, Itambé, Itacuruçá, Jacuí, Paraitinga, Paraibuna, Mantiqueira, Cajuru, Canjara, Canhambora… Por que há tantos topônimos tupis na geografia cunhense? A resposta óbvia, a presença indígena, não se sustenta historicamente, pois muitos estudiosos dos povos originários comentam que tanto os Guaianases quanto os Puris, povos que habitavam onde hoje é o município de Cunha, pertenciam ao tronco linguístico do Macro-Jê, ou seja, não falavam tupi.

Aspecto das montanhas do bairro do Itambé, município de Cunha (SP).

Outra hipótese que busca elucidar essa questão é a de que esses lugares foram denominados pelos próprios paulistas durante o processo de ocupação e colonização do território. Isso ocorreu porque, até o século XVIII, os paulistas falavam uma língua geral (“tupi paulista”), que misturava a língua portuguesa com a língua tupi, fazendo amplo uso dos vocábulos tupis para batizar os lugares de que se apossaram.

Essa variante do tupi original explica a geografia cunhense? Parcialmente, sim. Mesmo com a proibição do Marquês de Pombal, em 1758, em uma tentativa arbitrária de implantar a língua dos colonizadores na marra, abolindo a língua geral, ela sobreviveu na geografia, nos mapas, no sotaque e no nosso jeito de falar, como expressão de identidade cultural.