Uma foto antiga de Cunha

Foto da cidade de Cunha, em 1932, publicada na Revista da Semana (RJ), na edição n.º 45, de outubro de 1932, na página 23. A legenda é a seguinte: “Vista geral de Cunha diante de cuja cidade se detiveram encarniçadamente, durante quasi todo o tempo da luta, os exércitos combatentes”. Cunha foi um dos principais palcos de batalha daquela guerra civil.

Finda a Revolução de 1932, a Revista da Semana retratou de várias formas os dias de combate, o cotidiano das tropas combatentes e das cidades paulistas. Várias cidades do Vale foram retratadas. A revista fez uma reportagem, no estilo fotojornalismo, uma novidade na época, sob o título de “O movimento revolucionário em S. Paulo”. A reportagem ocupou, por várias edições, as páginas do periódico em 1932, mostrando fotos de ambos os lados que estiveram em confronto.

A Revista da Semana foi um periódico ilustrado de variedades fundado por Álvaro de Tefé, no Rio de Janeiro. Circulou pela primeira vez em 1900 e foi extinta em 1959. Segundo Carolina Vianna Dantas, pesquisadora do CPDOC/FGV, “mesmo com um projeto editorial voltado para o público feminino, a Revista da Semana não deixou de abordar temas relativos à política nacional. Durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, combinou temas amenos, como o veraneio elegante em Petrópolis, com a realidade da guerra em seu aspecto mais duro”.

Capa da Revista da Semana (RJ), edição n. 45, de 22 de out. de 1932. Fonte: Biblioteca Nacional.

A qualidade da foto, por ser uma cópia de uma página de revista, infelizmente, é ruim. Mas é possível identificar as principais construções que existiam na época, ainda uma cidade de casas coloniais, com suas duas igrejas barrocas.

O local da tomada da foto, pela posição, parece ser o bairro do Alto Cruzeiro, onde hoje é a Santa Casa, que não existia na época. Ou a Estrada Cunha-Paraty, não dá para afirmar com certeza.

Referências:
Revista da Semana 1900 a 1959 – Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional;
Verbete REVISTA DA SEMANA – CPDOC/FGV.

23 de outubro de 1944: instalação do telégrafo em Cunha

Em uma segunda-feira, no dia 23 de outubro de 1944, Cunha era, finalmente, conectada à rede telegráfica nacional. Assim noticiou o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de outubro de 1944: “Inaugurado em Cunha o Serviço Telegrafico Via-Radio. A Diretoria Regional dos Correios e Telégrafos acaba de inaugurar na cidade de Cunha, neste Estado, o serviço telegráfico Via-radio, feito por intermédio da agência postal dessa localidade”. Era uma conquista para o pacato e isolado município serrano, sempre marginal quando o assunto era comunicação e tecnologia. Mas é preciso contextualizar essa benesse, pois como pontua o historiador Giovanni Levi (1992, p. 154), “a abordagem micro-histórica dedica-se ao problema de como obtemos acesso ao conhecimento do passado, através de vários indícios, sinais e sintomas. Esse é um procedimento que toma o particular como seu ponto de partida (um particular que com frequência é altamente específico e individual, e seria impossível descrever como um caso típico) e prossegue, identificando seu significado à luz de seu próprio contexto específico.” E qual era o contexto? Mundial, a Segunda Grande Guerra. E nacional, a ditadura varguista. Durante o Estado Novo (1937–1945), Getúlio Vargas promoveu a expansão das redes telegráficas no Brasil como parte de um projeto mais amplo de centralização do poder, modernização da infraestrutura e controle da comunicação, como pode ser melhor observado, em nossa região, no mapa abaixo. Na época, o telégrafo era uma forma rápida, segura e barata de comunicação, ideal para um país continental e ainda desintegrado, com suas “ilhas regionais”, como o Brasil.

Parte do Mapa das redes postal e telegráfica do departamento dos Correios e Telégrafos, mostrando a distribuição da rede telegráfica de Cunha e seu entorno. Data: 1944. Fonte: Biblioteca Nacional.

Sua implantação em nosso país, entretanto, é mais remota. Nos tempos do Império, a novidade foi rapidamente adotada. Surgida em 1844 nos Estados Unidos, já em maio de 1852 era feita a primeira transmissão telegráfica, no Rio de Janeiro, entre o Quartel-General do Exército e a Quinta da Boa Vista, palácio imperial. A mensagem transmitida teria sido um verso do poeta Gonçalves Dias: “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. Essa modernização era parte do projeto político e econômico D. Pedro II, que teve o seu auge nos anos de 1850, com a implantação de estradas de ferro, iluminação a gás, entre outras inovações, financiadas pelo superávit das exportações de café. O ministro da justiça Eusébio de Queiroz celebrou a novidade: “A comunicação dos pensamentos, das ordens, das notícias já não encontra demora na distância”. Com esta declaração ao imperador, o ministro vislumbrava a nova tecnologia a serviço dos interesses do Estado, da eficiência na administração pública e do cumprimento de suas ordens a tempo. Entre tais interesses, destacava-se a necessidade de agilizar o envio de ordens destinadas à repressão do tráfico de escravos. Mas sua expansão pelo território nacional demoraria ainda e motivou-se por razões menos nobres. Inicialmente circunscrita à província do Rio de Janeiro, a rede telegráfica conhece uma rápida expansão, mas em direção à fronteira meridional, motivada pelas necessidades impostas pela guerra com o Paraguai (1864-1870).

Notícia da instalação do telégrafo em Cunha.

O termo “telégrafo” refere-se a qualquer dispositivo ou sistema destinado à transmissão de informações por meio de sinais codificados a longas distâncias, de maneira confiável e segura entre pontos distantes, superando as limitações impostas pela geografia. Diversos sistemas telegráficos foram empregados ao longo da história; contudo, a designação é mais comumente associada ao telégrafo elétrico. Durante mais de um século, esse sistema constituiu o principal meio de envio de informações impressas, seja por meio de fios condutores ou por ondas de rádio. Concebido antes da invenção do telefone, constituiu um avanço significativo nos sistemas de comunicação. Posteriormente, desenvolveu-se a radiotelegrafia, modalidade de comunicação que utiliza ondas de rádio para transmitir sinais codificados, como o código Morse. Nesse sistema, a portadora de rádio é modulada por meio da variação de sua amplitude, possibilitando a emissão e recepção de informações em tempo real e sem a necessidade de conexões físicas entre os pontos comunicantes. Esta modalidade telegráfica é a que foi implantada na agência postal de Cunha.

Exemplo de telégrafo, no Museu Correios, em Brasília (DF). Foto: Acervo do Museu Correios.

Os sociólogos que estiveram em Cunha em 1945 não deixaram de registrar os meios de comunicação existentes ou não por aqui. Emilio Willems (1947, p. 22) escreveu: “Em 1908 foi construída uma linha telefônica entre Cunha e Guaratinguetá. Explorada por um concessionário privado, ela existiu até 1932. Em toda cidade de Cunha havia dois aparelhos apenas e nenhum na zona rural, circunstâncias essas que provam ter sido bem restrito o uso que se fazia desse meio de comunicação rápido. Na Revolução de 1932, a linha foi destruída. Somente em novembro de 1944, Cunha foi ligada à rede telegráfica do país. Desde então, parte da população urbana está se utilizando, em escala crescente, desse novo meio de comunicação que se integrou rapidamente à cultura local.” Ou seja, Willems relata que no intervalo de apenas um ano, entre a instalação do serviço e o início de sua pesquisa, os telegramas passaram a ser enviados e recebidos por boa parte da nossa população urbana, integrando-se na vida local e a integrando ao restante do país. Não é de se espantar, afinal, toda tecnologia é rapidamente absorvida, pois facilita a vida social e agiliza a transações comerciais de qualquer lugar.

Sobre o telégrafo, um fato anedótico ocorreu nos anos 1950 e foi registrado nas memórias do juiz da comarca de então (Azevedo, 1984, p. 39-41). A luz elétrica de Cunha era péssima. A Usina Hidrelétrica do bairro do Encontro não conseguia suprir a cidade de eletricidade suficiente. Faltava luz quase toda a semana. E, quando tinha, era mortiça. Era a “luz do Zé Saninha”, sinônimo de fraqueza na gíria popular cunhense. Assim, bem precavidos, toda casa da cidade tinha um lampião à querosene, para os dias em que o dínamo da Usina falhasse. E este não decepcionava: falhava dia sim, dia também. O prefeito Antonio Accacio Cursino não sabia mais o que fazer. Vai que falha na véspera da eleição? Seria um desastre… eleitoral. Já tinha, em vão, perdido um dos olhos tentando consertar o motor da Usina. Nesses dias de lida mecânica contava com o apoio técnico do Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense, de saudosa memória, que era, entre outras coisas, mecânico nas horas vagas. Lescar sempre consertava o motor da Usina, mas, certa vez, constatou que não havia mais reparo possível a ser feito. Era um motor do início do século XX. A Usina tinha sido construída em 1923, nos tempos do Coronel João Olympio. E Cunha já estava a 15 dias sem luz elétrica. O único jeito era reparar o motor em São Paulo. Coube ao advogado-mecânico a empreitada de levar o fundido para ser consertado em São Paulo. E ele foi. Pôs o enguiçado na camioneta da Prefeitura e desceu o morro do Facão, rumando para Guaratinguetá e, de lá, para a capital bandeirante. Passaram-se quinze dias e nada. O povo estranhava e indagava: “cadê o motor?”. E reclamava. E o Cursino não sabia mais que desculpa inventar para seus eleitores. Até que, em uma tarde, o carteiro sobe, apressado, as escadas do sobrado do Paço Municipal, no Alto do Cruzeiro, e entrega um telegrama ao prefeito. O remetente era um velho amigo cunhense, residente em São Paulo. A mensagem era esta: “PREFEITO MUNICIPAL DE CUNHA / DOUTOR LESCAR SEGUE HOJE MORTO / PT SAUDAÇOES” A notícia ruim se espalhou rapidamente. “Uma hora depois, a cidade de Cunha se revolucionou consternada e enlutada. Ninguém queria acreditar naquela notícia desalentadora, mesmo porque, aquilo significava o fim de muitas esperanças de luz”. Inacreditável! O Dr. Lescar havia falecido… Mas a tristeza, para felicidade geral, foi curta. Dezesseis horas depois, ouve-se o barulho do arranque da camioneta da Prefeitura vencendo o morro do Facão: nela estava o Dr. Lescar vivo! Trazendo consigo o motor restaurado para alegria de seus patrícios. Festa na comuna. Alívio para familiares e amigos, que não eram poucos. À noite, com Cunha novamente iluminada, se esclarece o mal-entendido. Antes de partir para Cunha, Lescar almoçara com um velho amigo e conterrâneo e solicitou que ele fosse até a agência dos Correios e remetesse um telegrama ao prefeito de Cunha informando sua partida com o motor consertado. E assim o amigo o fez. Acontece que o telegrafista, displicente, trocou o “R” de lugar e, em vez de telegrafar “MOTOR”, telegrafara “MORTO”, causando toda a confusão. Os telegramas precisavam ter uma mensagem curta e direta, sem acentos ou sinais gráficos, o que agilizava o envio, mas abria margem para muitos equívocos e confusões, como foi esse caso. Quanto ao motor, logo voltaria a morrer deixando Cunha às escuras, problema que vai se arrastar até o ano de 1958, quando o Governo Estadual construiu a Usina Hidrelétrica da Cachoeira da Pimenta, sanando a questão da iluminação.

Com relação à chegada do telefone a Cunha, a data apresentada por Willems difere daquelas que nossa pesquisa encontrou nas hemerotecas digitais. As primeiras notícias encontradas sobre o assunto, de um projeto de linha telefônica conectando Guaratinguetá a Cunha são de 1915. Sendo que em 13 de junho de 1916, aparece no jornal “O Estado de S. Paulo” a notícia que que José Florindo Coelho, concessionário da Rede Telefônica Nossa Senhora Aparecida, partindo de Guaratinguetá, deu início à instalação de uma linha telefônica almejando estendê-la até a cidade de Cunha. Essa informação aponta que a instalação ocorreu oito anos depois da referida data apresentada por Willems. Não se sabe qual fonte (oral ou documental) o sociólogo alemão utilizou para cravar a instalação da linha telefônica em 1908. Quanto à sua destruição em 1932, não resta dúvida. O Dr. Pedro Martha, juiz de direito em Cunha nos dias de 1932, relata para Castro Junior (1935, p. 13) o que houve com o telefone: “Os marinheiros estraçalharam o telephone e como temessemos um novo ataque, fui com um rapaz daqui, Geraldo Nascimento que tambem tomára parte na refrega, collocar um apparelho velho, nos muros do Cemiterio. Conseguimos relatar tudo ao delegado de Guará Dr. Venancio Ayres e no dia seguinte chegavam as forças.” Como se extrai do excerto, mesmo atacado, o telefone continuou funcionando. Precariamente, como sempre foi. E durante o conflito que se estendeu em nosso município, entre julho e setembro, as linhas telefônicas foram ampliadas e funcionaram perfeitamente, graças aos serviços dos técnicos do Exército Constitucionalista. Um dos tais, Clementino (1935, p. 98) informa: “Na Delegacia, já havia uma rêde telephonica para Guará, Uzina, Q. G. e Reducto.” E mais (p. 98): “Estendemos o fio telephonico até perto de Apparição a 18 kilometros de Cunha”. E ainda (p. 101): “os fios telephonicos iam até a fazenda do ‘Quim Prudente’ [bairro do Cume].” E conclui (p. 124): “Dias depois da nóssa installação e quando quasi todas as trincheiras tinham telephones e probabilidades de mais promptamente receberem auxilio.” Ou seja, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, Cunha chegou a ter uma ampla rede telefônica, funcionando até mesmo na nossa zona rural. Vicissitudes da guerra. É de se supor que foi arrancada na retirada do Exército Constitucionalista, ocorrida em setembro de 1932, ou foi destruída pelas tropas federais, que ocuparam a cidade logo em seguida. O fato é que não foi mais restabelecida, deixando Cunha sem contato telefônico com outras cidades pelas próximas décadas.

Notícia da instalação da rede telefônica entre Cunha e Guaratinguetá.

Em 1966, segundo Shirley (1977, p. 310), havia 93 telefones em Cunha. Uma quantia razoável, tendo em vista o percentual de moradores da zona urbana. Suprimida desde 1932, a conexão telefônica tinha sido restaurada há pouco tempo, quando Shirley esteve em Cunha fazendo suas pesquisas. Em suas memórias (1984, p. 196), o ex-juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo, escreve indignado: “Na minha Comarca não havia telefone; o telégrafo funcionava precariamente e nesse dia estava interrompido; a estrada, no tempo das chuvas, mais parecia uma trilha de índios.” Havia falecido o desembargador Paulo de Oliveira Costa (que, aliás, é o patrono do Fórum de Cunha) e ele, que estava em Cunha, não ficou sabendo de nada e não pode comparecer ao velório. Era novembro de 1960. O enérgico juiz não deixou barato. Em 30 de junho de 1961, reúne os moradores da cidade no Fórum e, por intermédio seu, traz até Cunha os representantes da Companhia Telefônica Tupi, de Taubaté. É feito um acordo entre os moradores e a empresa. Se pelo menos 50 pessoas comprassem o aparelho e assinassem o contrato com a Tupi, ela proveria a cidade de ligação telefônica. Cada aparelho custava 40 mil cruzeiros. O acordo é fechado: colheram-se mais de 70 assinaturas no dia. As ligações interurbanas seriam realizadas por micro-ondas, através da estação de Paraibuna. Encerrava-se uma das mais antigas reivindicações de Cunha, que levou o prefeito de Cunha, naquela época, Osmar Felipe a apelar até para o poeta Guilherme de Almeida, que solidário ao povo de Cunha, usou, inclusive, a sua coluna no Estadão para transcrever o ofício enviado pelo prefeito (O Estado de S. Paulo, 19 fev. 1960, p. 5), reforçando o pedido endereçado ao Governo Estadual que se restabelecesse a linha telefônica de Cunha. O “príncipe dos poetas” havia lutado em Cunha, em 1932, e tinha um carinho especial pelos “cunheiros”. Amizade nascida nas trincheiras. 

Antiga central telefônica de Cunha, na Praça Prudente Guimarães. Atualmente, no prédio está instalado o Conselho Tutelar. Data: década de 1960. Arquivo: Prefeitura Municipal de Cunha.

O impacto dessa tecnologia de comunicação foi modesto em seus primórdios. Além de não haver nenhuma ligação telefônica na imensa zona rural de Cunha, Shirley (1977, p. 196) aponta que apenas uma linha ligava Cunha e Paraty com a cidade de Guaratinguetá e de lá com as outras cidades do país. O serviço interurbano era, portanto, “demorado e irregular”. Uma chamada para a capital, por exemplo, demorava de meia hora até doze horas para ser feita. Um tempo impensável nos dias de hoje, mas que já naquela época limitava muito o uso do telefone em Cunha, a ponto do próprio antropólogo considerar seu impacto sobre a tradição local praticamente nulo, uma vez que seu uso era restrito, limitado e intermitente.

Atualmente, o uso do telefone fixo é cada vez mais raro, devido ao avanço da telefonia móvel e dos aplicativos de mensagens instantâneas, que funcionam via internet e estão nos smartphones de quase todas as pessoas. Por outro lado, os Correios afirmam que no primeiro semestre de 2024, 1,5 milhão de telegramas foram enviados no Brasil, uma média de 8 mil correspondências por dia. Não mais, obviamente, por rádio ou por cabos elétricos, mas pela internet. Atende, assim, os interesses das empresas e órgãos públicos que precisam notificar, cobrar ou comunicar determinada pessoa física ou jurídica por escrito, de forma oficial e confiável.

A comunicação sempre foi um problema histórico de Cunha, nosso gargalo, que múltiplos impactos trouxe sobre a economia e a sociedade. Já em 1945, Willems (1947, p. 164) concluía: “A fundação e história de Cunha ligam-se à existência de uma das  grandes estradas imperiais por onde o interior se comunicava com o  porto de Parati. Modificada a rede de comunicação pela construção da  Estrada de Ferro Central do Brasil, Cunha entrou numa longa fase de  isolamento e estagnação econômica, interrompida somente em tempo muito recente pela construção de uma rede de rodovias intra e intermunicipais”. A estagnação prosseguiu, porque nem toda rede de estradas é capaz de gerar fluxos rápidos o suficiente para atender às demandas do capital. Ainda hoje, fechando o primeiro quartel do século XXI, sofremos em Cunha com a falta de internet nos dias chuvosos ou quando incendeiam a Serra do Quebra-Cangalha. Os cabos de fibra óptica que nos conectam ao mundo são precários e nos fornecem um serviço lento, sofrível e intermitente. Funcionam aos trancos e barrancos. Como foi o telégrafo, o telefone, o rádio e o televisor. Cunha nunca muda. É o que dizem…

Imagem de capa: Meramente ilustrativa, de uma agência postal com serviço telegráfico, gerada por inteligência artificial.

AZEVEDO, Paulo de C. No Forvm: memórias de um juiz. São Paulo: Gráfica Sangirard, 1984.
BIBLIOTECA NACIONAL. Há 168 anos, era inaugurada a primeira linha de telégrafo do Brasil, 12 mai. 2020. Disponível em: <https://antigo.bn.gov.br/acontece/noticias/2020/05/ha-168-anos-era-inaugurada-primeira-linha-telegrafo&gt;, acesso em 20 out. 2025.
BRASIL. Mapa das redes postal e telegráfica do departamento dos Correios e Telégrafos. Escala 1: 4.000.000. Instituto Cartográfico Canabrava Barreiros, 1944. Disponível em: < https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart451488/cart451488.html&gt;, acesso em 20 out. 2025.
CASTRO JUNIOR, Clementino de S. e. Cunha em 1932. São Paulo: Empresa Gráfica “Revista dos Tribunais”, 1935.
CASTRO MOREIRA, Mauro C. da S. de. A introdução da telegrafia elétrica no Brasil (1852-1870). REVISTA DA SBHC, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 47-62, jan./jul., 2007.
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FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2021.
LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. Tradução: Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992, p. 133-162.
MCGILLEM, Clare D. “telégrafo”. Enciclopédia Britânica, 29 de setembro de 2025, https://www.britannica.com/technology/telegraph. Acessado em 13 de outubro de 2025.
O ESTADO DE SÃO PAULO (Jornal). Acervo Estadão. Várias edições. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/acervo/>, acesso em: 19 out. 2025.
SHIRLEY, Robert W. O fim de uma tradição. São Paulo: Perspectiva, 1977.
WILLEMS, Emilio. Cunha: tradição e transição em uma cultura rural do Brasil. São Paulo: Diretoria de Publicidade Agrícola, 1947.

Inauguração do Monumento a Paulo Virgínio

Era um domingo, 20 de abril de 1958, dia em que se comemorou o “Centenário de Cunha”. Celebração que tomou por base a data de 20 de abril de 1858, quando Cunha foi elevada à categoria de cidade. Como já discutimos aqui e em outros lugares, essa data não teve relevância histórica. Voltemos ao assunto do post.

Em Cunha temos apenas um monumento referente à Revolução Constitucionalista de 1932. É o dedicado a Paulo do Virgínio (alcunha de Paulo Gonçalves dos Santos). Um trabalhador rural do bairro do Taboão, que durante a guerra civil foi torturado e fuzilado por um grupo de soldados da Marinha, a saber: o 1º tenente Ayrton Teixeira Ribeiro, o sargento Roque Eugênio de Oliveira e os soldados Juvenal Bezerra Monteiro, Ascendino Gomes da Silva Dantas e Raymundo Jeronymo da Costa, integrantes do corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil. Todos foram absolvidos Supremo Tribunal Militar. Mataram um civil e foram julgados por um tribunal militar. Era possível esperar justiça?

Os restos mortais de Paulo Virgínio foram transladados de Cunha no dia 7 de julho de 1955, após celebração de missa na Igreja Matriz. Daqui partiu para ser sepultado, de forma definitiva, no Mausoléu dos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera, na capital. O cortejo do “herói de Cunha” foi acompanhado durante todo o trajeto pelos batedores da Força Pública (Polícia Militar).

O Monumento, entretanto, foi erguido em 1958. Assim informou o Estadão (22 abr. 1958):

Vídeo da inauguração do Monumento a Paulo Virgínio, em 20 abr. 1958. Filme feito pelo Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense. Evento filmado em 16 mm preto e branco, com câmera Bell & Howell Filmo 70 ou Bolex H16, a 18 quadros por segundo, utilizando filme pancromático Kodak Plus-X. Digitalização feita na década atual. Acervo: Família Mendes.

“Cunha prestou domingo último, por ocasião dos festejos comemorativos do seu centenário de fundação, tocante homenagem aos heróis de 32. A nove quilômetros da cidade, em cerimônia que reuniu mais de cem veteranos de 32, sob o comando do general Valdemiro Meirelles Maia, foi entregue ao povo um monumento a Paulo Virginio, herói de Cunha, no mesmo local onde tombou, metralhado pelas tropas da Ditadura.

Apesar das dificuldades de transporte, agravadas pelo mau tempo, o povo participou quase em sua totalidade das comemorações do centenário. Às 12 horas e 30, estudantes, autoridades, veteranos de 32 dirigiram-se em caminhões lotados, para o local da cerimônia de inauguração do monumento a Paulo Virginio. Lá chegando, depois do toque de marcha batida, o general Valdemiro Meirelles foi solicitado a assumir o comando do pelotão de veteranos de 32. Estes se apresentavam com capacetes, e eram chamados por ordem hierárquica. À frente deles, senhoras paulistas de 32, todas de preto, postavam-se em fila. Entre as presentes anotamos as seguintes sras.: Julieta Nunes Pereira, representando, também, o Clube Piratininga; Adelaide Correia Ribeiro; Rosa Lanza de Castro; Edith Pereira da Silva.

Antes do descerramento do monumento, o gen. Valdemiro Meirelles pronunciou algumas palavras de improviso, iniciando por dizer que se encontrava ali para suavizar saudades. Ali, naquele mesmo local, lutara por São Paulo, lutara pelo Brasil. Considerando as causas da Revolução Constitucionalista, declarou que São Paulo sofrera uma injustiça, na época, ao se lhe atribuir ideais separatistas. “Nada mais falso pois só é fundamentalmente brasileiro quem é fundamentalmente paulista. O povo queria apenas a Constituição, o direito de votar, de escolher”. Referindo-se, depois, ao nível de politização do povo, o gen. Meirelles declarou que se “naquela época eu comandei paulistas desarmados, hoje comando paulistas armados de civismo. A cruz é, antes de tudo, uma escola de civismo”, terminou o orador, apontando para o monumento a Paulo Virginio, que tem a forma de uma cruz. Referiu-se, também, o orador, à personalidade de Paulo Virginio, o caboclo que preferiu morrer a revelar às tropas invasoras o local da defesa paulista.

Página do jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1958, noticiando a inauguração do Monumento e o “Centenário de Cunha”. Fonte: Acervo Estadão.

Foi prestada, depois, continência à bandeira brasileira, que foi içada pelo prefeito local, sr. Antonio Acacio Cursino. Na ocasião, além do próprio prefeito, falaram vários veteranos de 32, entre eles o sr. Mercio Prudente Correia, Cesar Salgado, o juiz de Direito da Comarca, dr. Paulo de Campos Azevedo, que agradeceu em nome de Cunha, o monumento a Paulo Virginio, dona Julieta Pereira Nunes, representando a mulher paulista, que foi convidada a descerrar o monumento, coberto com a bandeira de São Paulo. Precedeu o ato o toque de silencio, realizado por um veterano de 32. Em seguida, foi realizada a cerimônia da benção do monumento pelo padre Rodolfo Ignácio que oficiou, depois, missa campal. Em vista da chuva que caia abundante, após a missa rumaram todos para Cunha, a fim de participarem de um banquete, no Hotel Paulista.

O monumento a Paulo Virginio está situado numa elevação, no bairro do Rio Abaixo, no município de Cunha. É antes um túmulo, todo de granito sobre o qual uma grande cruz se ergue. Na lápide, numa placa de bronze, lê-se o seguinte epitáfio: ‘Aqui, aos 28 de julho de 1932 morreu Paulo filho de Cunha, herói e mártir fuzilado pela Ditadura. Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, no seu 25ª aniversario’.”

Obviamente, tal monumento só pode ser inaugurado após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), que censurava qualquer manifestação de orgulho paulista, sobretudo aquelas que se fundamentavam na Revolução de 1932. Em 1958, o Brasil gozava de um regime democrático e expressar o orgulho de ser paulista estava na moda, consequência das celebrações exaltadas de 1954, ano em que a cidade de São Paulo celebrou, com pompa e ufanismo, seu IV Centenário de fundação.

Paulo Virgínio foi o herói caipira que a Revolução precisava. Torturado e morto por fuzileiros navais, que foram absurdamente absolvidos, sua morte foi um prenúncio dos tempos sombrios que viriam 32 anos depois.

Localização do Monumento a Paulo Virgínio (SP 171 – Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti):

Museu Francisco Veloso começa a restaurar seus objetos históricos

O Museu Francisco Veloso deu início à restauração de vários artefatos históricos que fazem parte de seu acervo. Essa atividade tem por objetivo preservar os objetos indispensáveis para que a história de Cunha continue sendo contada, que é a missão fundamental do museu.

O “Boi Chimemé”, protagonista da cultura popular cunhense, sobretudo nos dias em que se brinca o carnaval de rua. Esta peça, parte do acervo do Museu Francisco Veloso, encontra-se restaurada e em breve voltará a ser exposta. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

O nosso museu, desde quando foi fundado pelo professor João Veloso, nos anos de 1970, tem a missão de preservar e difundir a história e a cultura de Cunha, tanto que sua fundação coincide com a do Centro de Cultura e Tradição de Cunha. São instituições complementares. O Museu Francisco Veloso é o guardião do nosso passado. Assim, a restauração é parte essencial dessa missão, pois permite que peças fragilizadas pelo tempo voltem a ter estabilidade e possam ser expostas e estudadas.

Sala destinada à restauração do acervo do Museu Francisco Veloso. Batizada de “Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes”, museólogo nascido em Cunha. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

A restauração visa preservar e revelar valores estéticos e históricos dos objetos do acervo, respeitando sua autenticidade. Isso significa que o trabalho não é apenas estético, mas também científico, garantindo que o público e os pesquisadores tenham acesso a informações fiéis que esses objetos trazem. É um trabalho minucioso e paciente, que exige uma equipe qualificada, para que atue com cuidado para não comprometer o valor histórico dos artefatos que estão em restauração. A restauração busca não apenas conferir estabilidade, mas recuperar, na medida do possível, as informações contidas nesses objetos. Isso significa que cada detalhe recuperado — uma inscrição, uma cor original, um símbolo –, pode revelar aspectos esquecidos ou detalhes que ajudam a montar o quebra-cabeça do passado, este país que não nos pertence, como bem alertou o sociólogo David Lowenthal.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foi pensando nessa questão que o Museu criou, recentemente, um espaço exclusivo, em suas dependências, destinado à restauração. Mais do um ambiente, o “Ateliê Restauro” conta com uma equipe qualificada para a empreitada: Thales Gayean é museólogo, historiador e técnico em restauro e conservação, Maiara Fernandes é graduanda em Museologia e Isabele Ceddia é cientista social e formada em artes visuais. A sala onde está o Ateliê foi batizada com o nome do cunhense Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, museólogo, arqueólogo e historiador do Departamento de História na Universidade de São Paulo (USP). Ulpiano é um dos maiores nomes, no Brasil, no campo dos estudos sobre cultura material, cultura visual e museus. O trabalho técnico consiste, entre outras coisas, em obturações, repinturas, remoção da oxidação, limpeza e hidratação dos artefatos. Algumas obras já foram restauradas, como as esculturas que representam a Congada de São Benedito, confeccionadas pelo ceramista Luiz Toledo, na década de 1990.

Esculturas do artista cunhense Luiz de Toledo, peças que representam a Congada de São Benedito. Em processo de restauro no Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Quando falamos de história local, a restauração ganha um papel ainda mais afetivo. Objetos preservados contam histórias de famílias, comunidades e tradições que moldaram a identidade cunhense. Relíquias doadas por famílias, álbuns de fotografia, obras e esculturas de artistas locais, utensílios e tralhas do tropeirismo, objetos militares ligados à Revolução de 1932 etc. Muitas famílias e pessoas de Cunha têm confiado e depositado ao museu suas relíquias e artefatos outros de importância histórica. Foi assim que o professor João Veloso constituiu o acervo do MFV. E essas doações continuam a acontecer, pois a relação de confiança e identificação dos cunhenses com o seu museu é vigorosa o suficiente para ter sido perene até agora (e já se vai quase meio século de existência do Museu). E tudo indica que irá continuar.

Cangalha, essa tecnologia tão cara ao tropeirismo. Batizou uma serra e marcou época. Peça será restaurada pelo Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Atualmente, o Museu tem se colocado como um espaço de visitação, recebendo muitos turistas que vêm passear em Cunha. Assim, o seu acervo e as peças restauradas ajudam a fortalecer o turismo cultural e, por consequência, a economia da cidade, pois atraem visitantes interessados em conhecer a história local, elemento indispensável para uma imersão completa do turista ao espaço que está consumindo. E Cunha tem muita história para contar. São mais de 300 anos.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Trazer novos olhares para assuntos dados como encerrados. Pôr em evidência as negligências (e não foram poucas). O Museu Francisco Veloso tem buscado criar, de forma crítica e através da História, um sentimento de pertencimento do cunhense com sua terra, mostrando às novas gerações de onde vieram, como vieram e quais valores foram construídos ao longo do tempo. É uma proposta de longa duração e trabalhosa, mas necessária. Viva o nosso Museu!

Maquete do casarão Nenê Felipe, na rua Comendador João Vaz, onde está instalado o Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foto de capa: Relógio carrilhão que pertenceu ao antigo Paço Municipal, sobrevivente do incêndio de 1961. Hoje, parte do acervo do Museu Francisco Veloso. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

29 de dezembro de 1.933 – O falecimento do Dr. Casemiro da Rocha

Após a derrota de S. Paulo, na Revolução de 1932, o isolamento político de Alfredo Casemiro da Rocha, perrepista histórico, foi completo. Era o ocaso do velho político, líder inconteste em nossa região e grande benfeitor de Cunha. Até toma ciência das agitações políticas de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, porém, assiste de longe e acabrunhado. Seus amigos e correligionários estavam exilados e apeados do poder.

Convite para a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha, publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em 06 jan. de 1934, p. 10.

Em 16 de dezembro de 1933, o interventor federal em S. Paulo Armando de Sales Oliveira o nomeia prefeito de Cunha. E este foi o seu último cargo público. Termina onde começou. Desde a vitória da Revolução de 1930, Cunha tivera três alcaides. Nenhum deles durou. Aceita a missão o velho comandante, como forma de gratidão ao povo de Cunha.

Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, em São Paulo, onde foi celebrada a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha. Foto: Museu Paulista. Data: circa. 1927.

Noite do dia 26 de dezembro. Ressaca de Natal. No Clube Recreativo Cunhense, Alfredo joga baralho com seus amigos. A certa altura, Alfredo tem um mal súbito e cai no chão junto com suas cartas. Ali mesmo o acode o dr. Carlos Borges Âncora da Luz, médico e amigo. Diagnóstico: broncopneumonia. É carregado até a sua casa. Os remédios ministrados não surtem efeito. Falece no dia 29 de dezembro de 1933, sendo o seu velório e cortejo um dos maiores que Cunha já presenciou. Por ironia do destino, faleceu da doença em que era mestre em tratar e que tanta gente ajudou a sarar.

Esse foi o obituário publicado no jornal “A Gazeta”:

“DR. ALFREDO CASIMIRO DA ROCHA
Deu-se hontem, em Cunha, o fallecimento do dr. Alfredo Casimiro da Rocha, prefeito municipal daquella localidade.
O velho e estimado político, que gozava de grande prestígio em Cunha e em todas as localidades do antigo 3º districto eleitoral, contava 76 annos de edade, tendo nascido em São Salvador da Bahia, a 4 de março de 1856.
Aos seis annos de edade, iniciou seus estudos no antigo Collegio Abilio, ahi fazendo os preparatorios.
Matriculou-se na Faculdade de Medicina de sua terra natal, em 1870, frequentando primeiramente o curso de pharmacia e depois o curso medico, e diplomando-se em 15 de dezembro de 1877.
Um anno depois de formado, veiu para o Estado de São Paulo, fixando residencia na cidade de Cunha.
Foi eleito presidente da Camara Municipal dessa cidade em 1883, pelo Partido Republicano, que alli organizou, começando, então, a sua carreira politica, que foi sempre agitada. Concorreu a diversas eleições como candidato do Partido Republicano, conseguindo representar o seu Partido, em varias occasiões, quer na Assembléa Provincial, que na Assembléa Geral.
Voltou para a Camara Estadual na legislatura de 1907-1909. De 1913 a 1924 foi sempre reeleito pelo seu districto, onde era, tambem, acatado chefe politico.
Foi eleito senador a 25 de abril de 1925, por 111.870 votos, na vaga aberta com a renuncia do dr. Oscar de Almeida, e reeleito por 71.462 votos, na renovação do terço do Senado, a 24 de fevereiro de 1928.
Fez parte da Commissão de Instrucção Publica e Hygiene do Senado, onde exerceu o seu mandato até á victoria da revolução de outubro de 1930.
***
O dr. Casimiro da Rocha deixa viuva d. Maria do Carmo Rodrigues Rocha e os seguintes filhos: dr. Alfredo Casemiro Rocha Filho, 2º escripturario da Secretaria de Educação; Augusto Casemiro da Rocha, estudante; Evangelina Adelia da Rocha, residente em Cunha, e os enteados sr. Carivaldo Pinto, agente do imposto de consumo em Poços de Caldas; Juarez Pinto, guarda-livros nesta Capital e d. Adalgiza Pinto, professora em Cunha.”


Fonte: “A Gazeta”, São Paulo, 30 dez. 1933.
Foto: Alfredo Casemiro da Rocha com o seu filho Augusto, então com 17 anos. Foto tirada em 1933, em Cunha, no quintal da casa do dr. Casemiro, que ficava no Largo da Matriz. Sobre essa fotografia, legendou Oracy Nogueira, biógrafo do médico e político: “Note-se o semblante angustiado de Alfredo, que passava por uma das fases mais difíceis de sua vida”.
Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid0vx7Fi9Y35q72aic5J3WxqZspG5VMZdGgYcHyAKLXsK4SMjqNPAg1MfGh28uYDHVil

Alguns dados biográficos de Clementino de Souza e Castro Júnior

Voluntários paulistas no front de Cunha. Da esquerda para a direita: Geraldo Nascimento e Vavá (os dois cunhenses do grupo), Clementino, Tegon e Zilcar. Foto: Acervo Gazeta de S. Paulo.

Clementino de Souza e Castro Júnior (São Paulo, 23 de julho de 1.897 – São Paulo, 22 de agosto de 1.981) era filho de Clementino de Souza e Castro e Luiza Arruda de Souza e Castro. Seu pai foi prefeito de São Paulo na transição do regime monárquico para o republicano, entre 1890 e 1891, e chegou a exercer o cargo de ministro no Tribunal de Justiça de São Paulo. O bairro de Vila Clementino, localizado no distrito de Vila Mariana em São Paulo, recebeu essa denominação em homenagem ao seu pai, gestor público de grandes realizações.

Tomando parte nos acontecimentos daquele outono e inverno de 1932, quando a cidade de São Paulo se agitava contra a ditadura de Vargas, eufemisticamente chamada de “Governo Provisório”, Clementino Júnior se alistou como voluntário, tendo sido deslocado para a “Frente Norte” (Vale do Paraíba), mais precisamente para o “Sector de Cunha”, já nos primeiros momentos da guerra civil.

Quando se alistou como voluntário nas fileiras do Exército Constitucionalista, já era casado e pai de três filhas. Esse fato o distingue de muitos, mostrando a sua devoção à causa constitucionalista. Paulista e constitucionalista.

Soldados e oficiais em um momento de folga e de pausa para a pose. Trata-se do casarão da Dona Benzinha, já demolido, que foi utilizado como Delegacia Técnica durante a Revolução de 1932. Clementino observa debruçado na janela. Foto: Museu Francisco Veloso.

Em Cunha, devido à sua formação acadêmica – engenharia civil pelo antigo Colégio Mackenzie – veio a compor o corpo técnico do Estado Maior da Praça de Cunha, quando instalada na cidade a Delegacia Técnica do Exército Constitucionalista, que funcionou no casarão que ficava na esquina da rua Dr. Casemiro da Rocha com a Praça da Matriz. O casarão foi demolido, mas um novo prédio (em proporção e estilo semelhante) foi erguido e hoje está alugado para a Caixa Econômica Federal. Como engenheiro, confeccionava os croquis e mapas bélicos. Também ficou responsável pela intendência. No acúmulo das duas funções, tendo contato direto com os anseios das trincheiras e com as resenhas da oficialidade, foi testemunha privilegiada dos acontecimentos que se desenrolaram em Cunha.

Cunha sitiada. A situação da guerra em 16 de agosto de 1932, às 18h, não era nada favorável aos paulistas. Mapa: Clementino Jr. Data: 16 ago. 1932.

Anotava tudo em seu diário pessoal. Infelizmente foi perdido, conforme relata no livro, quando preso no 6º R.I. de Caçapava, em outubro de 1932, em razão da derrota do movimento constitucionalista. Mas a memória é impertinente, resistente, persistente. Três anos depois, suas reminiscências ocasionaram o livro “Cunha em 1932”, pela editora “Revista dos Tribunaes”, o primeiro escrito sobre Cunha e que, de fato, tornou nossa cidade e a batalha que se travou aqui famosa nos círculos sociais da metrópole piratiningana. Mas é importante reforçar que o livro é sobre o município de Cunha e as batalhas que ocorreram aqui; não é sobre os cunhenses. Cunha é só o cenário, o teatro de operações.

Capa original do livro “Cunha em 1932”, lançado em 1935. Digitalização: Jacuhy.

Sua intenção ao pôr no papel suas lembranças era revidar à apropriação política que alguns faziam do movimento. Esses, motivados por interesses pessoais e sem compromisso com a verdade, omitiam ou se inseriam na história para angariar prestígio e votos, maculando os nobres ideais que levaram milhares de jovens a partir para as trincheiras. Por isso o livro vem a lume em 1935, quando o país já gozava da democracia e a campanha partidária reconquistava as ruas e corações. Motivo da luta dos constitucionalistas, a democracia retornava; todavia com sua parte indesejada: os políticos e as negociatas de sempre.

Foi casado com Izaura Camargo Souza Castro e teve os seguintes filhos: Clelia, Luiza, Teresa, Irene e Jurandyr. Este deu o seguinte depoimento sobre seu pai: “sua vida aqui foi linda, alegre, cheia de lutas e vitórias. Cidadão íntegro que, com muita sabedoria, soube cuidar dos seus. Sempre dando exemplos de patriotismo, deixou saudades eternas. Sempre dizia: ‘Quem não cuidou da família, não teve um filho, não escreveu um livro, não plantou uma árvore e não lutou pela pátria: não deve ser considerado homem’. Que Deus o mantenha na Paz.”. Quando faleceu, em 1981, aos 84 anos de idade, deixou além de saudades e corações enlutados, filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Seu corpo foi enterrado no Cemitério da Consolação.

Clementino Jr. e sua esposa Izaura. Foto: Jurandyr Castro.

A força do seu depoimento sobre o movimento encetado por S. Paulo em 1932 reside na sua conversão em objeto de análise, das ideias e ideologias que permeiam a obra e nos ajudam a entender a mentalidade da época. Seu interesse para nós: cunhenses, paulistas, democratas, brasileiros, vai muito além dos fatos e fotografias que ilustram o livro. Ali está o paulista metropolitano que já não se reconhece mais no paulista interiorano. Uma das contradições imposta pela industrialização. É o desejo da elite paulista de romper com seu passado pobre, rústico, agrário, caipira, nativista que prevalece no livro quando Clementino se refere aos cunhenses. Por isso, ao digitalizar o livro, decidi manter a grafia, o número e o conteúdo de cada página correspondendo ao original, sem nada acrescentar ou suprimir. Nem fiz qualquer nota de rodapé.

“Cunha em 1932”: Dedicatória escrita em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, para um dos seus primos: “lembranças da nossa guerra”.

Ao Clementino, que descansa o sono dos justos, fica a minha profunda gratidão por ter trazido, com muita sinceridade, suas memórias à lume; aos que lutaram e puseram sua vida abaixo dos altos ideais que nortearam os paulistas no campo de batalha, fica minha reverencia. E a todos os cunhenses que sofreram naqueles dias difíceis, fica o meu reconhecimento.

Eles – os exércitos paulista e getulista – lutaram por suas convicções políticas, suas paixões partidárias; nós, cunhenses, lutamos para sobreviver ao inferno que essas convicções apaixonadas criaram.

Para ler ou fazer o download do livro “Cunha em 1932”, clique AQUI:

Museu de Cunha realiza exposição sobre a Revolução de 1932

Folder de divulgação da exposição “Cidade Sitiada”, do Museu Francisco Veloso. Data: Julho de 2022.

Com o título “Cidade Sitiada”, o Museu Francisco Veloso organiza desde o dia 9 de julho de 2022 uma exposição sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, com enfoque nos acontecimentos de Cunha. A guerra civil de 1932 foi o mais importante evento histórico estadual no século XX e teve em Cunha um dos seus teatros principais, devido à proximidade com fronteira interestadual. A exposição vai até o dia 30 de setembro.

Apesar de já se ter passado 90 anos do conflito, deflagrado em 9 de julho de 1932, é um assunto que desperta defesas ou investidas apaixonadas. O historiador Hernâni Donato, em seu livro “História da Revolução Constitucionalista de 1932”, ao tratar sobre o interesse que esse remoto levante armado ainda desperta, aponta: “Extremadas. Assim têm sido as referências ao movimento cívico-político-militar ocorrido em 1932, preparado em vários estados, porém centralizado em São Paulo. Enaltecido ou denegrido”. São Paulo se levantou contra o “Governo Provisório” de Getúlio Vargas, instaurado pela Revolução de 1930, alegando a imediata reconstitucionalização e redemocratização do país. Derrotados no campo militar, os paulistas cantam vitória até hoje, pois o seu ideal, uma nova constituição, foi alcançado. Em 1933 houve eleição para composição da Assembleia Nacional Constituinte e em 1934 uma nova Constituição foi promulgada para o país. Já para o historiador Boris Fausto, em seu livro “História concisa do Brasil”, os objetivos dos paulistas e aliados eram ambíguos. Segundo ele, “a ‘guerra paulista’ teve um lado voltado para o passado e outro voltado para o futuro. A bandeira da constitucionalização abrigou tanto os que esperavam o retroceder às formas oligárquicas de poder quanto os que pretendiam estabelecer uma democracia liberal para o país”.

As ocorrências e consequências do conflito ainda estão vivas na memória de muitos cunhenses. Não as desavenças políticas das elites, mas o sofrimento do povo e a perda da inocência com tanta violência em um lugar outrora tão pacato. A tradição oral sobre a guerra civil vai desde as anedotas do contador de causos “Zé Varda” até o silêncio de traumas insuperáveis, vivos ainda nas lembranças daqueles que vivenciaram de perto os horrores de ter uma guerra acontecendo no quintal de casa.

O objetivo da exposição é provocar novos olhares e leituras sobre o movimento armado, ampliando a discussão para além das motivações políticas e das narrativas orquestradas por elas. Por isso, além de abordar os aspectos gerais do conflito, é tratado o desdobramento na cidade de Cunha, do cerco militar que a cidade passou entre julho e agosto de 1932. O envolvimento dos soldados e também dos moradores, civis, pessoas alheias aos acontecimentos políticos nacionais, mas que acabam tomando parte, sem querer, na guerra civil. Um verdadeiro drama que o tempo ainda não foi capaz de apagar.

A diretora do Museu, Dina Zélia Chimello, afirma que a exposição foi feita pensada nos cunhenses e aguarda a visita de todos. Recentemente, ela gentilmente nos concedeu uma entrevista sobre a exposição, que reproduzimos abaixo.

Jacuhy – Qual é o objetivo da exposição “Cidade Sitiada” e o que o Museu pretende promover com ela?

Dina Chimello: O objetivo principal é contar a história da Guerra Civil de 32, na cidade de Cunha, com base em relatos memorialísticos (foram feitas entrevistas com antigos moradores; e extraídos os testemunhos escritos de soldados voluntários). E assim provocar uma reflexão sobre as experiências vividas naqueles três meses de guerra, seja pelos soldados, ou pelas muitas famílias que abandonaram suas casas para viver no mato, sem alimento e proteção, segundo relato do sr. Enéas Roberto de Toledo, Dona Maria Pacheco e sr. Nino, os quais com seus testemunhos contribuíram, traduzindo os sentimentos dos seus antepassados e familiares.
O MFV (Museu Francisco Veloso) pretende, com a exposição “Cidade Sitiada”, promover e estabelecer vínculos com os cunhenses, em particular com as instituições escolares, de modo a contribuir para o envolvimento de professores e alunos com a memória e a história da cidade.

Jacuhy – Por que a escolha pela Revolução de 1932, uma guerra civil, como tema da primeira exposição do Museu sob sua gestão?

Dina Chimello: O tema foi uma sugestão do prefeito José Eder para celebrar os 90 anos da Guerra Civil de 1932. Os historiadores, Maria Izabel de Azevedo Marques Birolli, e Joaquim Roberto Fagundes foram responsáveis pela pesquisa histórica, e Andreas Guimarães pela expografia.

Jacuhy – Qual tem sido a impressão sobre a exposição dos munícipes e turistas que visitam o Museu?

Dina Chimello: É bastante impressionante como a exposição tem sido bem avaliada! Depoimentos cheios de emoção sobre a montagem da sala que conta a história dos “Lenços Brancos”, na voz de Tereza Freire. Sobre a grafia dos textos em tecidos, sobre a réplica da matraca e do boneco do soldado, obras do dedicado artesão Reginaldo da Silva Martins. Admiração ainda com a tecnologia de landing Page e QR code disponíveis em todas as salas, um recurso que possibilita maior alcance e visibilidade, trabalho técnico de Kauan Yorras Ruan Pereira, empresa, Essencial Artes Designer e Publicidade.

Jacuhy – Sabemos que a Revolução de 1932 ainda é trabalhada nas aulas de História. As escolas de Cunha têm frequentado a exposição?

Dina Chimello: Sim, uma grande quantidade de alunos e professores já visitaram a exposição, e queremos continuar a recebê-los com muita alegria e disposição. Acreditamos que, inspirados por ela, poderão surgir muitas e importantes atividades escolares. Esperamos ainda que estes alunos levem seus familiares. A exposição foi movida pelo sonho e o desejo de receber os cunhenses!

Jacuhy – Até quando vai a exposição e qual o horário que o Museu fica aberto à visitação? Ele funciona aos sábados e domingos?

Dina Chimello: Até dia 30/9 de 2022. De terça à sexta-feira, das 9h às 16 horas. Aos sábados das 10h30 às 16 horas. Aos domingos das 10h30 às 13 horas.

O Museu fica no calçadão da rua Comendador João Vaz, centro de Cunha, no casarão que pertenceu ao sr. Nenê Felipe.

Frango à moda da Revolução de 1932

Frango à Revolução, receita de Laura de Azevedo Fontes. Foto: Walter Morgenthaler.
“Eu ando de quarqué jeito, de butina ou de chinela
Na roça si a fome aperta, vou apertano a fivela
Mas lá no meu ranchinho, a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela (...)”

(Franguinho na panela, música composta por Moacyr dos Santos e Paraíso)

Final de setembro de 1932. Chegava a primavera no Vale, época de arar a terra e semear para aproveitar a época das águas. Mas naquele ano de 1932, especificamente naquele ano, as terras de todo o Vale do Paraíba já haviam sido lavradas por trincheiras. Plantações de capacetes de aço, caules fardados de cor cáqui, de cujo punho brotam fuzis. Rumorosas e sangrentas eram aquelas lavouras adubadas à pólvora… Grande sofrimento para as mães dos soldados que não voltaram, grande sofrimento para o povo do lugar sem poder plantar… O mundo tinha virado de pernas para o ar.

Não só a estação havia mudado, mas a sorte e o ânimo dos paulistas. Já se delineava o resultado do embate, apontando a vitória das tropas da ditadura. Em menor número e sem munição, os paulistas recuavam em direção à sua capital. 

Foi no dia 15 de setembro o recuo mais dramático da guerra perdida, quando abandonaram a cidade de Lorena. Os paulistas, constitucionalistas, vendo o cerco se fechar, adotaram como tática a “terra arrasada”, para retardar e enfraquecer as linhas outubristas. Dos gêneros e víveres que para tropa inimiga poderia ser comida, nada restou. Não sabiam os combatentes que com essa ação insensata, recairia a carestia muito mais sobre o valente povo paulista do que sobre os soldados da ditadura. Do pouco que ainda tinham, foram forçados a ceder às tropas famintas de pão e sangue, que invadiam sem pedir licença, fiéis representantes que eram do regime do arbítrio. Para nosso desgosto, a linha de defesa se contraiu, atingindo a estação ferroviária de Engenheiro Neiva, na velha cidade de Guaratinguetá. Essas novas trincheiras, cavadas na iminência da derrota, foram a “musa” de Guilherme de Almeida, no épico “Oração ante a Última Trincheira”.

Laura de Azevedo Fontes. Foto: Walter Morgenthaler. Ano: 1998.

E foi no alvoroço desses acontecimentos e contratempos, que Laura de Azevedo Fontes, uma moça de 14 anos na época, recebeu – com a bravura que é própria das mulheres paulistas – um contingente grande de incômodos visitantes, ameaçando o saque, exigindo a boia ou o fogo grassaria pela Fazenda do Sertão, em Cachoeira Paulista, onde ela e a família estavam refugiados naqueles dias de setembro. Sacando o que tinha na dispensa (leite talhado) e o que restava no terreiro (galinhas velhas), na base do improviso e na boa mão que Deus lhe para os temperos, nasceu um prato novo para acalmar o estômago das tropas: um frango frito à moda da Revolução. A receita agradou paladares e amansou o ânimo dos soldados. Cessado os embates, abaixada a poeira, a receita foi sendo repassada e replicada, geração após geração, até chegar até nós. Revoluções findam-se; a gula, nunca.

Frango à Revolução
1 frango caipira (ou de granja) grande, cortado em pedaços
2 colheres (sopa) de suco de limão
3 dentes de alho amassados
1 folha de louro picada
Sal e pimenta a gosto
4 colheres (sopa) de óleo de urucum (ver receita abaixo)
2 cebolas grandes, cortadas em rodelas
3 xícaras (chá) de coalhada
4 colheres (sopa) de cheiro-verde picado

Modo de preparo:
Em uma tigela, tempere o frango picado com o suco de limão, o alho, o louro, o sal e a pimenta a gosto. Cubra e deixe descansar por 3 horas ou de um dia para o outro, para o frango pegar melhor o tempero.
Aqueça o olho de urucum em panela, em fogo alto. Junte o frango e deixe dourar. Acrescente a cebola e refogue até ficar macia.
Adicione a coalhada, misture, tampe e deixe ferver. Reduze o fogo e cozinhe, mexendo de vez em quando, até o frango ficar macio.
Acrescente o cheiro-verde e misture. Prove o tempero e, se for necessário, junte mais uma pitada de sal e pimenta a gosto. Tire do fogo, passe para uma travessa e sirva.

Rendimento: 6 porções.

Como temperar o óleo com urucum:
5 colheres (sopa) de sementes de urucum
2 xícaras (chá) de óleo

Ponha o óleo em uma panela e misture as sementes de urucum. Mexa e aqueça em fogo alto até o óleo ficar bem vermelho. Tire do fogo, deixe esfriar e coe, para retirar as sementes do óleo. Reserve o óleo temperado para utilizar em outras preparações.

O urucum e a coalhada dão cor e sabor ao frango à Revolução. Um delicioso prato histórico!

Fonte:
FERNANDES, C. A Culinária Tradicional Paulista nos hotéis SENAC São Paulo. São Paulo: Editora SENAC, 1998. pp. 74-75.

Detectorismo nas antigas trincheiras de Cunha

Arqueologia militar. O passado de Cunha não pode ficar enterrado. As trincheiras desapareceram. Não por trauma da população, mas por puro descaso, indiferença e falto de apreço aos lugares de memória. Por isso muitos artefatos vêm sendo encontrados nas antigas trincheiras de Cunha. A vida nesses buracos, escavados pelos sapadores de Piracicaba, não era fácil. Granadas, tiros de fuzil e o som da metralha. Dormir? Um luxo. E, às vezes, os “vermelhinhos” (apelido dado aos aviões da ditadura getulista, pelos constitucionalistas) azucrinando e jogando uns “abacaxis” (granadas) de presente. Na hora da boia: arroz, feijão e pólvora. Valeu a pena? Tanta luta e hoje tanto esquecimento…

Cunha foi um dos principais campos de batalha da Revolução de 1.932, maior guerra civil brasileira. E o curioso é que aqui São Paulo venceu.

Fotos e detectorismo: Elcio Macedo. Agradecemos a contribuição com a página “Jacuhy”. Parabéns pelo trabalho. O Elcio tem um projeto cultural e educacional, para criar uma exposição itinerante com os artefatos que ele tem desenterrado das antigas trincheiras de Cunha. Boa sorte e conte sempre conosco.

O elemento feminino na Revolução de 1.932

Tela exaltando a participação feminina na Revolução de 1932.

Realmente é impressionante a capacidade de mobilização feminina durante o movimento armado de 1.932, maior guerra civil brasileira no século XX. Elas fizeram a intendência, os serviços médicos e a logística do conflito funcionar. Sem elas, o movimento que durou 3 meses não duraria 3 dias. A rapidez e a eficiência com que assumiram papéis até então considerados masculinos demonstrava, na época, o absurdo que era privá-las da vida política e restringi-las ao ambiente doméstico. Somente em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral passou a assegurar o voto feminino; todavia, esse direito era concedido apenas a mulheres casadas, com autorização dos maridos, e para viúvas com renda própria. Essas limitações deixaram de existir apenas em 1934, quando o voto feminino passou a ser previsto na Constituição Federal. Carlota Pereira de Queirós foi uma médica, escritora, pedagoga e política brasileira. Foi a primeira mulher brasileira a ser eleita deputada federal. Ela participou dos trabalhos na Assembleia Nacional Constituinte, entre 1934 e 1935.

Uma entre eles: a paulista foi a única eleita Carlota Pereira de Queirós em 1933, para a Assembléia Nacional Constituinte, na legenda da Chapa Única por São Paulo.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, ocorrido em São Paulo, Carlota organizou e liderou um grupo de 700 mulheres para garantir a assistência aos feridos. Assim, teve valiosa participação, lutando pelos ideais democráticos defendidos por São Paulo. Ingressando na política, foi a primeira deputada federal da história do Brasil. Eleita pelo estado de São Paulo em 1934, fez a voz feminina ser ouvida no Congresso Nacional. Seu mandato foi em defesa da mulher e das crianças, trabalhava por melhorias educacionais que contemplassem melhor tratamento das mulheres. Além disso, publicou uma série de trabalhos em defesa da mulher brasileira. Ocupou seu cargo até o Golpe de 1937, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso.

Cartaz convocando voluntárias para atuar no serviço médico do Exército Constitucionalista.

Em 1932, mais de 72 mil mulheres atuaram no movimento armado contra o governo provisório de Getúlio Vargas. E não foram só enfermeiras e cozinheiras. Alguma foram para as trincheiras, como a professora Maria Stella Sguassábia, que vestiu a farda de um soldado desertor, e Maria José Bezerra, conhecida como Maria Soldado, que só descobriram que era mulher após e ser ferida e receber atendimento médico. Com o fim da Revolução de 1932, o direito ao voto feminino foi reconhecido e o Brasil passou por um processo redemocratização, tal como queriam os paulistas. A permissão para votar ainda estava longe de ser ideal, mas já era uma conquista. O direito ao sufrágio era restrito às mulheres casadas que tivessem a autorização do marido e às solteiras e viúvas, desde que com renda própria. O voto pleno e obrigatório como direito de todas as mulheres foi instituído pela Constituição de 1946, após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945).

Para saber mais:

Reportagem da TV Globo contando a história da combatente paulista Maria Stella Sguassábia.
Vídeo demonstrando a participação feminina na Revolução de 1.932, ao som da marchinha “Paulistinha querida”.

Exposição virtual do MIS:
A mostra “A mulher na Revolução de 32” reúne 32 imagens e áudios exclusivos do Acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS) e fica disponível gratuitamente online na plataforma Google Cultural Institute. A exposição visa revelar o papel da mulher no momento em que o estado de São Paulo se rebelava contra a ditadura de Getúlio Vargas. Link abaixo:

https://artsandculture.google.com/exhibit/a-mulher-na-revolu%C3%A7%C3%A3o-de-32-museo-da-imagem-e-do-som/6wJSXg7DS8ZpKg?hl=pt-BR

Museu Francisco Veloso inaugura site

Print da página inicial do site do Museu de Cunha.

O Museu Municipal Francisco Veloso, localizado no casarão Rua Comendador João Vaz, no Centro Histórico de Cunha, inaugurou o seu site. Uma excelente iniciativa encabeçada por Sueda Carolina (estagiária do Museu) e pelo historiador Joaquim Roberto Fagundes.

O Museu foi idealizado e criado pelo professor e historiador João José de Oliveira Veloso (1945-2021) e é referência para pesquisa histórica local e regional, contendo diversos documentos do século XIX, além de artefatos de grande valor histórico para Cunha.

Para celebrar a sua inauguração e o 89º aniversário da deflagração da Revolução Constitucionalista de 1932, iniciada em 9 de julho, de grande importância para Cunha, o Museu está promovendo a “Exposição Virtual Revolução Constitucionalista de 1932 em Cunha – SP” (veja roteiro e links para acesso abaixo), um modo adequado de apresentar ao público a epopeia paulista, respeitando as restrições sanitárias para contenção da pandemia de COVID-19.

A Exposição ficará na web durante todo o mês de julho. Bem ilustrada e fundamentada, conta com textos dos historiadores João Veloso (“in memoriam”) e Joaquim Fagundes, além de fotos de peças usadas na Revolução de 1932, que estão guardadas no Museu. Conta também com depoimentos e áudios do movimento armado, além de fotos e mapas do conflito em território cunhense, extraídos do livro “Cunha em 1932”, publicado em 1935 e de autoria do ex-voluntário Clementino de Souza e Castro Junior.

A visita virtual à Exposição vale muito a pena, não só para os interessados no assunto, mas por aqueles que amam Cunha e querem conhecer um pouco mais desse episódio triste e marcante da nossa História local. Cunha foi um dos poucos fronts em que os paulistas obtiveram vitória contra as tropas da ditadura de Getúlio Vargas. E aqui também tombou Paulo Virgínio, um cunhense, caipira, civil, herói e mártir da causa paulista; que mesmo torturado, se recusou a ajudar as tropas da ditadura, preferindo a própria morte à desonra.

Exposição Virtual Revolução Constitucionalista
de 1932 em Cunha – SP

Museu Municipal Francisco Veloso
Rua Comendador João Vaz, s/nº – Centro
Telefone: (012) 3111-1499
E-mail: museufrancisoveloso.cunha@gmail.com

10 curiosidades sobre Cunha

Cunha: Cidades das Serras

1 – Seu antigo nome era “Facão”. Somente em 1.785, com a independência política-administrativa, passando a ser então um município, é que denominar-se “Villa de Nossa Senhora da Conceição de Cunha”, uma homenagem a Francisco da Cunha e Meneses, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo de 1.782 a 1.786, responsável pela outorga de sua elevação à condição de vila. A ereção da capela de Jesus, Maria e José, no bairro da Boa Vista, no ano de 1.724, é considerado o evento fundador.

2 – Possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba e é uma das maiores bacias leiteiras do estado. Por isso é tão comum encontrar deliciosos queijos artesanais pelas roças de Cunha. No passado foi grande produtora de toucinho, milho e fumo: produtos agrícolas que abasteciam a zona cafeeira do Vale do Paraíba. O turismo é atividade econômica recente, desenvolvida nas últimas décadas, impulsionada pela pavimentação da Estrada-Parque Paraty-Cunha. Seu passado econômico sempre esteve ligado à agricultura familiar e de subsistência e ao tropeirismo, já que era pouso obrigatório entre o sertão e o litoral. Era uma espécie de “celeiro do Vale”.

 3 – No passado, antes da chegada dos colonizadores portugueses, o planalto cunhense era povoado pelos índios Guaianás. Esse povo originário abriu vários caminhos ligando o planalto até a costa atlântica. Andejos, exímios caçadores e coletores, esse povo autóctone era nômade e migravam sazonalmente: no verão viviam na serra; no inverno desciam para beira do mar. Pessoas ligeiras no esgueirar-se pelas matas densas, de baixa estatura, falavam uma língua do tronco Macro-Jê.

 4 – É a Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, segundo projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, já em fase de aprovação. Isso se deve ao fato de Cunha receber, desde a década de 1.970, inúmeros ceramistas que utilizavam a queima de suas peças no forno Noborigama. De lá para cá, muitos outros artistas se instalaram em Cunha, produzindo peças reconhecidas nacionalmente, e transformando a cidade no maior polo de cerâmica de autor da América do Sul. Antes da chegada dos artistas-ceramistas, havia em Cunha as “paneleiras”: ceramistas, geralmente mulheres, que produziam peças utilitárias, para ser utilizado no dia a dia da vida caipira. Os vasilhames eram confeccionados através de técnicas ancestrais, de origem indígena.

5 – Cunha possui os maiores campos de lavandas do estado de São Paulo e os mais famosos do Brasil, fato que motivou a imprensa especializada em turismo em chamá-la de “a Provence paulista”. Um tanto exagerado o epíteto, tendo em vista que o município possui apenas dois campos de lavandas: o Lavandário e o Contemplário. São belos e dão um certo ar de paisagem incomum (pelo menos nos trópicos), mas não se comparam ao que há na França. Cunha possuía há alguns anos uma enorme frota de fusca, que chamava a atenção dos turistas e viajantes que passavam pela cidade. Seria Cunha a “capital do Fusca” também? Inúmeras reportagens sobre a relação do cunhense com esse carro, tão adequado às condições das estradas rurais do município, foram feitas. Até uma festa para celebrar o mais famoso auto da Volkswagen foi organizada: a “FusCunha”. Virou matéria no “Me leva Brasil”, quadro da revista eletrônica “Fantástico”, da TV Globo.

6 – Em 1.932 o município foi palco dos combates entre federais e paulistas, durante a Revolução Constitucionalista. A “Batalha de Cunha”, travada no estilo da Primeira Grande Guerra e com o auxílio da aviação, foi uma das maiores batalhas daquela guerra civil e uma das poucas em que as tropas paulistas venceram. Paulo Virgínio, trabalhador rural do bairro do Taboão, foi capturado, torturado e morto pelas tropas federais, que apoiavam manutenção no poder do ditador Getúlio Vargas. Por não ter revelado os caminhos que levavam às trincheiras paulistas – nem mesmo sob tortura – foi considerado herói e mártir da causa paulista e constitucionalista.

7 – É a maior produtora de pinhão de São Paulo. Isso só é possível porque o território cunhense é salpicado por araucárias (pinheiro brasileiro). Os produtores rurais aproveitam para catar e comercializar os pinhões que caem no outono, e, assim, ter uma renda extra com o extrativismo vegetal. A Festa do Pinhão, atualmente o maior evento turístico de Cunha, conta com feira de comidas típicas à base de pinhão, além de shows e atrações outras. As araucárias são nativas em Cunha, pois mesmo sendo típicas de climas frios e subtropicais, encontraram na Mata Atlântica das altas montanhas um refúgio ecológico propício para sua espécie.

 8 – Possui mais de 250 bairros rurais e seu território está cercado por três serras: do Mar, da Bocaina e da Quebra-Cangalha. O relevo é tipicamente montanhoso, área exemplar da paisagem de “mares de morros”. A associação de montanhas, rios e seixos dá origem há inúmeras cachoeiras, variando de tamanho e beleza. O clima é tropical de altitude, com ocorrência de geadas no inverno, mas muito úmido nas áreas mais altas, próximas à Serra do Mar, devido à ocorrência de garoas. Devido à salubridade do seu clima ameno, um sanativo para os tuberculosos e para os acometidos de outras moléstias respiratórias, fez o Governo Estadual transformar Cunha em uma Estância Climática em 1.948.

9 – Em seu território há duas unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo de Cunha) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. O rio Paraibuna nasce no município e o rio Paraitinga nele se encorpa. Ambos são os formadores do rio Paraíba do Sul, o curso d’água mais estratégico do país, por estar localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Possui várias fontes hidrominerais inexploradas, que brotam do seio do aquífero Cristalino, com destaque para as fontes do complexo das Águas Virtuosas de Santa Rosa, uma das melhores do mundo e a única explorada comercialmente até o momento.

10 – É o maior município do Vale do Paraíba em extensão territorial e o 11º do estado de São Paulo. Sua população está estagnada em torno de 20 mil habitantes há mais de um século, devido às perdas migratórias por razões econômicas e ao êxodo rural. Cunha é um dos berços e redutos da autêntica cultura caipira (paulista), que se manifesta no modo do povo falar, no jeito de andar e se vestir, no modo de ser e viver, nas construções, nas tradições religiosas seculares, nas danças (congada, jongo, são-gonçalo, moçambique, catira etc.), folias (de Reis e do Divino) e cantigas de viola, na culinária, com uma variedade deliciosa de doces e pratos salgados, que alimentam a alma e o espírito. Conhecer Cunha, já diziam os antigos cientistas sociais que estudaram o lugar, é mais que uma viagem no espaço; é uma viagem no tempo! Uma possibilidade de reencontro consigo mesmo e com a paz perdida na confusão da “civilização urbana”.