Museu Francisco Veloso começa a restaurar seus objetos históricos

O Museu Francisco Veloso deu início à restauração de vários artefatos históricos que fazem parte de seu acervo. Essa atividade tem por objetivo preservar os objetos indispensáveis para que a história de Cunha continue sendo contada, que é a missão fundamental do museu.

O “Boi Chimemé”, protagonista da cultura popular cunhense, sobretudo nos dias em que se brinca o carnaval de rua. Esta peça, parte do acervo do Museu Francisco Veloso, encontra-se restaurada e em breve voltará a ser exposta. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

O nosso museu, desde quando foi fundado pelo professor João Veloso, nos anos de 1970, tem a missão de preservar e difundir a história e a cultura de Cunha, tanto que sua fundação coincide com a do Centro de Cultura e Tradição de Cunha. São instituições complementares. O Museu Francisco Veloso é o guardião do nosso passado. Assim, a restauração é parte essencial dessa missão, pois permite que peças fragilizadas pelo tempo voltem a ter estabilidade e possam ser expostas e estudadas.

Sala destinada à restauração do acervo do Museu Francisco Veloso. Batizada de “Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes”, museólogo nascido em Cunha. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

A restauração visa preservar e revelar valores estéticos e históricos dos objetos do acervo, respeitando sua autenticidade. Isso significa que o trabalho não é apenas estético, mas também científico, garantindo que o público e os pesquisadores tenham acesso a informações fiéis que esses objetos trazem. É um trabalho minucioso e paciente, que exige uma equipe qualificada, para que atue com cuidado para não comprometer o valor histórico dos artefatos que estão em restauração. A restauração busca não apenas conferir estabilidade, mas recuperar, na medida do possível, as informações contidas nesses objetos. Isso significa que cada detalhe recuperado — uma inscrição, uma cor original, um símbolo –, pode revelar aspectos esquecidos ou detalhes que ajudam a montar o quebra-cabeça do passado, este país que não nos pertence, como bem alertou o sociólogo David Lowenthal.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foi pensando nessa questão que o Museu criou, recentemente, um espaço exclusivo, em suas dependências, destinado à restauração. Mais do um ambiente, o “Ateliê Restauro” conta com uma equipe qualificada para a empreitada: Thales Gayean é museólogo, historiador e técnico em restauro e conservação, Maiara Fernandes é graduanda em Museologia e Isabele Ceddia é cientista social e formada em artes visuais. A sala onde está o Ateliê foi batizada com o nome do cunhense Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, museólogo, arqueólogo e historiador do Departamento de História na Universidade de São Paulo (USP). Ulpiano é um dos maiores nomes, no Brasil, no campo dos estudos sobre cultura material, cultura visual e museus. O trabalho técnico consiste, entre outras coisas, em obturações, repinturas, remoção da oxidação, limpeza e hidratação dos artefatos. Algumas obras já foram restauradas, como as esculturas que representam a Congada de São Benedito, confeccionadas pelo ceramista Luiz Toledo, na década de 1990.

Esculturas do artista cunhense Luiz de Toledo, peças que representam a Congada de São Benedito. Em processo de restauro no Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Quando falamos de história local, a restauração ganha um papel ainda mais afetivo. Objetos preservados contam histórias de famílias, comunidades e tradições que moldaram a identidade cunhense. Relíquias doadas por famílias, álbuns de fotografia, obras e esculturas de artistas locais, utensílios e tralhas do tropeirismo, objetos militares ligados à Revolução de 1932 etc. Muitas famílias e pessoas de Cunha têm confiado e depositado ao museu suas relíquias e artefatos outros de importância histórica. Foi assim que o professor João Veloso constituiu o acervo do MFV. E essas doações continuam a acontecer, pois a relação de confiança e identificação dos cunhenses com o seu museu é vigorosa o suficiente para ter sido perene até agora (e já se vai quase meio século de existência do Museu). E tudo indica que irá continuar.

Cangalha, essa tecnologia tão cara ao tropeirismo. Batizou uma serra e marcou época. Peça será restaurada pelo Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Atualmente, o Museu tem se colocado como um espaço de visitação, recebendo muitos turistas que vêm passear em Cunha. Assim, o seu acervo e as peças restauradas ajudam a fortalecer o turismo cultural e, por consequência, a economia da cidade, pois atraem visitantes interessados em conhecer a história local, elemento indispensável para uma imersão completa do turista ao espaço que está consumindo. E Cunha tem muita história para contar. São mais de 300 anos.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Trazer novos olhares para assuntos dados como encerrados. Pôr em evidência as negligências (e não foram poucas). O Museu Francisco Veloso tem buscado criar, de forma crítica e através da História, um sentimento de pertencimento do cunhense com sua terra, mostrando às novas gerações de onde vieram, como vieram e quais valores foram construídos ao longo do tempo. É uma proposta de longa duração e trabalhosa, mas necessária. Viva o nosso Museu!

Maquete do casarão Nenê Felipe, na rua Comendador João Vaz, onde está instalado o Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foto de capa: Relógio carrilhão que pertenceu ao antigo Paço Municipal, sobrevivente do incêndio de 1961. Hoje, parte do acervo do Museu Francisco Veloso. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

Tocando em frente

Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP)
Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.

Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.

Hoje, tudo isso é raridade…

As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.

A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.

A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.

Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.

Cunha e o café

O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.

“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.

Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.

Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.

É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.

Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.

Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.

Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.

Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.

Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.

No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.

A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.

É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.

A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.

Referências:
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992.
SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006.
SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942.
SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Cunha no ano da Independência do Brasil

Os relatos de viagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) trazem um valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país: o Vale do Paraíba.

Em 1822 realizou sua segunda viagem pela Província de São Paulo e nos legou diversos relatos sobre um tempo que já se foi… Nessa segunda viagem saiu do Rio de Janeiro e foi em direção a Minas. De lá, desceu a Mantiqueira, passou por Cachoeira Paulista e Guaratinguetá. Tomou rumo para Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, finalmente, São Paulo. Na volta, retornou a Mogi das Cruzes, passou por Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. De Taubaté partiu em direção à capital do Brasil, passando por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz.

Praça da Matriz de Cunha, por volta de 1900. Foto: Museu Municipal. Digitalização e coloração: Giorgio Cerutti.

Muito embora não tenha passado pela então Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, Saint-Hilaire (2002, p. 118) não deixou de registrar informações sobre o nosso município. Pernoitando em um rancho de tropeiros, antes de chegar a Bananal, junto com seus dois criados – Firmino e Laruotte –, dois índios montados e um tropeiro, se deparou com dois soldados que iriam assumir guarda em uma barreira criada na estrada entre Cunha e Paraty e deles extraiu as seguintes informações, alguns meses antes da Independência do Brasil:

Rancho de Pedro Louco, 24 de abril, 4 léguas – No rancho sob o qual passamos a última noite, estavam dois homens da Vila de Cunha que vão assumir a guarda de uma barreira recém-criada nesta estrada. Segundo o que me informaram fica a cidade de Cunha situada perto da grande cordilheira, a nove léguas de Guaratinguetá, a quatorze do pequeno porto de Parati e cinco das nascentes do Paraíba. Como se acha em terreno baixo, o açúcar e o café não progridem em suas redondezas, que contudo produzem em abundância o milho e outros gêneros dos quais parte embarca em Parati para o Rio de Janeiro. De Guaratinguetá enviam também gêneros a Parati, fazendo-os passar pela Vila de Cunha.”

Saint-Hilaire, 24 de abril de 1822

Há outras impressões mais ou menos do mesmo período. Ficaremos, devido a sua precisão, com a do geógrafo e sacerdote português padre Manuel Aires de Casal (1945, p. 241-242), no seu “Corografia Brasílica”, lançado em 1817:

Cunha, em outro tempo Facão. Villa ainda pequena, e que com facilidade pôde ser considerável, situada na vizinhança do Rio Jacuhy sobre a serra, oito léguas ao Norte de Paraty, ornada com a Igreja Matriz, de que he Padroeira N. S. da Conceição. O clima he sadio, as noites de Junho, e Julho frias. He o lugar da Zona Torrida, onde ategora tem prosperado melhor as flores, e arvores frutiferas oriundas da Europa. Nos seus contornos ha extensos pinheiraes; e seus habitantes cultivam mantimentos do paiz, recolhem abundancia de milho, e criam em grande quantidade gallinhas, e porcos, sua riqueza. O caminho, que communica esta Villa com a do Paraty, he péssimo. Quando os recoveiros transitarem por elle com a mesma facilidade, e segurança, que os do Cubatão entre S. Paulo, e Santos, então uma terá florescimento, outra maior commercio.”

Padre Manuel Aires de Casal, 1817
Parte de uma carta da Província de S. Paulo, do início do século XIX, mostrando a localização de Cunha, os rios e os caminhos para o mar. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

População

A população da Vila alcançava 2.818 almas em 1823. A economia prosperava, mas de forma modesta. O café ainda não tinha alcançado o seu auge na região. E Cunha, que possuía função complementar, aguardava ser alavancada junto, com o arranque econômico que atingiria o Vale. Predominava entre as atividades, conforme descrição da época, presente nos Maços de População, o seguinte: “tem hum sitio em q. fas sua plantação e seva capados”. A mão de obra era basicamente escrava, contingente que atingia cerca de 44% de toda a população do município. A maioria era formada por escravizados africanos, porém é de se supor que ainda havia entre eles indígenas, descendentes dos povos originários.

As barreiras de alfândega que existiam no caminho até o mar eram ocupadas por soldados, que fiscalizam e faziam cumprir a taxação, daí a razão de ser a militar a profissão de maior ocupação entre os cunhenses nesse tempo. Não é uma coincidência ter Saint-Hilaire se deparado com dois deles, que vinham assumir posto em Cunha, quando pernoitou no rancho de Pedro Louco.

Fonte: Arquivo Público do Estado de S. Paulo, Maços de População da Vila de Cunha, 1823.

Na década de 1830, a produção de café se torna dominante no Vale do Paraíba, superando o cultivo de cana-de-açúcar, com quem dividia o uso e ocupação do solo. De 1823 a 1836, a população cresce. Reflexo do avanço da cafeicultura na região e do lastro de desenvolvimento que provocava. Passa de 2.818 para 3.403 habitantes. Chega a 559 “fógos” (sinônimo de moradia, casa, habitação, residência). É um novo tempo não só na política, mas na economia e na demografia. Recebe a região grandes contingentes humanos: de brancos, aventureiros e escravizados de outras partes do Brasil. Do ponto de vista ambiental é um desastre: liquidação quase completa da Mata Atlântica, que reduzir-se-á aos sertões e as cordilheiras.

Tropeirismo

O surgimento de Cunha, outrora Facão, que remonta às primeiras doações de sesmarias nos fins do século XVII, está relacionado diretamente com os caminhos, antigos, que permeavam o planalto do Paraitinga e do Paraibuna. Ponto de parada entre Paraty, no litoral, e as cidades do sertão: Guaratinguetá e Taubaté. Portanto, aqui, mais que em outros lugares, floresceu o tropeirismo. O dinamismo dos fluxos de gentes, mercadorias e ideias animou os primeiros anos da Freguesia do Facão, que vingou na Serra do Mar. Os que foram se estabelecendo, margeando a Estrada Real, foram se nutrindo desse movimento das tropas e do rol de atividades adjuntas que dessa circulação vai-e-vem advém.

Um dia comum em uma cidade paulista no início do século XIX. “San Bernardo”, aquarela sobre papel. 1827.
Autor: Charles Landseer. Fotografia: Fernando Chaves. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Por isso, a abertura de novas vias ou a modernização e retificação das antigas, sempre representava um duro golpe econômico e demográfico sobre o Facão. Essas decadências podem ser percebidas nos estudos genealógicos, como foi na pesquisa do historiador Carlos da Silveira (1938, p. 92): “As tropas, que eram a sua vida, começaram a se desviar para outras zonas e as velhas famílias, em fins do século XVIII e princípios do XIX, trataram de se ir localizando ao longo do caminho novo, de Lorena ao Rio. Numerosos habitantes, facãozenses puros, deslocaram-se da terra natal, povoando assim as margens da nova estrada, em territórios que vieram a constituir os municípios paulistas de Lorena até a fronteira fluminense, e, passando mesmo essa fronteira, estenderam-se até o Rio Piraí (…)”.

Mas Cunha sempre se reinventa. A natureza nos é generosa e disposição para o trabalho o cunhense sempre teve, desde sempre. Em 1836, chama a atenção o grande número de ferreiros entre as artes e ofícios de que se ocupavam os cunhenses. Havia 11 deles trabalhando em suas oficinas na Vila. Número bem acima dos municípios da região, inclusive daqueles que possuíam uma população ou um espaço urbano maior. Isso mostra que mesmo com a inauguração do caminho novo da Estrada Real ou do Caminho Novo da Piedade, os valeparaibanos não negligenciaram a antiga via de acesso ao litoral, que passava por Cunha e findava no porto de Paraty. Antes do café tomar conta, permaneceu essa via como rota de escoamento das riquezas do Vale.

Um tropeiro e a sua tropa, em aquarela de Jean Baptiste Debret. Carvão, 1822, aquarela. Fonte: Museus Castro Maya/IBRAM/MINC. Fotógrafo: Jaime Acioli

Por isso, Cunha não desapareceu do mapa. Além de sua produção agrícola, funcionava como entreposto comercial. Os ferradores de Cunha – produzindo estribos, esporas, ferraduras, cravos e pregos, fivelas, trempes, panelas e toda sorte de utensílios de ferro – davam assistência logística ao transporte de cargas e ao aparato das tropas. A nossa cidade, ainda que minúscula, ocupava uma função naquela rede urbana pretérita.

Economia

A vocação de Cunha para pecuária é antiga. O economista Francisco Vidal Luna (1998, p. 135), ao estudar os municípios paulistas entre os séculos XVIII e XIX, observou sobre essa atividade o que segue: “em 1804 sua importância maior ocorria no Vale do Paraíba, com 14,8% dos proprietários e 22,8% dos escravos, e no Caminho do Sul, com participações de 14,0% e 26,1%, respectivamente. No Vale do Paraíba destacavam-se Cunha e São Luís do Paraitinga (…)”. Todavia, naquele tempo predominava a suinocultura; e não a bovinocultura, como atualmente, com Cunha sendo a maior bacia leiteira do estado.

“Loja de carne de porco”, gravura de Jean B. Debret, representando o Rio de Janeiro do século XIX. Acervo do Museu Castro Maya.

Os dados estatísticos mais próximos, de 1836, apontavam que a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha figurava entre as maiores produtoras de milho da Província de S. Paulo: com 87.988 alqueires, ocupando a 9ª posição. Além do cereal nativo da América, era destaque a produção de fumo com 649 arrobas, 2ª posição, atrás somente de Curitiba, que na época pertencia ao território paulista. Por ser um produto básico da culinária colonial, o toicinho era um produto comercializável e Cunha, com uma produção de 8.905 arrobas, ocupava naquela época a 1ª posição entre os municípios paulistas, correspondendo a 68,5% de toda produção provincial. Essa grande produção em nosso município indica o quanto a economia local estava ligada às culturas e criações que fugiam do sistema de plantation, ainda que a mão de obra fosse escrava em sua maioria. Junto com o cultivo de feijão, tabaco e milho e outros gêneros, criavam-se porcos e galinhas. Mais do que base da economia de subsistência, esses itens, para Cunha, destinavam-se à exportação e geração de receita. Seguiam para a Corte, via porto de Paraty, e para São Paulo e outras cidades do Vale, nas cangalhas.

Dos cultivos que prosperavam a província, Cunha em nada se destacava. Müller anota o que havia em nossas redondezas em termos de estabelecimentos agrícolas: “5 engenhos de assucar, em ponto pequeno, 2 fazendas de criar, 2 fazendas de café”. Número muito aquém dos municípios vizinhos. O motivo: o clima. A geomorfologia do nosso território, cercado por três serras, intensificava o frio característico do clima tropical de altitude. A geada, visita constante em nossos invernos, baldava as culturas tropicais nestas bandas. Entretanto, na descrição geral aparece a ressalva: “n’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vacum, e cavalar. Não tem terrenos devolutos.”. O café e o açúcar não fizeram a riqueza dos fazendeiros e sitiantes de Cunha, que de alguma forma, encontraram o seu nicho econômico como fornecedores de alimentos para região e para outras cidades maiores, envolvidas que eram em outras atividades agrícolas ou comerciais, mais rentáveis e tropicais.

Fazenda da Barreira, antes de ser demolida, no bairro do Taboão. Antiga alfândega para as mercadorias do Vale. Foto: Marcos Santilli. Data: década de 1980.

Após a Independência do Brasil, o Vale do Paraíba se tornará a região mais próspera do Império nascente. O café irá alavancar todas as localidades valeparaibanas. Até aquelas que não produziam café, como Cunha. No século XIX Cunha conhecerá o seu auge econômico e também viverá a sua decadência. Um século de muitas nuances, mudanças, e que merecerá, em breve, um texto só sobre esse período.

Referências:
AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Maços de População – Vila de Cunha – 1823. Disponível em: < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/web/digitalizado/textual/macos
_populacao >, acesso em 5 set. 2022.
DÓRIA, Carlos A.; BASTOS, Marcelo C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
LUNA, Francisco V. São Paulo: População, Atividades e posse de escravos em vinte e cinco localidades – (1777-1829). Estudos Econômicos. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 99 -169, jan/mar., 1998. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ee/issue/view/877 >, acesso em 10 set. 2022.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3 ed. São Paulo: Governo do Estado, 1978.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Tradução de Afonso de E. Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
SILVEIRA, Carlos da. Apontamentos para o estudo de uma grande família: os Lopes Figueira, do Facão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, v. 35, p. 91-130, dez., 1938.
SOBRINHO, Alves M. A Civilização do Café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.

Um rancho tropeiro no Vale Paraíba do século XIX

“Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba”. Data: década de 1840. Pintor: Miguelzinho Dutra. Fonte: Brasiliana Iconográfica.

Desde o século XVIII, o tropeirismo foi uma atividade econômica e um ofício. Eram eles que interconectavam as distantes vilas e freguesias do sertão com os portos de abastecimento e escoamento da produção no litoral. Era um serviço essencial. Antes deles, usavam-se escravizados, eram os lombos negros e indígenas que levavam mercadorias de um lugar para outro. Mas a limitação do peso da carga e o cansaço frequente dos transportadores, submetidos a uma atividade desumana, se constituíam em um embaraço logístico. Assim, as tropas de muares surgem como solução inevitável para essas questões, tornando a expansão espacial da colonização portuguesa, cada vez mais longe dos seguros portos, possível e sustentável. É a resposta do colonizador às dificuldades que o meio físico impunha à empresa metropolitana, que vai se dando lentamente, “com a consistência do couro, não a do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio.”, nos dizeres do brilhante Sérgio Buarque de Holanda. A tropa é parte dessa resposta.

A origem das tropas de muares se relaciona com a necessidade premente de abastecimento, à medida em que o povoamento se interiorizava no Brasil colônia. Assim, pode-se traçar um paralelismo com o tropeirismo e as atividades ligadas a mineração. Mas não só isso. Tanto é que vão permanecer atuantes e como profissão de prestígio, mesmo após o declínio da atividade mineradora. Em um universo marcado pelas lonjuras, pelas estradas péssimas, a comunicação entre os sítios, fazendas, povoados, freguesias, vilas e cidades dependia desse meio de transporte fundamentado na tração animal, nas trocas comerciais e na relação entre produção, escoamento e reposição. Por isso, até meados do século XX, com a expansão das rodovias, permanece como um ofício de extremo prestígio e rentável.  Vai se constituindo em tradição passada de pai para filho, garantindo assim a formação de gerações familiares inteiras que tiveram a sua existência ligadas ao tropeirismo.

O tropeiro é uma sucessão social, uma evolução do bandeirante de outrora, conforme aponta HOLANDA (1994, p. 132-133): “Com as feiras de animais de Sorocaba, assinala-se, distintamente, uma significativa etapa na evolução da economia e também da sociedade paulista. Os grossos cabedais que nela se apuram, tendem a suscitar uma nova mentalidade na população. O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou mesmo a fraude, encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora. À fascinação dos riscos da ousadia turbulenta substitui-se o amor às iniciativas corajosas, mas que nem sempre dão imediato proveito. O amor da pecúnia sucede ao gosto da rapina […]”.

Era mais que só atividade econômica ou profissão, tal como conhecemos hoje, mas um modo de vida. E havia um jeito de ser. Eram “homens de palavra”. Se eles falassem, empenhavam-se ao máximo para cumprir. O valor moral de um homem se media pelo cumprimento das suas promessas. E foi assim que fizeram sua fama entre as mais distintas classes sociais e venceram o esquecimento imposto pelo tempo. Era gente rústica, mas nunca rude. Impressionaram o viajante e naturalista francês SAINT HILAIRE (1974, p. 27) com o fino trato que dispensavam aos demais: “As tropas passavam incessantemente pelo rancho. Em França, traria isto gritos, injúrias, disputas. Aqui, tudo se passa em paz. Todos trabalham sem o menor barulho. O mais sujo tocador de porcos fala com doçura e polidez. Trocam-se entre desconhecidos pequenos obséquios necessários, e todos vivem na melhor harmonia.  Nos encontros das estradas, ninguém jamais deixa de saudar um viandante.  Quando se vai tomar lugar num rancho, cumprimentam-se os primeiros ocupantes, e logo se trava a conversação.”

A necessidade de descanso das tropas de muares e de abrigo, levaram os tropeiros a fazer ranchos e estabelecer pousos ao longo dos trajetos. Habitações rústicas e coletivas, marcadas pelo contato, das trocas de ideias, saberes, costumes e informações. Ambiente de trocas e fermento de novos arranjos culturais. Diz SAINT HILAIRE (1974, p. 49): “quando chegam os tropeiros, arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar menor lugar possível. Cada tropa acende fogo, à parte do rancho e faz cozinha própria. Antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre a região que percorreram e falam de aventuras amorosas. Cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estriadas ao chão sobre couros”. A permanência transitória dos hóspedes não permitia melhoramentos outros. Tudo ali é funcional e sob medida. De muitos pousos se fizeram freguesias, vilas e cidades. Um exemplo é a vizinha Lagoinha. Devido à centralidade que exerciam nos tempos colonial e imperial, posição advinda da força econômica e da capacidade que tinham de integrar e suprir. Os ranchos e pousos eram os conectivos que davam ligamento à imensa rede de estradas e caminhos, em franca expansão, do continente.

Os pousos, os ranchos faziam parte desse maravilhoso universo, que vem lentamente desaparecendo… Ficam as memórias, o exemplo da saga, o saudosismo dos descendentes e tradicionalistas. Mas tudo o que podem fazer agora é rememorar. Jamais terá como reproduzir o que foi o tropeirismo. O contexto, o cenário, a sociedade, a economia, as múltiplas relações que moldaram esse jeito de ser, esse ofício, ficaram para trás. É página virada. Mas a força da memória, a necessidade de encontrar identidade em um mundo cada vez mais perdido, a busca de significado e ressignificações (com fins turísticos) ficará e poderá até se ampliar.

Referências:

DUTRA, M. Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba. [184-]. Aquarela sobre papel, 41,9 x 26,7 cm.

HOLANDA, S. B. de. Monções. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1945.

______. Caminhos e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

SAINT-HILAIRE, A. de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.

Imagem disponível no acervo digital da Brasiliana Iconográfica: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19486/pouzo-em-agoa-preta-hua-legoa-adiante-de-pindamoinhangaba

26 de maio de 1.901 – Fundação da Igreja Metodista do Jericó

Um lugar aprazível em meio ao “mar de morros”. Uma estradinha de terra, daquelas que achamos que o destino está na próxima curva, vai coleando montanha acima. Devagar e sempre, por questão de prudência, o protetor de cárter não pode ser deixado em alguma pedra do caminho, você vai subindo quando, de repente, uma toada. É uma belíssima cachoeira que descortina abaixo da estrada. Toda espumante, formada pelo encontro do riacho descente com um lajedo. Afloramento rochoso, idêntico ao dos cumes dos outeiros que circundam os vales de lá. Nem sempre vistos, nos fins de tarde, os topos dos morros costumam ficar encobertos por um nevoeiro frio, típico da Serra do Mar, que sopra do litoral em direção ao continente. O verde claro e brilhoso das pastagens de braquiária, entremeadas por capões mais verdes ainda de Mata Atlântica, não deixam dúvidas quanto à atividade econômica: pecuária de leite e corte. Nem sempre foi assim, já houve época em que os morros íngremes e férteis eram dominados por lavouras consorciadas de milho, feijão, abóbora, fava. Ainda é possível observar velhos casarões de taipa, no fundo dos vales, dessa primitiva zona de povoamento cunhense, do tempo em que as unidades agrícolas iam brotando sertão adentro, após a outorga das sesmarias. Estamos no Jericó! Um dos muitos (estima-se em mais de 200) bairros da zona rural cunhense. Para quem prossegue na escalada, na estrada que segue, depara-se com belo e nada modesto templo, com uma torre central pontiaguda apontando para as nuvens. Chama a atenção.  É o elemento que mais se destaca na paisagem e pode pregar uma peça nos mais desavisados. Não é dedicado a nenhum padroeiro, contrastando com os demais bairros rurais do universo cultural paulista, que conforme aponta QUEIROZ (1973, p. 4), os povoados têm na capela católica o seu núcleo central e no seu padroeiro o fator distintivo no aspecto religioso, ganhando assim identidade própria em seu contexto, peculiaridade. Mas no bairro do Jericó a igreja não é católica romana. Atualmente existe na frente do templo o símbolo da “cruz e da chama” e uma placa indicando que é um local de culto metodista, movimento religioso protestante que teve origem no século XVIII, na Inglaterra. Trata-se da Igreja Metodista do Jericó, entidade que garante singularidade religiosa a essa comunidade rural cunhense, cuja história centenária iremos tratar neste artigo.

Para se entender o estabelecimento bem-sucedido de uma igreja protestante em um sertão do católico Vale do Paraíba é preciso, primeiramente, se fazer a contextualização histórica do período da fundação da igreja, a saber, o final do século XIX. E, no caso, devemos destacar dois fatores: um de ordem política e outro de ordem econômica. Na questão política, o final do século XIX no Brasil é marcado pela mudança de regime, deixando o país de ser uma monarquia constitucional sui generis (com um quarto poder, o Moderador) e passando a ser uma república, nos moldes preconizados pelo Positivismo, movimento político e filosófico que aguçou setores golpistas do Exército a proclamarem a “Republica dos Estados Unidos do Brazil”, em 15 de novembro de 1.889. Fruto do novo regime, a Constituição de 1.891 estabeleceu a separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e do Estado brasileiro, garantiu a liberdade de culto e estabeleceu os cartórios de registro civil, serviço até então sob responsabilidade do clero local. Muito embora o status oficial gozado pela Igreja Católica no Império não fosse um fator que impedisse o proselitismo protestante, considerado ilegal pela Constituição de 1.824, é indubitável que o resguardo jurídico dado pela nova carta magna renovou o ânimo e deu mais dinamismo às atividades missionárias evangélicas, desencorajando ações persecutórias dos católicos ou do clero contra os protestantes a partir de então. No tocante à questão econômica, há dois fatos relevantes no recorte regional: a falência da já cambaleante cultura cafeeira valeparaibana, seja pelo esgotamento dos solos ou pelo fim do regime escravagista em 1.888, este desferindo um golpe fatal à fastigiosa atividade econômica que abarrotou os cofres do Império em outros tempos (HOLANDA, 1996, p. 282). Outro fato apontado pelo historiador Sérgio Buarque de HOLANDA (1996, p. 276) como crucial para o desenvolvimento regional é a interligação da Estrada de Ferro do Norte com a Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa junção conectou por ferrovia as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, servindo assim como um meio de transporte moderno e mecanizado para as cidades do Médio Vale do Paraíba. “A inauguração oficial do encontro entre as duas ferrovias se deu em 8 de julho de 1.877, com festas. Porém, tanto a São Paulo Railway, quanto a Estrada de Ferro D. Pedro II, utilizavam bitola larga (1,60m), o que exigia baldeação de composições para poder seguir até Santos ou até o Rio de Janeiro.” (ESTRADA, 2018). Apesar das dificuldades operacionais para o pleno funcionamento início, essa nova linha de comunicação levará à decadência as cidades do Alto Vale, como Cunha, pois irão perder suas funções de entrepostos de escoamento da produção do Médio Vale até os portos do litoral.

No entanto, no Alto Vale, as atividades tropeiras continuaram a existir e a servir à logística da distribuição da produção, pois era o único meio de transporte capaz de vencer os péssimos caminhos e trilhas vicinais que existiam. Ademais, conforme observou STRANFORINI (2001, p. 34-35), o tropeirismo resistiu até meados do século XX, com o advento do modal rodoviário, pois a rede ferroviária brasileira era pouco abrangente, tímida e seu funcionamento apresentava sérias deficiências estruturais. O tropeiro era o mediador entre o mundo urbano e o bairro rural, este quase sempre isolado e alheio às exterioridades. Por isso, “os tropeiros serviram de elemento integrador. Por onde passavam, eram os festeiros, tocadores de viola e sanfona, emissários oficiais, transmissores de notícias, recados e receitas.” (CARPEGEANI; REZENDE FILHO, 2009). Em Cunha e em outros municípios da região o tropeirismo resistiu. Eram indispensáveis, dadas as conjunturas geográficas e econômicas. O débâcle da economia cafeeira valeparaibana somada à inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil resultaram na perda de função histórica que esses municípios exerceram desde o século XVII. Acarretou a estagnação econômica dessas cidades serranas, mas a economia agrícola de subsistência resistiu e permaneceu ante à nova configuração econômica. Assim, a venda do excedente da produção agrícola passou a ser o meio de subsistência dessas “cidades mortas”. E essa atividade produtiva nunca declinou. A suinocultura voltada à produção de toucinho foi a salvação de muitas fazendas. Houve ainda tentativas esporádicas de diversificação da produção, entre as tais podemos citar a introdução da vinicultura, como no caso do município de Cunha (VELOSO, 2010, p. 426-428). Apesar do relativo sucesso, foram efêmeras demais para produzir um impacto econômico positivo. Toda a produção excedente das regiões serranas continuou a escoar, abastecer e alimentar o Médio Vale e litoral. E para quase tudo se usava as tropas. Não havia outro meio de transporte disponível. Agentes das novidades que eram, serão os tropeiros que trariam o Metodismo para Cunha. A nova fé trilharia os antigos caminhos e pousos, em um tempo que o acesso era difícil, as lonjuras imperavam e a comunicação era na base do grito ou da fumaça.

Uma das vias de comunicação entre o litoral e o sertão, que foram imprescindíveis para interiorização do povoamento, era a rota que ligava Paraty, porto do litoral fluminense, com Taubaté, cidade do Vale do Paraíba. A então vila de Taubaté foi o principal centro do bandeirantismo regional (MARIOTTO, 2009). Essa rota, apesar de ser um caminho muito antigo, que remonta ao século XVII, ainda era utilizada pelos tropeiros cunhenses, luizenses, paratienses etc.  no final do século XIX. Os bairros rurais da porção oeste e sudoeste de Cunha utilizavam com muita frequência essa rota, para escoar parte da produção para centros urbanos maiores e mercados regionais. E será por esse caminho colonial que os pregadores itinerantes metodistas chegarão a Jericó (SANTOS, 2013, p. 56). A exemplo do cavaleiro e missionário John Wesley, o diácono José Celestino de Andrade, natural do Pará, e o pastor Justiniano Rebelo de Carvalho, de origem portuguesa, porém radicado em Belém do Pará, também cavalgaram serras e lugarejos para levar as boas-novas de salvação. Eram os “bandeirantes de Cristo”, que vão percorrendo os sertões do Vale do Paraíba em busca das “dracmas perdidas”, um circuito de pregação e provação por terrenos íngremes, trilhas sinuosas e comunidades nem sempre amistosas à pregação protestante.

A brochura comemorativa do 105º aniversário da Igreja Metodista do Jericó (LEITE; ALMEIDA, 2006) traz em sua 5ª página uma descrição sobre a implantação do Metodismo na região, no final do século XIX. Três famílias tropeiras são apontadas como as precursoras: Eufrásio, Almeida e Monteiro de Campos. Elas costumavam viajar muito para Taubaté, a fim de fazer seus negócios e pousavam no bairro do Boqueirão (entre Lagoinha e Taubaté), um dos locais onde já havia um ponto de pregação metodista (SANTOS, 2013, p. 57). Conta-se que Benedito José de Almeida, tendo ouvido a mensagem evangélica, se entusiasmou e convidou os missionários J. C. de Andrade e J. R. de Carvalho para pregarem a Palavra na casa de seu irmão Lethargino José Almeida, morador do bairro da Mandinga. O primeiro culto evangélico no município de Cunha ocorreu em 18 de março de 1.899, conforme relatou ao Expositor Cristão o pregador J. R. de Carvalho (BARBOSA, 2005, p. 270). Uma manhã de sábado, em que, nos dizeres do missionário, “pela primeira desde que há mundo, foi o Evangelho ouvido em Mandinga”. Esse relato confere com as notas de KENNEDY (1928, p. 111), em que consta que no ano da fundação da igreja, já havia transcorrido dois anos desde o início da atividade missionária na região. Os cultos e visitas pastorais foram ganhando regularidade. Cada vez mais e mais a vizinhança se achegava para ouvir as pregações. As casas dos primeiros metodistas se transformaram em pontos missionários. Devido à grande quantidade de crianças, logo se organizou a primeira escola dominical, voltada à educação religiosa e doutrinária. Muitos foram abraçando a nova fé e, com a seara em expansão, o Rev. J. R. de Carvalho foi incumbido de visitar a comunidade trimestralmente, para pregar o Evangelho, ministrar a eucaristia, realizar batismo e fazer profissões de fé. Entre os primeiros membros recebidos à comunhão da Igreja Metodista estão: Lethargino José de Almeida, José Artilino e José Monteiro de Campos (“Juca Tomás”), que doaria “um quarto de terras” (pouco mais de 6 mil metros quadrados) para construção do futuro templo, já que a adesão de novos fiéis à congregação prosseguia. Os números eram animadores: havia cultos com a participação de 300 pessoas e Escola Dominical com mais de 60 pessoas (BARBOSA, 2005 apud SANTOS, 2013, p. 57). A “pérola de grande preço” havia chegado a Cunha. E chegado para ficar.

Com o trabalho missionário em expansão, logo houve a necessidade de se fundar uma nova igreja local, para organizar melhor as atividades eclesiais. Além disso, mesmo sendo apenas uma congregação, com alguns pontos de pregação, já era, em números de membros, a maior comunidade metodista do Brasil. Assim, a fundação da Igreja Metodista do Jericó ocorreu em 26 de maio de 1.901. Entende-se por fundação, na organização eclesial metodista, a independência de uma congregação em relação à igreja matriz. Jericó foi uma congregação da Igreja Metodista de Taubaté, sua matriz, até conseguir a autonomia, constituindo-se, desde então, em uma igreja autônoma e responsável por sua administração política, pastoral e econômica. Em suas notas sobre o ano de 1.901, assim escreve KENNEDY (1928, p. 109 e 111): “A 26 do mesmo mez foi organizada a Egreja de Cunha, Estado de S. Paulo, com 69 membros, pelo rev. Wolling. Havia já dois annos que o sr. J. R. de Carvalho tinha sido convidado para ahi pregar o Evangelho nos logares chamados Abóboras e Mandiga. Desde então o trabalho foi se desenvolvendo, sendo visitado de 3 em 3 mezes pelo sr. Carvalho, dando como resultado, ou fruto do seu ministério, uma egreja de 69 membros.” A construção do templo não foi imediata, por isso, informa KENNEDY (1928, p. 121), que o lançamento da pedra fundamental do templo ocorreu em 30 de maio de 1.904. Esse templo primitivo era bem rústico, uma capela de pau-a-pique coberta com sapé (LEITE; ALMEIDA, 2008, p.2). No dia 4 de agosto de 1.907 é organizada a “Sociedade Auxiliadora de Senhoras na Egreja de Cunha com 18 sócias”, mais uma informação dada por KENNEDY (1928, p. 132). A Sociedade de Senhoras, organização feminina adulta e interna da Igreja Metodista, se constitui em um verdadeiro esteio da atividade pastoral da igreja, sendo a responsável pela ação social e caritativa no âmbito local. É curioso que notícias de organização de Sociedade de Senhoras em Jericó irão se repetir: em julho de 1.920 e em maio de 1.926, só que nessa última aparece Sociedade Missionária de Senhoras. Teriam sido refundações? KENNEDY (1928, p. 275 e 315) não fornece maiores detalhes. Já em 1.909, durante a 24ª Sessão da Conferência Anual Brasileira, em Piracicaba (SP), um dos assuntos tratados pelos ministros e delegados presentes é a reconstrução do templo de Cunha (KENNEDY, 1928, p. 138), que seria o 2º templo, substituindo a capelinha de tapera dos primeiros anos, e foi utilizado até 1.957. Existe até hoje e foi restaurado, servindo como salão social, e fica na parte de trás do templo maior e com torre (3º templo construído desde a fundação). O bonito e amplo local de culto que a igreja conta atualmente foi inaugurado em novembro de 1.957, em uma grande celebração religiosa, que contou com mais de 800 pessoas presentes e foi dirigida pelos Rev. Aristides Fernandes da Silva (pastor local) e Rev. João Ignácio da Silva (superintendente distrital e ex-pastor do Jericó, entre os anos de 1.949 e 1.952). A inauguração do novo (atual) templo foi um dos momentos inesquecíveis na história do povo do bairro do Jericó, relembrado por todos que viveram aquele momento solene e emocionante, onde centenas de metodistas deixaram a antiga capela para adentrar no novo espaço cúltico, entoando o hino de nº 401 do Hinário Evangélico, “Avante Ó Crentes!” (LEITE; ALMEIDA, 2008, p. 5).

Com relação ao nome do bairro, embora não exista nenhum registro oficial, parece mesmo que foi mudado pelos metodistas (LEITE; ALMEIDA, 2006, p. 3). Afinal, nas citações mais antigas do ponto de pregação e do que viria ser a futura igreja, não consta o nome de “Jericó”. Geralmente se refere ao local como “Abóboras”, “Mandinga” ou mesmo “templo/igreja de Cunha”. No livro do pastor e historiador metodista KENNEDY (1928), o termo “Jericó” só vai aparecer em 1.922. Todas as menções anteriores a essa data, se referindo à igreja, consta como “Cunha”; “Mandinga” e “Abóboras” (somente na primeira menção). No excelente trabalho de pesquisa do teólogo SANTOS (2013, p. 56), que consultou as Atas da Igreja Metodista de Taubaté e antigos exemplares do jornal oficial da Igreja Metodista do Brasil “Expositor Cristão”, os lugares onde havia antigos pontos de pregação protestante eram: “Boqueirão da Lagoinha”, “Sítio Paiol”, “Mandinga”, “Abóboras”, “Baracéia”. O termo “Jericó” não é mencionado, mesmo sendo um termo bíblico e que se refere à primeira cidade da Terra Prometida conquistada pelo povo hebreu, conforme a narrativa do livro de Josué. O conhecimento bíblico está no cerne da fé protestante, ocupando um lugar elevado na vida devocional e no sistema de crenças do fiel, se comparado com o Catolicismo, tanto o Romano quanto o Ortodoxo. Desse modo, fica a pergunta: seria uma possível alusão ao pioneirismo de Jericó na implantação do Metodismo nestas paragens? Ou foi o nome dado ao templo metodista? Embora não seja tão comum no Brasil, na América do Norte muitos templos metodistas recebem um nome específico, além do tradicional nome da denominação mais a localidade. É não é incomum utilizarem nomes de cidades e locais bíblicos que tiveram alguma importância na história da salvação, tais como: Belém, Betel, Jerusalém, Betânia, Monte Moriá, Monte Hermon etc. Ou seja, não teria sido o bairro ser denominado em função do nome do templo, já que essa região rural de Cunha se tornou majoritariamente metodista? Fato é que nos “Maços de População”, antigos recenseamentos de Cunha, não aparece o nome de “Jericó”, porém “Abóboras”, sim. Aliás, o bairro das Abóboras existe até hoje com essa denominação, ficando atualmente em um vale logo abaixo do bairro do Jericó. Já o bairro da Mandinga parece ter realmente desaparecido na geografia rural cunhense. Poucos fazem se referem a ele e sua denominação apresenta uma conotação religiosa que poderia ter motivado os metodistas a trocarem o nome, por considerá-la contrária à sua fé. Eis a razão: segundo o HOUAISS (2009), a definição do vocábulo “mandinga” é: “ato ou efeito de mandingar; feitiço, feitiçaria”. Ainda de acordo com o mesmo dicionário, a origem etimológica da palavra é africana e toponímica, se referindo a “Manding (Guiné-Bissau), conhecido por designar ‘terra de feiticeiros’.” Certamente que os metodistas não gostariam que o nome de seu bairro fosse associado à feitiçaria. Está aí um motivo muito forte para ocasionar a mudança do nome original, recebido, muito provavelmente, dos negros escravizados que trabalharam nas fazendas daquela região pioneira no desbravamento do antigo Facão.

Estabelecida a Igreja, com o templo construído e estabilizado o número de membros, os líderes metodistas viram a necessidade da instalação de uma escola rural mista em sua paróquia. Na Conferência Distrital ocorrida na Igreja Metodista do Brás, em São Paulo, capital, em fevereiro de 1.922, a construção da unidade escolar de Jericó é tratada. KENNEDY (1928, p. 284) registra: “nessa Conferencia tratou-se da fundação de escolas parochiaes em Jericó (Cunha) e Palmeiras. Foram constituídas duas commissões para tratar desse assumpto: W. B. Lee, M. M. Moraes e o presidente da Junta de Economos de Jericó, para a primeira, e W. B. Lee, Luiz Martins e o presidente da Junta de Economos de Palmeiras, para a segunda.” Mais que uma atividade filantrópica, a instalação dessas escolas paroquiais fazia parte, conforme observou MENDONÇA (1984, p. 98), de uma estratégia missionária, voltada à propaganda religiosa, pois a carência de instrução se constitui em um notável empecilho para assimilação da doutrina protestante, inteiramente calcada na leitura das Escrituras. Participar de um culto em a prédica (discurso) é o ponto central e a leitura de trechos bíblicos e de hinos é requerida dos fiéis, precisa-se ser alfabetizado, caso contrário estará excluído, ficando sem entender nada. Assim, tanto no Jericó como no Cume, funcionaram escolas paroquiais metodistas, além da Escola Dominical que ocorria aos domingos. Foram essas escolas metodistas as pioneiras em seus bairros e adjacências. As arrecadações para construção da escola paroquial do Jericó começaram por volta de 1.926 e a unidade deve ter sido concluída por volta de 1.930 (ATAS, 1926-1929), tendo à frente o Rev. William B. Lee e os senhores Augusto Lethargino de Oliveira, Crispim Mariano Leite e Luiz Mariano Leite, encarregados da arrecadação e membros da comissão de construção.

A introdução do Protestantismo em Cunha se diferiu das demais partes do Brasil, pois aqui uma parte considerável da elite agrária (SHIRLEY, 1977, p. 280), dos grandes fazendeiros aderiram à nova religião, enquanto em outros lugares as pessoas que mudavam de religião eram, geralmente da classe inferior. Isso foi um dos fatos mais destacados pelos cientistas sociais que estudaram Cunha no século passado. Essa peculiaridade se deve ao capitão Joaquim Mariano de Toledo, um dos maiores fazendeiros de Cunha no século XIX, cuja descendência se tornou metodista. O historiador VELOSO (2010, p. 249) ressalta que, embora o capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”) tenha permanecido católico até sua morte, não se opôs à implantação da nova religião na região que estava sob sua influência direta (Abóboras, Mandinga, Limão, Pêros etc.). Tanto é que, embora seus doze filhos tenham sido batizados na Igreja Católica, nove deles aderiram ao Metodismo posteriormente, fazendo sua pública profissão de fé, com destaque para o 4º deles, Luís Mariano Leite e sua mulher Maria Cesarina de Jesus (“Dona Cotinha”), que exerceram importante liderança dentro da Igreja Metodista do Jericó. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 270), que estudou o município de Cunha em meados da década de 1.960, também reconhece o apoio do capitão Quim Mariano como vital para o estabelecimento do Metodismo em Cunha. SHIRLEY (1977, p. 272) aponta que as atividades proselitistas dos metodistas no Jericó se encerraram na década de 1.920, com a conversão dos membros da família Mariano Leite que impuseram mais resistência à nova fé.  Porém, convém ressaltar que os metodistas do Jericó abriram um novo campo missionário em meados da década de 1.920, com pregações e cultos nos bairros da Palmeira, Cume e Desterro. Essa atividade missionária, feita no lombo dos cavalos, resultaria na criação da Igreja Metodista do Cume, em 1.928, a qual passaria a agregar em suas fileiras membros das famílias Leite, Oliveira, Toledo, Monteiro, Alves da Silva e Martins de Castro. Já no final da década de 1.940, a despeito da hostilidade de alguns católicos e do pároco local, começariam um trabalho missionário na cidade, na praça Dr. Prudente Guimarães, que culminaria na fundação da Igreja Metodista Central de Cunha, em agosto de 1.953. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 273) afirma que isso só foi possível graças ao juiz de direito da Comarca de Cunha na época, que também era protestante, e dava suporte legal às práticas religiosas dos protestantes, evocando a liberdade de culto, e exigia, quando necessário, a proteção policial aos crentes, se fossem vítimas de atos de intolerância. E soma-se a isso, o fato do prefeito daquele período, que era simpático aos metodistas, visando, claro, receber o apoio político dos fazendeiros e das famílias evangélicas.

Outra coisa interessante é que a implantação do Metodismo encontrou pouco resistência católica e não há, nas primeiras décadas, graves relatos de intolerância religiosa, conforme pesquisou WILLEMS (1947, p. 68). As querelas e as hostilidades dos católicos para com os metodistas só vão ocorrer quando a Igreja Metodista tenta se instalar na zona urbana, onde a influência e o controle da Igreja Católica eram infinitamente maiores. O fato dos metodistas contarem em suas fileiras com fazendeiros, do bairro do Jericó estar isolado da zona urbana, da região possuir uma ligação muito grande com o Taubaté, impossibilitando qualquer boicote econômico, e dos comerciantes urbanos católicos precisarem negociar com os fazendeiros metodistas são fatores apontados pelos estudos sociais como mitigadores da tensão religiosa (SHIRLEY, 1977, p. 272). A rápida expansão metodista se deve, em parte, pela escassez de sacerdotes católicos, que deixavam os seus fiéis desassistidos espiritualmente, o que facilitava à adesão ao Protestantismo, que a despeito das inúmeras diferenças doutrinais, comunga com o Catolicismo a crença no mesmo Deus, o mesmo livro sagrado e a mesma fé na salvação dos pecadores. As pregações em português que ocorriam nos cultos, quando as missas eram celebradas em latim, também pode ser considerado um fator que contribuiu para engrossar as fileiras metodistas. O estudo sociológico conduzido por WILLEMS (1947, p. 131) identificou a introdução do Metodismo no universo rural cunhense como um fator de ruptura na homogeneidade da sociedade agrária tradicional, pois a fé protestante tende a rejeitar as crenças mágicas e sobrenaturais, comuns em uma sociedade de folk. Sendo assim, para Willems a presença protestante era um indício de transição na sociedade cunhense, por contribuir com a secularização da cultura local e racionalização das experiências/atividades cotidianas.

Atualmente, o município de Cunha conta 3 igrejas metodistas independentes: Jericó (igreja-mãe), Cume e cidade de Cunha (chamada de “Central”), além de diversas congregações espalhadas pelos bairros rurais e urbanos. Por ter sido até pouco tempo uma igreja eminentemente rural aqui em Cunha (SHIRLEY, 1977, p. 280), o número de fiéis metodistas foi fortemente impactado pelo êxodo rural. Muitas famílias metodistas partiram para outras cidades em busca de melhores condições de vida e trabalho, mas conservaram a fé. Contribuiu para essa situação a expansão da pecuária leiteira e de corte em Cunha, que exerce fator de repulsão na mão de obra rural, conforme estudo de SHIRLEY (1977, p. 273). Em quase todas as igrejas do Vale e até em cidades da Grande São Paulo, a comunidade de cunhenses e descendentes entre os congregantes é numerosa. Assim, se por um lado o êxodo rural contribui para o esvaziamento das igrejas metodistas da roça, acabou reforçando o contingente de membros e a atividade missionária de outras igrejas metodistas da região. Das diversas igrejas evangélicas instaladas em Cunha, quase todas foram formadas ou contaram em seu início com ex-metodistas. Os eventos e associações que reúnem os evangélicos de Cunha (“Cruzada Evangelística Cunha para Cristo”, COPEC – Conselho de Pastores Evangélicos de Cunha) sempre tiveram a Igreja Metodista como participante pioneira e incentivadora.

Mais de 100 anos depois da instalação da primeira igreja protestante em Cunha, os metodistas ainda continuam a ser o maior grupo desse segmento religioso no município, contabilizando 5,7% da população total (IBGE, 2010). Um fato raro para uma denominação protestante histórica, tendo em vista o acelerado crescimento das denominações neopentecostais nas últimas décadas em nosso país. Não é por acaso que as lideranças metodistas no estado de São Paulo costumam se referir a Cunha como “celeiro de metodistas”. Em termos proporcionais, Cunha é o segundo com mais metodistas no estado, ficando atrás apenas de Emilianópolis, na região de Presidente Prudente. Junto à sociedade cunhense, a Igreja Metodista goza de grande reconhecimento público, seja por sua presença centenária ou pela participação ativa dos seus membros na comunidade cunhense. É respeitada tanto pelas autoridades políticas como pelas pessoas que professam outros credos.

A história dos metodistas em Cunha e das outras denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, que é muito numerosa em Campos de Cunha, ainda está para ser contada.

Referências:

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Foto: postada pelo Sr. Jorge Prudente no grupo Memória Cunhense. Na foto é possível observar os fiéis metodistas à frente e o antigo templo ao fundo. Este edíficio religioso foi restaurado e serve atualmente como salão social para igreja local, recebendo a denominação “Reverendo William Bowman Lee”, homenagem ao dinâmico pastor e missionário estadunidense, que atuou por muitos anos nos bairros do Jericó e do Cume. Data: provavelmente década de 1.940.

Obs.: Agradeço ao Rev. Flávio Moraes de Almeida, que já pastoreou a Igreja Metodista Central em Cunha, pelo envio de material e pelas dicas valiosas.