A jardineira, a praça da Matriz e a vagarosidade da vida

Cunha era um mundo à parte. A indiferença dos cunhenses para tudo o que era “de fora” era a regra. Isolada pela geografia, marcada por uma economia autóctone e de subsistência, o município margeou o século XX. Com sua ânsia pelo progresso e por suas agitações várias, o século XX chegou tarde em Cunha. Foi atingida, sim, pelas ideologias do tempo, mas tarde, no último quartel do século passado. Providencial atraso para muitas tradições, que aqui resistiram, mas inútil para os casarões de taipa e pau-a-pique, que sucumbiram em nome do progresso, das “modernas” e insossas casas e prédios de alvenaria. A praça da Matriz atual é outra coisa. Mesmo tombada e centro da vida social, não se iguala a que foi demolida. A praça era sinônimo de cidade.

Alguém pode comentar: “Nossa, Cunha parecia Paraty!” Sim, parecia mesmo. Todos os que aqui passaram – e deixaram suas impressões escritas – foram unânimes em sentenciar sobre o aspecto urbano colonial de Cunha. Cidade colonial sobre o outeiro, compacta, esbranquiçada, avistada de longe. Emilio Willems, que aqui esteve em 1945, observou: “Quase todos os prédios da cidade alta [da praça] são antigos, tendo alguns deles mais de cem anos. Casas térreas na maioria, apresentam elas, na sua arquitetura externa, o aspecto comum das pequenas cidades brasileiras do século XIX (…) na cidade alta não há mais de uma dúzia de prédios construídos nos últimos dez anos. Alguns destoam consideravelmente da arquitetura tradicional, mas, a despeito de todas as diferenças que os distinguem dos prédios vizinhos, a homogeneidade estética da cidade, vista como um todo, não foi quebrada”.

Aquele foi o tempo das jardineiras. Das estradas de terra e barro nos dias de verão. No inverno; de poeira. O sociólogo Emilio Willems no livro “Cunha – Tradição e Transição em uma cultura rural do Brasil” (1947) registrou a seguinte informação: “Até 1932 as famílias locais viajavam em carro de boi levando dois dias para percorrer os 49 quilômetros entre Cunha e Guaratinguetá. Os homens usavam o cavalo, mas fazer a viagem num único dia era considerado um tanto penoso. Atualmente, em tempo seco, a jardineira leva três horas para ir de uma cidade à outra. O automóvel percorre a mesma distância em uma hora e meia, mas em dias chuvosos, a estrada torna-se quase intransitável para veículos motorizados”.

Em 1932, em razão do conflito que se desenrolou nestas paragens, a estrada entre Cunha e Guaratinguetá foi arrumada e tornou-se transitável. Um legado positivo da guerra civil, que tantas desgraças nos trouxe. Ainda que a viagem fosse uma verdadeira saga. Sobretudo quando chovia. Maria de Lourdes Andrade Noronha, que foi professora no bairro do Monjolo, em 1948, relata, em seu romance “Desencontro” (1971), alguns contratempos vividos nesse trajeto: “O céu despejava água quase ininterruptamente. Por toda parte, alagadiços e estragos nas plantações. As professoras de sítio ficaram retidas uns dias em cidades vizinhas, até que as jardineiras de Cunha [chamada de Santo Antônio da Serra no romance] voltassem a circular pelas estradas então, intransitáveis (…). Depois de uns dias de sol, a empresa Rodoviária publicou que seus carros subiriam as serras sem maior perigo para os passageiros. A jardineira foi mal lotada com alguns viajantes de casas comerciais, poucos sitiantes e meia dúzia de professoras. Viagem de interrupções para desatolar daqui, contornar por lá, ou fazer descer os passageiros quando o terreno não oferecesse garantias. Assim mesmo ia tudo relativamente bem, porque isso não era surpresa. Só uma preocupação bailava em cada cabeça: recomeçara a chover. As águas do rio voltariam a subir até o instante em que tivessem de atravessá-lo. (…) Ao chegarmos a Cunha, comentavam as passageiras, nossa jardineira será alvo de desusada curiosidade por estar a cidade alheada do resto do mundo há vários dias. A previsão foi decepcionante. A gente do lugar, os ‘cunheiros’ como eram apelidados por troça, pelos habitantes de cidades vizinhas, não deram a menor importância à complicada viagem daqueles que vinham Ihes trazer algo para suas necessidades materiais e intelectuais: os representantes de firmas comerciais, as professorinhas de roça e o Correio. Na realidade os ‘cunheiros’ que assistiram ao desembarque dos viajantes estremunhados, quiseram apenas constatar, com os próprios olhos, se a empresa Rodoviária havia restabelecido o tráfego com esse punhado de gente e bagagens, que em verdade, conseguira transpor o rio. Com a chuvarada de todos os verões estavam acostumados a isso, e desta vez parece, nem ligaram aos jornais e à correspondência, amarrados com cuidado nas cabeças das cavalgaduras. Possivelmente porque não esperavam mais por elas, ou por acharem que vinha tudo velho, como alimento preparado há dias”.

É a crônica de uma época. Finda, mas inolvidável. Uma viagem pode ser esquecida, mas uma viagem em que se faz o transbordo no lombo de mula, porque a ponte submergiu alagada, não. Foi o tempo dos percalços, com sua pobreza e carestia. Todavia, um tempo em que a vida era vivida sem pressa. Parece que havia mais tempo para se viver tudo com a intensidade necessária, tempero indispensável para transformar dias comuns em momentos inesquecíveis.

Rumo ao berço

Por João Lellis Vieira

Não se pôde falar em berço, que não venha logo a mente a caminha  do bebê, com balanço ou fixo, de pau a pique ou dourada, conforme a bolsa dos respectivos genitores. A propósito: o Ilustrado dr. Laurindo Minhoto, velho professor e advogado, hoje em sua tebaida de Tatuí, conversava sobre essa história de se escrever “progenitor” como pai da criança, quando o termo exato, em boa linguagem e com vistas ao purismo gramatical, é “genitor”, que gera…

Estávamos em sua esplendida residência, em meio a livros, dicionários etc., no dia em que fomos representar s. exc. o sr. dr. Mario Lins, ilustre Secretario da Educação e Saúde Pública, no banquete das normalistas.

E o notável mestre, prosseguindo na sua explanação, latinista que é, insistia: Veja você, seu Lellis, “progenitor” e avô, isto é, pai do pai e não pai da gente! Explique isso numa das suas crônicas.

“Fiat voluntas tua”, seja feita a sua vontade. (S. Mateus, cap. XXII, v. 42). Por isso, obedeçamos ao mestre quando escrevemos: pai não é “progenitor”, é avô; pai é “genitor”. Confere. Toque o trole.

Fechado o parêntesis, voltemos ao berço. Berço e também a santa terrinha, onde se deixou o “imbigo” e onde se abriu o olhinho marreco pela primeira vez. Haja o cabra nascido em Caixa-Pregos ou Cascos de Rolha, seja o que for o povoado que lhe ouviu primeiramente o nhé… nhé… nhé… nhé… grande, pequeno, bonito, feio, atrasado ou progressista, ele o deve amar entranhadamente!

Pode ser que algum filho ingrato despreze o seu torrão, mas fique desde já acentuado, que no mínimo não é grande coisa… Sim! Urge cultuar a sua terra, porque é uma prova de bons sentimentos, de sensibilidade afetiva e de caráter eréctil. Para nós, sujeitinho pernóstico, que esconde o solo do seu nascimento, por ser uma terrinha modesta, simples, sem progressos e outros animais ferozes, não vale duas pitadas. Passe de largo. Até logo, oh coisa!

Estamos, nesta altura da crônica, seguindo para a invicta Cunha, a santa terrinha, como dizem saudosamente os portugueses, lembrando a poesia das suas aldeias e o encanto das suas paisagens.

Vamos lá passar um dia, domingo. Matar um pouco as saudades. Viemos dali com 10 anos, já se vão 51 janeiros puxadótes. Ha pouco ainda estivemos revendo os panoramas indescritíveis das suas visões serranas. É uma encantadora maravilha de clima. Um assombro de frutas as mais europeias, desde a cereja às nozes.

Povo admiravelmente bom. Criaturas que tiram a camisa do corpo para servir. Espírito  simples, sem o artificio das máscaras móveis, sem fingimento dos gestos estudados. Concordia nos homens. Paz nas famílias. Tranquilidade nas almas.

Se alguma vez, uma ou outra divergência se assinala entre as ótimas pessoas do lugar, logo o ramo de oliveira se estende sobre os pequeninos desentendimentos e a vida prossegue no ritmo harmônico da melhor união de vistas.

Em 1937, nossa última visita a joia da Mantiqueira, chamada Cunha, recordamos saudosamente o “tempo será, de missiocó, laranja da China, tabaco em pó, quem é o mais durão, sou eu só só”… Depois, a tal de angina pectoris deu de brincar com a crônica, (mas levou no côco, foi-se! que a barreu! e isto porque a paquera era e é cunhense, rija, da boa) e só agora podemos dar um pulozinho aquele presépio que Nosso Senhor perpetuamente construiu nos picos da serra Quebra-Cangalha.

Quanta coisa linda e evocativa temos para ver e recordar na santa terrinha! O Cruzeiro, que o padre Bartholomeu Taddei, há 50 anos, plantou no Alto da Cadeia; o chafariz (ainda o mesmo) que o saudoso dr. Casimiro da Rocha inaugurou fazendo jorrar o líquido… que “pau d’água” não bebe; a chácara pitoresca do ilustre cunhense Juca Pereira; a casa do Chico Mendes, que acordava a população às 5 da manhã, tocando tambor numa caixa de querosene; a residência, com terraços, do inesquecível João José Vaz; o mercado antigo (quitanda) onde havia coqueiros magníficos com os devidos coquinhos amarelinhos; a Cachoeira, a Várzea do Gouvêa, a chácara da Calina, a chácara do Juca Bangu, o Bexiga, a chácara do Zé Joaquim, o sobrado do vigário padre Gomes, notável por suas pinturas internas representando episódios heroicos do Paraguai; a Igreja da Lapa, que caiu; a Igreja do Remédio, que também não existe mais; a capela de S. José, o Taboão, a escola do Rocambole, a fazenda Rio Abaixo, o sítio do Ladislau… Como tudo isto tem um sabor “irredutível ao verbo”, na frase de Eça de Queiroz!

E as festas de S. João, as fogueiras, a folia, a bandeira do Divino, os tocadores de viola, pandeiro, rufo… Havia um deles, um tal Claudio, turuna nas rufadas! E o “Império” com distribuição de cartuchos de doce. E a Semana Santa, todos de preto…

Vinham de outros lugares dois padres para ajudar o cônego Siqueira, um deles, o padre Velludo, com uns lenços de rapé muito molhados, estendidos na janela… pra enxugar!

E o “Tôco”, o cachorro do vigário, sempre ao lado do inesquecível sacerdote!

Vamos, rumo a Cunha, passar em revista, pela memória, todo esse tempo que não se apaga, corram os anos ou “carequem-se” as… cabeleiras!

Bendita sejas tu, oh terra do paraíso, onde se perpetua a saúde, onde se ouvem as harpas do heroísmo, cantando eternamente os salmos da vitória!

Quem era N. G. Lima?

A beleza da poesia anônima está em sua liberdade. Ela não precisa de aplausos para existir. Mas quando encontra leitores, pode florescer em algo maior. Como aconteceu com tantos nomes que hoje fazem parte da história literária nacional. O anonimato não é ausência de valor. É apenas o ponto de partida.

Primeiras décadas dos anos 2000. O século XXI chegara a Cunha. Zé Monteiro havia perdido a eleição municipal. Um futuro promissor nos aguardava: Cunha seria um  insigne destino turístico, assumindo sua “vocação natural”. Nós aguardamos por esse futuro até hoje. Recorro à fina ironia de Luis Fernando Verissimo, escritor recentemente falecido, para definir essa desilusão: “o futuro era muito melhor antigamente.” Alguns prognósticos envelhecem mal. Não sem antes nos envenenar de esperança, esta droga que nos faz viver sonhando só para nos desiludir, ao acordar.

E eu acordava cedo. Morava na roça. Vinha para escola, na cidade, de ônibus. Sem dinheiro, sem livros, saciando minha abstinência de leitura nos jornais da biblioteca do colégio. Cunha não era uma Arcádia, apesar de montanhosa, mas havia poemas e textos disponíveis, gratuitos, pelas papelarias, mercados e outros comércios da cidade. Da política à poesia, esses panfletos apócrifos eram lidos e repassados. Alguns foram guardados. Ainda bem, pois desapareceram. Já não se acha mais pelas aldeias do Peloponeso essas manifestações escritas. A vida acontece, agora, em espaços virtuais. O próprio Pã ficaria em pânico com a selvageria desses ambientes.

Lembro dos poemas que eram distribuídos em Cunha no início do século XXI. Li vários, guardei alguns. Ficavam disponíveis sobre os balcões, aos montes. Quem se interessava, podia levar. Método interessante e analógico. Tecnologia de compartilhamento da época. Papel sulfite, fotocópia, gratuidade e muita sensibilidade. Belíssimos. Conquistaram, com certeza, novos leitores. Como o “Mãe”, de N. G. Lima. Ela (ou ele?) escreveu outros. Mas quem era N. G. Lima? Sobrenome estranho entre as famílias da terra. Um dos versos sugere não ser nativa. Um pseudônimo? Nunca descobri. E também nunca mais li nada dela(e). Desapareceu junto com seus poemas, com esse antigo hábito de deixar poemas nos balcões.

É verdade sabida que poetas usaram pseudônimos para evitar preconceitos ou construir identidades literárias, como escritoras do século XIX e o próprio Fernando Pessoa. Exemplos marcantes incluem os irmãos Brontë, que, na verdade, eram Charlotte, Emily e Anne, uma estratégia criativa para driblar o machismo, e, assim, serem levadas a sério no mundo literário da época, que era dominado por homens. Temos James Macpherson, que criou “Ossian”, em uma famosa fraude literária. Mas será esse o caso de N. G. Lima? Mas cá entre nós, que importa o nome? Queremos mesmo é saber o paradeiro da(o) poeta e dos seus poemas. Ao contrário daquela época, daqueles hábitos, minha fome por poemas sensíveis está latente.

Que fim levou N. G. Lima?

A cidade dos palácios abandonados 

Por Miguel Ângelo Barros Ferreira *

O que impressiona desde logo o visitante é uma espécie de majestade ao abandono. Tem-se a impressão de que o tempo ali parou tudo deixando como antes. A enormidade da matriz expressa uma grandeza remota. Não bastava apenas muita fé. Era preciso muita riqueza para custear um templo de tais proporções. Não há em todo o estado de São Paulo, da mesma época, nada que se lhe compare. Um pormenor marcante é a existência do primitivo pelourinho, ainda na praça central, defronte da matriz. Deram-lhe função moderna. Fizeram dele lampião. Em volta, há uma espécie de ciranda de casas térreas, de paredes de taipa, denunciando, pelo aspecto venerável, que fizeram mais de cem anos. E há sobrados imponentes, com sacadas providas de grades ricas, proclamando uma riqueza que passou. Nas ruas relativamente largas, que conheceram o alarido das tropas, assenta agora a quietude de uma velha cidade afastada das rotas do comércio. Cunha, atualmente, recorda. É como velha que se senta junto da janela, de olhar perdido no horizonte, e conta o rosário e lembra a juventude. Lá distante, está Parati, que era a sua porta ao mar. É outro rescaldo de grandeza, onde existem telhados com telhas de porcelana vinda do reino e provavelmente importadas da China. Era no tempo dos galeões, do intercâmbio com o remoto Oriente, em que os navios, na volta do mar, vinham tocar e reabastecer-se nestes fartos Brasis. 

Imagem colorizada da rua Eduardo Querido, centro de Cunha, com as igrejas do Rosário e da Matriz ao fundo. Data: 1947. Autor: Alceu Maynard de Araújo.

Do outro lado, alonga-se o vale do Paraíba, por onde correu também a prosperidade nos tempos dessa baga sagrada que se tornou o café. Antes, já por ali escorrera o ouro que descia das Minas e ia fecundando de povoações as terras férteis que marginavam o Paraíba, transformado em roteiro da aventura e, depois, centro de fé, ao dar ao Brasil a imagem venerada da Aparecida. 

Entre esplendores que se apagaram ficou Cunha esquecida, quase isolada, no centro de serras de encostas hostis e bons caminhos. 

Fausto passado 

Como acontece com famílias em declínio que encontram no passado estímulo para a modéstia presente, em Cunha a tradição tem grande importância. O passado vive, palpita nas conversações. Serve de compensação, é motivo de orgulho. O majestoso sobrado em que o duque de Caxias esteve hospedado quando uma vez subiu de Parati e se destinava ao interior de São Paulo merece citação especial. Mas no prédio os anos estão marcados. As largas tábuas do soalho apresentam múltiplas frinchas pelas quais se vê perfeitamente o andar térreo. A escada está com os degraus gastos e range aflitivamente. Porque a tradição tem desses inconvenientes. Assume por vezes o aspecto de paupérrima velhice. Devia ter sido imponente a recepção ao ilustre Caxias. A sociedade próspera daquele tempo compareceu, as damas com seus vestidos mais ricos, as joias mais caras. Parece ainda escutar-se o riso alegre das mocinhas de então, jubilosas por exibirem suas graças e sua opulência. De todo esse encanto juvenil restam punhados de ossos no cemitério local. Mas naqueles tempos… Sim naqueles tempos, tudo era grandioso. Ouro em barra, pedras preciosas em grande número. Há lendas de terem escondido fortunas nas pareces de taipa dos velhos sobrados. 

Dizem que gente encontrou tesouros na demolição de casas antigas. Contam a história do governador das Setes Vilas, homem poderoso, que arrecadava o dízimo da região, cheia de ouro vindo das Minas e em cuja rota Cunha estava. Sua fortuna era imensa. Em 1850, ascendia a oitocentos e cinquenta contos de réis, quantia fabulosa porque tinha apreciável valor aquisitivo a pataca de cobre, que valia 40 réis. E então na casa daquele poderoso senhor, o ouro era medido aos litros como se faz com o feijão, e amontoado em prateleiras. Lá está a casa soberba para atestar tamanho fausto. Defronte dela juntava-se, ao anoitecer, a numerosa escravatura de velas acesas na mão para rezar o terço diante do nicho, em plena rua. O altivo senhor queria obediência e religião. E a escravaria, ao voltar do serviço, ia rezar antes de entrar na senzala. Como seres humanos oravam para, em seguida, como animais serem juntados no ergástulo.  

Tradições e superstições 

Terra antiga que ficou isolada, conservou bem vivo o patrimônio mental, sem grandes alterações. Na ocasião do parto ainda é preconizado soprar numa garrafa com força a fim de acelerar o desfecho feliz. Aliás era recurso primitivo, aconselhado às índias, que, em vez de garrafas inexistentes, usavam bambus. Tinha lógica. O esforço provocava contração dos músculos abdominais constituindo assim um apreciável concurso, como o espirro. 

Muitas das práticas e superstições observadas tiveram origem nos tempos recuados da colonização e ainda são observados nas províncias do norte de Portugal, como o lobisomem que é um ser humano que se metamorfoseia, em certas noites, em lobo e sai a morder o semelhante. As pessoas mordidas transformam-se também em lobisomem. A cura só pode ser conseguida em noite de lua cheia, ferindo o monstro atrás da orelha, com um garfo tridente. Em Cunha, quando o lobisomem é preto dizem tratar-se de um indivíduo negro. Se o cachorro é branco, então o infeliz é branco também. O animal toma a cor da epiderme do ser humano. Colocar teia de aranha e açúcar sobre feridas, considerar a laranja como alimento frio que se deve evitar no inverno, que carne de porco é quente, que só devem comer certos alimentos em meses que não têm “r”, que frutas misturadas com leite fazem mal e envenenam, por uma faca sobre mordida de abelha ou aranha, feiticeiras malévolas, alecrim e arruda contra mau olhado, são crendice que vieram nos galeões, por lá ficaram e ainda hoje se encontram também nas populações rurais peninsulares. 

Conjunto arquitetônico do centro de Cunha, visto da Praça do Rosário. Foto: Robert W. Shirley. Data: 1965.

A Festa do Divino 

A festa do Divino se celebra nas velhas cidades, constitui em Cunha a mais importante das manifestações religiosas e representa o ponto mais alto da vida da comunidade. Não tem data fixa. Varia de acordo com os recursos que o festeiro reúne. Tem que ser grandiosa, pois determina afluência maciça dos moradores da zona rural. Pode-se avaliar o interesse pelo fato de uma população dispersa de vinte e sete mil almas já se ter reunido na cidade num total de cerca de dez mil pessoas. Em importância só se lhe aproxima a festa de S. José, que reúne multidões. Além das cerimônias religiosas, há fogueiras, fogos, “companhias de moçambique” que executam danças próprias, que dizem não ser congada. Cada “companhia” tem um general que carrega o bastão, um capitão e um mestre com funções de dirigente da dança. Vinte dançarinos e doze tocadores de instrumentos formam uma grande companhia de moçambiqueiros. Violas, violão, cavaquinhos, caixas e pandeiros e até violinos integram o grupo de tocadores. O conjunto é constituído geralmente por pessoas aparentadas. Há ainda uma patente superior, o chefe supremo, o “rei”. É quem tudo manda. Poder supremo sem possibilidade de contestação. É uma espécie de patriarca, pois os elementos mais afastados em parentesco são seus afilhados. Irmãos, filhos, sobrinhos e netos desse rei constituem o moçambique, que usa uma espécie de uniforme, constituído por barrete branco, camisa e calças brancas. A camisa e os barretes são enfeitados com lãs de cores. O rei usa uma espécie de coroa. Só ele tem o direito de conduzir a bandeira de S. Benedito. Nas pernas, como se fossem ligas, usam todos uma tira de couro com guizos. Dançam empunhando bastões lisos, com pouco mais de um metro e que esgrimem enquanto volteiam. 

Organizar a festa do Divino é uma honra e um empreitada, pois exige coleta de donativos durante longos meses que são recolhidos em casa do festeiro. Há até um empreiteiro da “folia do Divino”, com sucesso garantido por duas dezenas de anos de prática, conhecedor do meio, amigo de toda a gente e bom tocador de violão e improvisador de modinhas. Daí o seu êxito. 

Contrastes 

Ambiente propenso não apenas à crença, mas também a credulidade e à crendice, ali se verificaram fatos e cenas bem curiosas. Em 1932, quando chegaram forças ditatoriais para ocupar a cidade, tomaram medidas estranhas. Começaram por implantar a desordem, abrindo as portas da cadeia e soltando os criminosos ali detidos. Entre esses figurava um moço loiro, que por não ter maior ocupação folheara uma das Bíblias distribuídas por uma missão protestante. Ao ver-se livre e sem ter recursos resolveu apresentar-se como o “Cristo que voltou”. Arranjou uma espécie de túnica branca, mostrava-se no alto de cupins, com os cabelos compridos, a barba loira crescida. Mandava fazer penitência. Impunha castigos e reparações, que consistiam em boa comida. Levava vida fácil e regalada. Até que um dia escolheu uma caipira jeitosa para companheira. Apresentou-a aos crentes como Virgem Maria. Acreditaram. Até que um dia o viram deitado com ela. Logo esmoreceu a fé. Aquela gente era crédula, mas não imbecil. Levaram o caso ao conhecimento do delegado que interveio com louvável presteza e reconduziu o “Cristo que voltou” à cadeia donde tinha sido libertado indevidamente para cumprir a pena que faltava. 

Sem a mesma gravidade e até cheio de pitoresco, foi o caso de João Camilo, espécie de capelão ambulante da roça. Era um velho preto de alma simples e confusas noções da religião. Influenciado pelo que vira na igreja amarrava um grande jacá em grosso tronco de arvore, à semelhança de um púlpito. E dali falava com confusa eloquência aos seus ouvintes intercalando na oratória deformações de frases latinas, dando a impressão de que rezava como padre… Retivera algumas palavras que ia soltando, repetindo: “oremus, oremus, repcicione Cristu, amem. Ora pronobis Santa Degenis, espeto da justiça, aleluia. O Senhor me ajude que eu também lhe ajudarei”. 

Evolução e estagnação 

Fac-símile da crônica sociológica de Barros Ferreira, publicada no Estadão, em 25 set. 1965.

Depois do período áureo, Cunha ainda cresceu até entrar em estagnação por falta de estímulos econômicos. No entanto, oferece condições magníficas para estância de repouso e cura, com seu clima seco e frio. Poderiam seus campos, a mil metros de altitude, produzir variadas frutas europeias, iguais às que se recebem da Argentina. Uvas de mesa podiam ali ser colhidas em larga escala. A oliveira devia ali produzir bem. É região de grandes frios que “torram” os pastos, segundo a expressão usada e impedem a volta integral à pastorícia, que é um estágio primitivo, um regresso, quando já foi atingida a fase agrícola. Com 2.472 habitantes em 1799, já contava 7.873 em 1872. Em 1886 somava 10.856 o povo do município. Seguiu-se o período da emigração do café do vale do Paraíba, o abandono da rota de Parati. Em 1920, tinha 20.171 almas. 24.818 revelou o censo de 1940. Não houve, portanto, o mesmo impulso no seu crescimento demográfico. A cidade de Cunha que começou opulenta não atingiu o desenvolvimento de outros, de Araraquara, por exemplo, que é muito mais recente e começou infinitamente mais pobre. Ficou segregada e esquecida, a ponto tal que, no movimento de 1932, muita gente orgulhosa de seus conhecimentos geográficos indagou onde ficava e foi procurar sua posição no mapa do Estado, de tal forma fora o declínio de uma das mais opulentas cidades paulistas do século passado. 

Fonte: Crônica extraída do jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de setembro de 1955.

* Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1997) foi um jornalista, historiador e escritor português, que passou boa parte da sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde veio a falecer.

Tocando em frente

Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP)
Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.

Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.

Hoje, tudo isso é raridade…

As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.

A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.

A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.

Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.

Casa rural

Foto: Fernando Cobbos.
Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).

Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.

Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.

Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…

Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.

Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.

Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.

Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.

Praça Cônego Siqueira

Cartão-postal da Agência dos Correios de Cunha. Década de 1980. A Praça Cônego Siqueira em destaque.

Assim era a Praça Cônego Siqueira, no Centro de Cunha, em foto de cartão-postal dos Correios, na década de 1.980. Aquele charme típico de cidade interiorana, que só as do velho Vale Paraíba têm. Dois fuscas e um jipe azul parado no meio da rua, para uma prosa do condutor. Antigo e singular costume esse… À noite, aos sábados e domingos, era um movimento só: circular, até perder a conta, no adro da Matriz. Quem nunca deu “uma vorta na praça”, não é mesmo? Diversão dos cunhenses de então.

A vida, como percebe-se, seguia na santa paz. Saudade de tudo isso, do que era o nosso presente e hoje já virou história.

No início do século XXI, a praça foi toda remodelada. Era a urbanização turística sendo implementada; uma nova etapa da economia cunhense, alterando o espaço urbano da pequena Cunha. Hoje, é mais um centro de eventos, de estética duvidosa.

O turismo cobra um preço caro. Consome até a alma dos lugares.

Pelé

Por Armando Nogueira*

O corpo no espaço, em aceleração maravilhosa, inventa gestos que os poetas assinariam.

Lá vai Pelé, com a bola que Deus lhe deu… Os pés em faca, incisivos, cortando o tempo, cortando o caminho, cortando os beques. Inúteis as pernas que tentam aterrá-lo em plena corrida. Ele é uma força da natureza que avança intangível, a recortar no campo a sombra vertiginosa de suas falsas hesitações.

Quem te deu semelhante equilíbrio, rapaz? De que mistério vem a inteligência de teus músculos, que tudo pressentem na geometria de teus dribles? Os anjos que sobrevoam este campo me juram que tu vieste ao mundo para reescrever a bíblia do futebol. Assim seja.

Lá vai Pelé. pintando e bordando, tocando a bola e com ela trocando mil confidências, que os parceiros de jogo não adivinham jamais… Grama, graminha amiga, teu sorriso não me engana! Pelé passou por aqui, deixando na meia-lua um sopro de poesia.

Ouro sobre azul na pequena área. Gol de Pelé!

* Armando Nogueira (1927 – 2010) foi um jornalista e cronista esportivo brasileiro. Pioneiro do telejornalismo, foi responsável pela implantação do jornalismo na Rede Globo (1966 a 1990), com destaque para a criação do “Jornal Nacional”, primeiro jornal com transmissão em rede e ao vivo da história da televisão brasileira. Esse texto foi escrito em outubro de 1977, quando Pelé encerrou sua carreira dentro dos gramados, especialmente para ser lido na homenagem que o “Jornal Nacional” rendeu ao rei do futebol.

Província Sentimental

Mar de morros da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. Foto: Frederico T. de S. e Miranda.

Por Ribeiro Couto *

Não sei a data precisa que começou a ficar nítida esta sensação de governar uma província própria, província que não corresponde à real “divisão administrativa” dos territórios que constituem, porque uns obedecem à soberania de São Paulo, outros à de Belo Horizonte e outros à de Niterói. Por alguns anos vivi em velhas cidades do Paraíba, não as mais notórias, senão as mais obscuras, fora da estrada de ferro, as que exigiam viagens a cavalo, ao sol e à chuva (São Bento do Sapucaí, Cunha, São José do Barreiro), passando à noite em ranchos de tropeiros. Foi nessas viagens que tive a revelação do virgem cheiro da terra orvalhada, pela manhã, quando as rolinhas andam ciscando pelo chão da estrada e o pesado voo dos viras mancha de preto o verde dos pastos. A seguir, fui morar no Sul de Minas e o sortilégio foi crescendo. Mais tarde, alguns anos no estrangeiro me ensinaram a unidade profunda daqueles vales (os de serra abaixo e os de serra acima) e verifiquei, maravilhado, que tinha dentro de mim toda uma província. Podem secretarias de segurança pública e repartições do tesouro, deste ou daquele Estado, distribuir forças de polícia e fazer coletas tributárias; é dentro de mim que está o governo desses rincões. A mim é que eles obedecem. Em mim é que confiam os povos. A mim é que devem as boas chuvas e as boas colheitas. Sou eu quem constrói em cada comarca o novo edifício de cadeia, onde aliás não quero nenhum preso; a cadeia é só para enfeitar o largo principal. Acompanha-me por toda a parte essa província feliz; é o meu verdadeiro chão. Se estou fatigado ou triste, recordo, por exemplo, o bambual que esconde aos olhos da cidade de Pouso Alto o pequeno cemitério do morro; ou penso no miserável casebre em que certa madrugada tive que dormir na Rocinha, a quatro léguas de Cunha, e onde os arreios dos animais me serviram de travesseiro, (A cabocla, com um candieiro de querosene na mão, ainda foi à cozinha assar um pedaço de carne para me servir a ceia). Não há desilusão ou amargura que possa destruir estes alicerces interiores, nem fazer secar estas fontes de gratuito enternecimento. A minha província me dá forças. Nela me revejo e dela me vem sempre um aceno amigo: memória de um café tomado à porta de um rancho, um olhar bondoso, um pedaço de paisagem onde voa sempre um passarinho.

Mas com certeza foi no Sul de Minas que tomei consciência maior de uma terra “minha”. Assim como também: de uma terra da qual eu tinha o imaculado gosto de ser.

Sobretudo nas vizinhanças imediatas da Mantiqueira, o Sul de Minas é um país à parte no sistema territorial do Brasil. Mesmo nos contrafortes mais ásperos da serra, limite meridional desse país, a paisagem não resultou de convulsões telúricas: tudo foi armado por mãos meigas. O caráter dominante dessa paisagem é a doçura.

Parece que na véspera do mundo ser habitado, quando as potências divinas organizavam a natureza, aquele pedaço do planeta ficou a cargo de anjos de bom gênio. O panorama não guardou lembrança de nenhuma pessoa má, nem de nenhuma ambição torpe. As vaquinhas se espalham, no fim da tarde, pelas lombas verdes de Passa Quatro ou Itanhandu (e provocam o êxtase da surpresa rural nos veranistas metropolitanos, debruçados à janela do trem) são animais de presépio; foi um dom dos reios magos, vieram da Judeia, em barcos fenícios. Dizer utilitariamente dessas vaquinhas “gado leiteiro”, é diminuir-lhes a categoria histórica e a dignidade cristã. Sacudindo a cauda paciente em pleno campo de capim-gordura, não se defendem da picada sutil das mutucas, nem da comichão dos bernes: executam um simples movimento de advertência religiosa, para mostrar que estão vivas, que não são inanimados ornamentos de um estábulo simbólico.

O Sul de Minas começa numa grotinha fresca, entre avencas silvestres, precisamente no ponto em que há uma caixa d’água e a locomotiva para, estendendo a mangueira para beber. Capoeirões de mato húmido cobrem as perambeiras, de um lado e de outro da linha. As pessoas vão no expresso, nos vagões manchados de graxa, sentem que ficou para baixo, lá muito em baixo, o mundo impuro do calor e da ansiedade. Já não haverá, por ali acima, em cada estação, rostos congestos de caixeiros-viajantes; nem senhoras que sobem aflitas à segunda classe, abanando-se com um jornal. A vida agora funciona num plano etéreo, suspensa entre nuvens e ligeiras brumas; e se porventura há sol, é um sol que pela manhã tomou o seu autêntico banho de chuva, um sol contente e lavado com a graduação exata do indispensável teor calórico (só o suficiente para amadurecer as lavouras).

Por meio de um golpe de estado, eu completaria o Sul de Minas com a incorporação do território vizinho de serra-abaixo, até o litoral (só para que não faltasse a essa região perfeita o adminículo poético e econômico do porto do mar).

Na verdade, existe em mim toda uma vasta província, na qual não fui nascido, mas em que senti renascer. Abrange a Bocaina e a serra de Cunha (desde as praias de Parati); desce até o vale do Paraíba, entre Bananal e Taubaté; sobre pela Mantiqueira e se estende, por Minas em fora, entre Paraisópolis e Pouso Alto. Ao Norte, até onde iria meu território?

Sei quanto seria difícil, para um geógrafo ou para um ditador, estabelecer os limites desse território pessoal; haveria municípios que desejariam fazer parte dele (Campos Gerais, por exemplo, onde tenho um amigo); outros, demasiado presos à influência de Belo Horizonte, quereriam ser excluídos. Problemas graves surgiriam, como o da escolha da capital. A velha cidade de Baependi, em cujos sobrados coloniais subsiste a memória de defuntas grandezas agrícolas, reclamaria o privilégio. A cidade de Campanha apresentaria títulos de inextinguível esplendor; e Itajubá não se conformaria; o Dr. Wenceslau Braz me mandaria um portador com uma carta, expondo as razões industriais que militariam em favor da “Chicago Sul-mineira”. Finalmente, a própria cidade de Pouso Alto, com sua única rua, a sua única praça e a estrada da Estação, viria em peso, à minha presença, para recordar-me que a ela, Pouso Alto, é que devo a minha identificação sentimental com as margens do rio Verde.

Essa província nunca existirá para a nação. Tanto mais depois que às capitais interessadas chegar a notícia de tais planos. Nunca será possível dar o golpe. Já agora, quando eu for a Niterói, a Belo Horizonte ou a São Paulo, haverá pessoas vigilantes no meu encalço. A mais humilde valise será revistada; terei de explicar, quem sabe, papéis garatujados que me acompanham (sempre fico inspirado em viagem) e será difícil que as delegacias de segurança social acreditem que se tratem de poemas, exclusivamente de poemas. Quando eu for a um bar à meia-noite, tomar um chope melancólico, todo perdido em meras evocações do meu passado de promotor estadual (origem biográfica de tal obsessão), haverá um sujeito de palheta, fumando charuto, que estará tomando nota da minha atitude e dos meus passos; pensará que fui ali “fazer uma ligação”.

Não importa. A verdadeira existência de uma pátria é questão de alma. Dentro de mim serei sempre o ditador de uma província natal independente e própria, composta de territórios que eu mesmo juntei por amor, como uma criança que fez um brinquedo para ela só.

Fonte: “Barro do Município”, 1956, pp. 16-18.

* Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto) foi um diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista brasileiro. Nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Foi o quarto ocupante da cadeira 26, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 28 de março de 1934. Em 1924, Rui Ribeiro Couto, já então noivo de D. Ana Jacinta Pereira, natural de São Bento do Sapucaí, deixou esta bucólica cidadezinha montanhesa, onde fora delegado de polícia. Para o mesmo cargo e no mesmo ano, foi nomeado para a cidade de Cunha, onde veio residir entre março e abril do mesmo ano. Quando aqui esteve escreveu “Poemetos de Ternura e de Melancolia”, poesia, e “A cidade do Vício e da Graça”, crônicas e viagens. Em seguida, foi nomeado promotor de Justiça em São José do Barreiro, aqui no Vale do Paraíba. Entre 1926 e 1928 residiu em Pouso Alto, Minas, onde exerceu a promotoria e fez tratamento de sua precária saúde. Foi lá que escreveu essa crônica, “Província Sentimental”. Em 1928, parte para a França, passando a ocupar diversos cargos diplomáticos na Europa, chegando a ser embaixador do Brasil na antiga Iugoslávia.