Cunha vira vila

Cartaz ilustrativo elaborado por IA (Copilot).

Segue, abaixo, a transcrição da Portaria para Ereção da Vila de Cunha:

Portaria para a Erecção da V.ª de Cunha.

Porquanto S. Mag.de que Deos guarde nas Instruçoens de 26 de Janeiro de 1765, e outras posteriores ordens dirigidas a este Governo he servida ordenar que nas Povoaçoens e partes desta Capitania se levantem, e erijão Villas, congregando a ellas todos os vadios dispersos, e que vivem em sitios Volantes, para morarem Civilmente, ministrandose lhes os Sacramentos, e estando prontos para as ocazioens do seu Real Servisso, por ser assim tudo conveniente ao mesmo, e ao augmento, e bem dos Povos, e porque a Freguezia do Facão se acha huma das mais populozas desta Capitania e pela distancia em que está da Villa de Guaratinguetá, seu Distrito não pode ser ministrada a Justiça e Governo Civil sem hum grande detrimento daquelles moradores. Sou servido ordenar ao Doutor Ouvidor desta Comarca, que passando logo á mencionada Freguezia a faça erigir em Villa, levantando Pelourinho, e assignalando-lhe termo, delle se fará Auto em que assignará a Camera da Villa de Guaratinguetá donde fica desmenbrada; e da mesma forma as Cameras vizinhas com quem houver de confinar, para que em nenhum tempo possão vir em duvida os limites: e demarcando tambem lugar para se edificarem os Paços do Concelho e Cadeya, me proporá as pessoas mais capazes para Juizes Vereadores, e mais Officiaes da Camera que hão de servir neste prezente anno segundo as ordens; e da mesma forma Escrivão para se lhe conferir Provimento. O que tudo assim obrará, e conforme as Leis a este respeito promulgadas. São Paulo a 15 de 7br.º de 1785. Com a Rubrica de S. Ex.ª

Conforme

Luiz Antonio Neves de Carvalho

A portaria transcrita acima é um documento diplomático colonial expedido em 15 de setembro de 1785, na cidade de São Paulo. O documento trata da Portaria para a Erecção da Vila de Cunha (a elevação da antiga Freguesia do Facão à categoria de Vila, a saber: Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha). É fundamental para entender a história de nosso município.

Contexto Histórico e Político

O documento é emitido no final do período colonial (reinado de D. Maria I de Portugal). O governador da Capitania de São Paulo na época era Francisco da Cunha Menezes (governou de 1782 a 1788), motivo pelo qual a nova vila recebeu o nome de Cunha em sua homenagem.

A portaria faz referência explícita às “Instruçoens de 26 de Janeiro de 1765”, diretrizes estabelecidas durante o governo do Morgado de Mateus (Luís António de Sousa Botelho Mourão). Essas instruções refletiam a política pombalina e pós-pombalina de interiorização, reorganização territorial e fortalecimento do controle estatal sobre o território da Capitania de São Paulo.

A antiga Freguesia do Facão estava localizada no Caminho Velho da Estrada Real, rota crucial que ligava as Minas Gerais e o Vale do Paraíba ao porto de Paraty e ao Rio de Janeiro. Devido ao constante fluxo de tropeiros, mercadorias e ouro, a região teve um rápido crescimento demográfico e econômico, o que motivou os interesses coloniais na região.

Controle Social, Moral e Militar

A portaria traz com clareza a visão ideológica da administração colonial sobre as populações rurais e itinerantes:

Ordenamento Populacional: Fala-se em “congregando a ellas todos os vadios dispersos, e que vivem em sitios Volantes”. Na linguagem administrativa da época, “vadios” referia-se a posseiros, agregados ou populações sem residência fixa ou sem inserção formal na economia agroexportadora/tributável.

Disciplinarização: O objetivo de fazê-los “morar Civilmente” envolvia a evangelização/manutenção do controle religioso (“ministrandose lhes os Sacramentos”) e o enquadramento militar/fiscal (“prontos para as ocazioens do seu Real Servisso”), como o recrutamento para ordenanças ou a defesa do território.

Acesso à Justiça e Descentralização Administrativa

A Freguesia do Facão dependia jurisdicionalmente da Vila de Guaratinguetá. O texto aponta que a distância entre as duas localidades impedia que a “Justiça e Governo Civil” fossem ministrados sem “hum grande detrimento daquelles moradores”. A criação da nova vila era, portanto, uma solução para aproximar a autoridade do Estado da população local.

Símbolos e Instituições do Poder Municipal

A portaria detalha os passos rituais e jurídicos necessários para fundar uma vila na América Portuguesa:

1) Ouvidor da Comarca: Agente magistrado do Rei incumbido de executar a ordenação.

2) Erecção do Pelourinho: O pelourinho era o maior símbolo de autonomia municipal e da jurisdição penal/civil do Rei. Sua instalação marcava juridicamente a transformação de freguesia (circunscrição religiosa) em Vila (município).

3) Paços do Concelho e Cadeia: Infraestrutura física indispensável para o funcionamento da Câmara Municipal (poder legislativo/executivo local) e do sistema judiciário local (a prisão).

Antigo Paço Municipal, sede da Câmara, Comarca, Prefeitura e Cadeia Pública. Erigido a partir de 1785, atravessou o século XIX, mas acabou consumido em um incêndio criminoso em 1961. Imagem colorizada e melhorada com o uso de IA (Gemini), a partir de uma fotografia antiga do edifício.

4) Composição da Câmara: Instrução para indicação das “pessoas mais capazes para Juizes Vereadores, e mais Officiaes da Camera”. Tais cargos eram destinados aos chamados “homens bons” (a elite proprietária de terras local).

Fixação De Limites Territoriais

Rua Comendador João Vaz, calçadão. Antiga Rua da Quitanda, que ligava a Igreja Matriz à Casa de Câmara e Cadeia. Data: década de 1950. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.

O documento exige a demarcação do Termo (a jurisdição territorial do novo município) e a lavratura de um Auto assinado pelas Câmaras vizinhas (como Guaratinguetá) “para que em nenhum tempo possão vir em duvida os limites”. Isso evidencia a preocupação da Coroa em evitar conflitos fundiários e fiscais entre os poderes locais contíguos. De fato, os litígios territoriais foram um dos problemas que a Câmara de Cunha teve que enfrentar no século XIX. A Câmara de Guaratinguetá, por exemplo, reivindicou, sem sucesso, que o limite com Cunha fosse o Rio Paraitinga. Sem sucesso também a Vila de Paraty, via governo da Província do Rio de Janeiro, queria que o limite estabelecido fosse a Igreja da Boa Vista, abocanhando para si toda a região da Serra do Mar. Outras pendengas territoriais menores, com as vilas vizinhas de oeste, não cessaram nos Oitocentos.

Com o Auto de Ereção, enfim, estava criado o município de Cunha. Foi o primeiro território desmembrado do município de Guaratinguetá.

A “Portaria para a Erecção da V.ª de Cunha” é uma fonte primária fundamental para a história regional paulista e para a história administrativa do Brasil Colonial. Ilustra, na prática, como a Coroa Portuguesa operava a transição de povoados espontâneos para estruturas urbanas formais, combinando a garantia da ordem, o controle fiscal e a criação de elites locais subordinadas ao poder central. A elevação das freguesias à categoria de vila obedecia a uma lógica exógena, atendendo muito mais os interesses da colonização portuguesa do que o desejo nativo de maior autonomia política e econômica.

Notas de Leitura
7br.º: Abreviatura tradicional de setembro (do latim September, o sétimo mês do calendário romano).
V.ª / S. Mag.de / S. Ex.ª: Abreviaturas para Villa, Sua Magestade e Sua Excelência.

Referência Bibliográfica
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo. Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo: Ofícios do General Francisco da Cunha Menezes (Governador da Capitania) 1782-1786. São Paulo: Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo, 1961. v. 85.

Cunha: um brevíssimo resumo histórico

Linha do tempo gerada por IA (ChatGPT). Ilustrações simbólicas.

A história de Cunha, localizada no Vale do Paraíba (SP), é tricentenária e intimamente ligada à rota de exploração do ouro em Minas, à Revolução de 1932 e a uma forte herança cultural caipira, que moldou identidades e paisagens.

Aqui estão as datas e marcos mais importantes da história do município:

Os Primeiros Séculos (XVIII e XIX): Fundação, Colonização e Emancipação

  • 19 de março de 1724 (Marco Fundador): Data do início da construção da Capela da Boa Vista (dedicada à Sagrada Família), por Luiz da Silva Porto e sua família. É uma data simbólica do início do povoamento e colonização do Facão, território onde, atualmente, está assentado o município de Cunha. Após estudo histórico realizado pelo historiador João Veloso, essa data passou a ser considerada oficialmente o verdadeiro aniversário de fundação do município de Cunha.
  • 15 de setembro de 1785 (Independência Política): A antiga “Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão” emancipa-se da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. A partir do Auto de Ereção, Cunha ganha autonomia e torna-se um município (Vila de Cunha, em homenagem ao governador de S. Paulo na época: Francisco da Cunha e Meneses).
  • 20 de abril de 1858 (Elevação à Cidade): Cunha deixa a categoria de “Vila” e ganha oficialmente o título de “Cidade”. Essa elevação coincide com a prosperidade econômica regional trazida pelas lavouras de café, muito embora Cunha nunca o tenha plantado para fins comerciais. Durante muito tempo, o dia 20 de abril foi comemorado equivocadamente como a data de fundação/emancipação do município.

Século XX: Guerras, Clima e Arte

  • Julho a outubro de 1932 (Revolução Constitucionalista): Por sua localização estratégica na fronteira com o Rio de Janeiro, Cunha tornou-se um dos principais e mais sangrentos palcos (front Norte) da guerra civil entre as tropas paulistas e as forças de Getúlio Vargas. E um dos poucos lugares onde os paulistas venceram.
  • 28 de julho de 1932 (Mártir Paulista): Data do fuzilamento de Paulo do Virgínio (Paulo Gonçalves dos Santos). O lavrador cunhense foi capturado, torturado e executado por tropas federais por se recusar a revelar a posição dos soldados paulistas, imortalizando a frase “Morro, mas São Paulo vence!”. Ele é considerado um dos maiores heróis civis do Estado de São Paulo.
  • 28 de outubro de 1948 (Estância Climática): Através da Lei Estadual nº 182, o governo reconhece oficialmente as propriedades terapêuticas do clima montanhoso e das águas da região, concedendo a Cunha o título de “Estância Climática”. Todavia, a cidade nunca chegou a sediar sanatórios e o desenvolvimento turístico, que era esperado, demoraria décadas para acontecer.
  • 20 de abril de 1975 (Cerâmica de Alta Temperatura): Um grupo de jovens ceramistas (brasileiros, portugueses e japoneses) chega à cidade e constrói, no antigo matadouro municipal, o primeiro forno Noborigama (tradicional forno japonês a lenha) do Brasil. Já havia em Cunha as antigas tradições das “paneleiras”, ceramistas nativas que utilizavam técnicas ancestrais indígenas. As técnicas orientais que foram introduzidas mudam o destino econômico e cultural do município, tornando-o rota turística com as aberturas de fornada.
  • 02 de julho de 1993 (Identidade Turística): O Conselho de Desenvolvimento local organiza o 1º Festival de Inverno “Acordes na Serra”. O evento foi um marco porque buscou desenvolver a vocação turística de Cunha, estruturando roteiros e eventos, consolidando a cidade como refúgio de montanha.

Século XXI: Reconhecimento Nacional

  • 1º de junho de 2022 (Capital da Cerâmica): O município, que hoje abriga dezenas de ateliês e atrai milhares de turistas anualmente, recebe oficialmente o título de “Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura”.

Resumo Cronológico:

Referências:
BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020.
CASTRO JUNIOR, Clementino de. Cunha em 1932. São Paulo: Revista dos Tribunaes, 1935.
SHIRLEY, Robert W. O fim de uma tradição: mudança cultural e desenvolvimento no município de Cunha, São Paulo, Brasil. Tradução de João José de Oliveira Veloso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.
VELOSO, João José de Oliveira. A história de Cunha: freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha, SP: Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
VIEIRA DA CUNHA, Mario Wagner. O povoamento do município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, Rio de Janeiro, v. 3, p. 641–649, 1944.
WILLEMS, Emílio. Cunha: tradição e transição em uma cultura rural do Brasil. São Paulo: Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, Diretoria de Publicidade Agrícola, 1947.