Credo de Dom Quixote

“Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento”. Ilustração de G. A. Harker. Ano: 1910.

Por Mário Ferreira dos Santos *

Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade.

Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças.

Creio na coragem; no domínio dos desejos e no amor eterno.

Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia.

Creio na cavalaria andante, realização suprema do homem bom e viril.

Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar, e monstros que destruir.

Creio na necessidade do mal para maior glória do bem.

Creio na noite para maior glória do sol, e no sol para maior glória da lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.

Fonte: Da obra “Páginas Várias“, Editora Logos, 2ª edição, 1963, p. 194. (Coleção “Antologia da Literatura Mundial“).

* Mário Dias Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um filósofo, tradutor e escritor paulista. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais“. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de “Filosofia Concreta“. Foi um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do “Centro de Cultura Social“, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo.

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