“Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento”. Ilustração de G. A. Harker. Ano: 1910.
Por Mário Ferreira dos Santos *
Creio na sabedoria divina criadora do cosmos; creio no cavalheirismo dos libertadores de bons prisioneiros; creio no amparo aos perseguidos, e aos necessitados, ávidos de justiça e de liberdade.
Creio no orgulho ante os poderosos; na justiça ante os maus; na magnanimidade ante os bons e os mansos, na delicadeza ante as mulheres e as crianças.
Creio na coragem; no domínio dos desejos e no amor eterno.
Creio na vida e na morte; amo as sombras dos bosques e a luz plena do meio-dia.
Creio na cavalaria andante, realização suprema do homem bom e viril.
Creio que há sempre um ideal a conquistar; feiticeiros que combater, duendes que enfrentar, e monstros que destruir.
Creio na necessidade do mal para maior glória do bem.
Creio na noite para maior glória do sol, e no sol para maior glória da lua, inseparáveis amigos e confidentes dos campeadores do ideal.
Fonte: Da obra “Páginas Várias“, Editora Logos, 2ª edição, 1963, p. 194. (Coleção “Antologia da Literatura Mundial“).
* Mário Dias Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um filósofo, tradutor e escritor paulista. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais“. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de “Filosofia Concreta“. Foi um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do “Centro de Cultura Social“, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo.
A Torre de Babel, pintura de Pieter Bruegel, o Velho (1563). Fonte: Wikimedia.
A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.
São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.
São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.
A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: “Tenho asfalto na alma … ” ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um “modus-vivendi”; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de “moda”, na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas “exquises”, instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do “taedium vitae”; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem econômica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingênuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, “Os homens excelsos não são originais”.
Justifico por final o título: três humanidades.
A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.
Fonte: FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Páginas várias. 2. ed. São Paulo: Logos, 1963, pp. 106-108. (Coleção Antologia da Literatura Mundial)
* Mário Dias Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 1907 – São Paulo, 11 de abril de 1968) foi um filósofo, tradutor e escritor brasileiro. Traduziu obras de diversos autores e escreveu livros sobre diversos temas, publicados sob o nome Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais. Ele também desenvolveu seu próprio sistema, nomeado de Filosofia Concreta. Um dos poucos estudiosos brasileiros do chamado anarquismo cristão, tendo sido ativo participante do Centro de Cultura Social, um dos mais importantes núcleos anarquistas de São Paulo da primeira metade do século XX. Era autodidata e dono de uma enorme erudição. Para saber mais sobre o filósofo clique aqui.
Imagem de satélite mostrando o Sudeste do Brasil, Paraguai, Uruguai e nordeste da Argentina, à noite. Fonte: NASA. Ano: 2012.
O sábio terrestre examina o enxame de abelhas, cuja organização ele considera um exemplo para os homens…
Observa as rainhas, os zangões e as obreiras. Parecem-lhes inteligentes, pois o trabalho e a criação de reservas demonstram não só uma ordem preestabelecida como também certa previsão.
Com carinho estuda a sua incipiente agricultura.
Mas o homem é inteligente, disso não resta dúvida (são os próprios homens que o afirmam), mas as abelhas e as formigas também podem ser consideradas inteligentes.
O sábio terreno, que as examina, faz essas apreciações com método e segurança. As abelhas de hoje pouco diferem das abelhas dos tempos homéricos, mas diferem. E essa diferença apresenta uma evolução que merece ser apreciada.
E continua a estudá-las, com carinho e com método.
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Em sua torre diáfana, o sábio da sétima constelação estuda o globo terráqueo. Através da imensidade do infinito, com seus aparelhos, examina a vida dos habitantes da Terra.
E ao investigá-los, com carinho e com método, o que aliás é apanágio de todos os sábios, fornece ao discípulo estas considerações que podemos traduzir com estas palavras:
− Inegavelmente, esses animalículos terrestres são bem interessantes. Apresentam fórmulas diferentes de construção, de uma variedade contrastante. São um pouco diferentes, mas vivem juntos. Deixam-se atrair muito pela luz. Vejo nos seus enxames, que os lugares mais iluminados possuem maior número deles. Correm pelas alamedas para salvarem-se de veículos que os podem esmagar.
Parecem ter uma certa ordem na vida, mas às vezes, vejo-os desordenados. Matam-se uns aos outros em lutas ferozes. Não os compreendo bem nesses momentos. Possuem, entretanto, uma certa evolução, pois já criam animais, já tiram da terra os alimentos, constroem máquinas… Talvez pudesse afirmar que são realmente inteligentes…
E continuou a estudá-los, com carinho e com método.
Fonte:
Mário Ferreira dos Santos, “Páginas Várias”, 1963, pp. 210-211.
O cinema tem ido buscar na vida o tema para os seus mais eloqüentes dramas. E muitos olhos humanos têm chorado as dores e as tragédias das heroínas da tela e os corações têm pulsado ante a emoção da vitória dos seus heróis. O cinema tem imitado a vida. Muitas vezes tem-na enobrecido, ornamentando-a com histórias fugidas da realidade, e que povoam os sonhos, de ilusões, terminando, quase sempre com o clássico “happy end”, tão a gosto das platéias vulgares.
Há pouco tempo, o cinema projetou, na tela da tela da vida, esse final de filme: É outono e o vento varre as ruas de Nova Iorque. Num tribunal, uma mulher comparece. A voz é apagada e as roupas envelhecidas não escondem um certo porte aristocrático. No rosto descuidado, perduram ainda os traços de uma beleza apagada:
— Sr. Juiz, meu pedido é o mais justo. Tenho uma filha e o meu ex-marido, pai dessa menina, é rico. Ele bem poderia dar uma pensão que permitisse continuar a educação de minha e de sua filha, que está num colégio, onde trabalha para poder se educar. Como não tenho nada e vivo miseravelmente e sem trabalho, sou forçada a tirá-la do colégio, e ela terá que seguir os azares da vida, sem ter recebida a educação necessária que lhe garanta o seu futuro. Estou com muitas mensalidades atrasadas e, ultimamente, tudo me tem corrido mal. Não tenho a quem apelar, senão ao pai de minha filha. Ele é o príncipe M’Divani, e nega-se a atender-me. Por isso recorro, hoje, à justiça.
O juiz franze a testa e carrega o sobrolho. Põe sobre a mulher o seu olhar profissional, admira aqueles cabelos louros desalinhados, e observa atentamente em silêncio o vestido velho que cobre o seu corpo. Por sua imaginação, talvez passem reminiscências de emoções que já experimentara. Talvez recorde ainda trechos de músicas que não se apagaram de sua memória, e tenho nos olhos uma imagem quase desfeita de cenas que já vivera. Fecha levemente os olhos como para fitar melhor, e diz lentamente:
— Não está você em condições de sustentar a sua filha?
— Não, sr. juiz…
— Não ganhou você milhares de “dólares” no cinema e no teatro?
— Sim, ganhei… – responde ela abaixando a cabeça – ganhei… mas hoje estou na miséria. Não tenho casa, nem sempre tenho o que comer…
— Isso é incrível!!! Onde mora você, Mae Murray?
— No Parque Central, sr. juiz. É ali, num banco, que eu tenho passado estas três últimas noites…”
Mae Murray, a estrela que dominou o céu cinematográfico até 1929, a intérprete de “Viúva Alegre”, “Saxofonomania”, “Fascinação”, e tantos outros que foram os grandes êxitos do passado, não tem casa, não tem roupa, não tem com quem possa educar a sua filha.
Dirão: por que não foi providente e não juntou o necessário para garantir o seu futuro? Mas é o triste destino das cigarras humanas, esse. Aqueles que levam a vida dando o seu trabalho inteligente para divertir as multidões, que pararam à luz da ribalta para receber os aplausos das platéias emocionadas, nem sempre possuem o espírito utilitário e providente dos seres “normais” e comuns. Vivem a glória do momento que os embriaga, e o dia de amanhã é sempre algo longínquo que os olhos não vêem como uma fatalidade. São anormais ante a normalidade corriqueira da vida. E a miséria é, às vezes, o epílogo de suas glórias.
John Gilbert, outro grande astro do passado, galã de celulóide que arrebatou os corações femininos, morreu na mais extrema miséria.
O grande David Griffith, o diretor máximo da tela dos tempos do cinema mudo, viveu implorando, de estúdio em estúdio, que lhe dessem um pouco de trabalho, e lhe concedessem mais uma oportunidade, pois sabia que ainda tinha talento para criar algo de belo e imenso.
Não é de admirar que hoje os artistas sejam utilitários, porque hoje vivemos num mundo apenas utilitário, até que o homem, faminto de idéias, vá procurá-los outra vez.
Texto extraído do livro “Páginas Várias”, 2. ed., 1963, pág. 170 – 172, do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos.