A chegada dos primeiros ceramistas a Cunha

Foto: Toshiyuki Ukeseki. Na foto: Mieko, Vicco e Cidraes a caminho de Cunha, no morro do Sapé, na Rodovia SP-171, 1975.

No dia 20 de abril de 1.975 chegava a Cunha um grupo de ceramistas formado por Mieko e Toshiyuki Ukeseki (japoneses), Alberto Cidraes (português) e os irmãos Vicente Cordeiro (Vicco) e Antônio Cordeiro (Toninho). No domingo em que encontraram Cunha, isolada entre três serras, comemorava-se o aniversário da cidade, naquele tempo celebrado no dia 20 de abril. O grupo, estranho ao jeito cunhense, logo atraiu a atenção dos moradores; entre eles, a da senhora Maria, que foi conversar com eles. Inquirindo-os, descobriu que procuravam um lugar tranquilo para se instalar e produzir cerâmica. Na condição de irmã do ex-prefeito Zelão (José Elias Abdalla), o enérgico político que buscava a todo custo promover o desenvolvimento turístico de Cunha, dona Maria levou-os até sua cunhada Maria Aparecida Núbile Abdalla (dona Cida), esposa do político, que mesmo no meio de autoridades que visitavam à cidade por ocasião de seu aniversário, conseguiu chamar a atenção do marido, que prometeu no dia seguinte arrumar um lugar para os forasteiros que tinham acabado de chegar. A Prefeitura não contava com muitas instalações disponíveis na época, e o único lugar que dona Cida cogitou, o antigo Matadouro Municipal, completamente abandonado e sujo, parecia inviável. Por sorte ou falta de opção, o grupo aceitou. A História de Cunha começaria a mudar…

Com muita dificuldade e muito improviso na base da experiência que já haviam adquirido, o grupo lutava e trabalhava para tornar o lugar habitável e para construir o forno para queima das peças. O tipo de forno escolhido, que até hoje caracteriza a cerâmica de Cunha, foi o Noborigama (“forno que sobe a montanha”, tudo a ver com a geografia cunhense), forma sofisticada do forno a lenha arcaico do Extremo Oriente, que chega a 1.400 graus centígrados e que é construído em aclives, aproveitando a inclinação do terreno. Matéria-prima havia em abundância: argila, eucalipto (para lenha), feldspato e caulim (para esmaltar as peças). A primeira fornada do antigo Matadouro saiu em dezembro de 1.975. Os ceramistas trabalharam juntos e queimaram no mesmo forno, levando as cerâmicas para fora da cidade para vendê-las. Os anos difíceis foram ficando para trás, mais ceramistas foram chegando, outros partiram, o turismo em Cunha foi crescendo, gente daqui começou a fazer cerâmica de alta temperatura… Hoje, no lugar do antigo Matadouro, a Prefeitura construiu a nova Casa do Artesão, um prédio amplo e bonito e que não guarda nenhuma relação com passado dos pioneiros da cerâmica de autor em Cunha.

Convém lembrar que em Cunha já havia ceramistas, no caso as “paneleiras” (como as famosas Nhá Núncia e dona Dita Paneleira), que faziam peças utilitárias, voltadas ao cotidiano dos moradores locais, cuja técnica remonta ao nosso passado indígena. Os ceramistas que chegaram sempre fizeram questão de respeitar e reverenciar essas mulheres que, assim como eles, aprenderam a moldar e solidificar a argila.

A concessão feita pela Prefeitura aos ceramistas-forasteiros se mostrou acertada. Já no final da década de 1980, o ateliê de Gilberto Jardineiro e Kimiko Suenaga inovou com a realização da “abertura de fornada”, evento organizado no espaço do próprio ateliê, que visava suprimir a relação do ceramista com o atravessador, trazendo o consumidor de cerâmica para dentro do espaço de produção, aumentando assim os preços das peças. Essa novidade, sempre muito concorrida, ajudou não só os ateliês da cidade, como também acabaria por servir de chamariz para Cunha, uma cidade ainda desconhecida do público da Grande São Paulo. Os frequentadores dos ateliês acabavam se tornando frequentadores de Cunha. Muitos gostaram tanto que acabaram adquirindo sítios por aqui.

Portanto, não é nenhuma surpresa que, entre os entusiastas do primeiro Festival de Inverno “Acordes na Serra”, realizado em 1.993, estivesse muitos ceramistas da cidade. A realização dos festivais de inverno foram um marco definitivo na história de Cunha, pois foi através deles que o nosso município assumiu a sua identidade turística e buscou desenvolver eventos que fizessem jus ao seu título de “Estância Climática”.

Filme institucional da Associação dos Ceramistas de Cunha (SP).

Em janeiro de 2009, foi criado, pelos ceramistas locais e outros agentes culturais, o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC), entidade que tem por objetivo ser a organização institucional do polo de cerâmica artística do município, promovendo o crescimento e a difusão da atividade cerâmica, ações educativas e culturais para a população local, enfim, uma instituição atuante e que está formando a próxima geração de ceramistas cunhenses. Atualmente está em tramitação no Senado Federal (Comissão de Educação, Cultura e Esporte) um Projeto de Lei (PL 7.772/2017), já aprovado pela Câmara dos Deputados, que confere o título de “Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura” à cidade de Cunha. O Projeto de Lei é de iniciativa da Deputada Federal Pollyana Gama (CIDADANIA/SP). Tendo em vista tudo o que representam para o turismo cunhense, a cerâmica, com o seu alto valor artístico, e os ceramistas, cientes do turismo como alternativa para uma economia agrícola decadente, mudaram a nossa História. Encerro com os dizeres da mulher que prontamente percebeu a importância daqueles artistas que pararam em Cunha naquele outono de 1.975, a visionária dona Cida (Maria Aparecida N. Abdalla), que em uma entrevista para o livro “30 anos de cerâmica em Cunha”, indagou: “Se não fosse por esses ceramistas, a história da cidade seria diferente. Como Cunha ia se tornar conhecida? E tem coisa mais bonita do que acontece aqui quando é dia de abertura de forno?”.

Referências:

ATELIÊ SUENAGA & JARDINEIRO. Cerâmica em Cunha. Disponível em: <http://www.ateliesj.com.br/&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. PROJETO DE LEI Nº 7.772, DE 2017. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposic…/prop_mostrarintegra…&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

CERAMISTAS DE CUNHA / CUNHATUR. 30 anos de cerâmica em Cunha. Cunha (SP): JAC Gráfica e Editora, 2005. Disponível em: < https://issuu.com/joaomak/docs/livro&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

JORNAL HOJE, ano II, n. 15, jul/ago. de 1998.

MEMORIAL DA CERÂMICA DE CUNHA. Disponível em: < http://www.mecc.art.br/memorial.html&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

Reportagem sobre alguns ceramistas de Cunha (TV Band Vale): https://fb.watch/5NnPuKi7wM/

3 comentários em “A chegada dos primeiros ceramistas a Cunha

  1. Parabéns à tds afinal nada se consegue sem sacrifícios abraços Meu amigo em especial Ukeseke

  2. Parabéns aos “ceramistas forasteiros”, que resolveram e aceitaram ficar, mesmo tendo que ficar em um matadouro.
    Ainda bem que ficaram, e transformaram e levaram o progresso à cidade.
    E parabéns ao prefeito de então que resolveu acolhê-los da forma que pôde.

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