Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Museu Francisco Veloso começa a restaurar seus objetos históricos

O Museu Francisco Veloso deu início à restauração de vários artefatos históricos que fazem parte de seu acervo. Essa atividade tem por objetivo preservar os objetos indispensáveis para que a história de Cunha continue sendo contada, que é a missão fundamental do museu.

O “Boi Chimemé”, protagonista da cultura popular cunhense, sobretudo nos dias em que se brinca o carnaval de rua. Esta peça, parte do acervo do Museu Francisco Veloso, encontra-se restaurada e em breve voltará a ser exposta. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

O nosso museu, desde quando foi fundado pelo professor João Veloso, nos anos de 1970, tem a missão de preservar e difundir a história e a cultura de Cunha, tanto que sua fundação coincide com a do Centro de Cultura e Tradição de Cunha. São instituições complementares. O Museu Francisco Veloso é o guardião do nosso passado. Assim, a restauração é parte essencial dessa missão, pois permite que peças fragilizadas pelo tempo voltem a ter estabilidade e possam ser expostas e estudadas.

Sala destinada à restauração do acervo do Museu Francisco Veloso. Batizada de “Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes”, museólogo nascido em Cunha. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

A restauração visa preservar e revelar valores estéticos e históricos dos objetos do acervo, respeitando sua autenticidade. Isso significa que o trabalho não é apenas estético, mas também científico, garantindo que o público e os pesquisadores tenham acesso a informações fiéis que esses objetos trazem. É um trabalho minucioso e paciente, que exige uma equipe qualificada, para que atue com cuidado para não comprometer o valor histórico dos artefatos que estão em restauração. A restauração busca não apenas conferir estabilidade, mas recuperar, na medida do possível, as informações contidas nesses objetos. Isso significa que cada detalhe recuperado — uma inscrição, uma cor original, um símbolo –, pode revelar aspectos esquecidos ou detalhes que ajudam a montar o quebra-cabeça do passado, este país que não nos pertence, como bem alertou o sociólogo David Lowenthal.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foi pensando nessa questão que o Museu criou, recentemente, um espaço exclusivo, em suas dependências, destinado à restauração. Mais do um ambiente, o “Ateliê Restauro” conta com uma equipe qualificada para a empreitada: Thales Gayean é museólogo, historiador e técnico em restauro e conservação, Maiara Fernandes é graduanda em Museologia e Isabele Ceddia é cientista social e formada em artes visuais. A sala onde está o Ateliê foi batizada com o nome do cunhense Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, museólogo, arqueólogo e historiador do Departamento de História na Universidade de São Paulo (USP). Ulpiano é um dos maiores nomes, no Brasil, no campo dos estudos sobre cultura material, cultura visual e museus. O trabalho técnico consiste, entre outras coisas, em obturações, repinturas, remoção da oxidação, limpeza e hidratação dos artefatos. Algumas obras já foram restauradas, como as esculturas que representam a Congada de São Benedito, confeccionadas pelo ceramista Luiz Toledo, na década de 1990.

Esculturas do artista cunhense Luiz de Toledo, peças que representam a Congada de São Benedito. Em processo de restauro no Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Quando falamos de história local, a restauração ganha um papel ainda mais afetivo. Objetos preservados contam histórias de famílias, comunidades e tradições que moldaram a identidade cunhense. Relíquias doadas por famílias, álbuns de fotografia, obras e esculturas de artistas locais, utensílios e tralhas do tropeirismo, objetos militares ligados à Revolução de 1932 etc. Muitas famílias e pessoas de Cunha têm confiado e depositado ao museu suas relíquias e artefatos outros de importância histórica. Foi assim que o professor João Veloso constituiu o acervo do MFV. E essas doações continuam a acontecer, pois a relação de confiança e identificação dos cunhenses com o seu museu é vigorosa o suficiente para ter sido perene até agora (e já se vai quase meio século de existência do Museu). E tudo indica que irá continuar.

Cangalha, essa tecnologia tão cara ao tropeirismo. Batizou uma serra e marcou época. Peça será restaurada pelo Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Atualmente, o Museu tem se colocado como um espaço de visitação, recebendo muitos turistas que vêm passear em Cunha. Assim, o seu acervo e as peças restauradas ajudam a fortalecer o turismo cultural e, por consequência, a economia da cidade, pois atraem visitantes interessados em conhecer a história local, elemento indispensável para uma imersão completa do turista ao espaço que está consumindo. E Cunha tem muita história para contar. São mais de 300 anos.

Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Trazer novos olhares para assuntos dados como encerrados. Pôr em evidência as negligências (e não foram poucas). O Museu Francisco Veloso tem buscado criar, de forma crítica e através da História, um sentimento de pertencimento do cunhense com sua terra, mostrando às novas gerações de onde vieram, como vieram e quais valores foram construídos ao longo do tempo. É uma proposta de longa duração e trabalhosa, mas necessária. Viva o nosso Museu!

Maquete do casarão Nenê Felipe, na rua Comendador João Vaz, onde está instalado o Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Foto de capa: Relógio carrilhão que pertenceu ao antigo Paço Municipal, sobrevivente do incêndio de 1961. Hoje, parte do acervo do Museu Francisco Veloso. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.

Um rancho tropeiro no Vale Paraíba do século XIX

“Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba”. Data: década de 1840. Pintor: Miguelzinho Dutra. Fonte: Brasiliana Iconográfica.

Desde o século XVIII, o tropeirismo foi uma atividade econômica e um ofício. Eram eles que interconectavam as distantes vilas e freguesias do sertão com os portos de abastecimento e escoamento da produção no litoral. Era um serviço essencial. Antes deles, usavam-se escravizados, eram os lombos negros e indígenas que levavam mercadorias de um lugar para outro. Mas a limitação do peso da carga e o cansaço frequente dos transportadores, submetidos a uma atividade desumana, se constituíam em um embaraço logístico. Assim, as tropas de muares surgem como solução inevitável para essas questões, tornando a expansão espacial da colonização portuguesa, cada vez mais longe dos seguros portos, possível e sustentável. É a resposta do colonizador às dificuldades que o meio físico impunha à empresa metropolitana, que vai se dando lentamente, “com a consistência do couro, não a do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio.”, nos dizeres do brilhante Sérgio Buarque de Holanda. A tropa é parte dessa resposta.

A origem das tropas de muares se relaciona com a necessidade premente de abastecimento, à medida em que o povoamento se interiorizava no Brasil colônia. Assim, pode-se traçar um paralelismo com o tropeirismo e as atividades ligadas a mineração. Mas não só isso. Tanto é que vão permanecer atuantes e como profissão de prestígio, mesmo após o declínio da atividade mineradora. Em um universo marcado pelas lonjuras, pelas estradas péssimas, a comunicação entre os sítios, fazendas, povoados, freguesias, vilas e cidades dependia desse meio de transporte fundamentado na tração animal, nas trocas comerciais e na relação entre produção, escoamento e reposição. Por isso, até meados do século XX, com a expansão das rodovias, permanece como um ofício de extremo prestígio e rentável.  Vai se constituindo em tradição passada de pai para filho, garantindo assim a formação de gerações familiares inteiras que tiveram a sua existência ligadas ao tropeirismo.

O tropeiro é uma sucessão social, uma evolução do bandeirante de outrora, conforme aponta HOLANDA (1994, p. 132-133): “Com as feiras de animais de Sorocaba, assinala-se, distintamente, uma significativa etapa na evolução da economia e também da sociedade paulista. Os grossos cabedais que nela se apuram, tendem a suscitar uma nova mentalidade na população. O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou mesmo a fraude, encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora. À fascinação dos riscos da ousadia turbulenta substitui-se o amor às iniciativas corajosas, mas que nem sempre dão imediato proveito. O amor da pecúnia sucede ao gosto da rapina […]”.

Era mais que só atividade econômica ou profissão, tal como conhecemos hoje, mas um modo de vida. E havia um jeito de ser. Eram “homens de palavra”. Se eles falassem, empenhavam-se ao máximo para cumprir. O valor moral de um homem se media pelo cumprimento das suas promessas. E foi assim que fizeram sua fama entre as mais distintas classes sociais e venceram o esquecimento imposto pelo tempo. Era gente rústica, mas nunca rude. Impressionaram o viajante e naturalista francês SAINT HILAIRE (1974, p. 27) com o fino trato que dispensavam aos demais: “As tropas passavam incessantemente pelo rancho. Em França, traria isto gritos, injúrias, disputas. Aqui, tudo se passa em paz. Todos trabalham sem o menor barulho. O mais sujo tocador de porcos fala com doçura e polidez. Trocam-se entre desconhecidos pequenos obséquios necessários, e todos vivem na melhor harmonia.  Nos encontros das estradas, ninguém jamais deixa de saudar um viandante.  Quando se vai tomar lugar num rancho, cumprimentam-se os primeiros ocupantes, e logo se trava a conversação.”

A necessidade de descanso das tropas de muares e de abrigo, levaram os tropeiros a fazer ranchos e estabelecer pousos ao longo dos trajetos. Habitações rústicas e coletivas, marcadas pelo contato, das trocas de ideias, saberes, costumes e informações. Ambiente de trocas e fermento de novos arranjos culturais. Diz SAINT HILAIRE (1974, p. 49): “quando chegam os tropeiros, arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar menor lugar possível. Cada tropa acende fogo, à parte do rancho e faz cozinha própria. Antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre a região que percorreram e falam de aventuras amorosas. Cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estriadas ao chão sobre couros”. A permanência transitória dos hóspedes não permitia melhoramentos outros. Tudo ali é funcional e sob medida. De muitos pousos se fizeram freguesias, vilas e cidades. Um exemplo é a vizinha Lagoinha. Devido à centralidade que exerciam nos tempos colonial e imperial, posição advinda da força econômica e da capacidade que tinham de integrar e suprir. Os ranchos e pousos eram os conectivos que davam ligamento à imensa rede de estradas e caminhos, em franca expansão, do continente.

Os pousos, os ranchos faziam parte desse maravilhoso universo, que vem lentamente desaparecendo… Ficam as memórias, o exemplo da saga, o saudosismo dos descendentes e tradicionalistas. Mas tudo o que podem fazer agora é rememorar. Jamais terá como reproduzir o que foi o tropeirismo. O contexto, o cenário, a sociedade, a economia, as múltiplas relações que moldaram esse jeito de ser, esse ofício, ficaram para trás. É página virada. Mas a força da memória, a necessidade de encontrar identidade em um mundo cada vez mais perdido, a busca de significado e ressignificações (com fins turísticos) ficará e poderá até se ampliar.

Referências:

DUTRA, M. Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba. [184-]. Aquarela sobre papel, 41,9 x 26,7 cm.

HOLANDA, S. B. de. Monções. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1945.

______. Caminhos e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

SAINT-HILAIRE, A. de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.

Imagem disponível no acervo digital da Brasiliana Iconográfica: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19486/pouzo-em-agoa-preta-hua-legoa-adiante-de-pindamoinhangaba

Livro: “Cerâmica em Cunha: 40 anos do forno noborigama no Brasil”

Mais uma obra comemorativa e publicitária sobre os ceramistas de Cunha. Produzida em 2015 e publicada em 2016 pelo Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC), em conjunto com a Secretaria de Turismo de Cunha, a obra segue as pegadas da publicação anterior sobre os ceramistas de Cunha, fazendo um documentário histórico, biográfico e artístico, no mesmo estilo da publicação feita na década anterior.

Capa do livro “Cerâmica em Cunha”, com textos de Liliana de Morais e fotos de Johnny Mazzilli.

Sob a coordenação artística de Laurentino Gonçalves Dias Júnior, com pesquisa e textos de Liliana Granja Pereira de Morais e belíssimas fotografias de Johnny Mazzilli, saiu mais uma obra do forno sobre a cerâmica de Cunha.

A publicação segue a mesma senda da anterior. No princípio, apresenta o testemunho de Alberto Cidraes, testemunha ocular da história em primeira pessoa, pois está entre no grupo de pioneiros. No seu relato ele deixa claro: escolheram Cunha porque ficava no eixo Rio-São Paulo e isso facilitava a comercialização das suas obras. Além do mais, foram bem recebidos pelas autoridades cunhenses: receberam um espaço para criar um ateliê coletivo. Um antigo e abandonado matadouro. Pensando bem, um “presente de grego“. Mas que no fim das contas acabou dando certo. Nenhum cavalo de Troia é suficiente para derrotar o talento.

A obra segue apontando as especificidades da cerâmica moldada e queimada em Cunha, o fogo do forno Noborigama, um estrangeiro que se adaptou bem aos trópicos, encaipirando-se por completo no coração da Paulistânia. Delineia os principais fatos históricos relacionados ao grupo de pioneiros e o contexto local. Apresenta o processo de estabelecimento dos primeiros ateliês individuais, as estratégias de comercialização artística adotadas pelos ceramistas, a necessidade de alavancar o turismo em Cunha, feito em que foram bem-sucedidos. Trata do Noborigama, o ícone, e expõe os processos criativos de uma peça cerâmica, da retirada da argila até a queima.

Há, como na obra anterior, breves biografias dos ceramistas de Cunha, com foto deles e de suas criações. Uma forma de mostrar a pluralidade de concepções artísticas que apresenta a cerâmica de Cunha atualmente e também de apresentar muitos filhos da terra, jovens que ingressaram na cerâmica e hoje já produzem e expõem suas peças. Eis o legado da cerâmica, eis o legado o Instituto Cultural de Cerâmica de Cunha (ICCC)

A novidade nessa obra é mesmo o ICCC , um instituto pedagógico que teve o instinto de perceber a importância de formar uma nova leva de ceramistas locais, focando nos mais jovens, nos estudantes, para aqueles que Cunha oferece tão poucas oportunidades. A criação desse instituto demonstra a responsabilidade social dos ceramistas e amor que nutrem pela nossa terra; terra em um sentido muito mais amplo do que fonte de argila. Terra como torrão, como chão, como lar, como pátria. O legado para Cunha será mais riquíssimo porque já está sendo e dando resultados. O epílogo é uma esperança, um sonho. E tudo se fecha em um glossário.

O livro pode ser lido on-line.

Livro “30 anos de cerâmica em Cunha”

Livro comemorativo sobre os 30 anos da chegada dos primeiros ceramistas a Cunha, produzido pelos protagonistas Mieko Ukeseki e Alberto Cidraes e com o apoio da CunhaTur e da Prefeitura de Cunha. A obra saiu em 2005, “Ano da Cerâmica em Cunha“, comemorado em função das três décadas passadas desde a instalação do primeiro forno Noborigama na Estância Climática.

Capa do livro editado e produzido sob a coordenação da ceramista Mieko Ukeseki.

O livro é um documentário sobre a cerâmica de alta temperatura desenvolvida em Cunha. Traz um relato histórico, com fotos e detalhes da chegada do primeiro grupo ceramistas, a introdução do forno oriental Noborigama (icônico) as razões de terem vindo parar aqui, uma das “cidades mortas” do Vale do Paraíba e a instalação do primeiro ateliê coletivo, no antigo e decrépito Matadouro Municipal, espaço cedido ao grupo de nômades (em processo de sedentarização) pelo ex-prefeito Zelão. Os progressos artísticos e experimentais de cada ceramista, culminando na conquista de novos espaços, com as aberturas de fornada, gérmen do turismo cunhense.

Há também uma breve biografia dos vários ceramistas instalados em Cunha no ano de 2005, apresentando juntamente algumas fotografias de peças artísticas produzidas pelas mãos, imaginação e sensibilidade talentosa de cada um. E não se esqueceram das paneleiras de Cunha. Mulheres hábeis no trato da argila, produtoras de peças utilitárias, cujo saber, transmitido de forma hereditária, remonta à ancestralidade dos povos originários.

Enfim, um interessante e necessário documentário, demonstrando como a “cidade morta” e barroca, perdida entre três cordilheiras, se transforma no maior polo da América do Sul de cerâmica de autor.

O livro pode ser lido on-line.

A chegada dos primeiros ceramistas a Cunha

Foto: Toshiyuki Ukeseki. Na foto: Mieko, Vicco e Cidraes a caminho de Cunha, no morro do Sapé, na Rodovia SP-171, 1975.

No dia 20 de abril de 1.975 chegava a Cunha um grupo de ceramistas formado por Mieko e Toshiyuki Ukeseki (japoneses), Alberto Cidraes (português) e os irmãos Vicente Cordeiro (Vicco) e Antônio Cordeiro (Toninho). No domingo em que encontraram Cunha, isolada entre três serras, comemorava-se o aniversário da cidade, naquele tempo celebrado no dia 20 de abril. O grupo, estranho ao jeito cunhense, logo atraiu a atenção dos moradores; entre eles, a da senhora Maria, que foi conversar com eles. Inquirindo-os, descobriu que procuravam um lugar tranquilo para se instalar e produzir cerâmica. Na condição de irmã do ex-prefeito Zelão (José Elias Abdalla), o enérgico político que buscava a todo custo promover o desenvolvimento turístico de Cunha, dona Maria levou-os até sua cunhada Maria Aparecida Núbile Abdalla (dona Cida), esposa do político, que mesmo no meio de autoridades que visitavam à cidade por ocasião de seu aniversário, conseguiu chamar a atenção do marido, que prometeu no dia seguinte arrumar um lugar para os forasteiros que tinham acabado de chegar. A Prefeitura não contava com muitas instalações disponíveis na época, e o único lugar que dona Cida cogitou, o antigo Matadouro Municipal, completamente abandonado e sujo, parecia inviável. Por sorte ou falta de opção, o grupo aceitou. A História de Cunha começaria a mudar…

Com muita dificuldade e muito improviso na base da experiência que já haviam adquirido, o grupo lutava e trabalhava para tornar o lugar habitável e para construir o forno para queima das peças. O tipo de forno escolhido, que até hoje caracteriza a cerâmica de Cunha, foi o Noborigama (“forno que sobe a montanha”, tudo a ver com a geografia cunhense), forma sofisticada do forno a lenha arcaico do Extremo Oriente, que chega a 1.400 graus centígrados e que é construído em aclives, aproveitando a inclinação do terreno. Matéria-prima havia em abundância: argila, eucalipto (para lenha), feldspato e caulim (para esmaltar as peças). A primeira fornada do antigo Matadouro saiu em dezembro de 1.975. Os ceramistas trabalharam juntos e queimaram no mesmo forno, levando as cerâmicas para fora da cidade para vendê-las. Os anos difíceis foram ficando para trás, mais ceramistas foram chegando, outros partiram, o turismo em Cunha foi crescendo, gente daqui começou a fazer cerâmica de alta temperatura… Hoje, no lugar do antigo Matadouro, a Prefeitura construiu a nova Casa do Artesão, um prédio amplo e bonito e que não guarda nenhuma relação com passado dos pioneiros da cerâmica de autor em Cunha.

Convém lembrar que em Cunha já havia ceramistas, no caso as “paneleiras” (como as famosas Nhá Núncia e dona Dita Paneleira), que faziam peças utilitárias, voltadas ao cotidiano dos moradores locais, cuja técnica remonta ao nosso passado indígena. Os ceramistas que chegaram sempre fizeram questão de respeitar e reverenciar essas mulheres que, assim como eles, aprenderam a moldar e solidificar a argila.

A concessão feita pela Prefeitura aos ceramistas-forasteiros se mostrou acertada. Já no final da década de 1980, o ateliê de Gilberto Jardineiro e Kimiko Suenaga inovou com a realização da “abertura de fornada”, evento organizado no espaço do próprio ateliê, que visava suprimir a relação do ceramista com o atravessador, trazendo o consumidor de cerâmica para dentro do espaço de produção, aumentando assim os preços das peças. Essa novidade, sempre muito concorrida, ajudou não só os ateliês da cidade, como também acabaria por servir de chamariz para Cunha, uma cidade ainda desconhecida do público da Grande São Paulo. Os frequentadores dos ateliês acabavam se tornando frequentadores de Cunha. Muitos gostaram tanto que acabaram adquirindo sítios por aqui.

Portanto, não é nenhuma surpresa que, entre os entusiastas do primeiro Festival de Inverno “Acordes na Serra”, realizado em 1.993, estivesse muitos ceramistas da cidade. A realização dos festivais de inverno foram um marco definitivo na história de Cunha, pois foi através deles que o nosso município assumiu a sua identidade turística e buscou desenvolver eventos que fizessem jus ao seu título de “Estância Climática”.

Filme institucional da Associação dos Ceramistas de Cunha (SP).

Em janeiro de 2009, foi criado, pelos ceramistas locais e outros agentes culturais, o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha (ICCC), entidade que tem por objetivo ser a organização institucional do polo de cerâmica artística do município, promovendo o crescimento e a difusão da atividade cerâmica, ações educativas e culturais para a população local, enfim, uma instituição atuante e que está formando a próxima geração de ceramistas cunhenses. Atualmente está em tramitação no Senado Federal (Comissão de Educação, Cultura e Esporte) um Projeto de Lei (PL 7.772/2017), já aprovado pela Câmara dos Deputados, que confere o título de “Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura” à cidade de Cunha. O Projeto de Lei é de iniciativa da Deputada Federal Pollyana Gama (CIDADANIA/SP). Tendo em vista tudo o que representam para o turismo cunhense, a cerâmica, com o seu alto valor artístico, e os ceramistas, cientes do turismo como alternativa para uma economia agrícola decadente, mudaram a nossa História. Encerro com os dizeres da mulher que prontamente percebeu a importância daqueles artistas que pararam em Cunha naquele outono de 1.975, a visionária dona Cida (Maria Aparecida N. Abdalla), que em uma entrevista para o livro “30 anos de cerâmica em Cunha”, indagou: “Se não fosse por esses ceramistas, a história da cidade seria diferente. Como Cunha ia se tornar conhecida? E tem coisa mais bonita do que acontece aqui quando é dia de abertura de forno?”.

Referências:

ATELIÊ SUENAGA & JARDINEIRO. Cerâmica em Cunha. Disponível em: <http://www.ateliesj.com.br/&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. PROJETO DE LEI Nº 7.772, DE 2017. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposic…/prop_mostrarintegra…&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

CERAMISTAS DE CUNHA / CUNHATUR. 30 anos de cerâmica em Cunha. Cunha (SP): JAC Gráfica e Editora, 2005. Disponível em: < https://issuu.com/joaomak/docs/livro&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

JORNAL HOJE, ano II, n. 15, jul/ago. de 1998.

MEMORIAL DA CERÂMICA DE CUNHA. Disponível em: < http://www.mecc.art.br/memorial.html&gt;, acesso em 19 abr. 2020.

Reportagem sobre alguns ceramistas de Cunha (TV Band Vale): https://fb.watch/5NnPuKi7wM/