
Cunha tem se destacado como uma das localidades mais propícias à observação de aves (birdwatching) em São Paulo, ocupando, atualmente, a 27ª posição no ranking estadual de espécies fotografadas, segundo o portal WikiAves, com 381 espécies identificadas em seu território.
Estrategicamente encravada entre as serras do Mar e da Bocaina, com duas unidades de conservação de proteção integral em seu território, Cunha possui uma geografia privilegiada. O gradiente de altitude cria diferentes microclimas e vegetações. É por isso que, na lista de espécies catalogadas, aparecem tanto aves típicas de áreas mais frias e elevadas (como a saudade, o fruxu e a borralhara-assobiadora) quanto espécies dos vales. A presença dessas unidades garante a proteção de matas maduras e contínuas, elemento fundamental para a sobrevivência de águias florestais, da jacutinga e dos tapaculos.
As aves fotografadas no município são características da Mata Atlântica, mais especificamente das florestas úmidas de encosta (Floresta Ombrófila Densa) e de altitude, típicas do Sudeste e do Sul do Brasil. Os registros indicam um alto grau de endemismo, visto que espécies como a jacutinga, o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus), a araponga, o tangará (Chiroxiphia caudata), a saíra-sete-cores (Tangara seledon), além de ampla variedade de tapaculos, tovacas e choquinhas, são exclusivas desse bioma, onde evoluíram e fora do qual não existem. A presença de vegetação primária ou em estágio avançado de regeneração é decisiva para esse cenário. Não obstante, a avifauna local também reflete um mosaico composto por áreas florestais permeadas por zonas rurais e de borda.

Matas extensas garantem o sustento de predadores de topo: o registro de grandes águias florestais, como o gavião-pato e o gavião-pega-macaco, funciona como bioindicador de maciços florestais contínuos, já que essas aves demandam vasto território e abundância de presas. Da mesma forma, as florestas maduras abrigam grandes dispersores de sementes; a presença da jacutinga, do macuco e da araponga evidencia a existência de árvores adultas (como canelas e o palmito-juçara) capazes de produzir frutos em quantidade suficiente para alimentar aves de grande porte, espécies que costumam ser as primeiras a desaparecer em áreas desmatadas ou sujeitas à caça.
Já os sub-bosques preservados, graças ao microclima específico, sustentam famílias restritas ao solo florestal (como tapaculos, tovacas e macuquinhos), consideradas os bioindicadores mais rigorosos de integridade ambiental. Por terem voo curto e dependerem de um estrato escuro, úmido e rico em serrapilheira, essas aves não atravessam pastagens, atestando que a base da floresta permanece intacta. Em contrapartida, as áreas abertas e antropizadas (pastos e lavouras) atraem espécies como o quero-quero, a seriema, o anu-branco e o pardal, adaptados a bordas de mata, estradas de terra e sedes de fazenda.
Diversas espécies endêmicas da Mata Atlântica e ameaçadas de extinção já foram registradas em Cunha. Constantemente citadas em inventários de fauna, listas vermelhas (ICMBio/IUCN) e diagnósticos ambientais, essas aves atuam como espécies-chave para aferir o estado de conservação do bioma. Por serem naturalmente raras e terem sofrido expressivo declínio populacional, seu registro fotográfico é notável. Em Cunha, destacam-se: jacutinga (Aburria jacutinga), papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), águia-cinzenta (Urubitinga coronata), araponga (Procnias nudicollis), pixoxó (Sporophila frontalis), caneleirinho-de-chapéu-preto (Piprites pileata), maria-leque-do-sudeste (Onychorhynchus swainsoni), papa-moscas-estrela (Hemitriccus furcatus) e saí-de-pernas-pretas (Dacnis nigripes).
A jacutinga representa um dos maiores tesouros da Mata Atlântica atual: criticamente ameaçada, depende dos frutos do palmito-juçara e de outras árvores maduras. A maria-leque-do-sudeste, igualmente rara, associa-se de forma estrita a cursos d’água límpidos no interior de matas primárias. O caneleirinho-de-chapéu-preto, de hábitos discretos no dossel, passa facilmente despercebido aos olhares menos atentos, enquanto o saí-de-pernas-pretas, que percorre a copa em busca de frutos e flores, é consideravelmente mais difícil de avistar do que o saí-azul. O registro simultâneo de especialistas de sub-bosque, águias florestais e aves dependentes de taquaras comprova o nível excepcional de conservação dos ecossistemas locais.

Foram identificadas também espécies quase ameaçadas que, embora não figurem na categoria máxima de risco, sofrem com a perda de habitat e a caça, exigindo monitoramento contínuo (algumas já constam como “Vulneráveis” em listas estaduais paulistas). Entre elas, encontram-se o macuco (Tinamus solitarius), o araçari-banana (Pteroglossus bailloni), a tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris), o sanhaço-pardo (Orchesticus abeillei), o sabiá-cica (Triclaria malachitacea), o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), o pica-pau-dourado (Piculus aurulentus), o cuiú-cuiú (Pionopsitta pileata) e o gavião-pombo-grande (Pseudastur polionotus). A presença de espécies com alta sensibilidade ecológica, como a jacutinga e a maria-leque-do-sudeste, atesta a qualidade ambiental superior do município.
Em 30 de agosto de 2026, data de elaboração deste levantamento, o WikiAves contabilizava 381 espécies registradas em Cunha (373 com registros fotográficos e 182 com gravações sonoras, totalizando 4.186 arquivos). O município consolida-se, assim, como destino de excelência para quem pratica a observação de aves. Derivado dos termos ingleses birdwatching e birding, o verbo “passarinhar” designa a atividade recreativa e científica de contemplar aves em vida livre.

Visando atender a esse público, o Núcleo Cunha do Parque Estadual da Serra do Mar estruturou a Trilha de Observação de Aves: um percurso autoguiado de 1,1 km, de nível fácil, traçado sobre uma antiga estrada em meio a remanescentes de araucárias, equipado com deque de observação e conexão com a Trilha do Rio Paraibuna. Os observadores que visitam ou residem em Cunha contribuem diretamente para o conhecimento desse patrimônio natural. Esses dados são fruto do esforço conjunto de fotógrafos, ornitólogos e guias locais que percorrem os diferentes quadrantes do município, viabilizando o monitoramento científico de populações ameaçadas e reiterando a relevância dos corredores ecológicos da Serra do Mar, um exemplo concreto de integração entre ecoturismo e conservação ambiental.