
O bairro do Palmital foi, durante décadas, um retrato do isolamento no interior paulista. Encravado nos sertões da Serra do Mar (na região da Serra do Campo Grande) e localizado a mais de 1.500 metros de altitude, o povoado ficava dentro do território do município de Cunha (SP). No entanto, sua ligação social e comercial mais forte era com a vizinha São Luiz do Paraitinga, cuja sede urbana ficava a cerca de 40 quilômetros de distância.
A ocupação do lugar foi impulsionada sobretudo por famílias oriundas de Minas Gerais, atraídas pelo baixo custo das terras, que eram adquiridas praticamente de graça, na esperança de consolidação da posse e de uma futura valorização imobiliária. Naquele período, as atividades do Palmital eram marcada por constantes derrubadas da mata, pela carvoaria e pela intensa exploração de palmito (daí o nome do bairro), práticas essenciais para a fixação desses posseiros. Essas memórias sobre a rotina e o perfil dos pioneiros chegaram até os dias de hoje por meio de relatos orais, como as lembranças transmitidas pelo senhor José Galvão, morador tradicional do vizinho bairro da Catioca, e compartilhadas pelo memorialista Gustavo Messora nas redes sociais. Zé Galvão testemunhou as histórias desse povoado antes que a criação do Parque Estadual inviabilizasse de vez a permanência humana e levasse ao abandono completo da área.
O acesso e a locomoção eram os principais obstáculos geográficos da comunidade. Na década de 1970, chegar ao Palmital exigia duas horas de jipe seguidas de mais três horas no lombo de burros, por meio de uma estreita picada aberta no mato. A ausência de estradas adequadas impedia o uso de automóveis e ditava a dinâmica econômica local. A produção de leite, por exemplo, era inviável pela falta de vias para o escoamento. Assim, a sobrevivência dos moradores dependia exclusivamente de pequenas lavouras de subsistência cultivadas em clareiras na mata, da coleta de pinhão e de atividades clandestinas, como a caça e a extração de palmito.
A precariedade da infraestrutura também se refletia na saúde e nos serviços básicos. O bairro nunca havia recebido a visita de médicos ou de autoridades. Quando havia doentes em estado grave, a única solução era transportá-los em camas, carregadas por quatro homens até o distrito de São Pedro da Catuçaba (pertencente a São Luiz), o núcleo urbano mais próximo, a 22 quilômetros de distância.

Apesar desse cenário adverso, a vida na comunidade girava em torno de suas próprias iniciativas de organização. O principal marco de desenvolvimento no local era a escola. Funcionando em uma casa coberta por cavacos de madeira, o espaço só abriu as portas quando a professora Isabel Ribeiro aceitou o posto, após a desistência de outras profissionais devido ao isolamento. Ela passava períodos de 15 dias confinada na localidade, onde lecionava para 26 crianças, ensinava noções de higiene e atuava como um elo entre os moradores e a cidade. A fé também mobilizava o povoado: em 29 de setembro de 1970, o padre Tarcísio de Castro Moura celebrou a primeira missa do Palmital, evento que reuniu os moradores e marcou o erguimento de uma cruz no local onde planejavam construir uma capela.
À época, a construção de uma estrada era a principal reivindicação do bairro e, talvez, sua única chance de sobrevivência e progresso. O desfecho da região, no entanto, foi determinado por uma mudança drástica na política de uso do território.

Em 1977, a área foi englobada pela criação do Parque Estadual da Serra do Mar. Com a implementação dessa unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana no lugar foi severamente restringida. As rigorosas normas ambientais tornaram insustentáveis as práticas agrícolas tradicionais e o extrativismo irregular, além de proibirem a abertura de novas clareiras ou vias de acesso. Esse novo cenário impulsionou um lento declínio demográfico, à medida que os moradores deixavam o local em busca de condições viáveis de subsistência.

Como resultado direto desse processo de declínio e da restrição do uso do solo, o Bairro do Sertão do Palmital esvaziou-se definitivamente no início do século XXI. Hoje, restam poucos registros de sua existência, além de alguns sítios dispersos. Quase todos foram embora ou venderam suas terras para “gente de fora”. O mosaico paisagístico formado pelos campos de altitude e pela Mata Atlântica vai, aos poucos, se regenerando, recuperando seus domínios.

