Restauração feita por IA, a partir de quadro do Cônego Siqueira, que havia na Igreja Matriz. Imagem gerada por Victor Amato dos Santos.
Communicado.
Agora, que se achão reunidos os srs. deputados provinciaes, eu, que sou filho, e residente na cidade de Cunha, chamo a attenção desses senhores para esta cidade, que se acha balda de recursos, para o bem estar dos seus habitantes, seu desenvolvimento moral, e material.
Precisa-se de um chafariz, que ministre agoa a esses habitantes, para não se finarem a sede, as ruas se achão em pessimo estado, e precisão de ser calçadas para comodo do transito publico bem como a falta de boas estradas, que são os verdadeiros vehiculos do commercio, sendo esta localidade a menos pesada aos cofres publicos, a matriz, alem do estado ruinoso, que não se comporta com a dignidade um Templo de Deos, e por isso precisa, de prompto concerto, se acha sem paramentos, e note-se, que por meus esforços, e de alguns amigos consegui criar, e elevar a irmandade do Sacramento, para o qual o povo tem cooperado para as missas das quintas feiras, e esse povo se alegra de vêr a Santa, e Augusta Religião n’um pé magestoso e digno da santidade de seu culto, e é só assim, que se arreigão as crenças religiosas, que hoje se achão arrefecidas, no espirito do povo, o que é um grande passo para a educação, e civilisação de todas as classes — vida sem religião é viagem sem roteiro, assim dizia o finado marquez de Maricá o Rochefoucauld brazileiro.
A cadeira de latim, e francez criada no anno passado está até hoje vaga, e como é de necessidade, que ella seja occupada, bom será, que seja ella posta a concurso. A de primeiras letras do sexo masculino se acha fechada a 2 mezes, mais ou menos, e não se sabe, de que provem esta falta.
Outras palpitantes necessidades alem das expostas exigem promptas medidas, e nesta conjunctura, appello para o illustre deputado, o sr. dr. José Martiniano de Oliveira Borges, representante por Cunha, que estamos certo das necessidades do circulo, que o elegeo, e por isso se compenetrará proporá todas as medidas concernentes afim de serem satisfeitas com promptidão estas emergentes necessidades, tanto mais, que s. s. tem por seu lado a illustre maioria da assembléa, e como estas questões não são de partido, que sempre accarretão divisões, s. s. obterá a adhesão da illustre minoria.
Não sei, que fatalidade pesa sobre a cidade de Cunha, que se acha entregue ao olvido, e não ha uma voz, que se eleve para manifestar suas necessidades. Outr’ora quando a desditosa Irlanda acabrunhada ouvia a vóz poderosa, e retumbante de O’Conel, erguia uma cabeça, no emtanto na provincia de S. Paulo, a pobre cidade de Cunha se acha abandonada, como se a maldição do Eterno a tivesse ferido, sem que uma voz se levante para acoroçoal-a !
Senhores legisladores provinciaes, é tempo de lançardes vossas vistas benignas para esta parte da provincia, de que sois representantes, nas vossas mãos está tiral-a do aviltamento, em que se acha mergulhada, e erguel-a a altura em que devem ser collocadas todas as localidades da provincia de nosso nascimento.
Se escutardes minha debil vóz, que se manifesta nestas poucas linhas, bem merecereis da patria, e o juizo da posteridade, levando vossos nomes as paginas da historia de nosso paiz, vos bem dirá, e eu, como filho, e parocho da cidade de Cunha serei o primeiro em agradecer as medidas, que tomardes na presente sessão legislativa em prol dos interesses desta cidade, digna por sem duvida de todas as vossas attenções.
S. Paulo 1º de março de 1859. O vigario, Antonio Gomes de Siqueira.
1859. Cunha tinha acabado de ser elevada à categoria de cidade, mas antigos e recorrentes problemas urbanos afetavam a vida da pequena localidade serrana. Seu maior líder político e religioso no século XIX, o Cônego Antônio Gomes de Siqueira (o “Padre Gomes”), resolveu agir. Dirigiu-se à capital e, na Assembleia Provincial, proferiu um incisivo discurso. Na tribuna, cobrou o Dr. José Martiniano de Oliveira Borges, deputado provincial do 2º Distrito eleito com os votos de Cunha. Alguns dos problemas apontados atravessaram os séculos e persistem até os dias de hoje.
O texto “Communicado” (1859) é um documento típico do Brasil Imperial (Segundo Reinado, governo de Dom Pedro II), escrito pelo vigário de Cunha (SP). Trata-se de uma petição pública — um apelo às autoridades provinciais.
Reprodução do “Communicado”, o discurso do Cônego Siqueira. Fonte: jornal Correio Paulistano, 1859.
Cunha havia sido elevada à categoria de cidade em 20 de abril de 1858; ou seja, o texto surge logo após sua emancipação política. O Brasil vivia um período de centralização administrativa, mas as decisões práticas (infraestrutura, educação, etc.) eram muito dependentes das províncias e de seus deputados. O objetivo do discurso era influenciar os políticos provinciais.
O vigário faz um retrato claro das condições locais:
Falta de infraestrutura básica: Ausência de chafarizes (abastecimento de água) e estradas em péssimo estado ou inexistentes. Muitas cidades do interior eram mal integradas economicamente, dependentes de caminhos precários, como era — e ainda é — o caso de Cunha.
Crise econômica e isolamento: Padre Gomes afirma que a cidade está “balda de recursos” e destaca que as estradas são os “veículos do comércio”. Cunha sempre dependeu de seus caminhos, por ser uma cidade que surge entre o sertão e o mar. No século XIX, o desenvolvimento dependia fortemente de rotas de circulação (tropas e comércio agrícola). Esse antigo problema de Cunha, como se sabe, não se resolveu; pelo contrário, agravou-se com o surgimento das estradas de ferro no último quartel dos oitocentos.
Problemas religiosos e simbólicos: A Igreja Matriz está em ruínas e falta dignidade ao culto. Na época, a Igreja Católica era a instituição central da vida social e política; portanto, um templo degradado significava perda de prestígio para a cidade e enfraquecimento da coesão social (a reforma da Igreja Matriz seria realizada posteriormente, no último quartel do século XIX).
Educação precária: As cadeiras de Latim e Francês — disciplinas essenciais na época — estão vazias, e a escola masculina, fechada. Há dificuldade em manter o ensino formal e carência de professores qualificados. A educação no Império era limitada, e as cidades pequenas sofriam com o abandono institucional.
O texto expressa valores típicos do período, como a religião vista como base da civilização. O autor cita que “vida sem religião é viagem sem roteiro”. A mentalidade dominante associava a religião à moralidade pública e à ordem social, fatores considerados condições para o progresso. A civilização cristã, tomando como referência a Europa, era o objetivo final daquela sociedade.
O discurso reforça a importância do Padre Gomes para a vida social e política cunhense. Ele agia como o legítimo representante local; por isso, podia cobrar ações do poder público e tinha apoio para viajar até São Paulo com tal intento. Seu discurso repercutiu, sendo publicado no jornal Correio Paulistano. Havia espaço no Império para a expressão da opinião pública local, desde que bem articulada.
Fonte da foto: Museu Francisco Veloso.
Como padre, sua proposta política é conciliadora. Ele afirma que as demandas “não são de partido”. É um típico discurso imperial: visava evitar conflitos políticos e priorizava o interesse comum. Contudo, o texto diz muito também sobre a personalidade e o modo de fazer política do Cônego Siqueira, que transitou entre os partidos da época. Com a chegada da República, foi ele quem, já em seu ocaso, conciliou monarquistas (liberais e conservadores) e republicanos em Cunha, consolidando um novo grupo político que permaneceria no poder local até a Revolução de 1930.
Deputado regional. Figura histórica de Guaratinguetá. Quadro gerado por IA, a partir de imagem do Museu Frei Galvão, de Guaratinguetá.
O “Communicado” é um manifesto de denúncia do abandonoem que se encontrava o interior paulista. Aponta a necessidade de modernização urbana em um momento no qual as cidades começavam a ganhar importância, mesmo em uma economia majoritariamente agrária. É, ainda, um reflexo das desigualdades regionais: recém-promovida a cidade, Cunha não tinha estrutura básica para sustentar esse status. Apesar de o discurso combinar religião, política e moral, os problemas apontados pelo vigário eram pertinentes — e permanecem atuais.
Fonte: jornal Correio Paulistano, 6 de março de 1859.
Por volta do anno de 1700, o intenso uso do antigo trilho dos goyanás, entre Paraty e o valle do Parahyba, no caminho das minas geraes, determinou a formação de pousos, onde os tropeiros descansavam e havia milho farto para os animaes.
O ouro, augmentando incrivelmente o tráfego, fez taes acampamentos crescerem de importância, transformando-as em estalagens. E com essas paradas forçadas o commercio fosse rendoso, natural que por ali se fixassem comerciantes desiludidos das minerações, ou lavradores, forçados pela própria natureza, de tendências irreprimivelmente voltada para a agricultura. Porque há indivíduos assim, que nascem com a vida rural no destino.
Entre esses, um Silva Porto acampou em 1724, com a família e mais companheiros, nos logares denominados “Campo Alegre” e “Boa Vista”, à margem da estrada, junto ao ribeiro Lavapés.
Fizeram curral, onde metteram algumas cabeças de gado. Dahi à construcção da egreja, da pequenina capella que é o germen de todas as novas freguesias, foi um instante. Estava esboçado o arraial.
Sommaram-se nove habitantes. Aventureiros que pretendiam alcançar o território das minas e deixavam encantar, convidados pela terra e pelo clima, ficavam. Espalhavam-se pela serra, nas ondulações do solo, entre os milharaes, a canna doce e os verdes campos de pastagens.
Mais tarde uma família portugueza conhecida pelo nome de Falcon, composta de Falcon, mulher, filha, genro e irmão, frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição, fixou-se também ali, numa planície pouco distante, dando mais impulso ao nascente povoado.
Constituíram-se assim três núcleos principaes: “Boa Vista” e “Campo Alegre”, com Silva Porto e seus companheiros; e a família Falcon, no ponto em que hoje se situa a cidade.
Aconteceu então que entre os grupos, e isso era natural, surgiu accesa rivalidade, porque todos três, conhecendo que careciam reunir-se, porquanto a união faz a força, queriam cada qual que seu próprio sítio constituísse o centro da futura villa.
Frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição (o qual demonstrava absoluto desinteresse da questão material e cuidava mais da salvação das das almas), argumentando que no alto do ribeirão Lavapés já havia uma egreja, e revelando assim a mais absoluta isenção de partido, transportou para o campo rival a imagem de N. S. da Conceição, de sua particular fé e de milagrosa fama.
Três vezes levou o religioso imagem à capella; três vezes a imagem voltou, no rastro delle, ao núcleo dos Falcon.
Milagre?
Conclusão do artigo da historiadora Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado em 1957, que pôs em xeque a família “Falcon” ou “Falcão” como fundadora de Cunha.
Não foi preciso mais nada. Interpretando o facto como manifestação de divina vontade, foi facil ao frade, insuspeito na questão material, arrebanhar para o seu grupo os moradores das vizinhanças, e com o auxílio delles erigir um templo de grandes proporções, templo que veio a constituir um dos mais importantes monumentos históricos da região.
Em 1747 o arraial foi freguesia. A freguezia foi villa em 1785, com o nome de Villa de Nossa Senhora da Conceição do Cunha.
O mais interessante, porém, é que hoje a cidade e dita simplesmente de “Cunha”. O nome histórico, o que lhe reflecte verdadeiramente a formação, esse ficou por ahi, degastado pelo tempo e inteiramente olvidado pelos homens. Só restou o appendice final, encaixado a martelo, à última hora, pelo governador e capitão general de São Paulo, Francisco da Cunha Meneses, numa deslavada autohomenagem, que atravessou e venceu quase dois séculos.
Mas isso não foi nada, uma vez que a idéa pegou.
E o nome da pitoresca cidade é até um dos mais sympathicos e amáveis para todos os paulistas.
Parte do artigo publicado no Estadão, em abril de 1939, transcrito neste post. Fonte: Acervo Estadão. Interessante notar que não é assinado.
Artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em 16 abr. 1939, p. 8.
Nota: Sobre a suposta “família Falcon” e “frei Manuel”, citados neste artigo anônimo, trata-se de personagens contestados pelas pesquisas históricas e genealógicas que se fizeram sobre a origem de Cunha, antigo Facão. Essas personagens e a história miraculosa da santa que mudou de lugar compõem o nosso mito fundador. Para saber mais, leia: – O artigo “Um documento interessante sôbre Cunha”, da professora do departamento de história da USP Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado na Revista de História, n. 31, 1957. – O artigo “Cunha e nome Facão”, do professor de história e genealogista Carlos da Silveira, publicado em duas partes na Revista do Arquivo Municipal, vol. LVIII, 1939 e vol. LXIII, 1940.
Arte feita para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da página Jacuhy, no Facebook.
Foram os antigos caminhos que cortavam a região a causa do povoamento. Havia o “Caminho das Boiadas” ou “Estrada da Bocaina”. Surgiu para não destruir o Caminho do Ouro oficial, pela Serra do Facão, pois o gado, em seu transitar, vai socavando com suas patas e destruindo a estrada. Assim, o gado era tocado por outro caminho. O Caminho das Boiadas saía de Guaratinguetá ou Lorena, passava pelos campos da Bocaina e alcançava o porto de Mambucaba ou Angra dos Reis, dependendo do rumo que tomava. Posteriormente (séc. XIX), esse caminho seria utilizado e calçado para o transporte do café. Mais que uma conexão entre o planalto e o litoral, foram esses caminhos vetores de ocupação e colonização.
No final do século XVIII, algumas famílias paulistas e fluminenses conseguiram sesmarias no vale do Paraitinga e nos contrafortes da Bocaina. Eram os Fialho, os Galvão dos Santos (Carmo), os Gomes Siqueira, os Ayres dos Reis, os Vaz da Silva, os França Mota, os Rodrigues da Silva, os Mariano Rodrigues, os Santos Pinto, os Pinto dos Santos, os Pinto Leite, os Cardoso de Miranda, os Marques, os Galvão Freire, os Almeida, os Pereira, os Moraes, os Lopes dos Santos, os Siqueira França, os Albano da Silva, os Müller etc. Terra boa, ainda ínvia. Vão povoando e abrindo passagem. De vez em quando ainda viam, esses pioneiros, os Puris cortando, apressadamente, aquelas florestas intactas. Caminhos foram se abrindo, novas famílias chegando e desmatando. A mata caía onde novos sítios eram erguidos. Por volta de 1.820 já se registra 400 almas, entre brancos e escravos. Denominava-se “Bocaina”, apenas. Em 1.859, Manoel Lopes dos Santos (D’Assunção) edifica a primeira capela da redondeza, orago de Nossa Senhora dos Remédios. Por esse tempo, ganha notoriedade a Fazenda da Serra, no bairro da Guabiroba. Era propriedade de Maria do Carmo dos Santos, viúva do Alferes José Gomes dos Santos Pinto e casada em segundas núpcias com Luiz Pereira Paes de Almeida. Latifundiária e rica, bancou boa parte da edificação da capela. Como centro religioso da redondeza, em torno da capela brota um povoado: Campos Novos. Povoado é um termo que significava à época “pequeno aglomerado rural ou urbano, sem autonomia administrativa; lugar ou sítio no qual já se formou uma pequena população ou um pequeno núcleo de habitantes.” (SEADE, 1995).
Croqui da vila de Campos de Cunha, distrito do município de Cunha. Atentar para o diminuto arruamento. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC). Data: maio de 1940.
Vivia a região um enorme crescimento econômico proporcionado pela riqueza do café, que ia modificando a paisagem. Respingo da pujança econômica do médio Vale do Paraíba no planalto. “Campos”, devido aos campos de altitude da Serra da Bocaina, e “Novos”, porque a ocupação do Distrito era mais recente do que o restante do município. Campos Novos vingou à margem de um (Lorena – Mambucaba) das dezenas de caminhos que conectavam o vale produtor aos portos de exportação. Por isso, pulsou no ritmo regional: viveu o apogeu e a decadência da cafeicultura valeparaibana. Depois veio a fonte de água mineral (na década de 1910), depois a pecuária leiteira (década de 1940) … O turismo ainda é uma promessa, pois o potencial de Campos de Cunha é grande demais para seguir ainda inexplorado.
A região passa por um rápido crescimento econômico e populacional. Até que em 8 de março de 1.872, o povoado de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha se torna um Distrito de Paz, pela Lei Municipal nº. 5. Assim, passa a contar com uma autoridade administrativa nomeada pela Vila de Cunha especialmente para o lugar. Um Distrito era uma “divisão territorial e administrativa em que certa autoridade administrativa, judicial ou fiscal exerce sua jurisdição” (SEADE, 1995).
Em 11/09/1873, a capela passa a ser paróquia, com vigário próprio nomeado. Dessa forma, torna-se de fato Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha, pois só se tornava freguesia se fosse paróquia, isto é, tivesse um padre regular atuando na igreja. O primeiro que chegou a Campos Novos para a missão foi o padre italiano Nicolau Polito Derosa (“Padre Derosa”). O termo “freguesia” se refere a: “circunscrição eclesiástica que forma a paróquia; sede de uma igreja paroquial, que servia também, para a administração civil; categoria oficial institucionalmente reconhecida a que era elevado um povoado quando nele houvesse uma capela curada ou paróquia na qual pudesse manter um padre à custa destes paroquianos, pagando a ele a côngrua anual (…)” (SEADE, 1995).
Na divisão administrativa referente ao ano de 1911 já consta o Distrito de “Campos Novos de Cunha” como pertencente à Comarca de Cunha. Esse topônimo foi simplificado para “Campos de Cunha” apenas, na lei de divisão administrativa de 1938, permanecendo assim até os dias atuais. Mas para o cunhense ainda é “Campos Novos”.
Em 1912, o Barão da Bocaina compra a fazenda onde estava as fontes de águas minerais, conhecidas desde o século XIX. Seu projeto era construir uma nova cidade no local, uma estância hidromineral seguindo o exemplo de Campos do Jordão, que fora um projeto seu. E bem-sucedido. Com a morte do Barão, os planos são abandonados. Na década de 1970, a fazenda é comprada pelo italiano Ghisleni Giulio. Seu projeto era criar um loteamento, seguindo, modestamente, os planos do Barão. Não consegue vender os lotes, então decide envasar e vender a água mineral. A qualidade das “Águas Virtuosas Santa Rosa” conquista o mercado regional, mas na década de 1990 o envasamento é suspenso. Em 2021, a água mineral volta a ser vendida com o nome de “Serras de Cunha”, uma marca da Águas Prata Ltda.
Entre as décadas de 1920-1950, muitas famílias mineiras (os Fagundes, os Gonçalves etc.) migram para o município de Cunha, inclusive Campos de Cunha, atraídas pelo baixo preço das terras. Aqui desenvolvem a pecuária leiteira e, posteriormente, a pecuária de corte. Hoje, Cunha é a maior produtora de leite do estado. Então, Campos de Cunha se torna famoso pela qualidade de seus queijos e por sua produção de leite. Até pouco tempo, o Distrito contava com 2 grandes laticínios e outros artesanais espalhados pela zona rural, as fabriquetas.
Antiga fotografia capturada na vila de Campos de Cunha, possivelmente da década de 1940, postada no grupo “Memória Cunhense” (Facebook).
Nos anos de 1970-1980, devido ao abandono do Distrito pelas administrações municipais, cresce entre os moradores o desejo de emancipar-se de Cunha. Ademais, Campos de Cunha sempre manteve mais ligação com Lorena e Silveiras do que com a sede municipal. O pleito dos moradores é levantado pela SADICAC (Sociedade de Amigos do Distrito de Campos de Cunha) e recebe apoio dos deputados da região. Em 1991 é aprovado a realização de um plebiscito pela Assembleia Legislativa de São Paulo para votar a emancipação do Distrito de Campos da Cunha. Todavia, mudanças nas normas estaduais para emancipação de municípios, concernente à autossuficiência econômica, adia o sonho de Campos de Cunha.
É uma longa história, bem resumida pelo poeta e cantor Celso Galvão “…mas o lugar cresceu/ o tempo passou/ as porteiras se abriram / o progresso chegou/ Uma estrada novinha/ e a freguesia no meio da serra aflorou (…) uma gente que sonha e constrói para o futuro uma linda cidade/ na certeza de que/ a união e a fé/ é o caminho e verdade…”. Hoje, Campos de Cunha celebra 150 anos de elevação a Distrito. Parabéns a todos os moradores: da vila, da Bocaina e de todos os bairros rurais. Felicitação que estendo aos que se encontram dispersos por outras paragens.
Campos de Cunha em dois tempos: na década de 1980, na foto superior; na inferior, em 2016. Crescimento da mancha e adensamento urbano. Fotos: Página “Lá em Campos Novos” (Facebook).
Referências: CUNHA, M. W. V. da. O Povoamento no Município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, v. II, p. 641-49, Florianópolis (SC), 1944. FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS (SEADE). Memória das estatísticas demográficas: definições. Disponível em: < http://produtos.seade.gov.br/produtos/500anos/index.php?tip=defi >. Acesso em 8 mar. 2022. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades: Cunha (SP): História e fotos. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico >. Acesso em 8 mar. 2022. VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha – 1600 – 2010 – Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Música homenageando Campos de Cunha, composta e interpretada por Celso Galvão.
Recém-inaugurado, o segundo templo metodista e o primeiro de alvenaria da Igreja Metodista do Jericó. Substituiu o antigo, feito de pau-a-pique e sapé. Hoje é o salão social “W. B. Lee”. Foto: “Expositor Cristão”. Data: década de 1910.
Jericó, bairro rural na região sudoeste do município de Cunha. Jericó do requeijão de prato, do “café medroso”, da cachoeira belíssima, do chapéu e do embornal, dos lajeados de pedra, dos velhos casarões de taipa, dos fazendeiros de outrora… Jericó da Igreja Metodista! O “bairro dos metodistas”, qualificativo que os cunhenses davam ao bairro no passado.
Panorama do bairro do Jericó, zona rural de Cunha – SP. Um pequeno vale que começa com a igreja. Foto: Pedaleiros de Cunha (Instagram).Data: 2021.
Quando o Metodismo chegou, através dos “tropeiros de Cristo” reverendo J. R. Carvalho e diácono J. C. de Andrade, o bairro ainda se chamava Mandinga. Na língua dos africanos, “terra do feitiço”. Após a conversão completa dos moradores, trataram logo os metodistas de mudar o nome do lugar para Jericó. Uma alusão à primeira cidade que os hebreus conquistaram em Canaã, após o retorno da escravidão no Egito, sob a liderança de Josué. A comparação realmente faz sentido quando levamos em conta a beleza paisagística e a fertilidade do lugar, comparável à Terra Prometida dos hebreus. A igreja local coloca em destaque na pracinha alguns versículos bíblicos, que se referem à Canaã, mas cabem perfeitamente também ao bairro do Jericó:
“Porque o Senhor teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas; Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel. Terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre. Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao Senhor teu Deus pela boa terra que te deu. Guarda-te que não te esqueças do Senhor teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos que hoje te ordeno.”
Deuteronômio 8: 7 – 11
Longe de todas as cidades, Jericó era o lugar perfeito para que os crentes pudessem cultuar a Deus em paz. O sociólogo Emílio Willems apontou que a implantação do Metodismo em Cunha não sofreu oposição católica devido ao isolamento do bairro. O antropólogo Robert W. Shirley afirma que os missionários preferiram Jericó porque na zona urbana a hostilidade da elite e do clero católico seria inevitável, dada a experiência desagradável que tiveram os missionários evangélicos em outras cidades paulistas. Novidade no início da República, a separação entre religião e Estado ainda não estava plenamente consolidada. No interior do Brasil, regido sob o arbítrio dos coronéis, as leis constitucionais não valiam plenamente. Perseguições religiosas, sob a chancela das autoridades locais, não eram raras. Não foi o caso de Cunha. Ainda bem.
Metodistas do Jericó junto ao seu pastor Rev. William B. Lee, missionário enviado pela Igreja Metodista Episcopal do Sul, dos EUA, ao Brasil. Os pés descalços e os chapéus de palha dos homens dos moços e meninos chamam a atenção. Caipiras protestantes. Tempos difíceis… Foto: Valquíria Leite. Data: década de 1930.
Em seu livro “O fim de uma tradição”, Robert Shirley traz um detalhe importante sobre a implantação do Metodismo: o capitão da região do Jericó foi simpático à nova fé e a própria família desse capitão “desempenhou papel vital” no desenvolvimento da Igreja. O antropólogo está se referindo ao Capitão Joaquim Mariano de Toledo (Caçapava, 8 de maio de 1850 – Sertão dos Marianos – Cunha, 8 de janeiro de 1933), maior latifundiário de Cunha e conhecido como “Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”. Foi povoador do Sertão dos Marianos, Frade, Campo Grande, Itambé, Peros, Sertão do Xavier, Sertãozinho e da Mandinga (atual Jericó). O capitão sempre permaneceu católico. Certamente, se se opusesse ao trabalho missionário dos metodistas, poderia ter trazido algum problema ou empecilho. Mas não foi o seu procedimento. Todavia, é preciso relembrar que a família do capitão vai aderindo à Igreja Metodista aos poucos, no decorrer das primeiras décadas do século XX. Nos primórdios, não esteve a evangelização ligada à família Mariano. Entre as famílias pioneiras encontramos os Almeida, os Eufrásio, os Campos e os Monteiro, não os Mariano Leite. A doação do terreno para a construção do primeiro templo, por exemplo, foi feita pelo sr. José Tomás Monteiro (Juca Tomás). O primeiro culto, realizado em 18 de março de 1899, ocorreu no lar do sr. Lethargino José Almeida. Com o passar do tempo, a união dessas famílias via se enlaçando através dos casamentos e os Mariano Leite vão ganhando proeminência no metodismo cunhense, com destaque para liderança religiosa exercida pelo sr. Luís Mariano Leite e dona Maria Cesarina de Jesus (“Cotinha”), dois grandes metodistas.
A Igreja Metodista do Jericó foi fundada em 26 de maio de 1901, separando-se da Igreja Metodista Central em Taubaté. Em seguido, começam os metodistas a construção de um templo para adorar o SENHOR, bem modesto e rústico, de taipa de mão e coberto de sapé. Tudo muito simples e de acordo com as condições econômicas das primeiras famílias metodistas. Pobres, mas determinados, trabalhadores. Contava a Igreja nessa fase inicial com 60 membros, todos conversos do Catolicismo e recebidos por pública profissão de fé. O grande número de crianças impressionava os missionários e indicava um futuro promissor para aquele pequenino e modesto templo, cujo entorno viria a se formar a maior comunidade protestante e rural do Brasil e única sob muitos aspectos. Também se tornaria a maior congregação metodista do Brasil, superando, inclusive, as comunidades urbanas.
Tempos áureos: metodistas reunidos para foto comunitária. A Igreja Metodista do Jericó atingia o seu maior número de membros. Mais de 150 pessoas aparecem nesta foto. Tem crente pendurado até nas árvores, lembrando Zaqueu, na narração do Evangelho segundo São Lucas. Foto: Jorge Prudente. Data: década de 1940.
O Metodismo cresceu rapidamente nos primeiros anos, alcançado a estabilidade na década de 1920, quando os recebidos por batismo ultrapassaram os recebidos por conversão e pública profissão de fé. É o sinal de que todos os moradores do lugar já haviam se convertido. Seus filhos já eram batizados na nova fé. Daí, concluída a tomada de Jericó, os missionários metodistas partiram para outras terras: Cume, Monjolo, Rio Manso, Bom Retiro, Guandu, Bangu, Desterro, Palmeiras, Lajinha, todos na região leste de Cunha. O trabalho nessa nova zona missionária se inicia na década de 1920 e vai até o estabelecimento da Igreja Metodista do Cume, entre 1928 e 1933. Mas não obteve o mesmo sucesso que Jericó, embora tenha dado origem a uma sólida congregação metodista. Os cientistas sociais que estudaram a implantação do Metodismo em Cunha apontam que o rápido crescimento se deu em função dos casamentos. Na época, tanto a Igreja Católica como a Igreja Metodista desencorajavam os enlaces inter-religiosos. Muitos rapazes aderiram ao Protestantismo para poder se casar com as moças da Igreja. Por isso, era comum ocorrer os maridos ou esposas fazerem a profissão de fé no mesmo dia do casamento.
Um dia de festa em Jericó! Centenas de pessoas entoando hinos adentram ao atual templo: mais amplo, moderno e com torre. Foto: Valquíria Leite. Data: 15 de dezembro de 1957.
Com a conversão da elite agrária do bairro, se tem então uma comunidade rural inteiramente evangélica. O que diferia totalmente da característica geral do Protestantismo brasileiro, que atraia, geralmente, pessoas das classes mais baixas da estratificação social e de não nascidos nas igrejas protestantes. Esse perfil social que marca os protestantes brasileiros até os nossos dias. Assim, em Jericó, a elite também era protestante. Ali, o Protestantismo era majoritário e a minoria era católica. Jericó era única por esse motivo também. Os metodistas eram a maioria e a Igreja Metodista possuía adeptos em todos os estratos sociais: fazendeiros, sitiantes, administradores, agregados, meeiros, peões, pedreiros, artesãos, doceiras, cozinheiras, inquilinos, retireiros, tropeiros, comerciantes, diaristas e trabalhadores rurais pobres; mulheres, crianças, professores.
A neblina cobrindo os montes, o templo novo, o templo antigo (hoje salão social), o muro no estilo da torre, a escola, a casa pastoral e a cocheira, a “garagem” do povo da roça guardar o seu veículo: o cavalo, à moda dos antigos tropeiros que trouxeram o Metodismo para Jericó, à moda de John Wesley. Símbolos de uma época. Foto: Valquíria Leite. Data: década de 1960.
A chegada da Igreja na cidade de Cunha levará mais tempo, vindo a acontecer somente na década 1950. Na zona urbana, os metodistas encontraram, inicialmente, uma ferrenha oposição católica. Houve algumas querelas teológicas entre os dois grupos e certas hostilidades religiosas por parte dos católicos contra os metodistas. A cessão das hostilidades aconteceu somente na década de 1960, após o Concílio Vaticano II, sínodo que levou o Catolicismo a promover uma abertura maior ao movimento ecumênico e a maior tolerância com os demais movimentos cristãos.
Igreja Metodista do Jericó e adro. Data: década de 1980.
Os cientistas sociais que estudaram Cunha como “comunidade-laboratório” destacaram a forte coesão social e religiosa dos metodistas. Um aspecto positivo mas que fazia deles uma força segregadora no contexto cultural caipira. A mais segregadora depois da política local. Sem muitas conexões locais, os metodistas mantinham comunicação com o universo exterior, através da literatura e dos periódicos religiosos que a Igreja Metodista enviava às igrejas locais. Willems estava em Cunha, exilado da Alemanha, durante o início da década de 1940. Quando tratava com os metodistas, era sempre interpelado sobre a situação da Segunda Guerra Mundial. Nas roças de Cunha a maioria do povo nem sabia que estava havendo guerra. Muito menos mundial. E nem queriam saber. Assunto aleatório e irrelevante para o cotidiano marcado pelo ciclo das plantações. Jamais os caipiras “de fato” perguntariam sobre isso… Os metodistas não só perguntavam, mas estavam informados sobre e queriam saber mais. Para os cientistas sociais, essa característica indicava um forte indício de ruptura, não só religiosa, mas social, psicológica e cultural com universo caipira. Era o fim de uma tradição?
Metodistas reunidos na frente do templo para foto com os pastores Rev. Sérgio Marcos Leite e Rev. Omir Andrade. Foto: Sérgio M. Leite. Data: década de 1990.
A forte coesão dos metodistas, segundo Willems e Shirley, provinha de algumas peculiaridades: culto doméstico, ênfase na educação e trabalho árduo, integração do núcleo familiar, leitura da Bíblia e periódicos etc. Saber ler, condição essencial para o culto protestante, foi um verdadeiro obstáculo! Nenhuma montanha ou caminho de tropa foi barreira maior para os missionários metodistas que a leitura. O analfabetismo imperava e a escolarização era uma ideia estranha para aquela sociedade agrária, onde os filhos, desde muito cedo, ingressavam na agricultura familiar. A escola parecia desnecessária aos pais. Assim, boa parte dos recursos humanos e financeiros dos metodistas cunhenses foram investidos na criação de escolas paroquiais. A do Cume e a do Jericó foram as primeiras de suas regiões. Por elas passaram gerações de metodistas. E de católicos. Apesar de confessional, essas escolinhas rurais atendiam a toda a comunidade, independente da crença dos pais. Posteriormente, foram incorporadas pela rede estadual, se tornando públicas de fato.
Metodistas do Jericó participam do Encontro Distrital de Jovens, na Igreja Metodista do Cume, Cunha (SP), junto com o seu pastor Rev. Felinto R. dos Santos Macedo. Foto: Salete Toledo. Data: 2002.
Todas essas características, estranhas ao universo caipira e rural, eram valores de uma vida urbana. E muitas famílias metodistas partiram para as urbes, para “estudar os filhos”. É o êxodo. Não o que se passa em Sinai, mas o rural, que impactou de sobremaneira o Brasil moderno. Outro fator que contribuiu para essa diáspora foram as mudanças no meio agrícola, relacionadas com o sistema de trabalho e o uso da terra. Nos anos de 1960, Cunha estava vivenciando a transição da agricultura familiar para a pecuária de leite e corte. As plantações davam lugar às pastagens, que eliminavam as roçadas e eram permanentes. O retiro suprimia a lavoura, o pousio e os mutirões. Era o fim de um ciclo. As igrejas rurais entram em declínio. Os bairros rurais perdem população. Outros ficam desabitados completamente, existindo apenas na memória dos mais antigos.
Hoje, a Igreja Metodista Central em Cunha, apesar de mais recente, é muito maior em número de membros do que as igrejas rurais, que são mais antigas e de quem foi filial. Mas os cultos em Jericó não cessaram. Não contam mais com mesma quantidade de gente, é verdade, que havia no passado. Nem há mais a cocheira ao lado do templo, onde os metodistas amarravam o seu cavalo para participar do culto dominical. Muitas famílias se mudaram para Cunha ou para outras cidades. Tantos já faleceram… Mas os cultos continuam a ocorrer e os hinos do Hinário Evangélico ainda são ouvidos, domingo após domingo, naquele aquele lugar que abrigou a fé dos pioneiros. Porque a fé permanece firme, intacta, como aquelas pedras que enfeitam os outeiros do lugar .
Igreja Metodista do Jericó. Foto: Renate Esslinger. Data: 2016.
A Igreja Metodista levou o bairro do Jericó ao crescimento: escola, templo novo e amplo, cooperativa, eletricidade e água corrente etc. E os jericoenses levaram o Metodismo para outras terras, expandindo a fé para outros pousos.
E o futuro? “A minha Graça te basta”, palavra do SENHOR.
Um lugar aprazível em meio ao “mar de morros”. Uma estradinha de terra, daquelas que achamos que o destino está na próxima curva, vai coleando montanha acima. Devagar e sempre, por questão de prudência, o protetor de cárter não pode ser deixado em alguma pedra do caminho, você vai subindo quando, de repente, uma toada. É uma belíssima cachoeira que descortina abaixo da estrada. Toda espumante, formada pelo encontro do riacho descente com um lajedo. Afloramento rochoso, idêntico ao dos cumes dos outeiros que circundam os vales de lá. Nem sempre vistos, nos fins de tarde, os topos dos morros costumam ficar encobertos por um nevoeiro frio, típico da Serra do Mar, que sopra do litoral em direção ao continente. O verde claro e brilhoso das pastagens de braquiária, entremeadas por capões mais verdes ainda de Mata Atlântica, não deixam dúvidas quanto à atividade econômica: pecuária de leite e corte. Nem sempre foi assim, já houve época em que os morros íngremes e férteis eram dominados por lavouras consorciadas de milho, feijão, abóbora, fava. Ainda é possível observar velhos casarões de taipa, no fundo dos vales, dessa primitiva zona de povoamento cunhense, do tempo em que as unidades agrícolas iam brotando sertão adentro, após a outorga das sesmarias. Estamos no Jericó! Um dos muitos (estima-se em mais de 200) bairros da zona rural cunhense. Para quem prossegue na escalada, na estrada que segue, depara-se com belo e nada modesto templo, com uma torre central pontiaguda apontando para as nuvens. Chama a atenção. É o elemento que mais se destaca na paisagem e pode pregar uma peça nos mais desavisados. Não é dedicado a nenhum padroeiro, contrastando com os demais bairros rurais do universo cultural paulista, que conforme aponta QUEIROZ (1973, p. 4), os povoados têm na capela católica o seu núcleo central e no seu padroeiro o fator distintivo no aspecto religioso, ganhando assim identidade própria em seu contexto, peculiaridade. Mas no bairro do Jericó a igreja não é católica romana. Atualmente existe na frente do templo o símbolo da “cruz e da chama” e uma placa indicando que é um local de culto metodista, movimento religioso protestante que teve origem no século XVIII, na Inglaterra. Trata-se da Igreja Metodista do Jericó, entidade que garante singularidade religiosa a essa comunidade rural cunhense, cuja história centenária iremos tratar neste artigo.
Para se entender o estabelecimento bem-sucedido de uma igreja protestante em um sertão do católico Vale do Paraíba é preciso, primeiramente, se fazer a contextualização histórica do período da fundação da igreja, a saber, o final do século XIX. E, no caso, devemos destacar dois fatores: um de ordem política e outro de ordem econômica. Na questão política, o final do século XIX no Brasil é marcado pela mudança de regime, deixando o país de ser uma monarquia constitucional sui generis (com um quarto poder, o Moderador) e passando a ser uma república, nos moldes preconizados pelo Positivismo, movimento político e filosófico que aguçou setores golpistas do Exército a proclamarem a “Republica dos Estados Unidos do Brazil”, em 15 de novembro de 1.889. Fruto do novo regime, a Constituição de 1.891 estabeleceu a separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e do Estado brasileiro, garantiu a liberdade de culto e estabeleceu os cartórios de registro civil, serviço até então sob responsabilidade do clero local. Muito embora o status oficial gozado pela Igreja Católica no Império não fosse um fator que impedisse o proselitismo protestante, considerado ilegal pela Constituição de 1.824, é indubitável que o resguardo jurídico dado pela nova carta magna renovou o ânimo e deu mais dinamismo às atividades missionárias evangélicas, desencorajando ações persecutórias dos católicos ou do clero contra os protestantes a partir de então. No tocante à questão econômica, há dois fatos relevantes no recorte regional: a falência da já cambaleante cultura cafeeira valeparaibana, seja pelo esgotamento dos solos ou pelo fim do regime escravagista em 1.888, este desferindo um golpe fatal à fastigiosa atividade econômica que abarrotou os cofres do Império em outros tempos (HOLANDA, 1996, p. 282). Outro fato apontado pelo historiador Sérgio Buarque de HOLANDA (1996, p. 276) como crucial para o desenvolvimento regional é a interligação da Estrada de Ferro do Norte com a Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa junção conectou por ferrovia as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, servindo assim como um meio de transporte moderno e mecanizado para as cidades do Médio Vale do Paraíba. “A inauguração oficial do encontro entre as duas ferrovias se deu em 8 de julho de 1.877, com festas. Porém, tanto a São Paulo Railway, quanto a Estrada de Ferro D. Pedro II, utilizavam bitola larga (1,60m), o que exigia baldeação de composições para poder seguir até Santos ou até o Rio de Janeiro.” (ESTRADA, 2018). Apesar das dificuldades operacionais para o pleno funcionamento início, essa nova linha de comunicação levará à decadência as cidades do Alto Vale, como Cunha, pois irão perder suas funções de entrepostos de escoamento da produção do Médio Vale até os portos do litoral.
No entanto, no Alto Vale, as atividades tropeiras continuaram a existir e a servir à logística da distribuição da produção, pois era o único meio de transporte capaz de vencer os péssimos caminhos e trilhas vicinais que existiam. Ademais, conforme observou STRANFORINI (2001, p. 34-35), o tropeirismo resistiu até meados do século XX, com o advento do modal rodoviário, pois a rede ferroviária brasileira era pouco abrangente, tímida e seu funcionamento apresentava sérias deficiências estruturais. O tropeiro era o mediador entre o mundo urbano e o bairro rural, este quase sempre isolado e alheio às exterioridades. Por isso, “os tropeiros serviram de elemento integrador. Por onde passavam, eram os festeiros, tocadores de viola e sanfona, emissários oficiais, transmissores de notícias, recados e receitas.” (CARPEGEANI; REZENDE FILHO, 2009). Em Cunha e em outros municípios da região o tropeirismo resistiu. Eram indispensáveis, dadas as conjunturas geográficas e econômicas. O débâcle da economia cafeeira valeparaibana somada à inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil resultaram na perda de função histórica que esses municípios exerceram desde o século XVII. Acarretou a estagnação econômica dessas cidades serranas, mas a economia agrícola de subsistência resistiu e permaneceu ante à nova configuração econômica. Assim, a venda do excedente da produção agrícola passou a ser o meio de subsistência dessas “cidades mortas”. E essa atividade produtiva nunca declinou. A suinocultura voltada à produção de toucinho foi a salvação de muitas fazendas. Houve ainda tentativas esporádicas de diversificação da produção, entre as tais podemos citar a introdução da vinicultura, como no caso do município de Cunha (VELOSO, 2010, p. 426-428). Apesar do relativo sucesso, foram efêmeras demais para produzir um impacto econômico positivo. Toda a produção excedente das regiões serranas continuou a escoar, abastecer e alimentar o Médio Vale e litoral. E para quase tudo se usava as tropas. Não havia outro meio de transporte disponível. Agentes das novidades que eram, serão os tropeiros que trariam o Metodismo para Cunha. A nova fé trilharia os antigos caminhos e pousos, em um tempo que o acesso era difícil, as lonjuras imperavam e a comunicação era na base do grito ou da fumaça.
Uma das vias de comunicação entre o litoral e o sertão, que foram imprescindíveis para interiorização do povoamento, era a rota que ligava Paraty, porto do litoral fluminense, com Taubaté, cidade do Vale do Paraíba. A então vila de Taubaté foi o principal centro do bandeirantismo regional (MARIOTTO, 2009). Essa rota, apesar de ser um caminho muito antigo, que remonta ao século XVII, ainda era utilizada pelos tropeiros cunhenses, luizenses, paratienses etc. no final do século XIX. Os bairros rurais da porção oeste e sudoeste de Cunha utilizavam com muita frequência essa rota, para escoar parte da produção para centros urbanos maiores e mercados regionais. E será por esse caminho colonial que os pregadores itinerantes metodistas chegarão a Jericó (SANTOS, 2013, p. 56). A exemplo do cavaleiro e missionário John Wesley, o diácono José Celestino de Andrade, natural do Pará, e o pastor Justiniano Rebelo de Carvalho, de origem portuguesa, porém radicado em Belém do Pará, também cavalgaram serras e lugarejos para levar as boas-novas de salvação. Eram os “bandeirantes de Cristo”, que vão percorrendo os sertões do Vale do Paraíba em busca das “dracmas perdidas”, um circuito de pregação e provação por terrenos íngremes, trilhas sinuosas e comunidades nem sempre amistosas à pregação protestante.
A brochura comemorativa do 105º aniversário da Igreja Metodista do Jericó (LEITE; ALMEIDA, 2006) traz em sua 5ª página uma descrição sobre a implantação do Metodismo na região, no final do século XIX. Três famílias tropeiras são apontadas como as precursoras: Eufrásio, Almeida e Monteiro de Campos. Elas costumavam viajar muito para Taubaté, a fim de fazer seus negócios e pousavam no bairro do Boqueirão (entre Lagoinha e Taubaté), um dos locais onde já havia um ponto de pregação metodista (SANTOS, 2013, p. 57). Conta-se que Benedito José de Almeida, tendo ouvido a mensagem evangélica, se entusiasmou e convidou os missionários J. C. de Andrade e J. R. de Carvalho para pregarem a Palavra na casa de seu irmão Lethargino José Almeida, morador do bairro da Mandinga. O primeiro culto evangélico no município de Cunha ocorreu em 18 de março de 1.899, conforme relatou ao Expositor Cristão o pregador J. R. de Carvalho (BARBOSA, 2005, p. 270). Uma manhã de sábado, em que, nos dizeres do missionário, “pela primeira desde que há mundo, foi o Evangelho ouvido em Mandinga”. Esse relato confere com as notas de KENNEDY (1928, p. 111), em que consta que no ano da fundação da igreja, já havia transcorrido dois anos desde o início da atividade missionária na região. Os cultos e visitas pastorais foram ganhando regularidade. Cada vez mais e mais a vizinhança se achegava para ouvir as pregações. As casas dos primeiros metodistas se transformaram em pontos missionários. Devido à grande quantidade de crianças, logo se organizou a primeira escola dominical, voltada à educação religiosa e doutrinária. Muitos foram abraçando a nova fé e, com a seara em expansão, o Rev. J. R. de Carvalho foi incumbido de visitar a comunidade trimestralmente, para pregar o Evangelho, ministrar a eucaristia, realizar batismo e fazer profissões de fé. Entre os primeiros membros recebidos à comunhão da Igreja Metodista estão: Lethargino José de Almeida, José Artilino e José Monteiro de Campos (“Juca Tomás”), que doaria “um quarto de terras” (pouco mais de 6 mil metros quadrados) para construção do futuro templo, já que a adesão de novos fiéis à congregação prosseguia. Os números eram animadores: havia cultos com a participação de 300 pessoas e Escola Dominical com mais de 60 pessoas (BARBOSA, 2005 apud SANTOS, 2013, p. 57). A “pérola de grande preço” havia chegado a Cunha. E chegado para ficar.
Com o trabalho missionário em expansão, logo houve a necessidade de se fundar uma nova igreja local, para organizar melhor as atividades eclesiais. Além disso, mesmo sendo apenas uma congregação, com alguns pontos de pregação, já era, em números de membros, a maior comunidade metodista do Brasil. Assim, a fundação da Igreja Metodista do Jericó ocorreu em 26 de maio de 1.901. Entende-se por fundação, na organização eclesial metodista, a independência de uma congregação em relação à igreja matriz. Jericó foi uma congregação da Igreja Metodista de Taubaté, sua matriz, até conseguir a autonomia, constituindo-se, desde então, em uma igreja autônoma e responsável por sua administração política, pastoral e econômica. Em suas notas sobre o ano de 1.901, assim escreve KENNEDY (1928, p. 109 e 111): “A 26 do mesmo mez foi organizada a Egreja de Cunha, Estado de S. Paulo, com 69 membros, pelo rev. Wolling. Havia já dois annos que o sr. J. R. de Carvalho tinha sido convidado para ahi pregar o Evangelho nos logares chamados Abóboras e Mandiga. Desde então o trabalho foi se desenvolvendo, sendo visitado de 3 em 3 mezes pelo sr. Carvalho, dando como resultado, ou fruto do seu ministério, uma egreja de 69 membros.” A construção do templo não foi imediata, por isso, informa KENNEDY (1928, p. 121), que o lançamento da pedra fundamental do templo ocorreu em 30 de maio de 1.904. Esse templo primitivo era bem rústico, uma capela de pau-a-pique coberta com sapé (LEITE; ALMEIDA, 2008, p.2). No dia 4 de agosto de 1.907 é organizada a “Sociedade Auxiliadora de Senhoras na Egreja de Cunha com 18 sócias”, mais uma informação dada por KENNEDY (1928, p. 132). A Sociedade de Senhoras, organização feminina adulta e interna da Igreja Metodista, se constitui em um verdadeiro esteio da atividade pastoral da igreja, sendo a responsável pela ação social e caritativa no âmbito local. É curioso que notícias de organização de Sociedade de Senhoras em Jericó irão se repetir: em julho de 1.920 e em maio de 1.926, só que nessa última aparece Sociedade Missionária de Senhoras. Teriam sido refundações? KENNEDY (1928, p. 275 e 315) não fornece maiores detalhes. Já em 1.909, durante a 24ª Sessão da Conferência Anual Brasileira, em Piracicaba (SP), um dos assuntos tratados pelos ministros e delegados presentes é a reconstrução do templo de Cunha (KENNEDY, 1928, p. 138), que seria o 2º templo, substituindo a capelinha de tapera dos primeiros anos, e foi utilizado até 1.957. Existe até hoje e foi restaurado, servindo como salão social, e fica na parte de trás do templo maior e com torre (3º templo construído desde a fundação). O bonito e amplo local de culto que a igreja conta atualmente foi inaugurado em novembro de 1.957, em uma grande celebração religiosa, que contou com mais de 800 pessoas presentes e foi dirigida pelos Rev. Aristides Fernandes da Silva (pastor local) e Rev. João Ignácio da Silva (superintendente distrital e ex-pastor do Jericó, entre os anos de 1.949 e 1.952). A inauguração do novo (atual) templo foi um dos momentos inesquecíveis na história do povo do bairro do Jericó, relembrado por todos que viveram aquele momento solene e emocionante, onde centenas de metodistas deixaram a antiga capela para adentrar no novo espaço cúltico, entoando o hino de nº 401 do Hinário Evangélico, “Avante Ó Crentes!” (LEITE; ALMEIDA, 2008, p. 5).
Com relação ao nome do bairro, embora não exista nenhum registro oficial, parece mesmo que foi mudado pelos metodistas (LEITE; ALMEIDA, 2006, p. 3). Afinal, nas citações mais antigas do ponto de pregação e do que viria ser a futura igreja, não consta o nome de “Jericó”. Geralmente se refere ao local como “Abóboras”, “Mandinga” ou mesmo “templo/igreja de Cunha”. No livro do pastor e historiador metodista KENNEDY (1928), o termo “Jericó” só vai aparecer em 1.922. Todas as menções anteriores a essa data, se referindo à igreja, consta como “Cunha”; “Mandinga” e “Abóboras” (somente na primeira menção). No excelente trabalho de pesquisa do teólogo SANTOS (2013, p. 56), que consultou as Atas da Igreja Metodista de Taubaté e antigos exemplares do jornal oficial da Igreja Metodista do Brasil “Expositor Cristão”, os lugares onde havia antigos pontos de pregação protestante eram: “Boqueirão da Lagoinha”, “Sítio Paiol”, “Mandinga”, “Abóboras”, “Baracéia”. O termo “Jericó” não é mencionado, mesmo sendo um termo bíblico e que se refere à primeira cidade da Terra Prometida conquistada pelo povo hebreu, conforme a narrativa do livro de Josué. O conhecimento bíblico está no cerne da fé protestante, ocupando um lugar elevado na vida devocional e no sistema de crenças do fiel, se comparado com o Catolicismo, tanto o Romano quanto o Ortodoxo. Desse modo, fica a pergunta: seria uma possível alusão ao pioneirismo de Jericó na implantação do Metodismo nestas paragens? Ou foi o nome dado ao templo metodista? Embora não seja tão comum no Brasil, na América do Norte muitos templos metodistas recebem um nome específico, além do tradicional nome da denominação mais a localidade. É não é incomum utilizarem nomes de cidades e locais bíblicos que tiveram alguma importância na história da salvação, tais como: Belém, Betel, Jerusalém, Betânia, Monte Moriá, Monte Hermon etc. Ou seja, não teria sido o bairro ser denominado em função do nome do templo, já que essa região rural de Cunha se tornou majoritariamente metodista? Fato é que nos “Maços de População”, antigos recenseamentos de Cunha, não aparece o nome de “Jericó”, porém “Abóboras”, sim. Aliás, o bairro das Abóboras existe até hoje com essa denominação, ficando atualmente em um vale logo abaixo do bairro do Jericó. Já o bairro da Mandinga parece ter realmente desaparecido na geografia rural cunhense. Poucos fazem se referem a ele e sua denominação apresenta uma conotação religiosa que poderia ter motivado os metodistas a trocarem o nome, por considerá-la contrária à sua fé. Eis a razão: segundo o HOUAISS (2009), a definição do vocábulo “mandinga” é: “ato ou efeito de mandingar; feitiço, feitiçaria”. Ainda de acordo com o mesmo dicionário, a origem etimológica da palavra é africana e toponímica, se referindo a “Manding (Guiné-Bissau), conhecido por designar ‘terra de feiticeiros’.” Certamente que os metodistas não gostariam que o nome de seu bairro fosse associado à feitiçaria. Está aí um motivo muito forte para ocasionar a mudança do nome original, recebido, muito provavelmente, dos negros escravizados que trabalharam nas fazendas daquela região pioneira no desbravamento do antigo Facão.
Estabelecida a Igreja, com o templo construído e estabilizado o número de membros, os líderes metodistas viram a necessidade da instalação de uma escola rural mista em sua paróquia. Na Conferência Distrital ocorrida na Igreja Metodista do Brás, em São Paulo, capital, em fevereiro de 1.922, a construção da unidade escolar de Jericó é tratada. KENNEDY (1928, p. 284) registra: “nessa Conferencia tratou-se da fundação de escolas parochiaes em Jericó (Cunha) e Palmeiras. Foram constituídas duas commissões para tratar desse assumpto: W. B. Lee, M. M. Moraes e o presidente da Junta de Economos de Jericó, para a primeira, e W. B. Lee, Luiz Martins e o presidente da Junta de Economos de Palmeiras, para a segunda.” Mais que uma atividade filantrópica, a instalação dessas escolas paroquiais fazia parte, conforme observou MENDONÇA (1984, p. 98), de uma estratégia missionária, voltada à propaganda religiosa, pois a carência de instrução se constitui em um notável empecilho para assimilação da doutrina protestante, inteiramente calcada na leitura das Escrituras. Participar de um culto em a prédica (discurso) é o ponto central e a leitura de trechos bíblicos e de hinos é requerida dos fiéis, precisa-se ser alfabetizado, caso contrário estará excluído, ficando sem entender nada. Assim, tanto no Jericó como no Cume, funcionaram escolas paroquiais metodistas, além da Escola Dominical que ocorria aos domingos. Foram essas escolas metodistas as pioneiras em seus bairros e adjacências. As arrecadações para construção da escola paroquial do Jericó começaram por volta de 1.926 e a unidade deve ter sido concluída por volta de 1.930 (ATAS, 1926-1929), tendo à frente o Rev. William B. Lee e os senhores Augusto Lethargino de Oliveira, Crispim Mariano Leite e Luiz Mariano Leite, encarregados da arrecadação e membros da comissão de construção.
A introdução do Protestantismo em Cunha se diferiu das demais partes do Brasil, pois aqui uma parte considerável da elite agrária (SHIRLEY, 1977, p. 280), dos grandes fazendeiros aderiram à nova religião, enquanto em outros lugares as pessoas que mudavam de religião eram, geralmente da classe inferior. Isso foi um dos fatos mais destacados pelos cientistas sociais que estudaram Cunha no século passado. Essa peculiaridade se deve ao capitão Joaquim Mariano de Toledo, um dos maiores fazendeiros de Cunha no século XIX, cuja descendência se tornou metodista. O historiador VELOSO (2010, p. 249) ressalta que, embora o capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”) tenha permanecido católico até sua morte, não se opôs à implantação da nova religião na região que estava sob sua influência direta (Abóboras, Mandinga, Limão, Pêros etc.). Tanto é que, embora seus doze filhos tenham sido batizados na Igreja Católica, nove deles aderiram ao Metodismo posteriormente, fazendo sua pública profissão de fé, com destaque para o 4º deles, Luís Mariano Leite e sua mulher Maria Cesarina de Jesus (“Dona Cotinha”), que exerceram importante liderança dentro da Igreja Metodista do Jericó. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 270), que estudou o município de Cunha em meados da década de 1.960, também reconhece o apoio do capitão Quim Mariano como vital para o estabelecimento do Metodismo em Cunha. SHIRLEY (1977, p. 272) aponta que as atividades proselitistas dos metodistas no Jericó se encerraram na década de 1.920, com a conversão dos membros da família Mariano Leite que impuseram mais resistência à nova fé. Porém, convém ressaltar que os metodistas do Jericó abriram um novo campo missionário em meados da década de 1.920, com pregações e cultos nos bairros da Palmeira, Cume e Desterro. Essa atividade missionária, feita no lombo dos cavalos, resultaria na criação da Igreja Metodista do Cume, em 1.928, a qual passaria a agregar em suas fileiras membros das famílias Leite, Oliveira, Toledo, Monteiro, Alves da Silva e Martins de Castro. Já no final da década de 1.940, a despeito da hostilidade de alguns católicos e do pároco local, começariam um trabalho missionário na cidade, na praça Dr. Prudente Guimarães, que culminaria na fundação da Igreja Metodista Central de Cunha, em agosto de 1.953. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 273) afirma que isso só foi possível graças ao juiz de direito da Comarca de Cunha na época, que também era protestante, e dava suporte legal às práticas religiosas dos protestantes, evocando a liberdade de culto, e exigia, quando necessário, a proteção policial aos crentes, se fossem vítimas de atos de intolerância. E soma-se a isso, o fato do prefeito daquele período, que era simpático aos metodistas, visando, claro, receber o apoio político dos fazendeiros e das famílias evangélicas.
Outra coisa interessante é que a implantação do Metodismo encontrou pouco resistência católica e não há, nas primeiras décadas, graves relatos de intolerância religiosa, conforme pesquisou WILLEMS (1947, p. 68). As querelas e as hostilidades dos católicos para com os metodistas só vão ocorrer quando a Igreja Metodista tenta se instalar na zona urbana, onde a influência e o controle da Igreja Católica eram infinitamente maiores. O fato dos metodistas contarem em suas fileiras com fazendeiros, do bairro do Jericó estar isolado da zona urbana, da região possuir uma ligação muito grande com o Taubaté, impossibilitando qualquer boicote econômico, e dos comerciantes urbanos católicos precisarem negociar com os fazendeiros metodistas são fatores apontados pelos estudos sociais como mitigadores da tensão religiosa (SHIRLEY, 1977, p. 272). A rápida expansão metodista se deve, em parte, pela escassez de sacerdotes católicos, que deixavam os seus fiéis desassistidos espiritualmente, o que facilitava à adesão ao Protestantismo, que a despeito das inúmeras diferenças doutrinais, comunga com o Catolicismo a crença no mesmo Deus, o mesmo livro sagrado e a mesma fé na salvação dos pecadores. As pregações em português que ocorriam nos cultos, quando as missas eram celebradas em latim, também pode ser considerado um fator que contribuiu para engrossar as fileiras metodistas. O estudo sociológico conduzido por WILLEMS (1947, p. 131) identificou a introdução do Metodismo no universo rural cunhense como um fator de ruptura na homogeneidade da sociedade agrária tradicional, pois a fé protestante tende a rejeitar as crenças mágicas e sobrenaturais, comuns em uma sociedade de folk. Sendo assim, para Willems a presença protestante era um indício de transição na sociedade cunhense, por contribuir com a secularização da cultura local e racionalização das experiências/atividades cotidianas.
Atualmente, o município de Cunha conta 3 igrejas metodistas independentes: Jericó (igreja-mãe), Cume e cidade de Cunha (chamada de “Central”), além de diversas congregações espalhadas pelos bairros rurais e urbanos. Por ter sido até pouco tempo uma igreja eminentemente rural aqui em Cunha (SHIRLEY, 1977, p. 280), o número de fiéis metodistas foi fortemente impactado pelo êxodo rural. Muitas famílias metodistas partiram para outras cidades em busca de melhores condições de vida e trabalho, mas conservaram a fé. Contribuiu para essa situação a expansão da pecuária leiteira e de corte em Cunha, que exerce fator de repulsão na mão de obra rural, conforme estudo de SHIRLEY (1977, p. 273). Em quase todas as igrejas do Vale e até em cidades da Grande São Paulo, a comunidade de cunhenses e descendentes entre os congregantes é numerosa. Assim, se por um lado o êxodo rural contribui para o esvaziamento das igrejas metodistas da roça, acabou reforçando o contingente de membros e a atividade missionária de outras igrejas metodistas da região. Das diversas igrejas evangélicas instaladas em Cunha, quase todas foram formadas ou contaram em seu início com ex-metodistas. Os eventos e associações que reúnem os evangélicos de Cunha (“Cruzada Evangelística Cunha para Cristo”, COPEC – Conselho de Pastores Evangélicos de Cunha) sempre tiveram a Igreja Metodista como participante pioneira e incentivadora.
Mais de 100 anos depois da instalação da primeira igreja protestante em Cunha, os metodistas ainda continuam a ser o maior grupo desse segmento religioso no município, contabilizando 5,7% da população total (IBGE, 2010). Um fato raro para uma denominação protestante histórica, tendo em vista o acelerado crescimento das denominações neopentecostais nas últimas décadas em nosso país. Não é por acaso que as lideranças metodistas no estado de São Paulo costumam se referir a Cunha como “celeiro de metodistas”. Em termos proporcionais, Cunha é o segundo com mais metodistas no estado, ficando atrás apenas de Emilianópolis, na região de Presidente Prudente. Junto à sociedade cunhense, a Igreja Metodista goza de grande reconhecimento público, seja por sua presença centenária ou pela participação ativa dos seus membros na comunidade cunhense. É respeitada tanto pelas autoridades políticas como pelas pessoas que professam outros credos.
A história dos metodistas em Cunha e das outras denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, que é muito numerosa em Campos de Cunha, ainda está para ser contada.
ATAS da Igreja Metodista do Jericó: Conferências Locais, 1926-1929.
BARBOSA, José C. Salvar e Educar: o metodismo no Brasil do século XIX. Piracicaba (SP): CEPEME, 2005.
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Foto: postada pelo Sr. Jorge Prudente no grupo Memória Cunhense. Na foto é possível observar os fiéis metodistas à frente e o antigo templo ao fundo. Este edíficio religioso foi restaurado e serve atualmente como salão social para igreja local, recebendo a denominação “Reverendo William Bowman Lee”, homenagem ao dinâmico pastor e missionário estadunidense, que atuou por muitos anos nos bairros do Jericó e do Cume. Data: provavelmente década de 1.940.
Obs.: Agradeço ao Rev. Flávio Moraes de Almeida, que já pastoreou a Igreja Metodista Central em Cunha, pelo envio de material e pelas dicas valiosas.