Um lugar aprazível em meio ao “mar de morros”. Uma estradinha de terra, daquelas que achamos que o destino está na próxima curva, vai coleando montanha acima. Devagar e sempre, por questão de prudência, o protetor de cárter não pode ser deixado em alguma pedra do caminho, você vai subindo quando, de repente, uma toada. É uma belíssima cachoeira que descortina abaixo da estrada. Toda espumante, formada pelo encontro do riacho descente com um lajedo. Afloramento rochoso, idêntico ao dos cumes dos outeiros que circundam os vales de lá. Nem sempre vistos, nos fins de tarde, os topos dos morros costumam ficar encobertos por um nevoeiro frio, típico da Serra do Mar, que sopra do litoral em direção ao continente. O verde claro e brilhoso das pastagens de braquiária, entremeadas por capões mais verdes ainda de Mata Atlântica, não deixam dúvidas quanto à atividade econômica: pecuária de leite e corte. Nem sempre foi assim, já houve época em que os morros íngremes e férteis eram dominados por lavouras consorciadas de milho, feijão, abóbora, fava. Ainda é possível observar velhos casarões de taipa, no fundo dos vales, dessa primitiva zona de povoamento cunhense, do tempo em que as unidades agrícolas iam brotando sertão adentro, após a outorga das sesmarias. Estamos no Jericó! Um dos muitos (estima-se em mais de 200) bairros da zona rural cunhense. Para quem prossegue na escalada, na estrada que segue, depara-se com belo e nada modesto templo, com uma torre central pontiaguda apontando para as nuvens. Chama a atenção. É o elemento que mais se destaca na paisagem e pode pregar uma peça nos mais desavisados. Não é dedicado a nenhum padroeiro, contrastando com os demais bairros rurais do universo cultural paulista, que conforme aponta QUEIROZ (1973, p. 4), os povoados têm na capela católica o seu núcleo central e no seu padroeiro o fator distintivo no aspecto religioso, ganhando assim identidade própria em seu contexto, peculiaridade. Mas no bairro do Jericó a igreja não é católica romana. Atualmente existe na frente do templo o símbolo da “cruz e da chama” e uma placa indicando que é um local de culto metodista, movimento religioso protestante que teve origem no século XVIII, na Inglaterra. Trata-se da Igreja Metodista do Jericó, entidade que garante singularidade religiosa a essa comunidade rural cunhense, cuja história centenária iremos tratar neste artigo.

Para se entender o estabelecimento bem-sucedido de uma igreja protestante em um sertão do católico Vale do Paraíba é preciso, primeiramente, se fazer a contextualização histórica do período da fundação da igreja, a saber, o final do século XIX. E, no caso, devemos destacar dois fatores: um de ordem política e outro de ordem econômica. Na questão política, o final do século XIX no Brasil é marcado pela mudança de regime, deixando o país de ser uma monarquia constitucional sui generis (com um quarto poder, o Moderador) e passando a ser uma república, nos moldes preconizados pelo Positivismo, movimento político e filosófico que aguçou setores golpistas do Exército a proclamarem a “Republica dos Estados Unidos do Brazil”, em 15 de novembro de 1.889. Fruto do novo regime, a Constituição de 1.891 estabeleceu a separação entre a Igreja Católica Apostólica Romana e do Estado brasileiro, garantiu a liberdade de culto e estabeleceu os cartórios de registro civil, serviço até então sob responsabilidade do clero local. Muito embora o status oficial gozado pela Igreja Católica no Império não fosse um fator que impedisse o proselitismo protestante, considerado ilegal pela Constituição de 1.824, é indubitável que o resguardo jurídico dado pela nova carta magna renovou o ânimo e deu mais dinamismo às atividades missionárias evangélicas, desencorajando ações persecutórias dos católicos ou do clero contra os protestantes a partir de então. No tocante à questão econômica, há dois fatos relevantes no recorte regional: a falência da já cambaleante cultura cafeeira valeparaibana, seja pelo esgotamento dos solos ou pelo fim do regime escravagista em 1.888, este desferindo um golpe fatal à fastigiosa atividade econômica que abarrotou os cofres do Império em outros tempos (HOLANDA, 1996, p. 282). Outro fato apontado pelo historiador Sérgio Buarque de HOLANDA (1996, p. 276) como crucial para o desenvolvimento regional é a interligação da Estrada de Ferro do Norte com a Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa junção conectou por ferrovia as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, servindo assim como um meio de transporte moderno e mecanizado para as cidades do Médio Vale do Paraíba. “A inauguração oficial do encontro entre as duas ferrovias se deu em 8 de julho de 1.877, com festas. Porém, tanto a São Paulo Railway, quanto a Estrada de Ferro D. Pedro II, utilizavam bitola larga (1,60m), o que exigia baldeação de composições para poder seguir até Santos ou até o Rio de Janeiro.” (ESTRADA, 2018). Apesar das dificuldades operacionais para o pleno funcionamento início, essa nova linha de comunicação levará à decadência as cidades do Alto Vale, como Cunha, pois irão perder suas funções de entrepostos de escoamento da produção do Médio Vale até os portos do litoral.
No entanto, no Alto Vale, as atividades tropeiras continuaram a existir e a servir à logística da distribuição da produção, pois era o único meio de transporte capaz de vencer os péssimos caminhos e trilhas vicinais que existiam. Ademais, conforme observou STRANFORINI (2001, p. 34-35), o tropeirismo resistiu até meados do século XX, com o advento do modal rodoviário, pois a rede ferroviária brasileira era pouco abrangente, tímida e seu funcionamento apresentava sérias deficiências estruturais. O tropeiro era o mediador entre o mundo urbano e o bairro rural, este quase sempre isolado e alheio às exterioridades. Por isso, “os tropeiros serviram de elemento integrador. Por onde passavam, eram os festeiros, tocadores de viola e sanfona, emissários oficiais, transmissores de notícias, recados e receitas.” (CARPEGEANI; REZENDE FILHO, 2009). Em Cunha e em outros municípios da região o tropeirismo resistiu. Eram indispensáveis, dadas as conjunturas geográficas e econômicas. O débâcle da economia cafeeira valeparaibana somada à inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil resultaram na perda de função histórica que esses municípios exerceram desde o século XVII. Acarretou a estagnação econômica dessas cidades serranas, mas a economia agrícola de subsistência resistiu e permaneceu ante à nova configuração econômica. Assim, a venda do excedente da produção agrícola passou a ser o meio de subsistência dessas “cidades mortas”. E essa atividade produtiva nunca declinou. A suinocultura voltada à produção de toucinho foi a salvação de muitas fazendas. Houve ainda tentativas esporádicas de diversificação da produção, entre as tais podemos citar a introdução da vinicultura, como no caso do município de Cunha (VELOSO, 2010, p. 426-428). Apesar do relativo sucesso, foram efêmeras demais para produzir um impacto econômico positivo. Toda a produção excedente das regiões serranas continuou a escoar, abastecer e alimentar o Médio Vale e litoral. E para quase tudo se usava as tropas. Não havia outro meio de transporte disponível. Agentes das novidades que eram, serão os tropeiros que trariam o Metodismo para Cunha. A nova fé trilharia os antigos caminhos e pousos, em um tempo que o acesso era difícil, as lonjuras imperavam e a comunicação era na base do grito ou da fumaça.
Uma das vias de comunicação entre o litoral e o sertão, que foram imprescindíveis para interiorização do povoamento, era a rota que ligava Paraty, porto do litoral fluminense, com Taubaté, cidade do Vale do Paraíba. A então vila de Taubaté foi o principal centro do bandeirantismo regional (MARIOTTO, 2009). Essa rota, apesar de ser um caminho muito antigo, que remonta ao século XVII, ainda era utilizada pelos tropeiros cunhenses, luizenses, paratienses etc. no final do século XIX. Os bairros rurais da porção oeste e sudoeste de Cunha utilizavam com muita frequência essa rota, para escoar parte da produção para centros urbanos maiores e mercados regionais. E será por esse caminho colonial que os pregadores itinerantes metodistas chegarão a Jericó (SANTOS, 2013, p. 56). A exemplo do cavaleiro e missionário John Wesley, o diácono José Celestino de Andrade, natural do Pará, e o pastor Justiniano Rebelo de Carvalho, de origem portuguesa, porém radicado em Belém do Pará, também cavalgaram serras e lugarejos para levar as boas-novas de salvação. Eram os “bandeirantes de Cristo”, que vão percorrendo os sertões do Vale do Paraíba em busca das “dracmas perdidas”, um circuito de pregação e provação por terrenos íngremes, trilhas sinuosas e comunidades nem sempre amistosas à pregação protestante.
A brochura comemorativa do 105º aniversário da Igreja Metodista do Jericó (LEITE; ALMEIDA, 2006) traz em sua 5ª página uma descrição sobre a implantação do Metodismo na região, no final do século XIX. Três famílias tropeiras são apontadas como as precursoras: Eufrásio, Almeida e Monteiro de Campos. Elas costumavam viajar muito para Taubaté, a fim de fazer seus negócios e pousavam no bairro do Boqueirão (entre Lagoinha e Taubaté), um dos locais onde já havia um ponto de pregação metodista (SANTOS, 2013, p. 57). Conta-se que Benedito José de Almeida, tendo ouvido a mensagem evangélica, se entusiasmou e convidou os missionários J. C. de Andrade e J. R. de Carvalho para pregarem a Palavra na casa de seu irmão Lethargino José Almeida, morador do bairro da Mandinga. O primeiro culto evangélico no município de Cunha ocorreu em 18 de março de 1.899, conforme relatou ao Expositor Cristão o pregador J. R. de Carvalho (BARBOSA, 2005, p. 270). Uma manhã de sábado, em que, nos dizeres do missionário, “pela primeira desde que há mundo, foi o Evangelho ouvido em Mandinga”. Esse relato confere com as notas de KENNEDY (1928, p. 111), em que consta que no ano da fundação da igreja, já havia transcorrido dois anos desde o início da atividade missionária na região. Os cultos e visitas pastorais foram ganhando regularidade. Cada vez mais e mais a vizinhança se achegava para ouvir as pregações. As casas dos primeiros metodistas se transformaram em pontos missionários. Devido à grande quantidade de crianças, logo se organizou a primeira escola dominical, voltada à educação religiosa e doutrinária. Muitos foram abraçando a nova fé e, com a seara em expansão, o Rev. J. R. de Carvalho foi incumbido de visitar a comunidade trimestralmente, para pregar o Evangelho, ministrar a eucaristia, realizar batismo e fazer profissões de fé. Entre os primeiros membros recebidos à comunhão da Igreja Metodista estão: Lethargino José de Almeida, José Artilino e José Monteiro de Campos (“Juca Tomás”), que doaria “um quarto de terras” (pouco mais de 6 mil metros quadrados) para construção do futuro templo, já que a adesão de novos fiéis à congregação prosseguia. Os números eram animadores: havia cultos com a participação de 300 pessoas e Escola Dominical com mais de 60 pessoas (BARBOSA, 2005 apud SANTOS, 2013, p. 57). A “pérola de grande preço” havia chegado a Cunha. E chegado para ficar.
Com o trabalho missionário em expansão, logo houve a necessidade de se fundar uma nova igreja local, para organizar melhor as atividades eclesiais. Além disso, mesmo sendo apenas uma congregação, com alguns pontos de pregação, já era, em números de membros, a maior comunidade metodista do Brasil. Assim, a fundação da Igreja Metodista do Jericó ocorreu em 26 de maio de 1.901. Entende-se por fundação, na organização eclesial metodista, a independência de uma congregação em relação à igreja matriz. Jericó foi uma congregação da Igreja Metodista de Taubaté, sua matriz, até conseguir a autonomia, constituindo-se, desde então, em uma igreja autônoma e responsável por sua administração política, pastoral e econômica. Em suas notas sobre o ano de 1.901, assim escreve KENNEDY (1928, p. 109 e 111): “A 26 do mesmo mez foi organizada a Egreja de Cunha, Estado de S. Paulo, com 69 membros, pelo rev. Wolling. Havia já dois annos que o sr. J. R. de Carvalho tinha sido convidado para ahi pregar o Evangelho nos logares chamados Abóboras e Mandiga. Desde então o trabalho foi se desenvolvendo, sendo visitado de 3 em 3 mezes pelo sr. Carvalho, dando como resultado, ou fruto do seu ministério, uma egreja de 69 membros.” A construção do templo não foi imediata, por isso, informa KENNEDY (1928, p. 121), que o lançamento da pedra fundamental do templo ocorreu em 30 de maio de 1.904. Esse templo primitivo era bem rústico, uma capela de pau-a-pique coberta com sapé (LEITE; ALMEIDA, 2008, p.2). No dia 4 de agosto de 1.907 é organizada a “Sociedade Auxiliadora de Senhoras na Egreja de Cunha com 18 sócias”, mais uma informação dada por KENNEDY (1928, p. 132). A Sociedade de Senhoras, organização feminina adulta e interna da Igreja Metodista, se constitui em um verdadeiro esteio da atividade pastoral da igreja, sendo a responsável pela ação social e caritativa no âmbito local. É curioso que notícias de organização de Sociedade de Senhoras em Jericó irão se repetir: em julho de 1.920 e em maio de 1.926, só que nessa última aparece Sociedade Missionária de Senhoras. Teriam sido refundações? KENNEDY (1928, p. 275 e 315) não fornece maiores detalhes. Já em 1.909, durante a 24ª Sessão da Conferência Anual Brasileira, em Piracicaba (SP), um dos assuntos tratados pelos ministros e delegados presentes é a reconstrução do templo de Cunha (KENNEDY, 1928, p. 138), que seria o 2º templo, substituindo a capelinha de tapera dos primeiros anos, e foi utilizado até 1.957. Existe até hoje e foi restaurado, servindo como salão social, e fica na parte de trás do templo maior e com torre (3º templo construído desde a fundação). O bonito e amplo local de culto que a igreja conta atualmente foi inaugurado em novembro de 1.957, em uma grande celebração religiosa, que contou com mais de 800 pessoas presentes e foi dirigida pelos Rev. Aristides Fernandes da Silva (pastor local) e Rev. João Ignácio da Silva (superintendente distrital e ex-pastor do Jericó, entre os anos de 1.949 e 1.952). A inauguração do novo (atual) templo foi um dos momentos inesquecíveis na história do povo do bairro do Jericó, relembrado por todos que viveram aquele momento solene e emocionante, onde centenas de metodistas deixaram a antiga capela para adentrar no novo espaço cúltico, entoando o hino de nº 401 do Hinário Evangélico, “Avante Ó Crentes!” (LEITE; ALMEIDA, 2008, p. 5).
Com relação ao nome do bairro, embora não exista nenhum registro oficial, parece mesmo que foi mudado pelos metodistas (LEITE; ALMEIDA, 2006, p. 3). Afinal, nas citações mais antigas do ponto de pregação e do que viria ser a futura igreja, não consta o nome de “Jericó”. Geralmente se refere ao local como “Abóboras”, “Mandinga” ou mesmo “templo/igreja de Cunha”. No livro do pastor e historiador metodista KENNEDY (1928), o termo “Jericó” só vai aparecer em 1.922. Todas as menções anteriores a essa data, se referindo à igreja, consta como “Cunha”; “Mandinga” e “Abóboras” (somente na primeira menção). No excelente trabalho de pesquisa do teólogo SANTOS (2013, p. 56), que consultou as Atas da Igreja Metodista de Taubaté e antigos exemplares do jornal oficial da Igreja Metodista do Brasil “Expositor Cristão”, os lugares onde havia antigos pontos de pregação protestante eram: “Boqueirão da Lagoinha”, “Sítio Paiol”, “Mandinga”, “Abóboras”, “Baracéia”. O termo “Jericó” não é mencionado, mesmo sendo um termo bíblico e que se refere à primeira cidade da Terra Prometida conquistada pelo povo hebreu, conforme a narrativa do livro de Josué. O conhecimento bíblico está no cerne da fé protestante, ocupando um lugar elevado na vida devocional e no sistema de crenças do fiel, se comparado com o Catolicismo, tanto o Romano quanto o Ortodoxo. Desse modo, fica a pergunta: seria uma possível alusão ao pioneirismo de Jericó na implantação do Metodismo nestas paragens? Ou foi o nome dado ao templo metodista? Embora não seja tão comum no Brasil, na América do Norte muitos templos metodistas recebem um nome específico, além do tradicional nome da denominação mais a localidade. É não é incomum utilizarem nomes de cidades e locais bíblicos que tiveram alguma importância na história da salvação, tais como: Belém, Betel, Jerusalém, Betânia, Monte Moriá, Monte Hermon etc. Ou seja, não teria sido o bairro ser denominado em função do nome do templo, já que essa região rural de Cunha se tornou majoritariamente metodista? Fato é que nos “Maços de População”, antigos recenseamentos de Cunha, não aparece o nome de “Jericó”, porém “Abóboras”, sim. Aliás, o bairro das Abóboras existe até hoje com essa denominação, ficando atualmente em um vale logo abaixo do bairro do Jericó. Já o bairro da Mandinga parece ter realmente desaparecido na geografia rural cunhense. Poucos fazem se referem a ele e sua denominação apresenta uma conotação religiosa que poderia ter motivado os metodistas a trocarem o nome, por considerá-la contrária à sua fé. Eis a razão: segundo o HOUAISS (2009), a definição do vocábulo “mandinga” é: “ato ou efeito de mandingar; feitiço, feitiçaria”. Ainda de acordo com o mesmo dicionário, a origem etimológica da palavra é africana e toponímica, se referindo a “Manding (Guiné-Bissau), conhecido por designar ‘terra de feiticeiros’.” Certamente que os metodistas não gostariam que o nome de seu bairro fosse associado à feitiçaria. Está aí um motivo muito forte para ocasionar a mudança do nome original, recebido, muito provavelmente, dos negros escravizados que trabalharam nas fazendas daquela região pioneira no desbravamento do antigo Facão.
Estabelecida a Igreja, com o templo construído e estabilizado o número de membros, os líderes metodistas viram a necessidade da instalação de uma escola rural mista em sua paróquia. Na Conferência Distrital ocorrida na Igreja Metodista do Brás, em São Paulo, capital, em fevereiro de 1.922, a construção da unidade escolar de Jericó é tratada. KENNEDY (1928, p. 284) registra: “nessa Conferencia tratou-se da fundação de escolas parochiaes em Jericó (Cunha) e Palmeiras. Foram constituídas duas commissões para tratar desse assumpto: W. B. Lee, M. M. Moraes e o presidente da Junta de Economos de Jericó, para a primeira, e W. B. Lee, Luiz Martins e o presidente da Junta de Economos de Palmeiras, para a segunda.” Mais que uma atividade filantrópica, a instalação dessas escolas paroquiais fazia parte, conforme observou MENDONÇA (1984, p. 98), de uma estratégia missionária, voltada à propaganda religiosa, pois a carência de instrução se constitui em um notável empecilho para assimilação da doutrina protestante, inteiramente calcada na leitura das Escrituras. Participar de um culto em a prédica (discurso) é o ponto central e a leitura de trechos bíblicos e de hinos é requerida dos fiéis, precisa-se ser alfabetizado, caso contrário estará excluído, ficando sem entender nada. Assim, tanto no Jericó como no Cume, funcionaram escolas paroquiais metodistas, além da Escola Dominical que ocorria aos domingos. Foram essas escolas metodistas as pioneiras em seus bairros e adjacências. As arrecadações para construção da escola paroquial do Jericó começaram por volta de 1.926 e a unidade deve ter sido concluída por volta de 1.930 (ATAS, 1926-1929), tendo à frente o Rev. William B. Lee e os senhores Augusto Lethargino de Oliveira, Crispim Mariano Leite e Luiz Mariano Leite, encarregados da arrecadação e membros da comissão de construção.
A introdução do Protestantismo em Cunha se diferiu das demais partes do Brasil, pois aqui uma parte considerável da elite agrária (SHIRLEY, 1977, p. 280), dos grandes fazendeiros aderiram à nova religião, enquanto em outros lugares as pessoas que mudavam de religião eram, geralmente da classe inferior. Isso foi um dos fatos mais destacados pelos cientistas sociais que estudaram Cunha no século passado. Essa peculiaridade se deve ao capitão Joaquim Mariano de Toledo, um dos maiores fazendeiros de Cunha no século XIX, cuja descendência se tornou metodista. O historiador VELOSO (2010, p. 249) ressalta que, embora o capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”) tenha permanecido católico até sua morte, não se opôs à implantação da nova religião na região que estava sob sua influência direta (Abóboras, Mandinga, Limão, Pêros etc.). Tanto é que, embora seus doze filhos tenham sido batizados na Igreja Católica, nove deles aderiram ao Metodismo posteriormente, fazendo sua pública profissão de fé, com destaque para o 4º deles, Luís Mariano Leite e sua mulher Maria Cesarina de Jesus (“Dona Cotinha”), que exerceram importante liderança dentro da Igreja Metodista do Jericó. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 270), que estudou o município de Cunha em meados da década de 1.960, também reconhece o apoio do capitão Quim Mariano como vital para o estabelecimento do Metodismo em Cunha. SHIRLEY (1977, p. 272) aponta que as atividades proselitistas dos metodistas no Jericó se encerraram na década de 1.920, com a conversão dos membros da família Mariano Leite que impuseram mais resistência à nova fé. Porém, convém ressaltar que os metodistas do Jericó abriram um novo campo missionário em meados da década de 1.920, com pregações e cultos nos bairros da Palmeira, Cume e Desterro. Essa atividade missionária, feita no lombo dos cavalos, resultaria na criação da Igreja Metodista do Cume, em 1.928, a qual passaria a agregar em suas fileiras membros das famílias Leite, Oliveira, Toledo, Monteiro, Alves da Silva e Martins de Castro. Já no final da década de 1.940, a despeito da hostilidade de alguns católicos e do pároco local, começariam um trabalho missionário na cidade, na praça Dr. Prudente Guimarães, que culminaria na fundação da Igreja Metodista Central de Cunha, em agosto de 1.953. O antropólogo SHIRLEY (1977, p. 273) afirma que isso só foi possível graças ao juiz de direito da Comarca de Cunha na época, que também era protestante, e dava suporte legal às práticas religiosas dos protestantes, evocando a liberdade de culto, e exigia, quando necessário, a proteção policial aos crentes, se fossem vítimas de atos de intolerância. E soma-se a isso, o fato do prefeito daquele período, que era simpático aos metodistas, visando, claro, receber o apoio político dos fazendeiros e das famílias evangélicas.
Outra coisa interessante é que a implantação do Metodismo encontrou pouco resistência católica e não há, nas primeiras décadas, graves relatos de intolerância religiosa, conforme pesquisou WILLEMS (1947, p. 68). As querelas e as hostilidades dos católicos para com os metodistas só vão ocorrer quando a Igreja Metodista tenta se instalar na zona urbana, onde a influência e o controle da Igreja Católica eram infinitamente maiores. O fato dos metodistas contarem em suas fileiras com fazendeiros, do bairro do Jericó estar isolado da zona urbana, da região possuir uma ligação muito grande com o Taubaté, impossibilitando qualquer boicote econômico, e dos comerciantes urbanos católicos precisarem negociar com os fazendeiros metodistas são fatores apontados pelos estudos sociais como mitigadores da tensão religiosa (SHIRLEY, 1977, p. 272). A rápida expansão metodista se deve, em parte, pela escassez de sacerdotes católicos, que deixavam os seus fiéis desassistidos espiritualmente, o que facilitava à adesão ao Protestantismo, que a despeito das inúmeras diferenças doutrinais, comunga com o Catolicismo a crença no mesmo Deus, o mesmo livro sagrado e a mesma fé na salvação dos pecadores. As pregações em português que ocorriam nos cultos, quando as missas eram celebradas em latim, também pode ser considerado um fator que contribuiu para engrossar as fileiras metodistas. O estudo sociológico conduzido por WILLEMS (1947, p. 131) identificou a introdução do Metodismo no universo rural cunhense como um fator de ruptura na homogeneidade da sociedade agrária tradicional, pois a fé protestante tende a rejeitar as crenças mágicas e sobrenaturais, comuns em uma sociedade de folk. Sendo assim, para Willems a presença protestante era um indício de transição na sociedade cunhense, por contribuir com a secularização da cultura local e racionalização das experiências/atividades cotidianas.
Atualmente, o município de Cunha conta 3 igrejas metodistas independentes: Jericó (igreja-mãe), Cume e cidade de Cunha (chamada de “Central”), além de diversas congregações espalhadas pelos bairros rurais e urbanos. Por ter sido até pouco tempo uma igreja eminentemente rural aqui em Cunha (SHIRLEY, 1977, p. 280), o número de fiéis metodistas foi fortemente impactado pelo êxodo rural. Muitas famílias metodistas partiram para outras cidades em busca de melhores condições de vida e trabalho, mas conservaram a fé. Contribuiu para essa situação a expansão da pecuária leiteira e de corte em Cunha, que exerce fator de repulsão na mão de obra rural, conforme estudo de SHIRLEY (1977, p. 273). Em quase todas as igrejas do Vale e até em cidades da Grande São Paulo, a comunidade de cunhenses e descendentes entre os congregantes é numerosa. Assim, se por um lado o êxodo rural contribui para o esvaziamento das igrejas metodistas da roça, acabou reforçando o contingente de membros e a atividade missionária de outras igrejas metodistas da região. Das diversas igrejas evangélicas instaladas em Cunha, quase todas foram formadas ou contaram em seu início com ex-metodistas. Os eventos e associações que reúnem os evangélicos de Cunha (“Cruzada Evangelística Cunha para Cristo”, COPEC – Conselho de Pastores Evangélicos de Cunha) sempre tiveram a Igreja Metodista como participante pioneira e incentivadora.
Mais de 100 anos depois da instalação da primeira igreja protestante em Cunha, os metodistas ainda continuam a ser o maior grupo desse segmento religioso no município, contabilizando 5,7% da população total (IBGE, 2010). Um fato raro para uma denominação protestante histórica, tendo em vista o acelerado crescimento das denominações neopentecostais nas últimas décadas em nosso país. Não é por acaso que as lideranças metodistas no estado de São Paulo costumam se referir a Cunha como “celeiro de metodistas”. Em termos proporcionais, Cunha é o segundo com mais metodistas no estado, ficando atrás apenas de Emilianópolis, na região de Presidente Prudente. Junto à sociedade cunhense, a Igreja Metodista goza de grande reconhecimento público, seja por sua presença centenária ou pela participação ativa dos seus membros na comunidade cunhense. É respeitada tanto pelas autoridades políticas como pelas pessoas que professam outros credos.
A história dos metodistas em Cunha e das outras denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, que é muito numerosa em Campos de Cunha, ainda está para ser contada.
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Foto: postada pelo Sr. Jorge Prudente no grupo Memória Cunhense. Na foto é possível observar os fiéis metodistas à frente e o antigo templo ao fundo. Este edíficio religioso foi restaurado e serve atualmente como salão social para igreja local, recebendo a denominação “Reverendo William Bowman Lee”, homenagem ao dinâmico pastor e missionário estadunidense, que atuou por muitos anos nos bairros do Jericó e do Cume. Data: provavelmente década de 1.940.
Obs.: Agradeço ao Rev. Flávio Moraes de Almeida, que já pastoreou a Igreja Metodista Central em Cunha, pelo envio de material e pelas dicas valiosas.