
Jericó, bairro rural na região sudoeste do município de Cunha. Jericó do requeijão de prato, do “café medroso”, da cachoeira belíssima, do chapéu e do embornal, dos lajeados de pedra, dos velhos casarões de taipa, dos fazendeiros de outrora… Jericó da Igreja Metodista! O “bairro dos metodistas”, qualificativo que os cunhenses davam ao bairro no passado.

Quando o Metodismo chegou, através dos “tropeiros de Cristo” reverendo J. R. Carvalho e diácono J. C. de Andrade, o bairro ainda se chamava Mandinga. Na língua dos africanos, “terra do feitiço”. Após a conversão completa dos moradores, trataram logo os metodistas de mudar o nome do lugar para Jericó. Uma alusão à primeira cidade que os hebreus conquistaram em Canaã, após o retorno da escravidão no Egito, sob a liderança de Josué. A comparação realmente faz sentido quando levamos em conta a beleza paisagística e a fertilidade do lugar, comparável à Terra Prometida dos hebreus. A igreja local coloca em destaque na pracinha alguns versículos bíblicos, que se referem à Canaã, mas cabem perfeitamente também ao bairro do Jericó:
“Porque o Senhor teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas; Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel. Terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre. Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao Senhor teu Deus pela boa terra que te deu. Guarda-te que não te esqueças do Senhor teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos que hoje te ordeno.”
Deuteronômio 8: 7 – 11
Longe de todas as cidades, Jericó era o lugar perfeito para que os crentes pudessem cultuar a Deus em paz. O sociólogo Emílio Willems apontou que a implantação do Metodismo em Cunha não sofreu oposição católica devido ao isolamento do bairro. O antropólogo Robert W. Shirley afirma que os missionários preferiram Jericó porque na zona urbana a hostilidade da elite e do clero católico seria inevitável, dada a experiência desagradável que tiveram os missionários evangélicos em outras cidades paulistas. Novidade no início da República, a separação entre religião e Estado ainda não estava plenamente consolidada. No interior do Brasil, regido sob o arbítrio dos coronéis, as leis constitucionais não valiam plenamente. Perseguições religiosas, sob a chancela das autoridades locais, não eram raras. Não foi o caso de Cunha. Ainda bem.

Em seu livro “O fim de uma tradição”, Robert Shirley traz um detalhe importante sobre a implantação do Metodismo: o capitão da região do Jericó foi simpático à nova fé e a própria família desse capitão “desempenhou papel vital” no desenvolvimento da Igreja. O antropólogo está se referindo ao Capitão Joaquim Mariano de Toledo (Caçapava, 8 de maio de 1850 – Sertão dos Marianos – Cunha, 8 de janeiro de 1933), maior latifundiário de Cunha e conhecido como “Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”. Foi povoador do Sertão dos Marianos, Frade, Campo Grande, Itambé, Peros, Sertão do Xavier, Sertãozinho e da Mandinga (atual Jericó). O capitão sempre permaneceu católico. Certamente, se se opusesse ao trabalho missionário dos metodistas, poderia ter trazido algum problema ou empecilho. Mas não foi o seu procedimento. Todavia, é preciso relembrar que a família do capitão vai aderindo à Igreja Metodista aos poucos, no decorrer das primeiras décadas do século XX. Nos primórdios, não esteve a evangelização ligada à família Mariano. Entre as famílias pioneiras encontramos os Almeida, os Eufrásio, os Campos e os Monteiro, não os Mariano Leite. A doação do terreno para a construção do primeiro templo, por exemplo, foi feita pelo sr. José Tomás Monteiro (Juca Tomás). O primeiro culto, realizado em 18 de março de 1899, ocorreu no lar do sr. Lethargino José Almeida. Com o passar do tempo, a união dessas famílias via se enlaçando através dos casamentos e os Mariano Leite vão ganhando proeminência no metodismo cunhense, com destaque para liderança religiosa exercida pelo sr. Luís Mariano Leite e dona Maria Cesarina de Jesus (“Cotinha”), dois grandes metodistas.
A Igreja Metodista do Jericó foi fundada em 26 de maio de 1901, separando-se da Igreja Metodista Central em Taubaté. Em seguido, começam os metodistas a construção de um templo para adorar o SENHOR, bem modesto e rústico, de taipa de mão e coberto de sapé. Tudo muito simples e de acordo com as condições econômicas das primeiras famílias metodistas. Pobres, mas determinados, trabalhadores. Contava a Igreja nessa fase inicial com 60 membros, todos conversos do Catolicismo e recebidos por pública profissão de fé. O grande número de crianças impressionava os missionários e indicava um futuro promissor para aquele pequenino e modesto templo, cujo entorno viria a se formar a maior comunidade protestante e rural do Brasil e única sob muitos aspectos. Também se tornaria a maior congregação metodista do Brasil, superando, inclusive, as comunidades urbanas.

O Metodismo cresceu rapidamente nos primeiros anos, alcançado a estabilidade na década de 1920, quando os recebidos por batismo ultrapassaram os recebidos por conversão e pública profissão de fé. É o sinal de que todos os moradores do lugar já haviam se convertido. Seus filhos já eram batizados na nova fé. Daí, concluída a tomada de Jericó, os missionários metodistas partiram para outras terras: Cume, Monjolo, Rio Manso, Bom Retiro, Guandu, Bangu, Desterro, Palmeiras, Lajinha, todos na região leste de Cunha. O trabalho nessa nova zona missionária se inicia na década de 1920 e vai até o estabelecimento da Igreja Metodista do Cume, entre 1928 e 1933. Mas não obteve o mesmo sucesso que Jericó, embora tenha dado origem a uma sólida congregação metodista. Os cientistas sociais que estudaram a implantação do Metodismo em Cunha apontam que o rápido crescimento se deu em função dos casamentos. Na época, tanto a Igreja Católica como a Igreja Metodista desencorajavam os enlaces inter-religiosos. Muitos rapazes aderiram ao Protestantismo para poder se casar com as moças da Igreja. Por isso, era comum ocorrer os maridos ou esposas fazerem a profissão de fé no mesmo dia do casamento.

Com a conversão da elite agrária do bairro, se tem então uma comunidade rural inteiramente evangélica. O que diferia totalmente da característica geral do Protestantismo brasileiro, que atraia, geralmente, pessoas das classes mais baixas da estratificação social e de não nascidos nas igrejas protestantes. Esse perfil social que marca os protestantes brasileiros até os nossos dias. Assim, em Jericó, a elite também era protestante. Ali, o Protestantismo era majoritário e a minoria era católica. Jericó era única por esse motivo também. Os metodistas eram a maioria e a Igreja Metodista possuía adeptos em todos os estratos sociais: fazendeiros, sitiantes, administradores, agregados, meeiros, peões, pedreiros, artesãos, doceiras, cozinheiras, inquilinos, retireiros, tropeiros, comerciantes, diaristas e trabalhadores rurais pobres; mulheres, crianças, professores.

A chegada da Igreja na cidade de Cunha levará mais tempo, vindo a acontecer somente na década 1950. Na zona urbana, os metodistas encontraram, inicialmente, uma ferrenha oposição católica. Houve algumas querelas teológicas entre os dois grupos e certas hostilidades religiosas por parte dos católicos contra os metodistas. A cessão das hostilidades aconteceu somente na década de 1960, após o Concílio Vaticano II, sínodo que levou o Catolicismo a promover uma abertura maior ao movimento ecumênico e a maior tolerância com os demais movimentos cristãos.

Os cientistas sociais que estudaram Cunha como “comunidade-laboratório” destacaram a forte coesão social e religiosa dos metodistas. Um aspecto positivo mas que fazia deles uma força segregadora no contexto cultural caipira. A mais segregadora depois da política local. Sem muitas conexões locais, os metodistas mantinham comunicação com o universo exterior, através da literatura e dos periódicos religiosos que a Igreja Metodista enviava às igrejas locais. Willems estava em Cunha, exilado da Alemanha, durante o início da década de 1940. Quando tratava com os metodistas, era sempre interpelado sobre a situação da Segunda Guerra Mundial. Nas roças de Cunha a maioria do povo nem sabia que estava havendo guerra. Muito menos mundial. E nem queriam saber. Assunto aleatório e irrelevante para o cotidiano marcado pelo ciclo das plantações. Jamais os caipiras “de fato” perguntariam sobre isso… Os metodistas não só perguntavam, mas estavam informados sobre e queriam saber mais. Para os cientistas sociais, essa característica indicava um forte indício de ruptura, não só religiosa, mas social, psicológica e cultural com universo caipira. Era o fim de uma tradição?

A forte coesão dos metodistas, segundo Willems e Shirley, provinha de algumas peculiaridades: culto doméstico, ênfase na educação e trabalho árduo, integração do núcleo familiar, leitura da Bíblia e periódicos etc. Saber ler, condição essencial para o culto protestante, foi um verdadeiro obstáculo! Nenhuma montanha ou caminho de tropa foi barreira maior para os missionários metodistas que a leitura. O analfabetismo imperava e a escolarização era uma ideia estranha para aquela sociedade agrária, onde os filhos, desde muito cedo, ingressavam na agricultura familiar. A escola parecia desnecessária aos pais. Assim, boa parte dos recursos humanos e financeiros dos metodistas cunhenses foram investidos na criação de escolas paroquiais. A do Cume e a do Jericó foram as primeiras de suas regiões. Por elas passaram gerações de metodistas. E de católicos. Apesar de confessional, essas escolinhas rurais atendiam a toda a comunidade, independente da crença dos pais. Posteriormente, foram incorporadas pela rede estadual, se tornando públicas de fato.

Todas essas características, estranhas ao universo caipira e rural, eram valores de uma vida urbana. E muitas famílias metodistas partiram para as urbes, para “estudar os filhos”. É o êxodo. Não o que se passa em Sinai, mas o rural, que impactou de sobremaneira o Brasil moderno. Outro fator que contribuiu para essa diáspora foram as mudanças no meio agrícola, relacionadas com o sistema de trabalho e o uso da terra. Nos anos de 1960, Cunha estava vivenciando a transição da agricultura familiar para a pecuária de leite e corte. As plantações davam lugar às pastagens, que eliminavam as roçadas e eram permanentes. O retiro suprimia a lavoura, o pousio e os mutirões. Era o fim de um ciclo. As igrejas rurais entram em declínio. Os bairros rurais perdem população. Outros ficam desabitados completamente, existindo apenas na memória dos mais antigos.
Hoje, a Igreja Metodista Central em Cunha, apesar de mais recente, é muito maior em número de membros do que as igrejas rurais, que são mais antigas e de quem foi filial. Mas os cultos em Jericó não cessaram. Não contam mais com mesma quantidade de gente, é verdade, que havia no passado. Nem há mais a cocheira ao lado do templo, onde os metodistas amarravam o seu cavalo para participar do culto dominical. Muitas famílias se mudaram para Cunha ou para outras cidades. Tantos já faleceram… Mas os cultos continuam a ocorrer e os hinos do Hinário Evangélico ainda são ouvidos, domingo após domingo, naquele aquele lugar que abrigou a fé dos pioneiros. Porque a fé permanece firme, intacta, como aquelas pedras que enfeitam os outeiros do lugar .

A Igreja Metodista levou o bairro do Jericó ao crescimento: escola, templo novo e amplo, cooperativa, eletricidade e água corrente etc. E os jericoenses levaram o Metodismo para outras terras, expandindo a fé para outros pousos.
E o futuro? “A minha Graça te basta”, palavra do SENHOR.
Reportagem muito interessante. Não sabia que havia tantos metodistas rurais.
Muito interessante essa história. A igreja do Jericó e todos os metodistas de Cunha estão de parabéns! Deus abençoe essa cidade e seu povo.
Sou metodista e já fui a Cunha visitar o Lavandário, não sabia que o Metodismo era forte por aí. Sou de Ribeirão Preto.
Meu nome é Mirian. Trabalhei dois anos em Jericó como professora, no tempo que o reverendo Laurindo Prieto era pastor. Foram tempos muito bons. Morei com a minha filha de quatro aninhos na casinha da professora que ficava só lado da escola. Guardo ótimas lembranças. A todos dessa comunidade mando o meu abraço fraterno. Que nosso Deus continue abençoando os irmãos.