Pedra Grande – Cunha – SP

Pedra Grande da Serra da Bocaina. Foto: Pousada Joaninha.

Localização:
Está localizada no bairro do Campo da Bocaina, zona rural de Cunha (SP). Está totalmente localizada dentro do território cunhense, mais especificamente dentro do território do distrito de Campos de Cunha, na região fronteiriça com o município de Silveiras (SP). As coordenadas geográficas do lugar, obtida pelo Google Maps, são as seguintes: 22°49’16.1″S; 44°46’05.3″W.

Localização da Pedra Grande, município de Cunha (SP). Cartografia: Jacuhy.

Altitude:
É variável, conforme o produto cartográfico, site geoespacial ou SIG utilizado. Assim, é no:

a) IBGE: 1.800 metros.
b) IGC: 1.807 metros.
c) Google Maps: 1.780 metros.
d) Google Earth: 1.810 metros.

Altimetria, cobertura do solo e localização da Pedra Grande, em carta do IGC, escala 1:10.000. Recorte e edição: Jacuhy.

História:
Quando os portugueses começaram a colonizar a região do Vale do Paraíba, nos fins do século XVI e início do século XVII, a região da Serra da Bocaina foi um dos últimos refúgios dos indígenas (Puris) que resistiram à catequização e ao aldeamento. No século XVIII, com a descoberta de ouro em Minas, a região é recortada por caminhos alternativos à Estrada Real, aproveitando as trilhas indígenas que já havia pelas galerias e descampados. Da atual cidade de Lorena (SP), antiga Hepacaré, partiam rotas para o gado e para ouro desviado e furtado (descaminhos), visando alcançar o porto de Mambucaba (RJ), desviando das barreiras alfandegárias e postos de fiscalização e controle. No século XIX viveu o Vale o ciclo do café. As rotas serranas foram reativadas, visando escoar a produção até o porto mais próximo. Como as garoupas (município do “fundo do Vale”) foram pródigas na produção, tropeiros atravessavam a Serra com suas tropas abarrotadas de café, almejando chegar à Mambucaba ou Angra dos Reis (RJ). Nesse tempo, de muito trabalho e escravidão nas fazendas da região, a Bocaina forneceu boqueirões e grutas para formação de quilombos de negros fugidos e resistentes à escravidão. Nos anos de 1940, desenvolveu-se naquelas bandas a pecuária extensiva de leite e corte, agravando processos erosivos e levando a destruição da flora local. Com solo pobre, a agricultura nunca foi o forte da área. Nos anos de 1970 surgiu o Parque Nacional da Serra da Bocaina, demonstrando a importância ecológica e a consequente necessidade de preservar a região, estrategicamente localizada entre as duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Ali por perto, em Angra dos Reis (RJ), nos anos de 1970, durante o Regime Militar, começa a instalação da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), complexo formado por 3 usinas nucleares, projeto para lá de polêmico e muito criticado por ambientalistas. Da década de 1990 em diante, com o advento do turismo na região, a Serra da Bocaina começou a ser explorada pela sua beleza paisagística, pelo clima de altitude e pela vegetação diversificada e esplendida, onde a Mata Atlântica incorpora elementos naturais de áreas subtropicais.

A cidade de Cunha, aos pés da Serra do Alto do Diamante, vista desde a Pedra Grande. Foto: Pousada Joaninha.

Meio físico:
A Pedra está localizada na Serra da Bocaina, em lugar marcado pelo clima tropical de altitude, porém bem mais frio e úmido que o entorno, devido à altitude superior e à proximidade com o mar. As temperaturas ficam na média anual inferior a 17°C e com verão brando. Durante os meses de inverno, principalmente junho e julho, ocorrem temperaturas inferiores a 0° C, ocasionando geadas. Está inserida na bacia hidrográfica do rio Paraitinga, sendo uma região de cabeceira e nascentes. O solo da região é típico de região serrana, sendo o cambissolo húmico. A vegetação é de campos de altitude, as matas ficam concentradas apenas nos fundos dos vales. Nos campos de altitude há a predominância de espécies herbáceas e arbustivas. Conforme a altitude diminui, tem-se a dominância de espécies arbóreas que formam uma mata característica da Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, com a presença de Araucárias. As unidades geológicas que afloram na região pertencem ao Terreno Embu. Essa entidade tectônica é constituída por rochas metamórficas e ígneas, em sua maioria com idades proterozoicas (formadas há 2,5 bilhões a 542 milhões de anos). A Pedra em si, do ponto de vista geológico, é um afloramento de Metagranitóide Porfirítico, exercendo controle sobre morfologia do entorno, se destacando no relevo devido a sua resistência à alteração intempérica.

Aspecto da Pedra Grande e entorno. Foto: EcoValeTur.

Parque:
Apesar de estar na Serra da Bocaina, a Pedra Grande não está inserida dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação de proteção integral. Assim, não há controle de visitação ao local, o que pode ser bastante danoso ao ecossistema do lugar. Não há nenhuma estrutura física para atender a demanda de visitantes e nem qualquer tipo de fiscalização pelo poder público. O descarte de lixo feito de maneira inapropriada no local ou mesmo as fogueiras, acendidas pelos esporádicos acampamentos, podem causar poluição ou queimadas acidentais, colocando em risco o rico e diferenciado ecossistema da Bocaina, considerado por muitos cientistas um refúgio ecológico.

Mapa concêntrico da Pedra Grande da Bocaina. Notar a proximidade com Campos de Cunha. Elaboração: Jacuhy.

Ecoturismo:
Por estar no topo das escarpas da Serra da Bocaina, a Pedra é um excelente mirante, de onde se pode avistar a Mantiqueira, a cidade de Cunha, parte do Vale do Paraíba, a Serra do Mar e da Quebra-Cangalha e até alguns pontos da Costa Verde fluminense. A beleza cenográfica do lugar é de tirar o fôlego. A exploração turística do mirante já vem sendo feita. Passeios de moto, de bicicleta (mountain bike), a pé (trekking), a cavalo, de carro (off-road) têm a Pedra como paragem (camping) ou percurso. O município de Silveiras já explora turisticamente a Pedra, conforme é possível observar nas suas peças de divulgação turística. No entanto, cabe a Cunha saber aproveitar também o mirante da Pedra Grande, já que é parte de seu território, incluindo-o em seu mapa turístico e como um dos destinos a ser visitado pelos viajantes que aqui chegam ou passam. A inclusão desse mirante contribuirá com o próprio desenvolvimento turístico do distrito de Campos de Cunha. Mas é preciso pensar e planejar formas não predatórias de turismo no lugar.

Vídeo da Pedra feito pela empresa EcoValeTur. Data: 12 de jul. de 2019.

Acesso:
A Pedra pode ser acessada por estrada de terra batida, tanto pelo município de Silveiras (SP), via bairro dos Macacos (Colinas), como por Cunha, via bairro da Bocaina. O acesso mais comum e mais recomendado, devido às condições da estrada, é por Silveiras. Pela facilidade de acesso, muitas pessoas confundem a localização da Pedra, colocando-a dentro do município de Silveiras, quando na verdade está dentro de Cunha, conforme pode ser visto nos recortes cartográficos que acompanham esta postagem. Esse Embaraço é reforçado ainda, porque a Pedra está muito próxima à divisa intermunicipal. Equívocos desse tipo ocorrem com frequência com morros em áreas ou próximos de limites territoriais. Veja o que ocorre, p. ex., com a Pedra Macela, na divisa entre Cunha e Paraty (RJ).

Pedra Grande e Serra da Bocaina. Foto: Emil Davidson. Data: maio de 2019. Fonte: Google Maps.

Outras informações:
a) No Google Maps, Pedra Grande já aparece como “Trilha de Caminhada”, porém com “plus code” (56JH+7F Silveiras, São Paulo) localizado em Silveiras, possivelmente cadastrado no site pela ECOVALETUR.
b) Não temos nenhuma informação sobre as condições de trafegabilidade no momento, das estradas que levam à Pedra Grande; entretanto, convém salientar, que nunca foram boas e não são recomendadas para carros de passeio.
c) “Bocaina” é vocábulo de origem tupi, disso não há dúvida; todavia seu significado é controverso. Uma das acepções é: “lugar onde há fontes de água”, derivando de bocá, “irromper”, e ynhã, “fonte, ou jorro d’água”. Talvez seja esse o porquê da Serra apresentar um inexistente lago nas representações cartográficas coloniais, setecentistas; tomando, certamente, os cartógrafos, por fidedigna a tradução literal do vocábulo indígena. No entanto, de fato o termo faz jus à condição hidrográfica da Serra, pois nela nasce o rio Paraitinga, principal formador do rio Paraíba do Sul.

Situação da Pedra Grande, em recorte feito na carta do IBGE, escala 1:50.000. Edição: Jacuhy.

Referências:
AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
ECOVALETUR. Pedra Grande da Bocaina (roteiro). Disponível em: <  https://ecovaletur.com.br/roteiro/pedra-grande-da-bocaina/ >. Acesso em: 2 mai. 2021.
GOOGLE MAPS. Disponível em: < https://www.google.com.br/…/@-22.8211891…/data=!3m1!1e3 >. Acesso em: 2 mai. 2021.
IBGE. Campos de Cunha. Rio de Janeiro: IBGE, 1974. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Z-A-IV-3, MI: 2742-3. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/…/GEB…/SF-23-Z-A-IV-3.jpg >. Acesso em: 25 nov. 2020.
INSTITUTO GEOGRÁFICO E CARTOGRÁFICO (IGC). Ribeirão dos Criminosos. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo – Sec. de Economia e Planejamento: Plano Cartográfico do Estado de S. Paulo / Coordenadoria de Divisão Regional / Divisão de Geografia, 1978. Escala 1:10.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Carta SF-23-Z-A-IV-3-NE-D, Folha: 074/135.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SILVEIRAS. Silveiras, Terra do Tropeiro. Vídeo de divulgação. Letra e música: Celso Galvão. Data da postagem do vídeo: 21 de fev. de 2019. Disponível em: < https://youtu.be/CzMOTWIEja8 >. Acesso em: 20 out. 2020.
POUSADA JOANINHA. Passeios. Disponível em: < https://www.pousadadajoaninha.com.br/passeios.php >. Acesso em 26 out. 2020.
REIS, Paulo Pereira dos. O indígena do Vale do Paraíba: apontamentos históricos para o estudo dos indígenas do Vale do Paraíba paulista e regiões circunvizinhas. Coleção Paulística, v. 16. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1979.
ROMARIZ, Dora de Amarante. Biogeografia: conceitos e temas. São Paulo: Scortecci, 2008.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente, Instituto Florestal. Mapa pedológico do Estado de São Paulo: revisado e ampliado. Marcio Rossi. São Paulo: Instituto Florestal, 2017. 118p. : il. color ; mapas. 42×29,7 cm. Disponível em: < http://www.iflorestal.sp.gov.br >. Acesso em: 1 mai. 2021.
SOARES, Arthur Távora de Mello. Mapeamento Geológico, Análise Estrutural e Metamorfismo nas proximidades de Campos de Cunha, São Paulo. Monografia de Graduação em Geologia. Orientadores: Julio Cezar Mendes, Rodrigo Vinagre. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto de Geociências / Departamento de Geologia, 2018. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11422/4254 >. Acesso em: 2 mai. 2021.
TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário de topônimos brasileiros de origem Tupi. São Paulo: Traço, 1985.
TOLEDO, Francisco Sodero. Estradas Reais: O Caminho Novo da Piedade. Campinas, SP: Editora Alínea, 2009.

Vídeo do canal “Girando na Vida” sobre a Pedra Grande. Data: 18 de mai. de 2020.

Pedra do Frade – Cunha – SP

Pedra do Frade, no bairro do Sertãozinho. Foto: Alessandro Ferraz.

1. Localização:

Está localizada no bairro do Sertãozinho, zona rural do município Cunha (SP). Possui um paredão de 80 metros de altura (IGC, 1978). Está a 14 quilômetros da sede urbana municipal em distância absoluta. As coordenadas geográficas da Pedra, obtidas pelo SIG on-line DataGEO, do Sistema Ambiental Paulista, são as seguintes: 23º10’23.7″S; 45º02’51.1″W (Datum: Sirgas 2000).

Localização da Pedra do Frade no município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.

2. Altitude:

Varia conforme o produto cartográfico, site geoespacial ou SIG utilizado. Assim, tem-se:

  • na carta do IBGE: 1.220 metros.
  • na carta do IGC: 1.246 metros.
  • no software Google Earth: 1.233 metros.
A Pedra do Frade está a 1.246 metros de altitude. Fonte: IGC.

3. História:

A Pedra do Frade está dentro do sítio do Frade, propriedade do Sr. José Wagner e pertenceu às terras da fazenda do Sr. Décio Mariano Leite, que era filho de Crispim Mariano Leite e neto do capitão Joaquim Mariano de Toledo, povoador da região. Tem esse nome, segundo a tradição oral, porque na época da escravidão morava um frade no local, que a usava como refúgio, pois era defensor dos escravizados. Segundo dizem, há em um dos lados da Pedra a entrada para uma gruta, que serviu como abrigo para o frade e para os seus protegidos, que fugiam dos horrores da escravidão. Um frade é um religioso católico, não necessariamente um clérigo, que pertence a uma ordem religiosa mendicante. Diferente dos monges, os frades não ficavam tão enclausurados nos mosteiros, mas exerciam seu ministério junto ao povo. São notórios defensores dos pobres e oprimidos.

Pedra do Frade e o Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente. Arte: Jacuhy.

É muito difícil atestar a veracidade sobre a existência desse frade, mas relatos como esse são repassados pelos moradores locais ao longo do tempo. Há um fundo de verdade por trás de todos eles. A escravidão foi uma triste realidade no município de Cunha desde os tempos coloniais. No século XIX, por exemplo, quase metade da população de Cunha era formada por negros escravizados. A Pedra do Frade está próxima ao bairro da Catioca, primitiva zona de ocupação e povoamento do município de Cunha (VELOSO, 2010). Região privilegiada e propícia à colonização, pois estava situada no caminho que ligava a Freguesia do Facão (Cunha) à Vila de Taubaté. Assim, foi desde o século XVIII toda fatiada em sesmarias. Muitas fazendas surgiram na região da Catioca. Poucas permaneceram até hoje, como é o caso da Fazenda Sant’Anna, um testemunho de uma época pretérita. Mesmo se o relato não passar de mito e lenda, é certo que na região da Pedra do Frade houve escravidão e que muitos negros, como forma de resistir à opressão, fugiam e procuravam abrigo em lugares remotos.

Em 1933, o terreno no qual está a Pedra do Frade foi arrolado no espólio do capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano”), maior fazendeiro de Cunha no início do século XX, com a seguinte descrição: “(…) i) – Três partes de terras no lugar denominado ‘Frade’ (…)” (VELOSO, 2010, p. 251). Os moradores do bairro do Sertãozinho figuraram entre os primeiros moradores de Cunha a se converterem ao metodismo, ainda nas primeiras décadas do século XX.

Aspecto do relevo da região. Foto: Adilson Toledo.

A Pedra do Frade é um prolongamento da Serra do Alto do Diamante e se encontra em uma região de Cunha onde as montanhas com os cumes pedregosos embelezam ainda mais a paisagem rural. Mas por que Alto do Diamante? Do ponto de vista geológico é muitíssimo improvável encontrar essas pedras preciosas em Cunha. Porém, por estar sobre o embasamento cristalino, há grande ocorrência de pedras de quartzo nas terras cunhenses. Essas pedras eram antigamente confundidas com diamantes ou consideradas como indícios de que haveria diamantes no lugar. Daí a crença popular de que poderia haver diamantes naqueles outeiros, onde brotam quartzos de variados aspectos e cores. Outros afirmam que o lajedo de gnaisse, após uma chuva ou garoa, tendo ficado molhado, tem brilho intenso como diamante, ao refletir a luz do Sol. Parece que os afloramentos rochosos marcaram a toponímia local. É muito provável, por exemplo, que o bairro do Itambé, vizinho do Sertãozinho, tenha recebido esse nome em razão do aspecto da Serra do Alto do Diamante. Itambé é topônimo (litotopônimo, no caso) de origem tupi (“itá-aimbé”) e significa “pedra pontuda e afiada” ou “pedra de amolar”,podendo, por extensão, ser traduzido como “borda; beira; precipício” (NAVARRO, 2013). Seria uma possível referência ao afloramento rochoso do Alto do Diamante? Vejam as fotos e tirem suas conclusões.

Aspecto do Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente.

4. Meio físico:

A Pedra do Frade, bem como todo o território cunhense, está inserida dentro do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, possuindo as seguintes características:

  • a) Hidrografia: a Pedra exerce a função de divisor de águas, separando as microbacias do ribeirão do Limão e a do ribeirão das Abóboras, ambos tributários do ribeirão Itaim, que deságua no rio Paraitinga, na divisa com Lagoinha (SP). No sopé da face noroeste da Pedra nasce o córrego dos Peros (IBGE, 1974).
  • b) Climatologia: ocorre o tropical de altitude típico, com suas estações bem definidas, podendo ocorrer geada no inverno. Entretanto, essa região localizada em uma área serrana é mais úmida do que boa parte do município, devido à altitude e à proximidade com a Serra do Mar, sendo comum a ocorrência de eventos orográficos (garoa, serração) de manhã ou na parte da tarde.
  • c) Vegetação: no passado pré-colonial, era a região coberta por Mata Atlântica. Atualmente o entorno da Pedra está ocupado por pastagens, em função da atividade pecuária que se desenvolve no lugar. Na proximidade topo do encontra-se uma pequena mancha de Floresta Ombrófila Densa em estágio médio (SÃO PAULO, 2020). No topo da Pedra, entre as lascas seixosas que se desprenderam do monólito, brotam flores rupestres, o que ressalta a beleza do lugar.
  • d) Geologia: área de contato das entidades tectono-estratigráficas Terrenos Embu e Terreno Serra do Mar, formada há 587 milhões de anos, durante a Era Neoproterozoica (CPRM, 2006). A geotecnia aponta ser o local sujeito a alta suscetibilidade a escorregamentos (naturais e induzidos), com rochas cristalinas no embasamento (NAKAZAWA; FREITAS; DINIZ, 1994). Há o predomínio de rochas ígneas plutônicas. Registra-se a ocorrência dos seguintes tipos de rochas: gnaisse, biotita, granito, monzogranito, migmatito, xisto, metapelito, quartzito, meta-arenito etc. A região está inserida no maciço do Corpo Granito Natividade da Serra (IPT, 2010).
  • e) Geomorfologia: está dentro da unidade morfoestrutural do Cinturão Orogênico do Atlântico, mais especificamente no Planalto do Paraitinga-Paraibuna. A Pedra em si é um penedo granítico, fruto da erosão diferencial e resultado do ataque dos agentes exógenos sobre o relevo. A Pedra está passando por um processo de esfoliação esferoidal. Do ponto de vista topográfico é a Pedra um esporão, um interrompimento da declividade da linha de crista da Serra do Alto do Diamante. Esta serra chega a atingir em seu cume a altitude de 1.640 metros. O relevo da região é todo orientando pela litografia, sendo o bairro do Sertãozinho um vale em “v”, aninhado entre dois esporões lançados do maciço central da Serra do Alto do Diamante. A Pedra do Frade é apresentada no Mapa Geomorfológico do Município de Cunha (IPT, 2010) como parte integrante das serras alongadas, com morros altos e fortemente ondulados.
  • f) Pedologia: o solo predominante é o cambissolo háplico (SÃO PAULO, 2007), ocorrendo ainda em associação com os latossolos amarelo e vermelho-amarelo típico. Ambos são distróficos. Apresenta textura média, é argiloso e típico de relevo fortemente ondulado, com profundidade variável de pouco até muito profundo.
Pedra do Frade, hipsometria e vizinhança. Fonte: IBGE.

5. Ecoturismo:

Apresenta enorme potencial, porém ainda permanece inexplorada. Além de ser um mirante fascinante, nela pode se desenvolver atividades como: montanhismo, rapel, trekking, mountain bike etc. As formações rochosas e altas montanhas do entorno são um espetáculo que merece ser apreciado por mais pessoas.

Pastagens dominam o entorno da Pedra do Frade. Foto: Alessandro Ferraz.

6. Acesso:

Antes de tudo, é importante ressaltar que a Pedra está em propriedade particular, sendo assim, o acesso até ela necessita de anuência prévia dos proprietários.Para chegar até o local, deve-se seguir pelos seguintes caminhos:SP – 171 (Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti, de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro), em asfalto, por 3,3 Km, daí entra à direita e segue pela Estrada Municipal Benedito Galvão de França (Cunha – Catioca), em terra batida, por 10,3 Km; daí entra à esquerda e segue pela estrada que interliga o bairro das Abóboras ao bairro do Jericó, em terra batida, por 0,5 Km, daí entra à direita, subindo e seguindo pela Estrada do Limão/Sertãozinho, em terra batida, por 6,3 Km até a entrada da trilha que dá acesso à Pedra, que está à esquerda da estrada. É um caminho de tropa frequentado pelos íncolas locais, que liga o bairro do Sertãozinho ao bairro do Sertão dos Marianos, do outro lado da cadeia de montanhas. Da estrada do Sertãozinho segue-se por trilha, em direção ao Sertão dos Marianos, subida a pique, por 1,4 Km.

Imagem de satélite da Pedra do Frade. Fonte: EMPLASA, 2010.

7. Outras informações:

a) Localização da Pedra do Frade no Google Maps: https://www.google.com.br/maps/place/23%C2%B010’22.3%22S+45%C2%B002’50.1%22W/@-23.1728611,-45.0485514,674/data=!3m2!1e3!4b1!4m14!1m7!3m6!1s0x9d7ce47f825ea7:0xb0e1ed8f9db1d15a!2sCunha,+SP,+12530-000!3b1!8m2!3d-23.0743544!4d-44.9561012!3m5!1s0x0:0x0!7e2!8m2!3d-23.1728643!4d-45.0472496!5m1!1e4

b) Rota da cidade de Cunha até o início da trilha para a Pedra do Frade: https://goo.gl/maps/CgmRpPTBuvmS1EJh6;

c) Não temos nenhuma informação sobre as condições de trafegabilidade, no momento, da estrada que leva à Pedra do Frade.

d) O presente artigo contou com informações valiosas fornecidas pelas seguintes pessoas Sr. Jorge Prudente (sitiante no bairro do Sertãozinho), Sr. Adilson Galvão (quem sugeriu esta publicação) e pela guia turística Sra. Edna Maria. Nosso agradecimento a eles.

Bairro do Sertãozinho. Foto: Adilson Toledo.

8. Fotos:

Adilson Toledo, Alessandro Ferraz e Jorge Prudente.

9. Referências:

AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS (CPRM). Mapa geológico do estado de São Paulo. Escala 1:750:000. Breve descrição das unidades litoestratigráficas aflorantes no estado de São Paulo. São Paulo: CPRM, 2006.

FRADE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Frade&oldid=60735861 >. Acesso em: 24 mar. 2021.

GUERRA, A. T. Dicionário geológico-geomorfológico. 8. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Lagoinha. Rio de Janeiro: IBGE, 1974. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Y-D-III-2, MI: 2770-2. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SF-23-Y-D-III-2.jpg >. Acesso em: 18 jun. 2021.

INSTITUTO GEOGRÁFICO E CARTOGRÁFICO (IGC). Sertão. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo – Sec. de Economia e Planejamento: Plano Cartográfico do Estado de S. Paulo / Coordenadoria de Divisão Regional / Divisão de Geografia, 1978. Escala 1:10.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Carta SF-23-Y-D-III-2-SE-D, Folha: 083/131.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS (IPT). Esboço geológico do município de Cunha. Escala 1:50.000. São Paulo: IPT, 2010.

NAKAZAWA, V. A.; FREITAS, C. G. L.; DINIZ, N. C. Carta Geotécnica do Estado de São Paulo. Escala 1:500.000. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), 1994.

NAVARRO, E. de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.

ROMARIZ, Dora de Amarante. Biogeografia: conceitos e temas. São Paulo: Scortecci, 2008.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Mapa pedológico do Estado de São Paulo: revisado e ampliado. São Paulo: Instituto Florestal (IF), 2017. 118p. : il. color ; mapas. 42×29,7 cm. Disponível em: <http://www.iflorestal.sp.gov.br >. Acesso em: 1 mai. 2021.

______. Inventário Florestal do Estado de São Paulo: mapeamento da cobertura vegetal nativa. São Paulo: IF (Instituto Florestal), 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2020/07/inventarioflorestal2020.pdf >. Acesso em: 1 jun. 2021.

______. DataGEO – Sistema Ambiental Paulista: Infraestrutura de Dados Espaciais Ambientais do Estado de São Paulo (IDEA-SP). Disponível em: < https://datageo.ambiente.sp.gov.br/app/?ctx=DATAGEO >. Acesso em: 1 jun. 2021.

VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: 1600-2010 – Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Mapa concêntrico mostrando os pontos de referência próximos à Pedra do Frade. Cartografia: Jacuhy.

Pedra do Espelho – Ubatuba – SP

Pedra do Espelho. Foto: Carvalho Pinto / Facebook.

Apesar de deslumbrante, a Pedra do Espelho não é o ponto culminante de Ubatuba. E não fica na divisa com Cunha. A Pedra está totalmente dentro do território de Ubatuba, embora quase em cima do limite com Paraty (RJ). A Pedra, devido à sua altitude, pode ser vista de alguns bairros rurais do sul do município de Cunha. E foram os cunhenses que a batizaram. Devido às chuvas orográficas constantes nas escarpas da Serra do Mar, uma tênue camada de água está sempre deslizando pelo paredão granítico. Nessas condições, quando há incidência dos raios soladores contra o paredão, tem-se um brilho intenso.

Pedra do Espelho vista do bairro da Lagoa, sul do município de Cunha. Foto: Gustavo Monteiro/Facebook.

As escarpas da Serra do Mar, geomorfologia presente no território ubatubense, favorecem a formação de paredões de granitos ou gnaisse. De acordo com o mapeamento do Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de S. Paulo (IGC), o paredão rochoso é de 245 metros. A Pedra está situada nas cabeceiras do Rio Verde, afluente do Rio Puruba. É duplamente protegida, pois fica dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB) e dentro do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), já que ambas as unidades de conservação se sobrepõem uma à outra (coisas do Brasil…). E a Pedra está dentro dessa sobreposição. Melhor para ela e para os bichos da vizinhança.

Carta topográfica do IGC (escala 1: 10.000) sobreposta a imagem de satélite, mostrando a altitude da Pedra. Fonte: IGC e Emplasa.

A altitude da Pedra do Espelho varia conforme o meio ou documento de referência. Isso é muito comum. É sabido que a aferição de altitude de antigamente não era lá muito precisa. Desse modo, a Pedra tem: 1.500 metros (IBGE); 1.521 metros (IGC); 1.490 metros (Google Maps); 1.504 metros (GPS de baixa precisão).

A beleza cênica da Pedra. Foto: Divanei Goes de Paula.

O ponto culminante de Ubatuba não é o Pico do Corcovado, famosinho e não menos bonito, pois esse tem 1.181 ou 1.168 metros de altitude, dependendo da fonte de referência. De acordo com as cartas topográficas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do IGC, com escalas 1:50.000 e 1:10.000, respectivamente, o ponto de maior altitude de Ubatuba é o Pico do Alto Grande, na divisa com Paraty, e bem próximo à tríplice fronteira (Cunha-Paraty-Ubatuba), que se dá no Alto da Fruta Branca. A aferição da altitude também varia de documento para documento. O Pico do Alto Grande obtém as seguintes altitudes: 1.670 metros (IBGE); 1.678 metros (IGC); 1.640 metros (Google Maps); 1.662 metros (GPS de baixa precisão).

Parte da carta do IGC, escala 1:10.000, mostrando a localização e a altitude do Pico do Alto Grande, na divisa entre Ubatuba (SP) e Paraty (RJ). Fonte: DataGEO.

O Pico do Alto Grande está localizado na fazenda da Sesmaria Nova, outrora posse de gente cunhense, embora já dentro do território ubatubense. O desmatamento e a ocupação por capões de pastagem não deixam dúvidas quanto a isso. Ainda que o Pico esteja dentro de duas unidades de conservação de proteção integral também (PESM e PNSB). É cabeceira do Rio da Cachoeira, formador do Rio Puruba, nos contrafortes da Serra do Cabloco Iaçá.

Pedra do Espelho em outro ângulo. Foto: Página “Pedro do Espelho” / Facebook.

A riqueza florística da Pedra do Espelho, vegetação campestre devido à altitude, encanta. Mas é o mirante para o mar que atrai, uma janela para o que restou da Mata Atlântica, já na última pontinha da terra paulista. O platô, que precede o precipício, favorece a instalação de barracas. O visual das escarpas, do mar, da planície, de Ubatuba e Paraty é de tirar o fôlego. Vale a caminhada. Expedições para o lugar não são raras. O acesso por Cunha é o mais recomendado, por Paraty é possível e por Ubatuba é impensável. Os guias do PESM (Núcleo de Cunha) e mateiros conhecem o caminho da Pedra. Não se recomenda a trilha a iniciantes, desavisados ou outros que desconhecem as redondezas. Ademais, a Pedra está dentro de duas unidades de conservação de proteção integral. É lícito pedir autorização. Mais que isso: prudente.

Visual das escarpas da Serra do Mar e do Atlântico, captado da Pedra do Espelho. Foto: Página “Pedro do Espelho” / Facebook.

Mais informações:

1) Coordenadas Geográficas (Google Maps):

Pedra do Espelho: 23°14’37.6″S; 44°52’46.0″W

Pico do Alto Grande: 23°13’11.3″S; 44°53’11.9″W

2) Vídeos da Pedra:

a) https://youtu.be/Rrk2mFVWVWU

b) https://youtu.be/2K3Rgi8u8LU

3) Excelente reportagem sobre o lugar, por Divanei Goes de Paula:

https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report

Referências:

Artigo “Pedra do Espelho”, na Wikimapia. Link: http://wikimapia.org/39673667/pt/Pedra-do-Espelho

Cartas topográficas do IBGE e IGC, acessadas pelo SIG on-line DATAGEO (Secretaria do Meio Ambiente). Link: https://datageo.ambiente.sp.gov.br/app/#

Divanei Goes de Paula. Travessia Alto Grande X Espelho – Cume da Serra do Mar – SP (setembro, 2019). Link: https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report

Google Maps. Link: https://www.google.com.br/maps/@-23.2200339,-44.8874361,15z/data=!5m1!1e4

Pedra do Espelho (página do Facebook). Link: https://www.facebook.com/trekkinghard/

Secretaria do Meio Ambiente – Parque Estadual da Serra do Mar. “Trilha Pico do Corcovado”. Link: https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/pesm/atividade/trilha-pico-do-corcovado-2/