
Cada feriado chuvoso (como este) só atesta e alardeia que o turismo, enquanto alternativa econômica para Cunha, não é, por enquanto, viável.
Pelo menos não nos moldes desse turismo que foi imposto aqui. Imposto porque não foi um modelo que partiu da coletividade, mas de grupos restritos e poucos criativos.
Queriam criar uma “nova Campos do Jordão”, mas o plano falhou. Não é porque ambas as cidades são estâncias climáticas que são do mesmo jeito, com as mesmas características.
Não deu certo porque as atividades econômicas estão atreladas a processos históricos. E cada cidade tem a sua própria história. A de Campos do Jordão, por exemplo, em grande parte foi construída pelas benesses do Governo Estadual; já em Cunha foi na base do improviso, isto é, ficou a cargo da Prefeitura Municipal. Ente omisso muitas vezes, diga-se. Um exemplo é a realização do primeiro Festival de Inverno, em 1993, iniciativa dos ceramistas e comerciantes. A Prefeitura foi coadjuvante. O turismo em Cunha começou na base do empurrão, pegando na base do tranco.
De 1948, quando Cunha se tornou (a muito custo) uma Estância Climática, até meados dos anos 1970, quando a Prefeitura começou a pensar que o turismo poderia ser uma alternativa econômica para a decadente agricultura cunhense, foram quase trinta anos perdidos. Tempo demais. Campos do Jordão já era conhecida nacionalmente e já era o destino de montanha preferido dos paulistanos. Enquanto plantávamos o milho, Campos do Jordão já estava comendo o bolão de fubá.
E o pior de tudo não foi ter saído atrás. É essa insistência em copiar o modelo de desenvolvimento turístico jordanense. Estamos condenados a correr sempre atrás do concorrente, sem poder alcançá-lo. Afinal, não apresentamos nada de diferente, apenas mais do mesmo. E em termos de qualidade, as atrações de Campos do Jordão são maiores e de melhor qualidade do que as nossas.
Uns podem argumentar que as atividades turísticas geram emprego e renda em Cunha, que há inúmeras pousadas que vêm se mantendo, que o número de visitantes vem aumentando etc. Mas a que preço?! Só o DADE (Departamento de apoio às estâncias do Governo Estadual) investe em Cunha mais de 1 milhão de reais todo o ano. O retorno não acompanha o montante investido. Se investíssemos esse dinheiro em outra atividade, não lograríamos melhor sorte?
Cunha jamais conseguirá se tornar uma cidade nos moldes de Campos de Jordão. Primeiro, porque passaram por processos históricos distintos e são culturalmente diferentes. Cunha ainda é um reduto da cultura caipira; Campos do Jordão é qualquer coisa, menos caipira. Apesar da história e da cultura não serem inalteráveis, não são fáceis e rápidas de serem mudadas. O que levou séculos para se formar não se desfaz em décadas ou anos.
Outra diferença, talvez a fundamental (e essencialmente geográfica), é a da distribuição espacial das atratividades. Enquanto Campos do Jordão apresenta suas atratividades concentradas na Vila Capivari e com uma dispersão restrita a sua área urbanizada; Cunha possui suas atratividades dispersas na extensão de seu enorme e acidentado território, sendo que os atrativos de sua área urbana nem sempre se coadunam aos fatos naturais/culturais que atraem os turistas para a área rural. Sem contar que essa dispersão exige uma infraestrutura adequada, a fim de garantir acessibilidade e o bem-estar necessário ao visitante.
Por uma questão histórica e geográfica, o turismo em Cunha está sendo um verdadeiro fiasco. Mas há alternativas? Sim, há. É preciso, antes de mais nada, abandonar o modelo jordanense. Buscar ou construir modelos alternativos, valorizar as nossas potencialidades, repensar os eventos desenvolvidos durante o ano, replanejar a questão turística (marketing, público-alvo, infraestrutura etc.), recalcular o preço das pousadas, bares e restaurantes etc. Enfim, começar do zero.
O difícil não é recomeçar do zero. A dificuldade é encontrar alguém disposto a pagar o preço de quatro décadas de uma política turística equivocada. Quem se habilita?
Texto publicado em 30 de abril 2012, no blog “Ritter & Humboldt”.