Cunha e suas águas minerais

Nos idos de 1875, as fontes de águas minerais de Cunha já eram conhecidas no estado de S. Paulo. Engana-se, portanto, quem pensa que elas foram descobertas no século XX. Em sua obra “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy (1826 – 1907), ao descrever as fontes de águas minerais paulistas conhecidas, aponta: “Só são conhecidas algumas fontes e entre estas as do municipio de Cunha, de agua ferrea, e em S. João Baptista uma fonte thermal sulphurosa na vertente paulista da serra de Caldas da provincia de Minas Geraes”. Alguns anos depois, em 1882, através de um ofício endereçado à Assembleia Provincial, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.

Parte do ofício da Câmara da Cidade de Cunha, destinado à Assembleia Provincial de S. Paulo, relatando a existência de águas minerais em nosso município. Fonte: ALESP. Data: 1882.

A fama da água de Cunha se espalhou pela província de tal forma, que chegou aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo, que era aficionado por lugares que possuíam fontes de água mineral. Em 1912, ele adquiriu as terras da região, comprando a “Fazenda Jaboticabal”, criando, assim, a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”. Seu projeto era criar uma cidade no entorno das nascentes, a exemplo do que fora feito em Campos do Jordão, empreendimento urbano patrocinado e dirigido pelo Barão.

Visita do Marechal Mallet, então Ministro da Guerra, em janeiro de 1902, a São Francisco dos Campos, em terras do Barão da Bocaina, que aparece em primeiro plano. Foto e Descrição: Fundação Christiano Rosa (Piquete – SP).

Na década de 1940, Cunha lutaria, com o apoio de alguns deputados, junto ao Governo Estadual, para se tornar uma Estância Hidromineral. As outras cidades, que já detinham esse título, pressionaram politicamente o governador e os deputados, a fim de barrar o intento cunhense. Obtiveram sucesso. Como prêmio de consolo, Cunha recebeu o título de Estância Climática, em 28 de outubro de 1948. Tarde demais para se tornar uma cidade-sanatório. A penicilina já havia chegado ao Brasil, por meio do pesquisador Henrique de Souza Filho, (do Instituto Oswaldo Cruz), em 1943. Ele foi responsável por realizar os primeiros experimentos com o antibiótico fora da Inglaterra, onde foi descoberto por Alexander Fleming. Esse remédio trouxe um impacto significativo na saúde pública, permitindo o tratamento de diversas doenças infecciosas, entre elas a tuberculose, que antes eram consideradas graves e muitas vezes fatais. As cidades sanatoriais, de “clima salubérrimo” (como gostava de adjetivar Cunha o entusiasta João Lellis Vieira, em sua coluna no “Correio Paulistano”), foram aposentadas.

Recorte do diário “Correio Paulistano”, de 28 jul. 1940, p. 3, em um dos muitos artigos que Lellis Vieira apresenta Cunha como a “Suíça Brasileira”. Fonte: Biblioteca Nacional.

Aliás, digna de nota é a batalha inglória, que João Lellis Vieira (Cunha, 15 de julho de 1880 – São Paulo, 5 de junho de 1949), diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo de 1938 a 1947, travaria nas colunas do “Correio Paulistano”. O cronista ergueu o estandarte de Cunha como a legítima “Suíça Brasileira”, insígnia disputada com Campos do Jordão. O “Correio Paulistano” foi o órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), partido que durante muitas décadas reinou em São Paulo. Cunhense, antigo perrepista, católico praticante, historiador e poeta, Lellis Vieira era graduado pela Faculdade de Filosofia de São Bento e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Nomeado pelo governador Ademar de Barros, dirigiu o Arquivo Público até 1947, quando assumiu o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ocupando esse cargo até falecer. Campos do Jordão, cidade situada no alto da serra da Mantiqueira, venceu essa batalha, ficando famosa e sendo reconhecida como a “Suíça Brasileira”.  O próprio governo estadual construiu lá o seu palácio de inverno (“Palácio Boa Vista”) encerrando, assim, a questão.

Página do livro “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy, que cita as águas minerais de Cunha. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).

Foi somente em 1975 que a água mineral de Campos de Cunha passou a ser comercializada. A iniciativa veio do empresário Ghisleni Giulio, que adquiriu a fazenda nos anos de 1960. A “Águas Virtuosas Santa Rosa”, como era conhecida, em pouco tempo conquistou muitos fregueses devido à sua composição mineral, leveza e alto grau de pureza. Atualmente, é comercializada com o nome “Serras de Cunha” e pertence ao grupo “Águas Prata”.

Sob o território cunhense existe um reservatório de água com mais de 550 milhões de anos. É o Aquífero Cristalino, formado pelas rochas mais antigas do estado de São Paulo. O Cristalino aflora na parte leste do estado, cobrindo uma área de aproximadamente 53.400 km², conforme mostra o mapa acima. Ele está presente em outros municípios como Campos do Jordão, Águas de Lindóia, Jundiaí, Iporanga e até na Região Metropolitana de São Paulo.  O Aquífero Cristalino é composto por rochas ígneas e metamórficas — tipos de rochas muito resistentes, formadas em condições extremas de temperatura e pressão. A água subterrânea no Cristalino se acumula e circula por fraturas nas rochas. Essas fendas surgiram muito tempo depois da formação das rochas, como resultado de movimentos tectônicos, como a separação dos continentes e a formação da Serra do Mar.

Desenho esquemático do Aquífero Cristalino Pré-Cambriano, com suas fraturas. Fonte: Instituto Geológico.

Dependendo do tipo e da quantidade dessas fraturas, o aquífero pode ter maior ou menor vazão. O Cristalino é dividido em duas unidades, sendo a principal o Aquífero Pré-Cambriano, que é o aquele que abrange o nosso município e possui as rochas mais resistentes e antigas. Sua produtividade é geralmente baixa e bastante variável, dependendo da presença de fraturas abertas. Apesar da produtividade variável, a água do Aquífero Cristalino é de boa qualidade e pode ser usada para consumo humano, possuindo diversas fontes minerais em sua área de ocorrência.

Recorte de um mapa com os principais recursos minerais que podem ocorrer em Cunha. Fonte: ANM, 2025.

A água é a principal riqueza mineral de Cunha. De acordo com recente consulta que fizemos à Agência Nacional de Mineração (ANM), a única concessão de lavra que existe em nosso município está outorgada às Águas Prata Ltda. e foi concedida em 1974. Na condição de requerimento ou autorização para pesquisa, além da água mineral, há outros minerais que estão sendo pesquisados por aqui: feldspato, argila, areia, ferro, terras raras, caulim, gnaisse e granito. Na área fronteiriça com o município de Lagoinha há dois requerimentos de lavra da Cerâmica Industrial de Taubaté Ltda. para exploração de caulim.

Foto de Capa: Represa da “Serras de Cunha”, bairro das Águas, Distrito de Campos de Cunha, Cunha – SP. Data: 2024.

Leia mais: Cunha e suas águas minerais

Turismo cunhense posto em questão

Qual é modelo de turismo que Cunha deve adotar?

Cada feriado chuvoso (como este) só atesta e alardeia que o turismo, enquanto alternativa econômica para Cunha, não é, por enquanto, viável.

Pelo menos não nos moldes desse turismo que foi imposto aqui. Imposto porque não foi um modelo que partiu da coletividade, mas de grupos restritos e poucos criativos.

Queriam criar uma “nova Campos do Jordão”, mas o plano falhou. Não é porque ambas as cidades são estâncias climáticas que são do mesmo jeito, com as mesmas características.

Não deu certo porque as atividades econômicas estão atreladas a processos históricos. E cada cidade tem a sua própria história. A de Campos do Jordão, por exemplo, em grande parte foi construída pelas benesses do Governo Estadual; já em Cunha foi na base do improviso, isto é, ficou a cargo da Prefeitura Municipal. Ente omisso muitas vezes, diga-se. Um exemplo é a realização do primeiro Festival de Inverno, em 1993, iniciativa dos ceramistas e comerciantes. A Prefeitura foi coadjuvante. O turismo em Cunha começou na base do empurrão, pegando na base do tranco.

De 1948, quando Cunha se tornou (a muito custo) uma Estância Climática, até meados dos anos 1970, quando a Prefeitura começou a pensar que o turismo poderia ser uma alternativa econômica para a decadente agricultura cunhense, foram quase trinta anos perdidos. Tempo demais. Campos do Jordão já era conhecida nacionalmente e já era o destino de montanha preferido dos paulistanos. Enquanto plantávamos o milho, Campos do Jordão já estava comendo o bolão de fubá.

E o pior de tudo não foi ter saído atrás. É essa insistência em copiar o modelo de desenvolvimento turístico jordanense. Estamos condenados a correr sempre atrás do concorrente, sem poder alcançá-lo. Afinal, não apresentamos nada de diferente, apenas mais do mesmo. E em termos de qualidade, as atrações de Campos do Jordão são maiores e de melhor qualidade do que as nossas.

Uns podem argumentar que as atividades turísticas geram emprego e renda em Cunha, que há inúmeras pousadas que vêm se mantendo, que o número de visitantes vem aumentando etc. Mas a que preço?! Só o DADE (Departamento de apoio às estâncias do Governo Estadual) investe em Cunha mais de 1 milhão de reais todo o ano. O retorno não acompanha o montante investido. Se investíssemos esse dinheiro em outra atividade, não lograríamos melhor sorte?

Cunha jamais conseguirá se tornar uma cidade nos moldes de Campos de Jordão. Primeiro, porque passaram por processos históricos distintos e são culturalmente diferentes. Cunha ainda é um reduto da cultura caipira; Campos do Jordão é qualquer coisa, menos caipira. Apesar da história e da cultura não serem inalteráveis, não são fáceis e rápidas de serem mudadas. O que levou séculos para se formar não se desfaz em décadas ou anos.

Outra diferença, talvez a fundamental (e essencialmente geográfica), é a da distribuição espacial das atratividades. Enquanto Campos do Jordão apresenta suas atratividades concentradas na Vila Capivari e com uma dispersão restrita a sua área urbanizada; Cunha possui suas atratividades dispersas na extensão de seu enorme e acidentado território, sendo que os atrativos de sua área urbana nem sempre se coadunam aos fatos naturais/culturais que atraem os turistas para a área rural. Sem contar que essa dispersão exige uma infraestrutura adequada, a fim de garantir acessibilidade e o bem-estar necessário ao visitante.

Por uma questão histórica e geográfica, o turismo em Cunha está sendo um verdadeiro fiasco. Mas há alternativas? Sim, há. É preciso, antes de mais nada, abandonar o modelo jordanense. Buscar ou construir modelos alternativos, valorizar as nossas potencialidades, repensar os eventos desenvolvidos durante o ano, replanejar a questão turística (marketing, público-alvo, infraestrutura etc.), recalcular o preço das pousadas, bares e restaurantes etc. Enfim, começar do zero.

O difícil não é recomeçar do zero. A dificuldade é encontrar alguém disposto a pagar o preço de quatro décadas de uma política turística equivocada. Quem se habilita?

Texto publicado em 30 de abril 2012, no blog “Ritter & Humboldt”.