Pelé

Por Armando Nogueira*

O corpo no espaço, em aceleração maravilhosa, inventa gestos que os poetas assinariam.

Lá vai Pelé, com a bola que Deus lhe deu… Os pés em faca, incisivos, cortando o tempo, cortando o caminho, cortando os beques. Inúteis as pernas que tentam aterrá-lo em plena corrida. Ele é uma força da natureza que avança intangível, a recortar no campo a sombra vertiginosa de suas falsas hesitações.

Quem te deu semelhante equilíbrio, rapaz? De que mistério vem a inteligência de teus músculos, que tudo pressentem na geometria de teus dribles? Os anjos que sobrevoam este campo me juram que tu vieste ao mundo para reescrever a bíblia do futebol. Assim seja.

Lá vai Pelé. pintando e bordando, tocando a bola e com ela trocando mil confidências, que os parceiros de jogo não adivinham jamais… Grama, graminha amiga, teu sorriso não me engana! Pelé passou por aqui, deixando na meia-lua um sopro de poesia.

Ouro sobre azul na pequena área. Gol de Pelé!

* Armando Nogueira (1927 – 2010) foi um jornalista e cronista esportivo brasileiro. Pioneiro do telejornalismo, foi responsável pela implantação do jornalismo na Rede Globo (1966 a 1990), com destaque para a criação do “Jornal Nacional”, primeiro jornal com transmissão em rede e ao vivo da história da televisão brasileira. Esse texto foi escrito em outubro de 1977, quando Pelé encerrou sua carreira dentro dos gramados, especialmente para ser lido na homenagem que o “Jornal Nacional” rendeu ao rei do futebol.

Um comentário em “Pelé

  1. O maior gênio do jornalismo, notadamente o esportivo, que já existiu neste país.

Deixe uma resposta