
A beleza da poesia anônima está em sua liberdade. Ela não precisa de aplausos para existir. Mas quando encontra leitores, pode florescer em algo maior. Como aconteceu com tantos nomes que hoje fazem parte da história literária nacional. O anonimato não é ausência de valor. É apenas o ponto de partida.
Primeiras décadas dos anos 2000. O século XXI chegara a Cunha. Zé Monteiro havia perdido a eleição municipal. Um futuro promissor nos aguardava: Cunha seria um insigne destino turístico, assumindo sua “vocação natural”. Nós aguardamos por esse futuro até hoje. Recorro à fina ironia de Luis Fernando Verissimo, escritor recentemente falecido, para definir essa desilusão: “o futuro era muito melhor antigamente.” Alguns prognósticos envelhecem mal. Não sem antes nos envenenar de esperança, esta droga que nos faz viver sonhando só para nos desiludir, ao acordar.
E eu acordava cedo. Morava na roça. Vinha para escola, na cidade, de ônibus. Sem dinheiro, sem livros, saciando minha abstinência de leitura nos jornais da biblioteca do colégio. Cunha não era uma Arcádia, apesar de montanhosa, mas havia poemas e textos disponíveis, gratuitos, pelas papelarias, mercados e outros comércios da cidade. Da política à poesia, esses panfletos apócrifos eram lidos e repassados. Alguns foram guardados. Ainda bem, pois desapareceram. Já não se acha mais pelas aldeias do Peloponeso essas manifestações escritas. A vida acontece, agora, em espaços virtuais. O próprio Pã ficaria em pânico com a selvageria desses ambientes.
Lembro dos poemas que eram distribuídos em Cunha no início do século XXI. Li vários, guardei alguns. Ficavam disponíveis sobre os balcões, aos montes. Quem se interessava, podia levar. Método interessante e analógico. Tecnologia de compartilhamento da época. Papel sulfite, fotocópia, gratuidade e muita sensibilidade. Belíssimos. Conquistaram, com certeza, novos leitores. Como o “Mãe”, de N. G. Lima. Ela (ou ele?) escreveu outros. Mas quem era N. G. Lima? Sobrenome estranho entre as famílias da terra. Um dos versos sugere não ser nativa. Um pseudônimo? Nunca descobri. E também nunca mais li nada dela(e). Desapareceu junto com seus poemas, com esse antigo hábito de deixar poemas nos balcões.
É verdade sabida que poetas usaram pseudônimos para evitar preconceitos ou construir identidades literárias, como escritoras do século XIX e o próprio Fernando Pessoa. Exemplos marcantes incluem os irmãos Brontë, que, na verdade, eram Charlotte, Emily e Anne, uma estratégia criativa para driblar o machismo, e, assim, serem levadas a sério no mundo literário da época, que era dominado por homens. Temos James Macpherson, que criou “Ossian”, em uma famosa fraude literária. Mas será esse o caso de N. G. Lima? Mas cá entre nós, que importa o nome? Queremos mesmo é saber o paradeiro da(o) poeta e dos seus poemas. Ao contrário daquela época, daqueles hábitos, minha fome por poemas sensíveis está latente.
Que fim levou N. G. Lima?

