Cunha: um brevíssimo resumo histórico

Linha do tempo gerada por IA (ChatGPT). Ilustrações simbólicas.

A história de Cunha, localizada no Vale do Paraíba (SP), é tricentenária e intimamente ligada à rota de exploração do ouro em Minas, à Revolução de 1932 e a uma forte herança cultural caipira, que moldou identidades e paisagens.

Aqui estão as datas e marcos mais importantes da história do município:

Os Primeiros Séculos (XVIII e XIX): Fundação, Colonização e Emancipação

  • 19 de março de 1724 (Marco Fundador): Data do início da construção da Capela da Boa Vista (dedicada à Sagrada Família), por Luiz da Silva Porto e sua família. É uma data simbólica do início do povoamento e colonização do Facão, território onde, atualmente, está assentado o município de Cunha. Após estudo histórico realizado pelo historiador João Veloso, essa data passou a ser considerada oficialmente o verdadeiro aniversário de fundação do município de Cunha.
  • 15 de setembro de 1785 (Independência Política): A antiga “Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão” emancipa-se da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. A partir do Auto de Ereção, Cunha ganha autonomia e torna-se um município (Vila de Cunha, em homenagem ao governador de S. Paulo na época: Francisco da Cunha e Meneses).
  • 20 de abril de 1858 (Elevação à Cidade): Cunha deixa a categoria de “Vila” e ganha oficialmente o título de “Cidade”. Essa elevação coincide com a prosperidade econômica regional trazida pelas lavouras de café, muito embora Cunha nunca o tenha plantado para fins comerciais. Durante muito tempo, o dia 20 de abril foi comemorado equivocadamente como a data de fundação/emancipação do município.

Século XX: Guerras, Clima e Arte

  • Julho a outubro de 1932 (Revolução Constitucionalista): Por sua localização estratégica na fronteira com o Rio de Janeiro, Cunha tornou-se um dos principais e mais sangrentos palcos (front Norte) da guerra civil entre as tropas paulistas e as forças de Getúlio Vargas. E um dos poucos lugares onde os paulistas venceram.
  • 28 de julho de 1932 (Mártir Paulista): Data do fuzilamento de Paulo do Virgínio (Paulo Gonçalves dos Santos). O lavrador cunhense foi capturado, torturado e executado por tropas federais por se recusar a revelar a posição dos soldados paulistas, imortalizando a frase “Morro, mas São Paulo vence!”. Ele é considerado um dos maiores heróis civis do Estado de São Paulo.
  • 28 de outubro de 1948 (Estância Climática): Através da Lei Estadual nº 182, o governo reconhece oficialmente as propriedades terapêuticas do clima montanhoso e das águas da região, concedendo a Cunha o título de “Estância Climática”. Todavia, a cidade nunca chegou a sediar sanatórios e o desenvolvimento turístico, que era esperado, demoraria décadas para acontecer.
  • 20 de abril de 1975 (Cerâmica de Alta Temperatura): Um grupo de jovens ceramistas (brasileiros, portugueses e japoneses) chega à cidade e constrói, no antigo matadouro municipal, o primeiro forno Noborigama (tradicional forno japonês a lenha) do Brasil. Já havia em Cunha as antigas tradições das “paneleiras”, ceramistas nativas que utilizavam técnicas ancestrais indígenas. As técnicas orientais que foram introduzidas mudam o destino econômico e cultural do município, tornando-o rota turística com as aberturas de fornada.
  • 02 de julho de 1993 (Identidade Turística): O Conselho de Desenvolvimento local organiza o 1º Festival de Inverno “Acordes na Serra”. O evento foi um marco porque buscou desenvolver a vocação turística de Cunha, estruturando roteiros e eventos, consolidando a cidade como refúgio de montanha.

Século XXI: Reconhecimento Nacional

  • 1º de junho de 2022 (Capital da Cerâmica): O município, que hoje abriga dezenas de ateliês e atrai milhares de turistas anualmente, recebe oficialmente o título de “Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura”.

Resumo Cronológico:

Referências:
BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020.
CASTRO JUNIOR, Clementino de. Cunha em 1932. São Paulo: Revista dos Tribunaes, 1935.
SHIRLEY, Robert W. O fim de uma tradição: mudança cultural e desenvolvimento no município de Cunha, São Paulo, Brasil. Tradução de João José de Oliveira Veloso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.
VELOSO, João José de Oliveira. A história de Cunha: freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha, SP: Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
VIEIRA DA CUNHA, Mario Wagner. O povoamento do município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, Rio de Janeiro, v. 3, p. 641–649, 1944.
WILLEMS, Emílio. Cunha: tradição e transição em uma cultura rural do Brasil. São Paulo: Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, Diretoria de Publicidade Agrícola, 1947.

Um episódio da história da villa de Cunha

Por volta do anno de 1700, o intenso uso do antigo trilho dos goyanás, entre Paraty e o valle do Parahyba, no caminho das minas geraes, determinou a formação de pousos, onde os tropeiros descansavam e havia milho farto para os animaes.

O ouro, augmentando incrivelmente o tráfego, fez taes acampamentos crescerem de importância, transformando-as em estalagens. E com essas paradas forçadas o commercio fosse rendoso, natural que por ali se fixassem comerciantes desiludidos das minerações, ou lavradores, forçados pela própria natureza, de tendências irreprimivelmente voltada para a agricultura. Porque há indivíduos assim, que nascem com a vida rural no destino.

Entre esses, um Silva Porto acampou em 1724, com a família e mais companheiros, nos logares denominados “Campo Alegre” e “Boa Vista”, à margem da estrada, junto ao ribeiro Lavapés.

Fizeram curral, onde metteram algumas cabeças de gado. Dahi à construcção da egreja, da pequenina capella que é o germen de todas as novas freguesias, foi um instante. Estava esboçado o arraial.

Sommaram-se nove habitantes. Aventureiros que pretendiam alcançar o território das minas e deixavam encantar, convidados pela terra e pelo clima, ficavam. Espalhavam-se pela serra, nas ondulações do solo, entre os milharaes, a canna doce e os verdes campos de pastagens.

Mais tarde uma família portugueza conhecida pelo nome de Falcon, composta de Falcon, mulher, filha, genro e irmão, frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição, fixou-se também ali, numa planície pouco distante, dando mais impulso ao nascente povoado.

Constituíram-se assim três núcleos principaes: “Boa Vista” e “Campo Alegre”, com Silva Porto e seus companheiros; e a família Falcon, no ponto em que hoje se situa a cidade.

Aconteceu então que entre os grupos, e isso era natural, surgiu accesa rivalidade, porque todos três, conhecendo que careciam reunir-se, porquanto a união faz a força, queriam cada qual que seu próprio sítio constituísse o centro da futura villa.

Frei Manuel de Nossa Senhora da Conceição (o qual demonstrava absoluto desinteresse da questão material e cuidava mais da salvação das das almas), argumentando que no alto do ribeirão Lavapés já havia uma egreja, e revelando assim a mais absoluta isenção de partido, transportou para o campo rival a imagem de N. S. da Conceição, de sua particular fé e de milagrosa fama.

Três vezes levou o religioso imagem à capella; três vezes a imagem voltou, no rastro delle, ao núcleo dos Falcon.

Milagre?

Conclusão do artigo da historiadora Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado em 1957, que pôs em xeque a família “Falcon” ou “Falcão” como fundadora de Cunha.

Não foi preciso mais nada. Interpretando o facto como manifestação de divina vontade, foi facil ao frade, insuspeito na questão material, arrebanhar para o seu grupo os moradores das vizinhanças, e com o auxílio delles erigir um templo de grandes proporções, templo que veio a constituir um dos mais importantes monumentos históricos da região.

Em 1747 o arraial foi freguesia. A freguezia foi villa em 1785, com o nome de Villa de Nossa Senhora da Conceição do Cunha.

O mais interessante, porém, é que hoje a cidade e dita simplesmente de “Cunha”. O nome histórico, o que lhe reflecte verdadeiramente a formação, esse ficou por ahi, degastado pelo tempo e inteiramente olvidado pelos homens. Só restou o appendice final, encaixado a martelo, à última hora, pelo governador e capitão general de São Paulo, Francisco da Cunha Meneses, numa deslavada autohomenagem, que atravessou e venceu quase dois séculos.

Mas isso não foi nada, uma vez que a idéa pegou.

E o nome da pitoresca cidade é até um dos mais sympathicos e amáveis para todos os paulistas.

Parte do artigo publicado no Estadão, em abril de 1939, transcrito neste post. Fonte: Acervo Estadão. Interessante notar que não é assinado.

Nota:
Sobre a suposta “família Falcon” e “frei Manuel”, citados neste artigo anônimo, trata-se de personagens contestados pelas pesquisas históricas e genealógicas que se fizeram sobre a origem de Cunha, antigo Facão. Essas personagens e a história miraculosa da santa que mudou de lugar compõem o nosso mito fundador. Para saber mais, leia:
– O artigo “Um documento interessante sôbre Cunha”, da professora do departamento de história da USP Maria Regina da Cunha Rodrigues, publicado na Revista de História, n. 31, 1957.
– O artigo “Cunha e nome Facão”, do professor de história e genealogista Carlos da Silveira, publicado em duas partes na Revista do Arquivo Municipal, vol. LVIII, 1939 e vol. LXIII, 1940.

Cunha está no mapa

Interessante notar que no século XVIII, época em que a exploração do ouro e diamante em Minas Gerais atingiu seu apogeu, surge a necessidade de cartografar o Vale do Paraíba e a região das Minas, que se desmembraria de S. Paulo, em 1720, e daria origem a uma nova capitania. Esses documentos eram elaborados para incentivar e orientar aventureiros e exploradores a chegar na região que atingiu tão grande fama e onde podia-se fazer fortuna. Ou pela Coroa, daí acabavam se tornando secretos.

Boa Vista, pouso entre o mar e o sertão. Obs.: parte recortada do “Mapa das Minas”

Da gana dos paulistas fizeram-se as Entradas e Bandeiras que a História fala. Os limites do território português começam a ser dilatados por gente comum, alheia a interesses metropolitanos. E do Velho Continente e de outras capitanias da Colônia novas levas humanas não paravam de chegar. Há uma explosão demográfica. Falta comida. Vilas, freguesias, pousos e capelas começam a aparecer ao longo das trilhas e caminhos, como postos de fiscalização e controle, como espaços de devoção e como núcleos de povoamento, pois já está em curso a doação de sesmarias, dando início a uma incipiente produção agrícola, cujo destino dos mantimentos será saciar as regiões auríferas.

E é a partir daí que Cunha começa a aparecer nos mapas. Não como Cunha, topônimo adotado após nossa emancipação em 1.785, para homenagear o governador capitão-general Francisco da Cunha e Meneses (1.747 —1812), que nos concedeu a independência política de Guaratinguetá; mas como “Facan”, “Facão”, “Bôca do Sertão”, “Jacuhy”, “Boa Vista” … De sertão desconhecido, palmda apenas por índios, passa a ponto estratégico de controle, pouso obrigatório para aqueles que se embrenhavam pelos rincões desconhecidos da colônia portuguesa em busca da mítica “Sabarabuçu”.

A arte da cartografia chegava, enfim, ao sertão. Se o “Mapa das Minas” é um primor do ponto de vista artístico, peca geograficamente, apresentando uma série de enganos de localização, orientação, direção e tamanho dos elementos geográficos. O equívoco que chama mais atenção é o paralelismo entre as serras do Mar e da Mantiqueira e o sumiço do vale entre elas, que mais parece um desnível intransitável e desabitado, o que é absolutamente falso. Outro detalhe interessante que São Paulo de Piratininga perde a centralidade e ganha destaque as cidades mineiras de Vila Rica, Sabará, Catas Altas, Caeté, Santa Bárbara. É destacada a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), que havia se transformado em cidade porque “a 6 de dezembro de 1745 tornou-se sede do bispado das Minas. E, como os bispos eram equiparados aos nobres, não poderiam residir em vilas”. (HOLANDA; CIVITA, 1972, p. 56).

Mapa das Minas”, de autoria anônima, século XVIII (?), em sua totalidade, destacando a região mineira. Fonte: Museu Paulista.

Diz o incontestável historiador Sérgio B. de HOLANDA (1972, p. 56): “Êste mapa, de autor desconhecido, embora sendo uma carta bem cuidado artisticamente, apresenta uma série de enganos, como a distância entre as vilas e a localização delas em relação aos acidentes geográficos.” Mas justiça seja feita, há algumas precisões. No referido mapa, a capela da Boa Vista aparece no paralelo 23º e a sua latitude atual é: 23° 7’15.50″S. A localização não estava tão errada assim, dava para os navegadores, que precisavam atracar no porto de Paraty, e aventureiros que quisessem embrenhar-se terem certa noção para que lado ficava. A partir da Boa Vista daí realmente o documento cartográfico virava elemento imaginário, afinal há um Vale do Paraíba inteiro separando a serra da Mantiqueira da serra da Paranapiacaba (Serra do Mar), que precisava ser atravessado pelos forasteiros. As serras não são paralelas e nem grudadas. Erro proposital ou por desconhecimento? Nunca se sabe. Muitos desses mapas eram elaborados a partir de relatos e não havia como corrigir, seja porque o cartógrafo estava distante demais do lugar representado ou porque não dispunha de instrumentos para tal empreitada.

Deixando de lado as questões cartográficas, não se pode negar a sua importância histórica, sobretudo para Cunha e para se rechaçar a ideia de que nossa cidade foi fundada em 20 de abril de 1.858. Penso se tratar de uma fonte cartográfica, que vem elucidar o surgimento de tantas freguesias e vilas, corroborando a tese de que o município de Cunha começou na Boa Vista. Foi ali o núcleo fundador, o estabelecimento da primeira família com objetivo de povoamento. Embora o professor João Veloso em seu livro demonstre que nos fins do século XVII já havia sesmarias doadas no bairro da Catioca, esse bairro rural era mais ligado à então vila de Taubaté, principal núcleo urbano do Vale do Paraíba na época e que se interligava ao Facão (Cunha) por meio de um antigo caminho.

 A Boa Vista costuma aparecer nos mapas do século XVIII. Até mais que a freguesia do Facão, que viria a se tornar em Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha em 15 de setembro de 1785, ou seja, já no final do século e após ebriosa febre do ouro ter virado ressaca. A capela da Boa Vista resistiu ao tempo e aos declínios dos ciclos econômicos, sendo ponto importante de reunião religiosa até nossos dias.

Capela de São José da Boa Vista, já na construção de alvenaria que substituiu a antiga capelinha de taipa original. Em 1965, esta construção foi substituída pela atual, mais ampla e com torre. Data: década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Não tem como negar a importância histórica da construção da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1724. Essa capelinha, que nem existe mais, foi muito mais que um oratório de fazenda, batizados e casamentos aconteciam ali com frequência (VELOSO, 2010). Boa Vista é o berço de Cunha. Muitas famílias de Cunha têm algum grau de parentesco ou relação com a família Silva Porto. Portanto, nada mais justo e correto do ponto de vista histórico Cunha celebrar o seu aniversário em 19 de março de 1.724. Ali, mais que qualquer outro lugar do município, foi onde tudo começou. Não é à toa que Cunha apareceu no mapa como Boa Vista.

Referências:

BUENO, B. P. S. Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532-1822). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material [online]. 2009, v. 17, n. 2, pp. 251-294. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-47142009000200013&gt;. Acesso em: 1 jun. 2021.

HOLANDA, S. B. de; CIVITA, V. (Org.). Grandes Personagens da Nossa História: Mapas Históricos Brasileiros. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

MAPA das Minas de Ouro em São Paulo e Costas do Mar Que Lhe Pertence, Coleção do Museu Paulista, [17–?].

VELOSO, J. J. de O. História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Para acessar o mapa em resolução melhor: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/Mapa_das_Minas_de_Ouro_em_S%C3%A3o_Paulo_e_Costas_do_Mar_que_Lhe_Pertence_-_1%2C_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg