Cunha está no mapa

Interessante notar que no século XVIII, época em que a exploração do ouro e diamante em Minas Gerais atingiu seu apogeu, surge a necessidade de cartografar o Vale do Paraíba e a região das Minas, que se desmembraria de S. Paulo, em 1720, e daria origem a uma nova capitania. Esses documentos eram elaborados para incentivar e orientar aventureiros e exploradores a chegar na região que atingiu tão grande fama e onde podia-se fazer fortuna. Ou pela Coroa, daí acabavam se tornando secretos.

Boa Vista, pouso entre o mar e o sertão. Obs.: parte recortada do “Mapa das Minas”

Da gana dos paulistas fizeram-se as Entradas e Bandeiras que a História fala. Os limites do território português começam a ser dilatados por gente comum, alheia a interesses metropolitanos. E do Velho Continente e de outras capitanias da Colônia novas levas humanas não paravam de chegar. Há uma explosão demográfica. Falta comida. Vilas, freguesias, pousos e capelas começam a aparecer ao longo das trilhas e caminhos, como postos de fiscalização e controle, como espaços de devoção e como núcleos de povoamento, pois já está em curso a doação de sesmarias, dando início a uma incipiente produção agrícola, cujo destino dos mantimentos será saciar as regiões auríferas.

E é a partir daí que Cunha começa a aparecer nos mapas. Não como Cunha, topônimo adotado após nossa emancipação em 1.785, para homenagear o governador capitão-general Francisco da Cunha e Meneses (1.747 —1812), que nos concedeu a independência política de Guaratinguetá; mas como “Facan”, “Facão”, “Bôca do Sertão”, “Jacuhy”, “Boa Vista” … De sertão desconhecido, palmda apenas por índios, passa a ponto estratégico de controle, pouso obrigatório para aqueles que se embrenhavam pelos rincões desconhecidos da colônia portuguesa em busca da mítica “Sabarabuçu”.

A arte da cartografia chegava, enfim, ao sertão. Se o “Mapa das Minas” é um primor do ponto de vista artístico, peca geograficamente, apresentando uma série de enganos de localização, orientação, direção e tamanho dos elementos geográficos. O equívoco que chama mais atenção é o paralelismo entre as serras do Mar e da Mantiqueira e o sumiço do vale entre elas, que mais parece um desnível intransitável e desabitado, o que é absolutamente falso. Outro detalhe interessante que São Paulo de Piratininga perde a centralidade e ganha destaque as cidades mineiras de Vila Rica, Sabará, Catas Altas, Caeté, Santa Bárbara. É destacada a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), que havia se transformado em cidade porque “a 6 de dezembro de 1745 tornou-se sede do bispado das Minas. E, como os bispos eram equiparados aos nobres, não poderiam residir em vilas”. (HOLANDA; CIVITA, 1972, p. 56).

Mapa das Minas”, de autoria anônima, século XVIII (?), em sua totalidade, destacando a região mineira. Fonte: Museu Paulista.

Diz o incontestável historiador Sérgio B. de HOLANDA (1972, p. 56): “Êste mapa, de autor desconhecido, embora sendo uma carta bem cuidado artisticamente, apresenta uma série de enganos, como a distância entre as vilas e a localização delas em relação aos acidentes geográficos.” Mas justiça seja feita, há algumas precisões. No referido mapa, a capela da Boa Vista aparece no paralelo 23º e a sua latitude atual é: 23° 7’15.50″S. A localização não estava tão errada assim, dava para os navegadores, que precisavam atracar no porto de Paraty, e aventureiros que quisessem embrenhar-se terem certa noção para que lado ficava. A partir da Boa Vista daí realmente o documento cartográfico virava elemento imaginário, afinal há um Vale do Paraíba inteiro separando a serra da Mantiqueira da serra da Paranapiacaba (Serra do Mar), que precisava ser atravessado pelos forasteiros. As serras não são paralelas e nem grudadas. Erro proposital ou por desconhecimento? Nunca se sabe. Muitos desses mapas eram elaborados a partir de relatos e não havia como corrigir, seja porque o cartógrafo estava distante demais do lugar representado ou porque não dispunha de instrumentos para tal empreitada.

Deixando de lado as questões cartográficas, não se pode negar a sua importância histórica, sobretudo para Cunha e para se rechaçar a ideia de que nossa cidade foi fundada em 20 de abril de 1.858. Penso se tratar de uma fonte cartográfica, que vem elucidar o surgimento de tantas freguesias e vilas, corroborando a tese de que o município de Cunha começou na Boa Vista. Foi ali o núcleo fundador, o estabelecimento da primeira família com objetivo de povoamento. Embora o professor João Veloso em seu livro demonstre que nos fins do século XVII já havia sesmarias doadas no bairro da Catioca, esse bairro rural era mais ligado à então vila de Taubaté, principal núcleo urbano do Vale do Paraíba na época e que se interligava ao Facão (Cunha) por meio de um antigo caminho.

 A Boa Vista costuma aparecer nos mapas do século XVIII. Até mais que a freguesia do Facão, que viria a se tornar em Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha em 15 de setembro de 1785, ou seja, já no final do século e após ebriosa febre do ouro ter virado ressaca. A capela da Boa Vista resistiu ao tempo e aos declínios dos ciclos econômicos, sendo ponto importante de reunião religiosa até nossos dias.

Capela de São José da Boa Vista, já na construção de alvenaria que substituiu a antiga capelinha de taipa original. Em 1965, esta construção foi substituída pela atual, mais ampla e com torre. Data: década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Não tem como negar a importância histórica da construção da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1724. Essa capelinha, que nem existe mais, foi muito mais que um oratório de fazenda, batizados e casamentos aconteciam ali com frequência (VELOSO, 2010). Boa Vista é o berço de Cunha. Muitas famílias de Cunha têm algum grau de parentesco ou relação com a família Silva Porto. Portanto, nada mais justo e correto do ponto de vista histórico Cunha celebrar o seu aniversário em 19 de março de 1.724. Ali, mais que qualquer outro lugar do município, foi onde tudo começou. Não é à toa que Cunha apareceu no mapa como Boa Vista.

Referências:

BUENO, B. P. S. Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532-1822). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material [online]. 2009, v. 17, n. 2, pp. 251-294. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-47142009000200013&gt;. Acesso em: 1 jun. 2021.

HOLANDA, S. B. de; CIVITA, V. (Org.). Grandes Personagens da Nossa História: Mapas Históricos Brasileiros. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

MAPA das Minas de Ouro em São Paulo e Costas do Mar Que Lhe Pertence, Coleção do Museu Paulista, [17–?].

VELOSO, J. J. de O. História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Para acessar o mapa em resolução melhor: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/Mapa_das_Minas_de_Ouro_em_S%C3%A3o_Paulo_e_Costas_do_Mar_que_Lhe_Pertence_-_1%2C_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg

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