Pedra do Espelho – Ubatuba – SP

Pedra do Espelho. Foto: Carvalho Pinto / Facebook.

Apesar de deslumbrante, a Pedra do Espelho não é o ponto culminante de Ubatuba. E não fica na divisa com Cunha. A Pedra está totalmente dentro do território de Ubatuba, embora quase em cima do limite com Paraty (RJ). A Pedra, devido à sua altitude, pode ser vista de alguns bairros rurais do sul do município de Cunha. E foram os cunhenses que a batizaram. Devido às chuvas orográficas constantes nas escarpas da Serra do Mar, uma tênue camada de água está sempre deslizando pelo paredão granítico. Nessas condições, quando há incidência dos raios soladores contra o paredão, tem-se um brilho intenso.

Pedra do Espelho vista do bairro da Lagoa, sul do município de Cunha. Foto: Gustavo Monteiro/Facebook.

As escarpas da Serra do Mar, geomorfologia presente no território ubatubense, favorecem a formação de paredões de granitos ou gnaisse. De acordo com o mapeamento do Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de S. Paulo (IGC), o paredão rochoso é de 245 metros. A Pedra está situada nas cabeceiras do Rio Verde, afluente do Rio Puruba. É duplamente protegida, pois fica dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB) e dentro do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), já que ambas as unidades de conservação se sobrepõem uma à outra (coisas do Brasil…). E a Pedra está dentro dessa sobreposição. Melhor para ela e para os bichos da vizinhança.

Carta topográfica do IGC (escala 1: 10.000) sobreposta a imagem de satélite, mostrando a altitude da Pedra. Fonte: IGC e Emplasa.

A altitude da Pedra do Espelho varia conforme o meio ou documento de referência. Isso é muito comum. É sabido que a aferição de altitude de antigamente não era lá muito precisa. Desse modo, a Pedra tem: 1.500 metros (IBGE); 1.521 metros (IGC); 1.490 metros (Google Maps); 1.504 metros (GPS de baixa precisão).

A beleza cênica da Pedra. Foto: Divanei Goes de Paula.

O ponto culminante de Ubatuba não é o Pico do Corcovado, famosinho e não menos bonito, pois esse tem 1.181 ou 1.168 metros de altitude, dependendo da fonte de referência. De acordo com as cartas topográficas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do IGC, com escalas 1:50.000 e 1:10.000, respectivamente, o ponto de maior altitude de Ubatuba é o Pico do Alto Grande, na divisa com Paraty, e bem próximo à tríplice fronteira (Cunha-Paraty-Ubatuba), que se dá no Alto da Fruta Branca. A aferição da altitude também varia de documento para documento. O Pico do Alto Grande obtém as seguintes altitudes: 1.670 metros (IBGE); 1.678 metros (IGC); 1.640 metros (Google Maps); 1.662 metros (GPS de baixa precisão).

Parte da carta do IGC, escala 1:10.000, mostrando a localização e a altitude do Pico do Alto Grande, na divisa entre Ubatuba (SP) e Paraty (RJ). Fonte: DataGEO.

O Pico do Alto Grande está localizado na fazenda da Sesmaria Nova, outrora posse de gente cunhense, embora já dentro do território ubatubense. O desmatamento e a ocupação por capões de pastagem não deixam dúvidas quanto a isso. Ainda que o Pico esteja dentro de duas unidades de conservação de proteção integral também (PESM e PNSB). É cabeceira do Rio da Cachoeira, formador do Rio Puruba, nos contrafortes da Serra do Cabloco Iaçá.

Pedra do Espelho em outro ângulo. Foto: Página “Pedro do Espelho” / Facebook.

A riqueza florística da Pedra do Espelho, vegetação campestre devido à altitude, encanta. Mas é o mirante para o mar que atrai, uma janela para o que restou da Mata Atlântica, já na última pontinha da terra paulista. O platô, que precede o precipício, favorece a instalação de barracas. O visual das escarpas, do mar, da planície, de Ubatuba e Paraty é de tirar o fôlego. Vale a caminhada. Expedições para o lugar não são raras. O acesso por Cunha é o mais recomendado, por Paraty é possível e por Ubatuba é impensável. Os guias do PESM (Núcleo de Cunha) e mateiros conhecem o caminho da Pedra. Não se recomenda a trilha a iniciantes, desavisados ou outros que desconhecem as redondezas. Ademais, a Pedra está dentro de duas unidades de conservação de proteção integral. É lícito pedir autorização. Mais que isso: prudente.

Visual das escarpas da Serra do Mar e do Atlântico, captado da Pedra do Espelho. Foto: Página “Pedro do Espelho” / Facebook.

Mais informações:

1) Coordenadas Geográficas (Google Maps):

Pedra do Espelho: 23°14’37.6″S; 44°52’46.0″W

Pico do Alto Grande: 23°13’11.3″S; 44°53’11.9″W

2) Vídeos da Pedra:

a) https://youtu.be/Rrk2mFVWVWU

b) https://youtu.be/2K3Rgi8u8LU

3) Excelente reportagem sobre o lugar, por Divanei Goes de Paula:

https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report

Referências:

Artigo “Pedra do Espelho”, na Wikimapia. Link: http://wikimapia.org/39673667/pt/Pedra-do-Espelho

Cartas topográficas do IBGE e IGC, acessadas pelo SIG on-line DATAGEO (Secretaria do Meio Ambiente). Link: https://datageo.ambiente.sp.gov.br/app/#

Divanei Goes de Paula. Travessia Alto Grande X Espelho – Cume da Serra do Mar – SP (setembro, 2019). Link: https://aventurebox.com/divanei/travessia-alto-grande-x-espelho-cume-da-serra-do-mar-sp/report

Google Maps. Link: https://www.google.com.br/maps/@-23.2200339,-44.8874361,15z/data=!5m1!1e4

Pedra do Espelho (página do Facebook). Link: https://www.facebook.com/trekkinghard/

Secretaria do Meio Ambiente – Parque Estadual da Serra do Mar. “Trilha Pico do Corcovado”. Link: https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/pesm/atividade/trilha-pico-do-corcovado-2/

Mata Atlântica está se regenerando no município de Cunha

Rio Paraibuna cortando o Parque Estadual da Serra Mar – Núcleo de Cunha. Foto: Instituto Florestal.

Segundo os levantamentos feitos pelo Instituto Florestal do estado de São Paulo, as áreas nativas de Mata Atlântica no município de Cunha vêm aumentando nas últimas décadas. Em 2005, Cunha contava com 35.048 hectares de vegetação nativa, ou seja, 26,3% do seu território (IF, 2005). Atualmente (IF, 2020), Cunha conta com 48.598 hectares de cobertura vegetal nativa, o que corresponde a 34,5% do seu território. Um aumento de quase 10% nos últimos 15 anos, com 13,5 mil hectares regenerados, o que corresponde a cerca de 19 mil campos de futebol. Um aumento significativo, já que não houve nesse período nenhum programa municipal, estadual ou federal que incentivasse o reflorestamento com mata nativa. Muito mais poderia ter sido feito e recuperado, se houvesse. Já passou da hora do município ter uma unidade de conservação própria. Quem sabe na nascente do rio Jacuí ou mesmo na do rio Paraibuna…

Evolução do uso e ocupação do solo no município de Cunha ao longo de 20 anos.

Nas imagens observadas, o fato mais visível é o avanço das plantações de eucalipto (silvicultura), sobretudo no bairro da Várzea do Tanque. Mas isso é uma análise superficial. Análises espaciais a partir de sensoriamento remoto, utilizando softwares e métodos científicos, indicam que a cobertura vegetal do bioma original está em franca recuperação.

Situação do uso e ocupação do solo no município de Cunha nos últimos anos.

O município de Cunha possui mais um terço de seu território coberto por matas nativas é um valor bastante significativo no contexto estadual, sobretudo pelo fato do município já ter mais de 300 anos de colonização. Ainda mais porque desde a década de 1940 desenvolveu uma pecuária (leiteira e de corte) extensiva, rudimentar, muito danosa aos solos e à biodiversidade, com o plantio em larga escala de uma praga biológica chamada braquiária.

O motivo do aumento está relacionado muito mais às mudanças econômicas vivenciadas por Cunha nas últimas quatro décadas do que uma suposta tomada de “consciência ambiental” por parte de seus habitantes. Pode-se apontar alguns fatores que contribuíram para o aumento das áreas de mata nativas:

  • A criação de duas unidades de conservação abrangendo parte do território do município na década de 1970;
  • O aumento da fiscalização por parte da Polícia Militar Ambiental e dos demais órgãos controladores e fiscalizadores;
  • Êxodo rural e diminuição progressiva da população rural cunhense ao longo do século XX e início do século XXI;
  • Avanço no desenvolvimento turístico do município e valorização da paisagem como objeto de consumo, fomentando o turismo rural e ecoturismo, atividades em que as coberturas florestais apreciadas e objetos de atração;
  • Aumento dos sítios de veraneios, condomínios rurais e pousadas, cujo proprietários são pessoas de “fora”, que não dependem da agropecuária (setor primário) para custeio e sobrevivência, portanto podem deixar as pastagens se regenerar em matagais. Há uma refuncionalização, convertendo áreas agrícolas em áreas de lazer e turismo (setor terciário).

Entre outras coisas, vale ressaltar que: “Entre as décadas de 1960 e 1980, a atividade agropecuária no Vale do Paraíba diminuiu 13%, o que contribuiu para a estagnação dos índices de desmatamento na região. Desde então, a Mata Atlântica iniciou um processo espontâneo de regeneração. Muitas terras abandonadas se converteram em pequenos bosques de vegetação secundária, resultando em um aumento da cobertura florestal” (ANDRADE, 2017, p. 38). Entretanto, segundo estudos de SILVA (2016), não é uma regeneração zonal, mas por capões de matas, em áreas onde a pastagem e a lavoura foram abandonadas pelos proprietários. Esse tipo de regeneração aponta para a necessidade de se criar um corredor ecológico para que possa conectar essas manchas de matas secundárias, para que a recuperação possa ser mais efetiva, sobretudo para a fauna originária, sempre ameaçada por caçadores, pela destruição do seu habitat e pela falta de alimentos.

Vale lembrar que Cunha possui 2 unidades de conservação com áreas dentro do seu território: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleos: Cunha e Santa Virgínia) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. Essas duas unidades de conservação são responsáveis por garantir a preservação de 8% do território municipal. Cunha é também onde nasce o rio Paraibuna e onde se forma o rio Paraitinga, formadores do rio Paraíba do Sul, maior curso d’água localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas do país: São Paulo e Rio de Janeiro.

Referências:

ANDRADE, R. de O. Floresta revigorada. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 259, p. 36-39, set. 2017.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Instituto Florestal (IF). Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Instituto Florestal (IF). Resultados do Mapeamento Temático da Cobertura Vegetal Nativa do Estado de São Paulo: Inventário Florestal do Estado de São Paulo – 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2020/07/tabela-municipio-inventario-florestal-if-2020.pdf >. Acesso em 5 jun. 2021.

SILVA, R. F. B. et al. Land changes fostering Atlantic Forest transition in Brazil: Evidence from the Paraíba Valley. The Professional Geographer. 2016.

Animação com as imagens de satélite do município de Cunha: https://www.facebook.com/Jacuhy/videos/276074534204469

Fonte das imagens de satélite: Google Earth.

10 curiosidades sobre Cunha

Cunha: Cidades das Serras

1 – Seu antigo nome era “Facão”. Somente em 1.785, com a independência política-administrativa, passando a ser então um município, é que denominar-se “Villa de Nossa Senhora da Conceição de Cunha”, uma homenagem a Francisco da Cunha e Meneses, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo de 1.782 a 1.786, responsável pela outorga de sua elevação à condição de vila. A ereção da capela de Jesus, Maria e José, no bairro da Boa Vista, no ano de 1.724, é considerado o evento fundador.

2 – Possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba e é uma das maiores bacias leiteiras do estado. Por isso é tão comum encontrar deliciosos queijos artesanais pelas roças de Cunha. No passado foi grande produtora de toucinho, milho e fumo: produtos agrícolas que abasteciam a zona cafeeira do Vale do Paraíba. O turismo é atividade econômica recente, desenvolvida nas últimas décadas, impulsionada pela pavimentação da Estrada-Parque Paraty-Cunha. Seu passado econômico sempre esteve ligado à agricultura familiar e de subsistência e ao tropeirismo, já que era pouso obrigatório entre o sertão e o litoral. Era uma espécie de “celeiro do Vale”.

 3 – No passado, antes da chegada dos colonizadores portugueses, o planalto cunhense era povoado pelos índios Guaianás. Esse povo originário abriu vários caminhos ligando o planalto até a costa atlântica. Andejos, exímios caçadores e coletores, esse povo autóctone era nômade e migravam sazonalmente: no verão viviam na serra; no inverno desciam para beira do mar. Pessoas ligeiras no esgueirar-se pelas matas densas, de baixa estatura, falavam uma língua do tronco Macro-Jê.

 4 – É a Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, segundo projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, já em fase de aprovação. Isso se deve ao fato de Cunha receber, desde a década de 1.970, inúmeros ceramistas que utilizavam a queima de suas peças no forno Noborigama. De lá para cá, muitos outros artistas se instalaram em Cunha, produzindo peças reconhecidas nacionalmente, e transformando a cidade no maior polo de cerâmica de autor da América do Sul. Antes da chegada dos artistas-ceramistas, havia em Cunha as “paneleiras”: ceramistas, geralmente mulheres, que produziam peças utilitárias, para ser utilizado no dia a dia da vida caipira. Os vasilhames eram confeccionados através de técnicas ancestrais, de origem indígena.

5 – Cunha possui os maiores campos de lavandas do estado de São Paulo e os mais famosos do Brasil, fato que motivou a imprensa especializada em turismo em chamá-la de “a Provence paulista”. Um tanto exagerado o epíteto, tendo em vista que o município possui apenas dois campos de lavandas: o Lavandário e o Contemplário. São belos e dão um certo ar de paisagem incomum (pelo menos nos trópicos), mas não se comparam ao que há na França. Cunha possuía há alguns anos uma enorme frota de fusca, que chamava a atenção dos turistas e viajantes que passavam pela cidade. Seria Cunha a “capital do Fusca” também? Inúmeras reportagens sobre a relação do cunhense com esse carro, tão adequado às condições das estradas rurais do município, foram feitas. Até uma festa para celebrar o mais famoso auto da Volkswagen foi organizada: a “FusCunha”. Virou matéria no “Me leva Brasil”, quadro da revista eletrônica “Fantástico”, da TV Globo.

6 – Em 1.932 o município foi palco dos combates entre federais e paulistas, durante a Revolução Constitucionalista. A “Batalha de Cunha”, travada no estilo da Primeira Grande Guerra e com o auxílio da aviação, foi uma das maiores batalhas daquela guerra civil e uma das poucas em que as tropas paulistas venceram. Paulo Virgínio, trabalhador rural do bairro do Taboão, foi capturado, torturado e morto pelas tropas federais, que apoiavam manutenção no poder do ditador Getúlio Vargas. Por não ter revelado os caminhos que levavam às trincheiras paulistas – nem mesmo sob tortura – foi considerado herói e mártir da causa paulista e constitucionalista.

7 – É a maior produtora de pinhão de São Paulo. Isso só é possível porque o território cunhense é salpicado por araucárias (pinheiro brasileiro). Os produtores rurais aproveitam para catar e comercializar os pinhões que caem no outono, e, assim, ter uma renda extra com o extrativismo vegetal. A Festa do Pinhão, atualmente o maior evento turístico de Cunha, conta com feira de comidas típicas à base de pinhão, além de shows e atrações outras. As araucárias são nativas em Cunha, pois mesmo sendo típicas de climas frios e subtropicais, encontraram na Mata Atlântica das altas montanhas um refúgio ecológico propício para sua espécie.

 8 – Possui mais de 250 bairros rurais e seu território está cercado por três serras: do Mar, da Bocaina e da Quebra-Cangalha. O relevo é tipicamente montanhoso, área exemplar da paisagem de “mares de morros”. A associação de montanhas, rios e seixos dá origem há inúmeras cachoeiras, variando de tamanho e beleza. O clima é tropical de altitude, com ocorrência de geadas no inverno, mas muito úmido nas áreas mais altas, próximas à Serra do Mar, devido à ocorrência de garoas. Devido à salubridade do seu clima ameno, um sanativo para os tuberculosos e para os acometidos de outras moléstias respiratórias, fez o Governo Estadual transformar Cunha em uma Estância Climática em 1.948.

9 – Em seu território há duas unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo de Cunha) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. O rio Paraibuna nasce no município e o rio Paraitinga nele se encorpa. Ambos são os formadores do rio Paraíba do Sul, o curso d’água mais estratégico do país, por estar localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Possui várias fontes hidrominerais inexploradas, que brotam do seio do aquífero Cristalino, com destaque para as fontes do complexo das Águas Virtuosas de Santa Rosa, uma das melhores do mundo e a única explorada comercialmente até o momento.

10 – É o maior município do Vale do Paraíba em extensão territorial e o 11º do estado de São Paulo. Sua população está estagnada em torno de 20 mil habitantes há mais de um século, devido às perdas migratórias por razões econômicas e ao êxodo rural. Cunha é um dos berços e redutos da autêntica cultura caipira (paulista), que se manifesta no modo do povo falar, no jeito de andar e se vestir, no modo de ser e viver, nas construções, nas tradições religiosas seculares, nas danças (congada, jongo, são-gonçalo, moçambique, catira etc.), folias (de Reis e do Divino) e cantigas de viola, na culinária, com uma variedade deliciosa de doces e pratos salgados, que alimentam a alma e o espírito. Conhecer Cunha, já diziam os antigos cientistas sociais que estudaram o lugar, é mais que uma viagem no espaço; é uma viagem no tempo! Uma possibilidade de reencontro consigo mesmo e com a paz perdida na confusão da “civilização urbana”.

Remanescentes de Mata Atlântica em Cunha

Após três séculos de colonização e ocupação no município de Cunha, o mapa representa as áreas florestais e de campos de altitude que sobraram. Excluindo as áreas de proteção integral do Parque Estadual da Serra do Mar e do Parque Nacional da Serra da Bocaina, percebe-se que muito pouco restou. A agricultura rudimentar e a pecuária extensiva, atividades econômicas históricas de nosso município, foram as responsáveis pelo desmatamento e degradação do lugar chamado “berço das águas”, devido ao grande número de nascentes. A boa notícia é que na última década a Mata Atlântica mostrou recuperação, aumentando a área florestada do município. Consciência ambiental ou refuncionalização das propriedades rurais de Cunha, que estão deixando ser agrícolas?

Certamente a refuncionalização das propriedades rurais, seja pelo turismo em ascensão ou pelo aumento das casas de veraneio de “gente de fora”, tem um impacto considerável nessa boa notícia. A recuperação florestal ocorre em virtude desse novo caráter nas propriedades rurais de Cunha, pois na agropecuária o valor do terreno está na capacidade produtiva, o que acarreta na retirada da mata para formação de pastagem ou para aragem do solo. Já para os veranistas, o valor do terreno está na beleza paisagística ou ainda na quantidade de nascentes que possui. Descarto a ideia de que as “pessoas de fora” tenham mais consciência ecológica do que as pessoas da roça de Cunha, pois a relação com terra se dá de forma desigual, impossibilitando qualquer conclusão. Enquanto para o veranista paulistano ou de outra cidade grande o terreno é usado apenas um local de descanso e lazer, para o caipira cunhense é meio de subsistência, lugar de trabalho, onde retira o seu sustento e de sua família, daí muitas vezes a necessidade da exploração intensiva do terreno íngreme e do solo pouco fértil. Outras diferenças sociais, como grau de instrução, seguramente ajudam a entender sujeitos de “mundos” distintos e as relações que estabelecem com o meio ambiente.

A fiscalização feita pela Polícia Militar Ambiental está mais intensiva na região nos últimos anos. Mas como ela é muito pontual, sozinha não ajuda a entender o fenômeno, embora tenha lá a sua contribuição para diminuição do desmatamento.

Outras conclusões do Inventário Florestal:

  • O município com maior área (dentro da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul paulista) de vegetação remanescente é Cunha com 35.048 ha., correspondendo a 26,3% de sua superfície;
  • Constata-se que a vegetação remanescente está dividida em 2.723 fragmentos, sendo 2.122, com área de até 10 ha.; 350, com 10-20 ha.; 171, com 20-50 há.; 53, com 50-100 há.; 20, com 100-200 há. e 7 fragmentos com área superior a 200 ha.;
  • No município de Cunha também existem expressivas áreas protegidas por Unidades de Conservação – 11.041ha. (8,3%).

Assim, verifica-se a importância da preservação privada, aquela feita por cada proprietário de terra, na conjuntura municipal. Isso, por conseguinte, gera áreas preservadas fragmentadas e aponta para necessidade da criação de corredores ecológicos, a fim de que os pontilhados verdes possam ser conectados e a restituição do ecossistema original possa ser mais efetiva

Fontes:

  1. Folha Vitória. O papel das reservas particulares na proteção da Mata Atlântica. Disponível em: <https://www.folhavitoria.com.br/geral/noticia/09/2019/o-papel-das-reservas-particulares-na-protecao-da-biodiversidade-da-mata-atlantica&gt;.
  2. G1 – São Paulo. Mapeamento mostra que tem mais Mata Atlântica em SP que se pensava. Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/06/mapeamento-mostra-que-tem-mais-mata-atlantica-em-sp-que-se-pensava.html>
  3. SÃO PAULO / INSTITUTO FLORESTAL. Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente / Instituto Florestal: Imprensa Oficial, 2005.
  4. SILVA, R. F. B. et al. Land changes fostering Atlantic Forest transition in Brazil: Evidence from the Paraíba Valley. The Professional Geographer. 2016.
  5. SILVA, Ramon B. F. da. Floresta revigorada. Pesquisa Fapesp, n. 259, set. 2017. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/2017/09/22/floresta-revigorada/&gt;.