Rua Dom Lino

Rua Dom Lino, ontem (década de 1940) e hoje (2020). Fotos: Museu Francisco Veloso e Jacuhy.

A Rua Dom Lino é uma das nossas ruas centrais. Foi assim nomeada em 22 de setembro de 1.877, pela Câmara de Cunha, por ocasião da visita do Rev.mo Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo, pois o religioso ficou hospedado na Casa Paroquial, na mesma rua. O pároco de Cunha na época era o Cônego Antônio Gomes Siqueira, que, posteriormente, também emprestaria seu nome para batizar uma de nossas praças. O cônego foi uma figura importante no âmbito local, tanto no campo religioso quanto no político. Membro destacado e líder do Partido Liberal, quando ainda reinava D. Pedro II.

Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo. Imagem: Página Brazil Imperial (Facebook).

A visita do bispo durou quase 3 semanas e nesse ínterim, que V.Rev.ª contou com afamada hospitalidade cunhense, teve tempo para visitar todas as igrejas da cidade, a Capela da Boa Vista (nosso marco fundador), a vizinha Lagoinha, o distrito de Campos de Cunha, as Águas de Santa Rosa e a Fazenda Pedra Branca.

O bispo diocesano deixou a cidade em 10 de outubro, sendo acompanhado por um préstito de dezenas cavaleiros até a primeira légua do caminho. Levou, além da boa impressão dos cunhenses, uma caridosa quantia angariada pela Câmara, destinada a amenizar o flagelo da seca que castigava o Ceará, sua terra natal.

Era a Câmara de Cunha composta pelos seguintes membros, em 1.877:
– João Carlos Freire;
– Francisco Mendes Mendonça (alferes);
– Antônio Moreira da Silva Querido;
– Manoel Albino dos Santos Queiroz;
– Manoel Rodrigues da Silva;
– Antônio José Vieira (professor);
– Antônio Xavier Freire (presidente e juiz municipal).

Interessante é que o registro fotográfico mais antigo que se tem de Cunha foi feito na Dom Lino. Ele aparece no livro “A História de Cunha (1600-2010)”, do professor João Veloso, datado como de 1.868. Aliás, nesse ano, a Dom Lino ainda era chamada de Rua da Lapa. Na fotografia, de qualidade compatível com a época, aparece a torre da antiga Capela da Lapa, demolida em 1.907, e, ao fundo, o sobrado do Paço Municipal, incendiado e demolido em 1.961.

Rua da Lapa na fotografia mais antiga que se tem de Cunha. Data: 1.868. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Pessoas, vestidas à moda do tempo, posam para a máquina de fotografia. Grande novidade era essa máquina que capturava momentos! Rua movimentada, Cunha vivia os seus últimos dias de glória. Dessa velha Cunha e desse áureo tempo quase nada restou além dessa fotografia.

Segundo pesquisa de Diogo F. Borsoi (“A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX”, 2020), publicada pelo Museu Paulista, na Rua da Lapa “predominavam casas habitadas por proprietários que as utilizavam apenas quando iam à vila. Havia também oito imóveis destinados à renda de aluguel na vila (…)”. Era a rua onde ficavam as casas dos maiores fazendeiros de Cunha, que só apareciam na cidade por ocasião das festas religiosas, permanecendo esses imóveis fechados boa parte do ano.

Um desses fazendeiros da rua era o coronel Antônio José de Macedo Sampaio, vulgo “Coronel Macedo”. Ele e sua esposa, Maria Francisca de Novaes Fonseca, católicos devotos, eram os zeladores e mantenedores da Capela da Lapa. Sempre estavam à frente da Festa de Nossa Senhora da Lapa, comemorada em 15 de agosto. Tinham casa em frente à capela, na esquina da atual Travessa Paulo Virgínio, onde hoje é o restaurante “Il Pumo” e o “Armazém Arte & Sabores”. Consumiram parte de sua riqueza na conservação e ornamentação dessa capela, chegando a deixar espólios em dinheiro, em seus respectivos testamentos, para a conservação da capela; que, infelizmente, não foram suficientes para mantê-la de pé até nossos dias.

Rua Dom Lino, em 1.978. Foto: Eurindo Braga Perez. Fonte: Página Parada do Tempo (Facebook).

Sobre as ruínas da Capela da Lapa foi erguido o Mercado Municipal, em 1.913. O povo de Cunha, religioso, não viu com bons olhos essa profana troca. Por isso, por muitas décadas, o Mercado, tão lotado em outras cidades, em Cunha virou um espaço anecúmeno, perdendo até mesmo sua função.

Fontes:
“A História de Cunha”, João Veloso;
“O Cunhense” (jornal) – 1.878;
Arquivos do Museu Francisco Veloso;
“A paisagem das trocas”, Diogo Borsoi;
“Negro Político, Político Negro”, Oracy Nogueira.

Cunha está no mapa

Interessante notar que no século XVIII, época em que a exploração do ouro e diamante em Minas Gerais atingiu seu apogeu, surge a necessidade de cartografar o Vale do Paraíba e a região das Minas, que se desmembraria de S. Paulo, em 1720, e daria origem a uma nova capitania. Esses documentos eram elaborados para incentivar e orientar aventureiros e exploradores a chegar na região que atingiu tão grande fama e onde podia-se fazer fortuna. Ou pela Coroa, daí acabavam se tornando secretos.

Boa Vista, pouso entre o mar e o sertão. Obs.: parte recortada do “Mapa das Minas”

Da gana dos paulistas fizeram-se as Entradas e Bandeiras que a História fala. Os limites do território português começam a ser dilatados por gente comum, alheia a interesses metropolitanos. E do Velho Continente e de outras capitanias da Colônia novas levas humanas não paravam de chegar. Há uma explosão demográfica. Falta comida. Vilas, freguesias, pousos e capelas começam a aparecer ao longo das trilhas e caminhos, como postos de fiscalização e controle, como espaços de devoção e como núcleos de povoamento, pois já está em curso a doação de sesmarias, dando início a uma incipiente produção agrícola, cujo destino dos mantimentos será saciar as regiões auríferas.

E é a partir daí que Cunha começa a aparecer nos mapas. Não como Cunha, topônimo adotado após nossa emancipação em 1.785, para homenagear o governador capitão-general Francisco da Cunha e Meneses (1.747 —1812), que nos concedeu a independência política de Guaratinguetá; mas como “Facan”, “Facão”, “Bôca do Sertão”, “Jacuhy”, “Boa Vista” … De sertão desconhecido, palmda apenas por índios, passa a ponto estratégico de controle, pouso obrigatório para aqueles que se embrenhavam pelos rincões desconhecidos da colônia portuguesa em busca da mítica “Sabarabuçu”.

A arte da cartografia chegava, enfim, ao sertão. Se o “Mapa das Minas” é um primor do ponto de vista artístico, peca geograficamente, apresentando uma série de enganos de localização, orientação, direção e tamanho dos elementos geográficos. O equívoco que chama mais atenção é o paralelismo entre as serras do Mar e da Mantiqueira e o sumiço do vale entre elas, que mais parece um desnível intransitável e desabitado, o que é absolutamente falso. Outro detalhe interessante que São Paulo de Piratininga perde a centralidade e ganha destaque as cidades mineiras de Vila Rica, Sabará, Catas Altas, Caeté, Santa Bárbara. É destacada a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), que havia se transformado em cidade porque “a 6 de dezembro de 1745 tornou-se sede do bispado das Minas. E, como os bispos eram equiparados aos nobres, não poderiam residir em vilas”. (HOLANDA; CIVITA, 1972, p. 56).

Mapa das Minas”, de autoria anônima, século XVIII (?), em sua totalidade, destacando a região mineira. Fonte: Museu Paulista.

Diz o incontestável historiador Sérgio B. de HOLANDA (1972, p. 56): “Êste mapa, de autor desconhecido, embora sendo uma carta bem cuidado artisticamente, apresenta uma série de enganos, como a distância entre as vilas e a localização delas em relação aos acidentes geográficos.” Mas justiça seja feita, há algumas precisões. No referido mapa, a capela da Boa Vista aparece no paralelo 23º e a sua latitude atual é: 23° 7’15.50″S. A localização não estava tão errada assim, dava para os navegadores, que precisavam atracar no porto de Paraty, e aventureiros que quisessem embrenhar-se terem certa noção para que lado ficava. A partir da Boa Vista daí realmente o documento cartográfico virava elemento imaginário, afinal há um Vale do Paraíba inteiro separando a serra da Mantiqueira da serra da Paranapiacaba (Serra do Mar), que precisava ser atravessado pelos forasteiros. As serras não são paralelas e nem grudadas. Erro proposital ou por desconhecimento? Nunca se sabe. Muitos desses mapas eram elaborados a partir de relatos e não havia como corrigir, seja porque o cartógrafo estava distante demais do lugar representado ou porque não dispunha de instrumentos para tal empreitada.

Deixando de lado as questões cartográficas, não se pode negar a sua importância histórica, sobretudo para Cunha e para se rechaçar a ideia de que nossa cidade foi fundada em 20 de abril de 1.858. Penso se tratar de uma fonte cartográfica, que vem elucidar o surgimento de tantas freguesias e vilas, corroborando a tese de que o município de Cunha começou na Boa Vista. Foi ali o núcleo fundador, o estabelecimento da primeira família com objetivo de povoamento. Embora o professor João Veloso em seu livro demonstre que nos fins do século XVII já havia sesmarias doadas no bairro da Catioca, esse bairro rural era mais ligado à então vila de Taubaté, principal núcleo urbano do Vale do Paraíba na época e que se interligava ao Facão (Cunha) por meio de um antigo caminho.

 A Boa Vista costuma aparecer nos mapas do século XVIII. Até mais que a freguesia do Facão, que viria a se tornar em Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha em 15 de setembro de 1785, ou seja, já no final do século e após ebriosa febre do ouro ter virado ressaca. A capela da Boa Vista resistiu ao tempo e aos declínios dos ciclos econômicos, sendo ponto importante de reunião religiosa até nossos dias.

Capela de São José da Boa Vista, já na construção de alvenaria que substituiu a antiga capelinha de taipa original. Em 1965, esta construção foi substituída pela atual, mais ampla e com torre. Data: década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Não tem como negar a importância histórica da construção da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1724. Essa capelinha, que nem existe mais, foi muito mais que um oratório de fazenda, batizados e casamentos aconteciam ali com frequência (VELOSO, 2010). Boa Vista é o berço de Cunha. Muitas famílias de Cunha têm algum grau de parentesco ou relação com a família Silva Porto. Portanto, nada mais justo e correto do ponto de vista histórico Cunha celebrar o seu aniversário em 19 de março de 1.724. Ali, mais que qualquer outro lugar do município, foi onde tudo começou. Não é à toa que Cunha apareceu no mapa como Boa Vista.

Referências:

BUENO, B. P. S. Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532-1822). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material [online]. 2009, v. 17, n. 2, pp. 251-294. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-47142009000200013&gt;. Acesso em: 1 jun. 2021.

HOLANDA, S. B. de; CIVITA, V. (Org.). Grandes Personagens da Nossa História: Mapas Históricos Brasileiros. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

MAPA das Minas de Ouro em São Paulo e Costas do Mar Que Lhe Pertence, Coleção do Museu Paulista, [17–?].

VELOSO, J. J. de O. História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Para acessar o mapa em resolução melhor: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/Mapa_das_Minas_de_Ouro_em_S%C3%A3o_Paulo_e_Costas_do_Mar_que_Lhe_Pertence_-_1%2C_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg

Caminhos

Passando pelo mesmo caminho que passaram a gente vinda de todo o Sertão, há mais de trezentos anos. Portugueses, cristãos-novos, africanos, guaianás… Sonhos e maldições cruzando, quimeras e decepções, ganância, farejo, poder, crenças, aventura, suor, escravidão… Tudo se encontrou nesta paragem colonial, sobre a “antiga serra”.

Quando as duas igrejas barrocas despontam na paisagem urbana, dominando e marcando o logradouro, sabemos que a estrada é real. Seguindo em frente, chega-se ao mar, a Paraty. Retrocedendo, serra abaixo, a Guaratinguetá ou até Taubaté. Cunha ficava no meio do caminho, não exatamente na metade.

Em Cunha, qualquer deslocamento no espaço também é uma viagem no tempo. Há história por todo lugar.

As duas igrejas cunhenses, ambas do século XVIII