Farinha, Pinga & Fumo

Aspecto do centro histórico de Paraty, penetrando o Atlântico. Famosa, entre tantas coisas, pela sua pinga. Data: 1961. Foto: IPHAN.

Anedotas populares são pequenos relatos ou histórias curtas, geralmente engraçadas, que fazem parte da tradição oral de um povo. Elas costumam ter personagens típicos e abordam situações do cotidiano com humor, ironia ou malícia.

Circulam de boca em boca, muitas vezes sem autoria conhecida, reforçando a tradição oral.

Podem carregar ensinamentos, fatos e críticas sociais ou apenas têm o intuito de fazer rir. Costumam ser simples e diretas, com um desfecho inesperado ou cômico. Variam de região para região, incorporando o jeito de falar e os costumes locais.

O universo caipira é pródigo em anedotas. São parte importante da cultura popular e sempre aparecem em rodas de conversa, programas de rádio, livros de causos ou apresentações humorísticas, servindo, inclusive, como fontes para a História.

Algumas se elevaram tanto na cultura popular, que viraram matéria poética e musical, como no poema abaixo e no vídeo acima.

Farinha, pinga e fumo, três produtos coloniais dos mais consumidos. Suruí (Magé), Paraty e Baependi, três localidades históricas, que, pela qualidade daquilo que faziam, ganharam fama no imaginário e no gosto popular. Em 1925, o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) publicou o livro “Pau-Brasil”, seu primeiro de poesias, em que aparece o seguinte poema:

RELICÁRIO
No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha da Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
Ê comê bebê pitá e caí

Neste poema, Oswald de Andrade interpreta o Brasil através de uma linguagem coloquial, contrastando o luxo da corte com a vida popular, para criar um efeito humorístico. O poeta ainda utiliza a gradação de verbos como “comê”, “bebê”, “pitá” e “caí” como uma afronta à norma culta da língua portuguesa, para intensificar o humor e a crítica social, valorizando o jeito de falar dos caipiras, das pessoas da roça. Ao se valer de uma linguagem informal e cheia de oralidade, aproxima a escrita da língua falada, para dialogar com o povo e romper com a formalidade do academicismo da época. O Modernismo no Brasil, em sua fase inaugural, buscou renovar a arte e a cultura do país valorizando a identidade nacional. Os olhares e as penas daqueles modernistas estavam voltadas para os sertões, para o interior, para o Brasil profundo e ignorado.

Ser moderno (para Oswald de Andrade) era ser caipira. Autenticidade é tudo.

Maior acidente rodoviário de Cunha

Imagem da série “Hoje na História de Cunha”, da página “Jacuhy“, no Facebook.

Um ano chuvoso

1958, “o ano que não devia acabar”, foi muito chuvoso. Diluvial. A Estrada Cunha-Paraty não era pavimentada, nem em seu trecho paulista muito menos no fluminense, “novela” que se encerrou há poucos anos. Nem a Cunha-Guará (SP-171) ainda era asfaltada. Na época das águas, era tudo lama. Quem viveu esse tempo – que não foi meu – e está vivo para contar deve lembrar. Viajar para Cunha no verão era uma aventura. E das bem perigosas. Nem o Fusca dava jeito. Aliás, com peças importadas da Alemanha, o Fusca ainda era “Volks”. Não era popular e nem carro de pobre. Sim, o “besourinho” já foi carro de rico, daqueles que a playboyzada desfilava na Rua Augusta. Um acinte. Como uma obra de arte da indústria automobilística pode ser pilotado por gente tão cafona? Se fosse o New Beetle, dava para entender… Nem mesmo o fato de ter sido um carro feito especialmente para a Alemanha Nazi justifica. O fusquinha foi a única coisa decente que saiu de lá. A única. Até nisso o Fusca é exclusivo.

Mas essa não é uma história sobre o Fusca. É sobre um micro-ônibus lotado. E é uma tragédia. O maior acidente rodoviário que ocorreu em nossas estradas. O fato vai se apagando na memória, mas a nossa missão é não deixar esquecer. Tem histórias bonitas e tem as tragédias, no fim tudo é história. Quem já viu a cruz de pedrinhas do Morro Grande? Se não viu, é porque o DER não está roçando a margem da rodovia. Mas está lá. “Lugar assombrado”, diziam. “Morreu muita gente”, alertavam. Pelo menos era assombrado quando se passava a pé e a à noite por ali, quando a Cunha-Paraty era uma estrada fantasma. Hoje, com o vai-e-vem de carros, de mineiros e farofeiros invadindo Paraty, não sei se ali há almas penadas, sempre afoitas a barulho e luzes. Depois da meia-noite qualquer lugar é assombrado. Até o quarto da gente.

A poça de água

Jardineira da empresa Santa Teresinha, que fazia a linha Guaratinguetá-Cunha, transitando pela SP-171 antes de ser pavimentada. Foto: Charles Machado. Década de 1950.

O acidente ocorreu na manhã do dia 10 de fevereiro de 1958, no Morro Grande, local hoje assinalado por uma cruz, onde recentemente o D. E. R. realizou uma obra de contenção no talude da margem superior. O micro-ônibus (ou melhor, a jardineira) da empresa Santa Teresinha, que perfazia o itinerário Guaratinguetá-Paraty, despencou ribanceira abaixo, com 200 metros de abismo. Sete pessoas morreram e 25 ficaram feridas. Do veículo restou apenas a lataria. A carroceria desapareceu, a capota ficou a 100 metros para trás e o assoalho ficou preso ao chassi. Pelo morro abaixo, os pertences dos passageiros se espalharam, misturando-se com os cacos de vidro, sangue, malas reviradas, trapos de roupas e lama. Muita lama. Uma cena desoladora.

O motorista ao tentar desviar o micro-ônibus lotado de uma poça de água na estrada (estava chovendo muito na região e a estrada estava um lamaçal), deu forte guinada na direção. Com o movimento, o micro-ônibus bateu em uma cerca, ficando após o choque o veículo sem direção, não obedecendo ao volante. Daí segui desgovernado em direção ao precipício. Perceberam os passageiros e o motorista o que ia ocorrer e entraram em desespero. Saltou então motorista e cobrador para fora e apenas mais 2 passageiros tiveram a mesma sorte a tempo. O micro-ônibus rolou pelo acentuado declive, deixando passageiros na queda. O resgate chegou logo, mas foi difícil tirar os feridos e mortos do local, devido ao terreno escorregadio.

Ainda sobre o que motivou a queda, há uma versão diferente, apresentada ao professor Victor Amato dos Santos por seu primo Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire). Zezito faleceu em dezembro de 2020, com 98 anos de idade, de Covid-19. De “lucidez invejável até o fim”, relatou por e-mail, em 27 de janeiro de 2014, o seguinte: “dentre os mortos naquele acidente [o que estamos tratando agora], o único que aconteceu, foram meus tios Jesuíno Rubem e Miloca- Emília Freire Rubem – irmã de meu pai. Tio Zezinho (assim era conhecido) casou-se e foi morar em São Luiz. Depois voltou a Paraty trazendo dois filhos. Era um bom mestre de música e último maestro que tivemos foi aluno dele. Aposentou-se e viajou com a mulher para rever a terra de sua saudade. Faleceu quando o chofer dormiu e deixou o ônibus tombar do alto do morro, já chegando a Cunha. Hoje, aqui, só existem netos dele. Os filhos homens faleceram, uma das filhas também e as outras (três) Yeda, Sildete e Nolia Vita não moram aqui.” (grifo nosso). Porém, outros motivos foram levantados na época.

A própria superlotação do coletivo não deixou de ser considerada como provável causa do acidente. No micro-ônibus estavam 34 passageiros (6 deles crianças), além do motorista e cobrador. O correspondente do “Estadão” não deixa de anotar que, embora as causas do “desastre” estivessem sendo apuradas pelo corpo técnico da Polícia Civil, era “opinião generalizada que a precariedade dos carros que a empresa [Santa Teresinha] põe a serviço da linha Cunha-Parati foi o motivo principal da lamentável ocorrência”. Obviamente, a causa maior era considerada, naquele momento, a quebra do eixo de direção, após a batida em uma cerca. Certamente, o estado do micro-ônibus não era dos melhores. O motorista foi considerado covarde e insensível ao saltar primeiro e deixar os passageiros (muitos eram mulheres e crianças) dentro do veículo, para tombar na pirambeira. Isso despertou a ira dos cunhenses.

Mortos e feridos

Morreram na hora 5 pessoas: Jesuino Castro Rubem e sua esposa Emilia Freire Rubem, Miguel Alves Moreira e Alcidio José Santana. Todos de Paraty (RJ). E João Ambrosio Mota, sitiante cunhense. Duas vítimas viriam a morrer no hospital, devido à gravidade dos ferimentos. Elas não foram identificadas nominalmente pelas reportagens. Vinte e cinco passageiros ficaram feridos, sendo 4 deles crianças. Foram todos transferidos para Santa Casa de Cunha, recém-inaugurada. Alguns em estado mais grave foram logo retransferidos para Guaratinguetá. Outros estavam mais em estado de choque do que feridos. Em Guaratinguetá, no dia 11, os feridos menos graves foram removidos para as suas respectivas cidades de origem, pois muitos deles eram do Rio de Janeiro e de outras cidades do Vale do Paraíba.

Escaparam ilesos o motorista Sinezio Aleixo, o cobrador Jeronimo Cruz e mais dois passageiros, que, quebrando o vidro de uma das janelas, saltaram do veículo antes que ele tombasse ribanceira abaixo. Ou saíram pela porta mesmo? Há versões desencontradas desse detalhe.

Em meio a tantas tristezas e lutos, fato curioso relata o professor e historiador Victor Amato dos Santos à página Jacuhy, através dos “comentários”. Escreve ele: “os dois primeiros mortos dos cinco citados na publicação são o tio Jesuíno Castro Rubem e a tia Miloca (Emília Freire Rubem, irmã do meu bisavô Crisanto Freire). Eles moravam em Paraty. Minha avó Nina Freire, sobrinha deles e prima do Zezito, sempre contava sobre a tristeza daquela situação do acidente. Ela mencionava inclusive sobre uma criança de colo que, não se sabe como, foi lançada para fora do ônibus, na queda pela ribanceira, e achada ilesa no meio do mato. O bebê chorava muito, e, graças a isso, pôde ser encontrado e resgatado.”. Uma das 6 crianças que estavam à bordo. Um milagre em meio ao desastre.

Paraty em luto

Muitas vítimas do acidente eram do município vizinho de Paraty. Naquele tempo, não havia estrada que ligava Paraty à cidade do Rio de Janeiro, a Rodovia Rio-Santos ainda era um sonho. Daí, para chegar na capital fluminense, os paratienses passavam por Cunha e iam até Guaratinguetá, para de lá seguir para o Rio.

Tão logo foram identificadas as vítimas, o prefeito de Cunha Antonio Accácio Cursino pegou o seu carro e se deslocou até Paraty para comunicar as famílias das vítimas do acidente ocorrido. Não havia linha telefônica entre as duas cidades. Nem outro meio de comunicação mais rápido.

No final da tarde chegaram em caravana a Cunha, o prefeito de Paraty, o vigário daquela localidade, os médicos e os veículos para transportar os corpos dos mortos e feridos para a cidade litorânea. Paraty enlutou-se pela tragédia.

Prisão do motorista

O delegado regional de Polícia de Guaratinguetá, dr. Wilson Souza e Silva, prendeu em flagrante o motorista Sinezio Aleixo, que tinha na época 29 anos de idade. A prisão foi mais por cautela do que por convicção, pois os fatos ainda estavam sendo apurados, mas a população de Cunha, comovida e transtornada, queria linchá-lo, culpando-o pelo acidente. Não foi possível apurar se o motorista continuou preso, se foi acusado pelo acidente ou absolvido.

“Era o dia da pessoa”

João Ambrosio, que tinha fazenda no Itacuruçá, tomou o ônibus na entrada da Catioca, menos de um quilômetro aquém do trecho onde ocorreu o acidente. Acabou sendo uma das vítimas fatais, morrendo ainda no local. Seu corpo foi transportado para Guaratinguetá, onde foi sepultado. Um infortúnio.

O batismo de fogo da Santa Casa de Cunha

Avenida Padre Rodolpho e Santa Casa de Cunha. Final da década de 1960. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

A Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em condições insatisfatórias em agosto de 1954, viveu o seu “batismo de fogo”. Sendo o hospital mais próximo, coube a ele atender e acudir os feridos que chegavam com muitas fraturas, traumatismos e perdendo sangue. Sobre esse período da nossa Santa Casa, relata o professor João Veloso (2010, p. 358): “(…) a Santa Casa funcionou precariamente, graças à dedicação exclusiva das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que não mediram sacrifícios ante as condições sofríveis da época, além da ajuda benfazeja de alguns cunhenses (…) permaneceu, segundo informações, sem água nem luz, um curto período de tempo [1954-1959] (…) época de muita dificuldade para a recém-inaugurada Santa Casa, o que refletia no próprio atendimento à população”.

A despeito de todas essas adversidades e precariedades, a Santa Casa não “negou fogo”. Seu corpo de médicos, enfermeiras e freiras salvaram e trataram muitos feridos. Havia apenas dois médicos em Cunha: dr. Fued Serafim e dr. Daher Pedro. E quando começou a chegar os feridos, mesmo sem recursos, atuaram com perícia, amenizando o sofrimento de uns e evitando a morte de outros.

Recebeu a Santa Casa remédios da cidade de Aparecida e um balão de oxigênio de Guaratinguetá. E alguns enfermeiros também foram enviados.

Contou a Santa Casa, como sempre, com o espírito solidário e cristão dos cunhenses, que vendo a gravidade da situação e a falta de pessoal do hospital, escalaram o Alto do Cruzeiro para prestar socorro, doar sangue e acudir os feridos que chegavam. Tal ato não passou desapercebido do correspondente enviado pelo jornal “Estadão”, que faz questão de anotar na reportagem: “Tiveram dolorosas repercussões as consequencias desse lamentavel desastre. O comercio e as repartições publicas cerraram suas portas. E a população da cidade, num belo gesto de solidariedade humana, acorreu ao local do desastre e à Santa Casa local, procurando todos, cada um a seu modo, prestar aos feridos o auxilio que fôsse possível.”. Cunha, mesmo ante à tragédia, sendo Cunha.

Consequências

A linha de ônibus de Guaratinguetá a Paraty foi suspensa após o acidente. Ônibus só voltou a circular pelo trajeto em agosto de 1958, quando a concessão da empresa Santa Teresinha foi retirada e repassada à Empresa Rodoviária São José, da família Abdalla, que colocou veículos novos para fazer a linha e enfrentar a precariedade das estradas de Cunha.

O trauma foi grande para a população local. Além da situação decrépita dos veículos de transporte coletivo que serviam aos munícipes, ficou evidente o perigo que as péssimas condições das enlameadas e alcantiladas estradas de Cunha ofereciam aos transeuntes. Por ser um risco real à vida de muitos, a necessidade de asfaltar os acessos a Cunha entrou na pauta política local. Em 1967, foi asfaltada a Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que interliga Cunha a Guaratinguetá. Em 1986, no governo de Franco Montoro, foram asfaltados mais 22 quilômetros de estrada (SP-171, Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti), da cidade de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro. O trecho que faltava pavimentar para ligar a SP-171 à Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concretizado apenas em 2016, uma obra milionária e demorada, feita pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, finalizada após longa novela de embargos e judicializações, na qual coube ao Ministério Público Federal o papel de vilão, incensando teses e argumentações ambientalistas irracionais e, por conseguinte, radicais. Uma estrada do século XVIII, a Real, que corta um Parque Nacional, o da Bocaina, criado em 1977, como compensação ambiental para o Complexo Nuclear de Angra dos Reis. Hoje vital para o turismo de Cunha, todavia não menos perigosa.

Fontes:
COM 27 passageiros, o micro-onibus desgovernado rolou pela ribanceira. Folha da Manhã. p. 11, 11 fev. 1958.
DIMINUIU o eleitorado de Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 13, 6 ago. 1958.
GRAVE desastre de onibus em Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 15, 12 fev. 1958.
NOTAS policiais. Folha da Manhã. p. 6, 12 fev. 1958.
Relato de Victor Amato dos Santos (músico, professor e historiador cunhense).
Relato de Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire), enviado à página por Victor Amato dos Santos (a quem agradecemos a constante contribuição com o Jacuhy).
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Cunha está no mapa

Interessante notar que no século XVIII, época em que a exploração do ouro e diamante em Minas Gerais atingiu seu apogeu, surge a necessidade de cartografar o Vale do Paraíba e a região das Minas, que se desmembraria de S. Paulo, em 1720, e daria origem a uma nova capitania. Esses documentos eram elaborados para incentivar e orientar aventureiros e exploradores a chegar na região que atingiu tão grande fama e onde podia-se fazer fortuna. Ou pela Coroa, daí acabavam se tornando secretos.

Boa Vista, pouso entre o mar e o sertão. Obs.: parte recortada do “Mapa das Minas”

Da gana dos paulistas fizeram-se as Entradas e Bandeiras que a História fala. Os limites do território português começam a ser dilatados por gente comum, alheia a interesses metropolitanos. E do Velho Continente e de outras capitanias da Colônia novas levas humanas não paravam de chegar. Há uma explosão demográfica. Falta comida. Vilas, freguesias, pousos e capelas começam a aparecer ao longo das trilhas e caminhos, como postos de fiscalização e controle, como espaços de devoção e como núcleos de povoamento, pois já está em curso a doação de sesmarias, dando início a uma incipiente produção agrícola, cujo destino dos mantimentos será saciar as regiões auríferas.

E é a partir daí que Cunha começa a aparecer nos mapas. Não como Cunha, topônimo adotado após nossa emancipação em 1.785, para homenagear o governador capitão-general Francisco da Cunha e Meneses (1.747 —1812), que nos concedeu a independência política de Guaratinguetá; mas como “Facan”, “Facão”, “Bôca do Sertão”, “Jacuhy”, “Boa Vista” … De sertão desconhecido, palmda apenas por índios, passa a ponto estratégico de controle, pouso obrigatório para aqueles que se embrenhavam pelos rincões desconhecidos da colônia portuguesa em busca da mítica “Sabarabuçu”.

A arte da cartografia chegava, enfim, ao sertão. Se o “Mapa das Minas” é um primor do ponto de vista artístico, peca geograficamente, apresentando uma série de enganos de localização, orientação, direção e tamanho dos elementos geográficos. O equívoco que chama mais atenção é o paralelismo entre as serras do Mar e da Mantiqueira e o sumiço do vale entre elas, que mais parece um desnível intransitável e desabitado, o que é absolutamente falso. Outro detalhe interessante que São Paulo de Piratininga perde a centralidade e ganha destaque as cidades mineiras de Vila Rica, Sabará, Catas Altas, Caeté, Santa Bárbara. É destacada a Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), que havia se transformado em cidade porque “a 6 de dezembro de 1745 tornou-se sede do bispado das Minas. E, como os bispos eram equiparados aos nobres, não poderiam residir em vilas”. (HOLANDA; CIVITA, 1972, p. 56).

Mapa das Minas”, de autoria anônima, século XVIII (?), em sua totalidade, destacando a região mineira. Fonte: Museu Paulista.

Diz o incontestável historiador Sérgio B. de HOLANDA (1972, p. 56): “Êste mapa, de autor desconhecido, embora sendo uma carta bem cuidado artisticamente, apresenta uma série de enganos, como a distância entre as vilas e a localização delas em relação aos acidentes geográficos.” Mas justiça seja feita, há algumas precisões. No referido mapa, a capela da Boa Vista aparece no paralelo 23º e a sua latitude atual é: 23° 7’15.50″S. A localização não estava tão errada assim, dava para os navegadores, que precisavam atracar no porto de Paraty, e aventureiros que quisessem embrenhar-se terem certa noção para que lado ficava. A partir da Boa Vista daí realmente o documento cartográfico virava elemento imaginário, afinal há um Vale do Paraíba inteiro separando a serra da Mantiqueira da serra da Paranapiacaba (Serra do Mar), que precisava ser atravessado pelos forasteiros. As serras não são paralelas e nem grudadas. Erro proposital ou por desconhecimento? Nunca se sabe. Muitos desses mapas eram elaborados a partir de relatos e não havia como corrigir, seja porque o cartógrafo estava distante demais do lugar representado ou porque não dispunha de instrumentos para tal empreitada.

Deixando de lado as questões cartográficas, não se pode negar a sua importância histórica, sobretudo para Cunha e para se rechaçar a ideia de que nossa cidade foi fundada em 20 de abril de 1.858. Penso se tratar de uma fonte cartográfica, que vem elucidar o surgimento de tantas freguesias e vilas, corroborando a tese de que o município de Cunha começou na Boa Vista. Foi ali o núcleo fundador, o estabelecimento da primeira família com objetivo de povoamento. Embora o professor João Veloso em seu livro demonstre que nos fins do século XVII já havia sesmarias doadas no bairro da Catioca, esse bairro rural era mais ligado à então vila de Taubaté, principal núcleo urbano do Vale do Paraíba na época e que se interligava ao Facão (Cunha) por meio de um antigo caminho.

 A Boa Vista costuma aparecer nos mapas do século XVIII. Até mais que a freguesia do Facão, que viria a se tornar em Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha em 15 de setembro de 1785, ou seja, já no final do século e após ebriosa febre do ouro ter virado ressaca. A capela da Boa Vista resistiu ao tempo e aos declínios dos ciclos econômicos, sendo ponto importante de reunião religiosa até nossos dias.

Capela de São José da Boa Vista, já na construção de alvenaria que substituiu a antiga capelinha de taipa original. Em 1965, esta construção foi substituída pela atual, mais ampla e com torre. Data: década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Não tem como negar a importância histórica da construção da capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1724. Essa capelinha, que nem existe mais, foi muito mais que um oratório de fazenda, batizados e casamentos aconteciam ali com frequência (VELOSO, 2010). Boa Vista é o berço de Cunha. Muitas famílias de Cunha têm algum grau de parentesco ou relação com a família Silva Porto. Portanto, nada mais justo e correto do ponto de vista histórico Cunha celebrar o seu aniversário em 19 de março de 1.724. Ali, mais que qualquer outro lugar do município, foi onde tudo começou. Não é à toa que Cunha apareceu no mapa como Boa Vista.

Referências:

BUENO, B. P. S. Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532-1822). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material [online]. 2009, v. 17, n. 2, pp. 251-294. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-47142009000200013&gt;. Acesso em: 1 jun. 2021.

HOLANDA, S. B. de; CIVITA, V. (Org.). Grandes Personagens da Nossa História: Mapas Históricos Brasileiros. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

MAPA das Minas de Ouro em São Paulo e Costas do Mar Que Lhe Pertence, Coleção do Museu Paulista, [17–?].

VELOSO, J. J. de O. História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Para acessar o mapa em resolução melhor: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/29/Mapa_das_Minas_de_Ouro_em_S%C3%A3o_Paulo_e_Costas_do_Mar_que_Lhe_Pertence_-_1%2C_Acervo_do_Museu_Paulista_da_USP.jpg

Caminhos

Passando pelo mesmo caminho que passaram a gente vinda de todo o Sertão, há mais de trezentos anos. Portugueses, cristãos-novos, africanos, guaianás… Sonhos e maldições cruzando, quimeras e decepções, ganância, farejo, poder, crenças, aventura, suor, escravidão… Tudo se encontrou nesta paragem colonial, sobre a “antiga serra”.

Quando as duas igrejas barrocas despontam na paisagem urbana, dominando e marcando o logradouro, sabemos que a estrada é real. Seguindo em frente, chega-se ao mar, a Paraty. Retrocedendo, serra abaixo, a Guaratinguetá ou até Taubaté. Cunha ficava no meio do caminho, não exatamente na metade.

Em Cunha, qualquer deslocamento no espaço também é uma viagem no tempo. Há história por todo lugar.

As duas igrejas cunhenses, ambas do século XVIII