Arte feita para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da página Jacuhy, no Facebook.
Foram os antigos caminhos que cortavam a região a causa do povoamento. Havia o “Caminho das Boiadas” ou “Estrada da Bocaina”. Surgiu para não destruir o Caminho do Ouro oficial, pela Serra do Facão, pois o gado, em seu transitar, vai socavando com suas patas e destruindo a estrada. Assim, o gado era tocado por outro caminho. O Caminho das Boiadas saía de Guaratinguetá ou Lorena, passava pelos campos da Bocaina e alcançava o porto de Mambucaba ou Angra dos Reis, dependendo do rumo que tomava. Posteriormente (séc. XIX), esse caminho seria utilizado e calçado para o transporte do café. Mais que uma conexão entre o planalto e o litoral, foram esses caminhos vetores de ocupação e colonização.
No final do século XVIII, algumas famílias paulistas e fluminenses conseguiram sesmarias no vale do Paraitinga e nos contrafortes da Bocaina. Eram os Fialho, os Galvão dos Santos (Carmo), os Gomes Siqueira, os Ayres dos Reis, os Vaz da Silva, os França Mota, os Rodrigues da Silva, os Mariano Rodrigues, os Santos Pinto, os Pinto dos Santos, os Pinto Leite, os Cardoso de Miranda, os Marques, os Galvão Freire, os Almeida, os Pereira, os Moraes, os Lopes dos Santos, os Siqueira França, os Albano da Silva, os Müller etc. Terra boa, ainda ínvia. Vão povoando e abrindo passagem. De vez em quando ainda viam, esses pioneiros, os Puris cortando, apressadamente, aquelas florestas intactas. Caminhos foram se abrindo, novas famílias chegando e desmatando. A mata caía onde novos sítios eram erguidos. Por volta de 1.820 já se registra 400 almas, entre brancos e escravos. Denominava-se “Bocaina”, apenas. Em 1.859, Manoel Lopes dos Santos (D’Assunção) edifica a primeira capela da redondeza, orago de Nossa Senhora dos Remédios. Por esse tempo, ganha notoriedade a Fazenda da Serra, no bairro da Guabiroba. Era propriedade de Maria do Carmo dos Santos, viúva do Alferes José Gomes dos Santos Pinto e casada em segundas núpcias com Luiz Pereira Paes de Almeida. Latifundiária e rica, bancou boa parte da edificação da capela. Como centro religioso da redondeza, em torno da capela brota um povoado: Campos Novos. Povoado é um termo que significava à época “pequeno aglomerado rural ou urbano, sem autonomia administrativa; lugar ou sítio no qual já se formou uma pequena população ou um pequeno núcleo de habitantes.” (SEADE, 1995).
Croqui da vila de Campos de Cunha, distrito do município de Cunha. Atentar para o diminuto arruamento. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC). Data: maio de 1940.
Vivia a região um enorme crescimento econômico proporcionado pela riqueza do café, que ia modificando a paisagem. Respingo da pujança econômica do médio Vale do Paraíba no planalto. “Campos”, devido aos campos de altitude da Serra da Bocaina, e “Novos”, porque a ocupação do Distrito era mais recente do que o restante do município. Campos Novos vingou à margem de um (Lorena – Mambucaba) das dezenas de caminhos que conectavam o vale produtor aos portos de exportação. Por isso, pulsou no ritmo regional: viveu o apogeu e a decadência da cafeicultura valeparaibana. Depois veio a fonte de água mineral (na década de 1910), depois a pecuária leiteira (década de 1940) … O turismo ainda é uma promessa, pois o potencial de Campos de Cunha é grande demais para seguir ainda inexplorado.
A região passa por um rápido crescimento econômico e populacional. Até que em 8 de março de 1.872, o povoado de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha se torna um Distrito de Paz, pela Lei Municipal nº. 5. Assim, passa a contar com uma autoridade administrativa nomeada pela Vila de Cunha especialmente para o lugar. Um Distrito era uma “divisão territorial e administrativa em que certa autoridade administrativa, judicial ou fiscal exerce sua jurisdição” (SEADE, 1995).
Em 11/09/1873, a capela passa a ser paróquia, com vigário próprio nomeado. Dessa forma, torna-se de fato Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha, pois só se tornava freguesia se fosse paróquia, isto é, tivesse um padre regular atuando na igreja. O primeiro que chegou a Campos Novos para a missão foi o padre italiano Nicolau Polito Derosa (“Padre Derosa”). O termo “freguesia” se refere a: “circunscrição eclesiástica que forma a paróquia; sede de uma igreja paroquial, que servia também, para a administração civil; categoria oficial institucionalmente reconhecida a que era elevado um povoado quando nele houvesse uma capela curada ou paróquia na qual pudesse manter um padre à custa destes paroquianos, pagando a ele a côngrua anual (…)” (SEADE, 1995).
Na divisão administrativa referente ao ano de 1911 já consta o Distrito de “Campos Novos de Cunha” como pertencente à Comarca de Cunha. Esse topônimo foi simplificado para “Campos de Cunha” apenas, na lei de divisão administrativa de 1938, permanecendo assim até os dias atuais. Mas para o cunhense ainda é “Campos Novos”.
Em 1912, o Barão da Bocaina compra a fazenda onde estava as fontes de águas minerais, conhecidas desde o século XIX. Seu projeto era construir uma nova cidade no local, uma estância hidromineral seguindo o exemplo de Campos do Jordão, que fora um projeto seu. E bem-sucedido. Com a morte do Barão, os planos são abandonados. Na década de 1970, a fazenda é comprada pelo italiano Ghisleni Giulio. Seu projeto era criar um loteamento, seguindo, modestamente, os planos do Barão. Não consegue vender os lotes, então decide envasar e vender a água mineral. A qualidade das “Águas Virtuosas Santa Rosa” conquista o mercado regional, mas na década de 1990 o envasamento é suspenso. Em 2021, a água mineral volta a ser vendida com o nome de “Serras de Cunha”, uma marca da Águas Prata Ltda.
Entre as décadas de 1920-1950, muitas famílias mineiras (os Fagundes, os Gonçalves etc.) migram para o município de Cunha, inclusive Campos de Cunha, atraídas pelo baixo preço das terras. Aqui desenvolvem a pecuária leiteira e, posteriormente, a pecuária de corte. Hoje, Cunha é a maior produtora de leite do estado. Então, Campos de Cunha se torna famoso pela qualidade de seus queijos e por sua produção de leite. Até pouco tempo, o Distrito contava com 2 grandes laticínios e outros artesanais espalhados pela zona rural, as fabriquetas.
Antiga fotografia capturada na vila de Campos de Cunha, possivelmente da década de 1940, postada no grupo “Memória Cunhense” (Facebook).
Nos anos de 1970-1980, devido ao abandono do Distrito pelas administrações municipais, cresce entre os moradores o desejo de emancipar-se de Cunha. Ademais, Campos de Cunha sempre manteve mais ligação com Lorena e Silveiras do que com a sede municipal. O pleito dos moradores é levantado pela SADICAC (Sociedade de Amigos do Distrito de Campos de Cunha) e recebe apoio dos deputados da região. Em 1991 é aprovado a realização de um plebiscito pela Assembleia Legislativa de São Paulo para votar a emancipação do Distrito de Campos da Cunha. Todavia, mudanças nas normas estaduais para emancipação de municípios, concernente à autossuficiência econômica, adia o sonho de Campos de Cunha.
É uma longa história, bem resumida pelo poeta e cantor Celso Galvão “…mas o lugar cresceu/ o tempo passou/ as porteiras se abriram / o progresso chegou/ Uma estrada novinha/ e a freguesia no meio da serra aflorou (…) uma gente que sonha e constrói para o futuro uma linda cidade/ na certeza de que/ a união e a fé/ é o caminho e verdade…”. Hoje, Campos de Cunha celebra 150 anos de elevação a Distrito. Parabéns a todos os moradores: da vila, da Bocaina e de todos os bairros rurais. Felicitação que estendo aos que se encontram dispersos por outras paragens.
Campos de Cunha em dois tempos: na década de 1980, na foto superior; na inferior, em 2016. Crescimento da mancha e adensamento urbano. Fotos: Página “Lá em Campos Novos” (Facebook).
Referências: CUNHA, M. W. V. da. O Povoamento no Município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, v. II, p. 641-49, Florianópolis (SC), 1944. FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS (SEADE). Memória das estatísticas demográficas: definições. Disponível em: < http://produtos.seade.gov.br/produtos/500anos/index.php?tip=defi >. Acesso em 8 mar. 2022. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades: Cunha (SP): História e fotos. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico >. Acesso em 8 mar. 2022. VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha – 1600 – 2010 – Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Música homenageando Campos de Cunha, composta e interpretada por Celso Galvão.
Rio Paraíba do Sul, quando cruza o município de Cruzeiro (SP), com a Serra da Mantiqueira ao fundo. Fonte: Wikipédia. Data: 2014.
A porção paulista do rio Paraíba do Sul (também chamada de Alto Paraíba do Sul) ocupa uma área de drenagem de 14.444 Km², onde vivem 2,1 milhões de pessoas, abrangendo 34 municípios de nossa região. A bacia de drenagem de um rio, segundo Teixeira et al. (2009, p. 308), inclui todos os afluentes que deságuam na drenagem principal e eventuais lagos associados a esse sistema, ela é separada das bacias de drenagem vizinhas por divisores de água (elevações topográficas), como as serras do Mar, da Bocaina, Mantiqueira e Quebra-Cangalha, por exemplo
Dentro dessa região hidrográfica há 16 unidades de conservação, com destaque para os núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), recentemente tombado como Patrimônio da Humanidade. Ambas as unidades são de proteção integral. Todas essas unidades de conservação visam preservar as seguintes vegetações: Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, Campos de Altitude e Floresta Ombrófila Mista. A área ocupada com vegetação natural remanescente corresponde a 3.846 Km², o que equivale a 26,5% da área de drenagem da bacia.
Mapa mostrando o trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul. Fonte: Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Data: 2015.
O rio Paraíba do Sul é formado pela confluência dos rios do Paraibuna, que nasce no município de Cunha (SP), no bairro da Aparição; e do Paraitinga, que nasce no topo da Serra da Bocaina, no município de Areias (SP). A junção dos cursos d’água ocorre onde hoje é a área alagada da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, pertencente à Companhia Energética de São Paulo (CESP), localizada entre os municípios paulistas de Natividade da Serra, Paraibuna e Redenção da Serra. Da nascente na Serra da Bocaina até a foz em Atafona, município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, o Paraíba do Sul realiza um percurso de 1.137 km de extensão, até alcançar o Oceano Atlântico. Seus principais afluentes no trecho paulista são: Paraibuna, Paraitinga e Jacuí (formadores); Jaguari, Uma, Buquira, Ferrão, Embaú, Piquete, Bocaina, Pitangueiras e Itagaçaba (tributários).
Imagem de satélite da foz do Paraíba do Sul, mostrando o seu delta assimétrico dominado por ondas, formado pelo acúmulo de sedimentos ao longo de milhares de anos. Imagem: Divisão de Sensoriamento Remoto – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Data: 2019. Fonte: Flickr.
As principais atividades econômicas desenvolvidas são a agropecuária (rizicultura, pecuária leiteira e de corte, milho etc.), indústria e pesquisa tecnológica (automobilística e aeroespacial), química e alimentícia (laticínios, principalmente), o turismo (religioso, ecológico, de montanha, cultural etc.), comércio e serviços e mineração de areia. A maioria dos municípios que estão inseridos dentro da bacia hidrográfica é pobre e vulnerável socioeconomicamente, com a exceção de São José dos Campos, Guararema, Jacareí e Aparecida (SEADE, 2018), que foram classificados e. Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) como dinâmicos, isto é, municípios com índice elevado de riqueza e bons níveis nos indicadores sociais (longevidade e escolaridade médio /alto). Os municípios que são cortados pela Serra do Mar e da Bocaina apresentam os piores indicadores sociais da região, como é o caso de Cunha.
Outros indicadores ambientais: 99,7% dos resíduos sólidos são destinados a aterros sanitários adequados; 91,1% do esgoto urbano é coletado, porém, apenas 63,9% é tratado; a redução da carga orgânica poluidora do esgoto doméstico foi de apenas 40,2%; a demanda total (superficial e subterrânea) corresponde a apenas 10,7% da vazão do rio Paraíba do Sul, no trecho paulista, o que mostra uma baixa pressão sobre os recursos hídricos disponíveis; dos 21 pontos de coleta de água de rios da bacia para análise, 4 foram qualificados como ótimos, 18 como bons e apenas 1 como regular, o que favorece a proteção da vida aquática.
Rio Paraíba do Sul na proximidade de sua nascente, na Serra da Bocaina. Imagem: Marco Cruz. Data: 2011. Fonte: YouTube.
Por estar localizado entre as duas maiores metrópoles do país, o rio Paraíba do Sul sofre com a poluição de suas águas, seja pelo esgoto doméstico ou pelo industrial. Além disso, boa parte de suas cabeceiras, onde estão as nascentes, estão desmatadas e degradadas. Todavia, trata-se de um rio de suma importância social: abastece mais de 14,2 milhões de pessoas, pois parte de suas águas são desviadas para a bacia hidrográfica do rio Guandu, com a finalidade de gerar energia e abastecer a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Outros usos de suas águas são para irrigação (na rizicultura no Vale do Paraíba paulista, principalmente), geração de energia hidrelétrica e diluição de esgotos, este é uma das principais fontes de poluição do rio Paraíba do Sul, sobretudo nos trechos que cruzam as áreas urbanas. A vazão média do rio Paraíba do Sul, na divisa com o estado do Rio de Janeiro, é de 217 m³/s e a vazão mínima é de 72 m³/s, ou seja, cerca de um terço da vazão média. A situação é preocupante, pois só neste século o rio Paraíba do Sul já passou por duas crises hídricas, a primeira em 2004 e a última entre 2014 e 2016, atingindo sua fase de maior escassez em 2015. Nessas crises, as vazões diminuem muito, devido à baixa precipitação, causando impactos nos níveis de armazenamento dos reservatórios e, consequentemente, na irrigação, na geração de energia e no abastecimento de água para a população. A precipitação média no trecho paulista da bacia é de 1.385 mm ao ano. Devido à escassez hídrica e alta demanda das regiões metropolitanas do entorno, a água do Paraíba tem sido alvo de disputa entre as unidades federativas. Por isso e pela sua relevância ambiental, projetos que objetivem recuperar o rio – da nascente até a foz – são para ontem.
Vídeo com imagens de drone da foz do rio Paraíba do Sul, no norte fluminense. Fonte: YouTube / Canal Macaé Drone. Data: 2021.
Referências:
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Paraíba do Sul. Disponível em: < https://www.gov.br/ana/pt-br/sala-de-situacao/paraiba-do-sul/paraiba-do-sul-saiba-mais >. Acesso em: 19 out. 2021. FUNDAÇÃO SEADE. Índice Paulista de Responsabilidade Social. São Paulo: Fundação Seade, 2018. Disponível em: < http://www.iprs.seade.gov.br/ >. Aceso em 19 out. 2021. RIO PARAÍBA DO SUL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rio_Para%C3%ADba_do_Sul&oldid=62208470 >. Acesso em: 19 out. 2021. SÃO PAULO (ESTADO). Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS). Capacitação de agentes no processo de gestão de recursos hídricos em atividades de educação ambiental. Taubaté (SP): CBH-PS, 2009. SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Guia do Sistema Paulista de Recursos Hídricos. 3. ed. São Paulo: SSRH, 2015. TEIXEIRA, W. et al. (org.). Decifrando a Terra. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009
Faço aqui algumas breves considerações sobre a cartografia turística do município de Cunha e as regionalizações impostas pela Secretaria de Turismo de São Paulo e pelo Ministério do Turismo.
Cartografia
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2009. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).
Esse mapa turístico de Cunha vem sendo reproduzido e impresso pela Prefeitura, com algumas alterações, desde o início deste século. Foi criado pelo designer cunhense Wagner Oliveira. Sem dúvida, é muito bonito e elegante, mas peca nos aspectos cartográficos. Prevalece os aspectos estéticos sobre os técnicos. A cidade de Cunha, como se nota, está ampliada e o restante que do plano, que cobre o município, está em escala menor. Esse tipo de representação acarreta muitas distorções e gera confusão em que lê esse mapa. Geralmente, quando se amplia parte de uma peça cartográfica, a representação em escala maior aparece fora do plano geral, no canto e/ou destacada, a fim de chamar a atenção e não iludir quem realiza a leitura. Ademais, os pontos turísticos de Cunha, diferente de Campos do Jordão, por exemplo, não estão concentrados no perímetro urbano, mas dispersos pela nossa extensa área rural. Desse modo, ainda que o objetivo dessa técnica seja permitir a localização dos pontos turísticos e empreendimentos turísticos dentro da cidade, acaba atrapalhando a localização dos lugares similares que estão na zona rural, já que, como escrevi, Cunha não tem seus pontos e empreendimentos turísticos concentrados na zona urbana. A falta de uma escala mais próxima à realidade, sobretudo nos trechos rurais, tem gerado muitas frustrações nos turistas que se guiam por esse mapa, quando percorrem os roteiros que haviam traçado.
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2015. Fonte: CunhaTur.
Outro problema é a quantidade de informações que são apresentadas e representadas. Como o número de empreendimentos turísticos em nosso município vem aumentando a cada ano, à medida em que esses mapas são atualizados, ficam cada vez mais poluídos e carregados, o que compromete a leitura e a estética da peça gráfica. A solução pode estar na seleção das informações fornecidas ou na criação de um mapa digital para o turismo cunhense, através de um aplicativo para smartphone, por exemplo. Com os mapas digitais não só a atualização pode ser feita de maneira mais rápida e econômica, como a quantidade de informações pode ser resolvida com a criação de camadas selecionáveis, onde o próprio usuário pode decidir o que ele quer ver e localizar.
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2019. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).
Regionalizações
Cunha era uma estância climática desde 1948. Foi a primeira do estado, antes até de Campos do Jordão. Na verdade, era para ser estância hidromineral devido às fontes da “Águas Virtuosas de Santa Rosa”. Mas, por pressões políticas de alguns deputados federais, insuflados pelos municípios que já gozavam desse “status” e acesso ao orçamento estadual, acabou se tornando uma estância climática (VELOSO, 1995, p. 12). Nessa batalha de Cunha atuaram dois políticos da época: deputado estadual Sebastião Carneiro da Silva (PSD), grande batalhador das causas valeparaibanas, e o governador Ademar de Barros (PSP), ex-combatente do serviço médico do Exército Constitucionalista, tendo servido na frente de Cunha. Na década de 1940, o dr. João Lellis Vieira, cunhense “da gema” e articulista do jornal “Correio Paulistano”, aproveitava o espaço que tinha para provocar Campos do Jordão, exclamando que Cunha, ao contrário daquela estância da Mantiqueira, era “climatericamente a Suíça Brasileira!”. Puro bairrismo. E um monólogo inócuo. Em nada abalou a reputação de Campos do Jordão, construída pelo próprio governo estadual, visando massagear o ego e ofertar um “plano B” para as quatrocentonas falidas, que já não dispunham de bufunfa para visitar a Suíça (de verdade) …
Mapa da Tipologia Turística das Estâncias Paulistas. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.
Em 2015, o artigo 7º, da Lei Complementar nº 1.261 do estado de São Paulo, que “Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas”, prescreveu que “os municípios classificados por lei como Estâncias Balneárias, Hidrominerais, Climáticas e Turísticas passam a ser classificados como Estâncias Turísticas, sem prejuízo da utilização da terminologia anteriormente adotada, para efeito de divulgação dos seus principais atrativos, produtos e peculiaridades.” Assim, ainda que a Prefeitura de Cunha mantivesse a divulgação do título de “Estância Climática”, oficialmente passou a ser “Estância Turística”. Na parte que interessa à Municipalidade, o acesso à verba extra do orçamento estadual para fomentar o turismo local, nada mudou. Portanto, nenhum estardalhaço foi gerado. A questão que se pôs a partir de então foi como o Governo Estadual organizaria e enquadraria os municípios turísticos.
Mapa dos Segmentos Turísticos no Estado de S. Paulo. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.
Em um primeiro momento, a Secretaria de Turismo estadual lançou um documento para orientar as prefeituras sobre as mudanças ocorridas por força da nova lei. Assim, naquele momento, São Paulo estava dividido turisticamente em 15 macrorregiões e subdividido em 34 regiões turísticas englobando todos os 645 municípios paulistas (SÃO PAULO, 2015). Cunha pertencia à “Macrorregião do Vale do Paraíba” e à “Região Turística do Vale do Paraíba e Serras”. Basicamente, a Secretaria seguiu a regionalização histórica já existente, sem inventar moda. No mesmo documento, ao aprofundar a regionalização, a Secretaria criou os “Circuitos Turísticos”, uma sub-regionalização das regiões turísticas. Cunha, por sua vez, integrava, simultaneamente, o “Circuito Cultura Caipira”, junto com outros municípios do Alto Vale, e o “Roteiro do Vale Histórico”, junto com os municípios do “garoupas”. Essa regionalização era bastante condizente com a realidade e a história local, valorizando os aspectos culturais de Cunha e adjacências.
Cunha foi inserida dentro do segmento histórico e cultural, com destaque por sua cerâmica de alta temperatura nacionalmente conhecida. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo. Ano: 2017.
A referida Lei Complementar reconhecia 13 segmentos de turismo: Social; Ecoturismo; Cultural; Religioso; Estudos e de Intercâmbio; de Esportes; de Pesca; Náutico; de Aventura; de Sol e Praia; de Negócios e Eventos; Rural; de Saúde. Sendo que Cunha estava segmentada dentro de uma região de turismo cultural, cuja definição, dada pela mesma lei é a que segue: “compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Ainda que não seja a melhor para descrever o turismo cunhense era mais condizente que o enquadramento dado, por exemplo, ao turismo religioso, que é definido assim: “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas, independentemente da origem étnica ou do credo”. Entretanto, a partir de 2017, Cunha passou a integrar a “Região Turística da Fé”, junto com Aparecida, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá etc. mesmo não sendo um centro de peregrinação religiosa como esses municípios.
Mapa dos Circuitos Turísticos Paulistas. Ano: 2016. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.
O que se vê é que nem o próprio Governo conseguiu superar a utilização e categorização das estâncias (turísticas, climáticas e hidrominerais), ainda que oficialmente tenha sido proscrita. O termo “municípios turísticos” ou “estância turística” ainda não foi plenamente assimilado pelas pastas estaduais. E muito menos pelos municípios, empresários, guias e população em geral. Por óbvios motivos políticos e eleitorais, em 2016, uma lei estadual criou a categoria “Municípios de Interesse Turístico”, ampliando em mais 140 o número de municípios paulistas com acesso ao filão orçamentário para “incrementar o turismo”.
Interessante notar que até no site desenvolvido pelas prefeituras da Região Turística da Fé, a foto de Cunha na página inicial é a única não remete à religião ou às igrejas, apresentando a foto de uma das dezenas de cachoeiras do município na chamada da página inicial. Ainda que as festas religiosas de Cunha sejam seculares e possam atrair turistas, elas são expressões de fé da população local e não um evento de cunho turístico. São manifestações de fé genuínas e não eventos comerciais de fundo religioso. Talvez a única exceção dentro dessas manifestações seja a Festa de Sá Mariinha das Três Pontes, em cujo lugar há até um pequeno centro de apoio ao romeiro, mas ainda assim são romeiros de Cunha e adjacências que vistam o local, ou seja, devotos da própria região e que estão no mesmo meio cultural. Diferentemente de Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá, que são centros nacionais do Catolicismo, e atraem fiéis até de outros países e em contingentes impensáveis para as festas religiosas de Cunha.
A descrição para caracterização da Região Turística da Fé é ambígua. Vejamos: “A Região Turística da Fé se destaca como uma das mais belas do país, está localizada no eixo Rio x São Paulo entre as Serras da Mantiqueira, da Bocaina e do Mar. São 08 municípios no Vale do Paraíba que estão unidos pelo desenvolvimento do turismo regional: Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Cunha, Guaratinguetá, Lorena e Piquete. Com um grande número de santuários e belezas naturais a região proporciona uma experiência única de fé, contemplação e atividades turísticas em meio das lindas paisagens de serras e rios nos mais variados tipos de turismo e seus atrativos: turismo religioso, turismo rural, turismo cultural, de esportes, de aventura, ecoturismo, negócios e eventos, náutico e gastronômico.” (grifo meu) (REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ, 2020). Como se nota, não se sabe ao certo qual o tipo de turismo a desenvolver, porque uma coisa é atrair e acolher romeiros e outra coisa é desenvolver o ecoturismo. No encontro que culminou em um estatuto para os municípios integrantes da RT da Fé, afirmou-se que: “(…) muitos projetos possam acontecer na Rota da Fé, tanto focando a religiosidade regional, como investimentos na infraestrutura (…)” (grifo meu) (PREFEITURA DE APARECIDA, 2019). Ora, como Cunha focar seu investimento em eventos religiosos, se quase todas suas festas turísticas são laicas e comerciais?
Mapa das Regiões Turísticas do Estado de São Paulo. É o que está em vigor. Cunha aparece em outra região turística. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de S. Paulo. Ano: 2017.
Praticamente quase todos os tipos de turismo praticados no Brasil são citados como a ser desenvolvido pela Região Turística da Fé. É claro que a diversificação das atividades turísticas é desejável, mas no caso parece que os mentores municipais estão meio perdidos quanto aos objetivos e metas a serem traçadas. Ter colocado Cunha no meio desses municípios engrossou o caldo da confusão, sem dúvida. Quem dá enfoque em tudo acaba não priorizando nada. Não há nenhum elemento caracterizador, ainda que o turismo religioso preceda os demais e seja citado “um grande número de santuários”, para logo em seguida já destacar as “belezas naturais”, que uma caracterização tão genérica, que pode aparecer na descrição da maioria das regiões turísticas do mundo. O fato é que Cunha não conta com santuários e nem é visitada por motivos religiosos. Na página de Cunha, no site da Região Turística da Fé, até são citadas as festas religiosas, mas os destaques são para os campos de lavandas, cachoeiras e às festas ligadas ao clima serrano. Faria mais sentido, penso eu, alocar Cunha na região vizinha, do “Rios do Vale”, que engloba parte dos municípios do Alto Vale do Paraíba. Pelo menos em nosso território nasce o rio Paraibuna, no bairro da Aparição, e ganha corpo o rio Paraitinga, que desce da Serra da Bocaina. Associar a beleza natural a alguma ação contemplativa de fé em nosso município é um grande disparate, a menos que Cunha tenha algum centro de peregrinação xamânica e ninguém nos avisou de nada…
Não se pode criar regionalizações em gabinetes, desconsiderando a história e desenvolvimento de cada lugar. Canetadas de políticos não devem preceder e prevalecer sobre o trabalho científico de geógrafos e turismólogos.
Considerações finais
Atualmente, a maior parte das pessoas que visitam Cunha utiliza para encontrar os destinos almejados as plataformas cartográficas digitais, como o Google Maps (por exemplo), por serem mais simples, acessíveis e atualizadas. Acessíveis até certo ponto, convenhamos, já que em uma boa parte da zona rural de Cunha não há sinal de celular e, consequentemente, de internet. Entretanto, ainda que venha caindo em desuso e estejam condenados, os mapas turísticos impressos de Cunha precisam equilibrar os aspectos artísticos e técnicos na sua apresentação, tornando-se um instrumento de localização mais útil a quem se destina: os turistas.
Com relação à regionalização turística a que Cunha foi submetida, compete à Prefeitura, através de seu corpo técnico, e ao Conselho Municipal de Turismo de Cunha (COMTUR) questionar esse enquadramento alheio à realidade do turismo local: ao seu desenvolvimento e história, à sua tipologia e às potencialidades que apresenta. Inclusive, o planejamento turístico estadual aponta que um dos objetivos estratégicos para o setor é “promover a atuação articulada de agentes públicos e privados na implantação de empreendimentos e produtos turísticos nacionais ou internacionais, que aproveitem as vocações e potencialidades dos municípios e regiões do Estado de São Paulo.” (SÃO PAULO, 2020, p. 37). E ainda, no mesmo documento, estabelece que o “incentivo e valorização das iniciativas que fortaleçam a identidade local e regional dos destinos turísticos” e a modernização e ampliação das “estratégias de marketing e comunicação de destinos, produtos e serviços turísticos ofertados no Estado de São Paulo nos níveis municipal, regional, nacional e internacional” (SÃO PAULO, 2020, pp. 44-45) são estratégias prioritárias para fomentar o turismo paulista na próxima década. Trata-se de uma regionalização totalmente deslocada, no tempo e no espaço. E que pode comprometer nosso desenvolvimento turístico se for seguida e houver direcionamento de investimentos.
Cunha viveu nesse primeiro quinquênio da pavimentação completa da rodovia que liga a cidade a Paraty (RJ) um crescimento nunca visto do seu turismo. O fluxo cada vez maior de pessoas que se dirige às praias da Costa Verde fluminense e para o Litoral Norte paulista transformou nossas montanhas em vitrine e propaganda ininterrupta do lugar. É um outdoor vivo e verdadeiro dos dois lados da pista da rodovia SP-171. Entretanto, é preciso planejar e aprimorar as atividades turísticas que acontecem aqui, para gere renda e traga benefícios para todos os cunhenses e que seja sustentável, ecologicamente e financeiramente, nas próximas décadas.
Vídeo sobre a então Estância Climática de Cunha, produzido pela Aprecesp (Associação das Prefeituras das Cidades Estância do Estado de São Paulo), em 2012.
Professor José Luiz Pasin: um mestre generoso, uma mente brilhante. Foto: Centro UNISAL.
De História foi o grande professor. Entusiasmado e cativante, profundo conhecedor do tempo que passou e que, nas suas aulas, parecia nunca passar… Foi testemunha ocular de tudo que falava? Um viajante do tempo com quem tivemos a honra de conviver, aprender, absorver? Havia um “que” de magia que nos envolvia em sua exposição… Das suas aulas, a única coisa que não trazíamos eram anotações sobre o conteúdo. “Não podemos perder tempo com anotações”, dizia o mestre. Falava com tanta propriedade e com tanto brilho nos olhos, que nos arremessava em uma espécie de túnel do tempo imaginativo e nos colocava à mesa das velhas fazendas vale-paraibanas, a observar o cotidiano duro dos negros nos terreirões e o vai-e-vem dentro da Casa Grande. Eloquente em suas ideias e explanações. Democrático e cortês na escuta. Educador exímio, cativou uma geração inteira de estudantes a se apaixonar pelo seu Vale do Paraíba. E me incluo entre os tais.
“Da minha janela na Roseira Velha, quando eu abro de manhã, eu faço meu diálogo com o mundo. É indiferente morar em Roseira Velha, Rio de Janeiro, Londres, Paris ou Roma; tudo é muito relativo. O que importo é o que faço no espaço onde moro; é a minha relação diária com as pessoas e com a cultura. Eu sempre digo que o meu país, antes de tudo é o Vale do Paraíba, inserido no Brasil. Estas fronteiras geográficas, estas raízes, que constituem a Serra da Mantiqueira, de um lado, e a Serra do Mar, do outro, elas impelem a minha caminhada e eu não saberia viver fora deste Vale do Paraíba“.
Pasin, em entrevista de 1987
Um vulto, um ícone a circular pelos corredores da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, sua segunda casa. Um idealista, um sonhador, crente que foi no potencial dos jovens para construção de um mundo melhor. Mais que de Humanas, um humanista por formação e de coração. História Regional foi sua praia, além de Paraty. Mestre em História do Brasil. O Vale do Paraíba, sua pátria (dizia ele), foi mais que um objeto de pesquisa: uma causa sagrada. E dela foi sumo sacerdote por décadas. Um apologista da nossa importância, por vezes ignorada. Criador do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), rebento que emergiu após o primeiro simpósio de história regional que promoveu, lá nos idos de 1972. Da cultura regional foi o defensor, o incentivador. Ajudou a fundar museus, arquivos públicos e a tombar imóveis, sobrados e fazendas. Ativista cultural e provocador. Um espírito inconformado e contestador, sujeito suspeito e subversivo para as autoridades que inventaram os Anos de Chumbo. Acabou preso no 5º Batalhão de Infantaria Leve de Lorena. Mas muito mais foi amado e querido. E por todos que tiveram o prazer de conhecê-lo: amigos, alunos, colegas, empresários, conhecidos e até pelos políticos.
Ruth Guimarães e Professor Pasin, dois ícones da cultura valeparaibana. Foto: Botelho Netto.
Um legítimo cavalheiro que levava luz aonde ia, com bom humor, simpatia, cordialidade. Foi ecologista quando isso ainda era novidade. Para ele, já naquele tempo, o cuidar do ambiente era uma questão ética. E olha que ninguém se preocupava com aquecimento global… Abnegado, um verdadeiro mecenas, a colocar suas posses e bens em favor das grandes causas de seu tempo e suas: luta pela preservação ambiental e pela memória e história do Vale do Paraíba. Um intelectual completo e, ao mesmo tempo, um signo de contrariedade a esse tipo, pois sempre foi uma pessoa amável e simpática.
Monarquista convicto, porque via no antigo regime fonte de legitimidade, identidade e apreço histórico. Na política foi do Partido Verde, um defensor das minorias e da socialdemocracia. Estudou os indígenas, os negros, os tropeiros, os pobres, as mulheres, a classe média, os barões do café do Vale de ontem. Sua sociabilidade e generosidade não se restringia ao trato, também adentrava no seu campo de estudo.
“Eu fiz o curso de História nos anos 60, me formei em 1962, na Faculdade Salesiana de Lorena, considerada, na época, uma instituição universitária de renome nacional. Como acontecia nas universidades do país, havia uma necessidade de se discutir a realidade brasileira, os problemas sociais, reforma agrária, situação da classe operária, da universidade… tudo isso já repercutia aqui, na Faculdade Salesiana”.
Pasin, em entrevista de 2004
Fez da sua Fazenda Boa Vista, em Roseira, reserva ecológica e faculdade. Um espaço de educação ambiental. Procurou viver aquilo que acreditava e pregava. Coerência foi a sua marca registrada.
Zé, como era chamado, tinha luz no nome. E teve luz na vida. E mesmo mais de uma década sem ele, um feixe irradia sobre todos os que debruçam na pesquisa histórica regional, pois ainda é fonte indispensável. E de tanta luz que esparramou, iluminou uma geração inteira de jovens estudantes de História, ávidos em desvendar os meandros, as circunstâncias históricas pretéritas. E esse lume não cessará tão logo.
“Eu tenho procurado ao longo da minha vida ser coerente. As coisas que eu penso, as coisas que eu digo, principalmente nas salas de aula, nos cursos que eu ministro, nas conferências, nas entrevistas e nas atitudes em relação à minha própria vida. Então, eu parto da ideia de que a minha vida é dedicada aos movimentos culturais e aos movimentos ambientalistas”.
Pasin, em entrevista de 1987
Paulista, natural de Aparecida, havia adquirido uma casa em Cunha pouco antes de morrer, vitimado por câncer. O Zé tinha a simplicidade dos caipiras e a sofisticação dos aristocratas. Queria descansar entre as montanhas e sentir o gostoso frio dos Mares de Morros. Todavia, o infortúnio não o permitiu e o nosso amigo Zé partiu. Deixando, além de muita saudade, uma vasta herança a todos nós: a imprescindível bibliografia histórica da nossa região. Lê-la é perpetuar a sua memória, honrar a sua vida de valor.
É, Zé, quero acreditar que você, agora um espírito iluminado, ainda caminha entre nós ou pela Estrada Real. Que habita, encantado, os velhos casarões que você lutou para que continuassem em pé, assombrando o descaso, a indiferença e os demolidores que se atreverem. Você sempre estará de alguma forma entre nós, com a mesma personalidade forte e presença marcante que tinha nas conversas, nos convivas, saraus, aulas, palestras, lançamentos de livros, coquetéis, conferências, escarafunchando arquivos empoeirados, criando coisas novas para preservar coisas antigas… E sempre com um largo sorriso.
José Luiz Pasin foi mais que um intelectual das letras e ideias. Engajou-se nos movimentos de preservação do patrimônio histórico, arquitetônico, cultural e ambiental do Vale do Paraíba. Foto: Botelho Netto.
Zé, Zé Luiz, professor Pasin, você fez História em todos os sentidos.
Com gratidão e admiração eterna, de um dos seus muitos ex-alunos.
No Centro UNISAL, de Lorena, Pasin, enquanto professor universitário, formou gerações de professores e historiadores da nossa região. Foto: Centro UNISAL – Lorena.
José Luiz Pasin (Aparecida – SP, 27 de agosto de 1939 – Guaratinguetá – SP, 11 de janeiro de 2008), foi um historiador, pedagogo, escritor, poeta, articulista e professor brasileiro. Confira abaixo um pouco da sua brilhante trajetória intelectual.
Instituições e organizações em que atuou: Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV) Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Centro UNISAL) – Lorena Professor de História de escolas públicas e de colégios privados do Vale do Paraíba Museu Frei Galvão – Guaratinguetá Academia Paulista de História Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo Colégio Brasileiro de Genealogia Instituto Histórico e Artístico de Paraty Instituto Genealógico Brasileiro União Brasileira de Escritores Conselho Regional de Museologia do Estado de São Paulo (COREM) Núcleo de Pesquisa Regional do Centro UNISAL Faculdades Integradas “Teresa D’Ávila” (FATEA) – Lorena Faculdade de Roseira (FARO) – Roseira
Revista e jornais para quem escreveu: Revista Ângulo Folha de São Paulo Valeparaibano
Prêmios recebidos: Prêmio Cultural “Eugênia Sereno” – 2001 Prêmio de História Regional – 2001
Livros e monografias (levantamento parcial) de sua autoria: Os Ciclos Econômicos do Vale do Paraíba (1962) Poetas de Guaratinguetá (1974) Algumas notas para a história do Vale do Paraíba: desbravamento e povoamento (1977) Poetas de Aparecida (1978) O Visconde de Guaratinguetá (1979) Guaratinguetá: tempo e memória (1983) Vale do Paraíba: ontem e hoje (1988) Pasin: cem anos de uma família italiana no Brasil (1988) Panorama da Literatura do Vale do Paraíba (1995) O Instituto de Estudos Valeparaibanos e a preservação do Patrimônio Ambiental e Cultural do Vale do Paraíba (1999) Barões do Café: titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista (2001) A Jornada da Independência (2002) O Outro Euclides: o engenheiro Euclides da Cunha no Vale do Paraíba, 1902-1903 (2002) Vale do Paraíba: a Estrada Real, Roteiros & Caminhos (2004) Catálogo da sala Euclides da Cunha (2005) Vale do Paraíba: história e cultura (2007)
Arte ilustrativa sobre a separação territorial que se fez em 1.785. Cunha desmembrava de Guaratinguetá e se tornava vila e município. Fonte: Jacuhy. Série: Hoje na História de Cunha
Em 15 de setembro de 1.785, a Freguesia de Nª. Sª. da Conceição do Facão se emancipava politicamente da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, constituindo-se a partir de então em município. Mudou de status e também de nome, passando a se denominar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, uma homenagem ao Governador da província de São Paulo na época, Capitão-General Francisco da Cunha e Meneses, o que sugere que o nobre militar português teve um papel decisivo no processo que culminou em nossa independência política e administrativa, que – certamente – sofreu forte oposição da elite guaratinguetaense, que não queria a secessão de uma de suas mais prósperas freguesias. Como uma vila do Estado do Brasil, colônia ultramar do Reino de Portugal, a elite cunhense foi incumbida de construir a Câmara, composta pelos “homens bons” (isto é, os ricos) e responsável pela administração da vila (o cargo de prefeito é invencionice republicana), a Cadeia Pública e o Pelourinho, símbolo do domínio português. Assim, estaria composta a organização do poder local, necessário para o funcionamento da vila dentro do sistema colonial. No Auto de Ereção da Vila de Cunha consta como motivos da criação da nova vila a numerosa população (para época) e a grande distância de Guaratinguetá, que dificultava o funcionamento da Justiça e do Governo Civil na Freguesia do Facão.
Antigo sobrado onde funcionava a Câmara, Fórum, Cadeia Pública (no térreo) e Prefeitura (com o advento do regime republicano). O velho sobrado, erguido no final do século XVIII, com grossas paredes de taipa de pilão, foi consumido por um incêndio criminoso em 1.961, levando consigo toda a documentação histórica de Cunha. Condenado e em ruínas, foi demolido. Hoje, no local, há a Delegacia de Polícia de Cunha. Foto: Arquivo do Museu Municipal Francisco Veloso. Data: década de 1.940.
O Auto de Ereção da Vila de Cunha foi muito celebrado pelos cunhenses. Assim que foi lido pelas autoridades, foi levado à Igreja Matriz, onde ficou exposto em frente ao Santíssimo Sacramento, sendo abençoado pelo vigário da paróquia. Toda a elite agrária se fez presente, juntamente com demais membros da sociedade local. A emancipação foi recebida com grande contentamento por todos.
Segundo pesquisa de VELOSO (2010), as autoridades constituídas da Vila de Cunha em 1.791 eram: Antonio José de Macedo – JUIZ ORDINÁRIO; José Borges dos Santos – VEREADOR; Antonio Monteiro de Gouvêa – VEREADOR; e Luiz Manoel de Andrade – PROCURADOR.
Cunha foi a primeiro município a se desmembrar de Guaratinguetá e será seguida por Lorena, três anos depois, em 1.788. Ao todo foram dezesseis desmembramentos (consequentes e subsequentes) da Vila originária. Os últimos municípios a se desmembrarem do que foi o antigo território da Vila de S. Antônio de Guaratinguetá foram Potim e Arapeí (de Bananal), ambos em 1.991.
Recentemente, em 2.017, após várias audiências públicas, a Câmara de Cunha retificou a data de aniversário do município, abandonando o tradicional 20 abril, e adotando o 19 de março como data festiva, alusão à fundação do município, tomando como marco a construção da Capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1.724. A retificação da celebração anual vinha sendo concitada pelo professor João Veloso em artigos publicados no “Jornal da Montanha” desde o início da década de 2.010. Entretanto, a sugestão só vai ganhar força após o aparecimento do grupo “Memória Cunhense”, no Facebook. Ali, em meio as postagens de fotos e fatos, a ideia vai repercutir e ganhar apoiadores, desejosos que o equívoco histórico fosse sanado. No começo do ano de 2.017, o professor, músico e historiador Victor Amato dos Santos tomaria a frente das audiências públicas, subsidiado e apoiado pelo próprio professor Veloso, explanando as razões e a necessidade da retificação da data de comemoração. O 15 de setembro de 1.785, data da emancipação política-administrativa, evento comemorado de praxe em outros municípios, será preterido em virtude do 19 de março de 1.724, data adotada como fundação do município. Houve quem discordasse desta data e preferisse aquela, porém a maioria da edilidade votou favorável à retificação para o dia 19 de março. O Projeto de Lei foi sancionado pelo Executivo Municipal, na íntegra, vigorando desde então.
Fontes: Fundação SEADE. Desmembramento dos Municípios Paulistas. Disponível em: http://www.seade.gov.br/visualizacao/desmembramentosp/. Acesso em 13 de set. de 2019. VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: 1600-2010. pp. 274-277.
Postagem feita originalmente na página Jacuhy, em 15 set. 2019, na série “Hoje na História de Cunha”.
Frango à Revolução, receita de Laura de Azevedo Fontes. Foto: Walter Morgenthaler.
“Eu ando de quarqué jeito, de butina ou de chinela
Na roça si a fome aperta, vou apertano a fivela
Mas lá no meu ranchinho, a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela (...)”
(Franguinho na panela, música composta por Moacyr dos Santos e Paraíso)
Final de setembro de 1932. Chegava a primavera no Vale, época de arar a terra e semear para aproveitar a época das águas. Mas naquele ano de 1932, especificamente naquele ano, as terras de todo o Vale do Paraíba já haviam sido lavradas por trincheiras. Plantações de capacetes de aço, caules fardados de cor cáqui, de cujo punho brotam fuzis. Rumorosas e sangrentas eram aquelas lavouras adubadas à pólvora… Grande sofrimento para as mães dos soldados que não voltaram, grande sofrimento para o povo do lugar sem poder plantar… O mundo tinha virado de pernas para o ar.
Não só a estação havia mudado, mas a sorte e o ânimo dos paulistas. Já se delineava o resultado do embate, apontando a vitória das tropas da ditadura. Em menor número e sem munição, os paulistas recuavam em direção à sua capital.
Foi no dia 15 de setembro o recuo mais dramático da guerra perdida, quando abandonaram a cidade de Lorena. Os paulistas, constitucionalistas, vendo o cerco se fechar, adotaram como tática a “terra arrasada”, para retardar e enfraquecer as linhas outubristas. Dos gêneros e víveres que para tropa inimiga poderia ser comida, nada restou. Não sabiam os combatentes que com essa ação insensata, recairia a carestia muito mais sobre o valente povo paulista do que sobre os soldados da ditadura. Do pouco que ainda tinham, foram forçados a ceder às tropas famintas de pão e sangue, que invadiam sem pedir licença, fiéis representantes que eram do regime do arbítrio. Para nosso desgosto, a linha de defesa se contraiu, atingindo a estação ferroviária de Engenheiro Neiva, na velha cidade de Guaratinguetá. Essas novas trincheiras, cavadas na iminência da derrota, foram a “musa” de Guilherme de Almeida, no épico “Oração ante a Última Trincheira”.
Laura de Azevedo Fontes. Foto: Walter Morgenthaler. Ano: 1998.
E foi no alvoroço desses acontecimentos e contratempos, que Laura de Azevedo Fontes, uma moça de 14 anos na época, recebeu – com a bravura que é própria das mulheres paulistas – um contingente grande de incômodos visitantes, ameaçando o saque, exigindo a boia ou o fogo grassaria pela Fazenda do Sertão, em Cachoeira Paulista, onde ela e a família estavam refugiados naqueles dias de setembro. Sacando o que tinha na dispensa (leite talhado) e o que restava no terreiro (galinhas velhas), na base do improviso e na boa mão que Deus lhe para os temperos, nasceu um prato novo para acalmar o estômago das tropas: um frango frito à moda da Revolução. A receita agradou paladares e amansou o ânimo dos soldados. Cessado os embates, abaixada a poeira, a receita foi sendo repassada e replicada, geração após geração, até chegar até nós. Revoluções findam-se; a gula, nunca.
Frango à Revolução
1 frango caipira (ou de granja) grande, cortado em pedaços
2 colheres (sopa) de suco de limão
3 dentes de alho amassados
1 folha de louro picada
Sal e pimenta a gosto
4 colheres (sopa) de óleo de urucum (ver receita abaixo)
2 cebolas grandes, cortadas em rodelas
3 xícaras (chá) de coalhada
4 colheres (sopa) de cheiro-verde picado
Modo de preparo:
Em uma tigela, tempere o frango picado com o suco de limão, o alho, o louro, o sal e a pimenta a gosto. Cubra e deixe descansar por 3 horas ou de um dia para o outro, para o frango pegar melhor o tempero.
Aqueça o olho de urucum em panela, em fogo alto. Junte o frango e deixe dourar. Acrescente a cebola e refogue até ficar macia.
Adicione a coalhada, misture, tampe e deixe ferver. Reduze o fogo e cozinhe, mexendo de vez em quando, até o frango ficar macio.
Acrescente o cheiro-verde e misture. Prove o tempero e, se for necessário, junte mais uma pitada de sal e pimenta a gosto. Tire do fogo, passe para uma travessa e sirva.
Rendimento: 6 porções.
Como temperar o óleo com urucum:
5 colheres (sopa) de sementes de urucum
2 xícaras (chá) de óleo
Ponha o óleo em uma panela e misture as sementes de urucum. Mexa e aqueça em fogo alto até o óleo ficar bem vermelho. Tire do fogo, deixe esfriar e coe, para retirar as sementes do óleo. Reserve o óleo temperado para utilizar em outras preparações.
O urucum e a coalhada dão cor e sabor ao frango à Revolução. Um delicioso prato histórico!
Fonte: FERNANDES, C. A Culinária Tradicional Paulista nos hotéis SENAC São Paulo. São Paulo: Editora SENAC, 1998. pp. 74-75.
Postagem da série “Hoje na História de Cunha”, da página Jacuhy, no Facebook.
Lagoinha possui uma história peculiar. Após conquistar sua autonomia política em 19 de fevereiro de 1.900, através da Lei n.º 38, quando a Vila de Lagoinha foi elevada à condição de município, mesmo ainda sem se constituir uma comarca, em 21 de maio de 1934, através do Decreto-Lei n.º 6.448, Lagoinha voltou novamente à condição de distrito, só que dessa vez do município de Cunha. Certamente que a decisão pegou todas as autoridades municipais de surpresa, tanto as cunhenses quanto as lagoinhenses. Cunha possuía um território enorme para uma Prefeitura com baixa arrecadação e Lagoinha jamais imaginaria que retornaria a distrito, muito menos de Cunha.
A decisão veio de uma canetada do interventor federal (que era nomeado pelo chefe de Estado) no estado de São Paulo, Armando de Salles Oliveira. Na época estávamos na vigência do Governo Provisório da Era Vargas, em sua fase final, instalado logo após a Revolução de 1.930. Salles evocava o decreto fundante da instituição do governo revolucionário de 1.930 (Decreto n.º 19.398, de 11 de novembro de 1930) para assinar o decreto-lei que extinguiu diversos municípios de São Paulo. Salles era um liberal, sócio do jornal “O Estado de S. Paulo”, apoiou o golpe de 1.930 e, descontente com a demora das eleições, apoiou a Revolução de 1.932. No entanto, em 1.933, Vargas, então chefe de Estado “provisório”, visando acalmar os ânimos paulistas após a guerra civil, nomeou-o para interventor federal em São Paulo e deixou claro que estava elevando ao cargo máximo do estado um aliado dos constitucionalistas, que haviam sido derrotados no campo militar. Em 1.935, Salles seria eleito governador de S. Paulo, já na fase constitucional da Era Vargas. Sonhava em ser presidente e concorreria nas eleições marcadas para 1.938, mas seu projeto político foi interrompido com a implantação do Estado Novo em 1.937 e suspensão das eleições e a implantação de uma ditadura protofascista. As razões alegadas por Salles para extinção de Lagoinha e mais 17 municípios paulistas constam nas considerações iniciais do Decreto: “não pódem, com seus proprios recursos, manter os encargos decorrentes de suas administrações, devido á exiguidade das respectivas rendas; considerando que a renda anual desses municipios, inferior a 25:000$000 (vinte e cinco contos de réis), em alguns deles não atinge a 10:000$000 (dez contos de réis), e é, na sua maior parte, aplicada somente com as despesas do funcionalismo, sem vantagem para os serviços publicos; considerando que é de toda a conveniencia a anexação desses municipios a outros mais prosperos e de melhores condições financeiras (…)”. Ou seja, as razões apresentadas parecem atender a um receituário liberal para Economia, visando corte de gastos públicos, diminuição do tamanho e presença do Estado e redução do funcionalismo, não muito diferente da PEC (Projeto de Emenda Constitucional) do Pacto Federativo, que o Governo Federal atual planeja implantar.
A anexação de Lagoinha a Cunha não agradou os lagoinhenses e luizenses. A comunicação entre Cunha e Lagoinha era péssima, feita por estradas de tropas e sempre em péssimas condições. Fora a distância. Enquanto São Luiz estava a 24 Km de Lagoinha, Cunha se encontrava a 45 Km. Parece que ao dar a canetada, olharam no mapa e acharam fazer sentido que, por Cunha ser maior e fazer fronteira com Lagoinha, a integração ocorreria naturalmente e sem problemas. Os luizenses, que tinham interesses políticos e comerciais em Lagoinha, também não gostaram do novo arranjo territorial. Em Lagoinha um movimento contrário a essa anexação foi encetado por Pedro Alves Ferreira, o “Pedro Mané”, um comerciante local. O movimento foi reforçado pela chegada do novo padre, Francisco Eloy de Almeida (Padre Chico), que passou a fazer coro contra a perda de autonomia e a distância do distrito da sede municipal. Um plebiscito chegou a ser organizado, visando tornar o distrito como parte de São Luiz.
Somente com a nova divisão administrativa do estado, fixada em 1.944, Lagoinha voltou a fazer parte do município de São Luiz. Para Cunha, como o contato com Lagoinha era mínimo, pouca diferença fez, tanto em sua vida política (engessada pelo Estado Novo) quanto na sua economia. Mas a luta dos lagoinhenses prosseguiu, com o intuito de reconquistar a autonomia administrativa. Em 23 de dezembro de 1.953, após muita luta política, Lagoinha reconquistou a sua emancipação territorial e administrativa. Diz a Lei Estadual n.º 2.456/1953 nas suas notas finais: “141 – O município de Lagoinha é restabelecido, com séde na vila de igual nome e com o território do atual distrito.” Foi decisivo o apoio de dois deputados estaduais à causa de Lagoinha, a saber, André Broca Filho e Alfredo Farah. Devido à emancipação política, em 03 de outubro de 1.954, foram realizadas as eleições para os cargos de prefeito, vice-prefeito e para composição da Câmara. Lagoinha contava, à época, com 1.094 eleitores legalmente inscritos. No dia das eleições compareceram e votaram apenas 787 eleitores, elegendo o prefeito: Pedro Alves Ferreira (PSD) (candidato único), com 710 votos; o vice-prefeito (na época, o vice era eleito separado do prefeito): José Maria Landim (PSD), com 542 votos; e os vereadores: José de Oliveira Santos (PSP), Geraldo Pereira Coelho (PSP), Albertino José Ferreira (PSP), Antônio Alves da Rocha (PSP), Bento Januário de Gouveia (PSP), Geraldo Antônio de Souza (PSD) e José Gonzaga de Campos (PSP). Sua reinstalação verificou-se no dia 01 de janeiro de 1955.
Assim, nesses 10 anos (1.934-1.944), por ser distrito de Cunha, tal como Campos de Cunha é hoje, Lagoinha era parte de nosso território em 1.940, quando o IBGE realizou seu recenseamento. Isso explica a queda de população verificada entres os Censos de 1940, quando Cunha teve uma contagem de 24.818 habitantes, e 1.950, quando o verificou-se um contingente menor, com 20.784 habitantes. Evidentemente que, embora o êxodo rural já estivesse em curso, a queda foi causada pela perda de território e da população residente nele. A aparente estabilização populacional de Cunha, a partir de meados do século XX, encoberta os impactos do êxodo rural na nossa estatística demográfica. As perdas migratórias expressivas que o município passou não se refletem negativamente nos recenseamentos, pois como a taxa de natalidade e fecundidade eram muito altas, compensava os impactos demográficos do êxodo na população total e mantendo a população em torno dos 20 mil habitantes.
Ano passado, na PEC do Pacto Federativo sugerida pelo Ministério da Economia, havia a proposta de que municípios pequenos e com baixa arrecadação perdessem sua autonomia política e passassem a integrar, como distrito, outro município mais sustentável. Essa proposta, bastante polêmica por sinal, visava reduzir o tamanho do Estado, com cortes de gastos públicos, objetivando o equilíbrio fiscal. A alegação do ministro neoliberal Paulo Guedes era que esses municípios pequenos eram caros demais para sua manutenção e funcionam como cabides de empregos públicos para cidades pequenas, que não buscavam outro meio de se desenvolver e aumentar sua arrecadação e obter, desse moto, autonomia financeira em relação aos Estados e União. Obviamente que a proposta foi rechaçada pelos deputados, com medo de perder votos em seus nichos eleitorais, além daqueles que apontavam a importância do Estado se fazer presente nos municípios pequenos e pobres, com equipamentos públicos e prestação de serviços básicos, contendo assim a migração maciça para cidades maiores e reduzindo as desigualdades sociais. Entre os municípios que poderiam perder seu status político na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte estava Lagoinha. Muito provavelmente, se vingasse PEC liberal, retornaria a São Luiz do Paraitinga na condição de distrito.
Com o município de Lagoinha, Cunha divide além do território, parte de sua história, e muitas manifestações culturais e tradicionais, que caracterizam a Paulistânia, manjedoura da cultura caipira.
Fontes: ALESP. Decreto n. 6.448, de 21 de maio de 1934: Extingue os municipios de Araçariguama, Buquira, Capoeiras, Espirito Santo do Turvo, Igaratá, Iporanga, Jataí, Lagoinha, Pilar, Pinheiros, Platina, Redenção, Ribeira, Ribeirão Branco, Ribeirão Vermelho, Sarapuí, Santa Cruz da Conceição e Vila Bela, e dispõe sobre sua anexação a outros municipios. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/…/1934/decreto-6448-21.05.1934.html >, acesso em: 18 mai. 2020. ALESP. Decreto-Lei 14.334, de 30 de novembro de 1944: Divisão administrativa e judiciária do Estado. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/…/decreto.lei-14334-30.11.1944.html >, acesso em: 20 mai. 2020. ALESP. Lei n. 2.456, de 30 de dezembro de 1953: Dispõe sôbre o Quadro Territorial, Administrativo e Judiciário do Estado, para o quinquênio 1954/1958 e dá outras providências. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/…/lei/1953/lei-2456-30.12.1953.html >, acesso em: 21 mai. 2020. IBGE. Cidades: História & Fotos. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/lagoinha/historico >, acesso em: 19 mai. 2020. SANTOS, Rosângela I. T. C. dos. As capelas de roça no município de Lagoinha, SP. Lagoinha (SP): Clube de Autores, 2008.
Foto: Ana Maria Coelho Moura (Ana do Zé Robertinho), da Festa do Divino de Lagoinha em 1.966, publicada no blog da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Lagoinha – SP. Disponível em: < http://pnscl.blogspot.com/…/fotos-dia-da-festa-do-divino-es… >, acesso em mai. 2020.
Igreja Matriz e Cachoeira Grande: cartões-postais de Lagoinha, no interior de São Paulo.
1. RELIGIÃO: É o município mais católico de São Paulo. Em termos percentuais, segundo o Censo 2010, 93,4% dos lagoinhenses se declaram católicos romanos. Valor relativo bem acima dos registrados no estado e no país. O segundo município mais católico do estado é Ribeirão dos Índios, no Oeste, com 89,1%. 2. PADRES: Devido à importância da religião junto aos seus moradores, em Lagoinha os padres sempre tiveram um papel social e político relevante, destacando-se dois deles: padre Francisco Eloy de Almeida (Padre Chico) e padre Osmar Barbosa, ambos mineiros e já falecidos. O primeiro chegou a Lagoinha em 1.937. Logo se tornou líder religioso, comunitário e político, um defensor da fé e muito querido junto ao povo. A principal escola da cidade faz homenagem à sua figura. O segundo também foi um líder comunitário e muito conhecido e querido não só pelo povo de Lagoinha, mas por muitas pessoas do Vale. Sua clarividência, sempre negada por ele, e seus aconselhamentos eram considerados divinos e eram buscados por muitas pessoas que passavam por problemas. Também era um dos devotos da Menina Izildinha, uma menina nascida em Portugal em 1897 e falecida com apenas 13 anos vítima de leucemia e considerada santa. O catolicismo popular também é muito forte em Lagoinha e há entre muitos moradores a devoção à Sá Mariinha das Três Pontes (Maria Guedes), curandeira e vidente cunhense, considerada santa por muitos. Essa devoção é resultado da proximidade do bairro da Três Pontes com a zona rural lagoinhense, onde muitos moradores visitavam e se consultavam com Sá Mariinha. 3. PADROEIRA – A padroeira de Lagoinha é Nossa Senhora da Conceição. Lagoinha se tornou freguesia de São Luiz em 26 de março de 1.866. Por freguesia se entende paróquia, ou seja, a antiga capela passou a contar padre regular. A capelinha foi construída em meados do XIX, sendo que por volta de 1.863, a imagem da Virgem da Conceição foi trazida por tropeiros de Portugal, segundo a tradição, a pedido da família dos “Antocas” (os irmãos Joaquim e Francisco Antônio Ribeiro e Antônio Alves da Silva e suas respectivas esposas, antigos sesmeiros). Aliás, é a mesma padroeira de Cunha. Isso se deve à influência dos portugueses, pois a devoção à Imaculada Conceição, padroeira da nossa antiga Metrópole, é bastante antiga e interligada a própria história do país ibérico, sobretudo com os grandes acontecimentos decisivos para a independência e identidade nacional durante a Reconquista. Consta como um dos atos fundantes de Portugal, uma Missa pontifical de ação de graças, em honra da Imaculada Conceição, que foi celebrada em Lisboa, recém conquistada aos islâmicos, em 1.147, pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques. 4. NOME: O nome Lagoinha tem relação direta com sua origem tropeira. A palavra “lagoinha” é um diminutivo de “lagoa”. Consta que o sítio onde está a cidade foi, desde o século XVII, um pouso de tropeiros. Estes usavam o lugar como paragem e ponto de apoio, em suas viagens comerciais entre as fazendas, vilas, portos e freguesias coloniais. E nesse lugar, por ser um ponto de descanso e reabastecimento, existia uma pequena lagoa, que servia como bebedouro para as tropas e para uso dos tropeiros, daí então vem o nome que os tropeiros batizaram o lugar: “Pouso da Lagoinha”. Em 1.863, chega na região a família dos “Antocas”. Oriunda de Ubatuba, essa devota família, assim que chegou para a sesmaria que havia recebido, resolveu doar uma gleba de terra no entorno do pouso, para que ali se construísse uma capela dedicada à Virgem Imaculada. Casa após casa, no entorno dessa capela começou a surgir o que viria a ser hoje a cidade de Lagoinha. 5. ELEITORES: Lagoinha possui mais eleitores do que habitantes. Em 2018 eram 5.041 eleitores para uma população total de 4.896 habitantes, segundo estimativa do IBGE para o ano de 2019. Apesar dessa situação causar estranheza e desconfiança, não há nada de errado com ela. É típica de municípios que sofrem perda de população por migração intermunicipal e êxodo rural, como ocorre aqui no Alto Vale do Paraíba, onde a mudança de município de residência não é acompanhada pela mudança de domicílio eleitoral. As pessoas mudam de cidade, mas preferem continuar votando na cidade natal, aproveitando a eleição para rever a família e amigos ou mesmo para participar do pleito no lugar onde possuem relação mais próxima com a política. Cunha também possui um número elevado de eleitores, se comparado à população residente. Consequentemente isso acaba gerando uma alta taxa de abstenção, por essa razão o Tribunal Regional Eleitoral tem sido mais exigente no recadastramento eleitoral no que concerne à comprovação de residência. 6. TAUBATÉ: Atualmente o município possui uma forte ligação e dependência em relação a Taubaté, apesar dos laços históricos e da maior proximidade com Guaratinguetá. Essa ligação com Taubaté se estreitou a partir de 1.981, com a pavimentação da Rodovia Nelson Ferreira Pinto (SP-153), que liga a cidade de Lagoinha com a vizinha São Luiz do Paraitinga. 7. FAZENDAS: Apesar da sede da Fazenda Santana ficar no município de Cunha, próxima à divisa com Lagoinha, os seus donos sempre tiveram mais ligação com Lagoinha e São Luiz do que com Cunha, com destaque para o coronel (da Guarda Nacional) Manoel Antônio Domingues de Castro, figura política importante no passado lagoinhense. Em 1.873, ocupava o cargo de subdelegado na então freguesia pertencente a São Luiz do Paraitinga. Chegou a ser deputado estadual em 1.907. E em 1.892 conseguiu que fossem transferidas para a Vila de Lagoinha as terras de suas fazendas, a saber: as fazendas “Santa Anna” (pertencente a São Luiz do Paraitinga na época) e “João Ferraz” (atual bairro do Ferraz, município de Cunha). Com o advento do República, acabou por prevalecer o princípio da divisa intermunicipal por vertentes e não a partir de interesses particulares. 8. FRONTEIRAS: Vários bairros rurais de Cunha se comunicam mais com Lagoinha do que com nossa cidade. Isso se deve à proximidade e facilidade de acesso com a cidade vizinha. Por estarem na região de fronteira, é mais fácil ir até Lagoinha do que vir até Cunha. É o caso, por exemplo, do bairro do Barro Vermelho. Geograficamente, é Cunha; no entanto, os moradores votam, estudam, fazem consultas médicas, negócios e compras em Lagoinha. Por conseguinte, gera atrito entre as duas prefeituras, pois ambas querem se livrar da prestação de serviços públicos a esses moradores, que no final acabam sendo prejudicados e tendo que reivindicar seus direitos por causa de sua localização. Claro que, do ponto de vista legal, o atendimento aos moradores compete à Prefeitura de Cunha, pois estão dentro de nossa circunscrição territorial e nos recenseamentos, que servem de base para o repasse de verbas estaduais e federais, os moradores entram na soma da população de Cunha. Nos últimos tempos, acordos entre as duas prefeituras têm sido feito no tocante à manutenção das estradas rurais, principal queixa desses moradores. 9. TURISMO: A Cachoeira Grande, no bairro do Faxinal, é o principal ponto turístico de Lagoinha. Com 38 metros de queda livre, é uma das maiores e mais bonitas da região. A cachoeira é formada pelo rio do Pinhal, afluente do rio Paraitinga, que corta o município no sentido oeste-leste. Lagoinha está cercada por duas serras: a do Quebra-Cangalha (Serra Fria ou dos Forros) ao norte e ao sul a do Mar (Serra do Alto do Chapéu). 10. TRADIÇÃO: Lagoinha é uma das cidades mortas do Vale Paraíba, tão bem descritas pela narrativa ácida de Monteiro Lobato. Assim como Cunha, o município entrou em estagnação econômica com a subutilização dos caminhos serranos para escoamento da produção valeparaibana, depois da inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil e com o fim do ciclo do café na nossa região. Atualmente conta com 220 estabelecimentos agropecuários, uma produção leiteira de 25 mil litros por dia e mais 20 mil cabeças de gado. É uma das maiores bacias leiteiras do estado e um dos centros da pecuária de corte da RM do Vale do Paraíba. Se no passado a falta de indústrias e a perda de dinamismo econômico eram entraves, hoje o fato de ser uma cidade bucólica e distante dos grandes centros industriais é um fator que impulsiona o turismo rural e o ecoturismo, atraindo visitantes ansiosos para explorar as belezas com que Lagoinha foi, generosamente, agraciada pela natureza. E tudo isso em um lugar que vem conservando a fé, a tradição e os valores que, repassados geração a geração desde tempos imemoriais, fez esse rincão de São Paulo ser um bastião da mais autêntica cultura paulista.
Mapa e dados de Lagoinha – SP. Cartografia: Jacuhy.
FONTES: A religiosidade de Lagoinha, SP. Trip Rural, 30 ago. 2019. Disponível em: < http://www.triprural.org.br/a-religiosidade-de-lagoinha-sp/>, acesso em: 18 mai. 2020. ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO (ALESP). LEI N. 22, DE 26 DE MARÇO DE 1866. Eleva à categoria de freguesia a capela de Nossa Senhora da Lagoinha, e autoriza o governo provincial a determinar as divisas entre essa Freguesia e os municípios de São Luiz, Cunha, Guaratinguetá e Pindamonhangaba. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/…/…/lei/1866/lei-22-26.03.1866.html, acesso em: 20 mai. 2020. ______. LEI N. 85, DE 6 DE SETEMBRO DE 1892 (Transfere para a villa de Lagoinha fazendas do cidadão Manoel Antonio Domingues de Castro). Disponível em: <http://www.al.sp.gov.br/…/l…/lei/1892/lei-85-06.09.1892.html>, acesso em: 19 mai. 2020. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Lagoinha: São Paulo. Rio de Janeiro: IBGE, 1973. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Y-D-III-2. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/…/GEBIS%…/SF-23-Y-D-III-2.jpg>. Acesso em: 19 mai. 2020. ______. Mapa Municipal Estatístico: Lagoinha – SP. Escala: 1: 50.000. IBGE, Rio de Janeiro: 2011. Disponível em: <ftp://geoftp.ibge.gov.br/…/mapas_municip…/sp/lagoinha_v2.pdf>, acesso em: 20 mai. 2020. ______. Produção da Pecuária Municipal 2018. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. INSTITUTO CHÃO CAIPIRA MALVINA BORGES DE FARIA. Lagoinha. Disponível em: <http://www.chaocaipira.org.br/cidades/lagoinha>, acesso em: 20 mai. 2020. LUNÉ, Antônio J. B. de; FONSECA, P. D. da. Almanak da Província de São Paulo para 1873. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado, 1985. PREFEITURA MUNICIPAL DE LAGOINHA. Turismo religioso. Disponível em: <https://www.lagoinha.sp.gov.br/…/…/0/9/858/Turismo-Religioso>, acesso em: 20 mai. 2020. SANTOS, Rosângela I. T. C. dos. As capelas de roça no município de Lagoinha, SP. Lagoinha (SP): Clube de Autores, 2008. SILVA, Altair V. da. Lagoinha – SP: sua origem e razões de sua localização. Disponível em: < https://youtu.be/tOxP5oJ_ySE>, acesso em: 18 mai. 2020. SPINELLI, Evandro. Osmar Barbosa (1928-2011): padre Osmar, o milagreiro que previa o futuro. Folha de S. Paulo. Cotidiano. Obituário. São Paulo, 7 nov. 2011. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0711201115.htm>, acesso em: 20 mai. 2020. VELOSO, João J. de O. Fazenda Sant’anna – Roteiro Turístico e Histórico de Cunha. Cunha: Museu Municipal Francisco Veloso, dez. 2019. Disponível em: <https://www.facebook.com/joaoveloso.veloso.5/posts/10206544664212941>, acesso em 19 mai. 2020.
Estudo coordenado por Carlos Cesar Ronquim, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Territorial, apontou que a área ocupada por eucalipto no Vale do Paraíba, em sua porção paulista, saltou de 35.200 hectares em 1.985 para 113.600 hectares em 2.015, ocupando uma área equivalente ao município de São José dos Campos, o segundo maior de nossa região. Um aumento de 323% ao longo de 30 anos. Em 1.985, 2,5% da área total da nossa região estava ocupada por eucaliptos. Em 2.015, esse percentual chegava aos 8,1%da total área do Vale do Paraíba paulista. Esse aumento se reflete na paisagem regional. Todos os habitantes adultos do Vale, os nativos daqui pelo menos, já perceberam esse aumento explicito e visível nos seus lugares e municípios, principalmente a partir das primeiras décadas do século XXI. Seria o eucalipto o novo café?
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 1985. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016.
O aumento da área ocupada pela silvicultura de eucalipto foi acompanhado pela queda das áreas ocupadas por pastagem, solo exposto e atividades agrícolas, conforme pode ser verificado nos mapas que ilustram este artigo. A área ocupada por pastagem ainda ocupa a liderança, com 652.600 hectares, correspondendo em termos relativos a 46,7% do total. Todavia, há 30 anos correspondia a cerca de 68% da área total da região, o que demonstra o quanto o ambiente natural estava degradado pela pecuária e agricultura extensiva tradicional. A área com solo exposto sofreu uma ligeira queda, caindo de 3,7% para 3,3% em 2.015, uma diminuição de 5.500 hectares. É uma constatação positiva, pois a exposição do solo é um agravante ambiental, porque geralmente desencadeia processos erosivos, lixiviação etc. Por fim, a área ocupada por atividades agrícolas também retraiu, saindo de 51.300 hectares em 1.985 para 36.500 em 2.015. Em termos relativos ocupava 3,6% da área total e em 2.015 passou a ocupar 2,6%. Forte indicar que o ciclo agrícola do Vale está em franco declínio, incapaz de concorrer com outras áreas do Brasil, onde impera uma agricultura mecanizada, com produção em larga escala e voltada à exportação.
O retraimento das áreas de pasto e plantação foi sucedido por um aumento da ocupação por matas nativas. Um salto de 249.500 hectares em 1.985 para 455.200 hectares em 2.015. Assim, a cobertura florestal sobre a nossa região aumentou de 17,8% em 1.985 para 32,6% em 2015. Uma constatação auspiciosa e que indica que nem só de más notícias vive a Mata Atlântica. Com o progressivo aumento regional das taxas de urbanização, a área ocupada por construções também aumentou de 38.500 hectares para 63.600 hectares, chegando a uma ocupação de 4,6% da área total do Vale em 2.015. O aumento da mancha urbana das urbes valeparaibanas se dá pelo crescimento da população citadina e pelo forte êxodo rural, que ainda não se esgotou em nossa região. Esvaziam-se os campos; incham-se as cidades. Um reflexo da situação nacional em escala regional.
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 2015. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016
O esvaziamento do campo valeparaibano paulista pode ser um dos fatores que levou ao aumentou da cobertura de mata nativa, indicando uma regeneração dos pastos sujos que, em 1985, correspondiam a 390.600 hectares, ou 27,9% da área total regional. A queda da quantidade das áreas agrícolas também se relaciona com o declínio da agricultura familiar na região e ao êxodo rural. Além do mais, principalmente nos municípios do Alto Vale do Paraíba, as propriedades agrícolas têm adquirido novas funções. Muitas se converteram em sítios de veraneio para pessoas advindas da Região Metropolitana de São Paulo. Outras têm se convertido em lugares para consumo do espaço, com a incipiente, mas promissora atividade turística regional (com exceção de Campos do Jordão, que já é um polo turístico há muitas décadas), com as práticas ecoturismo e turismo rural, que valorizam a existência de mata nativa e torna esse tipo de cobertura do solo um fator de agregação de valor. Há também um aumento da patrulha da Polícia Militar Ambiental, mas essa ação repressiva nunca gerou consciência, apenas medo e desconfiança, além de dividendos para o Estado, com as pesadas multas que aplicam.
O avanço do eucalipto se dá no mesmo contexto, mas parece ser causa do êxodo e não consequência. Essa cultura comercial avança no rastro de estagnação econômica deixado pelas atividades ligadas à agricultura familiar e à pecuária extensiva, cada vez menos lucrativas e cada vez mais inviáveis para as pessoas da roça. É impossível os agricultores e pecuaristas do Alto Vale, adeptos de técnicas rudimentares, competirem com os agricultores e pecuaristas de outras regiões do Brasil, que incorporam técnicas modernas, mecânicas e automatizadas na produção. Diante desse cenário, há um barateamento da propriedade agrícola regional, tornando-a interessante às grandes empresas de papel e celulose do Brasil, pois a região possui uma excelente localização, possui vasta malha rodoviária e está entre as duas maiores metrópoles do país e relativamente próxima aos centros industriais e aos portos. Uma vez adquiridas, sempre de vários proprietários do mesmo bairro e ao mesmo tempo, com intuito de pressionar – de forma covarde – os mais proprietários mais resistentes, ocorre a expulsão da população local, pondo fim à existência do bairro rural. Cria-se um verdadeiro “deserto verde”, levando a antiga propriedade familiar, passada de geração a geração, e que atendia ao mercado local e às necessidades familiares, a atender às demandas do mercado internacional, se articulando e se organizando a partir de uma lógica exógena e desvinculada totalmente do lugar. A celulose é um dos produtos de exportação do Brasil e sua venda tem sido destinada principalmente para a Rep. Popular da China, EUA e Países Baixos. Não é à toa que na vizinha São Luiz do Paraitinga (SP) já existe um movimento local de resistência ao avanço desenfreado da eucaliptocultura, causadora de impactos ambientais, sociais e na saúde do povo da roça, devido ao uso indiscriminado de formicidas e outros agrotóxicos em larga escala.
Afinal, quem realmente ganha com o avanço das plantações de eucalipto? A população do lugar eu sei que não é. Para os boias-frias, que são contratados de maneira precária por empresas terceirizadas a fim de realizar o plantio, o controle de pragas e a limpeza dos pés de eucalipto, eu aposto que não também. Já a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e a Suzano Papel e Celulose eu tenho certeza que sim. Quem mais?
Ou as saúvas acabam com os eucaliptos, ou as empresas de eucalipto vão acabar com todo universo caipira da região. Vida longa às saúvas!
Em um 18 de junho como esse, veio a bomba: Cunha é do Rio! Oh, céus, quem poderá nos salvar?
Em 18 de junho de 1.842, o Imperador Dom Pedro II baixou o Decreto n.º 180, transferindo Cunha e mais 6 municípios (Bananal, Areias, Queluz, Silveiras, Lorena e Guaratinguetá) para a Província do Rio de Janeiro. O objetivo era impedir que essas vilas caíssem em mãos dos rebeldes que se engajaram nas Revoltas Liberais de 1.842. Os sublevados haviam se apoderado de parte da Província de São Paulo. Caso essas vilas caíssem nas mãos erradas, a Coroa temia que isso dificultasse o avanço do Exército Imperial, já enviado para sufocar a rebelião. Conforme registrou SOUSA (1.843, p. 323): “Esses Municípios ameaçavão os limitrophes da Província do Rio de Janeiro, esforçando-se os agitadores para nelles soprar o espirito revolucionário”. No próprio Decreto há duas justificativas para tal degredo, a primeira alega que houve o interrompimento da comunicação entre as vilas valeparaibanas mencionadas e a capital provincial São Paulo. A outra diz tratar-se de “providencias tendentes a reestabelecer a ordem perturbada na referida Provincia pela rebellião, que ultimamente se manifestou em alguns lugares della (…)” (IMPÉRIO DO BRASIL, 1843, p. 321). Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses.
A Revolta Liberal estourou em São Paulo em 17 de maio 1842, no interior, em Sorocaba, onde Câmara proclamou Tobias de Aguiar e o ex-regente do Império o Padre Feijó, presidente e vice-presidente interinos de São Paulo, respectivamente. Tudo se deve à elevação da tensão entre os dois grupos políticos do Segundo Reinado, os liberais e os conservadores. Os centros da Revolta no “Norte” (como chamavam o Vale na época) da Província foram as vilas de Lorena e Silveiras, onde os liberais chegaram a tomar o poder. Nelas, o confronto militar foi inevitável, resultando em dezenas de mortos. Era necessário sufocar os rebeldes do Vale para evitar que apoio aos rebeldes aumentasse e ganhasse proporções maiores. Os liberais estabeleceram até uma capital provisória da Revolta, em Sorocaba.
O Exército Imperial veio pelo mar, com 400 homens, e “em São Sebastião desembarcou o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, com a missão de marchar em direção a Guaratinguetá e atuar como força de cobertura.” (DARÓZ, 2014). Os liberais, além de poucos, eram mal preparados. Muito ideal e poucas armas. Não lograram êxito em seus intentos.
A transferência de Cunha para o lado fluminense foi uma medida que teve caráter circunstancial desde logo, conforme diz o caput do próprio Decreto n.º 180, que já deixou a ressalva: “em quanto durarem as circunstancias extraordinarias (…)”. Sendo os ânimos apaziguados à base da espada pelo nosso Exército no final de julho, em 29 de agosto do mesmo ano, o Imperador revogou o Decreto n.º 180, baixando o Decreto n.º 216, que reestabeleceu os sete municípios ao território paulista, “por terem cessado os motivos que fizeram necessária a providência”, ordenando “que os ditos municípios fiquem”, de novo, “pertencendo à Província de São Paulo”. As tropas imperiais eram comandadas pelo então Barão de Caxias, figura que ganhará proeminência no sufoco dessas revoltas, sendo promovido a marechal-de-campo por Pedro II, em julho de 1.842, em virtude de seu sucesso militar.
Essa mudança de território pouco impacto histórico trouxe para a Vila de Cunha. Foi uma medida emergencial e com curta duração. Tinha caráter extraordinário, tomada em meio a um conflito militar que abalava a estabilidade política do Segundo Reinado. Apenas um evento desse período ficou marcado na nossa História, que foi o pernoite festivo do Barão de Caxias em Cunha, em julho de 1.842. Vitorioso, quando estava a passar pela Vila de Cunha, na rota para alcançar Paraty, desejava o Barão chegar à Corte. Mas permitiu-se parar no meio do caminho, já com a revolta sufocada em São Paulo, para um regabofe. Celebração, com ares bajuladores por parte da elite cunhense, pelo triunfo militar das tropas imperiais. A Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha era um reduto do Partido Conservador e os maiorais não se juntaram aos vizinhos rebeldes, mantendo-se leais ao Imperador. A comezaina varou a noite e ocorreu na única construção da vila que era digna de receber uma autoridade daquele quilate: o sobrado da praça Coronel João Olímpio, hoje propriedade da Prefeitura de Cunha. Será que serviram arroz com suã?
Referências:
DARÓZ, C. R. C. “As revoltas liberais de 1842: o Império consolidado”. Revista Militar, n. 2549/2550, jun./jul., 2014. Disponível em: < https://www.revistamilitar.pt/artigo/931 >, acesso em 9 mai. 2020.
IMPÉRIO DO BRASIL. Collecção das Leis do Imperio do Brasil de 1.842. Tomo V. Parte II. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1.843. Disponível em: < https://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/18442 > , acesso em jun. de 2020.
NOGUEIRA, O. Negro Político, Político Negro: A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, Parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992.
SOUSA, B. X. P. de. Historia da Revolução de Minas Geraes em 1842 : exposta em hum quadro chronologico, organisado de peças officiaes das autoridades legitimas, dos actos revolucionarios de liga facciosa, de artigos publicados nas folhas periodicas, tanto da legalidade como do partido insurgente, e de outros documentos importantes, e curiosos sobre a mesma revolução. Rio de Janeiro: Typographia de J. J. Barroso e Comp., 1.843.
Imagem: Mapa digitalizado da Província do Rio de Janeiro em 1.850. Título: “Carta topographica e administrativa da provincia do Rio de Janeiro e do Municipio Neutro [Cartográfico] : Erigida sobre os documentos mais modernos pelo Vc de. J. de Villiers de L’lle Adam”. Autor: Visconde de J. de Villiers de L’Ile-Adam. Imprenta: Rio de Janeiro, RJ : Garnier Irmãos, 1850. Disponível em: < http://objdigital.bn.br/…/cart67925/cart67925_9.html > , acesso em jun. 2020.
“Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba”. Data: década de 1840. Pintor: Miguelzinho Dutra. Fonte: Brasiliana Iconográfica.
Desde o século XVIII, o tropeirismo foi uma atividade econômica e um ofício. Eram eles que interconectavam as distantes vilas e freguesias do sertão com os portos de abastecimento e escoamento da produção no litoral. Era um serviço essencial. Antes deles, usavam-se escravizados, eram os lombos negros e indígenas que levavam mercadorias de um lugar para outro. Mas a limitação do peso da carga e o cansaço frequente dos transportadores, submetidos a uma atividade desumana, se constituíam em um embaraço logístico. Assim, as tropas de muares surgem como solução inevitável para essas questões, tornando a expansão espacial da colonização portuguesa, cada vez mais longe dos seguros portos, possível e sustentável. É a resposta do colonizador às dificuldades que o meio físico impunha à empresa metropolitana, que vai se dando lentamente, “com a consistência do couro, não a do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio.”, nos dizeres do brilhante Sérgio Buarque de Holanda. A tropa é parte dessa resposta.
A origem das tropas de muares se relaciona com a necessidade premente de abastecimento, à medida em que o povoamento se interiorizava no Brasil colônia. Assim, pode-se traçar um paralelismo com o tropeirismo e as atividades ligadas a mineração. Mas não só isso. Tanto é que vão permanecer atuantes e como profissão de prestígio, mesmo após o declínio da atividade mineradora. Em um universo marcado pelas lonjuras, pelas estradas péssimas, a comunicação entre os sítios, fazendas, povoados, freguesias, vilas e cidades dependia desse meio de transporte fundamentado na tração animal, nas trocas comerciais e na relação entre produção, escoamento e reposição. Por isso, até meados do século XX, com a expansão das rodovias, permanece como um ofício de extremo prestígio e rentável. Vai se constituindo em tradição passada de pai para filho, garantindo assim a formação de gerações familiares inteiras que tiveram a sua existência ligadas ao tropeirismo.
O tropeiro é uma sucessão social, uma evolução do bandeirante de outrora, conforme aponta HOLANDA (1994, p. 132-133): “Com as feiras de animais de Sorocaba, assinala-se, distintamente, uma significativa etapa na evolução da economia e também da sociedade paulista. Os grossos cabedais que nela se apuram, tendem a suscitar uma nova mentalidade na população. O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou mesmo a fraude, encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora. À fascinação dos riscos da ousadia turbulenta substitui-se o amor às iniciativas corajosas, mas que nem sempre dão imediato proveito. O amor da pecúnia sucede ao gosto da rapina […]”.
Era mais que só atividade econômica ou profissão, tal como conhecemos hoje, mas um modo de vida. E havia um jeito de ser. Eram “homens de palavra”. Se eles falassem, empenhavam-se ao máximo para cumprir. O valor moral de um homem se media pelo cumprimento das suas promessas. E foi assim que fizeram sua fama entre as mais distintas classes sociais e venceram o esquecimento imposto pelo tempo. Era gente rústica, mas nunca rude. Impressionaram o viajante e naturalista francês SAINT HILAIRE (1974, p. 27) com o fino trato que dispensavam aos demais: “As tropas passavam incessantemente pelo rancho. Em França, traria isto gritos, injúrias, disputas. Aqui, tudo se passa em paz. Todos trabalham sem o menor barulho. O mais sujo tocador de porcos fala com doçura e polidez. Trocam-se entre desconhecidos pequenos obséquios necessários, e todos vivem na melhor harmonia. Nos encontros das estradas, ninguém jamais deixa de saudar um viandante. Quando se vai tomar lugar num rancho, cumprimentam-se os primeiros ocupantes, e logo se trava a conversação.”
A necessidade de descanso das tropas de muares e de abrigo, levaram os tropeiros a fazer ranchos e estabelecer pousos ao longo dos trajetos. Habitações rústicas e coletivas, marcadas pelo contato, das trocas de ideias, saberes, costumes e informações. Ambiente de trocas e fermento de novos arranjos culturais. Diz SAINT HILAIRE (1974, p. 49): “quando chegam os tropeiros, arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar menor lugar possível. Cada tropa acende fogo, à parte do rancho e faz cozinha própria. Antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre a região que percorreram e falam de aventuras amorosas. Cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estriadas ao chão sobre couros”. A permanência transitória dos hóspedes não permitia melhoramentos outros. Tudo ali é funcional e sob medida. De muitos pousos se fizeram freguesias, vilas e cidades. Um exemplo é a vizinha Lagoinha. Devido à centralidade que exerciam nos tempos colonial e imperial, posição advinda da força econômica e da capacidade que tinham de integrar e suprir. Os ranchos e pousos eram os conectivos que davam ligamento à imensa rede de estradas e caminhos, em franca expansão, do continente.
Os pousos, os ranchos faziam parte desse maravilhoso universo, que vem lentamente desaparecendo… Ficam as memórias, o exemplo da saga, o saudosismo dos descendentes e tradicionalistas. Mas tudo o que podem fazer agora é rememorar. Jamais terá como reproduzir o que foi o tropeirismo. O contexto, o cenário, a sociedade, a economia, as múltiplas relações que moldaram esse jeito de ser, esse ofício, ficaram para trás. É página virada. Mas a força da memória, a necessidade de encontrar identidade em um mundo cada vez mais perdido, a busca de significado e ressignificações (com fins turísticos) ficará e poderá até se ampliar.
Referências:
DUTRA, M. Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba. [184-]. Aquarela sobre papel, 41,9 x 26,7 cm.
HOLANDA, S. B. de. Monções. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1945.
______. Caminhos e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
SAINT-HILAIRE, A. de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.
Após séculos de degradação, a Mata Atlântica mostra sinais inequívocos de recuperação no Vale do Paraíba, no caminho entre Rio de Janeiro e São Paulo. Nos últimos 50 anos, a vegetação nativa mais que dobrou. Em 1962, a área de Mata Atlântica se estendia por pouco mais de 200 mil hectares. Em 1995 esse número subiu para 350 mil hectares e, em 2011, para cerca de 450 mil hectares, o equivalente a 30% do território paulista do Vale do Paraíba. A reconstituição gradual e espontânea de parte da floresta parece ser resultado de uma convergência de fatores sociais, econômicos e ambientais, desencadeados a partir da década de 1950, conforme verificou o biólogo Ramon Felipe Bicudo da Silva, do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Universidade Estadual de Campinas (Nepam-Unicamp), em uma pesquisa de doutorado sob orientação do biólogo Mateus Batistella, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e do antropólogo Emílio Moran, da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos.
“A Mata Atlântica no Vale do Paraíba passa por um processo conhecido como transição florestal, quando há uma mudança nas características de uso da terra, saindo de um período de constante redução da vegetação nativa para outro de expansão natural das florestas originais”, explica Ramon. “Ali, a transição está relacionada ao abandono de áreas de topografia incompatível com a agricultura mecanizada, a projetos de preservação ambiental envolvendo o cultivo de eucalipto e à migração das populações rurais para grandes centros urbanos.” As conclusões se baseiam em imagens do satélite Landsat 5, em dados sobre o desenvolvimento industrial da região e em entrevistas com produtores rurais, pesquisadores de universidades, representantes de organizações não governamentais (ONGs) e de órgãos de governo.
Desde a colonização portuguesa, a Mata Atlântica foi submetida a longos períodos de uso intensivo e desregulado da terra. Foi assim à época da extração do pau-brasil e do cultivo de cana-de-açúcar, entre os séculos XVI e XVIII, passando pelos ciclos do ouro e do café e, mais recentemente, pela pecuária e expansão urbana. Hoje, a área de mata, que já ocupou mais de 1 milhão de quilômetros quadrados (km2) espalhados por 17 estados brasileiros, reduz-se a singelas manchas florestais de cerca de 50 hectares cada, segundo o último Atlas de remanescentes florestais da Mata Atlântica, da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A porção de floresta no Vale do Paraíba foi uma das mais atingidas. A região se tornou em fins do século XIX o eixo entre os dois maiores centros metropolitanos do país. A partir da década de 1920, começou a passar por um intenso processo de industrialização, consolidado com a inauguração da rodovia Presidente Dutra nos anos 1950 e a criação do complexo tecnológico-industrial aeroespacial de São José dos Campos. Ao analisar dados históricos e levantamentos estatísticos feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pesquisadores constataram que a urbanização da região, somada à perda de produtividade das pastagens, desencadeou um intenso fluxo de habitantes da zona rural rumo aos centros econômicos e industriais do Vale do Paraíba, como as cidades de Taubaté e São José dos Campos. “À medida que a industrialização e a urbanização se intensificaram, mudanças nas forças sociais e econômicas estimularam o abandono das terras agrícolas, sobretudo em áreas mais acidentadas”, explica Ramon. Alguns habitantes da região permaneceram em suas propriedades, mas deixaram de usá-las para a atividade agropecuária, passando a trabalhar nas cidades. “Esse tipo de fenômeno ajudou a criar as condições ideais para a regeneração natural da floresta”, comenta o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), especialista em recuperação florestal.
Entre as décadas de 1960 e 1980, a atividade agropecuária no Vale do Paraíba diminuiu 13%, o que contribuiu para a estagnação dos índices de desmatamento na região. Desde então, a Mata Atlântica iniciou um processo espontâneo de regeneração. Muitas terras abandonadas se converteram em pequenos bosques de vegetação secundária, resultando em um aumento da cobertura florestal.
Podcast: Ramon Felipe Bicudo da Silva
Para Emilio Moran, os resultados reforçam estudos que verificaram processos pontuais de regeneração natural da Mata Atlântica em outras regiões do Brasil. Um deles é um levantamento da SOS Mata Atlântica e do Inpe que registrou um total de 219 mil hectares de Mata Atlântica em recuperação em regiões antes ocupadas por pastagens em nove estados brasileiros, de 1985 a 2015. Esse fenômeno também foi observado em outros países. Em Indiana, nos Estados Unidos, parte da vegetação nativa no sul do estado foi convertida em cultivo de milho e soja em fins do século XIX, restando pouco mais de 5% da cobertura florestal original. “A produção depois migrou para áreas mais adequadas para o cultivo dessas culturas no norte do estado e, ao longo de quase um século, a vegetação se regenerou, dando origem ao que hoje são reservas estaduais”, explica Moran. Mais recentemente, em Medellín, na Colômbia, constatou-se que a vegetação nativa em áreas antes controladas pelo narcotráfico e usadas para a plantação de coca começaram a se regenerar após o fim dos conflitos armados naquela região do país.
PRODUÇÃO DE EUCALIPTO
Os pesquisadores também observaram que a regeneração florestal havia sido mais acentuada em áreas próximas a remanescentes florestais originais e em terrenos menos aptos à agricultura, próximos a escarpas e ribanceiras. “As áreas antes usadas como pastagem contribuíram com cerca de 75% para as novas áreas florestais nas últimas décadas no Vale do Paraíba”, afirma Mateus Batistella, da Embrapa. Também houve um aumento considerável de vegetação nativa em áreas hoje usadas para a plantação de eucalipto. A produção dessa árvore costuma ser associada à degradação do meio ambiente, seja pelo ressecamento do solo ou pela diminuição da diversidade biológica nas regiões onde é cultivada. Mas, no caso da porção paulista do Vale do Paraíba, explica o pesquisador, houve um impacto positivo na regeneração florestal: para poder plantar eucaliptos, os produtores precisam de certificações ambientais. Para obtê-las, foram obrigados a proteger fragmentos de vegetação nativa, que se ampliaram naturalmente com o tempo, e a restaurar áreas de mata ciliar, que também se tornaram florestas nesse período.
Cartografia da regeneração da Mata Atlântica. Pesquisa de Ramon Felipe Bicudo da Silva. Fonte: FAPESP.
O cultivo de eucalipto para a produção de celulose estabeleceu-se na região nos anos 1960, principalmente em áreas de pastagens abandonadas ou degradadas, como as encontradas nos municípios de Jambeiro, Natividade da Serra, Paraibuna, Redenção da Serra, Santa Branca e São Luís do Paraitinga. Juntas, essas seis cidades contribuíram para 53,8% da expansão do cultivo de eucalipto no Vale do Paraíba – de 13.115 hectares, em 1985, para 38.958 hectares, em 2011. Durante esse período, a cobertura florestal expandiu-se em 77%. Hoje, aproximadamente 89% da celulose produzida no Vale do Paraíba é vendida para mercados da China e Europa. A crescente demanda global por produtos sustentáveis vem forçando as empresas a seguir normas e práticas de gestão ambiental específicas para a obtenção de certificação ambiental. “Essas certificações são fundamentais para o mercado de commodities de celulose, contribuindo para que a plantação de eucalipto influenciasse positivamente a recuperação de matas nativas em seu entorno”, afirma Batistella.
FISCALIZAÇÃO AMBIENTAL
A partir de entrevistas com representantes de ONGs e mais de 90 produtores rurais do Vale do Paraíba, os pesquisadores identificaram outros elementos que contribuíram para a regeneração de parcelas de floresta na região. Uma delas é a Lei da Mata Atlântica, de 2006, que introduziu incentivos financeiros para projetos de restauração ambiental. Também a fiscalização feita nas últimas duas décadas pela Polícia Militar Ambiental (PMA) de São Paulo ajudou a coibir o desmatamento e as queimadas. De acordo com informações do banco de dados da própria PMA, pouco mais de 9.500 ocorrências de violações ambientais foram registradas na porção paulista do Vale do Paraíba entre 2003 e 2013, mais da metade envolvendo o corte ilegal de árvores. Ainda assim, a extensão das áreas afetadas pelo desmatamento teve uma redução considerável no mesmo período.
Muitas das ocorrências registradas foram denunciadas pela população. Segundo Ramon, ferramentas de governança como legislação, sanções e distribuição de materiais de orientação favoreceram o desenvolvimento de uma noção de cidadania ambiental e um maior engajamento em parte da população do Vale do Paraíba. “Os resultados sugerem o estabelecimento de uma relação positiva entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental na região, e que o processo de transição florestal pode ser acelerado por uma sociedade ambientalmente consciente”, afirma Moran.
O fenômeno do Vale do Paraíba pode orientar projetos de restauração florestal em áreas onde existam processos históricos e econômicos semelhantes. Já em regiões onde a mecanização agrícola é intensa e os poucos remanescentes florestais que sobraram são muito degradados, pode ser necessário investir em outras estratégias de restauração. “Nessas condições, outras iniciativas são recomendadas, como o plantio de sementes ou de mudas de espécies nativas”, diz Ricardo Rodrigues, da Esalq-USP.
Mar de morros da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. Foto: Frederico T. de S. e Miranda.
Por Ribeiro Couto *
Não sei a data precisa que começou a ficar nítida esta sensação de governar uma província própria, província que não corresponde à real “divisão administrativa” dos territórios que constituem, porque uns obedecem à soberania de São Paulo, outros à de Belo Horizonte e outros à de Niterói. Por alguns anos vivi em velhas cidades do Paraíba, não as mais notórias, senão as mais obscuras, fora da estrada de ferro, as que exigiam viagens a cavalo, ao sol e à chuva (São Bento do Sapucaí, Cunha, São José do Barreiro), passando à noite em ranchos de tropeiros. Foi nessas viagens que tive a revelação do virgem cheiro da terra orvalhada, pela manhã, quando as rolinhas andam ciscando pelo chão da estrada e o pesado voo dos viras mancha de preto o verde dos pastos. A seguir, fui morar no Sul de Minas e o sortilégio foi crescendo. Mais tarde, alguns anos no estrangeiro me ensinaram a unidade profunda daqueles vales (os de serra abaixo e os de serra acima) e verifiquei, maravilhado, que tinha dentro de mim toda uma província. Podem secretarias de segurança pública e repartições do tesouro, deste ou daquele Estado, distribuir forças de polícia e fazer coletas tributárias; é dentro de mim que está o governo desses rincões. A mim é que eles obedecem. Em mim é que confiam os povos. A mim é que devem as boas chuvas e as boas colheitas. Sou eu quem constrói em cada comarca o novo edifício de cadeia, onde aliás não quero nenhum preso; a cadeia é só para enfeitar o largo principal. Acompanha-me por toda a parte essa província feliz; é o meu verdadeiro chão. Se estou fatigado ou triste, recordo, por exemplo, o bambual que esconde aos olhos da cidade de Pouso Alto o pequeno cemitério do morro; ou penso no miserável casebre em que certa madrugada tive que dormir na Rocinha, a quatro léguas de Cunha, e onde os arreios dos animais me serviram de travesseiro, (A cabocla, com um candieiro de querosene na mão, ainda foi à cozinha assar um pedaço de carne para me servir a ceia). Não há desilusão ou amargura que possa destruir estes alicerces interiores, nem fazer secar estas fontes de gratuito enternecimento. A minha província me dá forças. Nela me revejo e dela me vem sempre um aceno amigo: memória de um café tomado à porta de um rancho, um olhar bondoso, um pedaço de paisagem onde voa sempre um passarinho.
Mas com certeza foi no Sul de Minas que tomei consciência maior de uma terra “minha”. Assim como também: de uma terra da qual eu tinha o imaculado gosto de ser.
Sobretudo nas vizinhanças imediatas da Mantiqueira, o Sul de Minas é um país à parte no sistema territorial do Brasil. Mesmo nos contrafortes mais ásperos da serra, limite meridional desse país, a paisagem não resultou de convulsões telúricas: tudo foi armado por mãos meigas. O caráter dominante dessa paisagem é a doçura.
Parece que na véspera do mundo ser habitado, quando as potências divinas organizavam a natureza, aquele pedaço do planeta ficou a cargo de anjos de bom gênio. O panorama não guardou lembrança de nenhuma pessoa má, nem de nenhuma ambição torpe. As vaquinhas se espalham, no fim da tarde, pelas lombas verdes de Passa Quatro ou Itanhandu (e provocam o êxtase da surpresa rural nos veranistas metropolitanos, debruçados à janela do trem) são animais de presépio; foi um dom dos reios magos, vieram da Judeia, em barcos fenícios. Dizer utilitariamente dessas vaquinhas “gado leiteiro”, é diminuir-lhes a categoria histórica e a dignidade cristã. Sacudindo a cauda paciente em pleno campo de capim-gordura, não se defendem da picada sutil das mutucas, nem da comichão dos bernes: executam um simples movimento de advertência religiosa, para mostrar que estão vivas, que não são inanimados ornamentos de um estábulo simbólico.
O Sul de Minas começa numa grotinha fresca, entre avencas silvestres, precisamente no ponto em que há uma caixa d’água e a locomotiva para, estendendo a mangueira para beber. Capoeirões de mato húmido cobrem as perambeiras, de um lado e de outro da linha. As pessoas vão no expresso, nos vagões manchados de graxa, sentem que ficou para baixo, lá muito em baixo, o mundo impuro do calor e da ansiedade. Já não haverá, por ali acima, em cada estação, rostos congestos de caixeiros-viajantes; nem senhoras que sobem aflitas à segunda classe, abanando-se com um jornal. A vida agora funciona num plano etéreo, suspensa entre nuvens e ligeiras brumas; e se porventura há sol, é um sol que pela manhã tomou o seu autêntico banho de chuva, um sol contente e lavado com a graduação exata do indispensável teor calórico (só o suficiente para amadurecer as lavouras).
Por meio de um golpe de estado, eu completaria o Sul de Minas com a incorporação do território vizinho de serra-abaixo, até o litoral (só para que não faltasse a essa região perfeita o adminículo poético e econômico do porto do mar).
Na verdade, existe em mim toda uma vasta província, na qual não fui nascido, mas em que senti renascer. Abrange a Bocaina e a serra de Cunha (desde as praias de Parati); desce até o vale do Paraíba, entre Bananal e Taubaté; sobre pela Mantiqueira e se estende, por Minas em fora, entre Paraisópolis e Pouso Alto. Ao Norte, até onde iria meu território?
Sei quanto seria difícil, para um geógrafo ou para um ditador, estabelecer os limites desse território pessoal; haveria municípios que desejariam fazer parte dele (Campos Gerais, por exemplo, onde tenho um amigo); outros, demasiado presos à influência de Belo Horizonte, quereriam ser excluídos. Problemas graves surgiriam, como o da escolha da capital. A velha cidade de Baependi, em cujos sobrados coloniais subsiste a memória de defuntas grandezas agrícolas, reclamaria o privilégio. A cidade de Campanha apresentaria títulos de inextinguível esplendor; e Itajubá não se conformaria; o Dr. Wenceslau Braz me mandaria um portador com uma carta, expondo as razões industriais que militariam em favor da “Chicago Sul-mineira”. Finalmente, a própria cidade de Pouso Alto, com sua única rua, a sua única praça e a estrada da Estação, viria em peso, à minha presença, para recordar-me que a ela, Pouso Alto, é que devo a minha identificação sentimental com as margens do rio Verde.
Essa província nunca existirá para a nação. Tanto mais depois que às capitais interessadas chegar a notícia de tais planos. Nunca será possível dar o golpe. Já agora, quando eu for a Niterói, a Belo Horizonte ou a São Paulo, haverá pessoas vigilantes no meu encalço. A mais humilde valise será revistada; terei de explicar, quem sabe, papéis garatujados que me acompanham (sempre fico inspirado em viagem) e será difícil que as delegacias de segurança social acreditem que se tratem de poemas, exclusivamente de poemas. Quando eu for a um bar à meia-noite, tomar um chope melancólico, todo perdido em meras evocações do meu passado de promotor estadual (origem biográfica de tal obsessão), haverá um sujeito de palheta, fumando charuto, que estará tomando nota da minha atitude e dos meus passos; pensará que fui ali “fazer uma ligação”.
Não importa. A verdadeira existência de uma pátria é questão de alma. Dentro de mim serei sempre o ditador de uma província natal independente e própria, composta de territórios que eu mesmo juntei por amor, como uma criança que fez um brinquedo para ela só.
Fonte:“Barro do Município”, 1956, pp. 16-18.
* Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto) foi um diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista brasileiro. Nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Foi o quarto ocupante da cadeira 26, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 28 de março de 1934.Em 1924, Rui Ribeiro Couto, já então noivo de D. Ana Jacinta Pereira, natural de São Bento do Sapucaí, deixou esta bucólica cidadezinha montanhesa, onde fora delegado de polícia. Para o mesmo cargo e no mesmo ano, foi nomeado para a cidade de Cunha, onde veio residir entre março e abril do mesmo ano. Quando aqui esteve escreveu “Poemetos de Ternura e de Melancolia”, poesia, e “A cidade do Vício e da Graça”, crônicas e viagens. Em seguida, foi nomeado promotor de Justiça em São José do Barreiro, aqui no Vale do Paraíba. Entre 1926 e 1928 residiu em Pouso Alto, Minas, onde exerceu a promotoria e fez tratamento de sua precária saúde. Foi lá que escreveu essa crônica, “Província Sentimental”. Em 1928, parte para a França, passando a ocupar diversos cargos diplomáticos na Europa, chegando a ser embaixador do Brasil na antiga Iugoslávia.
Manada de porcos sendo transportada tocada. Foto: acervo de Francisco de C. D. Andrade. Década de 1930. Local: Paraibuna (SP).
Grande foi a importância dos rebanhos suínos para História e desenvolvimento regional, sobretudo para Cunha. O porco era comum em toda Ibéria, como uma forma de despeito aos mouros e judeus, que o tem – por preceitos religiosos – como “animal imundo”. Não existe carne mais cristã do que ele, pensavam os cruzados da Reconquista. Aporta no Brasil junto com os portugueses e acompanha a marcha colonizadora (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 110). Era um animal fundamental na vida do sítio. Dele, tudo se aproveitava. Até o resto para se fazer sabão. No dia em que no sítio se matava um, havia ajuntamento da vizinhança, aprofundando os vínculos de sociabilidade e de partilha, já que cada vizinho ganhava um pedaço para levar casa e dessas reuniões davam ocasião a muitos casamentos e compadrios. Em Cunha o ritual de sacrifício começava recolhendo a palha de pinheiro no campo, porque o porco, após ser morto, era sapecado para facilitar a retirada de sua pele. Hoje essa etapa é executada com maçarico… “O tempora! O mores!”, exclamaria Cícero, se caipira fosse.
Cunha era durante o século XIX foi o maior produtor de toucinho da Província de São Paulo (MÜLLER, 1978, p. 124), com produção em torno de 9 mil arrobas em 1836/1837, o que significava mais de 68% de toda a produção provincial. A carne de porco, junto com a quirera de milho, que para nós, de Cunha, é uma iguaria, foi de fundamental importância para alimentação das populações do centro-sul brasileiro, antes do advento do século XX e suas modernidades (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 191). Apesar de MÜLLER (1978) não especificar a quantidade de porcos que havia em Cunha no seu levantamento estatístico, nas características gerais das vilas, ele assim descreve Cunha: “N’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vaccum, e cavallar. Não tem terrenos devolutos.” (MÜLLER, 1978, p. 41). Fica claro que o lapso estatístico ao mencionar a produção agrícola de Cunha se deve à falta de dados precisos ou ao fato do porco daqui virar toucinho. Outros produtos agrícolas também são dignos de nota: a produção de milho e feijão, tradicionalíssimas da Paulistânia, a produção de azeite de amendoim, que apesar de ser pequena (127 medidas), era uma das maiores da província, e, por fim, o fumo. Este merece algumas considerações. A produção era modesta, de 649 arrobas, mas bastante significativa (mais de 5% de toda produção provincial). Seguia, transportado por tropas até o porto de Paraty. De lá, ia para o Rio de Janeiro, a Corte. Por isso, o fumo era o segundo produto mais taxado na Barreira do Taboão, atrás apenas do café (MÜLLER, 1978). No bairro Monjolo se produziu tabaco do tipo “Kentucky” até década de 1950. Segundo os moradores mais antigos, a produção foi abandonada devido às constantes chuvas de granizo, que arrasavam a plantação, causando grandes prejuízos. Isso é um dos motivos, o maior, sem dúvida é a concorrência desleal com lavoura comercial. A indústria do cigarro venceu a de fumo de corda.
Em ofício à Assembleia Provincial solicitando recursos financeiros para o município, a Câmara de Cunha de 1882 ao apresentar os predicados do lugar, assim descreve a suinocultura daqui: “O genero suino é objecto das attenções de innumeros creadores, que possuem grandes manadas. Os porcos desenvolvem-se muito bem e quando são sujeitos a céva, alguns chegam a produzir pezo superior a 12 arrobas só em toucinho.” Como se lê, o valor do animal estava na banha que fornecia, porque não havia outra gordura tão popular no Brasil para ser usada na preparação das refeições diárias (DÓRIA; BASTOS, 2018). O toucinho era um item de primeira necessidade e os poucos, mas já em franca expansão, núcleos urbanos precisavam das fazendas para obtê-lo. Aliás, conforme a estatística do próprio MÜLLER (1978), acompanhando os registros portuários, S. Paulo exportava toucinho para outras províncias. Muitas arrobas partiam de Cunha, certamente. Era um alimento mercantilizável e nosso município liderava a sua produção, já que era um dos núcleos especializados na produção de víveres e alimentos básicos, a ponto do capitão-general António José de Franca e Horta, então governador da Capitania de São Paulo, requisitar, em 1808, com urgência “porcos vivos, toucinho, carne de porco salgada, milho e feijão, de Cunha e São Luís (hoje do Paraitinga).” (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 90), porque o príncipe regente estava a caminho da capital e precisava ser bem tratado. Embora sua história esteja ligada (com razão) ao Tropeirismo e Bandeirantismo, como repasto rústico e do sertão, era consumido por todos, em todos os lugares do Brasil colonial, inclusive na Corte e pela nobreza.
Mais do que isso, a suinocultura possibilitou:
o comércio inter-regional, integrando cidade menores às maiores, produtores rurais aos consumidores urbanos, as zonas auríferas de Minas às zonas cerealíferas da Alta Mantiqueira e Serra do Mar;
uma alternativa econômica para as zonas em decadência, após o surto do café (no caso da nossa região). E como alimento durante o seu apogeu;
a utilização da banha do porco, tanto na gastronomia cotidiana quanto como conservante para alimentos;
o processamento da carne de porco em toucinho, facilitando a conservação do alimento, que, com vencimento adiado, tinha sua zona de abastecimento ampliada, integrando cada vez mais cidades e vilas às atividades comerciais;
a comercialização e escoamento da safra de milho de forma mais rápida e fácil, já que este cereal era usado quase que em sua totalidade na engorda dos rebanhos. Conforme percebe sagazmente Carlos Borges Schmidt, “o porco é o milho que anda”;
a contratação de mão de obra (após a abolição da escravidão) para transportar as varas de porcos pelas serras e caminhos afora.
Em Cunha, bem como em todo Alto Vale do Paraíba, tinha mais porco do que gente. Antes da expansão da fronteira agrícola brasileira para o Centro-Oeste, consumindo o Cerrado, boa parte dos gêneros alimentícios que provia nossas cidades vinha de regiões montanhosas e isoladas, similares ao nosso Alto Vale do Paraíba. E o transporte de varas pelos antigos caminhos do Ouro com destino aos mercados regionais (Guaratinguetá, Taubaté e Lorena) era bastante comum, tal como ilustra a foto. E assim foi até o início do século XX.
Atualmente há em Cunha 5.642 cabeças de porco e o município, apesar do seu enorme número de propriedades rurais, está muito longe de ser o maior produtor do estado. Em 484 estabelecimentos agropecuários há criação de suínos, o que representa apenas 21% do total de propriedades agrícolas locais. Bem distante daquilo que fomos no passado, cuja onipresença do porco era um fato distintivo do sítio caipira. Há diversas razões para essa decadência.
Já nas primeiras décadas do século XX começaram a se fixar em nossa região famílias mineiras, que foram introduzindo, pouco a pouco, a pecuária de leite e corte, de método extensivo (pastagens), a fabricação do queijo etc. Por outro lado, a suinocultura comercial, as exigências sanitárias, o automóvel e as estradas modernas puseram fim a essa época. O que era Economia virou História. Mas a deliciosa quirera com carne de porco resistiu ao tempo, porque o sabor, a suculência e a gostosura são atemporais. Ainda bem.
Referências:
ANDRADE, F. de C. D. A presença dos moinhos hidráulicos no Brasil. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 23, n.1, São Paulo, jan./jun., 2015.
DÓRIA, C. A.; BASTOS, M. C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
MÜLLER, D. P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
OFÍCIOS da Câmara Municipal da Cidade de Cunha do ano de 1882.
SCHMIDT, C. B. O milho e o monjolo: aspectos da civilização do milho, técnicas, utensílios e maquinaria tradicionais. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, Serviço de Informação Agrícola, 1967.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapeamentos feitos a partir de imagens de satélite revelaram que entre 1985 e 2015 as áreas de floresta passaram de 250 mil para 455 mil hectares, o que representa um acréscimo de 83% em floresta nativa na porção paulista do Vale do Paraíba, região localizada ao longo do curso do Rio Paraíba do Sul, leste do Estado de São Paulo e sul do Rio de Janeiro, cortada pelo eixo viário que conecta os dois maiores centros urbanos do País. O estudo foi conduzido pela Embrapa Monitoramento por Satélite (SP) e mostrou que a alteração ocorreu principalmente em porções antes ocupadas por pastagens. Atualmente, a cobertura florestal nativa representa 33% da bacia do Rio Paraíba do Sul, no seu trecho paulista, ante 18% registrado em 1985.
O aumento das áreas de florestas na região não ocorre por meio do plantio de novas árvores, mas pela regeneração da vegetação em áreas onde a agricultura e a pecuária não são competitivas, principalmente sobre terrenos declivosos. Segundo o pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite Carlos Cesar Ronquim, os fatores que contribuem para esse crescimento são diversos e estão interligados. “A característica do relevo da região é um ponto importante. O Vale do Paraíba está situado entre duas formações montanhosas, a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar. Mais de 50% de sua área total, calculada em quase 1,4 milhão de hectares, é dominada por terrenos com grau de declividade acima de 20%, um relevo acidentado que dificulta a ocupação por culturas agrícolas e o uso de mecanização e irrigação”, afirma.
A região mostra-se adaptada preferencialmente para o cultivo de pastagens extensivas, responsáveis pela produção de carne e de leite. Mas até mesmo a pecuária enfrenta problemas com a rentabilidade da produção e tem dificuldades para manter a atividade e competir com outras regiões mais aptas. “O menor investimento dos proprietários contribui para a diminuição do manejo em áreas menos adequadas ao pastoreio pelos animais, como os topos de morros e as encostas mais íngremes. As leis ambientais em vigor também impõem restrições que dificultam o corte ou a queima da ‘capoeira’ que se forma nessas porções sem manejo. O abandono dessas áreas acaba favorecendo a volta da vegetação nativa”, explica o pesquisador.
Sequestro de Carbono
Em 30 anos, a recuperação de 205 mil hectares de florestas nativas do bioma Mata Atlântica, registrada na região do Vale do Paraíba paulista, representou um sequestro de 35,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono – isso sem contar os valores acumulados nas raízes, no solo e na serapilheira, camada de matéria orgânica que fica na superfície do solo. A quantidade de carbono sequestrado por hectare foi obtido a partir da revisão de estudos sobre florestas nativas primárias e secundárias do Sudeste brasileiro.
Ronquim explica ainda que a vegetação desta região da bacia do Rio Paraíba do Sul está contribuindo positivamente para a diminuição da concentração de CO2 na atmosfera, e, consequentemente, os impactos negativos do efeito estufa. “Se considerarmos toda a área de floresta nativa do Vale do Paraíba paulista, calcula-se um sequestro 129,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono”, afirma o pesquisador. Somada às áreas com plantios de eucalipto, que contribuem com 16,1 milhões de toneladas de dióxido de carbono, a quantidade sequestrada pelo componente florestal da região alcança 145,6 milhões de toneladas. Estes e outros resultados foram apresentados em setembro no simpósio internacional SPIE 2016 Remote Sensing and Security + Defence, realizado em Edimburgo, na Escócia, e estarão descritos no artigo científico publicado neste mês.
De acordo com dados do Observatório do Clima, o Brasil lançou na atmosfera, em 2014, cerca de 1,6 bilhão de toneladas de dióxido de carbono. A mudança de uso da terra, relacionada principalmente a desmatamentos na Amazônia e no Cerrado, é o maior responsável pelas emissões, contribuindo com 472,6 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Para o pesquisador Carlos Cesar Ronquim, o Vale do Paraíba paulista apresenta um fenômeno inverso ao que ocorre no Brasil. “A região está contribuindo para o aumento no sequestro do carbono da atmosfera justamente por meio da mudança de uso da terra – só que ao invés da perda de florestas para as pastagens, consequência de desmatamentos, está ocorrendo o crescimento de florestas nativas sobre áreas antes ocupadas por pastos”, explica.
Ele ressalta que o pagamento por serviços ambientais e outras vantagens econômicas, como o mecanismo de Redução de Emissões pelo Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), podem ser alternativas promissoras de compensação para o produtor rural que preserva suas florestas e protege a biodiversidade em sua propriedade. Além de contribuir para o sequestro do carbono, a recuperação florestal traz ainda outros benefícios, como a regulação da temperatura e da umidade do ar, o aumento da infiltração da água no solo e o suprimento dos lençóis freáticos, a redução da erosão e a formação de barreiras naturais contra pragas e doenças da agricultura.
Floresta, pasto e eucalipto
Os dados levantados pela Embrapa Monitoramento por Satélite são resultados do projeto de pesquisa GeoVale. O objetivo do estudo foi mapear as principais mudanças no uso e cobertura das terras da região ocorridas entre 1985 e 2015, com foco nas áreas de floresta nativa, pastagens e reflorestamentos de eucalipto. As pastagens, voltadas para a produção de carne e leite, ainda representam a maior cobertura, com 651 mil hectares. Porém, nos últimos 30 anos essa área regrediu 32% e quase metade do pasto que ainda existe na região, cerca de 40%, apresenta distintos estágios de regeneração da vegetação nativa – o chamado “pasto sujo”, que não é mais manejado e ao longo dos anos poderá formar novas florestas.
Nesses 30 anos, as pastagens cederam espaço também para os reflorestamentos de eucalipto, que atualmente ocupam 114 mil hectares e representam 8,1% da área do Vale do Paraíba paulista. A silvicultura, com base na eucaliptocultura, foi o setor da economia agroindustrial que mais se desenvolveu econômica e tecnologicamente. Ronquim explica que dentro do plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC), do governo federal, as florestas plantadas representam uma das estratégias que permitem conciliar a produção de madeira e bioenergia com a redução da emissão dos gases de efeito estufa.
A pecuária permanece como a principal geradora de renda agrícola na região. Apesar da redução das áreas de pastagem, a produção de carne e de leite aumentou entre 1985 e 2015 – a produção de carne passou de 731 mil para 2,9 milhões de arrobas e a produção leiteira saltou de 187 mil para 206 mil litros, mesmo com um rebanho menor. Índice que mede o desempenho econômico das principais atividades agrícolas, o Valor da Produção Agropecuária (VPA) da carne vem crescendo desde a década de 1990 e atualmente é a atividade que mais contribui para a renda na região. A produção de leite, por outro lado, vem diminuindo sua participação no VPA e atualmente compete com a eucaliptocultura pelo posto de segundo maior contribuinte para a geração da renda agrícola no Vale do Paraíba paulista.
Arroz
O arroz ainda é a principal cultura agrícola da bacia, que detém perto de 85% da produção do Estado de São Paulo. Entretanto, de acordo com os dados levantados pela Embrapa, as áreas cultivadas também vêm diminuindo. Em 1985, a atividade ocupava uma área de 23,4 mil hectares. Já em 2015 a produção ocorreu em apenas 11,8 mil hectares. O baixo preço de mercado e a diminuição na oferta de mão de obra estão entre as principais dificuldades enfrentadas pelo produtor, mas a escassez de água também aparece como fator limitante.
“O cultivo de arroz no Vale do Paraíba ocorre por meio de inundação, principalmente na várzea do Rio Paraíba do Sul, e a água vem direto da Serra da Mantiqueira. O baixo volume que os produtores conseguem captar, devido às frequentes secas e à restrição imposta pelos órgãos reguladores estatais, está sendo insuficiente para produzir adequadamente e manter a qualidade do cereal”, explica Ronquim. Na competição por área, ele cita ainda a expansão da urbanização e a atividade de extração de areia. “A área ocupada para extração de areia, na região, já é superior a 2,3 mil hectares”.