Cunha: pinhão, pinheiro e paisagem

O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.

Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.

Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.

Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII.  Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!

Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.

O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.

Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.

Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.

Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.

A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.

Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.

Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.

A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.

As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.

Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.

Referências:
AB’SÁBER, A. N. A teoria dos refúgios: origem e significado. Anais do II Congresso Nacional sobre Essências naturais; Revista do Instituto Florestal (1), 1992.
G1. Grimpeiro é a ave guardiã das araucárias, 11 mai. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/05/11/grimpeiro-e-a-ave-guardia-das-araucarias.ghtml&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
INSTITUTO FLORESTAL DE SÃO PAULO (IF). Reflorestamento com araucária: conservação da natureza e geração de trabalho e renda, 4 jun. 2021. Disponível em: <https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/institutoflorestal/2021/06/reflorestamento-com-araucaria-conservacao-da-natureza-e-geracao-de-trabalho-e-renda/&gt;. Acesso em: 14 set. 2025.
MARTINELLI, M. Estado de São Paulo: aspectos da natureza. Confins [on-line], n. 9, 2010. Acesso em : 13 set. 2025. Disponível em : http://journals.openedition.org/confins/6557 .
STARZYNSKI, R.; NALON, M. A.; FRIZO, C. G. A.; SOUZA, P. M. de. Estratégias para a preservação da Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze em Cunha-SP, Brasil: aspectos ambientais, socioeconômicos e jurídicos. Revista do Instituto Florestal, v. 32 n. 2, p.187-201, dez. 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/iflorestal/sites/234/2020/12/rif32-2_187-201.pdf >, acesso em 13 set. 2025.
VELOSO, J. J. de O. A história de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Capa: arte do Jacuhy.

10 curiosidades sobre Cunha

Cunha: Cidades das Serras

1 – Seu antigo nome era “Facão”. Somente em 1.785, com a independência política-administrativa, passando a ser então um município, é que denominar-se “Villa de Nossa Senhora da Conceição de Cunha”, uma homenagem a Francisco da Cunha e Meneses, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo de 1.782 a 1.786, responsável pela outorga de sua elevação à condição de vila. A ereção da capela de Jesus, Maria e José, no bairro da Boa Vista, no ano de 1.724, é considerado o evento fundador.

2 – Possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba e é uma das maiores bacias leiteiras do estado. Por isso é tão comum encontrar deliciosos queijos artesanais pelas roças de Cunha. No passado foi grande produtora de toucinho, milho e fumo: produtos agrícolas que abasteciam a zona cafeeira do Vale do Paraíba. O turismo é atividade econômica recente, desenvolvida nas últimas décadas, impulsionada pela pavimentação da Estrada-Parque Paraty-Cunha. Seu passado econômico sempre esteve ligado à agricultura familiar e de subsistência e ao tropeirismo, já que era pouso obrigatório entre o sertão e o litoral. Era uma espécie de “celeiro do Vale”.

 3 – No passado, antes da chegada dos colonizadores portugueses, o planalto cunhense era povoado pelos índios Guaianás. Esse povo originário abriu vários caminhos ligando o planalto até a costa atlântica. Andejos, exímios caçadores e coletores, esse povo autóctone era nômade e migravam sazonalmente: no verão viviam na serra; no inverno desciam para beira do mar. Pessoas ligeiras no esgueirar-se pelas matas densas, de baixa estatura, falavam uma língua do tronco Macro-Jê.

 4 – É a Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, segundo projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, já em fase de aprovação. Isso se deve ao fato de Cunha receber, desde a década de 1.970, inúmeros ceramistas que utilizavam a queima de suas peças no forno Noborigama. De lá para cá, muitos outros artistas se instalaram em Cunha, produzindo peças reconhecidas nacionalmente, e transformando a cidade no maior polo de cerâmica de autor da América do Sul. Antes da chegada dos artistas-ceramistas, havia em Cunha as “paneleiras”: ceramistas, geralmente mulheres, que produziam peças utilitárias, para ser utilizado no dia a dia da vida caipira. Os vasilhames eram confeccionados através de técnicas ancestrais, de origem indígena.

5 – Cunha possui os maiores campos de lavandas do estado de São Paulo e os mais famosos do Brasil, fato que motivou a imprensa especializada em turismo em chamá-la de “a Provence paulista”. Um tanto exagerado o epíteto, tendo em vista que o município possui apenas dois campos de lavandas: o Lavandário e o Contemplário. São belos e dão um certo ar de paisagem incomum (pelo menos nos trópicos), mas não se comparam ao que há na França. Cunha possuía há alguns anos uma enorme frota de fusca, que chamava a atenção dos turistas e viajantes que passavam pela cidade. Seria Cunha a “capital do Fusca” também? Inúmeras reportagens sobre a relação do cunhense com esse carro, tão adequado às condições das estradas rurais do município, foram feitas. Até uma festa para celebrar o mais famoso auto da Volkswagen foi organizada: a “FusCunha”. Virou matéria no “Me leva Brasil”, quadro da revista eletrônica “Fantástico”, da TV Globo.

6 – Em 1.932 o município foi palco dos combates entre federais e paulistas, durante a Revolução Constitucionalista. A “Batalha de Cunha”, travada no estilo da Primeira Grande Guerra e com o auxílio da aviação, foi uma das maiores batalhas daquela guerra civil e uma das poucas em que as tropas paulistas venceram. Paulo Virgínio, trabalhador rural do bairro do Taboão, foi capturado, torturado e morto pelas tropas federais, que apoiavam manutenção no poder do ditador Getúlio Vargas. Por não ter revelado os caminhos que levavam às trincheiras paulistas – nem mesmo sob tortura – foi considerado herói e mártir da causa paulista e constitucionalista.

7 – É a maior produtora de pinhão de São Paulo. Isso só é possível porque o território cunhense é salpicado por araucárias (pinheiro brasileiro). Os produtores rurais aproveitam para catar e comercializar os pinhões que caem no outono, e, assim, ter uma renda extra com o extrativismo vegetal. A Festa do Pinhão, atualmente o maior evento turístico de Cunha, conta com feira de comidas típicas à base de pinhão, além de shows e atrações outras. As araucárias são nativas em Cunha, pois mesmo sendo típicas de climas frios e subtropicais, encontraram na Mata Atlântica das altas montanhas um refúgio ecológico propício para sua espécie.

 8 – Possui mais de 250 bairros rurais e seu território está cercado por três serras: do Mar, da Bocaina e da Quebra-Cangalha. O relevo é tipicamente montanhoso, área exemplar da paisagem de “mares de morros”. A associação de montanhas, rios e seixos dá origem há inúmeras cachoeiras, variando de tamanho e beleza. O clima é tropical de altitude, com ocorrência de geadas no inverno, mas muito úmido nas áreas mais altas, próximas à Serra do Mar, devido à ocorrência de garoas. Devido à salubridade do seu clima ameno, um sanativo para os tuberculosos e para os acometidos de outras moléstias respiratórias, fez o Governo Estadual transformar Cunha em uma Estância Climática em 1.948.

9 – Em seu território há duas unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo de Cunha) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. O rio Paraibuna nasce no município e o rio Paraitinga nele se encorpa. Ambos são os formadores do rio Paraíba do Sul, o curso d’água mais estratégico do país, por estar localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Possui várias fontes hidrominerais inexploradas, que brotam do seio do aquífero Cristalino, com destaque para as fontes do complexo das Águas Virtuosas de Santa Rosa, uma das melhores do mundo e a única explorada comercialmente até o momento.

10 – É o maior município do Vale do Paraíba em extensão territorial e o 11º do estado de São Paulo. Sua população está estagnada em torno de 20 mil habitantes há mais de um século, devido às perdas migratórias por razões econômicas e ao êxodo rural. Cunha é um dos berços e redutos da autêntica cultura caipira (paulista), que se manifesta no modo do povo falar, no jeito de andar e se vestir, no modo de ser e viver, nas construções, nas tradições religiosas seculares, nas danças (congada, jongo, são-gonçalo, moçambique, catira etc.), folias (de Reis e do Divino) e cantigas de viola, na culinária, com uma variedade deliciosa de doces e pratos salgados, que alimentam a alma e o espírito. Conhecer Cunha, já diziam os antigos cientistas sociais que estudaram o lugar, é mais que uma viagem no espaço; é uma viagem no tempo! Uma possibilidade de reencontro consigo mesmo e com a paz perdida na confusão da “civilização urbana”.