Casa rural

Foto: Fernando Cobbos.
Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).

Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.

Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.

Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…

Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.

Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.

Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.

Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.