O velho sobrado e o Duque de Caxias

Lenda ou fato? O patrono do Exército visitou mesmo Cunha? Podemos confiar na tradição oral dos cunhenses?

Datado da primeira metade do século XIX, provavelmente da década de 1830 (VELOSO, 2014, p. 56), período em que Cunha se beneficiou do desenvolvimento regional proporcionado pelo café, o sobrado da Praça Coronel João Olympio, número 52, esquina com a Rua Dom Lino,oficialmente “Casarão Osmar Felipe”, “é a construção particular mais imponente da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas. Construído em taipa, na primeira metade do século dezenove, consta que nele se hospedou Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, em 1842, quando veio à Província para sufocar a insurreição liberal. É hoje a sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso.” (IEV, 1993).Na época do inventário do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), ainda era propriedade particular, pertencia à professora Dalva Raquel Coelho Nascimento, alugado à Prefeitura de Cunha. É vestígio da fastuosa civilização do café, que cobriu o vale de rubiáceas e riquezas, em meados do século XIX (VELOSO, 1995, p. 28). Essa riqueza, conforme apontou o historiador Francisco Sodero de Toledo (1977), se refletiu no crescimento das cidades e nos melhoramentos urbanos, em escala regional. O crescimento econômico do setor rural incrementava a urbanização, além do mais, as cidades, outrora ocupando um papel secundário, passam a ser o centro da vida política, devido à ação centralizadora do Segundo Reinado, a partir de 1840. Assim, a volumetria e os requintes arquitetônicos dos casarões e sobrados urbanos passaram a ser uma forma dos fazendeiros e líderes políticos locais expressar seu poder político e econômico (MAIA & MAIA, 1977; HERRMANN, 1948), a chamada “arquitetura do café”, além das já conhecidas insígnias: quantidade de escravos, extensão das propriedades, tamanho da sede da fazenda etc. Em prefácio para a obra “Vale do Paraíba: velhas cidades”, o acadêmico Mário Guimarães Ferri (1977, p. 3), resume bem as consequências do enriquecimento regional: “O café originou, no Vale do Paraíba, a aristocracia ‘dos Barões do Café’. ‘Com o café muita coisa mudou’. As casas de morada transferiram-se das fazendas para as cidades. As igrejas foram aformoseadas e as festas religiosas adquiriram maiores requintes; muitos hábitos franceses foram importados; construíram-se santas casas e teatros. Palácio e palacetes abrigaram famílias patriarcais. (…)”. Símbolo de ostentação econômica e política das elites agrárias do passado, há na arquitetura urbana do período uma ânsia para parecer mais importante do é, sobretudo aos olhos dos visitantes, fazendo das vilas e cidades vitrines, muitas vezes bravateando uma glória que não tinham. Não passou desapercebida aos olhos do jornalista viajante Emilio Zaluar (1976, p. 50) essa forma peculiar de demonstrar grandeza no Vale do Paraíba: “Todas as cidades e vilas querem ser cortes, ainda que seus habitantes só tenham por ponto de reunião a casa onde se joga o dominó, e todas as portas se fechem antes do toque de recolher!”. Desse modo, o embelezamento urbano por que passa a então recente cidade de Cunha, elevada a essa categoria em 20 de abril de 1858, era uma forma da elite local, escravocrata, com riqueza advinda de saciar o mercado regional com cereais e toucinho e do trânsito das tropas por cá, demonstrar o seu poder econômico e político.

Desenho de Tom Maia, realçando os traços arquitetônicos do Sobrado, razão pela qual se sobressai entre os demais casarões e sobrados da cidade de Cunha. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, 1993.

Muitos casarões de Cunha não resistiram ao tempo: ruíram-se ou foram demolidos. Por isso, nossos olhares se voltam para o sobrado da praça Coronel João Olympio, um dos poucos que restaram e que nos remetem ao passado imperial de Cunha. Sua importância histórica e pedagógica, com o passar do tempo, ganha relevo, pois “suas paredes abrigaram, nesses já quase duzentos anos de existência, além das famílias que nele residiram: Fórum, Coletoria, agência da Caixa Econômica, Prefeitura, Câmara Municipal, Delegacia de Polícia e Museu. Funcionaram nele ainda clube recreativo e pensão” (SANTOS; VELOSO, 2019). Atualmente encontra-se fechado para reformas (alegação oficial). Como não há reforma alguma por lá, jaz abandonado. Trata-se da construção particular mais importante da cidade, com sacadas ornamentadas com abacaxis de ferro e entalhes na porta principal e janelas (IEV, 1993). Construção de taipa de pilão, técnica de construção civil proscrita. Atualmente, pertence à Prefeitura e foi denominado “Casarão Osmar Felipe”, homenagem ao ex-prefeito de Cunha de vários mandatos. Depois de muito tempo abandonado, foi reformado e chegou a sediar a Prefeitura de Cunha por um brevíssimo período (entre 2010-2011), mas logo apresentou infiltrações e problemas em sua estrutura e foi fechado novamente. E assim permanece até hoje.

No mesmo texto, o professor Victor ressalta um importante fato, que os cunhenses mais antigos sempre comentam, quando se referem ao sobrado: “Em 1842, veio o Duque de Caxias do Rio de Janeiro, via Paraty, com a finalidade de apaziguar revoltas liberais em Sorocaba e em Silveiras. Esse fato histórico é o mais importante ligado a esse prédio, por conta do pernoite do Patrono do Exército em Cunha, abrigado sob o teto desse patrimônio arquitetônico.” Entretanto, por ser uma informação repassada pela tradição oral, alguns suspeitavam ser uma lenda. O próprio professor João Veloso me disse certa vez que não era possível confirmar a veracidade desse relato oral, muito embora, por sua consistência e persistência entre os mais antigos, não tivesse a história característica de um “causo” ou coisa fictícia.  

Desenho de Tom Maia. Entrada do Sobrado da Praça Coronel João Olympio. Destaque para os detalhes da porta e sacadas. Data: 1976. Fonte: Inventário do IEV, de 1993.

Mas novos documentos e relatos vêm surgindo, trazendo a lume situações e lembranças que ajudam a elucidar se o pernoite de fato houve ou se foi fruto da imaginação de alguém. O Arquivo Público do Estado de São Paulo divulgou em sua página no Facebook, em 7 de maio de 2020, um ofício de informação de campanha militar, redigido por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (futuro duque de Caxias), quando estava na Vila de Guaratinguetá, datado de 20/07/1842, endereçado a José da Costa Carvalho (Barão de Monte Alegre), presidente da Província de São Paulo na época, por meio do qual informa que partirá no mesmo dia para a Vila de Paraty, tendo em vista que o movimento liberal já havia sido sufocado em Silveiras e que tinha recebido ordem de regresso à Corte, pelo Governo Imperial. Também informa que deslocou um batalhão para a Província de Minas Gerais, onde a revolta resistia nas vilas de Aiuruoca e São João del-Rei, conforme transcrição (APESP, 2019): “Hoje parto para a Villa de Parati, e logo depois seguirei para a Côrte em virtude das ordens que recebi do Governo Imperial: e no momento em que vou deixar o territorio d’esta Provincia tenho o praser de assegurar a Vossa Excelência á vista das ultimas participações recebidas dos Commandantes de Forças em operaçoẽs no Norte d’esta Provincia, que os ultimos grupos de rebeldes armados forão destroçados na Freguesia dos Silveiras, e suas immediações; e que portanto está pacificada esta Provincia, restando unicamente agora que as auctoridades locáes com prudencia e energia completem esse grande triumpho que obtive, com a poderosa e prompta coadjuvação que me prestou Vossa Excelência.” Considerando que o caminho entre as vilas de Guaratinguetá e Paraty não podia ser feito sem passar pela Vila Cunha, não há dúvida que o futuro Duque de Caxias passou por aqui. Veio pelo antigo caminho aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral e depois seguiu pelo Peabiru, aberto pelos Guaianás, que ligava o planalto ao litoral de Paraty, por onde houve a penetração colonizadora pioneira dos portugueses na região.

O “Casarão Osmar Felipe“, em foto capturada no dia 11 ago. 2019, por Jacuhy.

Sobre o caminho Guaratinguetá-Cunha, hoje Rodovia Paulo Virginio (SP-171), é importante tecer alguns comentários. Foi aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, recebeu ainda sesmarias nas terras do Facão, no final do século XVII. Sobre esse antigo sesmeiro, diz o genealogista Helvécio Coelho (2001, p. 214): “Antes de 1650, foi o ‘descobridor’ de um caminho para o mar ‘com excessivo trabalho’ e obteve uma sesmaria principiando do ribeiro ‘Jacuimiri’, nas bordas das primeiras campinas, com uma légua de testada, meia légua para cada lado do dito caminho, correndo o sertão até a Boa Vista pelo caminho, ao rumo do mar.” Sobre o percurso, relata Oracy Nogueira (1992, p. 67), que de Guaratinguetá a Cunha se levava, no ano de 1.878, 2 dias de viagem, com um pernoite em bairros intermediários (Rocinha, Cedro ou Paraitinga). De Cunha a Paraty, talvez mais 2 dias, já que Cunha está exatamente no meio do caminho entre Guaratinguetá e Paraty. Ainda que a pressa, muitas vezes imposta por necessidades militares, tenha encurtado esse tempo, é improvável demais, pela dificuldade que impõe o terreno montanhoso, que o pernoite em Cunha não tenha acontecido. Convém ressaltar, a título de esclarecimento, que a atual Rodovia SP-171 não segue integralmente o traçado do caminho antigo, aberto pelo capitão Domingos Velho Cabral.

O sobrado, em foto de 1965, quando era pensão familiar. Foto: R. W. Shirley. Acervo do Museu Municipal de Cunha.

Voltando ao trajeto do Duque, o coronel Daróz (2014) informa que Caxias partiu para Corte em 23 de julho, certamente pelo porto de Paraty. Desse modo, é presumível que o futuro Duque de Caxias tenha pernoitado em Cunha, quando regressava para a cidade do Rio. É deveras impensável que uma autoridade imperial, ao deparar-se com uma vila, tenha recusado o conforto de uma casa coberta, com cama, janta e convivas, para dormir ao relento, junto aos seus soldados, após campanha militar vitoriosa. E como era costume naquele tempo, quando uma autoridade visitava uma vila, preparavam-lhe as melhores acomodações, na melhor casa da cidade. E havia casarão melhor e mais belo em Cunha naquele tempo, do que o da praça Coronel João Olympio, que até hoje nos enche os olhos? Era uma honra para um proprietário acomodar em sua casa os nobres do Império. E poderia ser vantajoso também, fazendo-lhe uma solicitação nas alcovas: algum favor, algum cargo público para um parente… Aliás, receber bem e com festança autoridades eclesiásticas, políticas e militares era hábito das vilas e cidades do Vale de antigamente. Narrando experiência similar na Vila de Pindamonhangaba, Motta Sobrinho (1967, p. 100) ressalta que a vila – no dia de visita de “gente graúda” – tinha a seguinte atmosfera: “(…) o ambiente era festivo e adrede preparado: arcos floridos, bandeiras, flâmulas, foguetórios. (…)”. Cunha, dada a competição atávica entre vilas e cidades que havia na região, não fez por menos à visita do ilustre comandante.

Corrobora a ocorrência do pernoite o depoimento da senhora Maria Amelia Calazans que, ao completar cem anos de idade, recebeu destaque na coluna social do jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de abril de 1936. Residindo na Fazenda da Barra, no município de Paraibuna, neste estado, D. Maria Amelia rememorou os fatos mais importantes de sua longeva vida. Nascida em 24 de abril de 1836, na cidade de Cunha, foi batizada na Igreja Matriz desta cidade pelo cônego Manuel Rodrigues da Silva. Era filha de Antonio Moreira da Silva e Rita Constancia do Espírito Santo Moreira. Casou-se na mesma Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em 1859, com José Calazans, mudando-se para Paraibuna desde então, onde, junto com seu esposo, adquiriu a Fazenda da Barra. Entre os fatos históricos vivenciados por ela, é relatado: “Conheceu o barão de Caxias, que foi hospedado por sua mãe, em Cunha, quando o illustre general veio a São Paulo apaziguar a revolta de 1842. E rememora até hoje esse facto historiando com todos os pormenores a chegada de Caxias a então florescente cidade de Cunha.” (O ESTADO DE S. PAULO, p. 2, 1936). Infelizmente, dada a exiguidade das notas sociais, os pormenores da estadia do Duque em Cunha não são dados. Uma pena. Todavia, essa nota vem confirmar de forma definitiva o pernoite do Duque de Caxias em Cunha. Não é lenda e nem “causo”. O patrono do Exército Brasileiro dormiu mesmo no velho sobrado.

O Barão de Caxias, circa 1841, em desenho de François-René Moreaux. Fonte: Wikimedia Commons.

O pernoite ficou na História e na memória dos cunhenses. Formalidades como essa, por serem raras, não podiam “passar em branco” nas pequenas vilas do Império. A Câmara de Cunha deve ter preparado uma festa e agitado a pacata vila serrana. Discursos, saudações, repique de sinos na Matriz, missa, pessoas curiosas na rua, olhando ressabiadas os soldados que acompanhavam a comitiva militar do ainda Barão… O isolamento trazia ar de novidade a coisas banais, bastava que destoassem da realidade cotidiana. E convivas, claro. Mas para a elite, para os políticos. A única parte que difere a tradição oral nos repassada dos documentos oficiais é a direção tomada pelo chefe militar. Os documentos oficiais relatam que o Barão chegou à Província de São Paulo pelo mar, via porto de Santos, onde alcançou o planalto de Piratininga e, posteriormente, Sorocaba. E no ofício mencionado, consta textualmente que ele estava de retorno à Corte, após obter sucesso na campanha militar, quando pernoitou na Vila de Cunha. Portanto, ele não passou por aqui quando estava chegando para “pacificar” a Província, mas estava de partida, quando pernoitou. Mero detalhe.

Sobre a Revolta Liberal, tratava-se mais uma briga entre os dois principais grupos políticos do Segundo Reinado: os conservadores e os liberais. Nas eleições legislativas de 1840, os políticos liberais pagaram capangas para espancar adversários, roubar urnas e modificar resultados. Assim, obtiveram a vitória no pleito. Mas o uso de violência, fizeram essa eleição passar para História como “eleições do cacete” e ganharam um irônico lema: “para os amigos pão, para os inimigos pau”. O Conselho de Ministros, formado na maioria por políticos conservadores, apelou a D. Pedro II que exercesse seu Poder Moderador (uma invenção da Constituição de 1.824, para descaracterizar o sistema tripartite de poder) e anulasse os votos da eleição. Anulada as eleições em 1842, os conservadores novamente retomaram o poder. E os liberais resolveram ir às armas para assegurar o resultado (fraudado). Em S. Paulo, segundo Daróz (2014) “A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província –, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari.” A Revolta começou a ganhar contornos separatistas, e o Império agiu rápido, enviando o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, sob a liderança do Barão de Caxias, para sufocar o movimento. Coronel Dároz (2014) assinala: “preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou o Brigadeiro Luís Alves de Lima e Silva, Barão de Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.” Em julho, a Revolta foi sufocada em São Paulo. Em Minas Gerais, duraria até agosto. Dom Pedro II, com sua política de apaziguamento de ânimos, concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. Para Caxias, a vitória resultou em promoção a Marechal-de-Campo.

O “Casarão Osmar Felipe” em 1993, então sede da Prefeitura de Cunha. Foto: Prefeitura Municipal de Cunha.

Com quase 200 anos, o casarão resiste no centro de Cunha. É tombado tanto pelo COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha), órgão municipal, através do Decreto Municipal nº. 014/2008, de 18 de abril de 2008 (Rerratificado pelo Decreto Municipal nº. 046/2009), que o colocou no primeiro grupo de proteção: “GP1 – Proteção integral das fachadas, volumetria e interior da edificação”; quanto pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT), conforme Resolução SC-12, de 26-2-2018, que “dispõe sobre o tombamento de conjunto de imóveis localizados no município de Cunha”. Uma testemunha ocular das coisas acontecidas e findas, parafraseando os dizeres do historiador Paulo Prado, “última testemunha presente das lutas, ambições e glórias do passado.”.Mas até quando? O professor Victor, sempre dedicado às causas mais nobres e culturais desta terra, já fez o alerta: “Urge, desse modo, que todo o empenho e todas as ações possíveis para sua preservação sejam buscados e conquistados, para que a História, a Cultura e a Memória continuem a se fazer presentes e vivas no centro histórico da Estância Climática e Turística de Cunha – SP, visto que, se soubermos de onde viemos, saberemos para onde vamos.”.

Desejoso que essas ações sejam iniciadas o quanto antes, espero ver esse patrimônio restaurado em breve. E funcionando. Quantos equipamentos culturais não podem ser instalados ali? Do contrário, se o abandono persistir, só nos restará compartilhar do mesmo lamento e indignação de Cora Coralina, ao ver as ruínas de um sobrado em sua Goiás Velho:

“(…) Fechado. Largado.
O velho sobrado colonial
de cinco sacadas,
de ferro forjado,
cede.
Bem que podia ser conservado,
bem que devia ser retocado,
tão alto, tão nobre-senhorial.
(…)
Quem se lembra?
Quem se esquece?
(…)”

Não esqueci e não vou deixar que esqueçam. Queremos o sobrado de pé. E aberto a todos.

Referências:
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP), Fundo José da Costa Carvalho. Notação [BR SPAPESP JCC 125.1.1.14]. Ofício de informação de campanha militar enviado por Luís Alves de Lima e Silva, barão de Caxias (duque de Caxias) a José da Costa Carvalho, barão de Monte Alegre e presidente da província de São Paulo, comunicando sua partida para a vila de Parati e, em seguida para a Côrte, em virtude de ordens recebidas do Governo Imperial; relata a pacificação da província e a partida do 1º Batalhão Provisório de 1ª linha para abater os rebeldes de Minas e ocupar São João Del Rey, remete a Ordem do Dia de despedida do exército Pacificador. Guaratinguetá, 20/07/1842. Disponível em: < https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=3063377987034356&id=182206948484822&__tn__=-R >. Acesso em: 7 mai. 2020.
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CORA CORALINA. Velho Sobrado (poema). Disponível em: < https://www.escritas.org/pt/t/5489/velho-sobrado >, acesso em 9 mai. 2020.
CUNHA (Município). Decreto Municipal n.º 14/2008, de 18 de abril de 2008. Cunha (SP): Prefeitura Municipal de Cunha, 2008.
DARÓZ, Carlos R. C. As revoltas liberais de 1842: o Império consolidado. Revista Militar, n. 2549/2550, jun./jul., 2014.
HERRMANN, Lucila. Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num Período de Trezentos Anos. Revista de Administração, Ano II, Números 5 – 6, mar. / jun., 1948, p. 3 – 326.
INSTITUTO DE ESTUDOS VALEPARAIBANOS (IEV). Cunha – Sobrado: Sede da Prefeitura Municipal, do Centro de Cultura e Tradição de Cunha e do Museu Municipal Francisco Veloso. (Inventário). Guaratinguetá (SP), 1993.
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ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S. Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.

Há 61 anos, Paço Municipal de Cunha era incendiado por detentos

O que sobrou do Paço Municipal, que abrigava a Prefeitura, Câmara, Fórum e Cadeia, após o incêndio. Data: 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Na madrugada (às 3h da manhã) do dia 5 de janeiro de 1961, a população da cidade de Cunha acordou atônita. O Paço Municipal, velho sobrado, que abrigava a Prefeitura, a Câmara, Fórum e Cadeia Pública, ardia em chamas e as labaredas iluminavam a pequena urbe, posto que o sobrado ficava em sua parte mais alta, em desolador espetáculo.

A construção do edifício começou no ano de 1785, após a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão alcançar a sua autonomia política e administrativa da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, passando a denominar-se com a mudança de status Vila de Nossa da Conceição de Cunha. Portanto, o sobrado era símbolo e marco dessa efeméride histórica.

Fachada do sobrado antes do incêndio: brasão da República no frontispício (embora tenha sido construído na época colonial) e as celas da Cadeia Pública no térreo. Data: Década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Além de seu caráter simbólico, o sobrado guardava em seus arquivos “todos os documentos municipais relativos ao executivo e legislativo, arquivos antigos preciosos sobre a instalação da Câmara, em 1786, e dados importantes concernentes à Revolução de 1932 […]” (VELOSO, 2014, p. 74). Assim, quase duzentos anos de história virou cinzas em minutos, destruindo todas as fontes documentais oficiais do município, algumas do século XVIII, documentos que poderiam elucidar pontos nebulosos do passado de Cunha.

Deve-se ainda ressaltar a importância arquitetônica desse sobrado histórico, conjunção harmônica e elegante de madeiras-de-lei e grossas, rústicas paredes de taipa de pilão, primor da técnica colonial. Imponente, favorecido pela topografia do Alto do Cruzeiro, situava-se onde hoje é a Delegacia da Polícia Civil. De suas janelas coloniais havia uma vista completa do burgo, do rocio e das serranias que nos cercam.

Causa do incêndio

Foi um ato criminoso, conforme sempre fazia questão de preconizar o professor João VELOSO (2010, p. 278). Dois detentos da Cadeia Pública de Cunha, que dividiam a mesma cela, atearam fogo em um colchão e mantiveram-no próximo ao forro até que a madeira velha ficasse incandescente. Desse modo o fogo se alastrou pelo madeiramento, consumindo com rapidez o material inflamável que compunha o sobrado.

A real motivação que levou os incendiários a destruir um patrimônio cunhense deu origem a muitos rumores. Seria um protesto contra a insalubridade da cela? Vingança contra uma reprimenda que receberam de um policial da Força Pública? Ou obra encomendada por políticos locais, com o intuito de se livrar das provas contra os seus delitos? Muito foi especulado sobre a motivação do incêndio do sobrado, mas nada foi provado. Os dois presos foram responsabilizados e pagaram a pena.

Vista lateral do que sobrou do sobrado, antes de sua demolição. Data: 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Os detentos

Assim que o fogo se alastrou, os dois presos que causaram o incêndio (um deles tinha a alcunha de “Gabiru”) gritaram por socorro e foram retirados de lá, ficando alojados em uma casa vizinha. Ao todo eram quinze homens. Foram algemados e amarrados e no mesmo dia foram transferidos para Cadeia Pública de Guaratinguetá.

Aglomeração

O clarão do incêndio assustava e chamava a atenção da população, que acorria para a Praça Prudente Guimarães para ver o que se sucedia. Uma multidão tomou a praça e acompanha ao longe o fogaréu cuspir ao céu. Havia naquelas pessoas certa perplexidade ante ao que viam em sua frente e certa impotência, pois nada podiam fazer para impedir a destruição do sobrado colonial.

Entre tantos que ali se aglomeraram, alguns, cônscios da documentação valiosa que estava virando fumaça, tentaram, em vão, entrar no sobrado para salvá-la, retirando-as das chamas. Foram impedidos por um policial militar que, com arma em punho, parado ao final da escada que dava acesso ao piso superior, impediu que os corajosos munícipes tivessem à repartição da Prefeitura, posicionando-se à frente da porta. Em tal ato de bravura, tentava ele impedir que essas pessoas insensatas fossem feridas ou queimadas? Ou queria assegurar que os documentos ali arquivados fossem incinerados?

Perplexa com o que via e impotente diante da lenta destruição, logo a multidão sentiu a ausência de seu alcaide e começou a murmurar: cadê o prefeito de Cunha?

A ação do prefeito

O prefeito Osmar Felipe, já falecido, encontrava-se naquela madrugada em São Paulo, capital. Como em Cunha não havia telefone, o prefeito só foi informado às 9h da manhã, após seu chefe de gabinete deslocar-se até Guaratinguetá para contatá-lo e o pôr a par da situação.

Tomando conhecimento do ocorrido e da gravidade da situação, Osmar Felipe entrou em contato rapidamente com o governador Carvalho Pinto, no Palácio dos Campos Elísios, conseguindo o envio imediato de homens da Polícia Técnica e um contingente do Corpo de Bombeiros, despachados para Cunha por ordem direta do governador, a fim de conter o incêndio do Paço Municipal.

O jornal O Estado de S. Paulo”, 8 jan. 1961, p. 22, noticia o ocorrido em uma matéria recheada de insinuações políticas sobre a motivação do incêndio. Fonte: Acervo Estadão.

Mesmo tendo feito tudo que estava em seu alcance, o ex-prefeito Osmar Felipe foi alvo de muitas críticas e de difamação de sua pessoa e ação, motivada por seus adversários políticos locais. Por conseguinte, diversas “fake news” circularam pelo município, propagadas por seus opositores.

A ação dos bombeiros

Caminhão do Corpo de Bombeiros atolado no Morro do Facão (Morro do Cemitério). O atraso dos bombeiros custou a estrutura do sobrado. Data: 5 jan. 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

O grupo de bombeiros que partira em direção a Cunha, no mesmo dia, para apagar o incêndio, não imaginava que o obstáculo maior era chegar à cidade. A estrada intermunicipal Cunha-Guaratinguetá era de terra batida e mal conservada. O trajeto durava horas.

Como janeiro é um mês chuvoso em nossa região, as estradas de Cunha estavam intransitáveis. Quando o caminhão do Corpo de Bombeiros começou a subir o Morro do Facão (“Morro do Cemitério”, oficialmente Alameda Francisco da Cunha e Meneses) atolou, pois a rua estava tomada pela lama. Após muito patinar e ser empurrado no braço por bombeiros e moradores, quando enfim superou a lama e o morro, já era tarde demais… O fogo, além de reduzir a madeira à brasa, havia causado danos estruturais irreversíveis à secular edificação. Não restou outra alternativa aos bombeiros a não ser demolir o que havia restado do sobrado. Suas grossas paredes de taipa de pilão, pela magnitude, ofereciam risco, caso terminasse de desabar, a moradores, transeuntes e curiosos.

Apesar de terem sido deslocados para Cunha no mesmo dia, os bombeiros chegaram tarde demais. As estradas e ruas de Cunha estavam enlameadas naquele chuvoso janeiro de 1961. Na foto, temos a atual Alameda Francisco da Cunha e Meneses. Data: 5 jan. 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Nada restou do antigo sobrado.

Consequências

Todas foram ruins para nossa cidade. A começar pela perda de todas as fontes documentais relativas à História de Cunha, provocando uma lacuna enorme nos levantamentos e pesquisas. O professor João VELOSO (2010, p. 278) sempre se queixava da dificuldade que era pesquisar sobre a história local, tendo que se basear em fontes orais ou consultar arquivos, acervos e museus em outros lugares.

A destruição de um patrimônio histórico material de grande valor simbólico para Cunha, serviu como prenúncio do que viria a ocorrer nas décadas seguintes com os outros casarões, que acabaram sendo demolidos por seus proprietários, desconfigurando a paisagem urbana colonial/imperial. Destruições feitas sob o signo de um pretenso progresso vindouro. Que não veio!

A Prefeitura ficou sem sede própria, se instalando de forma provisória no recém-inaugurado Fórum da Comarca de Cunha. E de lá em diante foi mudando de imóvel em imóvel. A atual sede da Prefeitura de Cunha ocupa um imóvel alugado.

Evidenciou a necessidade de conectar Cunha com o restante do mundo, pois sem telefone e estrada transitável, o município ficava isolado dos outros lugares. O asfaltamento da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171) viria na mesma década, com a obra sendo entregue pela construtura Serveng, em 1967. Se houvesse linha telefônica interurbana, os bombeiros seriam acionados a tempo de, pelo menos, impedir danos estruturais, possibilitando a reconstrução do edifício futuramente, com suas paredes originais, se houvesse vontade dos gestores municipais, é claro. Ou melhor: Cunha deveria possuir o seu próprio destacamento do Corpo de Bombeiros.

Reconstrução

Em 2020, o então prefeito Rolien Guarda Garcia anunciou em sua rede social que pretendia reconstruir o sobrado incendiado, mantendo a fachada original. Informou que o Governo Estadual havia cedido o prédio da atual Delegacia de Polícia de Cunha à Prefeitura e que havia dinheiro em caixa para realizar tal empreendimento.

Delegacia de Polícia de Cunha, na Praça Dr. Prudente Guimarães. No local, até 1961, ficava o antigo sobrado histórico. Data: 2019.

Apesar do inegável embelezamento paisagístico que traria à cidade, o sobrado que se ergueria seria um simulacro. Reconstruído em alvenaria (provavelmente), sem seguir a volumetria e distribuição das divisões internas do sobrado original, uma obra assim, além de cara, nada acrescentaria ao patrimônio histórico de Cunha, porque o antigo, que era o que importava, nem a poeira sobrou.

Vantagem maior faria a Prefeitura se gastasse os recursos públicos nos casarões que ainda restam. Inclusive naquele que é propriedade da Municipalidade, o “Casarão Osmar Felipe”, situado na Praça Coronel João Olímpio. Ali poderia ser o Paço Municipal. Mas se vê que está abandonado e vem se deteriorando à vista de todos, sem muita preocupação por parte de nossos políticos. Não poderia o atual prefeito José Éder utilizar o recurso que estava empenhado (se ainda há ou se um dia houve) na reconstrução do antigo sobrado incendiado para restaurar o atual “Casarão Osmar Felipe”? É o sobrado mais elegante e bem trabalhado de nossa arquitetura imperial. E o detalhe é que ainda está de pé. Vão esperar cair para depois reconstruir?

Quem sabe assim não tenhamos o dissabor, no futuro, de fazer uma postagem do “Hoje na História de Cunha” noticiando o infeliz dia em que desabou o casarão da Praça Coronel João Olímpio, incendiado pelo descaso e consumido pela indiferença, como aquele sobrado de Goiás Velho, que foi sucumbindo ante à negligência das pessoas, levando consigo as preciosas memórias do lugar, tão bem descrito no poema “O Passado…”, de Cora Coralina. Fica o alerta.

Referências:

CORALINA, C. O Passado…Jornal da Poesia. Disponível em: < http://www.jornaldepoesia.jor.br/cora.html#passado > . Acesso em: 5 jan. 2022.
DESTRUÍDAS leis e relíquias da vida e da história de Cunha. Diário de São Paulo, 6 jan. 1961.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
______. A história de Zina: a saga de uma família na zona rural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2014.

Entrevista com a Drª. Vania Zaccaro de Oliveira

A delegada Dr.ª Vania de Oliveira, fundadora do grupo “Memória Cunhense”. Foto: jornal “O Vale”.

Foi uma grata notícia para todos nós, quando em 2013, ficamos sabendo que a nova delegada da Delegacia de Polícia de Cunha era gente daqui. Pela primeira vez a cidade teria um delegado do lugar. E seria a Vania do “Nerso do Pó”, do dono da fábrica de torrefação de café Vicunha. Pronto! Já tínhamos a ficha completa da pessoa e os antecedentes todos, pois em Cunha ninguém é anônimo, todo mundo é “fio” de alguém, neto de outrem,… Assim, mais do que um processo genealógico, podemos fazer suposições sobre a estirpe da pessoa. Coisa nossa. E a da Vania era a melhor possível. Seus pais (Nércio & Cinira) foram conhecidíssimos e queridíssimos por todos.  E para completar, a Vania já chegou com a fama feita: seu ótimo trabalho em São Luiz do Paraitinga tinha extrapolado as fronteiras, repercutindo em Cunha, para orgulho nosso. E em Cunha não foi diferente. Fez um excelente trabalho combatendo o crime na cidade e na nossa extensa zona rural. Promovida, teve que partir. Mas antes criou o maior grupo de memória coletiva do Vale, o “Memória Cunhense”, sucesso de audiência e postagens entre os “cunheiros”. Fruto do seu amor à terra e ao povo de Cunha. Sua terra! Ainda que por um fortuito geográfico tenha nascido em Guaratinguetá, cidade em que trabalha e reside atualmente. Mas ninguém duvida que seja uma cunhense de alma e coração. Nós conhecemos os nossos.

Mesmo morando aqui do lado, Vania revela que pretende voltar, após se aposentar, para a terra onde seu “umbigo está enterrado”.

No dia 9 de setembro deste ano, a Dr.ª Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, gentilmente, concedeu uma entrevista ao Jacuhy, que publicamos abaixo.

Jacuhy: Em 2012 você teve a ideia de criar um grupo “Memória Cunhense”, hoje um sucesso total e um dos maiores grupos virtuais de história e memória da nossa região. Como aconteceu? O que motivou você a criar o grupo? E como você vê hoje, nove anos depois, os resultados e as colaborações recebidas pelo grupo?

Vania: Acessando as redes sociais, percebi que alguns de meus amigos virtuais, em algumas oportunidades, publicavam fotografias antigas de familiares. Essas fotos, além de serem muito comentadas, despertavam meu interesse, seja pelo fato de dar um rosto para um cunhense, ilustre ou não, ou ainda pelo fato de que algumas dessas fotos apresentavam como pano de fundo uma construção antiga ou uma paisagem, que permitia reconstruir, pelo menos na minha imaginação, como seria fazer parte daquele momento importante da história de alguém ou mesmo a configuração arquitetônica ou paisagística de Cunha. A partir de então, passei a consultar algumas pessoas que demonstravam interesse pela parte histórica, dentre eles Victor Amato e o Efraim, os quais foram unânimes em incentivar a ideia de juntar todo esse material disperso em vários perfis e agrupá-los em um grupo, para que ficassem acessíveis para qualquer pessoa, sendo que os membros também poderiam alimentar com qualquer documento ou fotografia importante de sua família. É importante ressaltar que, em razão do isolamento de Cunha, por um longo período, não tivemos grande quantidade de registros fotográficos e, os poucos que foram feitos, em grande parte, pertenciam a cunhenses que deixaram a cidade em busca de uma vida melhor; assim, poderiam compartilhar de onde estivessem.

Outro detalhe importante é que o grupo pretendia dar visibilidade àquelas pessoas que, embora não tivessem destaque social ou ocupassem cargos importantes, faziam parte do imaginário do povo cunhense por diversas razões, particularidades ou qualidades. Essas fotografias são as mais raras e, não por coincidência, são as mais visualizadas e inspiram os membros do grupo a tecerem seus comentários. Foi dessa forma que conheci o Zé Varda, o Ignácio Bebiano dos Reis, o Dr. Casemiro da Rocha, a D. Benzinha, a Lenice Amato, dentre tantos outros.

Hoje, passados 9 anos, entendo que o grupo segue firme, com mais de 8000 membros e mais de 4000 registros fotográficos, documentais, jornalísticos e literários. Esse farto material o torna apto à realização de pesquisas por estudantes ou apenas curiosos.

“Nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas…”

Vania Zaccaro, sobre o desafio que a sociedade cunhense tem para com sua própria história, após a partida do professor João Veloso

Jacuhy: Ano passado perdemos o professor João Veloso, grande incentivador da história e cultura local. Para você, que se interessa por essas questões, quais são os desafios que Cunha precisa enfrentar nessas áreas, agora sem a presença do professor João Veloso?

Vania: O falecimento do Professor João Veloso é uma perda imensurável. Foi meu professor no ensino médio e meu interesse na história de Cunha se deve ao seu trabalho. Eu acho, inclusive, que a história de Cunha se divide em antes de João Veloso e depois de João Veloso. Antes houve uma literatura com relação a nossa história, mais específica para trabalhos acadêmicos, feita por renomados estudiosos, importantíssima, mas nada que se compare com o livro “A História de Cunha”, escrito pelo professor João Veloso. Pela profundidade, pelo cuidado na pesquisa e pelo olhar apaixonado de um cunhense que dedicou sua vida para resgatar tudo que nos é caro.

Com a morte do professor, acho que nós, cunhenses, temos um grande desafio que é dar visibilidade e destaque à cultura, às tradições, aos costumes que nos dão o sentido como cidade. É importante que os jovens tenham a dimensão desses valores e sintam-se interessados em discorrer e pesquisar sobre o assunto, registrando as histórias que ainda não foram contadas, para que não pereçam.

Jacuhy: Você foi delegada em São Luiz do Paraitinga, município vizinho de Cunha, e que tem uma postura muita ativa e propositiva na preservação da história e cultural do lugar. O que tem em São Luiz que não tem em Cunha? Podemos aprender algo com os nossos vizinhos?

Vania: Tive a grata satisfação de exercer minhas funções, por 9 anos, no município de São Luiz do Paraitinga, cidade que me acolheu e me honrou com o título de cidadã luizense. Os luizenses são as pessoas mais orgulhosas de sua cidade que eu conheci. Eles amam seus casarões, a música, as tradições, a história e principalmente a cultura caipira, sendo reconhecidos como o do “último reduto caipira do estado”. Esses valores fizeram com que eles resistissem às inovações e preservassem seu patrimônio arquitetônico e imaterial, mantendo-o o mais fiel possível. Em Cunha, faltou essa consciência de preservação. A arquitetura colonial foi considerada ultrapassada e algumas casas foram demolidas para se construir prédios modernos. Essa desconsideração influencia todo o resto.  Vejo um certo distanciamento da população em geral com tudo que é relativo a esses bens, materiais e imateriais, fazendo com que sobrevivam graças a esforços de alguns abnegados, que resistem para defendê-los.

Jacuhy: Você passou a infância em Cunha e nossa cidade viveu muitas mudanças nos últimos anos. Quais são suas recordações desse período? Há algumas personagens que você recordaria? Há algo que nossa cidade perdeu e que devia resgatar?

Vania: Eu vivi em Cunha desde meu nascimento até os 34 anos, quando tive que sair para assumir cargo público. Embora a cidade fosse bem diferente, para mim era perfeita. Somente tenho boas lembranças, de momentos felizes, de amizades sinceras, de acolhimento, de empatia e solidariedade. Embora não professasse a fé católica (venho de uma família metodista), participava das festas religiosas, procissões, missas e isso foi superimportante para minha formação. Viver nessa época tinha um sentido mágico. Lembro, com muitas saudades, dos caminhões leiteiros, que transportavam as pessoas e tudo que conseguiam carregar: frangos, queijos, frutas e hortaliças, ovos e flores, no dia de Finados. Essas flores eram de todos os tipos, copos-de-leite, hortênsias, palmas de Santa Rita, lírios brancos, rosas, dálias etc. As pessoas, com toda dificuldade de locomoção, deixavam suas casas e iam até o cemitério para prestar homenagens aos seus antepassados e o cemitério ficava pequeno para tanto movimento. As músicas tocadas eram apenas sacras e religiosas e todos estavam tristes e comovidos. Também me marcava muito a Sexta-Feira da Paixão, onde os pecuaristas doavam toda a sua produção leiteira para quem quisesse aproveitar. O leite retirado das vacas, nesse dia triste, não poderia ser vendido. Hoje, tudo é muito diferente.

Jacuhy: Entre os seus interesses em nossa História, Vânia, você é uma das que mais destacam a nossa memória degustativa e a importância dela para nossa identidade. Por que você gosta de destacar essa questão? Há algum motivo pessoal por trás? E quais pratos e iguarias cunhenses que poderiam, segundo sua opinião, se tornarem patrimônio cultural imaterial de Cunha, já que os municípios de nossa região estão fazendo um resgate nesse sentido?

Vania: Essa memória degustativa faz parte do processo de reconhecimento da identidade do lugar. O afogado está para São Luiz do Paraitinga, como o bolinho de arroz está para Cunha. Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas.

Jacuhy: Você fez um bom trabalho quando esteve em Cunha, recebendo o reconhecimento da sociedade cunhense. Pretende voltar para Cunha ainda exercendo a sua profissão ou só depois de se aposentar? Ou não pretende mais retornar para cá?

Vania: Obrigada por sua generosidade em avaliar meu trabalho. Por três anos tive a honra de prestar serviços na minha cidade e, em razão de uma evolução na carreira, somos obrigados assumir maiores responsabilidades em cidades maiores. Entretanto, a aposentadoria se aproxima e, assim que conseguir, voltarei para onde meu umbigo está enterrado.

“Qual cunhense que comendo um bolinho de arroz não lembrará das festas religiosas? As comidas típicas fazem parte dos rituais e por isso a preservação desses costumes mantém a essência da tradição. Eu acho que poderíamos pensar em reivindicar o bolinho de arroz como patrimônio imaterial de Cunha, para que pudesse ser produzido e experimentado pelos turistas”

Vania Zaccaro, sobre a necessidade de ampliar o conjunto de bens do patrimônio cultural cunhense

Jacuhy: Vânia, você deixa muito claro em nossas conversas e nas suas postagens que, entre suas paixões, estão a História, as histórias e os causos de Cunha. Pretende escrever um livro sobre o assunto? Ou mesmo um livro sobre Cunha?

Vania: É apenas uma pretensão distante. Aposentada, teria um tempo maior para me dedicar a esses assuntos importantes e ajudar com ideias e pesquisas. Penso que existem vários cunhenses brilhantes que devem ter guardado poesias, contos, crônicas e histórias e, quem sabe, poderíamos fazer uma coletânea e editar alguma coisa. São apenas ilações de uma cunhense apaixonada por sua terra.

Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.

Vania: Por nada. Eu é que agradeço a sua consideração.


Entrevista concedida por mensagem, pela Drª. Vania Idalira Zaccaro de Oliveira, para a página e blog Jacuhy.
Data: 09 de setembro de 2021.

Em defesa da História de Cunha

Texto do professor e historiador João José de Oliveira Veloso (1945 – 2020), fundador do Centro de Cultura e Tradição de Cunha, do Museu Municipal “Francisco Veloso”, do COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha) e autor de diversas obras sobre a história de Cunha.