29 de dezembro de 1.933 – O falecimento do Dr. Casemiro da Rocha

Após a derrota de S. Paulo, na Revolução de 1932, o isolamento político de Alfredo Casemiro da Rocha, perrepista histórico, foi completo. Era o ocaso do velho político, líder inconteste em nossa região e grande benfeitor de Cunha. Até toma ciência das agitações políticas de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, porém, assiste de longe e acabrunhado. Seus amigos e correligionários estavam exilados e apeados do poder.

Convite para a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha, publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em 06 jan. de 1934, p. 10.

Em 16 de dezembro de 1933, o interventor federal em S. Paulo Armando de Sales Oliveira o nomeia prefeito de Cunha. E este foi o seu último cargo público. Termina onde começou. Desde a vitória da Revolução de 1930, Cunha tivera três alcaides. Nenhum deles durou. Aceita a missão o velho comandante, como forma de gratidão ao povo de Cunha.

Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, em São Paulo, onde foi celebrada a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha. Foto: Museu Paulista. Data: circa. 1927.

Noite do dia 26 de dezembro. Ressaca de Natal. No Clube Recreativo Cunhense, Alfredo joga baralho com seus amigos. A certa altura, Alfredo tem um mal súbito e cai no chão junto com suas cartas. Ali mesmo o acode o dr. Carlos Borges Âncora da Luz, médico e amigo. Diagnóstico: broncopneumonia. É carregado até a sua casa. Os remédios ministrados não surtem efeito. Falece no dia 29 de dezembro de 1933, sendo o seu velório e cortejo um dos maiores que Cunha já presenciou. Por ironia do destino, faleceu da doença em que era mestre em tratar e que tanta gente ajudou a sarar.

Esse foi o obituário publicado no jornal “A Gazeta”:

“DR. ALFREDO CASIMIRO DA ROCHA
Deu-se hontem, em Cunha, o fallecimento do dr. Alfredo Casimiro da Rocha, prefeito municipal daquella localidade.
O velho e estimado político, que gozava de grande prestígio em Cunha e em todas as localidades do antigo 3º districto eleitoral, contava 76 annos de edade, tendo nascido em São Salvador da Bahia, a 4 de março de 1856.
Aos seis annos de edade, iniciou seus estudos no antigo Collegio Abilio, ahi fazendo os preparatorios.
Matriculou-se na Faculdade de Medicina de sua terra natal, em 1870, frequentando primeiramente o curso de pharmacia e depois o curso medico, e diplomando-se em 15 de dezembro de 1877.
Um anno depois de formado, veiu para o Estado de São Paulo, fixando residencia na cidade de Cunha.
Foi eleito presidente da Camara Municipal dessa cidade em 1883, pelo Partido Republicano, que alli organizou, começando, então, a sua carreira politica, que foi sempre agitada. Concorreu a diversas eleições como candidato do Partido Republicano, conseguindo representar o seu Partido, em varias occasiões, quer na Assembléa Provincial, que na Assembléa Geral.
Voltou para a Camara Estadual na legislatura de 1907-1909. De 1913 a 1924 foi sempre reeleito pelo seu districto, onde era, tambem, acatado chefe politico.
Foi eleito senador a 25 de abril de 1925, por 111.870 votos, na vaga aberta com a renuncia do dr. Oscar de Almeida, e reeleito por 71.462 votos, na renovação do terço do Senado, a 24 de fevereiro de 1928.
Fez parte da Commissão de Instrucção Publica e Hygiene do Senado, onde exerceu o seu mandato até á victoria da revolução de outubro de 1930.
***
O dr. Casimiro da Rocha deixa viuva d. Maria do Carmo Rodrigues Rocha e os seguintes filhos: dr. Alfredo Casemiro Rocha Filho, 2º escripturario da Secretaria de Educação; Augusto Casemiro da Rocha, estudante; Evangelina Adelia da Rocha, residente em Cunha, e os enteados sr. Carivaldo Pinto, agente do imposto de consumo em Poços de Caldas; Juarez Pinto, guarda-livros nesta Capital e d. Adalgiza Pinto, professora em Cunha.”


Fonte: “A Gazeta”, São Paulo, 30 dez. 1933.
Foto: Alfredo Casemiro da Rocha com o seu filho Augusto, então com 17 anos. Foto tirada em 1933, em Cunha, no quintal da casa do dr. Casemiro, que ficava no Largo da Matriz. Sobre essa fotografia, legendou Oracy Nogueira, biógrafo do médico e político: “Note-se o semblante angustiado de Alfredo, que passava por uma das fases mais difíceis de sua vida”.
Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid0vx7Fi9Y35q72aic5J3WxqZspG5VMZdGgYcHyAKLXsK4SMjqNPAg1MfGh28uYDHVil

A chegada do Dr. Casemiro da Rocha a Cunha – 12 de abril de 1.878

Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da nossa página no Facebook.

Em 12 de abril de 1878 chegava a Cunha, com o intuito de fixar residência, o médico baiano Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, proveniente de São Paulo, em companhia do jornalista e bacharel cunhense Benedicto Velloso d’Oliveira e Silva. Acometido de afecção pulmonar, foi convencido por Benedicto Velloso a vir para Cunha, para que o clima salubre das montanhas exercesse sobre sua moléstia efeito terapêutico. Quando chegou, logo percebeu ser o único médico residente em Cunha, razão que o leva a abrir um consultório imediatamente na cidade. No último quartel do século XIX, Cunha já estava entrando em fase de decadência econômica, devido ao esgotamento da pujança cafeeira do Vale e à Estrada de Ferro Central do Brasil, que tornou impraticável o caminho Guaratinguetá-Paraty. Por isso, desde logo anunciou: “consulta grátis aos pobres”. Sua benevolência o tornaria notório e em pouco tempo ganhou a simpatia e amizade dos cunhenses. Um ano após a sua chegada, foi eleito vereador pelo Partido Liberal. Como médico, fazia mais caridade que para as contas. Na política defendeu a causa republicana, fundando o Clube Republicano de Cunha, e a causa abolicionista, atuando na libertação de muitos escravos da cidade.
Em 1883, já filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), chegou à presidência da Câmara Municipal. Mesmo sofrendo preconceito por ser negro (no início), não se abateu e se impôs (pela sua formação e benevolência) ante a elite local, a qual ele passou a integrar e liderar. Em 1911 foi um dos precursores, junto com prefeito Coronel João Olympio, na criação do primeiro hospital de Cunha, a Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, que funcionou onde é hoje o restaurante Jeca Grill, na rua que se chamava Direita e hoje leva o seu nome. Republicano de primeira hora, com o advento do novo regime, logo estaria ocupando postos políticos e se tornando em um dos líderes do Partido Republicano Paulista (PRP), o principal partido da Primeira República. Em 1913 liderou a construção do Grupo Escolar. Em 1918 estava nos leitos improvisados de Cunha combatendo a gripe espanhola.
Em 1933 foi nomeado prefeito de Cunha, uma cidade arrasada economicamente pela Revolução do ano anterior. Mas ocupou o cargo por poucos dias, falecendo em 29 de dezembro do mesmo ano, para tristeza de todos. Sua ascensão política e seu amor Cunha, terra que adotou como sua e ajudou como pôde, fez dele uma figura marcante na História de Cunha e querido por todos. Além de ser um ótimo político, sempre foi alguém preocupado com o bem comum e em ajudar a cidade que o acolheu.

Fontes:
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha – Freguesia do Facão – A rota de exploração das Minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010, pp. 353-354.

Foto: Alfredo Casemiro da Rocha, aos 22 anos de idade, posando com sua tese de doutoramento, intitulada: “Do diagnóstico e tratamento do beribéri”, na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador (BA), no começo do ano de 1.878. Foto extraída do livro do “Negro político, político negro”, de Oracy Nogueira, p. 43. Foto provavelmente cedida pela família ao autor.

Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid02WpUHembMWL3f1jTxy2rqdx8xvXGq3UxPuCija3RBot4GtPnrRiNiKZtfq5cppd9Tl