Quando o Paraitinga transbordou: a inundação de 1882 em São Luiz

Foto da praça central e centro histórico de São Luiz do Paraitinga, em 1882. Fonte: Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Colorizada por IA (Gemini).

Encravada nas curvas sinuosas do Vale do Paraíba, abraçada pelas escarpas da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga é uma daquelas cidades que nos remetem ao passado. Seu casario colonial em taipa de pilão e pau-a-pique, suas tradições seculares como a Festa do Divino Espírito Santo e o famoso Carnaval de Marchinhas agitam a história de um lugar, que no passado, foi um próspero entreposto comercial entre a serra e o litoral, por onde escoavam os produtos da lavoura do planalto, por meio de tropas, rumo ao porto de Ubatuba. Porém, a mesma geografia encantadora que emoldura a cidade carrega uma vulnerabilidade histórica. O sítio de São Luiz se assenta, nos dizeres de Ab’Saber, o filho ilustre, em um lóbulo meândrico, às margens do Rio Paraitinga. Meandros estreitos, topografia de várzea e vales encaixados formam um conjunto paisagístico capaz de desencadear cheias sazonais devastadoras.

Quando pensamos na força das águas em São Luiz do Paraitinga, a memória coletiva nos remete imediatamente, por proximidade temporal, à catástrofe de janeiro de 2010, quando o rio subiu mais de 12 metros, destruiu a histórica Igreja Matriz e devastou o centro histórico. O que poucos sabem, no entanto, é que em fevereiro de 1882, mais de um século antes, a cidade viveu um drama semelhante, documentado nas páginas dos jornais do Correio Paulistano.

Um fevereiro chuvoso

Nas últimas semanas de fevereiro de 1882, pancadas torrenciais de chuva castigaram o Vale do Paraíba. Sobretudo as áreas serranas como Cunha, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. O Rio Paraitinga, afluente do Paraíba do Sul, transbordou entre os dias 22 e 24 de fevereiro, avançando sobre o casario imperial de São Luiz, cidade margeada pelo rio.

As notícias da época, publicadas no periódico paulistano Correio Paulistano (que replicava relatos de jornais locais como a Gazeta de S. Luiz, e Redempção), relatam os acontecimentos do desastre hidrológico e a dimensão dos danos e prejuízos à comunidade local.

Em edição de 23 de fevereiro de 1882, o Correio Paulistano advertia que as águas já ultrapassavam marcos históricos antigos: “Relatam os habitantes desta cidade que, após a magna enchente que houve em 1863, a qual causou panico e grandes prejuizos á localidade, nenhuma ainda chegou a altura da que se manifestou esta semana no Parahytinga, cujas aguas engrossadas consideravelmente, chegaram até os umbraes das cozinhas de algumas casas que se acham mais chegadas ao rio.” Diferente do que se podia imaginar no início, a água não parou por aí. Nos dias seguintes, o Paraitinga continua subindo. A população acompanha atônita.

Ruas ou rios?

As ruas de São Luiz viraram rios. O Paraitinga foi entrando sem pedir licença. A edição do Correio Paulistano de 4 de março de 1882 (transcrevendo a Gazeta de S. Luiz, de 25 de fevereiro) trouxe detalhes minuciosos do ápice do desastre: “Esta cidade está sendo victima de uma inundação, causada pelas aguas do Parahytinga, que começou a augmentar de volume desde o dia 22. E acrescenta: “Rodou a ponte que se achava a entrada da cidade e que dava passagem para Taubaté e outros pontos. As ruas do Barão do Parahytinga, 31 de Março, D. Pedro II, Rosario, Fazendeiros e praças da Matriz e Mercês estão alagadas; nellas navegam canôas salvando pessoas e objectos”.

O relato descreve a destruição dos prédios históricos e o pânico da população: “As casas d’estas ruas e praças estragaram-se e já desabaram as dos srs. capitão Laurindo Pereira do Campos, capitão Generoso Pereira do Campos, escrivão do orphãos, José Antonio Guerra, capitão José Maria do Gouveia; os fundos do palacete da exma. sra. baroneza do Parahytinga abateo, bem como a casa do redactor do ‘Redempção’ e a do 2º tabellião interino. Os habitantes d’aquellas ruas e praças refugiaram se nas egrejas Matriz, Rosario, Mercês, na casa da camara e nos pontos mais elevados”.

Em 9 de março de 1882, o jornal trazia novos relatos transcritos do Redempção, um periódico luizense, destacando a elevação impressionante do leito do rio: “O rio Parahytinga, que sahio do seu leito no dia 23 do passado [fevereiro], invadira a cidade, inundando-a nos dias 23 e 24, elevando as suas águas a mais dois palmos de altura da fallada enchente de Janeiro de 1863.[…] Na rua dos Fazendeiros a água chegou à altura de 10 palmos!” E acrescenta: “A ponte da cidade foi levada pela impetuosidade das águas; a torre e frontispício da matriz abateram e ameaçam cahir.” Note-se, aqui, um agouro: já em 1882 a estrutura da Igreja Matriz sofria abalos e ameaçava ruir por conta da inundação, uma terrível premonição do que viria, de fato, a acontecer no limiar do ano de 2010.

Prejuízos e isolamento

Além das perdas materiais no centro urbano, a inundação de 1882 cortou as artérias de comunicação de São Luiz do Paraitinga com o restante da Província de São Paulo. A cidade ficou praticamente isolada.

O trecho da edição de 22 de abril de 1882 resume o estrago na infraestrutura regional: “Accresce, porém, que cahiram diversas pontes do municipio, tornando assim muito difficil as communicações com a cidade, notando-se entre ellas a ponte sobre o rio Parahytinga que banha a cidade de S. Luiz e a ponte sobre o rio Parahybuna na estrada que conduz a Ubatuba; a primeira acha-se na estrada que liga S. Luiz a E. F. do Norte, em Taubaté, e a segunda na estrada por onde passam os productos da lavoura do municipio para o porto de Ubatuba.”

Esses danos atingiram as vias principais de circulação de São Luiz, comprometendo sua histórica função de entreposto comercial, rota intermediária entre o Vale e o mar. Os prejuízos econômicos foram avaliados em centenas de contos de réis, uma fortuna astronômica para a época: “Os prejuízos na cidade são orçados em perto de duzentos contos, mas se á estes acrescentarmos os causados pela cheia do ribeirão do Chapéo e grandes trovoadas nos dias 24, 25 e 26, podemos calcular em 300 contos o de todo o município.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). Diante do caos, produtores locais e lavradores enviaram apelos desesperados ao Presidente da Província (equivalente ao atual Governador), como consta na edição de 30 de abril de 1882: “Os infelizes lavradores de S. Luiz, lutam não só com a crise que nos acabrunha como tambem com a impossibilidade de transportar os seus productos, devido ao descuido, pouco caso e a impiedade com que temos sido tratados pelo governo […] pedimos instantemente que não deixe ao desamparo os pobres luizenses…”.

Sem contato com o restante da Província, o colapso econômico era iminente. São Luiz dependia das suas vias de circulação e do trânsito de tropas para sobreviver economicamente. O apelo urgente ao orçamento do governo provincial era a saída.

Solidariedade nas horas difíceis

Apesar do desespero, os relatos de 1882 também registram atos de humanidade, de ajuda mútua e união comunitária. Em meio às perdas, comerciantes e cidadãos não mediram esforços para resgatar vizinhos e distribuir mantimentos: “Felizmente não tivemos vida a lamentar, mas alguns cidadãos escaparam de ser victimas de sua dedicação[…] O exmo. sr. Barão de Parahytinga, três ou quatro dias após a enchente, mandou alguns cargueiros de gêneros alimentícios para serem distribuídos com os pobres.” (Correio Paulistano, 9 de março de 1882). O jornal registra ainda uma lista de moradores e nomes notáveis da sociedade luizense que atuaram no socorro das famílias atingidas. Nas tragédias, a solidariedade e a hospitalidade, tão características das sociedades caipiras, emergem com força maior. Em 2010, durante a inundação do centro histórico, os operadores e instrutores de turismo de aventura da cidade usaram botes de rafting para resgatar mais de mil pessoas ilhadas e transportar suprimentos essenciais.

Desastres que se repetem

Sítio urbano e perfil topográfico da cidade de São Luiz do Paraitinga. Fonte: Nice Lecocq Müller.

A geografia de São Luiz do Paraitinga, cravada em uma bacia hidrográfica recortada por serras íngremes e vales estreitos, faz com que a água acumulada nas cabeceiras da Serra do Mar e da Bocaina convirja com velocidade e intensidade para o leito do Paraitinga. Sempre quando chove muito em Cunha, o Paraitinga inunda São Luiz. Foi assim em 1882 e em 2010. Por isso, o monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em Cunha é tão importante para a cidade.

AspectosInundação de 1882Inundação de 2010
CausaChuvas volumosas e contínuas no mês de fevereiro.Precipitação extrema acumulada na virada do ano (31 de dez. 2009 – 1 de jan. 2010 (mais de 300 mm, principalmente nas cabeceiras do Paraitinga).
Dinâmica do RioTransbordamento do Rio Paraitinga atingindo 6 a 8 metros acima do leito.Elevação do rio em mais de 12 metros acima do nível normal
Impacto no PatrimônioDanos e desabamentos dos casarões de taipa, desabamento de pontes e trincas no frontispício da Matriz.Destruição total da Igreja Matriz, da Capela das Mercês e desabamento de casarões tombados.
IsolamentoQueda das pontes para Taubaté e Ubatuba; tráfego feito por canoas e baldeação.Interdição das rodovias Oswaldo Cruz e estradas vicinais; isolamento por dias.
Resgate e ApoioResgates comunitários com canoas de madeira e solidariedade dos moradores locais.Ações de resgate por helicópteros e botes infláveis das equipes de rafting; mobilização de voluntários e da Defesa Civil.

Em 1882, os jornais falavam em canoas navegando por cima dos balcões das lojas na Rua dos Fazendeiros. Em 2010, o cenário foi dolorosamente idêntico: o centro histórico se transformou em um grande lago corrente. O núcleo original da cidade, onde se eleva a igreja, implantou-se na planície de sedimentação do rio Paraitinga, correspondendo à margem convexa de um meandro. Com o crescimento urbano, a cidade expandiu-se pelo mesmo lado do rio, ocupando também a margem côncava de outro meandro imediatamente a montante, além de avançar pelas colinas cristalinas ao redor. A localização de seu sítio urbano a expõe a esse risco hidrológico.

Lições do tempo

A cidade margeada pelo rio. Foto: Carlos Borges Schmidt. Data: década de 1950.

A história de São Luiz do Paraitinga é uma história de simbiose com suas águas. O mesmo rio que traz vida e fertilidade, que batizou a urbe, que aterrou o sítio onde os casarões históricos se assentam pode extravasar, ocupar sua planície, causando perdas de vidas, ferimentos, doenças, desalojamentos, falências, arruinando o inestimável patrimônio histórico daquele lugar.

Reexaminar os jornais de 1882 nos lembra que a memória e o conhecimento geográfico são as melhores ferramentas para conviver com a força da natureza, que são cíclicas e incontroláveis. É preciso, portanto, conhecê-las para se prevenir. É preciso se prevenir para preservar o patrimônio histórico. Com as mudanças climáticas, eventos extremos serão mais comuns. Novas inundações acontecerão. A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) é uma das soluções para superar as adversidades vindouras. Ao fazer uma abordagem pedagógica e comunitária, a ERRD cria uma cultura de prevenção, resiliência e autoproteção frente a ameaças socioambientais e climáticas. Integra, assim, o conhecimento científico aos saberes locais para desnaturalizar os desastres, mostrando que, embora os eventos naturais (como inundações) ocorram, o risco e a tragédia são construções sociais mitigáveis pela ação da sociedade organizada.

São Luiz do Paraitinga sobreviveu a 1863, resistiu bravamente em 1882 e renasceu em 2010. A força das águas do Paraitinga não esmoreceu a resiliência do luizense. Calcado em sua rica e história e cultura, o povo de São Luiz nunca perde o ânimo. Quando as chuvas cessam nas cabeceiras, o Paraitinga se amansa e volta ao seu leito; o luizense, com tenacidade, reconstrói tudo de novo. As coisas se ajeitam, a vida e o rio seguem o seu curso.

Referências:
Ab’Sáber, A. N. (2003). Os domínios de natureza no Brasil: Potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial.
Allucci, R. R., & Schucchi, M. C. D. S.. (2019). São Luiz do Paraitinga: o imaginário fundacional e suas projeções. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 27, e 15.
Borsoi, D. F.. (2021). São Luiz do Paraitinga: em que medida iluminista? Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 29, d1e28.
CORREIO PAULISTANO (várias edições de 1882) – Hemeroteca Digital Brasileira.
Müller, N. L. (1969). O fato urbano na Bacia do Rio Paraíba: Estado de São Paulo (Série A – Biblioteca Geográfica Brasileira, Publicação n.º 23). Instituto Brasileiro de Geografia.
Petrone, P. (1959). A região de São Luis do Paraitinga: (Estudo de geografia humana). Revista Brasileira de Geografia21( 3), 239-336.
Tominaga, L. K., Santoro, J., & Amaral, R. do. (Orgs.). (2015). Desastres naturais: Conhecer para prevenir (3ª ed.). Instituto Geológico.

O desastre climático de 1º de janeiro de 2010

Arte elaborada pelo Jacuhy para a série de postagens de #HojeNaHistóriaDeCunha, do perfil do Jacuhy no Facebook. Data: 2020.

Há 15 anos, no dia 01/01/2.010, Cunha amanheceu isolada e destruída depois de uma chuva torrencial que durou 12 horas ininterruptas. A chuva começou no final da tarde do dia 31 de dezembro de 2.009 e foi até a manhã do Ano Novo. Deslizamentos de terra ocorreram em todo o município, sendo um deles fatal. Com tanta água sendo escoada, a drenagem dos rios foi insuficiente. Os seus volumes transbordaram com força, destruindo pontes, estradas, construções e tudo o mais que encontraram pela frente. Em São Luiz do Paraitinga, cidade à jusante do rio que a batizou, o Paraitinga, abastecido pelas torrentes recebidas no município de Cunha, subiu mais de 12 metros acima de seu leito normal, inundando a histórica cidade vale-paraibana, com dezenas de casarões e construções tombadas pelo Patrimônio Histórico. Os prédios de taipa derreteram, sucumbindo ante à força impetuosa da natureza. Todos assistiram inertes e estarrecidos à queda Igreja Matriz de São Luís de Tolosa, edifício centenário e imponente, que foi reconstruído recentemente.

Causas

Destruição causada pela chuva, no Distrito de Campos de Cunha, em 01 de jan. de 2010.

De onde veio tanta água? Dados históricos da PCD (Plataforma de Coleta de Dados) / Estações Ambientais Automáticas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), localizada no alto do Parque Nova Cunha, registraram no dia 1º de janeiro de 2.010, 165 mm de precipitação, o que equivale dizer que em cada metro quadrado de solo choveu cerca 165 litros de água. Dados da Estação Digital da ANA (Agência Nacional de Águas), que fica perto da ponte sobre o rio Paraitinga, na Rodovia Paulo Virgínio, registrou 174 mm de precipitação, um valor extremamente alto e raro de acontecer, que até chega a assustar até os cientistas e estudiosos do clima. Assim que toda essa água começou a descer rio baixo, o nível do rio Paraitinga só ia aumentando, deixando a população luizense em pânico, pois não sabiam de onde estava vindo tanta água, já que a chuva por lá não foi tão forte como cá. Só depois dessa tragédia, os órgãos estaduais competentes resolveram criar uma rede de coleta de dados e de prevenção integrada, facilitando a comunicação da área à montante (Cunha), com as cidades à jusante do rio, como São Luiz.

Climograma de Cunha – SP, elaborado com dados meteorológicos entre 1991 a 2021. Fonte: Climate Data.

Segundo o meteorologista do CPTEC- INPE, Giovanni Dolif, a intensa precipitação que castigou a nossa região foi causada por um sistema de baixa pressão atmosférica, cujo centro estava no Atlântico, estacionado há alguns quilômetros litoral norte de São Paulo. Áreas de baixa pressão favorecem a ocorrência de chuvas. Ventos úmidos, vindos tanto do continente (desde a Amazônia) como do mar (do Atlântico), se encontraram justamente sobre nossa região, formando nuvens carregadas que acabaram se precipitando.  Além do mais, o fator geomorfológico (Serra do Mar) favorece a formação de nuvens mais carregadas. Já para o renomado geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab’Sáber, já falecido, o evento de janeiro de 2.010 era parte de uma crise periódica de natureza climato-hidrológica de escala mais ampla que a mera convergência de ventos em determinado local, pois para ele a climatologia tropical entraria em colapso de tempos em tempos, como diz: “Este ano (2.010) foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos (…) essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luís. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”. Nesta entrevista à Rede Brasil Atual, Ab’Sáber também mencionou como agravante do colapso climático a feição do relevo, extremamente montanhosa em nossa região, um verdadeiro “mar de morros”, conforme termo que ele cunhou. Para o pesquisador, o caminho para minimizar os impactos desses colapsos passa pela educação preventiva, ressaltando que “é hora de obrigar essas cidades (Cunha, Angra dos Reis, São Luiz etc.) a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa.” Ou seja, é preciso que cada morador conheça o seu próprio município, os seus aspectos naturais e históricos.

Vídeo gravado por morador mostrando a inundação causada pelo rio Paraitinga, na SP-171 (Rodovia Paulo Virgínio), na altura do bairro do Paraitinga. Data: 2.010.

Consequências

Em 01 de janeiro de 2.010, a situação era crítica, devido a diversos escorregamentos, tanto na zona urbana quanto na rural, isolando a cidade, as vilas e bairros rurais. Os números do desastre climático foram os seguintes: queda de cerca de 1.000 barreiras em estradas e rodovias; destruição de 300 pontes de madeira em estrada rural; 38 desabrigados; 492 desalojados; 12.000 isolados e 6 óbitos por soterramento (Mário Penha, 46 anos, Ingrid, 35 anos, Manolo e Érica, casal com aproximadamente 65 anos, Eduardo Moron, 15 anos, e Sabrina, 12 anos), todos de uma mesma família paulistana, que possuía uma casa de veraneio no bairro da Barra do Bié, destruída por um deslizamento de terra. Houve a remoção de famílias em aproximadamente 90 residências. Além desses danos, não se contabilizaram os inúmeros estábulos, áreas de pastagem e animais mortos em virtude da enchente causada por tamanha chuva, trazendo sérios prejuízos econômicos para pecuária leiteira, principal atividade municipal. Como a situação da cidade foi amplamente divulgada pela mídia e as estradas ficaram intransitáveis, o setor turístico também teve um enorme prejuízo e, nos anos posteriores, foi absorvendo o impacto negativo. A Prefeitura de Cunha, diante de sua incapacidade responder aos danos causados pelas consequências da precipitação anormal, decretou Estado de Calamidade Pública, em 5 de janeiro. O isolamento total durou até o dia 3 de janeiro, quando a ligação com Guaratinguetá foi reestabelecida, pois as pontes da SP-171 foram parcialmente destruídas. A Prefeitura deslocou todo o seu corpo técnico e parte do seu setor de serviços para a Escola Municipal “Benedito Aguiar Sant’Anna”, prédio que foi a base das operações emergenciais daquele janeiro. O objetivo era coordenar as ações e respostas da Municipalidade de maneira sinérgica, visando apresentar uma resposta menos demorada ante à catástrofe.

Vídeo elaborado pela Defesa Civil de Cunha, em 2.010, com fotos da tragédia climática, durante a resposta de Cunha à calamidade.

Apesar de toda tragédia vivenciada, Cunha também experimentou a solidariedade das cidades vizinhas e de todo Brasil, pois inúmeras doações foram encaminhadas à cidade. Os helicópteros da Polícia Militar do Estado de São Paulo e do Comando de Aviação do Exército Brasileiro, que se mobilizaram para atuar em Cunha nos momentos mais difíceis, em muito ajudaram à população da zona rural, prestando socorro e rompendo o isolamento que preocupava a todos. A Defesa Civil estadual, bem como os excelentes institutos estaduais IG (Instituto Geológico) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) deram todo o apoio técnico, administrativo e operacional possível, não só no momento emergencial (com vistorias e interdição de áreas de risco), mas principalmente posteriormente, ajudando na construção de um município menos inseguro e mais planejado (ainda um sonho). Muitos moradores de Cunha também se voluntariam e atuaram naquele momento, seja na distribuição de alimentos e medicamentos para moradores rurais, na logística das operações ou ainda no descarregamento, armazenamento, triagem e distribuição das doações recebidas.

Destruição causada pela enchente na ponte sobre o rio Jacuizinho, na SP-171. Data: 01/01/2010.

O desastre natural serviu para reforçar o papel e a importância da Defesa Civil municipal, que foi o órgão mais atuante durante o período emergencial e de calamidade pública, prestando todo o socorro possível e não medindo esforços para que a os danos ocorridos fossem atenuados.  O papel assumido pela Defesa Civil durante o momento calamitoso fez com que os moradores e órgãos municipais entendessem a importância da própria comunidade local atuar e se prevenir em relação aos riscos que podem destruir bens materiais e vidas. “Área de risco” passou a fazer parte do vocabulário cunhense e todos passaram a levar o assunto a sério. Esse evento triste e desastroso nos serviu como alerta, mostrando que nenhum lugar – nem os mais belos, como o nosso – está a salvo de eventos meteorológicos intensos e catastróficos. E que o único meio de evitar grandes danos materiais e humanos é se preparar para eles, porque cedo ou tarde acabam ocorrendo. As cicatrizes, dos movimentos de massas que ocorreram em 2.010, são visíveis ainda em nossa paisagem, servindo como lembrete, um recado da natureza para não nos deixar esquecer do fatídico desastre.

Reconstrução

Todo o mês de janeiro de 2.010 seria marcado pela ação emergencial da Prefeitura, de órgãos estaduais e da Polícia Militar e do Exército Brasileiro (presente com os seus helicópteros), um esforço conjunto na tentativa de mitigar os efeitos desastrosos do colapso climático, visando desobstruir estradas, levar medicamentos e mantimentos às comunidades isoladas e reconstruir pontes de madeira às pressas, na tentativa de reconectar os bairros rurais à sede municipal. A reconstrução das pontes, estradas e casas do município levaria ainda dois longos anos e receberia financiamento público, com a transferência de recursos estaduais e federais.  As estradas foram refeitas entre os anos de 2.010/2.011, pela Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (CODASP), mediante convênio da Prefeitura com o Governo do Estado. Já o núcleo do CDHU – Estrada Velha, construído para atender às famílias que perderam suas casas no desastre, só foi concluído e inaugurado em 2.016.

Reportagem da TV Band Vale, em 28/01/2010, mostrando as ações da comunidade e da municipalidade cunhense para reconstruir o município.

Pode ocorrer novamente?

Desastres naturais de natureza atmosférica não são raros em Cunha. Como exemplo podemos citar a grande chuva do dia 17 para o dia 18 de dezembro de 1.973, que levou o prefeito de então José Elias Abdalla, o Zelão, a decretar estado de calamidade pública. Pontes e estradas ficaram destruídas e acabadas. Todavia, essa precipitação foi tipicamente convectiva, de modo que não se apresentou uniforme por todo o município, mas concentrou-se justamente nas cabeceiras do rio Jacuí, daí o seu impacto destrutivo. Segundo o DAEE, na Estação Pluviométrica do Cume foram registrados 73 mm, uma forte chuva, na Estação Pluviométrica da Paraibuna foram registrados 77,3 mm, mas nada se compara ao registrado na Estação Pluviométrica do Sertão do Rio Manso, com os seus alarmantes 293,5 mm anotados. O vendaval de granizo de 14 de junho de 1.987 durou apenas 5 minutos, mas acabou destruindo parcialmente 60 casas e ferindo 35 pessoas levemente. Os vários destelhamentos assustaram os moradores. Eventos climáticos extremos desse tipo demonstram que a nossa região não está livre de catástrofes naturais, pois fatores como característica do terreno e do relevo, o sistema atmosférico e a questão humana, que envolve a forma de ocupação e a ausência de planejamento e ordenamento territorial, são elementos catalisadores de tragédias climáticas. E nem sempre os prejuízos se restringem ao campo econômico, infelizmente. Geadas extremas e estiagens também costumam ocorrer em nosso município e podem acarretar muitos transtornos e danos econômicos para agropecuária local. Por isso a importância da elaboração por parte do município de um plano de contingência, para dar uma resposta rápida quando o desastre acontecer. Como é difícil saber “quando”, “o que” e “onde” ocorrerão os próximos eventos climáticos extremos, vale a máxima popular: “é melhor prevenir do que remediar”.

Vídeo mostra São Luís do Paraitinga alagada e a queda de uma das torres da Igreja Matriz, que acabou por ruir.

Fontes:

AB’SABER, Aziz Nacib. A propósito da periodicidade climato-hidrológica que vem provocando grandes crises em Santa Catarina. Estudos Avançados, São Paulo, v. 23, n. 67, p. 299-306, 2009.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000300032&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em:  01 Jan.  2020.
Band News. Brasil: INPE alertou sobre chuvas no Vale do Paraíba em SP. Disponível em: https://tvuol.uol.com.br/video/brasil-inpe-alertou-sobre-chuvas-no-vale-do-paraiba-em-sp-04028D1A3666C8813326
CENTRO DE PREVISÃO DE TEMPO E ESTUDOS CLIMÁTICOS (CPTEC) / INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Banco de Dados – Dados automáticos da Plataforma de Coleta de Dados (PCD): PCD 30885 – ESTAÇÃO: Cunha/SP Disponível em: http://sinda.crn.inpe.br/PCD/SITE/novo/site/index.php.
COMITÊ DE INTEGRAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARAÍBA DO SUL (CEIVAP). Recuperação da bacia do rio Paraitinga vai custar cerca de R$ 15 milhões. Revista Pelas Águas do Paraíba. n. 5, ano IV, nov. 2010. p. 36-37.
DEPARTAMENTO DE ÁGUAS E ENERGIA ELÉTRICA (DAEE). Banco de Dados Hidrológicos. Disponível em: http://www.hidrologia.daee.sp.gov.br/
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G1. Helicóptero do Exército resgata mulher que sobreviveu a deslizamento em Cunha. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1432334-5605,00-HELICOPTERO+DO+EXERCITO+RESGATA+MULHER+QUE+SOBREVIVEU+A+DESLIZAMENTO+EM+CUN.html
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G1. Chuva derrubou 600 barreiras e 300 pontes em Cunha, diz prefeitura. Disponível: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1433244-5605,00-CHUVA+DERRUBOU+BARREIRAS+E+PONTES+EM+CUNHA+DIZ+PREFEITURA.html
Giovanni Dolif – Chuva intensa em Angra, Sao Luis do Paraitinga e Cunha. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gdx3fMqewJ0
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O Globo. Turistas morrem soterrados em deslizamento de terra em Cunha, SP. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/turistas-morrem-soterrados-em-deslizamento-de-terra-em-cunha-sp-3075311
PREFEITURA DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Decreto n.º 043/73, de 18 de dezembro de 1.973.
Rede Brasil Atual. Para Ab’Saber, inundação de Paraitinga é parte de ano anômalo. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidades/2010/01/para-absaber-inundacao-de-paraitinga-e-parte-de-ano-anomalo-1/
UOL Notícias. Quase 2.000 permanecem isolados em Cunha (SP); Capivari (SP) tem 378 desabrigados. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/06/ult5772u6924.jhtm
UOL Notícias. Cunha-SP decreta estado de calamidade pública. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/2010/01/05/ult4469u51213.jhtm

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