Em 1924, Cornélio Pires lançou o livro “Conversas do Pé do Fogo”. O livro reuniu causos, reflexões, ditados populares, anedotas e sabedoria popular, coletânea obtida das conversas simples, ao redor do fogo, nas rodas de violeiros e nos encontros típicos do meio rural paulista. Era um hábito muito caipira e comum conversar ao redor do fogão a lenha.
Mas qual era a pauta dessas prosas noturnas? Assuntos vários: vagueando entre causos de assombração, fofocas, picuinhas, bafafás, negócios e negociatas… e as infindáveis genealogias, levantadas desde priscas eras, com a devida resenha e desfecho, tal qual o poema “Quadrilha”, de Drummond. Em um mundo em que o jornal, o rádio ou a TV não “pegavam”, eram essas conversas uma eficaz forma informação e entretenimento. “Jogando conversa fora, até o sono chegar”, como diziam. Iluminadas pelas chamas do fogão, incutia-se nas gerações mais novas o modo de falar e de contar uma história, a sabedoria e as crendices populares, tão necessárias para sobrevivência de uma cultura, mantendo viva as tradições caipiras. Como um ritual, uma iniciação.
Com a morte dos bairros rurais, vitimados pelo êxodo rural, as conversas ao pé do fogo foram se apagando. Mas não só. Fogão a lenha é coisa do passado ou virou enfeite. Famílias numerosas foram se encurtando. Reunião de vizinhos para prosear, em um mundo cada vez mais individualista, é considerada “perda de tempo”. Vínculos de sociabilidade viraram cinzas. O último sopro foi o advento da internet e a sua popularização, com os “smartphones”, que transladou as conversas ao pé do fogo para as páginas da história, para o baú de coisas antigas. Os círculos materiais deram lugar aos virtuais, aos grupos no “Zap”.
Cada vez mais rara, essa maneira de conversar, prazerosa, demorada, desinteressada, assistida pelos braseiros, foi imortalizada nos versos de Cora Coralina, no poema “Fazenda Paraíso”:
“(…) De lado, bancos pesados, a mesa das refeições. Meu avô puxava o tamborete da cabeceira, tomava assento. Tio Jacinto vinha e se ajeitava, nós, gente menor, rodeávamos o fogo sentadas em pedaços de couro de boi, pelo chão. Gente grande nos bancos em fileira. Ricarda, acocorada, alimentava o fogo. Ficávamos ali em adoração naquele ritual sagrado, que vem de milênios, de quando o primeiro fogo se acendeu na terra. Contavam-se causos. Conversas infindáveis de outros tempos e pessoas mortas (…)”
Sobre Cornélio Pires, foi um jornalista, folclorista e escritor brasileiro, pioneiro na valorização da cultura caipira, sendo um dos primeiros a gravar discos com músicas sertanejas e causos do interior. Sua obra tem grande valor etnográfico, linguístico e histórico, preservando um Brasil que, aos poucos, se transformava com o avanço da urbanização. E que, neste dias, remetem a um tempo que já se foi…
Recém-inaugurado, o segundo templo metodista e o primeiro de alvenaria da Igreja Metodista do Jericó. Substituiu o antigo, feito de pau-a-pique e sapé. Hoje é o salão social “W. B. Lee”. Foto: “Expositor Cristão”. Data: década de 1910.
Jericó, bairro rural na região sudoeste do município de Cunha. Jericó do requeijão de prato, do “café medroso”, da cachoeira belíssima, do chapéu e do embornal, dos lajeados de pedra, dos velhos casarões de taipa, dos fazendeiros de outrora… Jericó da Igreja Metodista! O “bairro dos metodistas”, qualificativo que os cunhenses davam ao bairro no passado.
Panorama do bairro do Jericó, zona rural de Cunha – SP. Um pequeno vale que começa com a igreja. Foto: Pedaleiros de Cunha (Instagram).Data: 2021.
Quando o Metodismo chegou, através dos “tropeiros de Cristo” reverendo J. R. Carvalho e diácono J. C. de Andrade, o bairro ainda se chamava Mandinga. Na língua dos africanos, “terra do feitiço”. Após a conversão completa dos moradores, trataram logo os metodistas de mudar o nome do lugar para Jericó. Uma alusão à primeira cidade que os hebreus conquistaram em Canaã, após o retorno da escravidão no Egito, sob a liderança de Josué. A comparação realmente faz sentido quando levamos em conta a beleza paisagística e a fertilidade do lugar, comparável à Terra Prometida dos hebreus. A igreja local coloca em destaque na pracinha alguns versículos bíblicos, que se referem à Canaã, mas cabem perfeitamente também ao bairro do Jericó:
“Porque o Senhor teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas; Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel. Terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre. Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao Senhor teu Deus pela boa terra que te deu. Guarda-te que não te esqueças do Senhor teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos que hoje te ordeno.”
Deuteronômio 8: 7 – 11
Longe de todas as cidades, Jericó era o lugar perfeito para que os crentes pudessem cultuar a Deus em paz. O sociólogo Emílio Willems apontou que a implantação do Metodismo em Cunha não sofreu oposição católica devido ao isolamento do bairro. O antropólogo Robert W. Shirley afirma que os missionários preferiram Jericó porque na zona urbana a hostilidade da elite e do clero católico seria inevitável, dada a experiência desagradável que tiveram os missionários evangélicos em outras cidades paulistas. Novidade no início da República, a separação entre religião e Estado ainda não estava plenamente consolidada. No interior do Brasil, regido sob o arbítrio dos coronéis, as leis constitucionais não valiam plenamente. Perseguições religiosas, sob a chancela das autoridades locais, não eram raras. Não foi o caso de Cunha. Ainda bem.
Metodistas do Jericó junto ao seu pastor Rev. William B. Lee, missionário enviado pela Igreja Metodista Episcopal do Sul, dos EUA, ao Brasil. Os pés descalços e os chapéus de palha dos homens dos moços e meninos chamam a atenção. Caipiras protestantes. Tempos difíceis… Foto: Valquíria Leite. Data: década de 1930.
Em seu livro “O fim de uma tradição”, Robert Shirley traz um detalhe importante sobre a implantação do Metodismo: o capitão da região do Jericó foi simpático à nova fé e a própria família desse capitão “desempenhou papel vital” no desenvolvimento da Igreja. O antropólogo está se referindo ao Capitão Joaquim Mariano de Toledo (Caçapava, 8 de maio de 1850 – Sertão dos Marianos – Cunha, 8 de janeiro de 1933), maior latifundiário de Cunha e conhecido como “Quim Mariano” ou “Quim Caçapava”. Foi povoador do Sertão dos Marianos, Frade, Campo Grande, Itambé, Peros, Sertão do Xavier, Sertãozinho e da Mandinga (atual Jericó). O capitão sempre permaneceu católico. Certamente, se se opusesse ao trabalho missionário dos metodistas, poderia ter trazido algum problema ou empecilho. Mas não foi o seu procedimento. Todavia, é preciso relembrar que a família do capitão vai aderindo à Igreja Metodista aos poucos, no decorrer das primeiras décadas do século XX. Nos primórdios, não esteve a evangelização ligada à família Mariano. Entre as famílias pioneiras encontramos os Almeida, os Eufrásio, os Campos e os Monteiro, não os Mariano Leite. A doação do terreno para a construção do primeiro templo, por exemplo, foi feita pelo sr. José Tomás Monteiro (Juca Tomás). O primeiro culto, realizado em 18 de março de 1899, ocorreu no lar do sr. Lethargino José Almeida. Com o passar do tempo, a união dessas famílias via se enlaçando através dos casamentos e os Mariano Leite vão ganhando proeminência no metodismo cunhense, com destaque para liderança religiosa exercida pelo sr. Luís Mariano Leite e dona Maria Cesarina de Jesus (“Cotinha”), dois grandes metodistas.
A Igreja Metodista do Jericó foi fundada em 26 de maio de 1901, separando-se da Igreja Metodista Central em Taubaté. Em seguido, começam os metodistas a construção de um templo para adorar o SENHOR, bem modesto e rústico, de taipa de mão e coberto de sapé. Tudo muito simples e de acordo com as condições econômicas das primeiras famílias metodistas. Pobres, mas determinados, trabalhadores. Contava a Igreja nessa fase inicial com 60 membros, todos conversos do Catolicismo e recebidos por pública profissão de fé. O grande número de crianças impressionava os missionários e indicava um futuro promissor para aquele pequenino e modesto templo, cujo entorno viria a se formar a maior comunidade protestante e rural do Brasil e única sob muitos aspectos. Também se tornaria a maior congregação metodista do Brasil, superando, inclusive, as comunidades urbanas.
Tempos áureos: metodistas reunidos para foto comunitária. A Igreja Metodista do Jericó atingia o seu maior número de membros. Mais de 150 pessoas aparecem nesta foto. Tem crente pendurado até nas árvores, lembrando Zaqueu, na narração do Evangelho segundo São Lucas. Foto: Jorge Prudente. Data: década de 1940.
O Metodismo cresceu rapidamente nos primeiros anos, alcançado a estabilidade na década de 1920, quando os recebidos por batismo ultrapassaram os recebidos por conversão e pública profissão de fé. É o sinal de que todos os moradores do lugar já haviam se convertido. Seus filhos já eram batizados na nova fé. Daí, concluída a tomada de Jericó, os missionários metodistas partiram para outras terras: Cume, Monjolo, Rio Manso, Bom Retiro, Guandu, Bangu, Desterro, Palmeiras, Lajinha, todos na região leste de Cunha. O trabalho nessa nova zona missionária se inicia na década de 1920 e vai até o estabelecimento da Igreja Metodista do Cume, entre 1928 e 1933. Mas não obteve o mesmo sucesso que Jericó, embora tenha dado origem a uma sólida congregação metodista. Os cientistas sociais que estudaram a implantação do Metodismo em Cunha apontam que o rápido crescimento se deu em função dos casamentos. Na época, tanto a Igreja Católica como a Igreja Metodista desencorajavam os enlaces inter-religiosos. Muitos rapazes aderiram ao Protestantismo para poder se casar com as moças da Igreja. Por isso, era comum ocorrer os maridos ou esposas fazerem a profissão de fé no mesmo dia do casamento.
Um dia de festa em Jericó! Centenas de pessoas entoando hinos adentram ao atual templo: mais amplo, moderno e com torre. Foto: Valquíria Leite. Data: 15 de dezembro de 1957.
Com a conversão da elite agrária do bairro, se tem então uma comunidade rural inteiramente evangélica. O que diferia totalmente da característica geral do Protestantismo brasileiro, que atraia, geralmente, pessoas das classes mais baixas da estratificação social e de não nascidos nas igrejas protestantes. Esse perfil social que marca os protestantes brasileiros até os nossos dias. Assim, em Jericó, a elite também era protestante. Ali, o Protestantismo era majoritário e a minoria era católica. Jericó era única por esse motivo também. Os metodistas eram a maioria e a Igreja Metodista possuía adeptos em todos os estratos sociais: fazendeiros, sitiantes, administradores, agregados, meeiros, peões, pedreiros, artesãos, doceiras, cozinheiras, inquilinos, retireiros, tropeiros, comerciantes, diaristas e trabalhadores rurais pobres; mulheres, crianças, professores.
A neblina cobrindo os montes, o templo novo, o templo antigo (hoje salão social), o muro no estilo da torre, a escola, a casa pastoral e a cocheira, a “garagem” do povo da roça guardar o seu veículo: o cavalo, à moda dos antigos tropeiros que trouxeram o Metodismo para Jericó, à moda de John Wesley. Símbolos de uma época. Foto: Valquíria Leite. Data: década de 1960.
A chegada da Igreja na cidade de Cunha levará mais tempo, vindo a acontecer somente na década 1950. Na zona urbana, os metodistas encontraram, inicialmente, uma ferrenha oposição católica. Houve algumas querelas teológicas entre os dois grupos e certas hostilidades religiosas por parte dos católicos contra os metodistas. A cessão das hostilidades aconteceu somente na década de 1960, após o Concílio Vaticano II, sínodo que levou o Catolicismo a promover uma abertura maior ao movimento ecumênico e a maior tolerância com os demais movimentos cristãos.
Igreja Metodista do Jericó e adro. Data: década de 1980.
Os cientistas sociais que estudaram Cunha como “comunidade-laboratório” destacaram a forte coesão social e religiosa dos metodistas. Um aspecto positivo mas que fazia deles uma força segregadora no contexto cultural caipira. A mais segregadora depois da política local. Sem muitas conexões locais, os metodistas mantinham comunicação com o universo exterior, através da literatura e dos periódicos religiosos que a Igreja Metodista enviava às igrejas locais. Willems estava em Cunha, exilado da Alemanha, durante o início da década de 1940. Quando tratava com os metodistas, era sempre interpelado sobre a situação da Segunda Guerra Mundial. Nas roças de Cunha a maioria do povo nem sabia que estava havendo guerra. Muito menos mundial. E nem queriam saber. Assunto aleatório e irrelevante para o cotidiano marcado pelo ciclo das plantações. Jamais os caipiras “de fato” perguntariam sobre isso… Os metodistas não só perguntavam, mas estavam informados sobre e queriam saber mais. Para os cientistas sociais, essa característica indicava um forte indício de ruptura, não só religiosa, mas social, psicológica e cultural com universo caipira. Era o fim de uma tradição?
Metodistas reunidos na frente do templo para foto com os pastores Rev. Sérgio Marcos Leite e Rev. Omir Andrade. Foto: Sérgio M. Leite. Data: década de 1990.
A forte coesão dos metodistas, segundo Willems e Shirley, provinha de algumas peculiaridades: culto doméstico, ênfase na educação e trabalho árduo, integração do núcleo familiar, leitura da Bíblia e periódicos etc. Saber ler, condição essencial para o culto protestante, foi um verdadeiro obstáculo! Nenhuma montanha ou caminho de tropa foi barreira maior para os missionários metodistas que a leitura. O analfabetismo imperava e a escolarização era uma ideia estranha para aquela sociedade agrária, onde os filhos, desde muito cedo, ingressavam na agricultura familiar. A escola parecia desnecessária aos pais. Assim, boa parte dos recursos humanos e financeiros dos metodistas cunhenses foram investidos na criação de escolas paroquiais. A do Cume e a do Jericó foram as primeiras de suas regiões. Por elas passaram gerações de metodistas. E de católicos. Apesar de confessional, essas escolinhas rurais atendiam a toda a comunidade, independente da crença dos pais. Posteriormente, foram incorporadas pela rede estadual, se tornando públicas de fato.
Metodistas do Jericó participam do Encontro Distrital de Jovens, na Igreja Metodista do Cume, Cunha (SP), junto com o seu pastor Rev. Felinto R. dos Santos Macedo. Foto: Salete Toledo. Data: 2002.
Todas essas características, estranhas ao universo caipira e rural, eram valores de uma vida urbana. E muitas famílias metodistas partiram para as urbes, para “estudar os filhos”. É o êxodo. Não o que se passa em Sinai, mas o rural, que impactou de sobremaneira o Brasil moderno. Outro fator que contribuiu para essa diáspora foram as mudanças no meio agrícola, relacionadas com o sistema de trabalho e o uso da terra. Nos anos de 1960, Cunha estava vivenciando a transição da agricultura familiar para a pecuária de leite e corte. As plantações davam lugar às pastagens, que eliminavam as roçadas e eram permanentes. O retiro suprimia a lavoura, o pousio e os mutirões. Era o fim de um ciclo. As igrejas rurais entram em declínio. Os bairros rurais perdem população. Outros ficam desabitados completamente, existindo apenas na memória dos mais antigos.
Hoje, a Igreja Metodista Central em Cunha, apesar de mais recente, é muito maior em número de membros do que as igrejas rurais, que são mais antigas e de quem foi filial. Mas os cultos em Jericó não cessaram. Não contam mais com mesma quantidade de gente, é verdade, que havia no passado. Nem há mais a cocheira ao lado do templo, onde os metodistas amarravam o seu cavalo para participar do culto dominical. Muitas famílias se mudaram para Cunha ou para outras cidades. Tantos já faleceram… Mas os cultos continuam a ocorrer e os hinos do Hinário Evangélico ainda são ouvidos, domingo após domingo, naquele aquele lugar que abrigou a fé dos pioneiros. Porque a fé permanece firme, intacta, como aquelas pedras que enfeitam os outeiros do lugar .
Igreja Metodista do Jericó. Foto: Renate Esslinger. Data: 2016.
A Igreja Metodista levou o bairro do Jericó ao crescimento: escola, templo novo e amplo, cooperativa, eletricidade e água corrente etc. E os jericoenses levaram o Metodismo para outras terras, expandindo a fé para outros pousos.
E o futuro? “A minha Graça te basta”, palavra do SENHOR.