Inauguração do Cemitério de Cunha – 7 de abril de 1868

Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha. Foto: Cemitério de Cunha, década de 1970. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.

Cemitério de Cunha foi inaugurado em 7 de abril de 1868, após mais de uma década de dedicação da Câmara Municipal. Angariar fundos naquele tempo não era fácil. A ação dos administradores locais em prol de um descanso seguro e asséptico aos mortos começou em meados do século XIX. O arcaico hábito de enterrar defuntos no interior de capelas e igrejas vinha sendo questionado pelas autoridades sanitárias do Império.

Entretanto, convém lembrar que essa honra de ser sepultado no interior dos templos sagrados era facultada às elites locais. Aos pobres e remediados, era oferecido o adro da Igreja Matriz. Sim, a praça já foi cemitério. Por isso, no início da década de 1990, quando a Praça da Matriz passou por uma de suas inúmeras reformas, foram encontradas ossadas e vestígios de antigas sepulturas.

Aliás, o jazigo refletia a condição social do falecido. Nem depois de morto se escapava da segregação de uma sociedade estamental. Aos escravizados era destinado o chão seco das fazendas e sítios em que trabalhavam. Os condenados à forca eram enterrados dentro de suas celas, na Cadeia Pública. Por isso, quando o antigo sobrado que sediava a Cadeia, Câmara e Prefeitura foi incendiado, em 1961, na base de suas ruínas foram encontrados muitos restos mortais. Os pobres da zona rural eram enterrados na beira das estradas ou ao lado das capelas locais, dando origem a muitas santa-cruzes, que podem ser encontradas até hoje pelas estradas de Cunha.

Um fato curioso e até anedótico aconteceu quando a Câmara de Cunha concluiu as obras do Cemitério. Tudo estava planejado para o começo de abril, dia 5, um domingo. Todavia, uma vez pronto, faltava a sua razão de existir: cadáveres. Não havia. Ninguém estava morrendo em Cunha naqueles idos. Os ricos, visando manter seu privilégio, queriam continuar sendo sepultados nas igrejas; os pobres e escravizados, por questão de custo e logística, continuavam a ser enterrados na roça. Cidade com pouca população, seria difícil encontrar algum finado ajustado ao calendário político. Foi aí que tiveram a ideia de emprestar um defunto de Paraty, cidade vizinha sempre afligida pelas moléstias tropicais. E de lá trouxeram o primeiro morto, inaugurando, assim, a necrópole municipal.

Cemitério de Cunha em cartão-postal da década de 1970. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Uma década após a inauguração peculiar, o Cemitério Municipal finalmente pôde ser devidamente ocupado. Em 1878, a epidemia de varíola varreu o município de Cunha, ceifando muitas vidas. A famigerada e temida peste bubônica, desgraçadamente, povoou o campo-santo de sepulturas.

Em 23 de julho de 1971, o senhor José Oliveira Pinto resolveu se esconder na antiga capela do Cemitério, fugindo de uma forte chuva que atingia a cidade. Uma descarga elétrica atingiu a capela, ceifando sua vida e danificando a estrutura do secular velório.

Vista da Praça São Paulo, da Casa da Agricultura de Cunha e do Cemitério Municipal. Foto: Gislene Gomes. Data: 1978.

Em 20 de abril de 1973, a Prefeitura entregou um Cemitério Municipal remodelado e reformado à população, com um belo gramado à frente e uma estátua de Cristo, com o braço direito levantado, sinalizando sua bênção ao povo de Cunha.

Referência:
“A história de Cunha: 1600-2010”, de João José de Oliveira Veloso.

Postagem original, no Facebook:

Há 61 anos, Paço Municipal de Cunha era incendiado por detentos

O que sobrou do Paço Municipal, que abrigava a Prefeitura, Câmara, Fórum e Cadeia, após o incêndio. Data: 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Na madrugada (às 3h da manhã) do dia 5 de janeiro de 1961, a população da cidade de Cunha acordou atônita. O Paço Municipal, velho sobrado, que abrigava a Prefeitura, a Câmara, Fórum e Cadeia Pública, ardia em chamas e as labaredas iluminavam a pequena urbe, posto que o sobrado ficava em sua parte mais alta, em desolador espetáculo.

A construção do edifício começou no ano de 1785, após a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão alcançar a sua autonomia política e administrativa da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, passando a denominar-se com a mudança de status Vila de Nossa da Conceição de Cunha. Portanto, o sobrado era símbolo e marco dessa efeméride histórica.

Fachada do sobrado antes do incêndio: brasão da República no frontispício (embora tenha sido construído na época colonial) e as celas da Cadeia Pública no térreo. Data: Década de 1940. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Além de seu caráter simbólico, o sobrado guardava em seus arquivos “todos os documentos municipais relativos ao executivo e legislativo, arquivos antigos preciosos sobre a instalação da Câmara, em 1786, e dados importantes concernentes à Revolução de 1932 […]” (VELOSO, 2014, p. 74). Assim, quase duzentos anos de história virou cinzas em minutos, destruindo todas as fontes documentais oficiais do município, algumas do século XVIII, documentos que poderiam elucidar pontos nebulosos do passado de Cunha.

Deve-se ainda ressaltar a importância arquitetônica desse sobrado histórico, conjunção harmônica e elegante de madeiras-de-lei e grossas, rústicas paredes de taipa de pilão, primor da técnica colonial. Imponente, favorecido pela topografia do Alto do Cruzeiro, situava-se onde hoje é a Delegacia da Polícia Civil. De suas janelas coloniais havia uma vista completa do burgo, do rocio e das serranias que nos cercam.

Causa do incêndio

Foi um ato criminoso, conforme sempre fazia questão de preconizar o professor João VELOSO (2010, p. 278). Dois detentos da Cadeia Pública de Cunha, que dividiam a mesma cela, atearam fogo em um colchão e mantiveram-no próximo ao forro até que a madeira velha ficasse incandescente. Desse modo o fogo se alastrou pelo madeiramento, consumindo com rapidez o material inflamável que compunha o sobrado.

A real motivação que levou os incendiários a destruir um patrimônio cunhense deu origem a muitos rumores. Seria um protesto contra a insalubridade da cela? Vingança contra uma reprimenda que receberam de um policial da Força Pública? Ou obra encomendada por políticos locais, com o intuito de se livrar das provas contra os seus delitos? Muito foi especulado sobre a motivação do incêndio do sobrado, mas nada foi provado. Os dois presos foram responsabilizados e pagaram a pena.

Vista lateral do que sobrou do sobrado, antes de sua demolição. Data: 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Os detentos

Assim que o fogo se alastrou, os dois presos que causaram o incêndio (um deles tinha a alcunha de “Gabiru”) gritaram por socorro e foram retirados de lá, ficando alojados em uma casa vizinha. Ao todo eram quinze homens. Foram algemados e amarrados e no mesmo dia foram transferidos para Cadeia Pública de Guaratinguetá.

Aglomeração

O clarão do incêndio assustava e chamava a atenção da população, que acorria para a Praça Prudente Guimarães para ver o que se sucedia. Uma multidão tomou a praça e acompanha ao longe o fogaréu cuspir ao céu. Havia naquelas pessoas certa perplexidade ante ao que viam em sua frente e certa impotência, pois nada podiam fazer para impedir a destruição do sobrado colonial.

Entre tantos que ali se aglomeraram, alguns, cônscios da documentação valiosa que estava virando fumaça, tentaram, em vão, entrar no sobrado para salvá-la, retirando-as das chamas. Foram impedidos por um policial militar que, com arma em punho, parado ao final da escada que dava acesso ao piso superior, impediu que os corajosos munícipes tivessem à repartição da Prefeitura, posicionando-se à frente da porta. Em tal ato de bravura, tentava ele impedir que essas pessoas insensatas fossem feridas ou queimadas? Ou queria assegurar que os documentos ali arquivados fossem incinerados?

Perplexa com o que via e impotente diante da lenta destruição, logo a multidão sentiu a ausência de seu alcaide e começou a murmurar: cadê o prefeito de Cunha?

A ação do prefeito

O prefeito Osmar Felipe, já falecido, encontrava-se naquela madrugada em São Paulo, capital. Como em Cunha não havia telefone, o prefeito só foi informado às 9h da manhã, após seu chefe de gabinete deslocar-se até Guaratinguetá para contatá-lo e o pôr a par da situação.

Tomando conhecimento do ocorrido e da gravidade da situação, Osmar Felipe entrou em contato rapidamente com o governador Carvalho Pinto, no Palácio dos Campos Elísios, conseguindo o envio imediato de homens da Polícia Técnica e um contingente do Corpo de Bombeiros, despachados para Cunha por ordem direta do governador, a fim de conter o incêndio do Paço Municipal.

O jornal O Estado de S. Paulo”, 8 jan. 1961, p. 22, noticia o ocorrido em uma matéria recheada de insinuações políticas sobre a motivação do incêndio. Fonte: Acervo Estadão.

Mesmo tendo feito tudo que estava em seu alcance, o ex-prefeito Osmar Felipe foi alvo de muitas críticas e de difamação de sua pessoa e ação, motivada por seus adversários políticos locais. Por conseguinte, diversas “fake news” circularam pelo município, propagadas por seus opositores.

A ação dos bombeiros

Caminhão do Corpo de Bombeiros atolado no Morro do Facão (Morro do Cemitério). O atraso dos bombeiros custou a estrutura do sobrado. Data: 5 jan. 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

O grupo de bombeiros que partira em direção a Cunha, no mesmo dia, para apagar o incêndio, não imaginava que o obstáculo maior era chegar à cidade. A estrada intermunicipal Cunha-Guaratinguetá era de terra batida e mal conservada. O trajeto durava horas.

Como janeiro é um mês chuvoso em nossa região, as estradas de Cunha estavam intransitáveis. Quando o caminhão do Corpo de Bombeiros começou a subir o Morro do Facão (“Morro do Cemitério”, oficialmente Alameda Francisco da Cunha e Meneses) atolou, pois a rua estava tomada pela lama. Após muito patinar e ser empurrado no braço por bombeiros e moradores, quando enfim superou a lama e o morro, já era tarde demais… O fogo, além de reduzir a madeira à brasa, havia causado danos estruturais irreversíveis à secular edificação. Não restou outra alternativa aos bombeiros a não ser demolir o que havia restado do sobrado. Suas grossas paredes de taipa de pilão, pela magnitude, ofereciam risco, caso terminasse de desabar, a moradores, transeuntes e curiosos.

Apesar de terem sido deslocados para Cunha no mesmo dia, os bombeiros chegaram tarde demais. As estradas e ruas de Cunha estavam enlameadas naquele chuvoso janeiro de 1961. Na foto, temos a atual Alameda Francisco da Cunha e Meneses. Data: 5 jan. 1961. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

Nada restou do antigo sobrado.

Consequências

Todas foram ruins para nossa cidade. A começar pela perda de todas as fontes documentais relativas à História de Cunha, provocando uma lacuna enorme nos levantamentos e pesquisas. O professor João VELOSO (2010, p. 278) sempre se queixava da dificuldade que era pesquisar sobre a história local, tendo que se basear em fontes orais ou consultar arquivos, acervos e museus em outros lugares.

A destruição de um patrimônio histórico material de grande valor simbólico para Cunha, serviu como prenúncio do que viria a ocorrer nas décadas seguintes com os outros casarões, que acabaram sendo demolidos por seus proprietários, desconfigurando a paisagem urbana colonial/imperial. Destruições feitas sob o signo de um pretenso progresso vindouro. Que não veio!

A Prefeitura ficou sem sede própria, se instalando de forma provisória no recém-inaugurado Fórum da Comarca de Cunha. E de lá em diante foi mudando de imóvel em imóvel. A atual sede da Prefeitura de Cunha ocupa um imóvel alugado.

Evidenciou a necessidade de conectar Cunha com o restante do mundo, pois sem telefone e estrada transitável, o município ficava isolado dos outros lugares. O asfaltamento da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171) viria na mesma década, com a obra sendo entregue pela construtura Serveng, em 1967. Se houvesse linha telefônica interurbana, os bombeiros seriam acionados a tempo de, pelo menos, impedir danos estruturais, possibilitando a reconstrução do edifício futuramente, com suas paredes originais, se houvesse vontade dos gestores municipais, é claro. Ou melhor: Cunha deveria possuir o seu próprio destacamento do Corpo de Bombeiros.

Reconstrução

Em 2020, o então prefeito Rolien Guarda Garcia anunciou em sua rede social que pretendia reconstruir o sobrado incendiado, mantendo a fachada original. Informou que o Governo Estadual havia cedido o prédio da atual Delegacia de Polícia de Cunha à Prefeitura e que havia dinheiro em caixa para realizar tal empreendimento.

Delegacia de Polícia de Cunha, na Praça Dr. Prudente Guimarães. No local, até 1961, ficava o antigo sobrado histórico. Data: 2019.

Apesar do inegável embelezamento paisagístico que traria à cidade, o sobrado que se ergueria seria um simulacro. Reconstruído em alvenaria (provavelmente), sem seguir a volumetria e distribuição das divisões internas do sobrado original, uma obra assim, além de cara, nada acrescentaria ao patrimônio histórico de Cunha, porque o antigo, que era o que importava, nem a poeira sobrou.

Vantagem maior faria a Prefeitura se gastasse os recursos públicos nos casarões que ainda restam. Inclusive naquele que é propriedade da Municipalidade, o “Casarão Osmar Felipe”, situado na Praça Coronel João Olímpio. Ali poderia ser o Paço Municipal. Mas se vê que está abandonado e vem se deteriorando à vista de todos, sem muita preocupação por parte de nossos políticos. Não poderia o atual prefeito José Éder utilizar o recurso que estava empenhado (se ainda há ou se um dia houve) na reconstrução do antigo sobrado incendiado para restaurar o atual “Casarão Osmar Felipe”? É o sobrado mais elegante e bem trabalhado de nossa arquitetura imperial. E o detalhe é que ainda está de pé. Vão esperar cair para depois reconstruir?

Quem sabe assim não tenhamos o dissabor, no futuro, de fazer uma postagem do “Hoje na História de Cunha” noticiando o infeliz dia em que desabou o casarão da Praça Coronel João Olímpio, incendiado pelo descaso e consumido pela indiferença, como aquele sobrado de Goiás Velho, que foi sucumbindo ante à negligência das pessoas, levando consigo as preciosas memórias do lugar, tão bem descrito no poema “O Passado…”, de Cora Coralina. Fica o alerta.

Referências:

CORALINA, C. O Passado…Jornal da Poesia. Disponível em: < http://www.jornaldepoesia.jor.br/cora.html#passado > . Acesso em: 5 jan. 2022.
DESTRUÍDAS leis e relíquias da vida e da história de Cunha. Diário de São Paulo, 6 jan. 1961.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
______. A história de Zina: a saga de uma família na zona rural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2014.

Turismo em Cunha: cartografias, regionalizações etc.

O Lavandário e o pôr-do-Sol mais lindo do Brasil.

Faço aqui algumas breves considerações sobre a cartografia turística do município de Cunha e as regionalizações impostas pela Secretaria de Turismo de São Paulo e pelo Ministério do Turismo.

Cartografia

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2009. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).

Esse mapa turístico de Cunha vem sendo reproduzido e impresso pela Prefeitura, com algumas alterações, desde o início deste século. Foi criado pelo designer cunhense Wagner Oliveira. Sem dúvida, é muito bonito e elegante, mas peca nos aspectos cartográficos. Prevalece os aspectos estéticos sobre os técnicos. A cidade de Cunha, como se nota, está ampliada e o restante que do plano, que cobre o município, está em escala menor. Esse tipo de representação acarreta muitas distorções e gera confusão em que lê esse mapa. Geralmente, quando se amplia parte de uma peça cartográfica, a representação em escala maior aparece fora do plano geral, no canto e/ou destacada, a fim de chamar a atenção e não iludir quem realiza a leitura. Ademais, os pontos turísticos de Cunha, diferente de Campos do Jordão, por exemplo, não estão concentrados no perímetro urbano, mas dispersos pela nossa extensa área rural. Desse modo, ainda que o objetivo dessa técnica seja permitir a localização dos pontos turísticos e empreendimentos turísticos dentro da cidade, acaba atrapalhando a localização dos lugares similares que estão na zona rural, já que, como escrevi, Cunha não tem seus pontos e empreendimentos turísticos concentrados na zona urbana. A falta de uma escala mais próxima à realidade, sobretudo nos trechos rurais, tem gerado muitas frustrações nos turistas que se guiam por esse mapa, quando percorrem os roteiros que haviam traçado.

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2015. Fonte: CunhaTur.

Outro problema é a quantidade de informações que são apresentadas e representadas. Como o número de empreendimentos turísticos em nosso município vem aumentando a cada ano, à medida em que esses mapas são atualizados, ficam cada vez mais poluídos e carregados, o que compromete a leitura e a estética da peça gráfica. A solução pode estar na seleção das informações fornecidas ou na criação de um mapa digital para o turismo cunhense, através de um aplicativo para smartphone, por exemplo. Com os mapas digitais não só a atualização pode ser feita de maneira mais rápida e econômica, como a quantidade de informações pode ser resolvida com a criação de camadas selecionáveis, onde o próprio usuário pode decidir o que ele quer ver e localizar.

Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2019. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).

Regionalizações

Cunha era uma estância climática desde 1948. Foi a primeira do estado, antes até de Campos do Jordão. Na verdade, era para ser estância hidromineral devido às fontes da “Águas Virtuosas de Santa Rosa”. Mas, por pressões políticas de alguns deputados federais, insuflados pelos municípios que já gozavam desse “status” e acesso ao orçamento estadual, acabou se tornando uma estância climática (VELOSO, 1995, p. 12). Nessa batalha de Cunha atuaram dois políticos da época: deputado estadual Sebastião Carneiro da Silva (PSD), grande batalhador das causas valeparaibanas, e o governador Ademar de Barros (PSP), ex-combatente do serviço médico do Exército Constitucionalista, tendo servido na frente de Cunha. Na década de 1940, o dr. João Lellis Vieira, cunhense “da gema” e articulista do jornal “Correio Paulistano”, aproveitava o espaço que tinha para provocar Campos do Jordão, exclamando que Cunha, ao contrário daquela estância da Mantiqueira, era “climatericamente a Suíça Brasileira!”. Puro bairrismo. E um monólogo inócuo. Em nada abalou a reputação de Campos do Jordão, construída pelo próprio governo estadual, visando massagear o ego e ofertar um “plano B” para as quatrocentonas falidas, que já não dispunham de bufunfa para visitar a Suíça (de verdade) …

Mapa da Tipologia Turística das Estâncias Paulistas. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.

Em 2015, o artigo 7º, da Lei Complementar nº 1.261 do estado de São Paulo, que Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas”, prescreveu que “os municípios classificados por lei como Estâncias Balneárias, Hidrominerais, Climáticas e Turísticas passam a ser classificados como Estâncias Turísticas, sem prejuízo da utilização da terminologia anteriormente adotada, para efeito de divulgação dos seus principais atrativos, produtos e peculiaridades.” Assim, ainda que a Prefeitura de Cunha mantivesse a divulgação do título de “Estância Climática”, oficialmente passou a ser “Estância Turística”. Na parte que interessa à Municipalidade, o acesso à verba extra do orçamento estadual para fomentar o turismo local, nada mudou. Portanto, nenhum estardalhaço foi gerado. A questão que se pôs a partir de então foi como o Governo Estadual organizaria e enquadraria os municípios turísticos.

Mapa dos Segmentos Turísticos no Estado de S. Paulo. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.

Em um primeiro momento, a Secretaria de Turismo estadual lançou um documento para orientar as prefeituras sobre as mudanças ocorridas por força da nova lei. Assim, naquele momento, São Paulo estava dividido turisticamente em 15 macrorregiões e subdividido em 34 regiões turísticas englobando todos os 645 municípios paulistas (SÃO PAULO, 2015). Cunha pertencia à “Macrorregião do Vale do Paraíba” e à “Região Turística do Vale do Paraíba e Serras”. Basicamente, a Secretaria seguiu a regionalização histórica já existente, sem inventar moda. No mesmo documento, ao aprofundar a regionalização, a Secretaria criou os “Circuitos Turísticos”, uma sub-regionalização das regiões turísticas. Cunha, por sua vez, integrava, simultaneamente, o “Circuito Cultura Caipira”, junto com outros municípios do Alto Vale, e o “Roteiro do Vale Histórico”, junto com os municípios do “garoupas”. Essa regionalização era bastante condizente com a realidade e a história local, valorizando os aspectos culturais de Cunha e adjacências.

Cunha foi inserida dentro do segmento histórico e cultural, com destaque por sua cerâmica de alta temperatura nacionalmente conhecida. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo. Ano: 2017.

A referida Lei Complementar reconhecia 13 segmentos de turismo: Social; Ecoturismo; Cultural; Religioso; Estudos e de Intercâmbio; de Esportes; de Pesca; Náutico; de Aventura; de Sol e Praia; de Negócios e Eventos; Rural; de Saúde. Sendo que Cunha estava segmentada dentro de uma região de turismo cultural, cuja definição, dada pela mesma lei é a que segue: “compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Ainda que não seja a melhor para descrever o turismo cunhense era mais condizente que o enquadramento dado, por exemplo, ao turismo religioso, que é definido assim: “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas, independentemente da origem étnica ou do credo”. Entretanto, a partir de 2017, Cunha passou a integrar a “Região Turística da Fé”, junto com Aparecida, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá etc. mesmo não sendo um centro de peregrinação religiosa como esses municípios.

Mapa dos Circuitos Turísticos Paulistas. Ano: 2016. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.

O que se vê é que nem o próprio Governo conseguiu superar a utilização e categorização das estâncias (turísticas, climáticas e hidrominerais), ainda que oficialmente tenha sido proscrita. O termo “municípios turísticos” ou “estância turística” ainda não foi plenamente assimilado pelas pastas estaduais. E muito menos pelos municípios, empresários, guias e população em geral. Por óbvios motivos políticos e eleitorais, em 2016, uma lei estadual criou a categoria “Municípios de Interesse Turístico”, ampliando em mais 140 o número de municípios paulistas com acesso ao filão orçamentário para “incrementar o turismo”.

Interessante notar que até no site desenvolvido pelas prefeituras da Região Turística da Fé, a foto de Cunha na página inicial é a única não remete à religião ou às igrejas, apresentando a foto de uma das dezenas de cachoeiras do município na chamada da página inicial. Ainda que as festas religiosas de Cunha sejam seculares e possam atrair turistas, elas são expressões de fé da população local e não um evento de cunho turístico. São manifestações de fé genuínas e não eventos comerciais de fundo religioso. Talvez a única exceção dentro dessas manifestações seja a Festa de Sá Mariinha das Três Pontes, em cujo lugar há até um pequeno centro de apoio ao romeiro, mas ainda assim são romeiros de Cunha e adjacências que vistam o local, ou seja, devotos da própria região e que estão no mesmo meio cultural. Diferentemente de Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá, que são centros nacionais do Catolicismo, e atraem fiéis até de outros países e em contingentes impensáveis para as festas religiosas de Cunha.

A descrição para caracterização da Região Turística da Fé é ambígua. Vejamos: “A Região Turística da Fé se destaca como uma das mais belas do país, está localizada no eixo Rio x São Paulo entre as Serras da Mantiqueira, da Bocaina e do Mar. São 08 municípios no Vale do Paraíba que estão unidos pelo desenvolvimento do turismo regional: Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Cunha, Guaratinguetá, Lorena e Piquete. Com um grande número de santuários e belezas naturais a região proporciona uma experiência única de fé, contemplação e atividades turísticas em meio das lindas paisagens de serras e rios nos mais variados tipos de turismo e seus atrativos: turismo religioso, turismo rural, turismo cultural, de esportes, de aventura, ecoturismo, negócios e eventos, náutico e gastronômico.” (grifo meu) (REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ, 2020). Como se nota, não se sabe ao certo qual o tipo de turismo a desenvolver, porque uma coisa é atrair e acolher romeiros e outra coisa é desenvolver o ecoturismo. No encontro que culminou em um estatuto para os municípios integrantes da RT da Fé, afirmou-se que: “(…) muitos projetos possam acontecer na Rota da Fé, tanto focando a religiosidade regional, como investimentos na infraestrutura (…)” (grifo meu) (PREFEITURA DE APARECIDA, 2019). Ora, como Cunha focar seu investimento em eventos religiosos, se quase todas suas festas turísticas são laicas e comerciais?

Mapa das Regiões Turísticas do Estado de São Paulo. É o que está em vigor. Cunha aparece em outra região turística. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de S. Paulo. Ano: 2017.

Praticamente quase todos os tipos de turismo praticados no Brasil são citados como a ser desenvolvido pela Região Turística da Fé. É claro que a diversificação das atividades turísticas é desejável, mas no caso parece que os mentores municipais estão meio perdidos quanto aos objetivos e metas a serem traçadas. Ter colocado Cunha no meio desses municípios engrossou o caldo da confusão, sem dúvida. Quem dá enfoque em tudo acaba não priorizando nada. Não há nenhum elemento caracterizador, ainda que o turismo religioso preceda os demais e seja citado “um grande número de santuários”, para logo em seguida já destacar as “belezas naturais”, que uma caracterização tão genérica, que pode aparecer na descrição da maioria das regiões turísticas do mundo. O fato é que Cunha não conta com santuários e nem é visitada por motivos religiosos. Na página de Cunha, no site da Região Turística da Fé, até são citadas as festas religiosas, mas os destaques são para os campos de lavandas, cachoeiras e às festas ligadas ao clima serrano. Faria mais sentido, penso eu, alocar Cunha na região vizinha, do “Rios do Vale”, que engloba parte dos municípios do Alto Vale do Paraíba. Pelo menos em nosso território nasce o rio Paraibuna, no bairro da Aparição, e ganha corpo o rio Paraitinga, que desce da Serra da Bocaina. Associar a beleza natural a alguma ação contemplativa de fé em nosso município é um grande disparate, a menos que Cunha tenha algum centro de peregrinação xamânica e ninguém nos avisou de nada…

Não se pode criar regionalizações em gabinetes, desconsiderando a história e desenvolvimento de cada lugar. Canetadas de políticos não devem preceder e prevalecer sobre o trabalho científico de geógrafos e turismólogos.

Considerações finais

Atualmente, a maior parte das pessoas que visitam Cunha utiliza para encontrar os destinos almejados as plataformas cartográficas digitais, como o Google Maps (por exemplo), por serem mais simples, acessíveis e atualizadas. Acessíveis até certo ponto, convenhamos, já que em uma boa parte da zona rural de Cunha não há sinal de celular e, consequentemente, de internet. Entretanto, ainda que venha caindo em desuso e estejam condenados, os mapas turísticos impressos de Cunha precisam equilibrar os aspectos artísticos e técnicos na sua apresentação, tornando-se um instrumento de localização mais útil a quem se destina: os turistas.

Com relação à regionalização turística a que Cunha foi submetida, compete à Prefeitura, através de seu corpo técnico, e ao Conselho Municipal de Turismo de Cunha (COMTUR) questionar esse enquadramento alheio à realidade do turismo local: ao seu desenvolvimento e história, à sua tipologia e às potencialidades que apresenta. Inclusive, o planejamento turístico estadual aponta que um dos objetivos estratégicos para o setor é “promover a atuação articulada de agentes públicos e privados na implantação de empreendimentos e produtos turísticos nacionais ou internacionais, que aproveitem as vocações e potencialidades dos municípios e regiões do Estado de São Paulo.” (SÃO PAULO, 2020, p. 37). E ainda, no mesmo documento, estabelece que o “incentivo e valorização das iniciativas que fortaleçam a identidade local e regional dos destinos turísticos” e a modernização e ampliação das “estratégias de marketing e comunicação de destinos, produtos e serviços turísticos ofertados no Estado de São Paulo nos níveis municipal, regional, nacional e internacional” (SÃO PAULO, 2020, pp. 44-45) são estratégias prioritárias para fomentar o turismo paulista na próxima década. Trata-se de uma regionalização totalmente deslocada, no tempo e no espaço. E que pode comprometer nosso desenvolvimento turístico se for seguida e houver direcionamento de investimentos.

Cunha viveu nesse primeiro quinquênio da pavimentação completa da rodovia que liga a cidade a Paraty (RJ) um crescimento nunca visto do seu turismo. O fluxo cada vez maior de pessoas que se dirige às praias da Costa Verde fluminense e para o Litoral Norte paulista transformou nossas montanhas em vitrine e propaganda ininterrupta do lugar. É um outdoor vivo e verdadeiro dos dois lados da pista da rodovia SP-171. Entretanto, é preciso planejar e aprimorar as atividades turísticas que acontecem aqui, para gere renda e traga benefícios para todos os cunhenses e que seja sustentável, ecologicamente e financeiramente, nas próximas décadas.

Vídeo sobre a então Estância Climática de Cunha, produzido pela Aprecesp (Associação das Prefeituras das Cidades Estância do Estado de São Paulo), em 2012.

Referências:
CORRÊA, R. L. Região e organização espacial. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007.
LIBAULT, A. Geocartografia. São Paulo: Companhia Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo, 1975.
PREFEITURA DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Mapa Turístico de Cunha já está disponível aqui no site oficial da prefeitura, 22 jan. 2019. Disponível em: < http://www.cunha.sp.gov.br/noticias/mapa-turistico-de-cunha-ja-esta-disponivel-aqui-no-site-oficial-da-prefeitura/ >. Acesso em: 4 out. 2021.
PREFEITURA DE APARECIDA. Estatuto da Região Turística da Fé, 26 jul. 2019. Disponível em: < https://www.aparecida.sp.gov.br/portal/noticias/0/3/326/estatuto-da-regiao-turistica-da-fe >. Acesso em: 5 out. 2021.
REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ. Conheça Cunha. Disponível em: < https://rtdafe.com.br/cunha/ >. Acesso em 4 out. 2021.
______. Sobre a região. Disponível em: < https://rtdafe.com.br/ >. Acesso em 4 out. 2021.
SÃO PAULO (Estado). LEI COMPLEMENTAR Nº 1.261, DE 29 DE ABRIL DE 2015. Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas. São Paulo (SP), abr. 2015. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei.complementar/2015/lei.complementar-1261-29.04.2015.html >. Acesso em: 5 out. 2021.
SÃO PAULO (Estado) / Secretaria de Turismo. Município de Interesse Turístico: cartilha de orientação de acordo com a Lei 1261/15. São Paulo: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, 2015. Disponível em: < https://www.turismo.sp.gov.br/publico/include/download.php?file=108 >. Acesso em: 4 ou. 2021.
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