A exposição permanente do Museu Municipal Francisco Veloso, inaugurada recentemente, convida os visitantes a adentrar o universo caipira, não através de discursos acadêmicos distantes, mas pela porta de entrada mais genuína possível: a casa de um caipira de verdade, a roça onde trabalhou, o terreiro onde rezou e festejou, e a praça onde encontrou seus iguais. Intitulada “Pisa Terra, Pisa Chão: Histórias e Memórias da Cultura Caipira em Cunha”, a mostra é mais que uma coleção de artefatos históricos. É um ato de reparação contra certos preconceitos, uma celebração da riqueza cultural que brota das camadas populares e uma amostra de que a história do Brasil é escrita também por aqueles que têm as mãos cheias de calo e os dedos cheios de terra: aquelas pessoas que plantam a roça, lavram a gleba, cuidam do ninho, do gado e da tulha.
Além do Jeca Tatu: resgatar a dignidade do caipira
O termo “caipira” carrega uma herança pesada. Durante décadas, a literatura brasileira, particularmente através de Monteiro Lobato e seu icônico Jeca Tatu, cristalizou a imagem do homem caipira como símbolo de atraso, indolência e ignorância. Essa caricatura marcou profundamente o imaginário urbano, reforçando estereótipos que ainda ecoam nos dias de hoje, um estigma que pesa sobre os cunhenses.
A exposição do Museu Francisco Veloso oferece um antídoto a esse preconceito. Apoiada nas pesquisas do sociólogo Antônio Cândido e dos antropólogos que elegeram Cunha como campo privilegiado de estudo (Emilio Willems, Alceu Maynard Araújo e Robert Shirley), a mostra revela o caipira não como um tipo social atrasado, mas como portador de uma matriz cultural própria, rica e organizada, que se estrutura em três pilares fundamentais: o trabalho familiar na terra, a ajuda mútua dos mutirões e a devoção aos santos, celebrada em festas que garantiam a coesão comunitária e momentos de lazer.
Não era atraso. Era sabedoria acumulada, resiliência e uma forma de estar no mundo profundamente enraizada na natureza e na solidariedade, uma convivência amena entre o dever (trabalho) e o lazer. Sobre essa alternância, Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, escreve que ela exprime a integração do caipira “numa economia mais autárquica do que mercantil que, além de garantir sua independência, atende à sua mentalidade, valorizando mais as alternâncias de trabalho intenso e de lazer, na forma tradicional, do que um padrão de vida mais alto através do engajamento em sistemas de trabalho rigidamente disciplinado”. É, sem dúvida, uma herança indígena.

A imersão curatorial: por dentro da casa
De início, um espelho e uma pergunta: “Você é gente de quem?”. Assim se iniciam as conversas em Cunha. E assim é na exposição. Em frente a um espelho, o visitante pode se situar enquanto pessoa, evocando sua ancestralidade, suas circunstâncias e sua identidade. Depois desse credenciamento pessoal, pode adentrar a casa e mergulhar na alma caipira.
O que torna essa exposição singular é sua estratégia curatorial: o visitante não observa a história de fora. Ele é convidado a adentrar, literalmente, o universo caipira. A experiência começa na sala que simula uma casa de pau a pique, construída em dia de mutirão. Dali, o percurso segue para o terreiro, aquele chão de terra batida onde o trabalho, a festa e a religiosidade se entrelaçavam, e depois para a roça, onde a vida se media pelo calendário da natureza.
Cada objeto exposto foi escolhido com intencionalidade. Uma gamela de madeira, um jacá trançado, uma cabaça para água, um ferro de passar à brasa. Mas esses artefatos não estão ali apenas como curiosidades históricas. Cada um deles é uma ponte entre dois mundos: o mundo que foi vivido e o mundo presente do visitante. São objetos que ativam nossas memórias.
Passear pelas salas da exposição é visitar uma casa caipira. Os objetos não estão deslocados de seu ambiente tradicional. Cada tralha está em seu lugar, os objetos em seu contexto. É um passeio por dentro.

A vida cotidiana: poesia na labuta
A exposição reconstrói, com precisão antropológica e sensibilidade literária, a rotina de uma família caipira cunhense, comum até os anos 1960. Cada gesto é documentado, cada momento do dia é narrado. O caipira acorda com as galinhas, antes do sol nascer. A mulher reza diante do oratório e acende o fogo. O café com açúcar e farinha de milho desperta a família. Os homens partem para a roça, lendo nos sinais da natureza (na chuva da noite anterior, na mudança para lua cheia) as promessas de uma boa colheita.
Enquanto isso, a mulher não descansa. Varre o terreiro, cuida das galinhas, escolhe o feijão na esteira, confere a farinha de milho na tulha. À tarde, bate a roupa na bica, passa com ferro à brasa as roupas de missa. A solidão é preenchida pela visita da vizinhança, regada a café e muita prosa. Quando o sol se põe, todos se reúnem ao redor do fogão para a última refeição, antes de se recolherem ao descanso merecido.
Há uma poesia nessa descrição. Não é a poesia dos românticos, mas a poesia real da vida vivida com dignidade, onde cada objeto tem sua função, onde o tempo é medido não pelo relógio, mas pelas estações, onde a família e a comunidade são redes de apoio mútuo e sustento.
Os mutirões: comida e comunidade
Um dos conceitos mais belos capturados pela exposição é o do mutirão, aquela forma de cooperação onde vizinhos e parentes se reúnem para realizar tarefas que nenhuma família conseguiria fazer sozinha. Colher feijão, preparar o terreno para plantio, roçar o pasto, fazer o barreamento de casas, até velórios: tudo dependia dessa rede de solidariedade.
O mutirão obedecia a regras de reciprocidade. Você ajudava sabendo que, quando chegasse sua vez, receberia igual solicitude. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres preparavam comida em quantidade generosa. Como dizia o ditado: “Minguado o café, minguado o prestígio”. E ao cair da noite, o trabalho se transformava em festa: modas de viola, catira, danças que confirmavam a vitalidade daquela comunidade.
Nesse sistema está a chave para entender o caipira: não era um homem isolado, mas um ser profundamente comunitário, cuja liberdade e independência se realizavam através da interdependência. Uma lição que nossa época de individualismo exacerbado deveria considerar com mais atenção. A exposição foi feliz ao evidenciar esse momento, que está no âmago da vida caipira.

Fé, festa e identidade: a dimensão mística da cultura
A exposição dedica espaço significativo às manifestações religiosas que estruturavam a vida caipira. A Festa do Divino, as Congadas, a Folia de Reis, as rezas cotidianas. Todas essas coisas isso não são encaradas como superstição ou folclore, mas como a expressão mais profunda da identidade e da coesão comunitária.
As Companhias de Congada, em particular, são destacadas. Vestidos com fardas brancas adornadas por fitas coloridas, os congadeiros dançam para festejar, agradecer e pagar promessas em louvor ao Espírito Santo e a São Benedito. Representantes da matriz afro-brasileira, essas companhias mantêm viva uma tradição que é parte indissociável da identidade religiosa de Cunha: a devoção a São Benedito, o “santo preto” e cozinheiro.
A Festa do Divino segue um ciclo de dádiva: a bandeira percorre as casas da comunidade, as famílias oferecem o que podem (dinheiro, alimentos, animais), e no encerramento, a comunidade inteira se reúne para preparar um grande almoço compartilhado igualmente com todos. É economia solidária, é religiosidade popular, é festa. Tudo junto. Por isso, ela está ali no cantinho da casa, marcando a presença divina.

A praça como ponto de encontro
A exposição termina convidando o visitante a sentar no “banco da árvore da mentira”, um banco que existe de verdade na Praça Matriz de Cunha, lugar de encontro diário de antigos moradores. Ali, você ouve as vozes daqueles que viveram o que viu representado nas paredes: os tropeiros que transportavam cargas pelas serras, os causos da Revolução de 1932, os que dançaram nas festas, os que rezaram nos terreiros, o povo que trabalhou e ainda trabalha na roça, pois em Cunha a população rural ainda representa 40% da população municipal.
A praça é a ágora cunhense, o espaço público onde a história se faz viva. E o museu reconhece isso: não encerra a narrativa nas paredes, mas a abre para o espaço urbano, para as vozes reais, para a memória viva da comunidade. Entre um causo e outro, as memórias são transmitidas às novas gerações.
O papel do Museu
Um dos meus maiores medos era que, após o falecimento do professor João Veloso, o Museu Francisco Veloso virasse um museu apenas no papel – o que não é raro em nosso país, tão alheio às suas instituições culturais. O que houve, entretanto, foi que, nesses últimos anos, o Museu assumiu seu papel. Felizmente. Ser o guardião e propagador da história de Cunha dá trabalho. Mas foi possível graças a uma equipe comprometida com a pesquisa e restauração, empenhada em dialogar com a comunidade. Por isso, a Dina, o Andreas, a Maiara, a Izabel e todos os que colaboram com o Museu estão de parabéns. Essa exposição aproximou a história de Cunha de seu povo, evidenciando o cotidiano daqueles que raramente aparecem nos livros oficiais. Houve a combinação de eficiência com sensibilidade.
Mais do que ter uma história para contar (e a tricentenária Cunha tem muitas!), é preciso saber contar uma história. A exposição fez isso com maestria. “Pisa Terra, Pisa Chão” é, portanto, um ponto de virada. O Museu reafirma, de forma definitiva, seu compromisso de que a história das pessoas simples – a história do trabalho, da solidariedade, da fé e das festas – é a história que merece ser preservada, estudada, debatida e celebrada. Recusa, assim, aceitar que o caipira seja apenas o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Recusa em ficar relembrando somente a guerra perdida, a ferrovia que não veio, aquilo que Cunha poderia ter sido e não foi.
Os cunhenses, embora raramente se nomeiem como caipiras, têm orgulho de sua tradição. Uma herança que ainda resiste, unindo moradores nas festas lúdico-religiosas, nas cavalgadas, nas congadas e, sobretudo, em uma história comum. Essa exposição permanente é um convite para que todos nós – visitantes de fora ou filhos da terra – reconheçamos que a verdadeira identidade de Cunha, e talvez do Brasil, está no Sertão, nas vozes e nas vidas daqueles que pisam terra e pisam chão.




















